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A música erudita de John Zorn e suas temáticas de humor, horror, mistério, misticismo, religiões, artes e literaturas




















A escrita erudita de John Zorn é o lado mais cerebral da sua obra -- que, apesar de toda a infinidade de inspirações, tem na música klezmer e nas mitologias e crenças judaicas seu principal núcleo criativo. Do final dos anos 70 até meados dos anos 90, Zorn atuou com foco mais no free jazz, no hardcore punk experimental, na improvisação livre, em happenings e colagens com grupos, bandas e formações experimentais e inusitadas -- sendo a figura mais emblemática da Dowtown Scene, lado mais periférico de NYC que ficou conhecido como uma fonte inesgotável de vanguardistas, punkers e experimentalistas a partir dos anos 70. Mas quando se observa o esmero das suas obras mais elaboradamente escritas, percebe-se que Zorn sempre foi, essencialmente, um compositor de classe erudita obstinadamente fanático pelas vanguardas do século XX, tendo escrito suas primeiras peças ainda na pós-adolescência -- pelo menos foi o que ele sonhou ser já a partir do momento em que aos 15 anos de idade adquiriu um LP com a gravação de Improvisation Ajoutée (do compositor Mauricio Kagel) numa das lojas da Sam Goody. Como bem sabemos, a música erudita moderna, diferentemente da livre improvisação onde o músico expressa espontaneamente os sons que lhe vem da alma através da mente, no ato da performance -- sem formas ou procedimentos --, é uma forma de arte musical onde o compositor elabora e externa na pauta não apenas a música que ele abstrai da sua alma criativa através da notação convencional que ele aprendeu formal ou informalmente, mas também é uma arte onde ele tenta elaborar de uma forma elaboradamente composta e escrita -- muitas das vezes através de uma notação gráfica idiossincrática ou experimental --, os espasmos da sua personalidade, suas manias, suas crenças, sua imaginação, tentando passar aos intérpretes sua percepção e sua crítica sobre o Universo, bem como sua crítica e sua percepção sobre outras formas de artes, sobre as ciências, e todas as coisas da vida e do cosmo: Stravinsky, por exemplo, compunha de forma muito imaginativa e moderna peças exuberantes para dar vida  aos balés com estórias baseadas nos contos populares russos; Olivier Messiaen se inspirou loucamente no canto dos pássaros e na liturgia católica, tendo criado suas próprias notações; Morton Feldman escreveu muitas das suas peças baseadas nas artes plásticas de Mark Rothko; Beethoven se inspirou nas idéias iluministas de poetas como Goethe e Schiller. Dessa forma, fica mais fácil perceber o estilo da escrita erudita de John Zorn quando já se teve contato com suas incursões, manias e gostos através de registros outros,  mais acessíveis em sua discografia freejazzística ou hardcore. Nos anos 2000, Zorn chegou num status de "fama" tal, através dos inúmeros álbuns criativos que lançara -- sobretudo através das suas séries intermináveis como, por exemplo, Book Of Angels e Filmworks --, que ele passou a receber encomendas de diversos quartetos, orquestras e grupos de câmera. E o compositor Zorn foi ampliando sua escrita e seu leque de atuações sem nunca desfazer das suas origens experimentalistas. Além de incluir procedimentos deixados pelos citados mestres da música erudita moderna, seu estilo tem muita influência da livre improvisação e muita energia advinda do rock de estilos punk e hardcore, campos nos quais ele expressa seus sons mais extremos e espontâneos. Ter uma noção dos seus toques de misticismo, filosofia e horror também são necessários para compreender sua imaginação: as temáticas das suas composições incluem desde estranhas facetas da natureza humana -- tais como loucura, anarquia, sadismo, suicídio e sonambulismo, entre outras --, passa por crenças filosóficas e vai até crenças e superstições relacionadas com vodú haitiano, ao ocultismo e, principalmente, a tradição judaica do Talmud -- não à toa, anjos e demônios sempre são temáticas comuns por entre seus arames sonoros. Ao todo, são mais de três dezenas de álbuns de Zorn dedicados à escrita erudita. E assim como nos campos do jazz, da livre improvisação e do rock experimental -- nos quais ele tem parcerias com verdadeiros talismãs da música pós-moderna, tais como Bill Frisel, Uri Caine, Fred Frith, Mike Patton, Christian Marclay, e etc --, Zorn mantém parcerias muito bem arraigadas com o pianista Stephen Drury (um aficcionado por John Cage), com os violinistas Jennifer Choi e Mark Feldman, e com o violoncelista Erik Friedlander, dentre outros, além de já ter recebido encomendas para escrever peças para renomadas orquestras, ensembles e quarteto de cordas de renome mundial, tais como a American Composers Orchestra, o Kronos Quartet, Arditti Quartet, JACK Quartet, o Eastman Wind Ensemble, entre tantos outros. Abaixo segue alguns dos principais álbuns eruditos de Zorn.



Angelus Novus (1998, Tzadik), baseado nas tradições e lendas judaicas e hebraicas dos novos anjos descritas no Talmud, é o registro onde John Zorn mostra suas primeiras peças eruditas, escritas ainda em sua juventude, entre 1972 e 1983: dedicado ao filósofo e teórico cultural Walter Benjamin -- que, sendo judeu, também era fascinado pelo Talmud, chegando, não coincidentemente, a comprar uma célebre tela de Paul Klee chamada "Angelus Novus" --, o registro traz peças conduzidas e interpretados pelo pianista Stephen Drury à frente da The Callithumpian Consort, orquestra de câmera residente no New England Conservatory; tratam-se de peças que nunca seguem estáticas, ou seja, em cada movimento, até nos mais serenes, o ouvinte é atacado com uma sequência de flashes, espasmos curtos, intervenções e partes de efeitos que, inspirando-se na narrativa sobre o nascimento de novos anjos, evocam do jazz à cacofonia, da música intimista à música intrincada por klusters agudos, do rítmo à arritmia, e etc, mostrando a vastidade do seu ecleticismo, marca registrada da concepção musical do compositor. Aporias, já é um réquiem, um conjunto de "requias" baseadas no conceito filosófico das "aporias", que são os indeterminismos e paradoxos que existem nos sentidos de qualquer narrativa (da vida, da morte ou, por exemplo, na narrativa de um texto): escrita para piano, seis meninos sopranos e orquestra, a obra foi interpretada em Colônia, Viena e no Carnegie Hall; uma das mais elogiadas obras do compositor, esta peça monumental foi gravada oficialmente pelo pianista Stephen Drury, o Coro Infantil de Rádio da Hungria e pela American Composers Orchestra, sob a direção de Dennis Russell Davies. Chimeras (2001/2010, Tzadik), é registro remasterizado, revisado e relançado em 2010 com um novo poslúdio, é uma peculiar peça de câmera baseada na obra Pierrot Lunaire, de Schoenberg: com uma instrumentação peculiar e curiosas permutações entre os músicos, a peça evoca os notáveis mundos literários criados pelas imaginações de Henry Darger, de Lewis Carroll e Zürn Unica, que em suas obras lançam a inocência infantil em um cenário velado de violência e perversão. Ainda inspirado por veias literárias, há o incrível registro Madness, Love and Mysticism (2001, Tzadik), escrito para um piano-trio clássico: interpretadas por Jenifer Choi (violino), Stephen Drury (piano) e Erik Friedlander (cello), as peças evocam -- como o título bem explicita -- pontes entre o amor, a loucura e o misticismo, baseando-se nos poemas de Antonin Artaud e Paul Celan. Segue-se Mysterium (Tzadik, 2004), que traz um conjunto de três peças distintas: Orpheé, a primeira e mais ilustre peça, é inspirada nas instrumentações e estruturas da moderna escola musical francesa (Debussy, Boulez e Jean Cocteau), com uma combinação de cordas, harpa, voz, flauta, percussão e a eletrônica da improvisadora japonesa Ikue Mori, a peça se remente à célebre Sonata para flauta, viola e harpa de Claude Debussy. Já com o naipe de quarteto cordas (dois violinos, viola e cello), há pelo menos dois registros indispensáveis: o The String Quartets (1999, Tzadik), que traz e peça Cat O'Nine Tails (oringialmente comissionada pelo Kronos Quartet, vide o álbum Short Stories, de 1988), e o  Magick (2004, Tzadik), que inspira-se nas teorias alquimistas do ocultista e mestre em magia Aleister Crowley. Segue-se o incrível Rituals (2005, Tzadik): com uma instrumentação muito bem distribuída entre voz, cordas (violino), sopros (clarinetes, flautas, trombone e fagote), piano, orgão, celesta, percussão, a obra foi composta para  o  Festival de Ópera de Bayreuth em 1998, tendo, segundo o site do próprio compositor, uma estréia escandalosa onde o público se dividiu entre admiradores e detratores, que, indignados deixaram o concerto e/ou ficaram assobiando e zombando da execução. Segue-se What Thou Wilt (2010, Tzadik): trata-se de um dos mais vigorosos registros do compositor, com duas peças caóticas escritas para três violoncelos e um concerto para violino junto à Tanglewood Orchestra, de Boston. Songs From The Hermetic Theatre: é onde o compositor usa de forma mais abrangente a música eletrônica concreta através de um aparato de eletrônicos e laptop fazendo uma homenagem a três grandes artistas da vanguarda: o pioneiro do cinema experimental Harry Smith, o artista plástico e perfomer Joseph Beuys (figura central do movimento Fluxus) e a coreógrafa, cineasta e fotógrafa Maya Deren, que era fascinada pelo vodú haitiano. Já On the Torment of Saints, the Casting of Spells and the Evocation of Spirits é um álbum de 2013 onde as composições são inspiradas por temáticas como a poesia de William Shakespeare, a temática do Halloween e pelo legado de Santo Antão do Deserto, trazendo como intérpretes os membros da International Contemporary Ensemble, e trazendo peças híbridas anteriormente comissionadas pelo Museu de Arte Contemporânea de Chicago -- curiosamente, a arte da capa mistura imagens de Salvador Dali, Goya e Michelangelo, exemplificando o gosto de Zorn por hibridismos e misturas de temáticas dentro de um mesmo álbum, e muita das vezes dentro de uma mesma peça. E para finalizar os exemplos, temos o magnífico álbum Commedia Dell’arte (Tzadik, 2016) que registra uma suíte fabulosa e multifacetada baseada nas obras dramáticas italianas da Commedia dell’arte, que começou no século 16 e são comuns nos teatros italianos até os dias hoje: estreada no Museu Guggenheim em 2016, aqui Zorn se inspira em clássicos e arquetípicos personagens da dramaturgia italiana tais como Arlequim, Colombina, Scaramouch, Pulcinella e Pierrot através de cinco miniaturas composicionais para pequenos conjuntos de câmara (quinteto de metais, quarteto de violoncelo, trio de piano, quarteto vocal e sopros) -- ao todo são mais de 20 músicos distribuídos nas cinco miniaturas, com detalhe para "Scaramouche" que traz um trio mais "jazzístico" com Steve Gosling ao piano, Christian McBride no contrabaixo acústico e Tyshawn Sorey na bateria. Para saber mais acesse os links abaixo e ouça  o podcast.