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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (08) 

 

★★★★★ - Grupo Um - Nineteen Seventy Seven (Far Out Recordings, 2026)
Celebrando seus 50 anos, o Grupo Um resgata de seus arquivos um segundo álbum perdido dos anos 1970 e reafirma seu papel como um dos grupos mais radicais do avant-jazz brasileiro. A gravação foi lançada agora em janeiro de 2026 pela gravadora inglesa Far Out Recordings, que frequentemente foca em rare grooves brasileiros, já tendo lançado anteriormente gravações perdidas de nomes como Hermeto Pascoal, Grupo Vice Versa, Marcos Resende & Index e Azymuth. Vale lembrar, aliás, que a Far Out já havia lançado, em 2023, o álbum "Starting Point" (1975), com algumas das primeiras gravações do próprio Grupo Um. Essas gravações perdidas são sempre festejadas quando vêm a público, pois se tratam de verdadeiras relíquias sonoras de uma época em que esses músicos estavam experimentando e descobrindo inúmeras possibilidades e combinações. Nineteen Seventy Seven foi assim intitulado em referência direta ao ano em que foi gravado e surge como mais uma pepita rara do "brazilian fusion" vanguardista dessa banda que surgiu no seio das formações com Hermeto Pascoal e se tornou um dos grupos icônicos da Vanguarda Paulista. Naquela época, ainda imersos em um cenário de repressão e censura da ditadura militar, os músicos sofriam com os censores do governo e as gravadoras temiam lançar até trabalhos mais elaborados da canção popular, quiçá obras experimentais. Assim, poucos ou quase nenhum recurso restava aos músicos de vanguarda, o que os obrigava a recorrer à cena underground e a meios de produção alternativos. Essa gravação, por exemplo, ocorreu no estúdio Vice-Versa, de Rogério Duprat, em São Paulo, sob limitados recursos técnicos e financeiros: o grupo optou pelo pequeno Studio B, equipado com uma mesa Tascam (TEAC) 12x8 e um gravador AMPEX AG 440 de quatro canais, o que os obrigou a registrar tudo sem overdubs, direto na fita, imprimindo ao resultado das experimentações uma roupagem crua de rara textura orgânica. Expandindo-se de trio para quinteto, os membros originais Lelo Nazario (teclados), Zé Eduardo Nazario (bateria) e Zeca Assumpção (baixo) convidaram o saxofonista Roberto Sion e o percussionista Carlinhos Gonçalves —— os quais, inclusive, já haviam tocado juntos no grupo Mandala —— consolidando a formação aqui registrada. O grupo intercala, então, composições estruturadas com improvisações livres e experimentos eletroacústicos numa liberdade poucas vezes vista na cena da música instrumental brasileira. Nesse período, Lelo Nazario encontrava-se profundamente imerso na experimentação com sintetizadores modulares, trabalhando extensivamente com o ARP 2600 e o EMS Synthi AKS, e tais explorações eletroacústicas constituem, assim, a base sonora da quinta faixa do álbum, "Mobile/Stabile", uma das primeiras composições a fundir síntese modular com música brasileira. A peça estreou no primeiro Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1978, com a participação do trompetista Márcio Montarroyos, e, na ocasião, os organizadores do festival interromperam a apresentação dos músicos por causa da experimentação, gerando forte reação do público e da imprensa, que denunciaram o episódio como explícita censura artística. Não foi à toa, portanto, que o Grupo Um e tantos músicos dessa época tenham se desestimulado a lançar vários dos seus registros mais exploratórios. Aqui, em Nineteen Seventy Seven, os arranjos articulam ritmos afro-brasileiros com improvisos livres, síntese modular e uma profusão de apitos, percussões e pedais de efeito, evidenciando uma ousada síntese sonora que vai dos grooves de samba da faixa de abertura "Absurdo Mudo", passando por inflexões sobre rítmicas do maracatu em "Cortejo dos Reis Negros (Version 2)", até aportarem-se na já citada peça experimental "Mobile/Stabile". Álbum fantástico!!!

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SOBRE O BLOG


O blog Instrumental Verves é um site de caráter informativo, de audiência específica e sem fins lucrativos, mantido pelo pesquisador musical Vagner Pitta Wozzeck para a divulgação e difusão das variabilidades da música erudita contemporânea, do jazz, da world music, música instrumental brasileira, música eletrônica, avant-garde, música experimental... música instrumental em geral, com um enfoque em instrumentistas, musicistas e compositores dos mais criativos do cenário brasileiro e a nivel mundial. Sendo um blog pessoal, é natural que o leitor se depare com uma linguagem mais crítica e opinativa, onde as análises pessoais emitidas tenderão a explicitar, sobretudo, as caracteristicas musicais dos projetos e obras —— temas, peças, composições, álbuns, shows, concertos e etc —— sempre com base na percepção auditiva do autor do blog, mas também sempre valorizando fatos constatados via fontes confiáveis: gravadoras, sites dos músicos, jornais, revistas, livros, vídeos, sites oficiais nacionais e internacionais e/ou por informações obtidas dos próprios músicos abordados, os quais previamente enviam briefings e liner notes dos seus projetos e obras. Com uma audiência mais seletiva e exigente caracterizada por curiosos, músicos, jornalistas, jazzófilos, aficionados por músicas experimentais-criativas, colecionadores e amantes de música que gostam de ler sobre os músicos e suas obras, a sina do blog Instrumental Verves é garimpar informações musicais e trazer álbuns com sonoridades criativas e estruturas incomuns, sem se importar com as delimitações mercadológicas de tempo e espaço. Os textos do Instrumental Verves costumam ser detalhistas e tendem a priorizar sobretudo os contextos e detalhes mais musicais e conceituais das obras —— sem se importar com aspectos pessoais extra-musicais dos músicos (vida privada, figurino, life style e etc) ——, assim como os critérios usados para as escolhas dos álbuns, dos músicos e suas obras tendem a não usar como base os manjados rankings, as tendências comerciais, as premiações de mercado, os limitantes "TOP 10" e outros top lists do tipo. Alguns dos principais atrativos do blog incluem ensaios temáticos, biografias comentadas, resenhas de álbuns (lançamentos e clássicos), entrevistas com músicos, curadores e jornalistas, e programas de podcasts. Sejam todos bem vindos!!! 


SOBRE O AUTOR

Vagner Pitta Wozzeck é músico e pioneiro dos blogs e podcasts musicais desde os anos 2000, sendo sobretudo um pesquisador musical fanático por jazz, música instrumental brasileira, world music e músicas instrumentais em geral. Na segunda metade dos anos 2000, Vagner Pitta foi convidado freelancer pelo Portal MTV para criar blogs, conteúdos e atuar em coberturas de festivais como Rio das Ostras, Bridgestone Music e Circuito de Improvisação Livre do CCSP, entre outros, podendo contribuir com resenhas, indicações e podcasts para muitos aficionados e iniciados em música instrumental da época, e tendo seus conteúdos veiculados também em Portais do Yahoo!, UOL e fanzines especializados nacionais e internacionais. Na década de 2010, Pitta cria o blog Wozzeck Magazine, migrando posteriormente para este blog ao qual chamou Instrumental Verves, onde vem mantendo ano a ano suas pesquisas sobre músicos e músicas instrumentais. Mantendo um ativismo de estreita relação com colecionadores, jornalistas, curadores e músicos, Vagner Pitta também empreendeu, cobriu e participou de diversas oficinas, concertos, encontros, conversas e entrevistas com músicos e críticos brasileiros, europeus e americanos tais como Luis Galvão (Otis Trio), Antonio 'Panda' Gianfratti, Romulo Alexis, Christian McBride, Dave Holland, Jason Moran, Carlos Calado, Fabrício Vieira, Michel Leme, André Mehmari, dentre outros.

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