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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (05) 

 
★★★★ - Tomeka Reid Quartet - Dance! Skip! Hop! (Out Of Your Head, 2026)
A violoncelista Tomeka Reid —— agraciada em 2022 com uma bolsa "genius grant" da Fundação MacArthur —— é uma das figuras incontornáveis do jazz contemporâneo e ela inicia o ano de 2026 já com esse petardo de empolgante audição, desta vez com um foco rítmico. Gravado no segundo semestre de 2025 no estúdio The Brink, em Richmond, Virgínia, e mixado e masterizado no Firehouse 12, em New Haven, Connecticut, este álbum tem sua data de lançamento confirmada para 13 de fevereiro de 2026 pelo selo Out Of Your Head Records. O nome do álbum é Dance! Skip! Hop!, e a ideia de gravá-lo surgiu a partir de uma inspiração que Tomeka teve ao ouvir o álbum A Dance and a Hop (2015), do cornetista Josh Berman, seu colega da cena de Chicago. A essa inspiração, a cellista juntou lembranças advindas da história de sua família, entre outras inspirações pessoais, e a partir daí teve todas as ideias de que precisava para compor cinco peças expansivas para o seu Tomeka Reid Quartet, formação que celebra mais de uma década de sinergia criativa, aqui mantida com Mary Halvorson (guitarra), Jason Roebke (contrabaixo e manipulação de fita cassete) e Tomas Fujiwara (bateria). Este álbum é, pois, o quarto álbum da banda e traz uma mistura de elementos camerísticos, free jazz, temáticas da ancestralidade, efeitos, ritmos e pulsos de grooves ímpares. Todas as cinco composições originais foram escritas por Tomeka. A faixa-título "Dance! Skip! Hop!", que abre o álbum (com 10:13 de duração), funciona como um chamamento que articula células rítmicas ímpares, mudanças abruptas de intensidade e densidade e uma sensação contínua de deslocamento. Já a peça "a(ways) For CC and CeCe" é dedicada a figuras centrais da história familiar da compositora e reforça o eixo afetivo e memorial que a inspirou a gestar esse projeto, acentuando profundidade e ecos advindos da "creative black music" da AACM. Não à toa, a inspiração familiar de Tomeka Reid é explicitada na capa com imagens de sua bisavó Francis, de sua avó Estelle e de sua tia-avó CeCe, e essa segunda faixa também homenageia Clarence James (também conhecido como "CC"), uma figura assídua da cena de jazz experimental de Chicago, frequentador e entusiasta do lendário clube Velvet Lounge, fundado pelo saxofonista Fred Anderson. Já a faixa "Oo Long!" foi inspirada no pequeno restaurante Soba-An, de Düsseldorf: a cellista visitou o local diversas vezes enquanto era "Artista Residente" no prestigiado Moers Jazz Festival, e as lembranças geográficas, culturais e culinárias desse local a inspiraram a escrever essa peça, que explora contrastes entre repetição, suspensão e intervenções tímbricas inesperadas. Segue-se "Under the Aurora Sky": nomeada pelo marido da cellista, essa peça explora texturas mais etéreas e coloridas, como as nuances de uma aurora boreal. O álbum se encerra com a faixa "Silver Spring Fig Tree", que é uma homenagem a Steve Feigenbaum, fundador do legendário selo Cuneiform Records, e também faz referência à cidade de Silver Spring, onde Tomeka deu seus primeiros passos no violoncelo. É a partir dessas peças e dessas inspirações que este álbum apresenta uma paleta expandida de técnicas, entrelaces de cordas, arranjos e improvisos instigantes, nos quais o cello de Tomeka Reid transita continuamente entre linhas líricas, articulações percussivas, pizzicatos, acordes em cordas duplas, uso do arco e texturas afins, dialogando assim com as modulações eletrificadas via pedais de efeitos, harmonias assimétricas e ataques angulares da guitarra de Halvorson, enquanto Roebke e Fujiwara constroem uma base que alterna entre pulsações assimétricas, grooves dançantes e instáveis e respostas rítmicas articuladas de forma improvisatória. Já coloco este álbum como um dos candidatos a figurar na lista de "Melhores Álbuns de 2026".

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Craig Taborn, um camaleão contemporâneo: versátil, pianista surpreende com improvisos geniais em vários contextos

 
Recentemente, em outubro de 2025, o grande pianista Craig Taborn foi agraciado com a importantíssima MacArthur Fellowship, uma das mais prestigiadas honrarias americanas do mundo das artes —— uma bolsa que oferece um apoio financeiro de cerca de US$ 800 mil distribuídos ao longo de cinco anos para que artistas de excepcional criatividade possam expandir ainda mais seus projetos e trajetórias. Taborn tem sido um dos mais premiados e reconhecidos compositores e músicos dos últimos tempos e, desde os anos 2000, tem sido um dos pianistas mais interessantes e dignos de nota do jazz contemporâneo. Dentro de um espectro mais amplo do jazz atual, abrangendo um range que vai até a outra ponta da livre improvisação, Taborn é uma figura singular que transita sem estrelismo pelos mais variados circuitos, trabalhando de forma colaborativa tanto com artistas ligados ao post-bop e ao straight-ahead (o jazz mais purista) quanto com nomes do avant-garde, dialogando também, pontualmente, com a música erudita contemporânea e explorando, ainda, um amplo leque de teclados e sintetizadores eletrônicos, não raramente lançando registros fora dos cânones convencionais. Na verdade, Taborn é, por excelência, um piano master do que se convencionou chamar, nas últimas décadas, de "modern creative jazz", evidenciando um estilo brilhante e virtuoso de improvisar e frasear, ao mesmo tempo sensível e cristalino, um estilo que é, em certa medida, a síntese das técnicas contemporâneas dentro do jazz do século 21. À primeira vista, sua preferência pela discrição pública, seu semblante fechado e sua imponente presença física de um suposto sujeito albino podem transmitir certa sisudez. Taborn, contudo, não é albino, é conhecido por ser simpático, e suas teclas e explorações, tanto em projetos solo quanto em colaborações, revelam muito mais simpatia, requinte e sensibilidade do que se possa imaginar, somando-se a tudo isso a impressionante versatilidade de transitar por diferentes vertentes, contextos e estéticas, refletindo uma trajetória amplamente aberta à experimentação. Quando perguntado sobre sua condição racial, Taborn afirma que frequentemente percebe certa dúvida nos olhares e nos questionamentos alheios devido ao fato dele ser um homem afro-americano de pele muito clara, olhos claros e cabelos claros. Ele também reforça, contudo, que seu pai, John Marvin Taborn, era um acadêmico estudioso do racismo e lhe ensinou a não permitir que sua identidade fosse limitada com base em estereótipos ou em "falhas de imaginação" alheias, motivo pelo qual rejeita qualquer tentativa de enquadrar sua música em códigos raciais específicos ou em expectativas identitárias pré-estabelecidas, ainda que se identifique como afro-americano.    

Outra característica inusitada é que, apesar de ser considerado um dos grandes e premiados pianistas do nosso tempo, Craig Taborn mantém uma postura deliberadamente discreta e avessa à autopromoção: tímido, ele prefere deixar que a música fale por si, prefere limitar suas aparições midiáticas, prefere ter presença mínima nas redes sociais e é particularmente seletivo quanto aos seus registros e às suas agendas de shows e concertos. Essa disciplina também explica sua parcimônia como líder de gravações, muitas vezes preferindo atuar mais como pianista colaborativo e deixando de lado aquele estrelismo do "bandleader de sucesso": o fato é que ele tem certa aversão ao estrelismo e ao que chama de "era da documentação quase desenfreada", optando por lançar apenas o que considera realmente necessário, muitas vezes encarando o registro de suas próprias performances mais como uma ferramenta de estudo para posterior revisão de sua técnica e de seu aprofundamento artístico do que como um trunfo midiático ou comercial. Essa postura mais reservada, contudo, não o impede de ser uma figura simpática e estimada por muitos dos maiores músicos do jazz contemporâneo e da música improvisada, sendo um dos pianistas mais requisitados, elogiados e preferidos das últimas décadas. Seu virtuosismo aberto à contemporaneidade e sua técnica requintada logo se somaram à sua versatilidade e à sua ampla compreensão dentro de um enorme espectro que vai da tradição do jazz aos improvisos livres mais abstratos, com reminiscências da eletrônica e das polirritmias complexas do m-base também influenciando seus fraseados e explorações. Essas características, por consequência, fizeram com que Taborn se tornasse um verdadeiro camaleão musical, sendo frequentemente escolhido para colaborar com figuras que vão do trompetista americano de post-bop Alex Sipiagin ao improvisador e saxofonista sueco de free jazz Mats Gustafsson, passando por colaborações com músicos das mais diversas vertentes, como o saxofonista patrono do m-base Steve Coleman, o DJ Carl Craig e seu projeto de música eletrônica Innerzone Orchestra, o super sax-tenorista de post-bop Chris Potter e sua banda Underground, entre tantas outras parcerias distintas. Dos anos 1990 aos anos 2000, e mesmo antes de impulsionar sua própria carreira como bandleader, Craig Taborn já havia colaborado em álbuns de músicos dos mais variados gêneros, estéticas, estilos e contextos (vide foto abaixo). A seguir, falo um pouco mais sobre esse grande camaleão do jazz contemporâneo e indico alguns de seus álbuns emblemáticos e seus lançamentos.
  


Nascido em Minneapolis em 1970, Craig Taborn começou a tocar piano e sintetizadores ainda na adolescência e, enquanto estudava na Universidade de Michigan, integrou a banda do super saxofonista James Carter, ganhando destaque no cenário jazzístico dos anos 1990. Ainda em Minneapolis, as andanças de Taborn por Golden Valley frequentemente se cruzavam com as de outros jovens músicos emergentes, como o baterista Dave King e o contrabaixista Reid Anderson, os quais posteriomente formariam a emblemática banda The Bad Plus. Nesse início de carreira, as peripécias pianísticas de Cecil Taylor e os registros históricos e inovadores de membros da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians) o influenciavam tanto quanto o rock, a eletrônica, o jazz-fusion e o heavy metal: ele pegava discos emprestados em bibliotecas públicas e buscava música incomum nas rádios, descobrindo gravações de diferentes estilos, diferentes músicos de jazz, integrantes da AACM, Sun Ra, além de bandas de heavy metal e de música erudita contemporânea, tentando identificar pontos em comum entre essas formas díspares de expressão musical —— o que já ajuda a explicar como o ecletismo moldou sua técnica, seus improvisos e seus fraseados. Sua primeira aparição como líder ocorreu no álbum Craig Taborn Trio (DIW, 1994), com Jaribu Shahid (contrabaixo) e Tani Tabbal (bateria), banda que também foi a cozinha que gravou o clássico JC on the Set (DIW, 1994), de James Carter. Taborn seguiu tocando com Carter até 1998 e, no final da década de 1990, gravou com o saxofonista Roscoe Mitchell o álbum Nine to Get Ready, sua primeira aparição pelo selo ECM Records, onde se tornaria uma das pratas da casa. No início dos anos 2000, após já ter tocado com inúmeros músicos de diferentes estilos, registrou dois álbuns inovadores pelo selo Thirsty Ear que solidificaram sua proeminência como um dos principais pianistas e manipuladores de eletrônicos do jazz contemporâneo: Light Made Lighter (Thirsty Ear, 2001), em trio com Chris Lightcap (contrabaixo) e Gerald Cleaver (bateria), e Junk Magic (Thirsty Ear, 2004), em quarteto com Aaron Stewart (sax tenor), Mat Maneri (viola) e Dave King (bateria). Desde então, participou de mais de 200 gravações como sideman e co-autor, liderou projetos essenciais e lançou álbuns super elogiados pela crítica especializada tais como Avenging Angel (2011), Chants (2013), Daylight Ghosts (2017) e Shadow Plays (2021), e por consequência estabeleceu parcerias com músicos das mais diversas vertentes, como Vijay Iyer, Kris Davis, Roscoe Mitchell, Dave Holland, Alex Sipiagin, Chris Potter, Lotte Anker, Evan Parker, Tim Berne, Steve Lehman, Ivo Perelman, Okkyung Lee, entre muitos outros. Tanto em projetos solo quanto em projetos colaborativos, Taborn já passou por diferentes selos e gravadoras americanas e europeias, como Thirsty Ear, Criss Cross, Clean Feed, ECM, Tzadik, Intakt, Pyroclastic e RogueArt, tendo se consolidado como uma das escolhas recorrentes do grande produtor Manfred Eicher, se estabelecendo como uma das pratas da casa dentro do conceito da ECM.   


CRAIG TABORN | TOMEKA REID | CHES SMITH
O estilo versátil de Craig Taborn é um híbrido que parte da espontaneidade de Cecil Taylor e se expande para além das bases deixadas pelo m-base e pelo "modern creative" de Geri Allen, englobando, no meio do caminho, patterns de outros grandes pianistas que foram notáveis acompanhadores rítmicos —— ele frequentemente cita a rítmica como um de seus fascínios —— e notáveis mestres dos improvisos mais intrincados. Taborn é frequentemente reconhecido como um pianista idiomático que parte de trechos, ideias e motivos composicionais curtos para expandir suas ideias improvisacionais e criar, a partir daí, peças expansivas, praticamente não deixando arestas entre o que foi composto, escrito em pauta, e o que foi espontaneamente improvisado. O estilo único de Craig Taborn é, pois, um híbrido entre a rítmica e o improviso livre, entre a composição estruturada e as inflexões livres em torno dessa composição, entre o post-bop e o "modern creative", entre a tradição e o avant-garde. É preciso frisar, contudo, que Craig Taborn frequentemente dilui esses aspectos de intrincância e complexidade, deslocando-se em direção da beleza poética, da sofisticação e da sublimidade, como ocorre em seu fantástico álbum de piano solo Avenging Angel (ECM, 2011). A partir daí, devemos também compreender que Taborn é um dos pianistas que melhor conseguem encaixar seus acompanhamentos, improvisos e fraseados geniais em diferentes estilos, diferentes projetos e diferentes parcerias, quer seja no campo mais estritamente do jazz quer seja na seara da música improvisada mais abstrata e indeterminista. Mas aqui quero particularmente endossar a minha impressão pessoal de que Craig Taborn é um dos continuadores da essência e da escola deixadas por Geri Allen. Para quem escuta jazz há algum tempo, é perceptível a influência da grande pianista Geri Allen —— uma das artífices do m-base e do "modern creative" do jazz contemporâneo —— nos fraseados sofisticados, densos e por vezes intrincados de Craig Taborn, especialmente na maneira composicional como ele articula estruturas complexas com liberdade rítmica e pensamento harmônico expansivo. Foi ao passar pelo rico cenário de Detroit —— quando tocava com James Carter e foi mentorado por Marcus Belgrave, nos anos 1990 —— que Craig Taborn teve contato com Geri Allen, sendo influenciado pela pianista na construção de seu estilo próprio de unir fraseios aparentemente livres e estruturas compostas em uma única linguagem sofisticada, conciliando rigor técnico com experimentação. Não raramente, Taborn reconhece em Allen uma de suas influências mais estreitas, tendo absorvido dela a capacidade de criar texturas densas e um estilo pianístico que desafia as fronteiras entre a improvisação livre e a estrutura composta. Após o falecimento de Allen, em 2017, uma das declarações públicas do apreço que Taborn nutria pela "escola" e legado da pianista surgiu em sua recente composição HeartSpoken Suite for Improvising Quartet and Full Orchestra, mundialmente estreada com o quarteto do pianista ao lado da Orquestra Filarmônica de Bruxelas. Participando com essa obra da série de concertos "Jazz Meets Symphonic", no Flagey, em Bruxelas, e no Muziekcentrum De Bijloke, em Gante, em janeiro de 2025, Taborn declarou que a suíte é dedicada a Tassili Bond, Mark "Trent" Mitchell e Geri Allen, que figura entre seus "heróis históricos" do piano jazz. Outra homenagem à grande pianista está explícita no super elogiado álbum The Transitory Poems com Vijay Iyer —— outro pianista fortemente influenciado por ela ——, álbum lançado em duo pela ECM em 2019. Gravado ao vivo na Academia Franz Liszt, em Budapeste, esse ótimo álbum evidencia algumas das composições espontâneas mais interessantes no campo da improvisação livre no formato de dois pianos em duo, a quatro mãos. A faixa final, por exemplo, intitulada "Meshwork / Libation / When Kabuya Dances", traz uma homenagem explícita a Geri Allen em meio às inflexões numa releitura de "When Kabuya Dances", uma de suas composições emblemáticas da grande pianista. Além de Geri Allen, Craig Taborn também se inspira em pianistas históricos como Horace Silver, Thelonious Monk, McCoy Tyner, o já citado Cecil Taylor, Andrew Hill, Muhal Richard Abrams e Sun Ra, sendo este último, o mestre experimentalista de Saturno, aquele que mais o influencia em suas explorações de synths, teclados e dispositivos eletrônicos.

 

Estes seis álbuns indicados acima, já são suficientes para oferecer ao ouvinte interessado uma overview que ajuda a compreender como e o quanto Craig Taborn se estabeleceu como uma figura-chave do jazz contemporâneo neste início de século, pois apresentam seu piano, seus synts e dispositivos eletrônicos em ímpar versatilidade, evidenciando uma trajetória repleta de improvisos geniais em diferentes explorações sonoras, tanto em trabalhos solo quanto em projetos colaborativos. Lançado em 2001 pela gravadora Thirsty Ear, o álbum Light Made Lighter, segundo disco da carreira solo de Taborn, já o estabelece como uma figura emergente na seara da inovação idiomática —— do chamado "modern creative" —— pela qual já passava o jazz contemporâneo no início dos anos 2000: o álbum traz uma formação de piano-trio com o contrabaixista Chris Lightcap e o baterista Gerald Cleaver e apresenta, tecnicamente, uma estética situada entre o post-bop e elementos do m-base, com pitadas de improvisos livres entrelaçados a estruturas complexas, contrapontos polirrítmicos articulados entre os três instrumentistas, uma abordagem textural rebuscada e, ao mesmo tempo, linhas abstratas e harmoniosas em fraseados intrincados, tudo amalgamado em uma nova linhagem idiomática, já indicando uma nova direção dentro do jazz deste novo século. Seguem-se os inebriantes Junk Magic e Prezens, dois álbuns nos quais Taborn põe à prova suas explorações eletrônicas. Junk Magic (Thirsty Ear, 2004) é um projeto autoral em que Craig Taborn utiliza programação e efeitos ao atuar com um quarteto formado com Aaron Stewart (sax tenor), Mat Maneri (viola) e Dave King (bateria), explorando uma integração entre improvisação acústica —— com a viola de Mat Maneri oferecendo uma timbragem distinta em meio aos sons —— e elementos da eletrônica contemporânea, utilizando piano, sintetizadores, programação, loops e processamento digital não apenas como ornamentos ou texturas, mas como elementos estruturantes da própria escrita composiconal, resultando em peças próximas a uma estética de "jazztronica experimental", nas quais as estruturas —— amalgamadas entre improvisos livres, fraseados complexos e composição escrita —— dialogam com elementos de IDM, glitch e programação rítmica, com batidas fragmentadas, uso intrincado de sequenciadores, métricas ímpares instáveis e texturas densamente estratificadas que tensionam e expandem as noções tradicionais de groove, tempo e interação instrumental. Já em Prezens (ECM, 2007), temos um álbum liderado por David Torn (guitarras e manipulação eletrônica), ao lado de Tim Berne (sax alto), Craig Taborn (Fender Rhodes, Hammond B3, Mellotron e circuit bending) e Tom Rainey na bateria —— também com a participação pontual do versátil baterista Matt Chamberlain ——, no qual Taborn atua como colaborador dentro de uma abordagem que mescla densidade eletrônica e reverberações psicodélicas, combinando free jazz, frases livres e estruturadas, rock experimental, ambient music e efeitos vários: a densidade fica por conta dos eletrônicos e do órgão de Craig Taborn; os efeitos mais atmosféricos e de ambiência psicodélica ficam a cargo da guitarra, dos pedais de efeito e das manipulações em tempo real de David Torn; enquanto os improvisos mais cavernosos e angulares emergem do sax alto de Tim Berne e das baterias de Tom Rainey e Matt Chamberlain. Segue-se o aclamadíssimo álbum de piano solo Avenging Angel, sobre o qual me arrisco a dizer que pode ser o melhor disco de piano solo deste início de século 21, transitando do impulsivo ao minimalista, do grave ao angelical, da exploração free quase glossolálica à estética intimista pela qual a ECM é reconhecida, reunindo tanto pontilhismo cristalino quanto blocos de acordes deslocados. Indico também o notável álbum Daylight Ghosts, lançado em 2017 pela gravadora ECM, que apresenta um quarteto com Craig Taborn (piano e eletrônicos), Chris Speed (saxofone tenor e clarinete), Chris Lightcap (contrabaixo acústico e baixo elétrico) e Dave King (bateria): neste disco, a dinâmica de grupo sugere uma espécie de "jazz contemporâneo de câmara", alinhado ao conceito intimista característico dos álbuns da ECM, equilibrando lirismo melódico e texturas eletroacústicas sutis, com linhas melódicas entrelaçadas que se dissipam em improvisos fluidos entre os músicos, favorecendo uma dinâmica em que toda a banda soa como um único corpo camerístico. Por fim, destaco o soberbo The People I Love (Pi Recordings, 2019), no qual Taborn e suas teclas se unem ao sax-altoísta e compositor Steve Lehman e a seu trio acústico com o baterista Damion Reid e o contrabaixista Matt Brewer: o álbum estabelece uma ponte entre elementos jazzísticos das últimas décadas e a eletrônica contemporânea por meio de uma trilha que mistura e intercala referências do m-base, neo-bop, post-bop, IDM e eletrônica glitch, com ênfase em improvisos intrincados, ritmos assimétricos, polirritmias complexas, estruturas melódicas fluidas e interações altamente rítmicas, a partir de um repertório que alterna composições originais e releituras de Ornette Coleman e Jeff "Tain" Watts, incluindo uma interpretação acústica da faixa "qPlay", originalmente lançada pela genial dupla de eletrônica glitch e IDM Autechre no EP Quaristice.Quadrange.ep.ae (Warp Records, 2008).

 
★★★★¹/2 - Trio of Bloom (Pyroclastic Records, 2025)/ ★★★★ - Craig Taborn, Tomeka Reid & Ches Smith - Dream Archives (ECM Records, 2026)
E para fechar com chave de ouro, indico estes dois álbuns de Craig Taborn lançados recentemente. Trio of Bloom (lançado em setembro de 2025 pela Pyroclastic Records) figurou em diversas listas dos melhores álbuns de 2025 e marca a estreia da formação homônima que reúne Craig Taborn (teclados, synth bass e piano), Nels Cline (guitarras de 6 e 12 cordas, lap steel, pedais de efeitos e contrabaixo elétrico) e Marcus Gilmore (bateria e percussão) em inédita colaboração. A ideia de formar esse trio deveu-se em grande medida ao produtor David Breskin, que se inspirou no histórico álbum Strange Meeting, lançado em 1987 pelo power trio de free funk e jazz rock Power Tools, formado pelo guitarrista Bill Frisell, pelo contrabaixista Melvin Gibbs e pelo baterista Ronald Shannon Jackson. Para o projeto, cada músico contribuiu com suas composições originais, somadas a releituras e improvisações livres, resultando em uma set list variada tanto em termos de atmosferas e moods quanto em termos de grooves, relembrando assim o caráter interdisciplinar do trio Power Tools de 1987, mas agora a partir de uma fusão de jazz contemporâneo, elementos de avant-garde, jazz rock, improvisos livres, grooves e funk beats mais contemporâneos, além de texturas eletrônicas e atmosferas elétricas com uma psicodelia mais fresca. O repertório de 11 faixas equilibra covers ousados como "Nightwhistlers" (de Ronald Shannon Jackson), "Bend It" (de Terje Rypdal) e uma leitura etérea e expandida da canção "Diana" (de Wayne Shorter e Milton Nascimento) com composições originais que exploram climas e aspectos contrastantes, incluindo "Unreal Light" (de Taborn), que emerge de uma névoa reverberante para grooves ágeis e mutáveis, a abstrata "Why Canada" (de Taborn), "Queen King" (de Cline, na qual ele assume também o contrabaixo elétrico), além de "Eye Shadow Eye", "Forge" e "Gone Bust" (de Cline), e a peça meditativa "Breath" (de Gilmore). O projeto atualiza, assim, aqueles aspectos do amplo espectro entre o free funk e o jazz rock explorados pelos músicos dos anos 1980, agora dentro de uma roupagem mais contemporânea, marcada pelo uso inventivo de sintetizadores, loops e efeitos de reverb e delay, distorções e efeitos eletrificados de guitarra, além de outros processamentos tímbricos variados, bem como pela bateria de Gilmore, que articula breakbeats e grooves bastante diversos. Um dos pontos altos do álbum está na longa improvisação coletiva "Bloomers", que começa com atmosferas atonais, contemplativas e cavernosas, explora efeitos eletroacústicos variados e rítmicas ímpares e mutáveis, sintetizando a capacidade do trio de transitar de passagens mais contemplativas ao jazz rock mais explosivo, livremente improvisado e psicodélico. Um dos grandes álbuns de 2025!!!

Por outro lado, o requintado álbum Dream Archives (lançado em 16 de janeiro de 2026 pela ECM Records) apresenta um outro escopo sonoro e marca a estreia de Taborn e suas teclas em trio ao lado da violoncelista Tomeka Reid e do percussionista Ches Smith (bateria, vibrafone, gongo, percussão e eletrônicos), configurando-se como uma obra que funde jazz contemporâneo, improvisação livre e música de câmara, em uma estética próxima do modernismo erudito e da exploração de sutis texturas eletrônicas, tudo muito bem estruturado dentro do requintado conceito da ECM, no qual a produção de Manfred Eicher é conhecida por enfatizar o uso expandido do espaço, do silêncio e da ressonância como elementos conceituais, estéticos e composicionais centrais. O repertório é composto por seis faixas, incluindo quatro originais de Taborn, além de releituras de peças como "When Kabuya Dances", de Geri Allen, e "Mumbo Jumbo", de Paul Motian, duas leituras que funcionam tanto como tributos quanto como extensões conceituais da poética do trio. Como se trata de um álbum de caráter mais camerístico, as interações são sempre sobrepostas dentro de um equilíbrio democrático e altamente sensível entre os músicos, com o piano e os sintetizadores de Taborn alternando entre intervalos melódico-harmônicos quase atonais e texturas eletrônicas sutis, o violoncelo de Reid oscilando como uma voz entre linhas melódicas líricas, tessituras envolventes e pizzicatos alusivos à função de um contrabaixo, e Ches Smith ampliando decisivamente a paleta rítmica e atmosférica por meio da bateria, do vibrafone, do gongo e de sons eletrônicos adicionais e discretos. Essa interação, dentro do "conceito ECM", resulta em um amplo espectro que vai de ambiências mais minimalistas e contemplativas, passa pelo aspecto camerístico modernista e chega a englobar pulsações rítmicas ímpares e improvisos abstratos. A viagem sonora do álbum, inclusive pelo título proposto, realmente prenuncia que Taborn quis trabalhar essas nuances abstratas como uma sequência de sonhos, resultando em peças oníricas que vão da contemplação, passam por dimensões misteriosas e chegam à surpresa de improvisos inesperados. Clique nas imagens para ouvi-los!!!