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Great trumpeters of the last decades - 15 grandes trompetistas do jazz e da free improvisation nas últimas décadas


Dentro da história do jazz, o trompete é meu instrumento favorito. Talvez eu tenha desenvolvido essa preferência porque a mais de 20 anos atrás eu comecei a aprender a ouvir jazz através dos álbuns de Wynton Marsalis, um trompetista. Antes de ouvir jazz, eu era um adolescente interessado apenas em música erudita: foi quando eu ouvi o álbum erudito Carnival, de Wynton e depois fiquei sabendo que ele também era um trompetista de jazz, e quando o ouvi em seus álbuns dos anos 80 eu fiquei impressionado, quase como não acreditando em como o jazz podia ser arrebatador! Wynton Marsalis foi um impacto profundo em minhas pesquisas e audições musicais, assim como também foi o violinista Stephane Grappelli. Em seguida, um amigo saxofonista começou a me emprestar alguns CD's de saxofone: e James Carter foi o primeiro saxofonista pela qual fiquei impactado! Mas o trompete permaneceu como meu instrumento preferido no jazz à medida em que eu ia ouvindo obstinadamente álbuns e mais álbuns e me aprofundando na história desse gênero musical fantástico: comecei a procurar pelos maiores trompetistas da história do jazz e ouvi obstinadamente Dizzy Gillespie, Kenny Dorham, Clifford Brown, Lee Morgan, Don Cherry, Freddie Hubbard, Woody Shaw..., percebendo que cada um tem um estilo diferente, um fraseado diferente, um timbre diferente... Pessoalmente, eu fui partindo de um conceito de aprendizagem que passou a evoluir da admiração pela técnica para a apreciação da estética e para a pesquisa da história, com uma clara preferência por nuances, atmosferas e os efeitos sensoriais que muito dos músicos de jazz podem nos causar em suas composições e improvisações. E daí em diante, essa evolução também me levou a ouvir todos os tipos de jazz e de música instrumental, além de começar a ouvir livre improvisação, world music, música instrumental brasileira, música experimental, música erudita moderna, música eletrônica...música instrumental como um todo! Mas voltando ao trompete, o que se percebe na história recente do jazz é que, em termos de trompete, Wynton Marsalis é uma influência profunda mesmo fora dos meandros do mainstream: improvisadores contemporâneos e mais jovens do avant-garde como Peter Evans e Nate Wooley, por exemplo, citam Marsalis como um ponto de partida, independente de toda a personalidade antiquada que o mestre de New Orleans desenvolveu em relação às vanguardas e as evoluções que marcaram o jazz nessas últimas quatro décadas. Contudo, é simplório demais basear uma música tão gigantesca -- como é o jazz -- em apenas alguns poucos nomes importantes ou apenas em alguns poucos estilos, visto que trata-se de uma música onde congregam-se inúmeros estilos e inúmeras diretrizes criativas. Quando passamos a nos aprofundar e conhecer o jazz e a livre improvisação (que foi um desenvolvimento natural a partir do jazz, aliás) -- tanto em termos de história como em contemporaneidade --, nos envolvemos em um caminho sem volta de descobertas contínuas: foi assim pra mim quando ouvi Ralph Alessi e Alex Sipiagin em meados dos anos 2000, ou quando ouvi o projeto RH Factor do trompetista Roy Hargrove mais ou menos mesma época. Recentemente -- a uns 8 anos atrás, se é que podemos chamar isso de "recente" -- , um outro trompetista que me impactou foi Peter Evans: pra mim se trata de um dos grandes trompetistas da história a unir técnica avançada com um campo extenso de técnicas estendidas a desbravar -- é um absurdo! Quer dizer: técnica por técnica, explorar técnicas estendidas não quer dizer, propriamente, que o instrumentista representa uma evolução ao jazz, mas representa que temos um cenário futuro pela frente onde essas técnicas, pouco a pouco, poderão, sim, serem incorporadas em estruturas criativas e composições elaboradas, ao passo de que algum dia elas também se tornem tradições inerentes ao jazz -- e o jazz é esse tipo de música onde parte-se de explorações que inicialmente não fazem sentido, mas que aos poucos vai abrindo novos caminhos criativos. Herb Robertson já havia me impactado enormemente antes, mas Peter Evans é uma evolução natural à Herb. Enfim, o mais interessante de todas essas observações é que quando olhamos o jazz e a livre improvisação pela visão da evolução estética, procurando entender o que a música ganha com as exibições técnicas, estéticas e com as idiossincrasias desses instrumentistas espetaculares, acabamos deixando de lado todos os preconceitos e muros que dividem nossos gostos e preferências e passamos a enxergar a importância de cada um deles dentro da linha evolutiva da música. Pessoalmente, o que me interessa num instrumentista é a congruência de técnicas, estéticas e temáticas: quando um instrumentista consegue dominar seu instrumento tecnicamente, consegue desenvolver um estilo pessoal e consegue criar música nova de forma imaginativa e/ou imagética, passando ao público aspectos sensoriais através de temáticas que ele incorpora em sua música, este é o compositor e instrumentista completo! Abaixo cito 15 grandes trompetistas das últimas décadas, tentando descrever seus estilos, suas abordagens, suas influências e citando alguns dos seus projetos. Quinze é um número pequeno quando se trata de trompete -- eu poderia citar, se houvesse mais tempo e espaço, ao menos mais 30 outros grandes trompetistas das últimas décadas --, mas dentro das minhas preferências e das minhas últimas audições estes 15 encabeçariam um resumo de como o trompete tem se desenvolvido e como tem levado o jazz para uma clara evolução nessas últimas décadas. Ouça a playlist no final do post.


Responsável por resgatar o bebop e post-bop nos anos 80 com roupagem contemporânea baseada no jazz modal, Wynton Marsalis é dono de um estilo muito próprio que combina um tom denso, fosco e potente de trompete -- fosco nas notas graves, colorido nas notas médias e brilhantes nas notas agudas, aliás -- com um poder de improvisação que advém da sua capacidade inesgotável de articulação, e capacidade inesgotável de variar as síncopes e quiálteras dentro do seu fraseado intrincado (percebam as notas acentuadas, quialteradas e articuladas em contratempos umas às outras, mesmo em fraseados velozes em faixas dos anos 80 como "Knozz-Moe-King" e "Chambers of Tain"). Em termos de técnica, no início dos anos 80 Wynton se inspirava basicamente em trompetistas lendários como Clifford Brown, Freddie Hubbard, Woody Shaw e Miles Davis (pegando como inspiração estética para sua banda, a abordagem modal do Segundo Grande Quinteto de Miles). Mas rapidamente ele foi atingindo um alto nível de personalidade e originalidade a ponto da crítica rotular seu estilo próprio de "neo-bop", fato que pode ser confirmado a partir do álbum Think Of One (Columbia, 1983). Álguns críticos, inclusive, chegaram a escrever que o jovem Wynton estava trilhando um caminho em direção à uma visceralidade progressiva e inovadora. No final dos anos 80, porém, Wynton começa a estudar as abordagens tradicionais do blues e swing, adotando um fraseado menos intricado baseado num swing de velocidade média, e consequentemente abandonando os solos efusivos da sua fase modal: ou seja, ele começa a trabalhar mais a expressividade, os efeitos de surdina e os sombreamentos do trompete a partir de uma abordagem mais arcaica, com inspiração no estilo dos primeiros cornetistas de New Orleans (sua terra natal) tais como Buddy Bolden e Louis Armstrong -- trazendo elementos tradicionais dos mestres precursores e pioneiros para o plano contemporâneo. Dessa forma, os solos de Wynton na década de 90 passam a soar quase sempre como se seu trompete estivesse "falando", "discursando" ou "narrando" uma história -- abordagem que foi trabalhada, também, para dar vida ao seu estilo "ellingtoniano" de composição baseado em suítes imagéticas, que podem ser conferidas nos registros com o seu seminal Wynton Marsaslis Septet. Afora sua personalidade polêmica -- principalmente quando o assunto é ignorar o avant-garde, o fusion e o hip hop, e defender a "autenticidade do jazz" --, Wynton é um trompetista e educador que inspirou -- e ainda inspira! -- seguidas gerações de trompetistas e músicos em geral. É um trompetista virtuoso capaz de tocar da música erudita ao jazz, das formas mais arcaicas até as mais contemporâneas: nas mais váriadas formas e nos mais variados estilos de jazz -- e com um grau absurdo de expressividade. Wynton também é descobridor de uma legião de grandes músicos.
 

Um dos maiores trompetistas das últimas décadas, também ambientado tanto na tradição de New Orleans como no post-bop contemporâneo, sendo também capaz de evocar as facetas mais contemporâneas de jazz-funk, vide seu álbum Breathless (Blue Note, 2015) com sua banda The E-Collective. Podemos dizer que Terence Blanchard foi um continuador e um substituto natural de Wynton Marsalis no quesito de se tornar o principal trompetista do post-bop e neo-bop dos anos 90 e 2000: isso porque, como já é sabido, na segunda metade dos anos 80 Wynton decide abandonar suas abordagens modais contemporâneas para focar em elementos da tradição do jazz. Amigo de infância de Wynton -- e ambos nascidos em New Orleans --, Terence Blanchard recebeu uma natural influência do clã dos Marsalis, mas também podemos dizer que sua posterior associação com o cineasta Spike Lee também foi uma segunda grande influência em sua música -- fato que pode ser percebido quando várias dos seus temas autorais vêm das suas trilhas sonoras compostas para os filmes do cineasta. Porém, uma observação precisa ser feita: dos young lions a emergir nos anos 80, Terence Blanchard tem sido um dos mais versáteis, qualidade que o colocou sempre em evolução até chegar em seu post-bop contemporâneo como um dos mais influentes músicos para a nova geração dos anos 2000 -- é através das suas gravações do final dos anos 90 e início dos anos 2000, por exemplo, que já podemos presenciar jovens fantásticos da nova geração tais como os baterista Eric Harland e Kendrick Scott, os pianistas Aaron Parks e Fabian Almázan, entre outros. Em termos de técnica, além da influência de Wynton Marsalis, Terence Blanchard cita três principais influências: Miles Davis pela criatividade, Clifford Brown pela técnica, e, principalmente, o desconhecido trompetista de New Orleans Alvin Alcorn em termos de estilo. A sonoridade e a técnica do trompete de Terence Blanchard se configura, pois, em um estilo híbrido dessas influências: com tessitura não tão densa como a de Wynton, mais próxima do registro médio de Miles, com grande poder de articulação em termos de fraseado e com leve sotaque de New Orleans.
 

Peter Evans surgiu na segunda metade dos anos 2000 como um vulcão expelindo erupções freejazzísticas -- e com um virtuosismo fora do comum! Trata-se de um trompetista que adota uma postura mais "modern creative" no sentido de ser um músico adepto à free music, mas aberto à inúmeras possibilidades, do tradicional à eletroacústica. Inclusive, ele mesmo é considerado um dos principais pioneiros da junção contemporânea da música eletrônica/ eletroacústica com o free jazz, explorando os limites mais inalcançáveis do trompete em termos de técnicas estendidas, o que pode ser conferido, por exemplo em sua parceria com o compositor, performer e improvisador eletroacústico Sam Pluta. Peter Evans, aliás, pode ser considerado um dos principais inovadores do free jazz e da música improvisada na última década. O curioso, contudo, é que em termos de estudo do trompete Peter Evans foi influenciado em suas fases primeiras por ele: o famigerado Wynton Marsalis (que sempre foi indiferente ao free jazz mais expansivo, aliás). Peter já revelou em entrevistas que sua paixão pelo trompete e suas primeiras audições ocorreram através dos álbuns de Wynton Marsalis, ainda em sua passagem da infância para adolescência. Muito embora ele se direcionasse para a livre improvisação -- indo totalmente na direção contrária da onda neo-conservadora que Wynton encabeçou --, duas das primeiras bandas de Peter Evans, um quinteto e um quarteto respectivamente, trariam ecos de inspirações do post-bop visceral que o combo Wynton Marsalis Quintet-Quartet evidenciou nos anos 80 -- críticos chegaram a dizer, inclusive, que seria essa a evolução estética que Wynton poderia seguir se continuasse a expandir sua abordagem visceral a partir dos 80. Mas com esse quarteto, Evans mostra apenas uma fase inicial da sua identidade: mas já trabalhando com fraseados intrincados que trazem tanto resquícios das acentuações rítmicas do neo-bop como também o teletransporta ao cúmulo da visceralidade freejazzística, com um uso inicial das técnicas estendidas combinadas com efeitos eletrônicos e eletroacústicos. Posteriormente, Peter Evans passa a valorizar ainda mais o desenvolvimento das técnicas estendidas através de álbuns solo e parcerias em duos e trios, o que vem enriquecendo sua abordagem técnica e estilística e o que o coloca como, talvez, o maior desbravador do trompete da atualidade em termos de improvisação livre. Podemos dizer que Peter Evans está dando sequência ao que o trompetista Herb Robertson já vinha fazendo, bem como ao que Evan Parker também já vinha fazendo com o saxofone -- só que de uma forma ainda mais contemporânea em termos estéticos, e com uma abordagem ainda mais radical que o leva até os limites da noise music. Evans também é um trompetista afeito à explosões rítmicas, a desenvolvimentos estridentes e ao desenvolvimento do fraseado mais intricado: ele é capaz de ir da linguagem bop até a free music mais ruidosa, de uma fuga de Bach até uma imitação orgânica da eletroacústica de Stockhausen, defenestrando do seu trompete uma sequência de ruídos, rangidos e sons inconcebíveis.
 

Outro dos grandes improvisadores da free music dos últimos tempos é o trompetista Nate Wooley. Também sendo um garoto que começou a se interessar pelo trompete nos anos 80 através das audições dos álbuns de Wynton Marsalis, após a adolescência Wooley tomaria os caminhos mais radicais do punk e da improvisação, tendo se mudado para Nova Iorque no início dos anos 2000 para se conectar ao reduto vanguardista da Downtown. Nate Wooley, inclusive, presta homenagem aos álbuns de Wynton dos anos 80 gravando oito dos respectivos temas wyntonianos no registro (Dance To) The Early Music (Clean Feed, 2015). Apesar do termo "Early"(no título do álbum) estar se referindo tanto ao início da sua musicalização como considerar que aquela música de Wynton nos anos 80 representa hoje, em sua opinião, um certo "ponto antigo do jazz" -- o que, em termos estéticos, não é verdade, haja vista o avanço rítmico visceral, as atmosferas inebriantes e a evolução da harmonia modal que os álbuns oitentistas de Wynton fizeram acontecer, soando contemporâneo até hoje --, Nate Wooley salienta que esta sua homenagem vem despida de qualquer intenção política (no sentindo de querer criar polêmica) e de qualquer intenção de se fazer ironia com as gravações do mestre de New Orleans -- sendo uma homenagem sincera mesmo, pelo fato daquelas gravações lhe despertar o jazz em sua adolescência. De meados dos anos 2000 até hoje, contudo, seu foco tem sido a improvisação livre e a exploração de técnicas estendidas em duos, trios, formações diversas e colaborações aos mais diversificados improvisadores: de Evan Parker ao seu compadre de trompete Peter Evans, da guitarrista Mary Halvorson ao saxofonista, produtor e compositor John Zorn. Além do uso de técnicas estendidas e de um conceito expansivo de improvisação, Nate Wooley também tem uma determinada sensibilidade para variabilizar seu modus operandi composicional e interativo através de projetos ímpares. Percebe-se que o trompetista traz uma influência mínima das abordagens interacionais de Anthony Braxton. No projeto Battle Pieces, por exemplo -- com a saxofonista Ingrid Laubrock, a pianista Sylvie Courvoisier e o vibrafonista Matt Moran -- ele escreve peças dedicadas a um solista da banda, mas determina que os outros sidemans improvisem peças aparentemente desconexas em sobreposição ao solista principal. Já no projeto Knknighgh -- com o saxofonista Chris Pitsiokos, o contrabaixista Brandon Lopez e o baterista Dre Hočevar --, ele transverte, ao seu modo, elementos da drone music (estilo de música minimalista) em free jazz, inspirando-se na poesia de Aram Saroyan, que tem uma poética cheia de fluência ritmica, aliterações e repetições de silabas e sons. Trata-se, enfim, de um improvisador que não apenas se dedica à expandir suas possibilidades a partir da improvisação livre, mas também a partir de novas abordagens composicionais, interativas e temáticas.
 

Ambientado, também, na free music, Taylor Ho Bynum é um trompetista que mais se deixa influenciar pelas abordagens conceituais do mestre iconoclasta e saxofonista Anthony Braxton. Naturalmente, sendo um dos principais instrumentistas da nova geração de improvisadores a repaginar o free jazz com ares contemporâneos, Bynum também é um dos trompetistas que explora novos contextos do seu instrumento dentro da livre improvisação, incluindo com registros interessantes onde ele mostra toda sua capacidade em criar ruidagens advindas das técnicas estendidas. Porém, diferentemente dos seus compadres Peter Evans e Nate Wooley, ele tem trabalhado mais insistentemente com grupos maiores para experimentar peças com novos desenvolvimentos conceituais e interativos, onde a composição sobrepõe a improvisação, e vice-versa -- e sempre num estilo ritualístico, conceitual e contemplativo, a exemplo de como o mestre Braxton fez por diversos momentos da sua carreira. Outra influência confessa em sua carreira é a do legendário trompetista Bill Dixon, uma das principais personalidades do free jazz nos anos 60 e 70. Ademais, é preciso estar atento à paleta de cores e sombreamentos que Bynum procura explorar ao revezar-se entre trompete, flugelhorn, corneta e outros "horns" similares, sempre explorando do mais macio timbre até o mais ruidoso. Quando ele toca em pequenos grupos -- trios e duos, principalmente -- ele tenta explorar mais a relação do silêncio com os ruídos através de conceitos braxtonianos do que impor ao ouvinte uma sequência de ruídos estridentes.
 

Se os anos 2000 revelaram Peter Evans, podemos dizer que as décadas de 80 e 90 não estiveram orfãs de um trompetista superlativo no sentido de explorar os limites técnicos do trompete. Um dos maiores improvisadores dos últimos tempos -- e talvez o mais importante improviser do trompete nas décadas de 80 e 90 --, podemos dizer que Herb Robertson é um dos pilares do trompete no free jazz contemporâneo, e, também, um dos precursores do uso de técnicas estendidas, com uma particular preferência pelo uso da surdina em diversas abordagens. Podemos dizer, também, que Herb Robertson é uma espécie de "underrated hero" ou "unsung hero" do trompete: requisitado e admirado entre os músicos, mas não tão evidenciado pela crítica e, consequentemente, pouco conhecido do público. Virtuoso desde sempre, Herb Robertson é um dos trompetistas mais requisitados pelas últimas gerações de músicos que começaram a dar um aspecto mais "modern creative" no que diz respeito à incorporar aspectos composicionais estruturais ao free jazz, bem como reformular o conceito de fraseado freejazzístico. Apenas para efeitos de comparação, podemos dizer que Herb Robertson está para o trompete como Tim Berne está para o saxofone -- tendo, ele mesmo, influenciado Berne na construção de um fraseado próprio e um estilo ímpar no inicio dos anos 80. Na verdade, Herb Robertson é capaz de ir do improviso jazzístico mais exótico/ exuberante à mais abstrata free improvisation ao estilo europeu -- mas sempre com incomparável identidade, e uma capacidade impressionante de sempre soar diferente à cada momento da performance. Além dos suas próprias gravações pelos selos CIMP, MT, Splasc, Leo Records e Cadence, com seus próprios grupos -- tais como The Double Infinitives, Herb Robertson Brass Ensemble, dentre outros --, as participações de Herb Robertson nos álbuns do saxofonista Tim Berne são demonstrações emblemáticas de contemporaneidade. Com parcerias e colaborações que vão da seara mais mainstrem até o mais underground -- do saxofonista Joe Lovano ao saxofonista Evan Parker --, é interessante, também, o ouvinte curioso explorar suas participações em duos e trios ambientados mais puramente em improvisação livre, direção que Robertson tem tomado mais insistentemente nos últimos anos. O trompetista Dave Douglas cita Herb Robertson como uma das suas principais influências desde sempre.


Fã de trompetistas históricos como Booker Little e Herb Robertson, Dave Douglas merece sempre estar entre os grandes trompetistas das últimas décadas não apenas pela técnica apurada que tem, mas principalmente pela versatilidade em transitar por variadas abordagens estéticas. Seja tocando free jazz com abordagem klezmer no Masada Quartet ao lado de John Zorn nos anos 90, seja transvertendo temas de música erudita nos projetos de Uri Caine, seja em sua aproximação ao estilo post-bop tendo a colaboração do saxofonisa Chris Potter entre finais dos anos 90 e início dos anos 2000, seja em seu projeto Brass Ecstasy com uma banda de metais ao estilo tradicional das brass bands, seja pelos registros onde ele insere eletrônica e eletroacústica ao seu molho eclético, seja em seus vários projetos inusitados dos últimos anos...Dave Douglas mostra, enfim, ser o mais versátil e eclético trompetista que se tem notícia. Nos anos noventa -- e até o início dos anos 2000 --, Dave Douglas gravou álbuns inclassificáveis com diversas formações e por vários selos (tais como Soul Note, Arabesque, Wynter & Wynter, Bluebird e etc), até assinar com a RCA Victor e começar a rumar para o estilo post-bop com um quinteto que tinha Uri Caine no fender rhodes, Chris Potter ao sax tenor, James Genus no contrabaixo e Clarence Penn na bateria, quinteto com o qual gravou alguns dos mais admiráveis álbuns dos anos 2000, em termos do jazz mais próximo ao mainstream. Sua discografia tem evidenciado, desde sempre, algumas das mais emblemáticas bandas: além do citado quinteto de post-bop, o ouvinte mais curioso deve explorar os registros de formações como Tiny Bell Trio, Brass Ecstasy e o projeto Keystone. Posteriormente, Dave Douglas fundou seu próprio selo, a Greenleaf Records e voltou-se para seu espírito interior inquietante com diversos lançamentos em diversas direções estéticas e com as mais variadas formações, com destaque para a inserção de elementos da eletrônica em seus registros. Sua gravadora, Greenleaf, também se tornou uma das fontes mais ricas do jazz contemporâneo, com registros lançados pelos principais músicos dos últimos anos. Dave Douglas é para o trompete, o que Bill Frisell é para a guitarra: atua em várias direções, toca com músicos de váriados estilos e se desafia sempre a interagir dentro de bandas com formações inusuais e combinações instrumentais exóticas. Dave Douglas também é criador e diretor artístico do importante Festival of New Trumpet Music (FONT), que tem a função de promover oportunidades e a diversidade para jovens e veteranos trompetistas, trombonistas e brass bands que atuam com jazz, livre improvisação e outras músicas criativas.


Falecido precocemente em novembro de 2018, Roy Hargrove já tem seu assento garantido na mesa dos maiores trompetistas da história do jazz. Descoberto por Wynton Marsalis ainda quando adolescente no final dos anos 80, desde cedo o jovem Hargrove já impressionava pelo talento e pelo "timing" (precisão na articulação de fraseados rápidos), sendo um dos mais brilhantes trompetistas da nova geração do neo-bop -- geração que os críticos chamaram de young lyons. Desde então passou a ser um dos mais requisitados sidemans: requisitado tanto por Steve Coleman em suas performances de m-base como por Wynton Marsalis em seu programa neo-tradicional no Jazz at Lincoln Center. Em boa parte dos anos 90, Roy Hargrove mesclou seus próprios temas com standards e trabalhou num range limitado à linguagem bop, mas quase sempre com uma finesse que já mostrava uma certa abertura ao jazz-funk e às baladas, o que já pode ser sentido no ótimo álbum The Vibe (BMG Novus, 1992). Sua carreira -- bem como seu estilo, e a direção estética em que ele tomou -- lembra um pouco a direção que alguns trompetistas do hard bop tomaram nos anos 60: podemos dizer, para afeitos ilustrativos, que Roy Hargrove foi um continuador natural da direção estética incorporada por trompetistas históricos como Lee Morgan e Donald Byrd nos anos 60 e 70, ou seja, ele partiu da linguagem bop e seguiu uma trilha que o levaria até ao jazz-funk, neo-soul, gospel e hip hop. No final dos anos 90, Hargrove conecta-se mais intensamente aos músicos, Dj's e cantores do movimento neo-soul e, posteriormente, funda o grupo RH Factor, com o qual lança três álbuns primorosos que conectam seu jazz range com funk, gospel, neo-soul, hip hop, freestyle e eletrônica... e com um frescor que emanou o mais alto nível de contemporaneidade. Um dos seus maiores atributos, aliás, é ter se conectado a movimentos contemporâneos -- como o neo-soul, o m-base e a eletrônica --, sem romper com sua sensibilidade e seu senso de pertencimento à uma linhagem fina de trompetistas dentro da tradição do jazz -- muito pelo contrário, aliás, ele passa a provar que as conexões entre contemporâneo o tradicional são bem aparentes para aqueles que se dispõe a não ter preconceitos. Nos álbuns dos últimos anos antes da sua morte -- quando já estava em tratamento de complicações renais, inclusive --, Roy Hargrove muda um pouco o foco e passa a mostrar alguns dos seus mais sensíveis registros, onde evidencia uma admirável amálgama de hard-bop com base nos anos 50 e 60, gravações com big band, orquestra de cordas, alguma influencia afro-cubana aqui e ali e pitadas de post-bop contemporâneo -- uma espécie de straight-ahead jazz, como os críticos gostam de chamar. Um dos poucos trompetistas a combinar técnica e sensibilidade de forma tão fina e elegante. Um músico que veio para reconectar o jazz contemporâneo às suas origens e variantes -- do blues moderno ao hip hop.


A canadense Ingrid Jensen -- uma das poucas mulheres no panteão de grandes mestres instrumentistas do jazz, e um caso ainda mais raro quando o assunto é trompete --, é uma das grandes improvisadoras do estilo post-bop das últimas décadas. Tendo estudado com Art Farmer e trazendo influências de Woody Shaw e Kenny Wheeler -- três dos mais legendários nomes do trompete na história do jazz --, Jensen tem trabalhado ativamente para elevar a participação das mulheres no jazz nessas últimas décadas, fomentando e participando de projetos das suas colegas instrumentistas -- aliás, muito antes da tendência atual de termos mulheres entrando para os caminhos exploratórios do jazz instrumental, a trompetista ja prenunciava um certo protagonismo feminino na seara instrumental, já em meados dos anos 90. Uma das colaboradoras mais frequentes e próximas de Jensen é sua irmã, a saxofonista e compositora Christine Jensen, com a qual colaborou como solista de destaque nos álbuns Treelines (lançado em 2011 e vencedor do Juno Award no ano seguinte) e Habitat (2013) registrados pela Christine Jensen Jazz Orchestra. Em termos de estilo, Ingrid Jensen combina certas doses de lirismo com uma sagacidade de fazer inveja a um Woody Shaw, sempre com solos surpreendentes. Sua fluência a capacitou para ser uma das principais solistas das inovadoras orquestras de Maria Schneider (1994-2012) e Darcy James Argue (2002-presente). Nos últimos anos, lançando álbuns pelas gravadoras Whaling City Sound e Whirlwind, Jensen tem atuado ao lado da irmã saxofonista e tem tido a colaboração de instrumentistas importantes como o tecladista Jason Miles, o guitarrista Ben Monder e o saxofonista Steve Treseler, entre outros. Qualquer compilação de grandes trompetistas do jazz que não tenha Ingrid Jensen em sua lista, estará omitindo uma das grandes "trumpet master" das últimas décadas. Seu álbum de estréia Vernal Fields (1994) é tido como um dos mais vigorosos registros dos anos 90: neste registro ela vem acompanhada do saxofonista Steve Wilson, do contrabaixista Larry Grenadier e do baterista Lenny White.


O trompetista Jeremy Pelt é o que podemos chamar de músico requintado no sentido de explorar e experimentar sem abrir mão da elegância, da beleza, do trabalho bem polido, bem elaborado. Ele tem explorado um range que vai do post-bop ao fusion, sempre com muita originalidade e senso apurado de contemporaneidade -- isso, sem esquecer das tradições do jazz! Suas tratativas em torno do fusion tem conferido novas vibes ao estilo e tem gerado as mais positivas críticas nas revistas especializadas -- "sound sculptor", um verdadeiro escultor de sons, é como tem sido chamado pela revista Downbeat ao se referir ao álbum Jeremy Pelt, The Artist (HighNote Records, 2019). Por algum tempo -- coincidindo com a fase em que as revistas especializadas o consideraram um dos principais "rising stars" do trompete --, Jeremy Pelt lançou álbuns memoráveis ao estilo post-bop contemporâneo através do seu quinteto formado com o saxtenorista JD Allen, o pianista Danny Grissett, o contrabaixista Dwayne Burno e o baterista Gerald Cleaver. Posteriormente, o trompetista começou a lançar álbuns onde reveza-se entre o jazz acústico e a eletrônica,  inserindo quites de percussão, orgãos, piano elétrico (Fender Rhodes), teclado Wurlitzer, pedais de efeitos e guitarras elétricas, e aderindo aos mais contemporâneos efeitos, distorções e eletrificações. O que Jeremy Pelt faz, em resumo, é dar uma tratativa elaboradamente composicional e bem polida às suas peças fusionistas, sempre com um intrigante equilíbrio entre suas abordagens ao estilo post-bop acústico e os efeitos eletrônicos contemporâneos -- ele mostra, aliás, que a fase de transição pela qual Miles Davis passou, do post-bop acústico ao fusion, entre os anos de 1968 e 1969, não apenas é uma fase rica de elementos a se explorar, como também é necessariamente passível de atualização aos moldes sonoros contemporâneos, contanto que isso seja feito com originalidade e autenticidade, sem soar como uma imitação àquela época. Em paralelo, Pelt também tem uma faceta que também agrada os mais românticos e nostálgicos: frequentemente ele se junta a veteranos e mestres de jazz e volta-se um pouco à uma roupagem mais streight-ahead, como se pode atestar em seus álbuns com o contrabaixista Ron Carter, o baterista Billy Drummond, o pianista George Cables, e o contrabaixista Peter Washington.


Wadada Leo Smith, o mais veterano desta lista, é o que podemos chamar de uma demonstração da força da natureza humana, em termos artísticos. Desde a década de 70, Wadada -- um dos maiores nomes do trompete da história do jazz e da música improvisada --, tem lançado projetos nas mais variadas direções dentro do range do free jazz e livre improvisação, sendo que as últimas duas décadas, de 2000 a 2019, tem sido particularmente ricas no quesito de novas aproximações com novas gerações e com as novas abordagens da música eletrônica/ eletroacústica. Ou seja: além de todo seu pioneirismo ao lado dos grandes improvisadores americanos e europeus dos anos 70, 80 e 90 -- vide seus registros com Anthony Braxton, John Zorn e Derek Bailey --, é possível apreciar álbuns onde o mestre rastafariano está a improvisar com a mesma propriedade de sempre entre jovens criativos que vêm dando novos ares ao jazz, tais como os pianistas Vijay Iyer e Mathew Shipp. Mas não é só por tocar com jovens inventivos que Wadada Leo Smith se manteve contemporâneo. Seus próprios ideários americanos -- de sempre estar lançando álbuns com conexões e críticas sociais, abordagens históricas e políticas --, sua técnica apurada e suas concepções inovadoras de conectar temáticas relacionadas à diáspora afro-americana com as novas possibilidades sonoras do século 21, são elementos que o mantém atual diante do público e crítica e o colocam no mesmo pedestal de músicos que se mantiveram inventivos e enérgicos mesmo a partir da fase septuagenária. Em 2013, seu box-set de quatro discos chamado Ten Freedom Summers (Cuneiform) -- uma extensa suíte de 19 peças que se ambienta na democracia e na história dos direitos civis americanos (de 1954 à 1964), distribuídos em temas como "Defining Moments in America", "What Is Democracy?" e "Freedom Summers" -- foi finalista do Pulitzer Prize for Music e foi considerado uma verdadeira obra prima por seu requinte musical e pelas temáticas relevantes no que diz respeito às temáticas relacionada à formação das instituições e o desenvolvimento da sociedade americana diante dos governos, da mídia e das megacorporações. Em termos da técnica de tocar trompete e da estética mais comum dos seus registros, Wadada Leo Smith é conhecido por seu tom límpido e ao mesmo tempo ácido, com ruídos levemente crispados aqui e ali -- o que acaba enriquecendo sua timbrística --, e com uma particular preferência em trabalhar com improvisos livres bem espaçados entre atmosferas e silêncios bem trabalhados. É uma abordagem que lhe cai bem tanto nos registros de improvisos livres -- em duetos e trios com outros improvisadores -- como quando ele resolve fazer uma releitura do fusion de Miles Davis ao lado do guitarrista Henry Kaiser: vide seu projeto Yo, Miles!, onde ele lança um verdadeiro tributo-manifesto free-psicodélico a Miles Davis. Ademais, além do engajamento social e político em seus temas, pode-se dizer que Wadada Leo Smith faz parte da míriade de músicos que são afeitos a trabalhar a espiritualidade e os aspectos sensoriais cósmicos em suas abordagens freejazzísticas -- sejam elas abordagens acústicas ou embebecidas de eletrônica.

Quem ainda não ouviu este trompetista russo -- já naturalizado americano e bem estabelecido como um dos grandes trompetistas e compositores da história recente --, não faz idéia do som fantástico que tem perdido nessas últimas duas décadas do jazz contemporâneo. Alex Sipiagin, um dos principais nomes da gravadora de origem holandesa Criss Cross -- que, sob as produções de Gerry Teekens e as masterizações de Max Bolleman, se estabeleceu como uma fonte de grandes talentos e do mais fino post-bop em solo americano -- é um trompetista único não apenas pela sonoridade, mas principalmente pela abordagem composicional: com temas e peças que sempre se remetem à imagens em movimentos, paisagens urbanas, aspectos sensoriais, miragens, nuances e viagens nostálgicas. Considerando a leveza e suavidade com que toca frases ágeis e sofisticadas, o seu "timming" –- ou seja, a precisão em cada nota articulada –- chega a ser algo surpreendente: isso se traduz em uma afinação inquestionável, além da façanha de soar com um “timbre de veludo” tendo, ao mesmo tempo, um sopro reto e uma articulação clara sem trôpegos ou tropeços, independente se a frase é veloz ou lírica. Aliás, podemos dizer que Alex Sipiagin já figura no rol histórico de da escola de trompetistas que prezaram pelo timbre limpo, sem vibrato e aveludado, sem esquecer de mencionar a predileção pelo uso do flugelhorn: vide trompetistas como Clark Terry, Chet Baker e Enrico Rava -- apenas para ilustrar essa descrição com alguns exemplos históricos, sem nenhuma pretensão de compará-los. Embora seja difícil descrever o estilo de Sipiagin –- já que ele soa diferente de qualquer outro trompetista que se tem notícia –-, é possível dizer que, além deste aspecto do “timbre de veludo”, ele também tenha incorporado certa dose de influência de trompetistas que prezaram pela improvisação com ênfase nas linhas melódicas, ao invés da improvisação com ênfase na linguagem na progressão de acordes: e aí se destacam Lee Morgan e Woody Shaw, dois dos principais trompetistas da história do jazz que, ao improvisar, pareciam criar outras melodias que davam continuidade à melodia do tema principal. É por esse cruzamento de influências que Alex Sipiagin mostra uma combinação perfeita de timbre suave com improvisação melódica, mesmo quando seu discurso se torna denso ou se aproxima de ostinatos e frases mais ágeis articuladas em linguagem bop. Ao analisarmos álbuns do início da sua carreira -- tais como Returning (2004), Equilibrium (2005) e Out of the Circle (2008) -- percebemos que as composições de Sipiagin também são claramente bem desenvolvidas em harmonias modais, líricas e peculiares, o que explica porque a maioria das faixas dos seus discos tem, em média, oito minutos de duração. Nos álbuns dos últimos anos, Alex Sipiagin tem adotado o uso pontual da eletrônica para colorir ainda mais suas imagens sonoras: vide, por exemplo, o álbum Moments Captured (Criss Cross, 2017).


O israelense, naturalizado americano, Avishai Cohen -- irmão da célebre clarinetista Anat Cohen e do saxofonista Yuval Cohen, com os quais já formou a banda 3 Cohens -- é um dos mais espetaculares trompetistas daz últimas duas décadas. Fascinado pela obra do trompetista Miles Davis e conquistando o terceiro lugar na competição de trompete do Thelonious Monk Institute em 1997, no início dos anos 2000 Avishai Cohen funda um trio com o contrabaixista Omer Avital e o baterista Nasheet Waits, lançando o surpreendente álbum The Trumpet Player (Fresh Sound, 2003) -- que foi gestado com esse título na intenção dele se apresentar como o Avishai Cohen trompetista, uma vez que o Avishai Cohen contrabaixista já era um célebre músico de jazz na época. Essa banda inicial de trio sem piano -- apenas com trompete, contrabaixo acústico e bateria -- é o resultado da influencia que as sonoridades de bandas precursoras e pioneiras do formato de trio e quarteto sem piano (ou qualquer outro instrumento harmônico) exerceram sobre sua alma criativa: além do quarteto do baritonista Gerry Mulligan e do trompetista Chet Baker de 1953, Avishai também cita como influência neste quesito o clássico quarteto de Ornette Coleman, grupo fundador do free jazz entre a passagem do final dos anos 50 para o início dos anos 60. Mais tarde, Avishai Cohen intitularia este seu trio sem piano de Triveni e, entre outros projetos, ele se apresentaria por mais de 10 anos com esta banda, até tomar outros rumos. Um dos seus projetos paralelos foi ser membro do fantástico SFJazz Collective, de São Francisco, onde pôde aprimorar sua concepção de arranjo e experimentar na prática como se porta o mais contemporâneo post-bop. Em termos de técnica, o poder de articulação de Avishai Cohen é impressionante: ele é capaz, como poucos trompetistas da história do jazz, de desferir ágeis improvisos contínuos por minutos a fio sem interrupção ou engasgos -- é o que, aliás, já pode se presenciar no álbum The Trumpet Player. Nos últimos anos, Avishai Cohen assinou com a gravadora alemã ECM Records, a partir da qual passa a lançar registros em quarteto e quinteto -- uma natural extensão, agora com piano, do seu trio Triveni, tendo a adição do saxofonista Bill McHenry e do pianista Yonathan Avishai --, adquirindo uma roupagem próxima ao post-bop meditativo que caracteriza muitas das produções de Manfred Eicher, chefe e proprietário da ECM. Apesar da tessitura do seu trompete evocar a tessitura média do trompete de Miles Davis, em termos de técnica Avishai Cohen mostra estar além do mítico mestre, podendo ser comparado com trompetistas que tiveram alta capacidade de improviso mesmo em frases ágeis e contínuas tais como Dizzy Gillespie, Lee Morgan ou Freddie Hubbard -- uma vez que Miles sempre se destacou mais pela diferenciação do seu sopro e de como encaixou o tom do seu trompete em seus rompantes criativos, do que propriamente pela técnica. Mais recentemente, Avishai Cohens tem se afastado um pouco do cenário dominante do post-bop de Nova Iorque e tem buscado novas inspirações em Tel-Aviv, sua cidade natal, onde encontrou músicos israelenses que foram seus amigos em seu início de carreira, e com os quais acaba de lançar o álbum Big Vicious (ECM, 2020), que conta com a colaboração do DJ e produtor de música eletrônica Ziv Ravitz (aka Rejoice): neste álbum Avishai Cohen conecta seu trompete, enfim, à uma linhagem criativa inspirada pela estética fusion de Miles Davis, mas aqui com inspirações nas estéticas mais contemporâneas do rock, pop e da música eletrônica, tendo maior preferência pelo estilo trip-hop.


Ambrose Akinmusire tem uma concepção própria de que o jazz contemporâneo não considera só a possibilidade das notas e acordes "certos", mas também das notas e acordes "errados" dentro de uma narrativa composicional ou improvisativa! Inspirado por estéticas como free jazz, m-base e o post-bop contemporâneo, Ambrose Akinmusire também incorpora adereços do hip hop e sempre recheia suas temáticas de conscientizações sociais mais urgentes -- como ele fez no álbum Origami Harvest (Blue Note, 2018). O tom do seu trompete é macio sem ser "cool": é uma tessitura macia mas crua e fosca, que lhe possibilita alçar vôos mais inesperados em frases cruas bem próximas à uma livre improvisação. Ganhador da edição de 2007 do Thelonious Monk International Jazz Competition, Ambrose Akinmusire pode até ser considerado um trompetista inserido aos meandros de mainstream atual, mas suas inspirações primeiras advém de mestres que nasceram foram do mainstream do jazz tais como o trompetista Lester Bowie e o saxofonista Steve Coleman, pai do conceito e estilo m-base. É um trompetista singular. Apresentando-se e gravando regularmente com músicos como o saxofonista Walter Smith III, o pianista Sam Harris, o guitarrista Charles Altura, o contrabaixista Harish Raghavan e o baterista Justin Brown, frequentemente o trompetista também convida cantores de jazz, MC's de hip hop e quarteto de cordas para dar vida às suas composições, principalmente quando elas são dotadas de temáticas sociais. Para efeitos de comparação, podemos dizer que Ambrose Akinmusire está para o trompete da mesma forma que Jason Moran está para o piano: ele representa a face mais impressionista do post-bop contemporâneo -- suas peças soam não tanto abstratas como nas abordagens do avant-garde, mas soam com inflexões e distorções que se remetem aos sombreados mais frescos do blues, rock alternativo e hip hop.


Ralph Alessi é um dos mais finos trompetistas que nem sempre é lembrado nas listas de maiores trompetistas, mas que nos últimos anos tem atingido considerável renome através dos seus últimos lançamentos para os selos Cam Jazz e ECM. Tendo uma inicial formação de trompetista clássico e tendo como influências iniciais o m-base do saxofonista Steve Coleman, as abordagens ecléticas do clarinetista Don Byron e as "sound collages" do pianista e arranjador Uri Caine, Ralph Alessi procurou manter-se aberto para as mais diversas influencias à sua volta: das influências eruditas ao free jazz, do m-base ao post-bop e modern-creative, da improvisação livre às estruturas composicionais mais elaboradas. Parceiro desde sempre do saxofonista Ravi Coltrane (filho de John Coltrane), Ralph Alessi mantém um quinteto de longa duração chamado This Against That, tendo como membros Andy Milne ao piano, Ravi Coltrane nos saxes, Drew Gress no contrabaixo e Mark Ferber na bateria. Hábil improvisador, o estilo de Ralph Alessi consiste em improvisar frases que se encaixam perfeitamente à estrutura composicional das suas peças: tanto que o ouvinte chega a duvidar se aquilo que foi improvisado não é algo que foi, na verdade, composto manualmente em pauta e ou se a composição, na verdade, não é algo que foi improvisado. Da mesma forma, as peças compostas por Ralph Alessi proporciona uma interação onde os músicos de contrapõe, se justapõe e se completam numa sincronia praticamente telepática. Tecnicamente, Alessi cita que suas inspirações advém -- além de Steve Coleman e outros músicos com os quais trabalha e trabalhou -- de trompetistas legendários tais como Clifford Brown, Don Cherry, Kenny Wheeler e Wadada Leo Smith. Ralph Alessi também é um renomado professor de trompete do New England Conservatory e da New York University, entre outras instituições e entidades que ele atua como professor fixo ou convidado. Um trompetista singular e um compositor inteligente dotado de surpreende capacidade improvisativa e com fraseios e contrapontos que podem soar por demais intrincados -- assim como é o espírito das suas peças mais elaboradas.





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