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Minas Gerais Revolution:20 Álbuns com Arranjos Instrumentais das canções de Milton Nascimento e Clube da Esquina


No âmbito da evolução da canção brasileira, muito do que se convencionou rotular esteticamente como "MPB" só atingiu certa contemporaneidade através da revolução melódico-harmônica que os membros do Clube da Esquina empreenderam já a partir do período pós bossa nova. Se a bossa nova fez uma nova releitura do samba inovando os acordes com progressões harmônicas do jazz, a sonoridade inovadora do Clube da Esquina já conseguiu amalgamar elementos díspares da própria bossa nova, dos cânticos tradicionais e folclóricos de Minas Gerais, do rock advindo da beatlemania, das inovadoras harmonias modais do jazz, da sonoridade contemporânea da variante fusion e das entonações da música pop setentista e oitentista. Se a Tropicália representou a antropofagia experimental disposta de um hibridismo visceral, formado através das misturas das tradições mais tupiniquins com aspectos de uma vanguarda mais cerebral -- unindo elementos sonoros rústicos e tradicionais brasileiros com elementos do avant-garde, rock progressivo, psicodelias, poesia concreta e etc --, o som do Clube da Esquina já representava um paralelo mais palatável de letras e melodias melancólicas, nostálgicas e humanistas que projetariam a canção brasileira para um futuro promissor de pós-efervescência em relação a essa fase anterior mais psicodélica e radical. Ou seja, as inovações mineiras empreendidas por Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Tavinho Moura, Zé Rodrix e Flávio Venturini, entre outros cantores e músicos que fizeram parte do Clube, levariam a MPB a atingir uma evolução praticamente atemporal no sentido de gradativamente desenvolver uma sonoridade contemporânea mais apegada ao instrumental, mais fresca e orgânica, com todas as inovações anteriores diluídas e amalgamadas: essa música poeticamente imagética, essencialmente melódica, timbristicamente rica de entonações, harmonicamente modal e com uma riqueza sem precedentes de sonoridades e ritmos diluídos foi tendo seu crescimento pubertário e atingindo sua fase de maturidade de forma tão gradual quanto constante, sem nunca deixar de estar em evidência, a ponto de um inicialmente simples clube de jovens cancionistas que se sentavam em uma esquina do bairro de Santa Tereza para cantar e tocar violão tornar-se um movimento musical revolucionário e constantemente referenciado. E, de fato, o termo "Clube da Esquina" deixou de ser apenas um uma referência de identificação textual e se tornou uma referência estética, tornou-se o nome de um movimento artístico que repercutiria nos quatro cantos do globo -- e, aliás, manteria sua repercussão nas décadas de 90, 2000, 2010... até hoje. Quer dizer: ainda que não possamos considerar que a música do Clube da Esquina seja mais importante para a MPB do que a bossa nova ou a Tropicália -- uma vez que cada movimento deu sua contribuição indelével e a música, assim como qualquer arte, não pode ter sua importância estética mensurada por comparativos quantitativos de tempo, espaço e volume --, podemos considerar que o movimento do Clube da Esquina representa uma influência mais duradoura em relação aos outros movimentos, não apenas revolucionando a canção brasileira naquele momento de auge da MPB como também perdurando ainda hoje como uma constante estética imprescindível.
Neste post, a ideia é apresentar 20 álbuns com arranjos e/ou releituras instrumentais -- principalmente a partir dos anos 90, justamente para evidenciar a permanência da força do Clube da Esquina na passagem do século 20 para o século 21 -- que abordam esse cancioneiro inovador que é repleto de ótimos cancionistas e instrumentistas talentosos. Aliás, outro fator importante a nunca perder de vista é o fato de a música instrumental brasileira estar intrinsecamente ligada, entre outros pilares, às inflexões das cantigas folclóricas e do canto popular. Essa estética mineira, pois, inovou ainda mais a relação entre o canto melódico e o arranjo harmônico instrumental, até pelo fato de desde sempre representar um movimento marcado pela presença de requintados e talentosos instrumentistas que passaram a ser figuras respeitadíssimas nos meandros do jazz e da música instrumental brasileira -- vide, por exemplo, os músicos da banda Som Imaginário, que acompanhava os cantores do Clube da Esquina e tornaram-se um dos mais ricos núcleos de instrumentistas criativos a partir dos anos 70. Clique nas capas dos álbuns para adquiri-los e ouvi-los:

Mensagem - Paulo Moura Hepteto (Equipe, 1968). Este clássico da música instrumental brasileira é um dos registros pós bossa nova que já evidenciam a influência que a música desse núcleo de cancionistas mineiros já exercia entre os principais instrumentistas na segunda metade dos anos 60. Paulo Moura, saxofonista e clarinetista que nasceu do choro e do samba do subúrbio e logo se tornou um dos mais importantes instrumentistas brasileiros, faz aqui uma requintada releitura das canções de Milton Nascimento, Marcos Valle, Novelli, Wagner Tiso e seus colegas cancionistas e letristas do Clube da Esquina. É a partir dessa época, inclusive, que Paulo Moura estabelece uma parceria frutífera e duradoura com Wagner Tiso: os dois gênios instrumentistas assinaram juntos diversos arranjos a partir de então, começando por este LP. Paulo Moura vem aqui acompanhado de Wagner Tiso ao piano, Pascoal Meirelles na bateria, Luís Alves no contrabaixo, Oberdan Magalhães no sax tenor, Cesário Constâncio no trombone e Darcy da Cruz no trompete. Na reedição em CD há duas faixas bônus --''General da Banda'' e ''Samba de Orfeu'' -- ambas do LP Fibra, na minha opinião um clássico ainda maior. Paulo Moura ainda inclui dois temas de Tom Jobim para acentuar a elegância do álbum: "Bonita" e "Wave". Trata-se, aliás, de um registro instrumental que evidencia bem essa transição do samba-jazz para um instrumental que já vinha sofrendo significativa influência dessa nova geração de cancionistas e instrumentistas mineiros. Quer dizer: ainda que alguns desses temas de Milton e do Clube recebam aqui levadas de samba-jazz e atmosferas bossanovistas -- até por ser um período onde esses jovens mineiros se mudaram para o Rio de Janeiro, a capital cultural do Brasil na época --, já conseguimos sentir algumas inflexões modais e rítmicas incomuns em relação aos primeiros temas bossanovistas -- vide, por exemplo, a releitura de "Nem Precisou Mais Um Sol/ A Sede do Peixe", canção de Milton.

Native Dancer (Columbia/ EMI-Odeon, 1974). Milton Nascimento acabara de estourar nas paradas de sucesso do final dos anos 60 e início dos anos 70 aqui no Brasil, e agora conquistava o mundo através do seu estilo inovador de canção, uma canção cheia de sinestesias harmônicas e melodismos imagéticos oriundos de uma Minas Gerais contemporânea. Através dos músicos de apoio de Milton e de outros cancionistas mineiros da época, dentre os quais formaram a emblemática banda Som Imaginário, o novo som daquele movimento chamado Clube da Esquina ganharia os corações e mentes dos músicos americanos que estavam imerso ao chamado jazz-fusion: e o saxofonista Wayne Shorter, desde sempre um admirador da música brasileira, seria o principal deles. Este álbum é então um registro vivo do encontro de Wayne Shorter com Milton Nascimento. Em cinco das nove faixas, Wayne Shorter convida Milton para criar uma mistura de fusion e modal jazz com elementos da música brasileira muito bem representada aqui pelas canções do próprio Milton e do Clube da Esquina. As outras quatro faixas permeiam o modal jazz com elementos das correntes post-bop e fusion as quais Wayne Shorter já vinha explorando ao lado de Miles Davis, Herbie Hancock, Joe Zawinul e companhia. A seção rítmica, é liderada por ele: Airto Moreira. A mistura dos vocalises melódicos de Milton Nascimento, com o saxofone e as harmonizações de Wayne Shorter mais a percussão rica de rítmos e efeitos de Airto, conferem a este disco um registro emblemático. Trata-se de um álbum de um músico americano em homenagem àquela música brasileira tão bem representada por Milton Nascimento e pelos membros daquele núcleo de cancionistas e instrumentistas inventivos que se chamaria Clube da Esquina -- ou seja o álbum não é um registro própriamente brasileiro, mas a presença de Milton Nascimento (que além dos vocalises também atua com guitarra) recebeu um significativo de co-crédito na capa, mostrando a predileção daqueles músicos americanos pelo novo som de Milton e seus compadres mineiros.

Nivaldo Ornelas/ Robertinho Silva - Serie MPBC (Philips, 1978-81). Nesta fantástica e histórica série de 11 LP's chamada Música Popular Brasileira Contemporânea, lançada pela Philips de meados de 1978 à 1981, temos a inclusão de dois instrumentistas que foram cruciais para o som do Clube da Esquina: o saxofonista Nivaldo Ornelas e o baterista e percussionista Robertinho Silva. Como o próprio nome da série denota, a ideia do projeto foi concebida pelo produtor  Roberto Santana Aramis Millarch para fazer uma coletânea da música instrumental ligada à contemporaneidade da MPB da época, tendo como premissa a edição limitada e foco estritamente documental -- ou seja, a Philips já sabia, desde o início do projeto, que essas gravações e edições não teriam poder de venda. Atualmente, inclusive, um LP original desta série é vendido a preços bem salgados, por causa desse caráter de peça rara, difícil de encontrar -- adquirir a série completa de 11 LP's, então, não seria uma tarefa financeiramente acessível ao trabalhador que ganha dois ou três salários mínimos. Mas, para o colecionador que pode despender-se, encontrar esses registros nas plataformas de streaming e em mercados digitais é relativamente fácil. O LP Nivaldo Ornelas traz, além da participação de diversos grandes instrumentistas brasileiros ao lado da melodiosa flauta e do sonórico saxofone de Ornelas, a participação fenomenal do Coral Pró-Arte com vocais de crianças, os vocalises característicos da música de Minas Gerais, os arranjos de cordas elaborados por Wagner Tiso e um instrumental mais perto do brazilian jazz fusion, verdadeiramente contemporâneo e rico em sonoridades. O LP Robertinho Silva também traz algumas dessas características -- fusões setentistas com vocalises e releituras de temas de Nelson Angelo, Milton Nascimento,  Wagner Tiso e do próprio Nivaldo Ornelas --, mas traz um instrumental mais visceral e enérgico e mais calcado na percussão afro-brasileira: tendo a maestria de Robertinho na bateria e kits de percussão acompanhado  de outros bateristas e percussionistas tais como Naná Vasconcelos, Chico Batera, Aleuda, Cidinho, Ubiratan e outros..., além das participações do trombonista Raul de Souza, do multinstrumentista Egberto Gismonti, do saxofonistas Mauro Senise e Léo Gandelman e diversos outros instrumentistas. Discaços!



Zimbo Trio Interpreta Milton Nascimento (Clam/Continental, 1986). Neste fantástico LP temos algumas das mais requintadas releituras das canções de Milton Nascimento já realizadas ao vivo por um piano-trio. Curiosamente, o Zimbo Trio que foi um dos principais combos de jazz a emergir do movimento bossanovista -- sendo o principal representante dessa corrente musical em São Paulo nos anos 60, seguindo o movimento carioca --, não fica apenas no seu contagiante samba-jazz e varia bastante nas levadas rítmicas dessas releituras, deixando a estrutura melódica das canções bem aparentes, além de aplicar variados desenvolvimentos e improvisos que denotam bem esse caráter de música universal e amalgamada de Milton. O Zimbo Trio é formado pelos talentosos Amilton Godoy no piano, Luiz Chaves no contrabaixo e  Rubinho Barsotti na bateria -- improvisadores de mão cheia! O LP original traz um agradecimento escrito pelo próprio Milton Nascimento na capa, enquanto a reedição em CD traz a foto de Milton com o três integrantes do Zimbo Trio. O Zimbo Trio dá aqui versões não apenas belas, mas principalmente divertidas para as canções de Milton.



Wagner Tiso - Branco e Preto (Barclay/Polygram, 1986). Outro registro interessante é este álbum de Wagner Tiso, talvez o arranjador e maestro mais importante do Clube da Esquina a fazer uma ponte entre o popular e o erudito -- sem mencionar sua destreza técnica nas teclas em geral (sanfona, piano, teclados, sintetizadores e afins). Neste registro -- uma clara alusão ao homônimo "Álbum Branco" dos Beatles ou uma conotação das teclas brancas e pretas do piano e teclados afins? --, Tiso começa com um contagiante samba jazz e traz um mix dos seus próprios temas com outros dois temas "extracurriculares": vide o pout-pourri na seunda faixa que une "The Little Nigar", de Claude Debussy, e "Penny Lane" dos Beatles John Lennon e Paul McCartney. Além do curioso fato de Wagner Tiso ser um entusiasta do compositor erudito Debussy, essa associação do som Clube da Esquina com as canções do Beatles é muito pertinente, visto que as canções dessa banda de rock foi uma das maiores inspirações para esses cantores e instrumentistas mineiros na segunda metade dos anos 60. No demais, tanto nessas releituras quanto nos outros temas originais, Wagner Tiso dá ênfase mais para o arranjo do que para o improviso: os temas soam aqui mais como "arranjos" bem elaborados e escritos -- com pontualidades de cordas, viola caipira, vocalises, piano e teclados eletrônicos --, do que propriamente como "improvisos" no esquema tema-improvisação-tema. Essa ênfase na arte do arranjo, pode aqui funcionar como uma bela introdução para o ouvinte que quer adentrar à discografia de Wagner Tiso.

Angelus (Warner Music Brasil, 1993). Este álbum é um dos mais interessantes documentos sonoros de Milton Nascimento. Repleto de interessantes arranjos instrumentais, o álbum já começa com a canção "Seis Horas da Tarde" com arranjos de um conjunto de câmera formado por flauta, clarinete, clarone e fagote numa introdução para o vocalise de Milton, que recebe acompanhamento de acordeom, violão e desses instrumentos camerísticos que vão entrando gradativamente para harmonizar o canto. O álbum vai seguindo com vocalises e sobreposições de vozes, arranjos de violão e viola caipira, tambores e outros kits de percussão e engloba até sintetizadores, guitarra e contrabaixo elétrico em outras passagens de sonoridade mais "world fusion". É um dos álbuns que mais evidenciam a universalidade que a música e a voz de Milton Nascimento alcançam a nível mundial: se em algumas faixas o cantor evoca as influências brasilianistas de uma Minas Gerais repleta de sonoridades advindas das folias, canto religioso, cantiga caipira e percussões sertanistas e afro-brasileiras, em outras faixas ele já evoca um pop-rock mais perto do jazz e da word music -- e alcançando uma coesão sonora impressionante em termos do conceito do álbum como um todo. Participam e colaboram diversos músicos mundialmente conhecidos tais como Pat Metheny, Jon Anderson, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter, James Taylor, Peter Gabriel (líder da banda Genesis), Jack DeJohnette e Naná Vasconcelos. Este álbum também apresenta algumas das canções que Milton compôs entre finais dos anos 80 e início dos anos 90 -- o que nos dá outras interessantes alternativas, além das canções que já são amplamente mais conhecidas de décadas atrás. Um álbum de amálgama indescritível!

Nivaldo Ornelas & Ricardo Leão – As Canções De Milton Nascimento (Visom, 1995). Este álbum traz arranjos instrumentais, num formato de banda compacta, para algumas das principais obras-primas de Milton Nascimento: "Cravo e Canela", "Cais", "Ponta de Areia", "San Vicente", "Morro Velho", "Saudades Dos Aviões Da Panair" e "Encontros e Despedidas" são algumas delas. A parceria entre o saxofonista Nivaldo Ornelas e o pianista Ricardo Leão gestou aqui um dos principais registros de música instrumental dos anos 90. Com uma sonoridade calcada no equilíbrio orgânico entre instrumentos acústicos, suave ambiência fusion e vocalises -- com um uso mais discreto de teclados eletrônicos, samples e contrabaixo elétrico --, a banda varia basicamente entre os formatos de quarteto e quinteto com Nivaldo Ornelas nos saxes e flauta, Ricardo Leão no piano e teclados, Marc William e Paulinho Braga revezando na bateria, Mingo Araújo na percussão e os contrabaixistas Bororó, Ciro Cruz, Jamil Joanes e Marcelo Mariano. Junto à banda temos alguns vocalises pontuais que condimentam o instrumental com as entonações vocais tão características na música de Milton Nascimento. A potência melódica do sax soprano de Nivaldo Ornelas -- que é, ele mesmo, um dos músicos principais do Clube da Esquina, parceiro musical de Milton desde o início do movimento -- e toda a ambiência harmônica do piano e teclados de Ricardo Leão formam aqui uma liga musical não menos que emblemática. Um dos mais belos registros de releituras das canções de Milton é este.

Uakti & Tabinha – Mulungu Do Cerrado (Not On Label, 2001). Ainda que este álbum não seja dedicado totalmente às canções de Milton ou do Clube da Esquina, pessoalmente eu o considero um tanto emblemático no sentido de apresentar alguns aspectos da sonoridade mineira. Aqui temos faixas que foram gravadas com o Uakti, reconhecido grupo de percussão e instrumentos inventados -- com um pé na luthieria experimental de Walter Smetak, diga-se de passagem -- e com o grupo de percussão conhecido como Tabinha, formado por crianças e adolescentes do bairro Patrimônio, de Uberlândia. Este registro traz uma combinação muito interessante de cânticos tradicionais e caipiras do folclore mineiro -- tais como "Cálix Bento", "Tá Caindo Fulô" e "Folia Pena Branca" -- com temas originais compostos por Marco Antônio Guimarães (líder do Uakti) em parceria com o próprio Milton Nascimento, além de uma canção do cantor Luis Dillah. A participação composicional de Milton pode ser sentida nas faixas "Circo Marimbondo", "Dança Dos Meninos" e "Lágrima Do Sul". Um álbum que capta bem essa ponte mineira da percussão folclórica, das folias e cantigas caipiras com a canção e o instrumental contemporâneos -- e, como o próprio título sugere, tenta captar nuances e atmosferas do cerrado mineiro ao referir-se à uma planta medicinal chamada mulungu, famosa por suas propriedades calmantes e relaxantes. O grupo Uakti foi um frequente colaborador em diversas gravações de Milton Nascimento a partir dos anos 80.


 
Ouro de Minas (Universal Music, 2009)/ Cordas Mineiras (Tratore, 2010). Entre 2009 e 2010 o contrabaixista mineiro Dudu Lima e seu trio lançaram dois verdadeiros tratados com base no cancioneiro do Clube da Esquina. Ouro de Minas e Cordas Mineiras. Cordas Mineiras apresenta nove canções, todas na linguagem instrumental: desse total, três delas, "Benito" (com participação especial de Toninho Horta), "Alma" e "Mr. Jordan" (em homenagem a Stanley Jordan), são assinadas pelo próprio Dudu Lima; as outras seis são "Amor de Índio" (Beto Guedes/ Ronaldo Bastos), "Vento de Maio" (Lô Borges/ Marcio Borges), "Céu de Minas" (Luiz Leite), "Luar do Caçador" (Chico Curzio), "Baião Barroco" (Juarez Moreira) e "Trenzinho do Caipira" (Heitor Villa-Lobos). Já em Ouro de Minas -- que teve dois volumes lançados, sendo o segundo volume lançado em 2014 com o subtítulo de "Gran Circo" --, Dudu Lima homenageou Flávio Venturini, Milton Nascimento e João Bosco, os quais também participam como colaboradores: de Venturini foi inclusa neste primeiro volume "Nascente"; de Bosco foram inclusas as canções "Corsário", "Bala com Bala" e "O Ronco da Cuíca"; enquanto de Nascimento foram inclusas "Um Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco", "Fé Cega", "Faca Amolada" e "Cravo e Canela". Enfim, como se pode presenciar, Dudu Lima, que já vinha de uma prolífica carreira como contrabaixista, acaba por reafirmar seu talento nos meandros da composição e concretiza-se como um estudioso do inovador cancioneiro da sua terra-mãe Minas Gerais. Enquanto instrumentista, ele enfatiza o contrabaixo como o principal instrumento solista dentro da banda, colocando-o no centro e em todas as linhas de frente: é muito interessante, por exemplo, como ele atua no suporte harmônico usando o contrabaixo elétrico como se este fosse um violão ou um piano, isso sem contar seus solos que são, ao mesmo tempo, virtuosos e líricos. Dentre as técnicas musicais utilizadas pode-se observar o "tapping", técnica ampliada pelo legendário guitarrista americano Stanley Jordan, amigo e constante parceiro de Dudu Lima.
Orquestra Ouro Preto - Quem Perguntou Por Mim (Tratore, 2019). Fernando Brant, falecido em 2015, foi um dos letristas centrais do Clube da Esquina e um dos principais parceiros de Milton Nascimento em várias das suas clássicas canções. Este álbum, pois, veio com o intuito de homenagear essa parceria icônica. Aqui temos um projeto orquestral idealizado pelo maestro Rodrigo Toffolo para sua Orquestra Ouro Preto que compreende em praticamente traçar uma trilha sonora cinematográfica através de releituras de cações como "Travessia", "Canção da América", "Ponta de Areia", "Encontros e Despedidas", "Milagre dos Peixes", entre outras. Também participa, ao lado dessa orquestra sediada na histórica cidade de Ouro Preto, a cantora mineira Leopoldina. Os arranjos orquestrais são de Mateus Freire e compreendem em basicamente trabalhar com uma banda com guitarra elétrica, baixo elétrico e bateria sendo acompanhada por um corpo orquestral formado por cordas. O espetáculo foi gravado em 2019 ao vivo no Grande Teatro do Sesc Palladium, em Belo Horizonte, e continua sendo apresentado em teatros e palcos históricos de Ouro Preto, como a barroca Igreja Nossa Senhora do Carmo. Interessante como que Rodrigo Toffolo e Mateus Freire fizeram questão de enfatizar a riqueza rítmica e a conexão com o pop-rock em combinação com uma orquestração mais "sinfônica".

Casa de Bituca - Música de Milton Nascimento (Biscoito Fino, 2017). O bandolinista Hamilton de Holanda, um dos músicos brasileiros de maior prestígio nacional e internacional, emergiu do choro de Pixinguinha e Jacob do Bandolim, mas expandiu suas abordagens para muito além dos horizontes tradicionais das rodas de choro e da música brasilianista pradonizada. Basta apreciar, por exemplo, seu projeto Brasilianos para constatar como que Hamilton, com uma visceralidade e desenvoltura fora de série, sai do choro, passa pela MPB e incorpora inovações instrumentais herméticas e gismontianas e vai até a fluência improvisativa do jazz contemporâneo -- trata-se, de fato, de um dos inovadores e renovadores do instrumental brasileiro. E este álbum é mais um exemplo dessa versatilidade e dessa visceralidade. Hamilton convoca aqui seu emblemático quinteto -- com André Vasconcelos (baixo acústico), Gabriel Grossi (harmônica), Márcio Bahia (bateria) e Daniel Santiago (violão) -- e aplica alguns dos melhores arranjos e releituras para as canções de Milton Nascimento que se pode encontrar no vasto universo da música instrumental brasileira. Até pela sua característica de virtuose com total fluência no jazz contemporâneo, não parece ser do feitio de Hamilton romantizar o melodismo e a melancolia que algumas canções de Milton e do Clube Esquina exprimem -- e convenhamos, aliás, que essa cristalização de releituras que enfatizam apenas esse lirismo melodista acaba se tornando mais um pastiche repetitivo e limitante do que propriamente uma virtude. Ao contrário, Hamilton e seu quinteto aplicam releituras viscerais, virtuosísticas, cheias de arranjos, sobreposições e improvisos jazzísticos contemporâneos, sem deixar a peteca cair no âmbito rítmico. Sendo assim, essas versões instrumentais de canções como "Clube da Esquina Nº 2", "Ponta de Areia", "Canção da América" e "Vera Cruz" acabam soando diferentes, despojadas e contemporâneas -- quer dizer: a sensibilidade melódico-harmônica das canções de Milton ainda ficam bem latente nessas releituras, porém elas soam mais como "temas" instrumentais rebuscados do que como "canções" líricas. Este exemplar acústico é dos melhores registros brasileiros de releituras em muito tempo. A escolha do repertório também é inteligente: Hamilton evita de rechear o álbum apenas com o "crème de lá crème" da lista de canções mais líricas de Milton, e escolhe outros títulos tais como "Bicho Homem", "Bola de Meia, Bola de Gude", entre outras, as quais são mais despojadas e oferecem maior potencial de serem retrabalhadas por seu Quinteto em rítmicas animadas e arranjos rebuscados. Interessante, também, é apresentação que Hamilton faz do seu canto vocal na faixa "Mar de Indiferença" -- uma das primeiras e únicas exposições vocais do bandolinista.

André Mehmari Trio - Na Esquina do Clube com o Sol na Cabeça (Tratore, 2019). Em 2008, o pianista André Mehmari já havia lançado o álbum em piano solo intitulado "MPbaby - Clube da Esquina", parte de uma série infantil e educativa (para pais e filhos, na verdade) empreendida pela gravadora MCD -- um álbum infantil de piano solo, mas que combina singeleza com primor, uma indicação indireta aos diletantes interessados. Já em Na Esquina do Clube com o Sol na Cabeça, Mehmari cria um espécime sonoro dos mais surpreendentes da música instrumental brasileira nestes últimos anos. O pianista e seu Trio praticamente elaboram um trabalho onde o conceito de "sound design" extrapola os limites da contemporaneidade em torno das melodias do Clube da Esquina. E pessoalmente uso aqui o termo "sound design" -- um conceito que os DJ's e manipuladores eletrônicos mais apegados à eletroacústica criativa usam muito no âmbito da música contemporânea para se definirem como "designer de sons" ao invés de "músicos" --, porque Mehmari é, também, é um dos mais criativos programadores e manipuladores de teclados, sintetizadores e moduladores eletrônicos que atualmente temos notícia, e aqui ele usa essa sua sensibilidade para praticamente "esculpir" o hibridismo de sonoridades acústicas e eletrônicas e criar nuances e atmosferas não menos que surpreendentes. Aliás, esse trabalho que Mehmari tem realizado de trazer seu instrumental brasilianista para o plano da eletrônica contemporânea é algo que não encontra muitos precedentes no cenário musical brasileiro nessas primeiras décadas do século 21 -- e não encontra, também, muitos paralelos: a não ser pela presença de músicos da própria geração de jovens instrumentistas mineiros, tais como Rafael Martini e Antonio Loureiro, que são descendentes diretos do Clube da Esquina e também têm colocado a elaboração de nuances e efeitos eletrônicos como um sedimento importante em suas criações. André Mehmari elabora neste álbum acima, então, releituras para 12 das canções do Clube da Esquina que estão presentes nos clássicos álbuns homônimos que modernizaram ainda mais a canção brasileira nos anos 70: Clube da Esquina (EMI-Odeon, 1972) idealizado por Lô Borges, e Clube da Esquina 2 (EMI, 1978) idealizado por Milton Nascimento. Em cada uma das releituras instrumentais, Mehmari aplica arranjos repletos de elementos do jazz contemporâneo, abstrações e improvisos livres, samples e criativas nuances e atmosferas eletrônicas que só potencializam ainda mais as possibilidades melódicas, harmônicas e timbrísticas que essas canções já naturalmente dispõem. Outra observação é que André Mehmari, apesar de ser um melodista dos mais requintados, não se prende apenas ao fator do lirismo melódico das canções: ele equilibra a natural melodiosidade dessas canções com a riqueza de efeitos e improvisos, deixando a visceralidade e o virtuosismo -- dele e do seu trio -- correrem soltos, frequentemente aplicando dinâmicas entre passagens mais suaves e outras mais expansivas, entre rítmicas brasileiras amalgamadas e rítmicas jazzísticas sortidas. O trio é formado por André Mehmari (piano, órgão, sintetizadores e diversos outros instrumentos), Neymar Dias (baixos elétrico e acústico e viola caipira) e Sérgio Reze (bateria e percussão). Cada um dos músicos varia bem as possibilidades timbrísticas e harmônicas de seus instrumentos, criando diversas passagens interessantes para cada uma das canções: o piano e teclados de Mehmari soam indescritivelmente híbridos; Neymar Dias em algumas passagens usa o arco para potencializar os graves e, em outras, enxerta ágeis solos improvisados em pizzicato; assim como Sérgio Reze faz da sua bateria não apenas um instrumento rítmico, mas um instrumento timbrístico e harmônico ao ampliar as possibilidades com efeitos com vassourinhas, pratos e percussão. Ademais, há duas faixas acústicas -- sem o uso de samples e efeitos eletrônicos -- que Mehmari deixa disponível entre as 12 faixas: a canção "Me Deixa em Paz", que ganha uma releitura ao estilo samba-jazz; e a canção "Paixão e Fé", que ganha uma releitura em piano solo onde o pianista discorre improvisos adentro de forma variavelmente rica e impressionista através de uma variedade de tons, citações e improvisações livres.

André Marques e a Vintena Brasileira - Bituca (Tratore, 2015). Este fantástico registro instrumental traz a orquestra Vintena Brasileira -- sediada no Conservatório Musical de Tatuí (SP) como um projeto do pianista e professor André Marques -- em 11 releituras idiossincráticas das canções de Milton Nascimento -- carinhosamente apelidado de Bituca desde seus tempos juvenis. Quem acompanha a carreira de André Marques sabe que o pianista é fortemente influenciado por sua relação direta com o Hermeto Pascoal & Grupo, vindo a desenvolver, a partir de influências trazidas do mestre Hermeto adicionadas às suas próprias ideias, uma orquestração extremamente rica e detalhista com a Vintena Brasileira. Arranjos incomuns com triângulo, pandeiro, sanfona, violino, rabeca, cordas, cavaquinho e vocalises a La Flora Purim são surpreendentemente amalgamados entre os sopros de uma suposta "big band" -- que, na verdade, não é uma big band esteticamente falando, e também não é uma orquestra de câmera convencional, mas um conjunto orquestral híbrido tanto de possibilidades eruditas quanto de possibilidades populares e jazzísticas. Na terceira e quarta faixas, por exemplo, o pianista cria uma introdução e um medley para as releituras das canções "Cravo e Canela" e "Maria e Três Filhos" cheia de experimentação hermética: improvisos livres, jazz contemporâneo, vocalises e expansivas divagações sertanistas a La Hermeto são algumas das variabilidades encontradas nesta faixa. Já na quinta faixa, André Marques cria uma interessante releitura vocal, ao estilo acapella, para a canção "Meu Veneno". Com tanta riqueza de detalhes brasilianistas -- característica primordial nesse conceito de "música universal" cunhado por Hermeto & Grupo --, aqui temos uma releitura do songbook de Milton Nascimento que é um ponto fora da curva em relação às demais releituras que enfatizam mais a estética melodista do Clube da Esquina. E este registro é, também, uma boa pedida para conhecer como André Marques e a Vintena Brasileira contribui sobremaneira para ampliar as possibilidades de arranjos nos meandros da orquestração brasileira.

Antonio Adolfo - BruMa (mist) Celebrating Milton Nascimento (AAM, 2020). O pianista Antonio Adolfo é um dos músicos brasileiros mais celebrados no universo do jazz -- sua discografia é repleta de registros que evidenciam as variabilidades em torno da corrente rotulada como "brazilian jazz", descendente do movimento bossanovista. Dotado de uma notável sensibilidade para a improvisação, Adolfo e seu piano-trio escala uma banda com guitarras e violão, trompete, trombone, flauta, saxofones e percussão para dar versões com levadas jazzísticas -- com variabilidades abrasileiradas de bebop, samba-jazz e funky e diversas rítmicas brasileiras implícitas -- para algumas das principais canções do songbook de Milton Nascimento. O título é uma alusão à Mariana e Brumadinho, municípios de Minas Gerais que em 2015 e 2019 foram devastados pelos desastres de rompimento das barragens da Samarco Mineração S.A e da Vale S.A, respectivamente, sendo um registro onde o pianista dedica esses seus arranjos jazzísticos sobre as canções de Milton como um alento em lembrança às vítimas e ao prejuízo causado por esses dois desastres ambientais. A releitura jazzística da canção "Encontro e Despedidas" é um exemplo de balada tristemente bela que evoca essa consternação. Mas o álbum também é repleto de momentos evocativos mais animados. A seleção de canções inclui "Nada Será como Antes", "Três Pontas", "Outubro", "Canção do sal" e "Tristesse". A banda que acompanha o pianista é formada por Lula Galvão (guitarra), Léo Amuedo (guitarra), Jorge Helder (baixo) André Vasconcellos (baixo), Rafael Barata (bateria e percussão), Dadá Costa (percussão), Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Marcelo Martins (flauta e sax tenor), Danilo Sinna (sax alto), Rafael Rocha (trombone) e Cláudio Spiewak (guitarra, violão e percussão).

Flávio Venturini, Neto Belloto & Quinteto DoContra - Paraíso (Tratore, 2019). Este belo registro documenta a parceria do cantor Flávio Venturini -- uma das vozes centrais do Clube da Esquina -- com o quinteto de contrabaixos DoContra formado por contrabaixistas da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Nas décadas posteriores ao surgimento do Clube da Esquina, Flávio Venturini se tornou uma das vozes mais distintas desse coletivo de cantores mineiros com suas canções marcantes mais próximas à uma inovadora roupagem pop. E aqui neste registro temos esse encontro dessas canções pop tendo a banda de apoio do cantor sendo acompanhada pelo Quinteto DoContra e a Orquestra Sesiminas: o registro é cheio arranjos eruditos de cordas, vozes e instrumentação sinfônica com solos de oboé, trompete e vibrafone. A lista de canções de Venturini que aqui ganham novas versões inclui "Nascente", "Espanhola", "Todo Azul do Mar", "Noite Com Sol", "Planeta Sonho" e "Belo Horizonte". Muito interessante essa junção de voz, quinteto de contrabaixos (!) e arranjos orquestrais.

Milton Nascimento & Orquestra Jazz Sinfônica - Amigo (Warner Music Brasil, 2006). Esta gravação foi registrada em 1994 e reúne o próprio Milton Nascimento ao piano e voz sendo acompanhado pela Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo e dois excelentes conjuntos vocais: os corais infantis Rouxinóis de Divinópolis e Crianças do Programa Curumim. Sendo um registro que dá novas versões para algumas das principais canções de Milton através da junção de arranjos orquestrais com as possibilidades vocais do canto acapella, este álbum também reúne algumas canções que o compositor mineiro criou em parceria com outros nomes importantes da música brasileira, tais como "Coração De Estudante" (composta em parceria com Wagner Tiso), "O Cio Da Terra" (composta em parceria com Chico Buarque) e "Paula E Bebeto" (composta em parceria com Caetano Veloso). O coral Rouxinóis de Divinópolis foi formado em 1964 na cidade de Divinópolis (MG) pelo maestro Tonico Gontijo e é um conjunto de vozes (composto exclusivamente por garotos de 7 a 14 anos) que empreende uma curiosa mistura de canto popular com o canto religioso descendente da histórica música sacra e barroca mineira. A ligação de Milton Nascimento com o Rouxinóis de Divinópolis é antiga: data-se da produção do álbum Clube da Esquina 2 (EMI, 1978), onde o compositor mineiro escalou o coral pra mostrar sua predileção por essa estética sacra mineira; e no seu álbum Nascimento (Warner, 1997) o cantor apresenta uma clara homenagem ao distinto coral com a canção "Rouxinóis". Já o coro infantil Curumim apresenta vozes de 20 crianças e é fruto de um programa homônimo mantido na época da gravação pelo governo estadual mineiro. Nove das doze canções são de Milton Nascimento, mas a produção também incluiu três outros temas para temperar o molho: "Panis Angelicus" (do compositor e organista francês César Franck), "Eu Sei Que Vou Te Amar" (de Tom Jobim e Vinícius) e "Simples" (de Nelson Angelo).

Flores, Janelas e Quintais - "Homenagem a Milton Nascimento" (Kuarup, 2020). A Orquestra do Estado de Mato Grosso é um conjunto que vai do popular ao erudito com singular sonoridade e desenvoltura, tendo gravado diversos álbuns com arranjos sinfônicos para temas populares em parcerias com diversos cantores e instrumentistas de renome. Este álbum é um projeto do excelente trombonista Vittor Santos e foi lançado em 2020 pela Gravadora Kuarup. Vittor Santos reúne aqui algumas das principais canções que Milton Nascimento compôs com seus amigos Fernando Brant, Lô Borges e Márcio Borges e outros companheiros do Clube da Esquina: "Barulho de Trem", "Canção da América", "Clube da Esquina 2", "Cravo e Canela", "Encontros e Despedidas", "Nos Bailes da Vida", "Ponta de Areia" e a emocionante "Travessia". Os arranjos e solos de trombone são de Vittor Santos. A regência fica a cargo do maestro Leandro Carvalho. A maioria dos arranjos trazem ecos bossanovistas ou levadas de samba-jazz, o que distoa um pouco com o caráter universal das canções de Milton. Mas, no geral, o álbum soa belo e agradável: com suaves e melódicos solos de trombone e várias passagens com arranjos inteligentes de sopros e cordas. 

Tavinho Moura Sinfônico (Dubas, 2004). Tavinho Moura é um dos grandes compositores e pesquisadores dentro do núcleo criativo do Clube da Esquina. Tomando um caminho menos pop que seus amigos, Tavinho Moura criou um songbook particular de canções as quais são consideradas verdadeiras joias no âmbito das ressignificações de adereços do folclore mineiro, das folias religiosas e do uso de temáticas da fauna e flora mineira. Tavinho Moura também é um notável compositor de trilhas sonoras -- e, de fato, podemos perceber como algumas das suas canções soam imageticamente cinematográficas. Este álbum, com releituras sinfônicas das suas canções, evidencia essa áurea cinematográfica que busca dar valor para as sinestesias e nostalgias em torno da poética de Minas Gerais. Gravado ao vivo no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, de 12 a 16 de abril de 2004, este registro traz uma colaboração de Wagner Tiso -- genial compositor e tecladista do Clube da Esquina -- como arranjador e maestro à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, dando versões sinfônicas para 16 das canções desse grande compositor e cancionista que foi Tavinho Moura. As releituras aqui soam mais formais e soam, de fato, sinfônicas -- um pouco mais distante da sonoridade popular. Mas, ainda assim, evidenciam tons melódicos marcantes que vão construindo imagens de uma Minas Gerais histórica, musical e cheia de belas paisagens.