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Música Instrumental Brasileira no Século 21 - Hermeto Pascoal, Itiberê Zwarg, André Marques, Carlos Malta e grupos

Nesta série de posts sobre a música instrumental brasileira indico alguns dos mais representativos músicos, grupos e compositores tupiniquins e seus registros significativos. Neste post, indico o mestre Hermeto Pascoal e trabalhos dos seus colaboradores pioneiros da sua colorida "música universal". Na ativa desde o final dos anos 60, o compositor e multi instrumentista Hermeto Pascoal é, em minha opinião, o maior ícone da música instrumental brasileira e um dos maiores músicos e compositores de todos os tempos. Sua criatividade tem sido, desde sempre, sem limites -- a ponto de Miles Davis dizer que "se tivesse a chance de nascer de novo, ele queria ser como Hermeto Pascoal". No início dos anos 70, Hermeto esteve em solo americano e tocou com Miles Davis e Donald Byrd, dois trompetistas e criadores musicais que inovaram o jazz fusion e jazz-funk, respectivamente. De lá para cá, sua criatividade tem sido ilimitada: tocando os mais variados instrumentos e se aproveitando dos sons do corpo, da natureza, de brinquedos e objetos, dos animais e usando improvisos livres, Hermeto incorporou os instrumentos elétricos do jazz fusion e estudou e transverteu uma infinidade de ritmos brasileiros -- principalmente os ritmos sudestinos e nordestinos (samba, xote, baião, maracatu, embolada, frevo e etc) -- numa linguagem contemporânea que ele chamou de "música universal" e que revolucionou a música instrumental brasileira, além de inspirar a MPB revolucionando as sonoridades do Tropicalismo. E o que é ainda mais surpreendente é a regularidade e longevidade com as quais Hermeto tem influenciado uma legião de músicos criativos. Nas últimas duas décadas, mesmo chegando na casa dos 70 anos de idade -- hoje ele já é octogenário, diga-se de passagem --, nosso Mago dos Sons ainda tem lançado álbuns impactantes e adentrou o século 21 como um dos mais ativos e geniais compositores em nível mundial. E três dos mais legendários músicos que foram influenciados por Hermeto e que surgiram com registros entre meados dos anos 90 e início dos anos 2000 são o contrabaixista Itiberê Zwarg, o flautista/clarinetista/saxofonista Carlos Malta e o pianista André Marques. O contrabaixista Itiberê Zwarg ficou conhecido por suas oficinas culturais no Seminário de Música Pro-Arte, no Rio de Janeiro, onde montou um "ensemble" com seus alunos e filhos que se chamou de Itiberê Orquestra Família, banda que tornou um marco da estética hermética de "música universal". Carlos Malta tem explorado aspectos e estéticas mais tradicionais tais como a música indígena, o pife nordestino, o choro, a música das antigas bandinhas de coreto, o cancioneiro de Dorival Caymmi, entre outros elementos. André Marques, por sua vez, tem feito uma junção do conceito de "música universal" com o jazz contemporâneo (mais próximo da estética do neo-bop e post-bop que marcou o jazz americano nas últimas décadas, diga-se de passagem), mas sem perder o linguajar brasileiro e sem deixar de explorar diversos adereços dos regionalismos brasileiros. Abaixo indico alguns álbuns destes gênios: álbuns que iniciam a música instrumental brasileira no século 21, numa fase pós moderna que poderá ficar conhecida como uma das mais diversificadas e criativas da história da música brasileira.




Além das abordagens interessantes , estes álbuns mostram que o conceito de "música universal" criado por Hermeto Pascoal, que foi a principal força-motriz inovadora da música instrumental brasileira nas últimas décadas, ainda é a principal fonte inovadora para estas duas primeiras décadas século 21 -- são discos que, resumindo, atualizam o conceito hermético de "música universal" para os ouvidos deste início de século. Mundo Verde Esperança (Rob Digital, 2003) é composto de 15 faixas, com 14 delas sendo dedicadas aos netos e bisnetos do Mago -- a exceção é a faixa Victor Assis Brasil, dedicada ao músico falecido em 1981, aos 36 anos. Mundo Verde Esperança, enfim, tem as características que marcam a genial estética de Hermeto Pascoal: harmonias avançadas, os mais variados ritmos brasileiros elevados ao máximo da arritmia e da angularidade, improvisos entrelaçados com os mais diversos instrumentos e objetos sonoros, acompanhamentos vocais e vocalises contemporâneos que evocam as tradicionais cantigas brasileiras e uma composição bem estruturada que funde o improviso com a composição escrita num amálgama surpreendente de gêneros e subgêneros tradicionais do Brasil, mas tudo isso transvestido numa sonoridade contemporânea à frente do tempo. Já o álbum duplo Calendário do Som (Maritaca, 2005) -- lançado por Itiberê Zwarg, contrabaixista do Hermeto Pascoal & Grupo --, traz a Itiberê Orquestra Família interpretando 27 das 366 músicas que Hermeto compôs durante um ano, um tema para cada dia do ano, na intenção, segundo o próprio mestre, de homenagear todas as pessoas do mundo, incluindo as nascidas no bissexto 29 de fevereiro. Destaques para os arranjos, as aberturas para os improvisos e as interações pessoais propostas por Itiberê, com ecos no conceito camerístico-popular brasileiro através de instrumentos como o violino, o cello e a clarineta. Recentemente o mestre Itiberê lançou três álbuns que são de audições obrigatórias para os aficionados em música instrumental brasileira: o registro em big band Itiberê Zwarg & Universal Music Orchestra (Biscoito Fino, 2017); o Pedra do Espia (Far Out Recordings, 2018), com a Itiberê Orquestra Família; e o álbum Intuitivo (Selo Sesc, 2018), com o compacto grupo Itiberê & Grupo. Ademais, recentemente o mestre Hermeto Pascoal lançou o álbum Natureza Universal (Scubidu Music, 2017) , um projeto inédito na carreira do Mago dos Sons onde ele arranjos das suas composições para o formato de big band, uma vez que ele ainda não tinha explorado este formato instrumental. O ábum Natureza Universal ganhou o Grammy Latino em 2018 na categoria de de Melhor Album de Jazz.




Entre outros projetos, três combos instrumentais estão ligados ao pianista, compositor e arranjador André Marques: o Trio Curupira, o "ensemble" Vintena Brasileira e o André Marques Sexteto -- grupos que partem da música universal hermética mas já adquire características próprias. O piano trio Curupira -- formado por André Marques ao piano, Ricardo Zohyo (que foi substituído por Fábio Gouvêa em 2002) no contrabaixo e Cleber Almeida na bateria, os quais também se revezam em outros instrumentos como violão, pife, rabeca, acordeon e quites de percussão --, faz uma ponte entre os ritmos e adereços regionais da música brasileira com o resquícios mínimos do jazz contemporâneo dos piano-trios americanos e é um dos mais aclamados combos brasileiros das últimas décadas, tendo cinco álbuns lançados: Curupira (Jam Music, 1999), Desinventado (Jam Music, 2003), Pés no Brasil, Cabeça no Mundo (MDR Records, 2007), Janela (Independente, 2013) e Vinte (Independente, 2016), este último com participações especiais de Arismar do Espírito Santo, Gabriel Grossi, Hamílton de Holanda, Hermeto Pascoal, Itiberê Zwarg, dentre outros. O "ensemble" Vintena Brasileira é uma espécie de orquestra que nasceu em 2003, quando André Marques teve a ideia de criar uma oficina de ritmos brasileiros com talentosos músicos formados pelo Conservatório Musical de Tatuí, no interior de São Paulo. A estética da orquestra abrange do folclore ao erudito, passando pelas improvisações do jazz contemporâneo americano (mas com linguagem brasileira), pelos ritmos brasileiros (como baião, frevo, maracatu, entre outros) e com melodias de diferentes influências, como árabe, indiana, flamenca, entre outras. Com uma formação que permite unir aspectos da música instrumental popular e da música erudita, a formação da Vintena Brasileira conta com violinos, violoncelos e flautas, mas também com guitarras elétricas, bandolim, viola caipira, percussão, entre outros. A Vintena já tem 4 CDs lançados: De Baque às Avessas (Independente, 2006), Labirinto (Independente, 2010), Bituca (Independente, 2013) sendo este uma homenagem ao grande cantor e compositor Milton Nascimento e (r)Existir (Matraca Records, 2018), este último representando a difícil faceta que é um grupo de grande porte continuar existindo após 15 anos de existência -- e muitas vezes quase sendo extinto --, sem nenhum tipo de patrocínio e tendo muitos integrantes que enfrentam dificuldades para se deslocar, para mostrar sua música e até para conseguir locais para ensaio. O álbum (re)Existir tem participações especiais de Mônica Salmaso e Arismar do Espírito Santo. Já com o Sexteto, André Marques conecta os mais variados rimos brasileiros com o jazz contemporâneo num estilo de arranjo para um combo compacto com sopros (trompete e trombone), guitarra, piano, contrabaixo e bateria. Normalmente os instrumentos de sopros tem função melódica enquanto o piano e a guitarra, função harmônica. No André Marques Sexteto, na maioria dos arranjos, essas funções são invertidas.

O flautista e multi instrumentista Carlos Malta, também um dos muitos discípulos de Hermeto Pascoal, tem mostrado uma carreira própria e consagrada com base em suas pesquisas e releituras requintadas do cancioneiro popular e dos regionalismos brasileiros, além do pioneirismo exploratório em torno das técnicas de sopro dos saxofones, clarinetas e dos mais variados tipos de flautas. Além do cancioneiro popular, Malta mostra interessantes abordagens através do uso de elementos e estilos diversos da cultura brasileira como o pife, as marchinhas, o frevo, o maracatu, o samba, o choro, a MPB, o brazilian jazz e afins. Nas últimas décadas, Carlos Malta vem evidenciando, enfim, formações peculiares para mostrar suas abordagens: como a banda Pife Muderno (zabumba, pandeiro, pífanos indígenas, bateria e percussões afins), que resgata o estilo dos conjuntos de pífanos nordestinos, como bem se pode conferir nos álbuns Paru (Delira Musica, 2006) e Carlos Malta e Pife Muderno Ao Vivo na China (Artist Music/ Delira Music, 2011/ 2015); e a interessante Coreto Urbano (com percussão, saxofones, flautas, trombone, bombardino, trompete, tuba e instrumentos de sopro afins), essa que resgata o estilo das antigas bandinhas de coreto com suas marchas, frevos, pagodes e maracatus, como bem se pode verificar no álbum Tudo Coreto (Rob Digital, 2001). Para quem quer conferir releituras de temas do cancioneiro popular, indico os álbum Pimenta ( Delira Musica, 2000) com releituras sobre diversas canções da MPB numa clara homenagem à Elis Regina, e o álbum O Mar Amor (Deckdisc, 2018), onde o multi instrumentista faz uma releitura das canções praieiras do compositor baiano Dorival Caymmi. Para quem busca um trabalho menos revivalista e mais pessoal e exploratório, basta ouvir o álbum Prana (Delira Musica, 2011) onde ele explora, em atuação solo, as variadas técnicas de sopros em flautas.






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