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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (06) 

 

★★★★ - Kris Davis & Lutosławski 4tet- Solastalgia Suite (Pyroclastic 2026)
A pianista e compositora canadense-americana Kris Davis, que tem se destacado com seu ensemble de 10 integrantes Diatom Ribbons e com seu piano-trio com o baterista Jonathan Blake e o contrabaixista Robert Hurst, agora lança um projeto numa direção um tanto diferente. Trata-se deste álbum chamado The Solastalgia Suite, que traz uma interessante suíte em oito partes que ela escreveu para piano e quarteto de cordas, aqui com o excelente Quarteto de Cordas Lutosławski, da Polônia, e com ela mesma ao piano. A peça foi uma encomenda do Festival Jazztopad, em Wrocław, e o álbum está sendo lançado pela Pyroclastic Records, influente gravadora de propriedade da própria pianista. O quarteto é formado por Roksana Kwaśnikowska (primeiro violino), Marcin Markowicz (segundo violino), Artur Rozmysłowicz (viola) e Maciej Młodawski (violoncelo), e é reconhecido internacionalmente por suas interpretações afiadas do repertório moderno e contemporâneo, bem como por sua afinidade com a obra do grande compositor polonês Witold Lutosławski. Pois eis que a pianista, ao receber a encomenda, tratou logo de compor uma peça em que elementos do jazz contemporâneo coexistissem com elementos da música erudita moderna, sendo essa sua primeira composição nesse formato camerístico ampliado. A suíte foi estreada e gravada ao vivo em 23 de novembro de 2024, no Jazztopad Festival, na Polônia, e já teve apresentações subsequentes no Dizzy’s Club, no Jazz at Lincoln Center, em Nova York, e agora o respectivo álbum tende a ser um dos registros mais interessantes de 2026. O conceito central da peça deriva do termo "solastalgia", cunhado pelo filósofo ambiental Glenn Albrecht para descrever o luto, a angústia e o deslocamento psicológico que a degradação ambiental causa nas pessoas: a pianista teve esse insight ao observar que as degradações ambientais ocorridas em seu país natal, o Canadá, mudaram radicalmente a natureza e, consequentemente, mudaram a aura na relação da população com o meio ambiente. Estruturada em oito movimentos interligados, a suíte funciona como um arco narrativo contínuo que explora diferentes estados emocionais e paisagens sonoras, alternando passagens entre contemplação e angústia, espaçamentos e mudanças abruptas, tensão e melancolia, lirismo e densidade rítmica, imagetismo e rarefação espacial, tudo para evocar aspectos sensoriais e emocionais da relação conflituosa entre a alma humana e o meio ambiente. Tecnicamente, a peça é majoritariamente escrita e traz sobreposições contrapontos entre piano e cordas muito bem estruturados previamente em pauta, mas há pontos em que ela combina escrita rigorosa com improvisação controlada, além do uso extensivo de texturas atonais, harmonias rarefeitas, espaçamentos, ataques percussivos e efeitos sonoros bem pensados para evocar as tais sensações de "solastalgia". Em momentos específicos —— como em Towards No Earthly Pole ——, a pianista usa técnicas de piano preparado e os músicos do quarteto utilizam técnicas estendidas e recursos específicos nas cordas para criar tais efeitos, fazendo uso de recursos como harmônicos agudos, arranhaduras, staccatos agressivos, sul ponticello e sobreposições de massas sonoras em camadas. Para compor essa peça, Kris Davis abstraiu inspirações do tom apocalíptico emanado pela emblemática e histórica peça Quatuor pour la fin du temps, do compositor erudito francês Olivier Messiaen, e das ideias composicionais inovadoras do compositor de jazz Henry Threadgill, com quem ela estudou, abstraindo ideias singulares de lógica modular, elasticidade, sinergia entre improviso e composição, recusa de resoluções convencionais e coexistência de todos os instrumentos do ensemble como um só organismo. O piano de Kris Davis e as cordas do Lutosławski Quartet, enfim, tanto representam o ser humano e o meio ambiente em seus conflitos como também representam um só organismo vivo a contracenar diferentes emoções, sensações e climas. Esse será um dos álbuns a figurar entre os melhores de 2026!!!

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100 anos de Morton Feldman. Efeméride & Utopia: um convite para assimilar a vanguarda do silêncio e som no espaço

 
O compositor americano Morton Feldman —— nascido em Nova York, em 12 de janeiro de 1926 e falecido na cidade de Buffalo, em 3 de setembro de 1987 —— tinha 61 anos quando faleceu e teria hoje 100 anos se estivesse vivo. No Brasil, sua obra segue quase que em total desprezo nos círculos e portais de música erudita. Mas sua música resiste e persiste como um marco inquestionável da vanguarda, especialmente nos EUA e Europa. E essa efeméride em torno do seu centenário se faz necessária para destacar sua obra como um dos pontos mais fora da curva do avant-garde erudito. Fetichistas do minimalismo ainda tentam equivocamente enquadrar a música desse compositor dentro do mesmo mantra sonoro de compositores como Moondog, La Monte Young, Terry Riley, Steve Reich e Philip Glass. Mas para fãs de avant-garde, músicos, estudiosos e críticos dotados de sensatez, há uma conceitual diferença entre "indeterminismo" e "minimalismo", ainda que as duas estéticas prezem por certo reducionismo em suas distintas estruturas sonoras. O próprio Morton Feldman, aliás, rechaçava essa associação com os minimalistas, assim como rechaçava o protagonismo das técnicas do serialismo europeu, tratando logo de associar sua música ao movimento da arte abstrata americana, escolhendo por criar e conceituar sua própria trilha musical. O fato é que a obra de Morton Feldman constitui um dos capítulos mais radicais, contemplativos e conceituais da música moderna do século 20 e, agora em 2026, o centenário de seu nascimento não pode passar despercebido ante ao seu legado enquanto compositor da vanguarda nova-iorquina que se tornou um cânone da dissonância espaçada no tempo suspenso e como substância do espaço. Associado à chamada New York School —— ao lado de John Cage, Christian Wolff e Earle Brown ——, inicialmente Feldman formou-se como pianista e logo, em seguida, prezou pela composição através de aulas particulares com os compositores Wallingford Riegger e Stefan Wolpe. Um fato curioso, aliás, é que, embora ele tenha se tornado professor na Universidade de Buffalo em 1973, ele nunca se formou em uma universidade ou obteve qualquer diploma academêmico: um rebelde de genialidade autodidata, sua verdadeira "academia" foi o histórico Cedar Tavern —— um bar e restaurante que foi ponto de encontro de vários poetas, escritores, pintores e músicas de vanguarda —— em Greenwich Village, onde ele, John Cage e outros artistas discutiam sobre artes, conceito e estética musical. Isso o possibilitou, então, a desenvolver uma trajetória amplamente autônoma, em deliberada recusa às ortodoxias acadêmicas e ao serialismo europeu dominante. O encontro com John Cage em 1950 foi decisivo, introduzindo-o às ideias de indeterminação, notação experimental e escuta radical. Mas outro ponto a se frisar é que Feldman jamais aderiu aos conceitos de "música aleatória" e "acaso total" de Cage, seguindo uma busca própria e instigante que traria novas explorações dentro do conceito de "música indeterminada". Ademais é preciso frisar que a poética de Feldman segue atraindo novas mentes e corações dentre os compositores atuantes nestas últimas décadas. Vide, por exemplo, peças de compositores como o alemão Jakob Ullmann, a israelense Chaya Czernowin e o americano Tyshawn Sorey, que também é um aclamado baterista de jazz contemporâneo.

Diferentemente de John Cage que buscou o indeterminismo a partir do acaso e da aleatoriedade, a estética de Morton Feldman sempre buscou o indeterminismo através da liberação do som como substância do espaço onde a execução e escuta seja guiada por extrema atenção. Paralelamente, sua convivência com artistas do expressionismo abstrato —— Mark Rothko, Jackson Pollock e, sobretudo, Philip Guston —— moldou uma concepção do som como superfície, campo e presença, aproximando sua música mais da poética do som como abstração envolta no espaço do que da narrativa musical tradicional. Do ponto de vista técnico e estético, a linguagem de Feldman é marcada por dinâmicas quase sempre no limiar do silêncio, texturas delicadas, durações prolongadas e uma suspensão radical da percepção temporal, especialmente em suas obras tardias. Repetições com micro-variações substituem a ideia clássica de forma, criando superfícies sonoras que se transformam de maneira quase imperceptível, deslocando a atenção do "acontecimento", da percepção de motivos e eventos, para o ato prolongado de ouvir. Em termos de harmonia, suas notas espaçadas frequentemente apresentam sombreados atonais e dissonantes que, por causa dessa suspensão radical da percepção temporal, soam como névoas ou pulsos de paletas foscas, opacas, sombrias e sem forma a preencher o vácuo, numa clara associação com a poética abstracionista do pintor Mark Rothko. Aliada a essa poética, Feldman desenvolveu suas próprias ferramentas para causar mais indeterminismo na música. Não à toa, essa busca logo também incluiu os intérpretes como agentes transformadores nas conclusões das suas peças. Nos anos 1950 e 1960, o compositor foi pioneiro da notação gráfica experimental e da indeterminação controlada, como ocorre nas séries Projections (1950–51) e Durations (1960–61), bem como em obras como Intersection, Extension e Atlantis, que utilizam grids, campos temporais e indicações de registro, permitindo que os intérpretes escolham alturas, durações, sobreposições e, em alguns casos, a quantidade de eventos sonoros, intervindo ativamente na constituição do material musical durante a execução. Contudo, a partir da década de 1970, Feldman praticamente retorna à notação convencional para produzir uma sensação de imprecisão rítmica. Nesta fase, embora as alturas (notas) se tornem fixas e determinadas, ele utiliza arritmias espaçadas e proporções rítmicas inusuais que dissolvem qualquer pulso estável. Aqui, o indeterminismo desloca-se da escolha das notas para a articulação do tempo e do toque, onde a delicadeza da execução, a escuta atenta e até a hesitação do intérprete produzem variações perceptivas em tempo real, dessa vez sem a introdução de novo material no decorrer da execução das peças. Desse modo, sua fase tardia redefine ainda mais a direção da sua música para expandir percepções temporais estendidas com obras como: Triadic Memories (1981), para piano solo, com cerca de 90 minutos; String Quartet No. 2 (1983), frequentemente executado entre quatro e seis horas; For Philip Guston (com duração de 4 horas); Piano and String Quartet (1985); Five Pianos (1972), para múltiplos pianistas em camadas temporais independentes; e Rothko Chapel (1971), peça seminal para vozes, percussão, celesta e viola, que traduz musicalmente a experiência contemplativa da capela homônima em Houston. Feldman frequentemente comparava essas suas peças de estruturas expansivas a tapetes persas ou anatólios: não há desenvolvimento linear, mas padrões que retornam como "cópias imperfeitas", explorando a falha da memória e criando um estado meditativo de atenção prolongada. Com essas grandes telas de pintura sonora onde o som atinge longas durações ou se dissipa em meio ao vácuo, Feldman levou a atonalidade e a dissonância para um novo conceito de contemplação e meditação, um conceito poético —— e poderíamos dizer: até espiritual —— que é capaz de elevar o ouvinte aplicado a um estado etéreo de total suspensão do tempo.  

Dando sequência na nossa série "Atonalize-se", dedicada aqui no blog aos compositores da música erudita moderna, a ideia deste post é oferecer ao leitor uma introdução à obra singular de Morton Feldman, aproveitando o ensejo de seu centenário. Embora Feldman não seja amplamente cultuado ao nível de um compositor mainstream, é possível observar, em circuitos da música de vanguarda, a indelével influência que ele incutiu através de seus conceitos inovadores. Tendo trilhado caminhos praticamente conceituais, Feldman não é um compositor que tem suas peças inseridas com frequência nas programações dos grandes teatros, das grandes orquestras e dos ensembles mais afamados, tendo sua obra tocada muito ocasionalmente nos grandes palcos. Seu reconhecimento póstumo está hoje, portanto, restrito mais a universidades, museus, concertos e festivais de música contemporânea, mostras e circuitos de avant-garde, além de maratonas, debates e simpósios concentrados em espaços altamente especializados na música erudita moderna, destacando-se as apresentações imersivas e performances de suas peças de longa duração. Contudo, com o advento da internet, o legado do compositor só cresceu nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, o epicentro simbólico das celebrações em torno de seu centenário foi a Universidade de Buffalo, onde Feldman lecionou a partir dos anos 1970 e fundou o histórico June in Buffalo Festival. Ali, a mostra "Feldman@100", realizada especificamente em janeiro de 2026 sob a curadoria de David Felder, articulou concertos, mesas-redondas, análises e exibições de manuscritos, reafirmando o papel da instituição como guardiã de seu legado. O evento incluiu leituras de peças emblemáticas pelo fantástico JACK Quartet, pelo Horszowski Trio e pelo percussionista Jan Williams. Em Los Angeles, o coletivo Piano Spheres, em parceria com o Wende Museum, promoveu maratonas pianísticas com nomes como Vicki Ray, Mark Robson, Amy Williams, Nic Gerpe e Todd Moellenberg. Em programas que ultrapassaram seis horas de duração, obras como "For Bunita Marcus", "Crippled Symmetry", "Patterns in a Chromatic Field" e "Triadic Memories" foram executadas em sequência, transformando o concerto em uma rara experiência de escuta prolongada. Na Califórnia, destacou-se também o Other Minds Festival, em Oakland, onde a pianista Amy Williams reafirmou sua posição como uma das mais respeitadas intérpretes da obra do compositor com sua leitura de "Triadic Memories". Em Nova York, sua cidade natal e núcleo de sua relação com o expressionismo abstrato, a efeméride assumiu um caráter particularmente especial. Concertos no MoMA e no Miller Theatre (Columbia University) reforçaram o vínculo entre a música de Feldman e as artes visuais, tendo o seminal International Contemporary Ensemble (ICE) sob a regência do maestro e percussionsita Steven Schick executando peças emblemáticas como "Rothko Chapel" e "For Philip Guston", obra com mais de quatro horas de duração. Na Europa, Feldman tem o seu segundo epicentro de prestígio. Em Londres, a Royal Academy of Music dedicou parte de sua temporada de janeiro ao compositor através da curadoria da maestrina Sian Edwards, que incluiu a emblemática peça "Why Patterns?" em seu programa. Na Suíça, o Opernhaus Zürich explorou o conceito de som como substância do espaço com o Ensemble Opera Nova interpretando "For Philip Guston". Já em Portugal, o canal de rádio Antena 2 (RTP) abordou o compositor e o seminal Grupo de Música Contemporânea de Lisboa enfatizou seu centenário com concertos no CCB e no MAAT, incluindo no repertório a peça "Three Voices". E, por fim, estendendo-se ao Leste Europeu, a efeméride de Feldman ecoou na Sérvia, onde, em Belgrado, a Galerija Artget serviu de palco para a pianista Branka Parlić interpretar a peça "For Bunita Marcus". Vê-se, pois, que Feldman possui um reconhecimento sólido, ainda que restrito a circuitos específicos. Sua obra, enfim, nos imerge em uma redefinição profunda da experiência estética e auditiva através de seu conceito de som prolongado entre silêncios enquanto superfície do espaço e com sensação de suspensão do tempo, oferecendo-nos um contraponto um tanto meditativo em relação a este nosso caótico século 21 saturado de estímulos. Em relação à distopia atual deste mundo agonizado por ansiedades e frenesi algorítmico, a música de Feldman é praticamente uma utopia para céticos e outsiders. Abaixo, destaco alguns registros com as emblemáticas peças do compositor. Ouça!!!


Piano & String Quartet - Florence Millet & JACK Quartet (bastille musique, 2026). Este álbum recém lançado é o trigésimo nono lançamento do selo alemão Bastille Musique e apresenta uma nova e primorosa gravação de estúdio de uma das obras tardias mais emblemáticas de Morton Feldman, enfatizando seu centenário. Trata-se da peça Piano And String Quartet escrita em 1983–85 para a pianista japonesa Aki Takahashi e o Kronos Quartet, aqui reinterpretada pela pianista franco-alemã Florence Millet (piano) em colaboração com o JACK Quartet, de Nova York, quarteto de cordas formado por Christopher Otto (violino), Austin Wulliman (violino), John Pickford Richards (viola) e Jay Campbell (violoncelo). Registrada pela WDR na Immanuelskirche de Wuppertal, a gravação explora com notável precisão a dilatadção temporal da peça que se estende por cerca de 80 minutos, período durante o qual o piano, com o pedal direito constantemente pressionado, sustenta um campo harmônico rarefeito no qual arpejos e acordes sofrem microvariações quase imperceptíveis, enquanto as cordas se organizam em torno de notas de um único acorde —— por vezes reduzido a uma nota em uníssono —— que se manifesta como uma espécie de nuvem sonora, absorvida e retransmitida pelo sustain do piano. Em momentos pontuais, surgem discretos pizzicatos, mas o cerne da peça reside na relação entre memória, escuta e percepção do tempo, conduzindo o ouvinte a um estado em que as mínimas transformações se tornam o acontecimento musical e o fluxo temporal parece se dissolver. No Bandcamp, o álbum é vendido com um livreto bilíngue (inglês e alemão) de 48 páginas, com textos do musicólogo alemão Michael Struck-Schloen, uma conversa com os intérpretes e o produtor da gravação, autógrafos e fotografias do compositor e encartes com fotografias dos músicos durante as sessões de gravação. Para quem quer ouvir outras gravações emblemáticas, sugiro procurar a gravação célebre com o Ives Ensemble (Hat Hut Records, 2001) ou a versão clássica com o Kronos Quartet e a pianista Aki Takahashi.

 
Rothko Chapel & Why Patterns? (New Albion, 1991). Lançado em 1991 pela New Albion Records, este clássico álbum reúne duas obras emblemáticas da estética madura de Morton Feldman, ambas interpretadas por músicos profundamente associados ao repertório experimental e à obra do compositor. “Rothko Chapel” (1971), peça composta para a inauguração da capela homônima em Houston e diretamente vinculada à amizade de Feldman com Mark Rothko, traduz musicalmente os princípios da pintura color-field em uma escrita sonora de extrema rarefação, em que o som é tratado como campo contínuo, quase imóvel, marcado por dinâmicas ultra-suaves, harmonia praticamente estática, tempos dilatados e silêncios estruturantes. A instrumentação singular reúne viola (David Abel), soprano solo (Deborah Dietrich), coro misto (UC Berkeley Chamber Chorus sob a direção de Philip Brett), celesta (Karen Rosenak) e percussão/vibrafone (William Winant). Com essa instrumentação, a peça organiza-se em cinco seções de gestos abstratos e transições quase imperceptíveis, alternando efeitos tímbricos suspensos, vocalizações sem texto e ressonâncias delicadas, até culminar em um ressonante solo de viola, de caráter judaico e sem acompanhamento, baseado em um motivo melódico escrito pelo próprio Feldman na adolescência, funcionando como uma memória íntima inserida em um espaço sonoro de contemplativa abstração. Em contraste, a peça "Why Patterns?" (1978), interpretada pelo California EAR Unit, com Dorothy Stone (flauta), Gaylord Mowrey (piano) e Arthur Jarvinen (glockenspiel), apresenta um rigoroso estudo de interpolação rítmica e desafio de percepção para os intérpretes e para o ouvinte: ao longo de 29 minutos, cada instrumento articula padrões métricos próprios que raramente se alinham em um compasso, produzindo um descompasso controlado no qual a sincronia tradicional é deliberadamente evitada em favor de um efeito assimétrico, da neutralização da tensão intervalar e da ênfase em microvariações tímbricas e cromáticas. A tela de Mark Rothko que estampa a capa deste álbum é a obra intitulada #207 (Red over Dark Blue on Dark Gray), pintada em 1961. Embora o álbum leve o nome da Rothko Chapel, uma capela de ambiente meditativo construída em 1971 e que contém 14 painéis específicos criados pelo artista exclusivamente para esse espaço em Houston, a gravadora optou por usar esta pintura de 1961, que faz parte do acervo do University Art Museum da Universidade da Califórnia, em Berkeley. A escolha é esteticamente estratégica, pois as tonalidades sombrias e a sobreposição sutil de cores da tela espelham a densidade e a ambiência opaca dessas composições de Feldman contidas no disco. Um dos registros incontornáveis.

   
 
Feldman Edition (Mode Records). Lançada pelo selo Mode Records a partir dos anos 1990, e se estendendo ao longo dos anos 2000 e início da década de 2010, essa coletânea enciclopédica que hoje ultrapassa os 15 volumes registra uma boa parte da obra de Morton Feldman, abrangendo peças emblemáticas em praticamente todos os gêneros que o compositor explorou: música solo, de câmara, vocal, coral, orquestral e obras de longa duração. Os volumes iniciais não seguem uma organização estritamente linear por gênero, mas concentram-se na produção para piano e música de câmara inicial do compositor, abrangendo desde peças com notação gráfica experimental e calcadas no indeterminismo de sua fase dos anos 1950 até as partituras extremamente precisas da fase tardia, revelando a evolução do toque, da ressonância e do uso do silêncio como elemento estrutural: o Volume 1 é dedicado à música de câmara; o Volume 2 ao piano solo com peças em sua fase "the early years"; e o Volume 3 articula música vocal e instrumental. Em volumes subsequentes, a série dedica fôlego considerável à música de câmara, apresentando formações variadas —— de duos, trios, quartetos e pequenos ensembles —— e evidenciando conceitos exploratórios como a recusa do desenvolvimento temático tradicional, a escrita em padrões assimétricos, a microvariação, a autonomia tímbrica em interpolações e a percepção do tempo como campo estático —— ou suspensão da sensação temporal para o enaltecimento do som enquanto superfície do espaço. Outros volumes concentram-se na música vocal e coral, incluindo peças essenciais como "Three Voices" (no Volume 9), "Rothko Chapel", "The "Swallows of Salangan" e suas obras para coro e ensemble, nas quais as explorações vocais de Feldman se destacam por tratar a voz apenas como extensão tímbrica e sem função semântica —— frequentemente sem palavras e, quando estas aparecem, com sílabas alongadas, repetidas, dilatadas ou inflexionadas até perderem seu sentido linguístico ——, sendo a voz apenas mais um instrumento a se misturar, em dinâmicas de pianíssimo (de pp até pppp), aos demais instrumentos na tessitura do espaço-tempo, com total desapego à função lírica e atenção extrema à fusão rarefeita dos sons. A coletânea também abrange suas peças para grandes formações e suas obras de longa duração, incluindo quartetos de cordas, como o desafiador String Quartet No. 2 (no Volume 6), peças para ensembles expandidos e sua produção orquestral documentada no Volume 10 (Orchestral Works), no qual Feldman redefine a orquestra não como massa sinfônica, mas como um campo de eventos sonoros isolados, organizados por naipes, registros e densidades mínimas. Ademais, o Volume 11 é dedicado à obra "Composing by Numbers", música de câmara com foco em partituras gráficas e os volumes finais preenchem lacunas da sua obra envolvendo piano solo e peças para violino e piano, cello e piano, entre outras formações. Além do envolvimento de músicos especialistas na obra de Feldman, entre os ensembles e conjuntos orquestrais participantes dessa coletânea estão o FLUX Quartet, o Ives Ensemble, o Klangforum Wien e o Deutsches Symphonie-Orchester Berlin. Vale lembrar que, para além dessa coletânea ser uma referência fundamental sobre a obra desse compositor, várias das gravações da série foram estreias ou primeiras gravações mundiais de peças pouco tocadas, inéditas ou mantidas por anos nos arquivos pessoais de Feldman antes de sua morte. Coletânea essencial.


Trios - GBSR Duo & Taylor McLennan (Another Timbre, 2026). Lançado em 11 de janeiro de 2026 como parte das celebrações do centenário de Morton Feldman, este box set de seis CDs proporciona uma imersão em três das obras tardias mais essenciais do compositor, todas focadas na formação de trio: "Why Patterns?" (1978), a peça de longa duração "Crippled Symmetry" (1983) e "For Philip Guston" (1984), que também é de longa duração. Por conta dessas duas peças de longa duração, os seis CDs totalizam cerca de seis horas e meia de música feldmaniana. As instrumentações em trio compreendem o uso de flautas, piano, celesta e percussão, com atuação requintada do duo GSBR (com Siwan Rhys no piano e na celesta; e George Barton no vibrafone, glockenspiel, marimba e sinos tubulares) e a colaboração do flautista Taylor MacLennan (flautas, flauta baixo e piccolo). A peça "Why Patterns?", como já denotado, introduz o conceito de independência e interpolação rítmica entre as partes, com cada instrumentista seguindo trajetórias temporais autônomas que apenas convergem nos momentos finais, instaurando uma escuta com microvariações em que sincronia e desfasagem operam como metáfora perceptiva e conceitual. Já a peça de longa duração "Crippled Symmetry" aprofunda a dinâmica dos sons em pianíssimo (ppp ou pppp), com repetição de padrões assimétricos submetidos a microvariações quase imperceptíveis, criando um campo sonoro estático no qual a sensação de progresso temporal é deliberadamente suspensa. Em "For Philip Guston", com aproximadamente quatro horas e meia de duração, Feldman adota uma linha conceitual ainda mais alongada, dissolvendo quase completamente a memória formal e qualquer sensação de repetição reconhecível, mostrando de modo exemplar o seu interesse tardio pelo que ele chamava de "desorientação da memória" e pela suspensão total da percepção temporal. É interessante lembrar que, assim como Feldman prioriza as dinâmicas de baixíssima intensidade (desafiando o limite do audível) e o som rarefeito, espaçado no tempo ou em uma total suspensão do tempo, essas peças também enfatizam o timbre como ingrediente estético não menos que essencial. Gravadas com takes inteiros para preservar a continuidade da música, essas duas obras de longa duração estão, logicamente, com suas partes distribuídas entre os CDs. No Bandcamp, o box set inclui um encarte de oito páginas escrito pelo percussionista George Barton.