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Música Instrumental Brasileira no Século 21: Gabriel Grossi, Marco Pereira, Toninho Ferragutti, Maurício Carrilho, Nicolas Krassik, Ricardo Herz, Renato Borghetti, Paulo Moura, Yamandu Costa & Hamilton de Holanda

O início do século 21 presenciou o surgimento de uma nova legião formada por veteranos e jovens virtuoses -- principalmente violonistas, bandolinistas, acordeonistas, clarinetistas e violinistas, dentre outros... -- baseados no choro e nas músicas regionais, mas que também buscaram inspirações no jazz contemporâneo em voga, e nas estéticas mais contemporâneas da música erudita e da música instrumental brasileira -- sendo o ecletismo e a estética da "música universal" de Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, por exemplo, duas influências diretas ou indiretas para alguns destes novos "chorões" e "regionalistas". Quer dizer: dependendo de cada região, de cada estado brasileiro, o frevo, o baião, o samba, o choro, as cantigas e as músicas regionais, entre outras estéticas populares, sempre estiveram enraizados nas culturas dos povos e na cultura da música instrumental brasileira como um todo, mas estes veteranos e jovens músicos não apenas re-modernizaram estas estéticas através de releituras idiossincráticas -- uma vez que podemos considerar, por exemplo, que as versões instrumentais históricas de Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Jacob do Bandolim já invocavam certa modernidade desde seus primeiros registros --, como também as elevaram para um alto nível de contemporaneidade através de intersecções compositivas e improvisativas com o jazz contemporâneo. Um exemplo perfeito desta amálgama é a música original do bandolinista Hamilton de Holanda: com um repertório amplo do choro e com domínio máximo do bandolim, o músico fez inúmeras releituras de Jacob do Bandolim e de outros mestres históricos, mas com seu quinteto também criou suas próprias composições com uma amálgama inovadora e contemporânea que foi um dos grandes saltos evolutivos da música instrumental brasileira nestas últimas duas décadas desse início de século -- mostrando, aliás, que a formação de um repertório-base pode ser, na verdade, o pré requisito para uma busca interior rumo à uma contemporaneidade que soe inovadora sem se desconectar com as origens brasileiras. Abaixo alguns exemplos destes músicos e seus principais registros: detalhe para o fato de que a maioria destes artistas se encontraram em parcerias e gravações em duos (vide o painel de álbuns acima). Visite o site destes artistas, compre seus discos, vá aos seus shows e saiba mais sobre eles.



Filho do flautista Álvaro Carrilho e sobrinho do célebre virtuose da flauta Altamiro Carrilho, o violonista carioca Maurício Carrilho é um pesquisador diletante dos ritmos brasileiros, com foco nos ritmos usados no gênero do choro. Compositor de mais de 1.300 peças compostas dentro do universo do choro, Maurício Carrilho é um dos compositores e músicos que atualizaram o gênero para os ouvidos deste início de século. Pelo menos três indicações são necessárias para resumir o trabalho deste veterano violonista e compositor nas últimas décadas: O álbum Sexteto + 2 (Acari Records, 2004), a série de registros do Projeto 8com (Acari, 2014) com convidados diversos e o emblemático álbum Choro Ímpar (Acari, 2007). A série 8com trata-se de CD's de áudio normal com 8 faixas, mas a partir da nona faixa trata-se de estudos para solistas e acompanhadores, com partituras usadas nas gravações, em PDF, incluindo partes para instrumentos transpositores -- uma ideia de popularizar suas composições e difundir o gênero do choro para os estudantes de música interessados. Em todos estes registros citados Maurício Carrilho mostra suas próprias versões modernizadas do choro, mas em Choro Ímpar ele se supera com rítmicas inéditas em relação à história do gênero. A ideia do álbum é simples de se entender: Maurício Carrilho compôs choros, que é uma música de originalmente de compasso binário (em 2/4), em compassos ímpares como 3/4, 5/4, 7/8, 9/8, 11/8. Mesmo no ambiente do choro, não é propriamente uma novidade. Radamés Gnattali fez uso de ritmos quinários, e Cristóvão Bastos, com o choro ternário “Os Três Chorões”, acendeu a centelha da inspiração para este disco. No entanto, esta é a primeira vez que um compositor brasileiro se dedica a gravar um álbum totalmente repleto de choros compostos em compassos ímpares. Todos os choros que compõem o CD Choro Impar são de autoria de Mauricio Carrilho. Plenos de homenagens aos que encarnam o espírito do chorinho, o disco abre com o choro feito em 3/4 "Seu Cristóvão", reverência a Cristóvão Bastos, onde se destacam a flauta de Marcelo Bernardes, o clarinete de Pedro Paes, o clarone de Rui Alvim, o bandolim de Pedro Amorim e o cavaquinho de Luciana Rabello. E vem "Dino", a segunda faixa do disco, uma sacudida homenagem ao mestre Dino 7 Cordas violão de 7 cordas composta em compasso 5/4 tem os mesmos sopros da primeira e mais o pandeiro e a caixa de Marcus Thadeu dos Santos. A faixa três é "Meira", também um choro em 5/4, homenagem a Meira, mestre do violão de 6 cordas e professor de músicos como Baden Powell, que, junto com Dino, integrou o lendário Regional do Canhoto. As mesmas feras da faixa anterior tocam nesta também. Já a polca "Maluquinha", no qual o clarone de Rui Alvim brilha junto à flauta de Marcelo Bernardes, foi escrita em 7/8 e é também uma das mais belas faixas do CD. A sexta faixa, "Afrochoro", homenageia o poeta Paulo César Pinheiro e traz um belo batuque em 11/8, que tem Cristóvão Bastos ao piano e Nailor Azevedo, o Proveta da Orquestra Mantiqueira, no sax-alto. "Cenas Cariocas", composta de uma suíte dedicada aos violonistas Sérgio e Odair Assad, e de uma polca, "Cachaça", foi feita em compasso 7/8 e reuniu, dentre outros, Toninho Carrasqueira (flauta), Nailor Proveta (clarinete), Arismar do Espírito Santo (baixo), Luciana Rabello (cavaquinho) e o próprio Maurício Carrilho no violão de 7 cordas.



Marco Pereira é um violonista fluente em todo o espectro brasileiro e vai além -- do choro ao frevo, passando pelas variabilidades modernas do samba e indo até o flamenco espanhol. Marco Pereira é um violonista diferenciado não apenas por sua fluência e um fraseado brasileiro sempre claro e swingante -- comparado aos fraseamentos dos maiores improvisadores da história do jazz --, mas principalmente por sua consciência didática sempre se preocupando com o fraseio claro e limpo ao violão e com o ensino deste instrumento que é, desde sempre, tão presente na cultura brasileira, uma vez que boa parte da sua obra também abrange material didático. Inicialmente, ainda nos anos 80, ele teve aulas com o mestre uruguaio Isaias Sávio no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Depois, viveu na França por cinco anos e recebeu o título de Mestre em Violão Clássico pela Université Musicale Internationale de Paris. Defendeu tese sobre a música de Heitor Villa-Lobos no Departamento de Musicologia da Universidade de Paris-Sorbonne o que resultou no seu livro "Heitor Villa-Lobos, sua obra para violão". Na Espanha, obteve dois prêmios em importantes concursos internacionais: Concurso Andrés Segóvia (Palma de Mallorca) e Concurso Francisco Tárrega (Valência). De volta ao Brasil, criou na UnB (Universidade de Brasília), os cursos de Violão Superior e Harmonia Funcional e gravou dois discos pelo selo Som da Gente, de São Paulo: Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985) e Círculo das Cordas (1987), trabalhos que o levaram ao Town Hall, de Nova York, em 1988. A partir de 1990, já morando no Rio de Janeiro, participou em quatro oportunidades diferentes do Free Jazz Festival: numa memorável apresentação do Trio D'Alma, em 1989; com seu trabalho solo, em 1991; ao lado de Wagner Tiso, em 1992 e ao lado de Edu Lobo, em 1996. Em meados dos anos 90, então, Marco Pereira já havia enriquecido em muito o universo de repertório e registros na seara do violão brasileiro: vide os álbuns Bons Encontros (de 1994, em duo com o pianista Cristóvão Bastos), Dança dos Quatro Ventos (de 1995, pelo selo belga GHA), Elegia (de 1995, pelo selo Channel Classics da Holanda), Brasil Musical (1995, Tom Brasil) e o elogiadíssimo registro em violão solo Valsas Brasileiras (Independente, 1999). Adentrando o novo século já como uma das principais figuras e influências da música instrumental brasileira, em 2000 Marco Pereira gravou o interessante álbum Luz das Cordas com o jovem virtuose do bandolim Hamilton de Holanda. Dois outros registros que mostram a fluência solo de Marco Pereira são: o álbuns Original (GSP Recordings, 2003), com peças originais que ele compôs em uma estadia na Califórnia (EUA); e o álbum Samba da Minha Terra (Independente, 2004), com releituras de peças que mostram as variabilidades do samba, de Gilberto Gil e Jorge Ben à Baden Powell e Ary Barroso, passando pelas influências do samba jazz. Em termos de parcerias, além do álbum Luz das Cordas gravado com Hamilton de Hollanda, Marco Pereira gravou também o interessante registro Afinidade (Biscoito Fino, 2005) com o jovem virtuose da gaita Gabriel Grossi, que trouxe novas abordagens técnicas e contemporâneas para este instrumento tão pequeno mas tão melódico e lírico, como é a gaita. Ademais, Marco Pereira também tem explorado as pontes entre o popular e o erudito lançando registros e compondo projetos significativos nos territórios sinfônicos e camerísticos: a começar pelo álbum Camerístico (Biscoito Fino, 2006). Para quem gosta de registros mais focados em choros e sambas, os álbuns mais recentes de Marco Pereira são: Crystal (Independente, 2010) e Dois Destinos (Borandá, 2016), onde o violonista explora o repertório de Dilermando Reis. A não perder também está o registro gravado com o acordeonista Toninho Ferragutti em Comum de Dois (Borandá, 2014), com temas próprios dos dois instrumentistas e releituras de Dorival Caymmi.



O acordeon -- ou sanfona, como é chamado na música regional -- tem sido um dos instrumentos que mais enriqueceram a música instrumental brasileira. E em São Paulo temos um dos maiores acordeonistas do Brasil: Toninho Ferragutti. Instrumentista completo, com uma técnica forjada tanto em estudos no Conservatório Gomes Cardin, em Campinas, como nas rodas de choro, grupos de baile, grupos de música gaúcha, jam sessions de jazz e gafieiras, Toninho Ferragutti também foi aos poucos adquirindo uma concepção horizontal ampla que vai do popular ao erudito, passando pelo jazz, influências da música de Egberto Gismonti, música árabe e do leste europeu e música regional -- incluindo sendo um dos acordeonistas muito bem quisto na escola da música nordestina. Com rara proficiência erudita e jazzística -- rara, em se tratando de acordeonistas que também compõe peças eruditas e/ou são concertistas em concertos com big bands, orquestras sinfônicas e grupos de câmera --, nos últimos anos Ferragutti tem atuado como solista de diversas orquestras, como a Maria Schneider Ochestra nos EUA, Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo, Orquestra Petrobrás Pró-musica, Orquestra da Câmera da Universidade da Paraíba, Orquestra Sinfônica do Recife, Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasilia e Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Além de gravar com diversos artistas da MPB, bem como gravar para novelas e programas de televisão, Ferragutti já obteve duas indicações ao Latin Grammy: em 2014, com disco Festa Na Roça (Borandá, 2014), lançado em parceria com o violonista Neymar Dias, na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras; e em 2000, com o CD Sanfonemas (Pau Brasil, 1998), na categoria Melhor Álbum de Música Regional. Já considerado um dos maiores músicos brasileiros nos anos 90, Toninho Ferragutti adentra o século 21 com projetos e registros peculiares que também o colocam como um dos maiores músicos brasileiros deste início de século. É o caso do álbum A Gata Café (Borandá, 2016) com o Toninho Ferragutti Quinteto: o registro é composto de temas próprios calcados no choro, samba, frevo e na música tradicional do leste europeu, mas também com tons jazzísticos, tendo como colaboradores o saxofonista Cássio Ferreira, o baterista Cleber Almeida, o baixista Thiago Espírito Santo e o violonista e guitarrista Vinícius Gomes. Outro mais distinto projeto está registrado no álbum Nem Sol, Nem Lua (Biscoito Fino, 2006): que reúne peças calcadas em música erudita, jazz, tango e baião, cujos arranjos de cordas foram feitos pelos maestros Edson Alves, Antonio Duran, Adail Fernandes, Nailor Proveta e pelo próprio Ferragutti -- lembrando que em 2017 houve o relançamento deste registro com a peça bônus Fantasia Para Acordeão e Orquestra de Cordas, encomendada pela OSESP e estreada em junho de 2012 na Sala São Paulo, com regência do Maestro Claudio Cruz. Por fim, igualmente ambicioso é o projeto registrado no álbum o Sorriso da Manu (Borandaá, 2013), que junta um quinteto com Ferragutti (acordeon), Paulo Braga (piano), Alexandre Ribeiro (clarinete), Beto Angerosa (percussão), Zé Alexandre Carvalho (baixo acústico) com um quarteto de cordas formado por Ricardo Takahashi, Liliana Chiriac (violinos), Adriana Schincariol (viola) e Raiff Dantas Barreto (violoncelo), formando uma pequena orquestra de câmera que funde as várias influências que fazem parte do portfólio artístico do acordeonista.



Do estado do Rio Grande do Sul tivemos, entre outros, dois principais músicos que enriqueceram as abordagens da música instrumental brasileira: o acordeonista Renato Borghetti e o violonista Yamandu Costa -- dois dos maiores músicos brasileiros de reconhecimento mundial, diga-se de passagem. Renato Bortghetti atua com a gaita-ponto diatônica (similar ao bandoneon e acordeon) e tem como base as tradições do xote riograndense, da rancheira gaúcha, da milonga, polca, vanerão, chamamé, tango argentino, moda de viola e rasqueados da música caipira característica do Rio Grande do Sul e das regiões fronteiriças do Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul -- tradições, aliás, oriundas do século 19, quando se misturaram influências (dos índios, negros e brancos) argentinas, uruguaias e paraguaias com as destes estados brasileiros, de modo que no século 20 aos poucos passaram a fazer parte da riqueza musical da fronteira brasileira. Veterano já bem aclamado desde os anos 80, Renato Borghetti chegou ao século 21 com uma música instrumental atemporal que equilibra o folclore nativista riograndense e a contemporaneidade com ecos no jazz e na "música universal" de Hermeto Pascoal, vide os álbuns Gaúcho (Quinton Records, 2004), Gaitapontocom (Atração, 2004), Fandango! (Felmay, 2009) e Borghetti Yamandu (Atração, 2017), este último em dueto com o violonista Yamandu Costa, que tem como origem as mesmas influências nativistas. Yamandu Costa, por sua vez, foi o principal violonista a desbravar os inúmeros laços fronteiriços da música brasileira -- indo até os limites da música latino americana. Tendo formação autoditada calcada na música regional do Rio Grande do Sul que ele passou a absorver desde sua infância -- bem como nas já citadas músicas fronteiriças da Argentina, Paraguai e Uruguai --, Yamandú só foi estudar o choro aos quinze anos de idade através das peças de Radamés Gnatalli. A partir de então, ele estuda incansavelmente não apenas o choro, mas diversos outros rítmos brasileiros, dentre eles o baião e a bossa nova. O álbum emblemático que revela o violonista em todo o território nacional é o homônimo Yamandu (Eldorado, 2001), com produção de Maurício Carrilho e onde já há este equilíbrio de elementos gaúchos com elementos do choro e temas nordestinos -- vide as faixas "Chamamé", de sua autoria, “Brejeiro” de Ernesto Nazareth e “Tristeza do Jeca”, de Angelino de Oliveira. Mas a carreira de Yamandú foi particularmente prolífica nas parcerias: do mestre violonista gaúcho Lucio Yanel ao mestre sanfoneiro nordestino Dominguinhos, passando pelo brasiliense Hamilton de Holanda e o paulista Ricardo Herz, Yamandú Costa já fez shows e gravou parcerias com praticamente todos os grandes músicos ditos "chorões" e "regionalistas". Mas aqui quero chamar a atenção do leitor para o fato de que uma das principais facetas que Yamandú Costa desenvolveu -- para além de ser um dos maiores interpretes especialistas nos rítmos e nas estéticas populares brasileiras -- é sua abrangência da música latino americana que tomou corpo na última década a partir dos seus estudos dos ritmos, aspectos e adereços musicais presentes nas fronteiras dos países sulamericanos com o Brasil. Criando, a partir daí, um universo particular -- onde ele faz uma ponte entre os ritmos brasileiros com ritmos fronteiriços de outros países latino-americanos --, Yamandú lançou, por exemplo, o álbum Recanto (Bagual Produções, 2017), onde ele apresenta uma confluência de sotaques de diferentes lugares da América Latina, todos ligados por um fio condutor, que é justamente a mistura musical ibero-americana: a polca paraguaia, o milonga gaúcho, o baião nordestino, a chacarera argentina, a valsa peruana, a guarânia presente na fronteira entre Brasil e Paraguai, além de ritmos e elementos da música cubana e colombiana. Outro diferencial de Yamandú é sua faceta como concertista "erudito", onde ele atua como compositor e intérprete de complicados concertos, suítes e peças clássicas para violão e orquestras sinfônicas e orquestras de câmera: como é o caso do registro que ele gravou com a Orquestra Sinfônica do Estado do Mato Grosso, o álbum Concerto de Fronteira (Kuarup, 2015), onde ele compõe e explora peças de Hermínio Gimenez e José Asunción Flores, dois músicos e compositores que criaram orquestras das quais faziam parte instrumentos de cordas dedilhadas (com violinos, cello, violões, violas caipiras, violas do cocho e etc), dando início ao conceito de "orquestra típica" com pontes entre o erudito e popular. Ademais, destaque também para o álbum Ida e Volta (GHA Records, 2007) em trio com o contrabaixista acústico Guto Wirtti e o violinista Nicolas Krassik.



Outro dos veteranos que foi aclamado com grande ímpeto no início dos anos 2000 foi o clarinetista Paulo Moura, que começou nos choros e gafieiras em meados dos anos 50, fez parte da geração setentista de inovadores e renovadores da MPB e seguiu firme e forte renovando o choro e o samba nas décadas posteriores. Aproveitando a onda do grande revival ao choro no início dos anos 2000, Paulo moura lançou registros importantes do gênero: como K-Ximblues (Rob Digital, 2002), uma ode ao compositor de choro K-Ximbinho; El Negro Del Blanco (Biscoito Fino, 2004), extraordinário registro da parceria com o jovem violonista Yamandú Costa, e pelo qual ganhou o Prêmio Tim de Melhor Solista Popular; e Estação Leopoldina (Rádio MEC, 2003), uma incursão instrumental de Paulo Moura pelo celeiro de sambas dos subúrbios servidos pela rede ferroviária da Leopoldina – com uma versão renovada do choro e do samba, esse álbum chegou, aliás, a ser indicado ao Grammy latino de 2003. Mas desde os anos 70 a carreira de Paulo Moura frequentemente se enveredou para novas misturas e  novos territórios. Sempre procurando por novas amostragens, Paulo Mora também gravou o álbum Alento (Biscoito Fino, 2010) Com o grupo Teatro do Som, onde explora uma vibe mais eletrônica e calcada no jazz fusion brasileiro. Destes álbuns aqui apresentados os que mais chamam a atenção é Estação Leopoldina e El Negro Del Blanco, em dueto com Yamandú. O encontro del Negro Paulo Moura com el Blanco Yamandú Costa, produzido pela Biscoito Fino, é também um encontro da música brasileira com a música latina dos países fronteiriços com o Brasil. A escolha pelo lado brasileiro foi feita por Paulo Moura, destacam-se “Sons de Carrilhões” (João Pernambuco), “Um Chorinho em Aldeia/Na Glória” (Severino Araújo) e um poutpourri afro-sambista de Baden Powell. A escolha pelo lado latino foi feita por Yamandú, que além de compor a música-título num ritmo de valsa venezuelana, selecionou “Gracias a la Vida” (Violeta Parra), “Decaríssimo” (Astor Piazzolla) e “El camino de la Vereda” (Ibrahim Ferrer). Característica da personalidade musical de Yamandú, a busca em conectar a latinidade da música brasileira dentro de uma certo universo ibero-americano se revela da forma mais bem trabalhada, mostrando uma essência quase sempre esquecida, mas que aqui se manifesta com rara beleza latina. Moura já havia dividido um CD com outro virtuose do violão, Raphael Rabello, mas não nesse formato. "Há muito tempo tinha vontade de fazer um disco dedicado à música latina, que tivesse elementos da música brasileira", disse Paulo Moura. Além dos álbuns citados, a sequência de títulos lançados por Paulo Moura ainda traz os registros: Gafieira Jazz (Rob Digital, 2006) em parceria com o pianista americano Cliff Korman, e onde há um pout-porri entre a obra de Pixinguinha com a de Duke Ellington; Samba de Latada (Som Livre 2011), que traz o som dos sambas-forrós do sertão pernambucano através da pesquisa e a voz do cantor de forró Josildo Sá; e AfroBossaNova (Biscoito Fino, 2009) em parceria com o guitarrista e bandolinista baiano Armandinho Macedo.



Fã e seguidor dos legendários gaitistas Maurício Einhorn e Toots Thielemans, o gaitista (ou harmonicista) brasiliense Gabriel Grossi é considerado um dos renovadores e inovadores das abordagens da harmônica (gaita de boca) na música instrumental brasileira contemporânea. Chamando a atenção pela capacidade de tocar os mais complicados choros e pelo fraseamento jazzístico de absurda fluência técnica, Gabriel Grossi foi aclamado já em seus primeiros registros não apenas pelo impressionante fraseado técnico num instrumento tão pequeno, mas pela universalidade com que aborda toda a música instrumental brasileira, indo dos mais remotos choros até os mais contemporâneos temas de Hermeto Pascoal, além de compor seus próprios temas com roupagens muito contemporâneas: vide os álbuns Diz Que Fui Por Aí (MSI Music Distribution / Amazonia Delira 2004/ 2006), Afinidade (Biscoito Fino, 2005) em duo com o grande violonista Marco Pereira e Arapuca (Delira Musica, 2008), este terceiro inspirado no universo dos ritmos nordestinos (forró, baião e afins). Desde 2005, ele é integrante do Hamilton de Holanda Quinteto, conjunto vencedor do prêmio Tim 2007 e finalista do Grammy Latino por três vezes consecutivas: um dos conjuntos que, a partir das intersecções do choro com o jazz contemporâneo, passou a ser um marco evolutivo na música instrumental brasileira contemporânea -- sendo o som da sua harmônica um elemento chave na sonoridade deste quinteto, diga-se de passagem. Sempre envolvido em importantes projetos, Gabriel foi parceiro frequente do saudoso e consagrado clarinetista Paulo Moura de 2004 até sua morte em 2010. Além de ser um convidado ilustre nos mais diversificados projetos, Gabriel Grossi nunca deixou de experimentar novas abordagens para a harmônica, incluindo novas formações e novas roupagens instrumentais. Um exemplo é seu distinto trio que ele formou em 2009 com o pianista Guilherme Ribeiro e com o baterista Sergio Machado: vide o álbum Horizonte (Delira Musica, 2009), preparado durante a turnê que realizou com o lendário trombonista Raul de Souza e dedicado também aos mestres Paulo Moura e Mauricio Einhorn; e o álbum Zibididi (Independente, 2012), composto exclusivamente por temas autorais e que tem a participação do premiado guitarrista Diego Figueiredo. Outro projeto que soa muito contemporâneo e mostra esta faceta mais idiossincrática de Gabriel Grossi é o registrado no álbum Urbano (Independente, 2013), onde ele cria suas próprias composições baseados numa estética de música instrumental brasileira mais urbana, inclusive apimentando seu espectro sonoro com grooves funkeados e alguns mínimos de efeitos eletrônicos. Ademais, a não perder estão seus últimos álbuns de parcerias: vide o álbum Realejo (DG Produções, 2013), com o acordeonista Bebê Kramer; e o registro em parceria com o violonista Felix Júnior no álbum Nascente (Biscoito Fino, 2016), onde homenageiam as canções e peças dos mestres Guinga e Hermeto Pascoal.



O brasiliano, nascido carioca, Hamilton de Holanda é considerado um dos maiores instrumentistas do mundo. Seguindo as pegadas de Jacob do Bandolim, ele praticamente resgatou o uso do instrumento na música brasileira e fez mais: reinventou o bandolim acrescentando duas cordas a mais que o bandolim tradicional. Já sendo aclamado desde finais dos anos 90, Hamilton chegou no século 21 com uma visão ampla de repertório que já não se limitava mais apenas ao choro: vide, por exemplo, o álbum Música das Nuvens e do Chão (Velas, 2004), onde o bandolinista mostra arranjos transcendentais sobre temas de Cartola e Ernesto Nazareth, mas vai de encontro às estéticas mais modernistas de Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. Ao mesmo grupo que acompanhou Hamilton neste álbum -- Daniel Santiago (violão), André Vasconcellos (baixo) e Márcio Bahia (bateria) -- se juntou o gaitista Gabriel Grossi para formar o Hamilton de Holanda Quinteto, com o qual o bandolinista lançaria aquela que, talvez, seja sua principal obra prima: o Projeto Brasilianos, bem representado por uma primorosa série de três álbuns. A série Brasilianos é um dos mais inovadores e representativos projetos da música brasileira nessas últimas décadas. Em Brasilianos 1 (Biscoito Fino, 2006), as canções expelem grandes volumes de virtuosismo e tradição, dando-nos a entender que trata-se, afinal, de uma bem estruturada ponte entre o antigo e o moderno -- entre o choro e o jazz contemporâneo, entre a canção brasileira e a composição moderna e bem estruturada. Já em Brasilianos 2 (Independente, 2008), embora ainda mantenha ecos da tradição em sua sonoridade, Hamilton mostra-se inspirado mais pelos sentimentos e nostalgias da sua vida pessoal do que por temáticas brasilianistas: ou seja, ele alia, com mais personalidade, a beleza da sua própria veia cancionista -- porque as composições deste disco são canções ainda mais nostálgicas e marcantes do que as do volume anterior -- com a sua já conhecida capacidade de criar belas harmonias, arranjos instrumentais sofisticados e improvisos estonteantes. O resultado é que as características autorais e pessoais do bandolinista aparecem mais neste registro, e aparecem carregadas de interessantes sutilezas, de dinâmica musical, de lirismo, de sentimento e originalidade neste segundo volume do que no primeiro. Isto é, Brasilianos 2 soa como se, após ter estruturado uma ponte entre a tradição e o moderno no primeiro volume, Hamilton de Holanda tivesse resolvido compor um material ainda mais pessoal e contemporâneo, com melodias e grooves personalíssimos: é o que mostra a reflexiva canção "A vida tem dessas coisas", a nostálgica "Tamanduá" e a linda balada "Rafaela", composta para sua filha. Ademais, uma outra observância é a estrutura moderna e o fluxo imprevisível das composições, que já fogem dos rigores e padrões das velhas formas AABA e/ou tema-improviso-tema: dentro da construção das canções, há sempre transições -- introduções, mudanças rítmicas, mudanças de tons, interlúdios improvisados -- entre uma frase e outra, mas todos esses "fragmentos" unem-se num fluxo que parece soar retilíneo, sem arestas. Concluindo a série, Brasilianos 3 (Independente, 2011) traz Hamilton de Holanda inspirado pelo lirismo da MPB mineira, tendo a participação do próprio Milton Nascimento, mestre maior do cancioneiro mineiro. Ademais, igualmente transcendental são os registros gestados a partir da amizade e parceria com o pianista paulista André Mehmari: vide os álbuns Contínua Amizade (Deckdisc, 2007) e GismontiPascoal (Adventure Music, 2013).



Na história da música popular brasileira, o violino -- apesar de nunca ter sido um instrumento principal no âmbito do choro, como a clarineta, por exemplo -- está muito bem representado pelo violinista Fafá Lemos (1921-2004), que nos anos 50 formou o Trio Surdina com Garoto e Chiquinho do Acordeom, além de ser colaborador da célebre cantora Carmem Miranda do final de 1952 até o falecimento dela em 1955. Indo do choro à bossa nova, passando pelo baião, Fafá Lemos foi o principal responsável por colocar o violino no mapa da música popular brasileira. Mas no nordeste também há a rabeca -- representação sertanista do violino --, esta bem representada por nomes como Nelson da Rabeca e Mestre Damião. Pois bem, o violinista francês, radicado no Brasil, Nicolas Krassik juntou as duas propostas no projeto Cordestinos: a sonoridade do violino europeu abrasileirado com a sonoridade sertanista da rabeca. Krassik estudou no Conservatoire National de Region d’Aubervilliers-la Courneuve, e também estudou jazz no C.I.M. (Centre de Fomation Musicale de Paris), além de ouvir muito a santíssima trindade francesa do violino jazzístico: Stéphane Grappelli, Jean Luc-Ponty e Didier Lockwood. Porém, um amigo flautista apaixonado por música brasileira lhe apresentou um novo mundo: Krassik começou a frequentar núcleos de cultura brasileira em Paris e se apaixonou pelos ritmos da música tupiniquim, se mudando em seguida para o Rio de Janeiro e se especializando num range que saiu do choro e samba-jazz até chegar aos ritmos nordestinos, onde a rabeca está inserida. Seu primeiro álbum Na Lapa (Rob Digital, 2004) é um registro desta sua primeira incursão no Rio de Janeiro, onde ele faz uma releitura dos choros e sambas de Jacob do Bandolim, Garoto, o citado violinista Fafá Lemos, Chico Buarque, Pixinguinha, Paulinho da Viola, dentre outros. Já no segundo álbum Caçuá (Rob Digital, 2006), Krassik já se põe à prova compondo seus próprios choros, sambas, maxixes, xote e baiões. A aproximação total com os ritmos nordestinos se deu, porém, no registro Nicolas Krassik e Cordestinos (Rob Digital, 2008) -- tendo como convidado especiais os músicos Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Carlos Malta e João Hermeto --, onde o violinista explora um repertório de composições de grandes nomes da música nordestina como Dominguinhos, Sivuca, Hermeto Pascoal e Gilberto Gil, além de composições dos próprios integrantes do grupo. Formado por violino, rabeca, contrabaixo acústico, bateria, pandeiro, zambumba e triângulo, os Cordestinos lançou o segundo álbum em 2014, Nordeste de Paris (Superlativa Eventos), este marcado mais por composições próprias de Krassic e seus colaboradores e tendo os cantores Lenine e Gilberto Gil como convidados especiais. Seu último álbum Nipolitano, registra seu dueto com o acordeonista Mestrinho e aborda as temáticas do forró nordestino, tendo o sanfoneiro Dominguinhos como um dos homenageados.



Outro violinista que tem enriquecido a música instrumental brasileira enormemente é o paulistano Ricardo Herz. Inicialmente de formação clássica pela Universidade de São Paulo (USP), Herz também teve aulas de jazz na prestigiosa Berklee College of Music, em Boston. Também tendo conexões com os circuitos brasileiros na França, Herz se mudou para Paris para estudar com Didier Lockwood e, em seguida, passou a produzir workshops regulares sobre música brasileira neste país. No Brasil, Ricardo Herz ganhou o Prêmio Visa em 2004 através do seu primeiro álbum Violino Popular Brasileiro (Scubidu Music, 2004) com temas próprios e canções, sambas, choros e temas de figuras legendárias como Chico Buarque, Dominguinhos, João Bosco e Edu Lobo. Com uma performance bem marcada pelas pontuações rítmicas da música brasileira, os fraseados do violino de Ricardo Herz são únicos e incomparáveis. Seu repertório também é extremamente rico: indo do choro ao jazz contemporâneo, passando pelas diversas expressões nordestinas, o violinista também mantém um intenso estudo dos cancioneiros registrados pelo gênero MPB, como já mostra seu segundo álbum solo, Brasil em 3 por 4 (Scubidu Music, 2007), que inclui, além de seus próprios temas, as famosas valsas populares dos compositores Milton Nascimento, Pixinguinha e Djavan -- este álbum, aliás, foi gestado em seu home studio, onde ele gravou todas as partes dos violinos e as juntou em overdubs. Igualmente interessante é o registro onde ele estuda e explora cantigas de ninar e canções folclóricas infantis: o álbum Ricardo Herz pra Crianças (Scubidu Music, 2009). Seu primeiro registro exclusivamente de composições próprias é o álbum Aqui é o meu Lá (Scubidu Music, 2012), onde seu estilo rítmico de tocar violino, assim como seu estilo de compor, se torna ainda mais amalgamado em temas baseados no jazz contemporâneo. Seus próximos álbuns seriam marcados por diversas parcerias com outros jovens e veteranos, onde ele teria oportunidade de ampliar seu leque de influências e abordagens -- da música nordestina à música gaúcha do sul brasileiro. É o caso de: Novos Rumos (YB Music, 2015) com Samuca do Acordeon; Ricardo Herz e Antonio Loureiro (Borandá, 2014), um dueto incomum de violino e vibrafone; Nelson Ayres/Ricardo Herz Duo (Tratore, 2017), um dueto com violino e piano; e Yamandú Costa & Ricardo Herz (Bagual, 2018), onde o duo de violino e violão explora do choro sudestino às milongas gaúchas, passando por composições próprias. Para além dos registros solos e projetos em parcerias, Ricard Herz lidera a Orquestra do Fubá e o grupo Tekerê. A Orquestra do Fubá é uma banda de forró composta por músicos franceses e brasileiros e desde 2005, eles têm sido uma presença constante nos festivais de verão da França, incluindo o Jazz à Vienne, o Jazz In Marciac, o Festival Bout du Monde, entre outros. Tekerê é um sexteto de jazz com world music composto por três músicos brasileiros e três franceses, os quais exploram aspectos que vão do jazz e das tradições sulamericanas até a música africana, passando pelas músicas árabe e do leste europeu.






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