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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (05) 

 
★★★★ - Tomeka Reid Quartet - Dance! Skip! Hop! (Out Of Your Head, 2026)
A violoncelista Tomeka Reid —— agraciada em 2022 com uma bolsa "genius grant" da Fundação MacArthur —— é uma das figuras incontornáveis do jazz contemporâneo e ela inicia o ano de 2026 já com esse petardo de empolgante audição, desta vez com um foco rítmico. Gravado no segundo semestre de 2025 no estúdio The Brink, em Richmond, Virgínia, e mixado e masterizado no Firehouse 12, em New Haven, Connecticut, este álbum tem sua data de lançamento confirmada para 13 de fevereiro de 2026 pelo selo Out Of Your Head Records. O nome do álbum é Dance! Skip! Hop!, e a ideia de gravá-lo surgiu a partir de uma inspiração que Tomeka teve ao ouvir o álbum A Dance and a Hop (2015), do cornetista Josh Berman, seu colega da cena de Chicago. A essa inspiração, a cellista juntou lembranças advindas da história de sua família, entre outras inspirações pessoais, e a partir daí teve todas as ideias de que precisava para compor cinco peças expansivas para o seu Tomeka Reid Quartet, formação que celebra mais de uma década de sinergia criativa, aqui mantida com Mary Halvorson (guitarra), Jason Roebke (contrabaixo e manipulação de fita cassete) e Tomas Fujiwara (bateria). Este álbum é, pois, o quarto álbum da banda e traz uma mistura de elementos camerísticos, free jazz, temáticas da ancestralidade, efeitos, ritmos e pulsos de grooves ímpares. Todas as cinco composições originais foram escritas por Tomeka. A faixa-título "Dance! Skip! Hop!", que abre o álbum (com 10:13 de duração), funciona como um chamamento que articula células rítmicas ímpares, mudanças abruptas de intensidade e densidade e uma sensação contínua de deslocamento. Já a peça "a(ways) For CC and CeCe" é dedicada a figuras centrais da história familiar da compositora e reforça o eixo afetivo e memorial que a inspirou a gestar esse projeto, acentuando profundidade e ecos advindos da "creative black music" da AACM. Não à toa, a inspiração familiar de Tomeka Reid é explicitada na capa com imagens de sua bisavó Francis, de sua avó Estelle e de sua tia-avó CeCe, e essa segunda faixa também homenageia Clarence James (também conhecido como "CC"), uma figura assídua da cena de jazz experimental de Chicago, frequentador e entusiasta do lendário clube Velvet Lounge, fundado pelo saxofonista Fred Anderson. Já a faixa "Oo Long!" foi inspirada no pequeno restaurante Soba-An, de Düsseldorf: a cellista visitou o local diversas vezes enquanto era "Artista Residente" no prestigiado Moers Jazz Festival, e as lembranças geográficas, culturais e culinárias desse local a inspiraram a escrever essa peça, que explora contrastes entre repetição, suspensão e intervenções tímbricas inesperadas. Segue-se "Under the Aurora Sky": nomeada pelo marido da cellista, essa peça explora texturas mais etéreas e coloridas, como as nuances de uma aurora boreal. O álbum se encerra com a faixa "Silver Spring Fig Tree", que é uma homenagem a Steve Feigenbaum, fundador do legendário selo Cuneiform Records, e também faz referência à cidade de Silver Spring, onde Tomeka deu seus primeiros passos no violoncelo. É a partir dessas peças e dessas inspirações que este álbum apresenta uma paleta expandida de técnicas, entrelaces de cordas, arranjos e improvisos instigantes, nos quais o cello de Tomeka Reid transita continuamente entre linhas líricas, articulações percussivas, pizzicatos, acordes em cordas duplas, uso do arco e texturas afins, dialogando assim com as modulações eletrificadas via pedais de efeitos, harmonias assimétricas e ataques angulares da guitarra de Halvorson, enquanto Roebke e Fujiwara constroem uma base que alterna entre pulsações assimétricas, grooves dançantes e instáveis e respostas rítmicas articuladas de forma improvisatória. Já coloco este álbum como um dos candidatos a figurar na lista de "Melhores Álbuns de 2026".

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Facts & News not to Forget 2024 - Hermeto: livro, exposições e entrevistas reafirmam a suma importância do mestre!



Que Hermeto está em pauta, isso ocorre desde os tempos do Quarteto Novo!!! Ou seja, a criatividade do Bruxo é tão elevada que já há seis décadas que o Brasil e o mundo são presenteados ininterruptamente com seus inovadores "hermetismos pascoais", os quais elevaram a música instrumental brasileira e seus ritmos ao status mais elevado de arte, uma arte musical inquieta, inovadora, universal e atemporal. De tempos em tempos, ele e seu Grupo sempre surgem com algum registro superlativo!!! Considerado mundialmente um dos músicos mais criativos de todos os tempos —— venerado como um "Deus da Música" tanto por gênios históricos da sua geração, como Tom Jobim, Astor Piazzola, Elis Regina, Chick Corea e Miles Davis, bem como pelos jovens talentos das gerações mais novas, como o pianista americano Jason Moran, o DJ holandês Jameszoo e o fenômeno britânico Jacob Collier, entre outros ——, o multiinstrumentista alagoano Hermeto Pascoal caminha para sua nonagésima década de vida continuando a ser uma verdadeira força da natureza!!! Mas neste ano de 2024, o mestre brasileiro ganha os holofotes mais enfaticamente através de uma série de lançamentos e eventos que estão envolvendo seu nome e sua obra. Assim como aconteceu em seu aniversário de 80 anos, quando ganhou exposições em Curitiba e Rio de Janeiro, Hermeto acaba de ganhar mais uma exposição da sua produção visual, dessa vez no SESC Bom Retiro, em São Paulo, numa mostra que engloba fotos da sua carreira, seus objetos-partituras, suas coloridas pinturas, seus chapéus ilustrados com notas musicais, uma sessão chamada "Hermetologia" com um glossário repleto dos seus verbetes e das suas caligrafias e citações, os inusitados objetos e brinquedos os quais ele usa para produzir sons e fazer música, entre outras atrações visuais. A exposição se chama "Ars Sonora" e a curadoria é de Adolfo Montejo Navas, que afirma que a proposta destaca duas ideias fundamentais que definem a poética de Hermeto: o som como a fonte primordial para alcançar a totalidade e uma cosmovisão dinâmica —— sendo essa a ideia concernente, enfim, com seu conceito de "música universal" ——, e o desenho-caligrafia-escritura como uma segunda matriz cartográfica para reinterpretar o mundo. E dá para se programar à vontade para ir ver a exposição. A galeria ficará aberta ao público no SESC Bom Retiro até 3 de novembro de 2024. Abaixo deixo dispostos alguns tuítes com informações sobre esse e outros eventos e lançamentos que estão agitando a carreira de Hermeto. Quem assina o Jornal Folha de São Paulo, pode apreciar, por exemplo, uma entrevista que Hermeto deu ao jornalista Lucas Breda, entrevista que também foi publicada em cortes num vídeo do YouTube. No demais, as atenções se voltam para os lançamentos da sua biografia e do seu mais novo álbum lançado em homenagem à sua falecida companheira Ilza. Sobre o livro, temos agora, então, a primeira biografia de grande amplitude sobre a vida e a obra legendária de Hermeto Pascoal, uma vez que antes disso tínhamos apenas um ensaio  publicado na Coleção Trajetórias Musicais (2019) com um compêndio resumido da sua vida e obra somado à uma entrevista exclusiva e uma lista da sua discografia. Temos aí um livro imperdível!!!
 
O livro tem sido uma das sensações literárias de 2024 e chama-se Quebra Tudo – A Arte Livre de Hermeto Pascoal, tendo sido escrito pelo jornalista paulistano Vitor Nuzzi. Só para se ter uma ideia da sagacidade de Vitor Nuzzi enquanto jornalista e biógrafo, em 2015 ele chegou ser finalista do Prêmio Jabuti por meio do seu livro Geraldo Vandré – Uma Canção Interrompida, onde conta a história de um dos mais emblemáticos e subestimados cancionistas da MPB —— Hermeto, inclusive, tocou e compôs com Geraldo Vandré, tendo sido sideman do cantor nos emblemáticos festivais de canção na segunda metade dos anos 60 e no álbum Canto Geral (1968), numa das únicas vezes em que ele aceitou acompanhar cantores (depois disso, ele também aceitaria a fazer uma participação especial em três músicas do memorável show de Elis Regina na 13ª edição do Montreux Jazz Festival, em 1979). Agora, pois, o jornalista se debruçou sobre a arte a vida desse grande gênio dos sons, que, assim como Vandré, também merece ser ainda mais divulgado pela mídia brasileira —— se considerarmos estas últimas décadas de internet e redes sociais, Hermeto até pode ser o músico veterano mais consagrado pela mídia mais progressista aqui no Brasil e pelos canais alternativos brasileiros, mas a repercussão, a consagração e a atenção que o mestre tem a nível internacional são muito maiores do que a atenção que ele recebe aqui no Brasil. Contudo, como já citado, é preciso convir que a arte desse inovador mestre brasileiro —— carinhosamente chamado de "Campeão" e ludicamente apelidado de "Bruxo dos Sons", entre outros apelidos e adjetivações... —— tem sua vida própria e segue se agigantando de tempos em tempos apenas pela constatação irrefutável da sua imensa riqueza criativa e da sua inestimável importância cultural, de forma que hoje é praticamente impossível um apreciador da boa música não chegar a ter contato com a obra inovadora de Hermeto Pascoal. E Vitor Nuzzi dá a sua importante contribuição, pois, com este livro, que é resultado de anos de pesquisa sobre a arte a vida do Bruxo, e foi tirada de mais de 50 entrevistas dadas pelo mestre em canais e jornais nacionais e internacionais. Além de centrar na arte musical de Hermeto, o livro conta um pouco da história de vida e das histórias inusitadas protagonizadas pelo artista, que criou-se em Lagoa da Canoa, Arapiraca, Alagoas, mas teve estadias e passagens marcantes por Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Estados Unidos. O livro foi lançado pela Editora Kuarup e tem prefácio do pesquisador Tárik de Souza e posfácio do professor Paulo Tiné. Ademais, atentemo-nos para o já bem repercutido álbum que o Hermeto Pascoal & Grupo lançou em homenagem à falecida Ilza, companheira de Hermeto desde a adolescência: Dona Ilza ficou conhecida por seus quitutes e sua saborosa feijoada, que os músicos, jornalistas e celebridades que iam visitar Hermeto no Bairro do Jabour, Rio de Janeiro, puderam apreciar sem conseguir esquecer. Para esse disco, dedicarei uma resenha exclusiva em outro post... Viva Hermeto!!! Vida longa à MÚSICA e ao LEGADO do Campeão!!! Comprem o livro!!!