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Vocal Explorations: Luciano Berio, Andrew Hill, Meredith Monk, Mike Patton, Phil Minton, Bobby McFerrin, Björk e etc




O compositor italiano Luciano Berio -- um dos ases da música erudita moderna e das técnicas de colagens e misturas pós-modernas, também -- criou um conjunto de obra experimental onde a voz humana aparece com frequência e singularidade. Uma das suas peças que atesta isso é Laborintus II, gravada em 1965 para celebrar o 700º aniversário do poeta Dante Alighieri -- e na verdade, uma peça que prenuncia as inovações que ele empreenderia em sua Sinfonia (1969). A peça foi baseada no poema "Laborintus" (1956) de Edoardo Sanguineti e traz excertos da Bíblia e de escritores como T. S. Eliot, Ezra Pound, além de excertos do próprio Dante. Em termos conceituais das temáticas utilizadas, esta junção de oralidades de diferentes épocas e estilos literários já representa uma direção rumo ao pós-modernismo no sentido do hibridismo conceitual proporcionado pelas misturas destes excertos -- isso porque o conceito composicional de Bério já transpassava o mero sentido da radicalização moderna de Stravinsky, Schoenberg e Boulez, agora já aplicando um sentido mais amplo de misturas inúmeras, do tradicional ao moderno. Para além das temáticas literárias, Berio aplica aqui uma miríade de inflexões da poesia falada e do canto lírico -- coral e solo -- com misturas musicais diversas, incorporando elementos do jazz, da eletrônica e evocando aspectos estilísticos do compositor medieval-barroco Claudio Monteverdi. Em 2010, a dramaticidade da peça e suas potencialidades vocais chamaram a atenção do vocalista experimental Mike Patton, que produziu uma releitura independente junto à orquestra belga Ictus Ensemble e o grupo holandês de vozes Nederlands Kamerkoor, releitura registrada em álbum editado pela Ipecac Recordings (primeira foto abaixo, à esquerda). Mike Patton é conhecido por suas explorações vocais que vão do canto gutural de estilo rock-metal-experimental à livre improvisação da Downtown nova-iorquina, tendo expandido ainda mais suas abordagens instrumentais e experimentais da voz ao se conectar com o universo do saxofonista, compositor e produtor John Zorn. Nesta peça, Mike Patton não aplica essa abordagem mais free improvisation e nem sua abordagem rock-metal-experimental, mas ele emite uma produção que potencializa as dramaticidades vocais -- das partes cantadas e faladas -- sendo ele mesmo o narrador principal da peça. Estes experimentos vocais de Berio -- da fala, da narrativa e do canto -- são percursores neste campo mais avant-garde da voz humana.



Para o ouvinte que quer ouvir Mike Patton em suas abordagens mais experimentais e radicais -- especialmente em sua associação criativa com John Zorn -- é indicado ouvir os álbuns Hemophiliac (Tzadik, 2002), Moonchild: Songs Without Words (Tzadik, 2006) e Six Litanies for Heliogabalus (Tzadik, 2007). Hemophiliac, já resenhado aqui no blog, evidencia um aspecto mais próximo à improvisação livre vocal com as técnicas guturais de Patton aliadas à eletrônica de Ikue Mori e às técnicas estendidas do saxofone de Zorn. Moonchild: Songs Without Words (Tzadik, 2006) traz Mike Patton -- em trio com Joey Baron (bateria) e Trevor Dunn (contrabaixo) -- interpretando peças vocais que John Zorn compôs inspirado pela novela Moonchild de Aleister Crowley, pela dramaturgia de Antonin Artaud e pela música de Edgard Varèse. Six Litanies for Heliogabalus já foca especialmente num coral acappela de quatro vozes mais o trio regular com Mike Patton (solos vocais principais), Joey Baron (bateria) e Trevor Dunn (contrabaixo), mais John Zorn (saxes, condutor, composições), Ikue Mori (eletrônica, laptop) e Jamie Saft no orgão: o álbum é um conjunto de seis "litanies" (no sentido de ladainhas sonoras, confusões vocais) compostas por Zorn e dedicadas à temática do controverso imperador romano Heliogabalus, conhecido por escândalos sexuais e controversas religiosas em seu tempo. É realmente interessante ver como que Mike Patton potencializou suas abordagens vocais -- dantes oriundas do universo metal-rock-experimental -- para uma faceta mais improvisativa, composicional e instrumental através das suas colaborações com Zorn. 


Com um quinteto de jazz formado com o trompetista Woody Shaw, o saxtenorista Carlos Garnett, o contrabaixista Richard Davis e o baterista Freddie Waits, mais um coral de cinco vozes, o pianista Andrew Hill criou aqui uma obra percussora, apesar de nem sempre lembrada como tal. Como de praxe em todo o restante da obra e discografia de Andrew Hill, os temas são originais e estranhamente belos. Andrew Hill consegue exprimir em suas canções o mesmo exotismo impressionista que ele consegue exprimir em seus temas pianísticos e/ou instrumentais, juntando aqui as duas facetas, vocal e instrumental, em paletas sonoras novas, diferentes dos registros anteriores -- aliás, Hill sempre foi esse criador inquieto no sentido de sempre mostrar diferenciação de um registro para o outro. Cantos, zumbidos e entonações agudas -- muitas da vezes com passagens sem letra, apenas a tessitura vocal sendo emitida -- se entrosam numa espécie de post-bop de swing anacrônico com o quinteto de instrumentos. Das onze canções gravadas em 1969, cinco foram lançadas em LP pela Blue Note em 1970. Posteriormente, já na era do CD foram lançadas a integral das canções com as bonus tracks restantes, que trazem canções menos impressionistas e com um coro de sete vozes ao invés das cinco vozes do LP de 1970. Este álbum foi citado como inspiração pelo pianista contemporâneo Cory Smythe em relação às suas recentes peças vocais. 

O pianista Cory Smythe parece nutrir uma paixão um tanto criativa e particular pelo universo da canção e das possibilidades da voz. Dois dos seus últimos registros abordam a voz e a canção de uma forma tão particular que não seria exagero dizer que suas abordagens encontram poucos paralelos nos dias atuais em termos do exotismo harmônico-melódico, bem como dos entrelaces composicionais e improvisativos entre as várias possibilidades vocais e instrumentais os quais ele consegue estranhamente exprimir. Seu último lançamento, Accelerate Every Voice (Pyroclastic Records, 2020), já indicado aqui no blog, inspira-se no clássico álbum citado acima, Lift Every Voice (Blue Note, 1970), do pianista Andrew Hill, mas também traz inspirações do compositor americano James Weldon Johnson e da compositora e pianista experimental australiana Annea Lockwood (conhecida por suas gravações experimentais em ambientes naturais, usando sons de fenômenos da natureza, entre outras abordagens incomuns). Inspirando-se na temática das pautas climáticas, Cory Smythe cria uma paleta de tons coloridamente atonais, através dos quais entrelaça seu piano, sua percussão e sua eletrônica criativa com duas vozes femininas e duas vozes masculinas, numa série de inflexões e sobreposições acompanhadas de efeitos de beatbox e livres improvisações. Anteriormente, o pianista já lançara o álbum Circulate Susanna (Pyroclastic Records, 2018), onde traz inspirações da sua infância, de quando seu pai cantava as populares folk songs compostas por verdadeiros "pais" da música popular americana tais como Stephen Foster, George Washington Dixon e Abel Meeropol: ele repara nas curiosas e estranhas construções melódicas e harmônicas das canções destes compositores populares do século 19 e início do século 20, procurando trazer inspirações das respectivas relações de melodia e silêncio, de harmonia e rítmo, procurando expor a partir daí sua própria idiossincrasia através de inflexões melódicas e combinações harmônicas estranhamente coloridas. O álbum Circulate Susanna (Pyroclastic Records, 2018) soa ainda mais estranho aos ouvidos menos calejados, mas seus efeitos melódicos e harmônicos exprimem um colorido atonal fora de série, com entrelaces totalmente lisérgicos: as entonações vocais cristalinas de Sofia Jernberg -- que combina uma bela voz com técnicas estendidas diversas -- forma uma paleta de cores surpreendentes com a eletrônica e a guitarra acústica microtonal de Daniel Lippel, bem como com o piano, a auto-harpa e os eletrônicos de Cory Smythe. Cores atonais e microtonais inebriantes. 


Nos anos 80, o improvisador inglês Phil Minton traria as cordas vocais para uma abordagem ainda mais expansiva: o uso das técnicas estendidas para se fazer livre improvisação de palavras, sons e ruídos irreconhecíveis, explorando regiões inexploradas da voz -- tanto em solo como interagindo com outras vozes ou outros instrumentos. Deste então, Phil Minton foi visto e registrado ao lado de grandes nomes da livre improvisação inglesa tais como Fred Frith, Veryan Weston, John Butcher, Lol Coxhill, dentre outros. Neste álbum temos um dueto de Phil Minton com a improvisadora sino-americana Audrey Chen, que tem o violoncello como instrumento de origem mas que, posteriormente, expandiu suas abordagens para as técnicas estendidas de livre improvisação vocal. O duo já se apresentou em vários países, incluindo o Brasil. Prepare-se para uma música que é feita não de canto, mas palavras glossolálicas, sons de náuseas, arrotos, gritos, arfadas, murmúrios, gemidos, zumbidos, gargarejos, distorções das cordas vocais, entre outras abordagens só proporcionadas por técnicas estendidas específicas dos dois vocalistas. 

Também nos anos 80 o mundo da música presenciou a ascensão do versátil vocalista de jazz Bobby McFerrin, que passou a transitar por um range extenso de estilos: do jazz ao pop, do R'n'B a música acapella, da world music à música erudita, de abordagens específicas à linhagens mais comerciais. É preciso salientar, aliás, que McFerrin teve a capacidade de criar facetas vocais exploratórias mesmo em trabalhos mais comerciais. O trunfo de McFerrin é ter uma voz que se versatiliza tanto com o canto como com o scatting (improvisação vocal), além de técnicas vocais específicas pelas quais ele consegue imitar sons, entonações e fraseios de instrumentos, sem mencionar sua habilidade rítmica de usar a percussão corporal em comunhão com estas improvisações vocais. Para além do estrondoso sucesso que McFerrin teve em suas abordagens mais comerciais, há alguns álbuns em sua discografia que merecem mais atenção pelo aspecto mais autoral e mais dedicado à uma abordagem mais específica. Dois deles é Circlesongs (Sonny Classical, 1997) e VOCAbuLarieS (EmArcy, 2010). Circlesongs é um álbum onde ele convoca sua Voicestra -- um tipo de grupo eclético de vocal acapella -- para um ciclo de oito faixas sem temas determinados, apenas sobreposições vocais e vocalises improvisados, com todas as técnicas vocais que perfazem a identidade musical de McFerrin -- do canto acappela ao scatting, passando pelas imitações instrumentais e percussivas. VOCAbuLarieS é resultado de um mega projeto virtual de verve mais world music -- e daí o título, que expressa essa busca de juntar os vários vocabulários vocais, com cantores de diversos países, incluindo da África -- onde McFerrin tem a colaboração de mais de 50 cantores que contribuíram com suas gravações em separado: o projeto levou sete anos para ser concluído, com mais de 1.400 faixas gravadas por estes mais de 50 cantores de vários países, juntadas em uma espécie "acappela virtual", com vocalizações não menos que surpreendentes. Participam do projeto VOCAbuLarieS membros do grupo vocal New York Voices e a cantora brasileira, naturalizada americana, Luciana Souza. 
 

Um dos clássicos da discografia de Meredith Monk, Dolmen Music (ECM  New Series, 1981) documenta uma faceta onde a vocalista consegue criar uma amálgama entre suas técnicas estendidas precursoras, música minimalista e música folk medieval -- sem mencionar a textura e design da ECM, que sempre foi um fator um tanto emblemático. Meredith Monk apresenta solos de voz -- por ela mesmo, ou acompanhada por outras vozes -- que recebem um acompanhamento instrumental um tanto minimal, o que influencia na textura sonora e potencializa sua abordagem vocal. Voz com violoncelo em uma faixa, com piano em outra, com violino em seguida, e com um acompanhamento mínimo de percussão em outras duas -- é assim que a vocalista e compositora se comporta em suas peças vocais minimalistas. Participam aqui personalidades emblemáticas como o vocalista Julius Eastman e o percussionista Collin Walcott, que também colabora com violino. 

A cantora islandesa Björk é um marco na música pop criativa -- ou avant-pop como alguns críticos gostam de categorizar. E o seu ousado álbum Medulla (One Little Indian/ Elektra, 2004), ambientado na política da esperança e na poética da história ancestral humana, atesta isso! Neste álbum a cantora amplia suas explorações vocais para além das suas já singulares entonações próprias, convocando um grande time de vozes para trabalhar com efeitos acappella, técnicas de beatbox, efeitos do canto inuíte, entre outras explorações -- tudo isso potencializado por efeitos eletrônicos um tanto surreais de drumming programming, sintetizadores e toca-discos. Há um grande time de músicos e arranjadores diferentes áreas, e várias colaborações de vocalistas de diferentes técnicas aqui: Mike Patton com suas vocalizações guturais e experimentais; o rapper americano Rahzel e o vocalista japonês Dokaka nos ritmos e efeitos vocais de beatbox; a cantora canadense Tanya Gillis no canto ao estilo katajjaq (ou canto de garganta inuíte), uma técnica dos esquimós que se caracteriza pela emissão de dois ou mais sons vocais simultâneos emitidos por uma mesma pessoa; e a participação de dois grandes grupos acapella formados para a ocasião da gravação deste álbum: o The Icelandic Choir e o The London Choir. Há também outros compositores, arranjadores e músicos célebres que moldaram o sofisticado acompanhamento para estas vozes: o compositor e pianista Nico Muhly; o compositor e manipulador de eletrônicos Valgeir Sigurdsson; o duo de música eletrônica Matmos; os DJ's Mark Bell e Little Miss Spectra; entre outros músicos, DJ's, manipuladores de eletrônicos e vocalistas de diferentes nacionalidades. Compondo uma obra autoral, sofisticada, criativa e ousada, Björk mostra uma intenção um tanto política neste álbum no sentido de unir músicos, vocalistas, compositores, arranjadores e produtores de diferentes nacionalidades e vertentes para mostrar sua visão de um mundo melhor, e de esperança para um novo mundo, e de ancestralidade humana baseada na diversidade, diante de uma época em que ela presenciava uma onda crescente de racismo e de patriotismo fanático causados pós atentados de 11 de Setembro, o que chegou a assustar os imigrantes norte-americanos e gerou ecos de preconceitos a imigrantes em todo o mundo. Destaque aqui para a participação do compositor, arranjador e manipulador de eletrônicos Valgeir Sigurdsson, que foi um dos responsáveis pelos arranjos com toda essa diversidade de ingredientes. Este álbum ganhou dois prêmios Grammy: um na categoria Best Female Pop Vocal Performance pela canção "Oceania"; e outro na categoria Best Alternative Music Album. Conseguindo ser conceitual e experimental e ao mesmo tempo com considerável sucesso comercial, este álbum é considerado um dos registros mais marcantes da história das explorações vocais e da história da música contemporânea como um todo.





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