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Romulo Alexis, Wagner Ramos & Rádio Diáspora: sopros, bateria, eletrônica, provocações, e inflexões da diáspora afro



Fazer música experimental no Brasil definitivamente não é um caminho que colocará o músico sob os holofotes midiáticos mais afamados. Fazer música experimental no Brasil usando como ferramentas a crítica, a provocação e a reflexão em torno de causas raciais ou temáticas sociais é, então, uma atitude ainda mais excludente do ponto de vista do mainstream mais comercial. Mas foi esse o caminho que o duo brasileiro Rádio Diáspora escolheu para expressar sua música e fazer dela um incansável veículo de reflexão nos circuitos undergrounds e alternativos. Formado pelo trompetista, pesquisador e artista multimídia Romulo Alexis e pelo baterista e manipulador de eletrônicos Wagner Ramos, o duo Rádio Diáspora já lançou uma dezena de gravações com inúmeras explorações sonoras as quais trazem inspirações dos elementos, dos fatos, dos acontecimentos urbanos, das tradições, dos códigos, dos estereótipos e da história em torno da negritude e da diáspora africana. Ainda que espinhoso, trata-se de um caminho rico a se abordar: essa trilha proporciona trabalhar com temáticas que abrangem tanto os aspectos negativos da desigualdade, do preconceito e da discriminação, quanto os aspectos positivos das tradições e culturas incorporadas pela diáspora contemporânea. Quer dizer: ainda que o duo não vá muito de encontro com os aspectos tradicionais nos âmbitos folclóricos e tribais afros -- uma vez que claramente não se trata de um projeto revisionista da tradição --, mas ele aborda de forma muito inventiva os reflexos sócio-políticos, culturais e urbanos dessa diáspora inseridos no cotidiano e na consciência do artista negro atual e das populações afros atualmente. E quando ouvimos os registros do duo, essa riqueza fica bem latente através da ampla profusão de sons que ele consegue emitir: Alexis com sua voz, seu trompete, suas boquilhas, suas flautas, shehnai, gaitas e diversos outros apetrechos; Ramos com suas baquetas, caixas, tambores, pratos, kits de percussão, samplers e seus eletrônicos. Em termos de referências, os dois músicos frequentemente citam influências advindas de Art Blakey, Max Roach, Don Cherry, Miles Davis, Sun Ra, Fela Kuti, Herbie Hancock, John Butcher, Lily Greenham e do mestre brasileiro da luthieria experimental Walter Smetak. Interessante notar, também, que o tipo de música que o Rádio Diáspora emite é proveniente de uma amálgama que une procedimentos de diversos conceitos, elementos e estéticas: procedimentos do free jazz, flashes de um space-age a La Sun Ra, eletrônica elaborada, urban music, elementos das religiões africanas, influências do hip hop, recortes e colagens de excertos radiofônicos ou de vídeos e filmes... -- os dois músicos, enfim, costumam rechear bem suas amostragens. Ademais, não há a intenção de fazer um som bem polido ou algo composicional nos moldes da música catedrática ocidental. Também não há a intenção de fazer algo que se possa encaixar dentro de um nicho musical bem definido: algo que soe apenas free jazz, ou apenas jazz, ou apenas livre improvisação, ou apenas música experimental e etc. Há apenas a intenção de explorar a expressividade crua e espontânea dos sons e as desconstruções rítmico-harmônico-melódicas, abordando as questões, temáticas e estéticas da negritude de forma inventiva, primitiva, e ao mesmo tempo urbana e afro-futurista -- mantendo, no meio desse molho todo, as conexões mais curiosas entre esses sons e outras linguagens artísticas.

 

Quem esteve antenado nos acontecimentos culturais mais alternativos de São Paulo sempre se lembrará de como a década de 2010 foi frutífera para a cena do instrumental underground paulistano: os circuitos de improvisação livre no Centro Cultural São Paulo trazendo improvisadores como Panda Gianfratti, Marcio Mattos, Chefa Alonso, Sabu Toyozumi, Phil Minton, John Russell, John Edwards, Célio Barros, Michelle Agnes, entre outros; os ricos festivais de jazz (entre eles o nunca esquecido Festival Jazz na Fábrica) e de música instrumental no SESC Pompéia e em outras unidades do SESC (por meio dos quais tivemos a chance de ver diversos grandes músicos do free jazz, americanos e europeus); o apogeu de diversas bandas e formações instrumentais paulistanas ou dos entornos de São Paulo, tais como o Otis Trio (original do ABC paulista), a orquestra de improvisação livre São Paulo Improvisers in Orchestra; o projeto São Paulo Underground de Maurício Takara junto com o trompetista americano Rob Mazurek... -- enfim, tivemos um rico cenário instrumental-experimental que realmente possibilitou a formação de um público e de uma cena paulista bem movimentada com diferentes selos, espaços e projetos, ainda que com um público muito seleto. E Romulo Alexis e seu trompete estiveram presentes ou envolvidos -- de forma direta ou indireta -- em muitos desses momentos, sendo ele próprio um dos principais participantes e agitadores dessa cena paulistana. Trazendo experiências de projetos anteriores -- tais como o projeto instrumental Jazsmetak (inspirado na luthiearia experimental de Walter Smetak) e projetos teatrais e audiovisuais ao lado da multi-artista Leila Monsegur --, Romulo Alexis absorve toda essa massa sonora e adentra a um processo, então, de ampliar cada vez mais seu leque de expressividades -- tendo como grande trunfo a percepção de que seria mais do que necessário misturar todas essas suas experiências para criar sua própria arte musical, incorporando, inclusive, as possibilidades da eletrônica. Para tanto, o encontro com o amigo Wagner Ramos é emblemático. Wagner Ramos tem uma sensibilidade expressiva notável que vem de várias frentes e experiências marginais, não apenas da música instrumental, a qual casou-se muito bem com as possibilidades expressivas sedimentadas por Alexis. Oriundo do cenário do ABC paulista, Wagner Ramos é baterista, percussionista e um pesquisador diletante das parafernálias eletrônicas, além de um ativo membro de manifestações que incluem o rap, o funk, o soul e o samba, tendo colaborado com rappers e grupos como Jamal e a Máfia do Cabelo Duro, Bá Kimbuta e Banda Makomba. O projeto ruma-se então para uma amálgama e um hibridismo de sons, procedimentos e poéticas sonoras que se constroem e se descontroem a partir da união ou do choque de várias frentes de pesquisas musicais, não musicais, poéticas, audiovisuais, religiosas e afro-culturais. Nascia, então, o duo Rádio Diáspora, que traz, como o próprio nome denota, essa experiência radiofônica pelos vários canais, faixas e estações da diáspora africana dentro de um olhar urbano e experimental em torno tanto da realidade como das influências históricas dos povos afros. E com o tempo o projeto deu certo: além sempre estar ativo nos circuitos alternativos, marginais, experimentais e undergrounds, o duo tem chamado a atenção de diversos pesquisadores acadêmicos e projetos de pesquisas de universidades que procuram investigar esse território experimental dos sons amalgamados com outras poéticas, procedimentos, estéticas e linguagens. Curiosamente, aliás, -- ou não tão curioso para quem já estudou os efeitos da discriminação e da desigualdade social no Brasil --, o som do Rádio Diáspora atinge um público formado mais por pessoas brancas intelectualizadas do que por pessoas negras advindas das zonas periféricas. Abaixo cinco registros do Rádio Diáspora, incluindo os últimos álbuns, lançados em 2020 e 2021. Clique nas imagens dos álbuns para ouvir e saber mais.

Negro Humor, álbum lançado agora em março de 2021, traz a interessante associação dos sons livremente improvisados com vários recortes de excertos sampleados como plano de fundo. Esses excertos trazem trechos de falas de personalidades negras, ou associadas à diáspora afro, como uma forma de construir uma oralidade radiofônica que externize os paradoxos e as inconformidades em torno da pessoa negra moderna e contemporânea. O Rádio Diáspora explica: "A música que dá nome ao disco, 'Negro Humor', traz exatamente essa provocação, por meio de um sample com a fala do ator Grande Otelo. O consagrado artista negro ressalta o contrassenso do palhaço, que desperta em todos a alegria, mas é uma figura extremamente triste e solitária, ridicularizando a si mesmo e se colocando nas mais constrangedoras situações. Na plateia, o riso largo e aliviado das pessoas por não serem elas os alvos do escárnio". Trechos de reportagens sobre violência policial e outras falas relacionados à diáspora religiosa afro-brasileira também recheiam o álbum, tematizam e enriquecem a gama de sons emitidos pelo trompetista e baterista.

Caos!, lançado pouco antes da pandemia chegar ao Brasil, é o registro do encontro do Rádio Diáspora com o contrabaixista João Ciriaco, membro do Otis Trio. João Ciriaco, além de muita sensibilidade harmônica e rítmica, tem um toque encorpado que aqui dá ao Rádio Diáspora aquele frescor mais jazzístico, além distanciar o duo um pouco para fora da sonoridade experimental-crua presente em discos anteriores -- ou seja, aqui temos algo mais próximo a um jazz-trio. O duo economiza nos samplers e nos efeitos eletrônicos -- com incursões eletrônicas mais pontuais e estratégicas -- para explorar mais os diálogos, os devaneios, as sobreposições e as inflexões livres entre sopros, contrabaixo e bateria. Dessa forma, o trio soa livre, caótico, mas sem apelar à cacofonia estática e constante: trata-se de um caos sonoro onde cada faixa se delineia por várias dinâmicas e nuances, com muitas mudanças rítmicas, melódicas e atmosféricas dentro de uma mesma faixa -- o que torna as indefinições compositivas e improvisativas um tanto atraentes. São quatro faixas mais extensas -- três das quais superando 11 minutos de duração -- onde essas dinâmicas que são construídas ou criadas de forma espontânea acabam conferindo às faixas um tom mais composicional, fazendo essas faixas soarem mais próximas de "peças contemporâneas" ou "suítes jazzísticas" do que de "temas de jazz". A faixa "Mariguella" resume bem esse conjunto de dinâmicas diferentes que vai construindo e descontruindo narrativas e desenvolvimentos. Enquanto a faixa "Cristal" trabalha mais em torno de nuances atmosféricas, com um finale que se desemboca num desenvolvimento mais freejazzístico.

Lançado em 2019, Cachaça! é um dos álbuns mais bem elaborados do Rádio Diáspora. Aqui o duo convida a violoncelista Thayná Oliveira, a vocalista Paola Ribeiro e o tecladista Luiz Viola para levar sua gama de sons -- de sopros, percussões e eletrônica -- para um território mais híbrido e camerístico. O violoncelo de Thayná Oliveira contribui enormemente para a sonoridade do álbum, levando o grupo a alcançar uma tenacidade sonora mais encorpada, grave e erudita, além de ocasionalmente explorar sonoridades contrastantes em relação ao trompete e aos outros instrumentos. A voz de Paola Ribeiro atua aqui como um instrumento adjacente, muitas das vezes puxando o grupo para os campos melódicos mais curiosos, outras vezes apenas se contracenando com sons vocais aleatórios em meio a miríade de sons instrumentais emitidos. O tecladista Luiz Viola proporciona uma ambiência ainda maior a partir dos seus teclados -- piano acústico, piano elétrico e teclados afins --, mostrando uma interessante sensibilidade harmônica. Wagner Ramos se multiplica em três: com efeitos percussivos, com bateria e/ou quites de percussão, e explorando atmosferas e efeitos eletrônicos sutis. Além de explorar outros sopros, Romulo Alexis faz do seu trompete -- com bocal ou com boquilhas -- o principal discursante: às vezes soando sobressalente, outras vezes soando com efeitos eletrônicos reverberantes por debaixo da gama sonora do grupo. É um álbum, enfim, que trabalha muito bem toda a riqueza de sonoridades e toda a ambiência que se pode formar em torno dessa combinação de voz, cordas, teclados, sopros, percussões e efeitos eletrônicos. A faixa Equacional soa como uma curiosa paisagem sonora mais ao estilo "world music", com shehnai (uma espécie de oboé indiano), cordas e vocais que soam com ecos eletrônicos. Registro fantástico!

Aqui temos um interessante registro da congruência do jazz com o hip hop e pitadas mínimas de uma eletrônica meio ao estilo trip hop, elementos esses aqui inflexionados através de todas as influências, recursos e possibilidades sonoras que permeiam o trabalho do Rádio Diáspora e das influências que permeiam o rap brasileiro de Bá Kimbuta. Bá Kimbuta é um rapper e ativista comunitário muito ativo no cenário musical do ABC Paulista -- São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul -- e é dotado de uma poética repleta de rimas inteligentes e realistas em relação as mazelas sociais, descasos dos sistemas neoliberais e em torno dos elementos diaspóricos. Possibilitado pela aproximação que o baterista Wagner Ramos tem com Bá Kimbuta e com esse cenário do ABC, o encontro do rapper com o Rádio Diáspora gera aqui um registro ímpar no cenário brasileiro, já que não é muito comum no Brasil um rapper se juntar à uma banda instrumental para gerar um disco. Wagner Ramos dita o "funky-groove" característico do hip hop apenas em bateria acústica, crua -- apenas temperando o ambiente com sutis efeitos eletrônicos aqui e ali. O trompete e toda as outras gamas de sopros de Romulo Alexis aqui atuam, muitas das vezes, com riffs simples, como é bem comum na instrumentação do hip hop. Bá Kimbuta, por sua vez, deixa a marca das suas rimas por cima desses acompanhamentos de uma forma breve e nunca cansativa, deixando bastante espaço para o instrumental. Enfim...apesar de ser um álbum de rap com letras e com a característica batida funk, não se trata aqui de um disco convencional ou "quadrado" de hip hop. Temos, sim, as rimas e a tradicional batida do hip hop de forma bem localizada, mas o duo também enxerta de forma pontual, dinâmica e inteligente muitos elementos advindos do jazz, livre improvisação e eletrônica -- e sempre de uma forma diferente à cada faixa. Além dos vocais, Bá Kimbuta também atua com saxofone na faixa "Ao comando de Iansã". Registro lançado em 2018.

Lançado em 2016 pelo selo baiano Sê-lo!, o álbum homônimo Rádio Diáspora traz o duo imerso em explorações mais cruas e concisas. Apesar dos dois músicos variarem bastante entre os instrumentos e eletrônicos, aqui estamos diante de um registro com poucos efeitos eletrônicos e poucos samples -- com samples mais concisos e estratégicos, aliás --, e com os sopros se contracenando de forma mais direta com a bateria, o que deixa muitas das explorações do duo bem próximas à estética do free jazz mais cru. Uma das temáticas que o duo aqui explora de forma subjetiva -- com um subjetivismo latente que realmente incitará a curiosidade do ouvinte -- é se referir a coisas pretas e escuras por meio dos títulos das faixas e dos samples, como acontece nas faixas Negra Poesia, Lama e Chá Preto. Essa temática é interessante porque denota todos os estereótipos, simbolismos e pejoratividades que essas coisas carregam pelo simples fato de ter uma cor escura. O álbum também evoca, quase imperceptivelmente, influências rítmicas advindas do jazz e da diáspora afro-brasileira, com o baterista Wagner Ramos permeando ritmos do samba e levadas jazzísticas sem, contudo, soar muito insinuante -- como quem queira fazer o ouvinte lembrar de onde vem suas células rítmicas, expressando apenas algumas inflexões subjetivas ao invés da marcação rítmica tradicional. Alexis, por sua vez, além de explorar seu trompete -- com bocal e com boquilhas --, também explora flautas, shehnai e vuvuzelas.