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Álbuns 2022: Rafael Martini, Jameszoo, Michael Pipoquinha, Sara Schoenbeck, Carl Stone, Kirk Knuffke, Ches Smith...

★★★★ - Rafael Martini - Martelo (Savassi Festival Records, 2022).
Como fiel herdeiro da moderna tradição estabelecida pelo movimento cancionista do Clube da Esquina -- movimento, aliás, que a partir da segunda metade dos anos de 1960 congregaria não apenas cancionistas adeptos do "banquinho e violão", mas alguns dos maiores instrumentistas das estéticas pós bossa nova --, o pianista mineiro Rafael Martini vem permeando sua carreira solo sempre numa mescla entre registros de canções e peças instrumentais. Seu primeiro grande tento no circuito da música instrumental brasileira foi o álbum Motivo, lançado pela Núcleo Contemporâneo em 2012: lá, dez anos atras, Martini já evidenciava uma assustadora simbiose brasilianista de rítmicas folclóricas, arranjos camerísticos, desenvolvimentos jazzísticos, hermetismos pascoais, canções marcantes, vocalises e as ricas e lúdicas harmonias do Clube de Minas Gerais. Em 2017, Martini surgiria com um outro projeto instrumental inovador, dessa vez explorando arranjos orquestrais com vozes em formato coral: sua híbrida Suite Onirica, composição gravada com a Orquestra Sinfônica da Venezuela e com o Coral do Maestro Osvaldo Ferreira. E por fim, nos últimos anos, Rafael Martini segue encabeçando um movimento de inovação da música instrumental brasileira onde rítmicas com métricas inovadoras e elementos da eletrônica contemporânea também façam parte das novas tendências composicionais e de novos arranjos brasilianistas no século 21. É o que mostra seu mais recente álbum Martelo (Savassi Festival Records, 2022), esse seu primeiro álbum totalmente instrumental. Em Martelo, o pianista e compositor mineiro se supera na forma como equilibra os vários ingredientes da sua simbiose: sem insistir naqueles já manjados apelos aos arcadismos folclóricos nos âmbitos da mera reprodução dos regionalismos brasileiros, o pianista convoca uma banda com violino, clarinetes, violoncello, bateria e eletrônicos (laptop, synths) e deixa sua brasilidade aflorar livremente através de inflexões melódico-rítmico-harmônicas hiper contemporâneas, por vezes combinando efeitos eletrônicos, ruidosidades texturais e ambiências minimalistas. Para além dos desenvolvimentos, dos improvisos e das pitadas de ruidosidades e efeitos eletrônicos, a faixa título de Martelo é daqueles instrumentais tão bons de se ouvir que as repetições contínuas do tema principal nem deixam a impressão de repetição, uma vez que a cada refrão -- com violino, cello e piano...e a clarineta deslizando ali pelas beiradas -- o tema soa sempre novo e instigante, nos dando aquela sensação de vontade de sempre querer ouvi-lo mais. O segundo tema, "Passagem", é uma melodia meditativa que começa nos acalmando após passar pelo êxtase que sentimos na faixa-título, mas que de repente também nos surpreende com arranjos inteligentes e ruidosidades texturais inesperadas. A terceira faixa, "Nascente Afluente Vazante", inicia com uma exploração de ruídos tribais -- lembrando vagamente o estilo freejazzístico com o qual Hermeto Pascoal aborda suas ruidosidades -- e depois desemboca num belo tema.... E assim Rafael Martini segue suas explorações híbridas de elementos díspares -- texturas, ruídos, belas melodias, arranjos camerísticos, improvisos livres, eletrônica, jazz contemporâneo, efeitos minimalistas, etc e etc --, mas que harmonicamente formam uma coesa e bela simbiose composicional. A banda é formada por Rafael Martini (piano, sintetizadores), Joana Queiroz (clarinete, clarone), Luka Milanovic (violino), Felipe José (cello), Felipe Continentino e Antonio Loureiro (bateria) e Pedro Durães (programações eletrônicas). Com certeza um dos melhores álbuns de 2022.

★★★★ - Jameszoo - Blind (Brainfeeder, 2022). 
Conheci o manipulador de eletrônicos holandês Jameszoo recentemente quando o algoritmo do Spotify me indicou algumas faixas suas, numa ocasião em que estava garimpando sons de música eletrônica contemporânea. O impacto auditivo foi instantâneo. Logo percebi algumas manipulações um tanto assíncronas em combinações de vários eletrônicos (analógicos e digitais) com samples orgânicos e intervenções inexplicáveis de instrumentos acústicos, muitas das vezes com improvisos instrumentais livres ou improvisos bem elaborados em meio às assincronicidades eletrônicas -- ou vice-versa: espasmos e intervenções eletrônicas inexplicáveis em meio aos solos dos instrumentos acústicos. Algo me soou familiar -- não sabia o que era, mas sabia que tinha que escavar mais fundo. Qual não foi minha surpresa ao ver que em seu álbum Fool, lançado em 2016 pela Brainfeeder -- gravadora de Flying Lotus, sobrinho-neto de Alice Coltrane --, Jameszoo já trazia convidados mais do que especiais para seu projeto de exploração sonora: o produtor e compositor brasileiro Arthur Verocai, o pianista Steve Kuhn e o contrabaixista Thundercat. Já seu álbum Melkweg (Brainfeeder, 2019) traz a participação da interdisciplinar Metropole Orchestra, um conjunto híbrido holandês que mescla jazz contemporâneo, pop e arranjos eruditos. Para este álbum acima, Blind (Brainfeeder, 2022), Jameszoo se supera ainda mais. O DJ e manipulador de eletrônicos conta com instrumentistas que já lhe tinham sido colaboradores em projetos anteriores -- o tecladista Niels Broos, o contrabaixista sueco Petter Eldh e os bateristas Richard Spaven e Julian Sartorius -- mais um timaço de instrumentistas convidados tais como a violinista Diamanda La Berge Dramm, o pianista e organista Kit Downes, o estupendo trompetista Peter Evans, o veterano saxofonista britânico Evan Parker, o baterista Christian Lillinger, o DJ e colega de gravadora da Brainfeeder Dorian Concept (aka Oliver Johnson), o saxofonista John Dikeman e o multi-instrumentista e improvisador Matthew Bourne. Alguns desses nomes são bem conhecidos dos jazzófilos e amantes do avant-garde: Kit Downes, Petter Eldh, Peter Evans e Christian Lillinger, por exemplo, são algumas das figuras mais abrasivas do jazz e da livre improvisação contemporânea; e o veterano saxofonista Evan Parker é figura central no movimento a livre improvisação que eclodiu na Europa a partir de meados dos anos de 1960. Daí, então, o leitor mais antenado poderá perguntar: "Mas como esses músicos soam num álbum de um DJ e manipulador que é situado numa eletrônica pós-techno meio ao estilo IDM...?". E digo: "É aí que está o pulo do gato!". Jameszoo nos mostra aqui um exemplar projeto de extrapolação desses limites estéticos ao manipular recortes instrumentais com instrumentos acústicos em meio às suas amostragens eletrônicas, bem como em entrelaçar improvisos instrumentais acústicos com abstrações eletrônicas rítmicas e arrítmicas, sempre com doses idiossincráticas de assincronias, usando desde elementos de ambient music até seus inexplicáveis emaranhados de sons analógicos e futuristas. Só para se ter uma ideia, Jameszoo é fã de Herbie Hancock e Hermeto Pascoal e usa o termo "naive computer jazz" para rotular seu estilo. O que seria "naive computer jazz"? Só ouvindo, mesmo, para sentir e se ter uma ideia.

★★ - GOAT - Oh Death (Rocket, 2022.) 
A banda sueca Goat, com seus membros usando máscaras e figurinos tribalistas, é essencialmente uma banda de rock psicodélico instrumental -- com pontuais usos de faixas vocais --, com temperos e condimentos advindos do funk, pós-punk, free jazz, world music, elementos folclóricos escandinavos, regados a violões acústicos, distorções de guitarras elétricas aos estilos "fuzzy" e "skronk" e temáticas espirituais gnósticas. Surgida na cidade de Korpilombo, Condado de Norrbotten, e agora radicada em Gotemburgo, a banda Goat já lançou três álbuns de estúdio e dois álbuns ao vivo, sendo que os álbuns Commune (2014) e Requiem (2016) foram lançados pela aclamadíssima gravadora americana Sub Pop. Mas é seu álbum World Music (Rocket, 2012) que figura como um espécime sonoro já muito cultuado entre críticos e os amantes desse gênero de rock instrumental. Agora em 2022, pois, a banda chega com mais um tento: o álbum acima, Oh Death, que acaba de ser lançado agora mesmo neste mês de outubro. Para este álbum, ao que tudo indica, a banda incorpora um espírito roqueiro mais descontraído que o álbum anterior Requiem (Rocket, 2016). E não é pra menos: precisamos urgente retomar os bons ares pré-pandêmicos!

★★¹/2 - Michael Pipoquinha - Um novo tom (Umbilical Records, 2022).
É este trecho a seguir que está discorrido nas liner notes do álbum Um Novo Tom do contrabaixista brasileiro Michael Pipoquinha. "Surrounded by some of the highest-profile Brazilian musicians of the current generation, the bass genius departs from his previous more conservative work to embrace cutting-edge contemporary musical approaches. Frantic melodies, adventurous rhythms, rich harmonic landscapes and fearless sonic choices reminiscent of nu-jazz and lo-fi hip hop place Michael Pipoquinha up there next to admired contemporary artists such as James Francies, Kamasi Washington, Ben Wendel, Robert Glasper or Thundercat". Admirado desde a tenra idade dos 10...11 anos, quando já circulava nas redes sociais vídeos seus destrinchando complicados fraseios em ágeis slaps e dedilhados ao contrabaixo elétrico, Michael Pipoquinha lança agora este seu segundo álbum da carreira pelo selo Umbilical Records, tentando alcançar aqui um maior ecletismo, uma amálgama mais expansiva, uma simbiose que conecte o instrumental brasileiro com aquela variante de jazz contemporâneo que é mista de post-bop, pop, hip hop, neo-soul e eletrônica. E Pipoquinha consegue!!! O álbum traz uma notável riqueza melódico-rítmico-harmônica -- com uma simbiose instrumental cativante de vocalises e ambiências eletrônicas -- e é recheado de participações especiais, com alguns dos instrumentistas brasileiros mais talentosos dos últimos tempos. Entre eles o saxofonista Josué Lopez, o tecladista Thiago Almeida, o baterista Serginho Machado, o acordeonista Mestrinho, e os trompetistas Diego Garbin e Danilo Silva, entre outros.

★★★ - Sara Schoenbeck - Sara Schoenbeck (Pyroclastic Records, 2021).
Sara Schoenbeck -- ex-membra de conjuntos como 12+1(tet) e da Tri-Centric Orchestra, ambos liderados pelo iconoclasta mestre Anthony Braxton -- é uma das poucas instrumentistas a trazer o fagote para os territórios exploratórios do avant-garde jazz e da livre improvisação. Mas neste álbum, aliás, ela vai muito além desse específico campo da abstração freejazzística. Ela traz uma série de duetos e parcerias que expõem toda sua miríade de diferentes abordagens para o fagote, nos fazendo ouvir este instrumento singular -- adotado mais no ramo sinfônico e pouco usual na música popular, e menos ainda na música de improviso -- totalmente imergido em texturas variadas, timbragens inesperadas, com ecos de estilos musicais diversos. Improvisações livres, frases jazzísticas, inflexões em canções que soam mais próximas a um post-rock, multifonias que beiram ao microtonal, interações do timbre oco e singular do fagote com eletrônica, duetos que beiram a estética erudita, duo com fagote e bateria apenas... Enfim, trata-se de um álbum onde o caro leitor ouvirá o fagote -- esse singular instrumento sinfônico de palheta dupla, com um belo timbre oco-amadeirado -- em situações musicais tão inusitadas quanto divertidas, tão inusuais quanto reveladoras. No Bandcamp, Sara Schoenbeck nos conta como chegou a essa paixão em colocar o fagote numa linha de arte sonora mais ecleticamente exploratória: ela inicia a carreira logicamente como musicista do ramo sinfônico, mas logo depois percebe que a anatomia e a confusão de teclas-chaves do fagote também permitem uma exploração sonora rumo às técnicas estendidas de guinchos e multifonias, algo que a fez pesquisar novas possibilidades sonoras e imergir o seu fagote em tantas abordagens diferentes e experimentais quantas fossem possíveis, incluindo incursões pela música carnática indiana, abordagens tribais africanas, dança haitiana, dança javanesa, dentre outras. O álbum acima traz a fagotista, então, em parcerias e duetos com grandes nomes do jazz e da improvisação livre tais como o baterista canadense Harris Eisenstadt, a flautista de Chicago Nicole Mitchell, o guitarrista Nels Cline, o veterano saxofonista da AACM Roscoe Mitchell, o pianista Matt Mitchell, o contrabaixista Mark Dresser, o tecladista e manipulador de eletrônicos Wayne Horvitz, a violoncelista canadense Peggy Lee, e o pianista Robin Holcomb.

★★★ - Vadim Neselovskyi - Odesa - Solo Piano (Sunnyside, 2022).
Soou-me muito imagético este disco acima, álbum em piano solo do pianista ucraniano Vadim Neselovskyi. Consternado com a guerra entre Rússia e Ucrânia, o pianista compõe uma bela suíte de treze partes em homenagem às lembranças que permeiam a sua cidade natal Odesa, cidade ucraniana situada nas encostas do Mar Negro. O pianista conta, em sua página no Bandcamp, que embora tenha começado sua carreira como um dos pianistas clássicos mais jovens da história de Odesa -- já sendo considerado um menino-prodígio aos 10 anos de idade --, seria definitivamente o jazz a lhe sequestrar permanentemente o interesse. A história toda dessa transição de carreira está na liner notes do álbum acima disposta no Bandcamp e salienta bem toda a relação que o jovem pianista teve com sua cidade natal. Lá também está disponível as treze faixas que constituem a suíte, que retrata memórias e imagens de Odesa tais como a estação ferroviária, o conservatório da cidade, memórias do inverno, das danças tradicionais locais, do primeiro concerto de rock que o pianista assistiu na cidade, entre outras lembranças. Após suas primeiras incursões ao universo do jazz ainda na Ucrânia, Vadim Neselovskyi se mudaria para os EUA onde teria como seu principal mentor o legendário vibrafonista Gary Burton, além de tocar com ases do jazz contemporâneo tais como Julian Lage, Antonio Sanchez, Craig Taborn e começar a explorar suas raízes musicais judaicas em colaboração com John Zorn (no próprio selo Tzadik de Zorn). A quem se interessar, Neselovskyi tem um outra parceria interessante com o trompista e soprador Arkady Shilkloper, um dos mestres do peculiar instrumento alphorn (trompa alpina), com o qual também lançou álbuns peculiares. Aí está um pianista primoroso que mistura bem o classicismo pianístico europeu com os improvisos pianísticos impressionistas do jazz contemporâneo.
 
★★ - Carl Stone - Wat Dong Moon Lek (Unseenworlds Records, 2022).
Nada novo sob o sol que abrilhanta a carreira do fantástico explorador de sons eletrônicos Carl Stone, um dos mais brilhantes veteranos no campo da composição eletroacústica e das manipulações eletrônicas contemporâneas. O estilo e campo de trabalho explorado por Carl Stone compreende, nos últimos tempos, em usar recortes e pastiches da cultura pop em manipulações irônicas, sobreposições inflexionadas de loops e camadas eletronicamente desajustadas e distorções e efeitos renderizados em linguagem de programação conhecida como MAX/MSP. As faixas também evidenciam um certo caráter universal do pastiche da pop music, com canções pop características de vários países sendo retrabalhadas e gravadas na Radio Free Nakano em Tóquio, no Berlin Kiezsalon na Alemanha, no Civitella Ranieri Pizza Studio na Itália, e no PLB Studios em Los Angeles, EUA. Mais um tento divertido na carreira hiper criativa de Carl Stone, que segue lançando trabalhos criativos desse gênero sempre duas ou três vezes ao ano.
 
★★¹/2 - Seabrook, Cleaver, Cooper-Moore - In The Swarm (Astral Spirits, 2022).  
Álbum fantástico lançado recentemente pela jovem -- e já muito celebrada -- gravadora de free jazz e música improvisada Astral Spirit, de Austin, Texas, EUA. Neste álbum, temos o encontro de um singular trio formado por Brandon Seabrook na guitarra e banjo, Gerald Cleaver na bateria e eletrônicos e o veterano Cooper-Moore no diddley-bow. O diddley-bow é um instrumento de uma única corda que é muito característico na história do blues americano: a corda única é tensionada sob uma garrafa de vidro e o instrumentista produz as notas a partir de um slide de metal e de uma vareta percutida sobre a corda. Também já havíamos falado aqui da eletrônica hiper criativa do baterista Gerald Cleaver, que já lançou dois excelentes álbuns com explorações eletrônicas pela 577 Records. Agora, pois, esses três ases do avant-garde jazz se unem para dar vida a um registro que soa no mínimo singular, unindo as sonoridades extraídas da ancestralidade do banjo e do diddley-bow com as sonoridades psicodélicas e contemporâneas da guitarra elétrica e da eletrônica. Na verdade, o álbum em seu conjunto soa tão bem amalgamado que mal enxergamos/ouvimos as arestas entre o ancestral e o contemporâneo. Às vezes as peças soam com uma pegada roqueira mais latente, outras vezes com texturas sonoras mais eletrônicas, e outras vezes o banjo e o diddley-bow evocam ecos de uma certa ancestralidade rural imersa em eletrônica ou imersa em meio aos beats freejazzísticos da bateria. Mas o fato é que todas essas sonoridades estão criativamente amalgamadas.

★★ - Kirk Knuffke Trio - Gravity Without Airs (Tao Forms, 2022)
O trompetista Kirk Knuffke não apenas é dono de um timbre peculiar de corneta, como também destila grande versatilidade ao caminhar entre círculos de ao menos três variantes do jazz contemporâneo: do post-bop que se inflexiona em torno de padrões e elementos do mainstream (tocando com Matt Wilson, Ben Allison, Allison Miller e etc), do modern creative que trabalha com experimentação e novos elementos dentro de composições estruturadas (tocando com Mary Halvorson, Kenny Wollesen, Michael Formanek, John Medeski), e do free jazz que trabalha com a total livre improvisação (tocando com o falecido maestro Butch Morris, Karl Berger, Michael Bisio e etc). E essa versatilidade só lhe gera um vocabulário mais expansivo e rico de possibilidades. Mais recentemente, Knuffke esteve envolvido em gravações de projetos do seu trio com o baterista Bill Goodwin e o contrabaixista Mark Helias, e nas gravações do álbum Jesup Wagon com o Red Lily Quintet do saxofonista James Brandon Lewis. Para este álbum -- um dos registros mais aclamados deste ano de 2022 --, Kirk Knuffke criou um conjunto de composições abertas para o livre improviso, mas por vezes com peças que realçam a beleza do seu timbre de sopro aveludado em meio as ricas harmonias do piano de Matthew Shipp e do contrabaixo de Michael Bisio. Algumas peças soam com improvisos frenéticos, rasantes e mais abstratos. Outras soam mais impressionistas com a clara intenção de transparecer beleza, lirismo e melodiosidade. Kirk Knuffke explica sua poética: "I’m concerned with making beautiful music. Beauty is always first, though not in a precious way. It can be in a rough way, too". O cornetista também explica que o título do álbum "Gravity Without Airs" foi tirado do livro de Meditações do legendário imperador romano Marco Aurélio. Assim, com certa conotação poética, Kirk Knuffke nos mostra um trabalho moldado pela expressividade da sua corneta e pelas aberturas das suas peças, que são nada mais do que motivos para amplas possibilidades entre essa dualidade dos improvisos mais frenéticos, rasantes e abstratos e desenvolvimentos mais belos, aveludados, impressionistas e meditativos.

★★¹/2 - Trjj Group - Interest in Music (Stroom, 2022).
Achei interessante investigar -- via Bandcamp -- os sons experimentais e undergrounds empreendidos pelo selo belga Stroom, selo especializado em reeditar e compilar música eletrônica negligenciada dos anos 80, 90 e 2000, além de lançar muito material de criadores e manipuladores contemporâneos. A gravadora nasceu da rádio online Stroom.tv e foi fundada em 2016 sob a égide da histórica loja de discos raros Music Mania - Rock & Grooves. A loja fica situada em Ghent, Bélgica, e foi fundada em 1969 como Music Man: só em 2008 o empreendimento ganha um recomeço, agora tendo a adjunção da gravadora Stroom, que ficou especializada em lançamentos de vinis com edição limitada. A Stroom é dirigida pelo DJ e produtor Ziggy Devriendt e tem direção de arte é de Nana Esi. Um dos nomes que me foi a porta de entrada para conhecer os outros discos lançados pela Stroom foi o TRjj Group do cantor e manipulador de eletrônicos alemão Max Stocklosa, que produz uma eletrônica experimental situada numa estética mais "ambient music". No álbum Interest In Music, o artista usa uma instrumentação rica com os seguintes eletrônicos, sintetizadores e instrumentos: MPC 1000, Pearl SC-20, MFB 522, Fender Squier, Syncussion SY-1M, flauta irlandesa, Yamaha DX 21, Yamaha TG-33, Tama Techstar TS 305, Clavia Nord Drum, Roland TR 505, Yomox T-Resonator e Boss PS-6. Os sons em downloads e os vinis são comercializados nas plataformas Bandcamp, Discogs e Boomkat.
 
★★¹/2 - Steve Cardenas, Ben Allison, Ted Nash - Healing Power - The Music of Carla Bley (Sunnyside, 2022).
Disco interessante de um trio sem piano criando novas versões para temas do catálogo de Carla Bley, uma das mais singulares compositoras da história do jazz. Carla Bley inicia a carreira embrenhada no jazz de vanguarda da segunda metade dos anos 60, mas nas décadas seguintes adotaria, cada vez mais, um vocabulário pessoal repleto de temas que expressam certo humor e ironia já sob a égide de um pós-modernismo iminente: não era um senso de humor ácido como o de Frank Zappa (por exemplo), mas seus temas singulares, seus arranjos orquestrais com solos jocosos de trombone (sendo o saudoso trombonista Roswell Rudd um dos protagonistas, aliás) e seus combos instrumentais inusitados deixavam essa sua personalidade humorística bem latente. O álbum acima está longe de captar esse senso de humor que é próprio dos álbuns da compositora, mas é interessante por três motivos: por se tratar de um inusual combo sem piano (com saxofone/ clarinete, guitarra e contrabaixo); por trazer a interação de alguns dos músicos mais singulares e criativos das últimas décadas (o saxtenorista e clarinetista Ted Nash, o guitarrista Steve Cardenas e o contrabaixista Ben Allison); e pelo próprio caráter idiossincrático dos temas de Carla Bley, o qual permite aos músicos aberturas para várias possibilidades criativas (fraseios livres, outros fraseios mais próximos as cadências rítmicas do walking bass, temas com melodias e harmonias inusitadas, os instrumentos se dialogando entre perguntas e respostas, e etc). A verdade que se deixa transparecer é que Carla Bley conseguiu construir uma obra plural que vai do avant-garde ao post-bop mais exótico, algo que permite a esses músicos terem a liberdade de aplicar inflexões variadas nessas releituras.

★★ - Carlos Niño & Friends - Extra Presence (International Anthem, 2022).  
Mais um belo álbum de sons plurais do projeto Carlos Niño & Friends, empreendido pelo produtor, DJ, percussionista e manipulador de eletrônicos Carlos Niño, ligado a Dublab Internet Radio Station e vários projetos de discotecagem, rádio, rare grooves e difusão compilativa de sons texturais e transcendentes advindos de estilos como o free jazz mais spiritual, lounge jazz, hip hop experimental, folk, new age, world music e vários tipos de eletrônica, indo da estética mais "ambient" e "lounge" às abordagens mais experimentais. Carlos Niño, atualmente uma das estrelas do selo International Anthem -- gravadora de Chicago, uma das principais gravadoras a enriquecer o jazz contemporâneo --, tem sido um dos principais músicos e produtores a enriquecer o cenário de Los Angeles e a trazer novas abordagens sonoras para esse novo espectro de contemporaneidade que atualiza esse jazz mais textural, mais lounge, mais space-age, mais spiritual e mais ambient -- um "novo jazz" que valoriza mais o design sonoro relaxante do que quantidades avassaladoras de notas sendo desferidas em improvisos enérgicos. Neste álbum acima, o projeto de colaborações Carlos Niño & Friends nos traz 17 faixas trabalhadas por meio de edições, overdubs e colagens, cada uma com Carlos Niño acompanhando ou sendo acompanhado por uma multidão de parceiros diferentes nos mais variados instrumentos, nos mais variados eletrônicos e nas mais variadas sonoridades: Jamael Dean, Nate Mercereau, Shabazz Palaces, Deantoni Parks, Sam Gendel, Laraaji, Jamire Williams, Devin Daniels, Randy Gloss, Miguel Atwood-Ferguson, entre outros. Interessante lembrar que muitas dessas faixas captam atmosferas e sentimentos ligados aos meses pré e pós pandemia. Em 2020, quando o mundo todo entrou em confinamento, Carlos Niño entrou em seu estúdio em Woodland Hills, Califórnia, onde se debruçou sobre várias fitas com registros das suas sessões de improvisação com vários parceiros musicais, e decide, então, editar alguns desses sons com novos overdubs, colagens e manipulações, muitas das vezes compartilhando esse novo jeito, de criar música nova de forma remota, com seus amigos e colaboradores, os quais também tiveram a liberdade de acrescentar ideias e colagens.
  ★★ - Gordon Grdina's Nomad Trio - Boiling Point (Astral Spirits, 2022).  
Este álbum acima, Boiling Point, é o segundo lançamento do Nomad Trio liderado pelo guitarrista canadense Gordon Grdina com os americanos Matt Mitchell (piano) e Jim Black (bateria) e segue-se logo após o lançamento do álbum Martian Kitties em um duo de Grdina e Black, também pela Astral Spirits. Em ambos os projetos, Gordon Grdina exprime uma espécie de free jazz intrincado -- com algumas faixas mais melódicas e meditativas aqui e ali -- que se dá mais pelas formas de tentar estruturar o caos em contrapontos semi-elaborados -- com uma clara inspiração na influente linhagem criada pelo saxofonista Tim Berne -- do que por formas desconstrutivas de improvisos livres sem estruturas. E os três músicos são mestres incontestes em criar esses improvisos caóticos e emaranhados que se justapõem em contrapontos dos mais intricados: o pianista Matt Mitchell vai além, com seu piano rico de harmonias repletas de belas e cintilantes dissonâncias; a guitarra de Gordon Grdina adiciona ainda mais "linguajar intrincado" e ambiência harmônica levemente crua e psicodélica ao conceito de som do trio; e a bateria de Jim Black é intrincadamente polirrítmica e rica de timbres. Assim, entre faixas mais enérgicas e outras faixas mais melódicas e meditativas, o trio se confirma como um dos combos mais interessantes dessa linhagem de free jazz que tenta "estruturar o caos". Em certos momentos, Gordon Grdina também toca um curioso oud (instrumento de cordas dedilhadas do Oriente Médio, da parentela dos alaúdes), o que acrescenta ainda mais riqueza timbrística ao álbum.
 
★★ - Samo Salamon + Arild Andersen + Bob Moses - Pure and Simple (2022).
Samo Salamon é um guitarrista de jazz oriundo de Maribor, Eslovênia, mas totalmente imerso no mundo do jazz e suas cercanias contemporâneas, bem como é muito conectado com as correlações composicionais do jazz de vanguarda com a música erudita moderna. Sua presença pode ser atestada em diversas sessões de gravação por gravadoras tais como Clean Feed Records, Not Two Records, Fresh Sound New Talent, e sua guitarra pode ser ouvida em dezenas de álbuns onde colabora como sideman de músicos como John Hollenbeck, Mark Turner, Michel Godard, Drew Gress, Tony Malaby,Tom Rainey, Tim Berne, Donny McCaslin, Dave Binney, Josh Roseman, Gerald Cleaver, John Hebert, Julian Arguelles, dentre outros -- ou seja: indo do post-bop ao modern creative. Em termos de estilo, Samo Salamon inicia sua carreira influenciado por guitarristas do jazz fusion oitentista e do post-bop dos anos 90 e 2000 -- tais como John Scofield, que foi seu mentor, e outros ases como John Abercrombie, Ben Monder, Adam Rogers e Bill Frisell -- mas logo passa a desenvolver seu estilo próprio baseado nos estudos das tortuosidades de Ornette Coleman e Eric Dolphy: ele até gravou os tributos Ornethology (Samo Records, 2003) e Dolphyology: Complete Eric Dolphy for Solo Guitar (Samo Records, 2022). Trata-se de uma prática corriqueira entre os guitarristas de jazz: praticar o fraseado guitarrístico baseado nas articulações dos saxofonistas. Dessa forma Samo Salamon criou um fraseado e uma sonoridade que é um misto de ambiência fusion com aquele "free-bop" característico das linhas harmolódicas ornettianas e com aquele estilo composicional de Dolphy no quesito de tentar "estruturar o caos" -- isso sem mencionar as suas influências pessoais advindas da música tradicional romena, que também condimentam seu estilo. Esse álbum acima, Pure and Simple (Samo Records, 2022), mostra muito bem essa simbiose de sonoridades e de elementos que moldam seu processo composicional. Pure and Simple traz a realização de um sonho antigo de Samo Salamon: tocar com o baterista Bob Moses e com o contrabaixista Arild Andersen, dois ases do jazz fusion e jazz-rock mais criativo -- o guitarrista conta, aliás, que as primeiras vezes em que ouviu esses dois ídolos foram nos álbuns Bright Size Life de Pat Metheny (onde Bob Moses participa) e nos álbuns de Jan Garbarek e Terje Rypdal (nos quais Arild Andersen participa). Neste álbum acima, Samo Salamon utiliza-se de uma gama de sonoridades emanadas das suas guitarras elétricas e acústicas e cria peças onde ecos de todas essas influências se confluem numa amálgama não menos que coesa e criativa: sonoridades acústicas e elétricas em ambiências envolventes, peças com leituras e inflexões intrincadas, melodiosidades que lembram os harmolódicos ornettianos, sonoridades que trazem ecos do jazz fusion, arranjos com riqueza percussiva e improvisativa... Enfim, aqui temos um registro sonoro rico de elementos, influências, timbres e abordagens.

★★ - Ches Smith - Interpret It Well (Pyroclastic Records, 2022).
O baterista Ches Smith é um dos grandes nomes do seu instrumento no âmbito dessa free music mais "modern creative", sendo presença constante em álbuns de Tim Berne, John Zorn, David Torn, Marc Ribot, Craig Taborn, dentre outros. Ches Smith também atua com vibrafone e outras percussões, e sua sensibilidade musical é atestada em várias frentes do jazz contemporâneo e da música experimental, de forma que neste álbum acima seu estilo é mais repleto de beats polirrítmicos e de minúcias percussivas do que somente com aqueles beats explosivos do free jazz mais cru e visceral. De 2016 a 2018, ele já nutria um trio com o pianista e tecladista Craig Taborn e o violista Mat Maneri, e o guitarrista Bill Frisell já os tinha assistido em um show, mas nunca tinha tocado com eles. Com a chegada da Covid-19, Ches Smith encontrou um momento onde, de forma inédita, grande parte dos músicos de N.Y estavam disponíveis, com seus shows e concertos cancelados. Foi o momento de chamar Bill Frisell para adentrar ao grupo em um show -- e demorou, ainda, mais de um ano para o legendário guitarrista estar disponível. Sabendo que Bill Frisell é daquele tipo de guitarrista que preza muito pelas texturas e timbrísticas cativantes nas formas com as quais aborda suas guitarras, Ches Smith fez com que esse seu trio transformasse em um quarteto onde a música fluísse sem amarras e fosse destilada naquela forma de improvisos livres criados numa dinâmica mais composicional, onde cada músico pudesse acrescentar suas texturas, suas ideias melódico-harmônicas e suas inflexões elementares como se estivessem compondo elaboradamente em tempo real: a dinâmica do quarteto -- com piano, viola, guitarra e bateria/ vibrafone -- passou a tratar a criação musical com transições um tanto composicionais, de forma que os improvisos livres soam mais como pontes entre as peças. O resultado é um tipo de free jazz com belas e ricas texturas e timbrísticas em meio as polirritmias de uma bateria rica de possibilidades: a singular guitarra de Frisell soa ora com tons sutis de timbres semiacústicos e outrora soa com leves psicodelias; a viola de Maneri acrescenta muitos entrelaces melódicos ao molho; e o piano de Craig Taborn é tão rico harmonicamente quanto timbristicamente brilhante na forma como se funde e se sobrepõe.

★★ - David Binney - Tomorrow's Journey (Ghost Note Records, 2022).
Disco fantástico do saxofonista David Binney, um dos nomes mais interessantes do post-bop contemporâneo. David Binney é, inclusive, uma das pratas da gravadora Criss Cross, um dos berços mais ricos do neo-bop e post-bop nas últimas décadas. Tendo residido em Nova Iorque e sendo um dos músicos mais requisitados da cena -- tocando em shows, concertos e álbuns de Donny McCaslin, Maria Schneider, Medeski Martin & Wood, Bill Frisell, Ben Monder, Bobby Previte, Brian Blade, Craig Taborn, David Gilmore, Alex Sipiagin, Miles Okazaki, dentre tantos outros --, recentemente Binney voltou a residir em Los Angeles, seu local de criação, onde agora passa a contribuir com a cena local dando base para jovens instrumentistas e atuando num limiar entre o post-bop e a música mais livremente improvisada. E esse álbum é o retrato dessa nova fase. O álbum traz divertidas e intricadas composições -- algumas delas, aliás, em métricas ímpares -- onde os temas dão aberturas um tanto expansivas para as intrincâncias improvisativas da banda. Binney une uma banda jovem e extremamente talentosa com músicos Los Angeles: com os pianistas Luca Mendoza e Paul Cornish, os contrabaixistas Ethan Moffit e Logan Kane, o baterista Benjamin Ring, o percussionista Kenny Wolleson e os metais de Aaron Janik e Jon Hatamiya. Uma particularidade é o uso de dois contrabaixos, um detalhe que acrescenta ainda mais densidade harmônica à cozinha da banda. Os pianistas também se destacam pela riqueza de vocabulário!