Após ouvir o ótimo álbum que a aclamada maestrina americana Marin Alsop gravou com obras de John Adams e ao pesquisar outros títulos dela, fui direcionado às notícias de uma recente turnê que ela realizou em parceria com o aclamado violoncelista sul-africano Abel Selaocoe: a turnê em questão foi realizada na África do Sul e chama-se "Voices of Home", e o projeto traz, então, uma parceria com o cello e os vocais de Selaocoe e a batuta de Alsop à frente da Mzansi National Philharmonic Orchestra com a finalidade de celebrar a herança cultural local numa junção entre sons tribais, tradições sul-africanas e música sinfônica, tendo também a apresentação da peça Four Spirits Cello Concerto, obra composta pelo aclamado violoncelista. (Marin Alsop, que foi por anos, entre 2011 e 2019, regente e diretora musical da nossa Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – OSESP). Por consequência, fiquei impressionado com o talento multifacetado de Abel Selaocoe. Eu já havia me impressionado com o violoncelista em um short video que rapidamente me passou pelos dedos no YouTube, mas confesso que ainda não tinha me debruçado a ouvir os álbuns desse grande artista. Falha grave! Muita coisa pra escutar! Mas nunca é tarde! E agora eis que, após ficar curioso sobre como Selaocoe poderia soar junto a uma orquestra, decido ir até suas páginas —— no Spotify, no YouTube, no Qobuz, e etc... —— para me deparar com seus álbuns, vídeos e registros afins, e realmente é impressionante. Aliando sua música e performance a temáticas humanistas, o violoncelista se tornou uma sensação de nível mundial e encontra-se em franca ascensão, primeiramente alcançando sucesso no Reino Unido e logo depois realizando parcerias com músicos e orquestras de vários países, também sendo convidado para se apresentar nos EUA em palcos como Center for the Arts da Virginia Tech, Carnegie Hall e no Tiny Desk da NPR, o que atesta o sucesso em torno do caráter universal e humanista da sua música. Nascido em 1992 em Sebokeng, África do Sul, e tendo crescido ouvindo histórias pós-apartheid, Abel Selaocoe é um cellista, cantor, compositor e improvisador sul-africano que tem sido reconhecido por praticamente dar uma nova abordagem ao cello ao fundir música erudita, tradições vocais e instrumentais africanas, improvisação, percussões e cânticos e técnicas vocais tribais em performances e composições que cruzam fronteiras culturais e estilísticas entre a world music e a tradição sinfônica, entre o antigo e o contemporâneo. Criado em um township próximo a Joanesburgo, Selaocoe começou suas atividades musicais em programas comunitários e, com apenas 13 anos, ganhou bolsa para estudar no St John’s College, em Joanesburgo, antes de prosseguir seus estudos no Royal Northern College of Music, em Manchester, onde conquistou seu International Artist Diploma em 2018. A carreira internacional de Selaocoe decolou a partir de 2021, após suas estreias em festivais como o BBC Proms e apresentações com ensembles e orquestras como Manchester Collective, Saint Paul Chamber Orchestra e BBC Singers. O cellista também formou seus próprios grupos, tais como o trio Chesaba e o Bantu Ensemble, com os quais se apresenta por toda a África e em várias turnês internacionais. Com talento e carisma de sobra, Selaocoe também já esbanja uma identidade sonora não menos que única.

Pode-se se dizer que Abel Selaocoe realmente está dando uma nova abordagem ao violoncelo dentro de toda a universalidade que a música africana sempre apresentou ao mundo. O timbre do violoncelo já é, por si só, próximo do timbre da voz humana, e o que Selaocoe faz é encorpar ainda mais essa associação mimética. Até o momento com três álbuns lançados e vários vídeos borbulhando nas redes, os registros mostram o cellista utilizando seu instrumento tanto em interpretações de obras clássicas como em releituras de obras e canções da música popular sulafricana, bem como interpretando suas canções e seus próprios concertos autorais. Aliás, é ainda mais interessante como o músico se nutre dessas tradições todas para, a partir daí, criar seu próprio corpus autoral. Também chama a atenção como que Selaocoe utiliza o cello não apenas de forma melódica, mas também percussiva e extensiva, frequentemente utilizando o som marcante do seu instrumento com seus igualmente marcantes vocais de cantos difônicos, profundamente inspirado em suas raízes na cultura de etnias dos povos Bantu, tais como os Sotho, os Xhosa e os Zulu. É muito interessante, dentro dessa sua extensão vocal, como que ele inclui, no seu arsenal de possibilidades e fusões, explorações de sons vocálicos das línguas tribais africanas, falsetes melódicos, corais de vozes e vai até ao uso do cântico gutural de garganta do povo Xhosa, uma espécie de técnica gutural de garganta presente nos cânticos difônicos dessa e doutras etnias. Dessa forma, com seu cello e com seu canto extensivo soando conjuntamente como solistas, suas fusões abrangem de sons tribais e cânticos do povos bantu até leituras originais de temas clássicos de Johann Sebastian Bach, passando pelo encontro do seu cello com tambores e outros instrumentos africanos tais como kora, cabaça, wada (tubos de água), uhadi (arco musical xhosa) e indo até o uso de objetos improvisados e piano preparado. Seu álbum de estreia Where is Home/ Hae Ke Kae —— que traz a participação do famoso violoncelista chinês Yo-Yo Ma, da tocadora de teorba inglesa Elizabeth Kenny e do tocador de kora senelgalês Kadialy Kouyate, dentre diversos outros músicos da tradição sinfônica e das tradições populares e tribais africanas —— foi lançado pela Warner Classics em 2022 e foi imediatamente aclamado pela crítica: o repertório aborda canções e peças com vários desses elementos africanos —— com homenagem ao legendário músico tanzaniano Hukwe Zawose e temáticas humanistas direcionadas as crianças e mulheres africanas —— e no meio desse molho borbulhante de cânticos e percussões tribais ele inclui suas leituras da Sarabandes das Suítes para Violoncelo n.º 3 e n.º 5 de Bach e dos quatro movimentos da Sonata para Violoncelo n.º 7 em Ré Maior do compositor italiano Giovanni Benedetto Platti, com a particularidade de no meio dessas peças barrocas ele mesclar sonoridades de kora e outros instrumentos africanos imersos no baixo contínuo (nas linhas de baixo das peças). Seus dois álbuns posteriores, que abordaremos abaixo, expandem esse continuum indo em direções mais autorais e traçam uma viagem praticamente cartográfica entre a ancestralidade africana e a tradição da música erudita europeia/ ocidental.
★★★★ - Abel Selaocoe - Hymns of Bantu/ Four Spirits (Warner, 2025)
Estes dois álbuns acima, um de estúdio e o outro gravado ao vivo, são os dois registros mais recentes que atestam a estupenda criatividade e a evolução do violoncelista. Em Hymns of Bantu, Abel Selaocoe conta com a colaboração de membros do conjunto de câmara Manchester Collective e aprofunda a viagem sonora iniciada em Where Is Home (Hae ke Kae), caminhando para expandir ainda mais seu hibridismo e sua verve autoral. O álbum se constrói como um ciclo de canções, temas e composições que soam como verdadeiros rituais contemporâneos, no qual composições próprias dialogam com peças clássicas como a Suite nº 6 para Cello, de Bach, e "Le Voix Humanies", originalmente composta para viola da gamba pelo compositor barroco francês Marin Marais. O álbum começa com o hino africano "Tsohle Tsohle", passa por interpretações originais dessas peças clássicas —— nas quais africanidades sonoras também podem ser sentidas ——, entremeia a setlist com peças e cânticos autorais do próprio Selaocoe e engloba uma interpretação da peça "LB Files", do compositor italiano pós-minimalista Giovanni Sollima, descrita como a trilha sonora de um mini-filme imaginário sobre o violoncelista do século XVIII Luigi Boccherini. A ideia desse álbum, como já denotado anteriormente, é traçar um caminho que parte da ancestralidade africana e vai até as influências ocidentais clássicas e modernas que marcam as preferências de Abel Selaocoe enquanto cellista, sem deixar de salientar sua verve enquanto cantor e músico que bebe das fontes das tradições tribais e dos sons sul-africanos. Dessa forma, o artista une canto, oralidade de léxicos tribais dos povos bantu, escalas modais africanas, harmônicos de tons e sobretons da música sul-africana em diálogo com as harmonias ocidentais, percussão corporal, elementos do jazz, o uso extensivo do violoncelo —— tanto melódico quanto percussivo ——, a união de arranjos modernos e sinfônicos com sonoridades de instrumentações tribais, entre outros arranjos e hibridismos. Para além das interconexões entre ancestralidade africana e música ocidental, Hymns of Bantu soa como um álbum-manifesto no sentido de elevar as peças e canções a um caráter celebrativo, no qual os cânticos africanos soam como "hinos", configurando um trabalho profundamente identitário e ritualístico, sem deixar de salientar a originalidade de Selaocoe como compositor. E essa originalidade cresce ainda mais em Four Spirits, album seguinte que desloca essa mesma identidade para o território do concerto. Trata-se de um concerto para violoncelo, voz e orquestra inteiramente composto por Selaocoe, inspirado em forças da natureza, misticismo, elementos espirituais e cosmologias africanas, desta vez trazendo toda a energia de um concerto ao vivo para dentro desse universo. Four Spirits é, pois, uma obra de fôlego com mais de 40 minutos de duração, na qual o violoncelo é o protagonista que imerge e emerge por entre esses sons, essas oralidades e esses elementos dantes citados. Nesse concerto autoral, Selaocoe afirma-se plenamente como um compositor contemporâneo, integrando seu vocabulário rítmico, vocal, gestual, interpretativo e improvisatório à escrita orquestral. O concertista-intérprete-vocalista é o próprio compositor e ele contracena com a excelente Aurora Orchestra sob regência do maestro britânico Nicholas Collon, mostrando um concerto para violoncelo e voz com cadências improvisadas, arranjos inesquecíveis e características únicas. O ouvinte de avant-garde sentirá falta de tons dissonantes, mas a simbiose com a qual Selaocoe funde os espíritos sonoros e as harmonias modais da África arcaica com os ventos sinfônicos da tradição europeia se traduzem numa genial fusão consonante e atemporal, uma fusão que alguns críticos chamam de "ethno-classical" ou "classical crossover". Seja qual for o rótulo, trata-se de uma fusão admirável.