Nos anos de 1960, o maestro e multi-instrumentista pernambucano —— vivendo no RJ desde 1948 e, como já dito, sendo mestre e professor de muitos músicos e cantores da bossa nova e da nova MPB que surgiria ——, resolveu pegar uma trilha diferente que seus alunos. Enquanto os jovens bossanovistas de Copacabana e Ipanema consolidavam uma estética de samba com acordes de jazz e rítmica minimalista que suprimia totalmente os batuques inerentes à gênese afro do samba, maestro Moacir criou uma música em que, embora também fizesse uso das sofisticações melódico-rítmico-harmônicas do samba e da bossa, ele enfatizava mais os batuques do candomblé e os sons afro-brasileiros inflexionados por rítmicas e métricas inusuais e inventadas dentro de arranjos contemporâneos de big band de jazz com traços de música nordestina e tato erudito, assim criando uma mistura altamente inovadora que ficou registrada primeiramente no seu fantástico LP Coisas, lançado em 1965 pelo selo Forma. Baseados no clássico catálogo dos "Opus" da música erudita, o LP trazia 10 temas-peças enumerados e chamados de "Coisas", que são verdadeiras obras-primas desses esboços-estudos-misturas de Moacir. Na época, com o elitismo de um Brasil em plena ditadura e ainda muito marcado pelo racismo pós-colonial, deu-se pouca importância para esse LP —— lançado pelo selo Forma, aliás, em tiragem limitada, com poucas cópias ——, e deu-se menos importância ainda para as ideias inovadoras do maestro, de forma que Moacir logo resolveu se mudar para os EUA, onde sua música seria mais valorizada. Entre os artistas, porém, essa obra-prima foi ganhando reconhecimento e influenciando consistentemente o conceito de brasilidade. Moacir Santos praticamente abriu uma terceira trilha de inovação melódico-rítmico-harmônica dentro da música brasileira: ou seja, se por um lado tínhamos as inovações da bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto como música-exportação e, por outro lado, tínhamos músicos geniais como Sivuca e Hermeto Pascoal influenciando o nascimento de uma MPB universalista e antropofágica, a música inovadora de Moacir já enfatizaria mais a negritude brasileira de forma quente e orgânica, preenchendo outra grande lacuna da nossa brasilidade. O disco seguiu influenciando gerações de músicos nos bastidores e, pouco a pouco, com o advento da internet, foi sendo considerado uma obra-prima cult de alto valor artístico, a ponto de o The New York Times e vários jornais internacionais o descreverem como "uma das grandes realizações da música brasileira moderna", e a ponto de um exemplar do LP original ser considerado um dos mais caros "brazilian rare grooves". Em 2020, por exemplo, o cantor e colecionador de discos Ed Motta chegou a colocar uma cópia à venda por R$ 45.000, o que gerou grande debate sobre a inflação de discos raros, mas confirmou o status de obra-prima do álbum e do item de luxo que as primeiras prensagens desse LP se tornaram. Nos anos de 1970, Moacir lançaria um outro conjunto de discos inovadores nos EUA, mas o LP Coisas, de 1965, segue sendo considerado um tesouro com 10 jazidas que, agora, neste início de século 21, são exploradas por inúmeros músicos e cantores em releituras e novos arranjos.

★★★★¹/2 - Alexandre Vianna Trio - Coisas de Moacir (Tratore, 2025) E, neste discaço acima, o pianista e tecladista Alexandre Vianna e seu trio reverenciam essa obra-prima, lapidando as 10 "Coisas" de Moacir num formato de jazz contemporâneo em piano-trio e, sendo ainda mais ousados, inserindo alguns teclados e synths para dar um polimento próximo de uma vibe mais "urban music". Alexandre Vianna também celebra, com este seu lançamento, a efeméride em torno do centenário do nascimento do maestro, que sempre foi considerado um ícone incontornável entre os artistas, mas ainda hoje carece de maior alcance entre o grande público brasileiro. Assim, Vianna e seu trio atualizam o inovador vocabulário inaugurado pelas 10 "Coisas" de Moacir Santos numa linguagem jazzística em que as rítmicas afro-brasileiras ímpares do maestro ganham novos contornos harmônicos e tímbricos através de arranjos e texturas contemporâneas com piano, Fender Rhodes e sintetizadores, conferindo um novo design sonoro para esse precioso repertório. Ou seja, Alexandre Vianna e seus amigos do trio praticamente atualizam o vocabulário de "Coisas" de Moacir através da poética e frescor do jazz contemporâneo consolidada por grandes piano-trios do século 21, tais como, por exemplo, os trios do norte-americano Brad Mehldau Trio e do sueco Esbjorn Svensson, e também através de ecos de grooves urbanos consolidados por bandas e figuras brasileiras pioneiras do jazz-fusion e jazz-funk, tais como o trio brasileiro Azymuth e o pianista César Camargo Mariano. Aliás, pelo que se demonstra nesse registro, Vianna parece ter mente e ouvidos bem atentos para as vibes inovadoras de figuras e bandas históricas do samba-soul, fusion, jazz-funk e da brasilidade urbana, tais como Sergio Mendes, Marcos Valle, Eumir Deodato, o trio Azymuth, Herbie Hancock..., sem deixar de lado a natural sofisticação do samba-jazz acústico. E destilando um estilo próprio de amalgamar essas influências, o que Vianna faz neste seu disco-tributo é atualizar o repertório de Moacir Santos com releituras que trazem esses ecos e incorporam as novas contemporaneidades do nosso tempo. E as releituras ficaram muito mais do que apenas ótimas!!! Essas releituras e arranjos praticamente inauguram esse precioso repertório de Moacir Santos dentro de um novo sound design em que o piano-trio contemporâneo dialoga com grooves urbanos e com a nova eletrônica dentro de um contexto afro-brasileiro. Ademais, é surpreendente a fluidez e fluência jazzística com as quais o pianista e seus sidemans —— o contrabaixista João Benjamin e o baterista Rafael Lourenço —— caminham por solos, improvisos, arranjos e grooves inteligentes de forma coesa, mesmo nas peças em que as rítmicas ímpares de Moacir são mais desafiadoras. Aliás, eu diria até que Vianna nos mostra, com esse projeto, que a atemporal contemporaneidade do mestre pernambucano estava intrinsecamente marcada pelo destino para receber essa abordagem mais urbana, confirmando o quanto ele estava à frente do seu tempo quando compôs essas suas inovadoras peças afro-brasileiras chamadas "Coisas". Vianna e trio ainda contam com as participações especiais de Thomaz Souza (saxofone alto) em "Coisa N.3", da cantora Graziela Medori em "Coisa N.8" e de Thomaz Souza (saxofone alto) e Guiza Ribeiro (guitarra) em "Coisa N.10". Disco Fantástico!!!
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