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Edition of Contemporary Music: como Manfred Eicher criou o conceito musical e o design gráfico da "grife" ECM


Há quem diga -- entre os críticos e apreciadores mais "punkers" -- que o selo alemão ECM Records, durante suas quatro décadas de existência, praticamente cristalizou sua música e seu plantel de músicos com uma categorização chamada de "Conceito ECM": algo como um conceito de música de vanguarda, contemporânea, mas que trabalha os aspectos das harmonias, ruídos e silêncios com uma estética um tanto minimal, cristalina, intimista, nostálgica e sutil -- na verdade, enquanto outras vanguardas fizeram uso da cacofonia intensa, a gravadora alemã tratou logo de se diferenciar ao lapidar sua música com intrigantes doses de silêncio, nostalgia e suspense, fazendo um uso mínimo da abstração. Porém, durante seu desenvolvimento -- e principalmente nas últimas duas décadas --, a gravadora de Manfred Eicher veio se diversificando para além do jazz de vanguarda mais intimista e da música improvisada, englobando em sua estética produções musicais que vão desde novos jazzistas do post-bop contemporâneo até música erudita, world music e música experimental, tornando-se uma verdadeira grife de música contemporânea. Críticas e preconceitos à parte, a ECM é considerada uma das mais revolucionárias gravadoras independentes de música contemporânea, com uma gama de artistas criativos de várias partes do mundo e, por consequência, provenientes de vários estilos musicais: dentre eles podemos destacar os brasileiros Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, o norueguês Jan Garbarek, o norte-americano Keith Jarrett e vários outros músicos do jazz e fora dele, vários outros músicos da Europa, América e até dos paises orientais. Ou seja, apesar das rotulações inerentes à abordagem um tanto conceitual e "minimal" da gravadora até os anos 90, a partir dos anos 2000 suas produções foram se tornando mais diversificadas. E para quem quer entender e flutuar sobre o universo pós-moderno da ECM, trago aqui algumas indicações, além dos links para audição e pesquisa.


O primeiro documentário sobre a ECM foi filmado em 1986 pelo diretor Jan Horne: um documentário de 60 minutos chamado Bare Stillheten abordando o produtor Manfred Eicher e as instalações da gravadora em Munique. O documentário foi filmado em Oslo e Tokyo com a participação de músicos da época tais como Garbarek, Terje Rypdal, Jon Christensen, Arild Andersen, John Surman, Eberhard Weber, entre outros. Desde então, de tempos em tempos, a gravadora produz uma série de revistas, livros, vídeos e documentários para atualizar seu publico sobre suas transformações criativas e conceituais ou para mostrar novas facetas criativas dos seus músicos.

Um exemplo é o livro "Horizons Touched", lançado entre 2006 e 2007, e que aborda toda a paleta musical produzida pela ECM Records através de entrevistas com o produtor Manfred Eicher, fotos e mais de 20 ensaios especialmente encomendados à uma troupe de jornalistas, críticos e especialistas em música moderna e contemporânea. Intercalados entre os ensaios estão mais de 100 depoimentos de compositores, músicos e engenheiros, bem como cineastas, fotógrafos e designers associados ao selo. O livro inclui também as imagens e as fichas técnicas da discografia completa da gravadora, com todos os lançamentos de 1969 até 2006. Outro filme que atualiza essa faceta mais documental da ECM é Sound and Silence, um documentário que aborda as produções apenas em relação ao ano de 2009 -- um ano que evidenciou uma verdadeira guinada estética, por sinal. O filme é uma produção da Recycled TV AG e Biograph Film e foi lançado em Outubro de 2010 Na Alemanha. Neste documentário, os cineastas Peter Guyer e Norbert Wiedmer retratam o cotidiano do chefe e fundador Manfred Eicher em sua busca perfeccionista por novos sons, tons e ruídos. Com a câmera em mãos, eles acompanham o produtor em seu trabalho, em gravações, concertos ao vivo, no estúdio e no escritório, em grandes salas de concerto e bastidores afins. O filme aborda apenas compositores e músicos que estavam gravando pelo selo ECM naquele ano: Arvo Pärt , Anouar Brahem , Eleni Karaindrou , Dino Saluzzi , Anja Lechner , Gianluigi Trovesi , Nik Bärtsch , Marilyn Mazur , Jan Garbarek , Kim Kashkashian, e etc. Em 2011, foi lançado o CD com a trilha sonora do documentário, englobando toda a surpreendente diversidade musical destes músicos e compositores -- desde a música erudita contemporânea do compositor Arvo Pärt, passando pelo tango contemporâneo de Dino Saluzzi até o modern-creative jazz do pianista Nik Bärtsch. Por fim, um dos últimos documentários produzidos pela ECM foi lançado em 2014: trata-se do documentário Arrows Into Infinity (ECM 5052) com foco em Charles Lloyd e dirigido por sua esposa Dorothy Darr junto com Jeffery Morse. No mesmo ano, o documentário Radhe Radhe: Rites of Holi (ECM 5507) trouxe imagens de Prashant Bhargava sobre o colorido festiva hindú  de Holi, tendo como trilha sonora a música exuberante de Vijay Iyer. E para completar a compreensão em torno do universo ECM, temos o livro "Windfall Light: The Visual Language of ECM", que trata do design gráfico das capas de álbuns da gravadora, da sua distinta linguagem visual, que é tão conceitual quanto sua produção musical. O book aborda capas de discos que vão de 1996 até o final dos anos 2000. Através dos anos, Manfred Eicher trabalhou com muitos designers e fotógrafos, mas alguns deles -- tais como Barbara Wojirsch (a principal designer a criar o vocabulário visual dos discos da gravadora em seus primeiros 25 anos), Dieter Rehm , Sascha Kleis e Mayo Bucher -- tiveram mais preponderância na criação da poética visual da ECM. O book aborda a estética gráfica e fotográfica, as inspirações artísticas no cinema e nas fontes literárias que os designers e fotógrafos usam para criar as capas dos discos da gravadora, tentando imprimir um elo entre imagem e música. 





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