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Saxophone Conclaves: alguns registros dos maiores duelos, encontros e parcerias entre saxofonistas do jazz moderno


Sendo influenciado por Charlie Parker e Lee Konitz em seu início de carreira, o célebre saxofonista alto Paul Desmond certa vez disse que gostaria de soar como ambos, mas gostaria de particularmente soar mais como um "martini seco", frase que ficou conhecida nos anais da história do jazz e que exemplifica a busca incessante dos saxofonistas por soarem diferenciados e expressivos. E uma das formas pelas quais o swing evoluiu para a linguagem bebop foi através das jam sessions, das batalhas de solos e dos diálogos sonoros que trompetistas e saxofonistas empreendiam nas horas vagas em seus humildes apartamentos ou em clubes periféricos de NYC, quando não estavam tocando nas mais afamadas big bands, em musicais da Broadway, teatros, grandes palcos e em programas de TV. Quer dizer, as disputas de quem era mais expressivo ou ágil sempre existiram, mas quando o bebop se institucionalizou como a linguagem-mãe de um jazz moderno que enfatizava cada vez mais a velocidade, a capacidade de improviso e o fraseado abstrato e intrincado -- ou seja, que não era mais feito apenas pra dançar, mas sim para soar como uma obra de arte compatível com as peças mais intrincadas da música erudita moderna --, então estas disputas de solos intrincados, improvisos e estilos pessoais se intensificaram, sobretudo entre os saxofonistas, e foram parar nos palcos e dentro dos estúdios para serem lançadas em discos. Divididos entre o estilo expressivo e grave de Lester Young e o estilo mais ágil de Coleman Hawkins, a preocupação dos primeiros saxofonistas do bebop eram, inclusive, soarem ágeis e expressivos e sentimentais ao mesmo tempo, façanha que nem todos conseguiram de imediato: John Coltrane, por exemplo, só atingiu seu estilo e sua expressividade mais de uma década depois; e Dexter Gordon, que era uma influência em termos de visceralidade no início do bebop, só se tornou mais expressivo após os anos 60, quando suas principais influências agora passariam a ser Sonny Rollins e John Coltrane, justamente os próprios jovens que ele havia influenciado no passado. Já no cenário do West Coast, a região de jazzistas brancos do outro lado dos EUA, os músicos tinham a alcunham de serem "cool", líricos e sentimentais, mas eram taxados -- muitas vezes com base em falsos estigmas -- de não conseguirem soar "bluesy", viscerais, suingantes e ágeis o suficiente, falácias que foram caindo por terra quando saxofonistas brancos como Lee Konitz, Paul Desmond, Phill Woods, Al Cohn, Zoot Sims e Stan Getz começaram a dividir os palcos, os estúdios e as capas dos álbuns com seus colegas negros em Nova Iorque e, juntos, definiram o jazz cada vez mais com uma música híbrida de cultura e arte, de visceralidade e elegância, de brancos e negros. Neste post, reunimos então alguns dos mais emblemáticos encontros, parcerias e batalhas de solos e improvisos registrados em gravações históricas. Ao menos em parte, os álbuns aqui indicados sintetizam não apenas o bebop como linguagem moderna do jazz -- uma linguagem moderna variabilizada por variantes como "west coast", "bluesy", "latin" e "soulfull" (chamado mais tarde de hard bop) --, mas também sintetizam a própria história do saxofone no jazz moderno como um instrumento que definiu as técnicas de fraseados e expressividades ao lado do trompete. Por razões óbvias, boa parte das faixas que compõe os álbuns aqui indicados, superam a marca de 8 minutos de diálogos e batalhas sonoras!


Coltrane e seus encontros com Rollins, Stitt, Mobley, Quinichette, Griffin, Adderley...

Selo: Prestige Records. Ano: 1956.

Faixas: "Tenor Conclave" (Mobley) — 11:05; "Just You, Just Me" (Jesse Greer, Raymond Klages) — 9:29; "Bob's Boys" (Hank Mobley) — 8:26; "How Deep Is the Ocean" (Irving Berlin) — 15:04

Sidemans: Al Cohn, John Coltrane, Hank Mobley, Zoot Sims — tenor saxophone; Red Garland — piano; Paul Chambers — bass; Art Taylor — drums

A Pretige Records, sediada em Nova Iorque, tinha duas particularidades mais evidentes que as diferenciava, por exemplo, da Blue Note: ela não pagava os músicos pelos ensaios, o que os incentivava a efetuar gravações mais espontâneas e rápidas, geralmente em apenas um dia, com apenas um, dois ou no máximo três takes para cada faixa; e a outra particularidade é que, mesmo disputando todo o plantel preferencialmente de músicos negros sediados em N.Y.C com a  Blue Note e com a CBS, ela era a gravadora nova iorquina que mais evidenciava o jazz dos músicos brancos da costa oeste, rotulado na época como "west coast jazz" -- ou dos músicos da Costa Oeste que haviam migrado para NYC para aproveitar o cenário efervescido pelo bebop e hard bop logo em seguida. Os músicos brancos da costa oeste eram  conhecidos por serem mais "cool", mais líricos e melodiosos e foram responsáveis por incluir ao repertório do jazz novos standards advindo dos musicais, do cinema e da "música pop" dos artistas brancos dos anos 30, 40 e início dos anos 50. Os músicos negros eram conhecidos pelo fraseado bebop ágil, pela predileção em comporem seus próprios temas com linhas de blues e por aplicar releituras em standards de uma forma mais sombreada e "bluesy". No fim das contas, porém, mesmo a sociedade da época querendo aplicar divisões raciais e estéticas, tanto os músicos brancos do west coast como os músicos negros de Nova Iorque eram excelentes improvisadores e solistas em igual proporção técnica e, através da amizade e de inúmeras performances conjuntas, juntos eles foram alguns dos principais responsáveis pela luta pacífica contra as barreiras das discriminação racial através da música na sociedade americana. É o caso da dupla Al Cohn e Zoot Sims, músicos que migraram muito cedo das suas cidades natais do West Coast para aproveitarem o cenário efervescente de bebop em Nova Iorque. E este álbum é o documento que registra esta faceta de coexistência e o encontro de quatro gigantes do sax tenor, sendo duas duplas de cada um dos cenários: Hank Mobley e John Coltrane, que na época faziam sucesso tocando o melhor do estilo hard bop nos clubes de Nova Iorque; e Al Cohn e Zoot Sims, dois dos maiores saxofonistas advindos da costa oeste os quais formariam uma das duplas mais longevas e legendárias da história do jazz. Dentre estas lendas do sax tenor, o que estava mais em destaque na mídia dessa época era Hank Mobley: tanto que os dois únicos temas originais do álbum, incluindo a faixa título, são composições suas. John Coltrane já era um gigante, mas ainda estava no início da evolução do seu intricado fraseado, que representaria um dos saltos evolutivos do jazz nos anos seguintes. Aliás, aproveitando a fama meteórica que John Coltrane atingiu a partir de 1958, a Prestige Record relançou este mesmo álbum em 1962 aparentemente como um registro novo e com uma capa diferente destacando seu nome, talvez no intuito de lucrar mais com as vendas. Contudo, originalmente, este álbum é um dos resultados da série de gravações nas quais a Prestige juntava seus melhores músicos do momento, e dava os créditos dos lançamentos não para um músico específico, mas para a alcunha do Prestige All Stars, título que denominava esse seu coletivo de músicos.


John Coltrane, aliás, foi uma força motriz que sedimentou a linguagem bebop -- tocando e aprendendo com todos seus amigos saxofonistas, de Charlie Parker à Sonny Rollins (e não só saxofonistas, mas efetuando parcerias com os mais variados músicos das sua época, jovens e veteranos) -- para depois elevar esta linguagem à níveis ainda mais avançados de estética, técnica e espiritualidade. Isso quer dizer que se você estudar o jazz apenas em torno do que aconteceu na vida e na arte de John Coltrane, provavelmente você já terá uma considerável porcentagem da mínima compreensão de como transcorreu a linha evolutiva desta forma de arte nos anos 50 e 60, principalmente considerando as parcerias que ele fez  e os títulos lançados com sua colaboração aos grandes músicos da sua época. Individualmente -- contando a partir do seu primeiro contato com o bebop revolucionário de Charlie Parker até suas primeiras gravações como leader --, Trane passou praticamente uma década para começar a ter uma carreira de sucesso, conseguindo este feito já quando a variante hard bop estava prestes a saturar. Mesmo já sendo considerado um dos grandes saxofonistas da sua época e tendo já tocado com muitos grandes músicos -- incluindo com o já superestimado Miles Davis em seu primeiro quinteto entre os anos de 1955 à 1958 --, Coltrane só iniciou sua trajetória pessoal como um leader de sucesso a partir de1956 quando conseguiu um contrato com a Prestige Records -- e isso não teve haver com a capacidade do músico à época, mas sim com sua história de luta contra os vícios das drogas e da bebida, os quais lhe impossibilitava de almejar vôos maiores. Enquanto manteve contato e contrato com a Prestige Records, entre os anos de 1956 e 1958, John Coltrane -- que até aquela época era uma espécie de "sideman de luxo", contratado para ser um colaborador dos mais variados músicos -- foi requisitado para gravar com diversos nomes da gravadora na condição de sideman, co-líder, ou simplesmente participando da série de gravações do Prestige All Stars, que era um coletivo que a gravadora formava para efetuar gravações com seus melhores músicos. Um exemplo de encontro de gigantes nesta época é o álbum Tenor Madness (1956) que registra o encontro histórico de John Coltrane com Sonny Rollins na faixa título do disco: estando Coltrane gravando com Miles Davis Davis Quintet as faixas que dariam luz aos álbuns Workin', Relaxin' e Steamin' no estúdio de Rudy Van Gelder em Nova Jersey, e estando Sonny Rollins gravando as faixas do seu álbum Sonny Rollins Plus 4 com Max Roach e Clifford Brown neste mesmo estúdio, o encontro ocasional e único dos dois saxtenoristas foi inevitavelmente registrado por Rudy Van Gelder numa faixa única de 12 minutos, onde o estilo idiossincrático, grave e rústico de Rollins contrastava com estilo brilhante e rasante de Trane. O encontro foi considerado um dos grandes eventos de 1956 e contribuiu para alçar ainda mais o nome de Coltrane como um dos grandes saxofonistas ao lado de Sonny Stitt, Hank Mobley e o próprio Sonny Rollins. 

Com o sucesso que Coltrane alcançaria em seguida, muitas das gravações da Prestige em que ele participa como sideman ou co-líder entre 1956 e 1958, seriam relançadas com seu nome destacado nas capas dos álbuns a partir de 1959, como se ele tivesse sido o líder sumário de tais sessões -- uma praxe mercadológica das gravadoras da época para aproveitar o máximo de vendagem de uma mesma gravação enquanto os nomes dos músicos respectivos estivessem em alta ou ascensão. Diversos encontros de John Coltrane com seus amigos saxofonistas foram, então, registrados neste período e posteriormente relançados com outros títulos em seu nome. Exemplo do álbum Informal Jazz (1957) com as gravações originais sendo lideradas pelo pianista Elmo Hope, mas tendo a participação de John Coltrane ao lado do seu amigo também saxtenorista Hank Mobley -- talvez o maior dos saxofonistas do período de 1955 à 1958 --, gravação que seria relançada em 1969 como Two Tenors, tendo o nome de Trane em evidência. Outro exemplo desta fase é o álbum Cattin' with Coltrane and Quinichette, onde Coltrane colabora com o saxtenorista Paul Quinichette em quatro das seis faixas do disco: com as evidentes diferenças entre o estilo em "legato" rasante e agudo de Coltrane improvisar e o estilo de Quinichette que era um bebopper mais influenciado pelo estilo grave e expressivo de Lester Young. John Coltrane, aliás, volta e encontrar Paul Quinichette no álbum Wheelin' & Dealin' creditado  inicialmente ao The Prestige All Stars, registro que também traz o saxtenorista e flautista Frank Wess. Outro seminal exemplo desta fase é o álbum Baritones and French Horns (1957) -- um compilativo de duas sessões de gravações creditadas inicialmente ao The Prestige All Stars, uma gravada com saxofonistas em 20 de Abril, e a outra com trompetistas em 18 de Maio --, do qual parte das faixas, com John Coltrane ao lado dos baritonistas Cecil Payne e Pepper Adams, seriam relançadas no álbum Dakar em 1963. Por fim, outro álbum ainda ainda menos conhecido da série que The Prestige All Stars que registra o encontro de Trane com outro grande saxofonista é álbum Interplay for 2 Trumpets and 2 Tenors que registra seu encontro com o saxofonista belga Bobby Jaspar, que faleceria precocemente aos 37 anos em 1963 -- esta sessão, aliás, fora planejada para trabalhar as composições do pianista Mal Waldron, o principal compositor da Prestige na época e, consequentemente, um dos grandes compositores de originais do jazz. Fora da Prestige, devemos destacar, nesta fase, o álbum A Blowin' Session (Blue Note, 1957) que traz, numa tacada só, Johnny Griffin, Hank Mobley e John Coltrane: álbum liderado pelo também emergente saxtenorista Jhonny Griffin. Devemos destacar ainda a breve estadia e parceria que Coltrane teve junto ao legendário altoísta Cannonball Adderley: um pouco antes das sessões de Kind of Blue, Adderley liderou o quinteto que gravaria o mítico álbum com Miles Davis -- com John Coltrane, Wynton Kelly, Paul Chambers e Jimmy Cobb -- e gravou, então, sete faixas para o selo Mercury, dando origem ao álbum Cannonball Adderley Quintet in Chicago (1959), que em 1964 foi relançado pelo selo Limelight (uma subsidiária da Mercury) com o título Cannonball & Coltrane, selando o encontro destas duas lendas do saxofone -- Cannonball Adderley com seu fraseado rasante e bem articulado e representando a evolução do bebop no sax alto; e Trane já em plena evolução com sua intricada e ágil articulação em legato!


Sonny Rollins x Sonny Stitt: Dizzy Gillespie provoca a "batallha" do século!

A seara dos saxofones, principalmente o tenor, sempre suscitou as mais emblemáticas rivalidades entre seus "colossos". Mas é preciso lembrar que as rivalidades, por mais que alimentassem as mais acaloradas discussões, eram naturais e sadias. Quem era o "melhor" ou "maior", Lester Young ou Coleman Hawkins? Esta era a rivalidade entre meados dos anos 30 e 40. Nos anos 50 não foi diferente. Sonny Stitt e Sonny Rollins, dois dos jovens remanescentes do bebop -- com o já celebrado Hank Mobley e com o ainda emergente John Coltrane surgindo em paralelo pra esquentar esta seara de "batalhas" --, travaram uma das mais emblemática batalha do sax tenor, até pelos nomes iguais que tinham. Sonny Stitt, um ágil e excepcional frasista de timbre claro e rasante, era considerado o saxtenorista mais próximo do estilo de Charlie Parker que se tinha notícia -- o que era para alguns um elogio, e para outros um demérito. Já Sonny Rollins, também ágil e excepcional, tinha um timbre mais "escuro", "rústico" e um fraseado mais particular. Reza a lenda que o trompetista Dizzy Gillespie foi um dos que jogaram muita lenha nesta fogueira com fofocas, ligações de telefone e provocações em ambos os lados. Mas para o desinibido Dizzy tudo era festa, e qualquer "briga" podia acabar em uma jam session. Pois bem, em 1957 Dizzy reúne os dois para uma jam session que foi parar dentro dos estúdios da Verve Records, dando origem a este que é um dos álbuns com as melhores "batalhas" de solos virtuosos do hard bop dos anos 50. Dizzy ainda mostra um pouco do seu talento vocal, o que deixa este álbum ainda mais interessante! Os sidemans foram: Ray Bryant - piano; Tommy Bryant - double bass; Charlie Persip - drums. Existem outras edições com faixas que foram gravadas nesta sessão: vide o álbum Duets, lançado em nome de Dizzy Gillespie com o trompetista fazendo duetos com estes dois grandes nomes do sax tenor.


Johnny Griffin & Eddie "Lockjaw" Davis: duradoura e colossal dupla de tenores


O saxtenorista Johnny Griffin -- apelidado de "Little Giant -- também foi um dos adeptos das "battle sessions", lançando mais de uma dezena de álbuns em parceria com seu seu amigo, também grande saxtenorista, Eddie "Lockjaw" Davis. Sendo um dos saxtenoristas mais ágeis e rasantes da sua época, Johnny Griffin era conhecido por sua capacidade e velocidade de frasear com swing e sem perder a noção harmônica e melódica dos temas, bem como por sua capacidade de tocar baladas mais lentas com uma ternura de deixar Ben Webster com inveja. Ao lado de Eddie "Lockjaw" Davis, Griffin formou uma dupla de saxtenores que liderou um quinteto -- com variadas participações de grandes sidemans no início dos anos 60, diga-se de passagem -- que pode ser considerada a sua mais importante formação: isso porque os dois saxtenores decidiram levar a parceria adiante priorizando performances ao vivo nos EUA e na Europa, e registraram algumas das mais icônicas batalhas e diálogos de saxofones da história do jazz, sem contar os álbuns de estúdio da dupla. Os estilos são sempre distintos entre si. Se Griffin era um player master do bebop em termos de agilidade e brilhantismo, Eddie "Lockjaw" Davis soava "escuro", "bluesy" e "soulful", mas também era capaz de alcançar igual agilidade. Para quem quer investigar a performance destes dois grandes parceiros da história do jazz, basta baixar nas plataformas digitais os onze álbuns lançados entre 1960 e 1962 pelas gravadoras Prestige e Jazzland: a começar por Battle Stations (1960, Prestige) até Tough Tenor Favorites (1962, Jazzland). Em 1970, se reencontrando na Alemanha -- lembrando que Griffin passou uma estadia em solo europeu --, os dois saxtenores se encontraram também com o o baterista Kenny Clarke (também residente na Europa) e aproveitaram para se apresentarem ao vivo em alguns palcos do velho continente e também gravaram um primoroso álbum de estúdio: o nostálgico álbum Tough Tenors Again 'n' Again (MPS, Cornet Studios, Cologne, West Germany), que traz uma primorosa e incendiária performance ao bom e tradicional estilo de batalhas de saxofones. Ademais, não dificilmente, o entusiasta em saxofone poderá encontrar as performances ao vivo desta fase da dupla se reencontrando em solo europeu. A não perder também está o quentíssimo álbum The Tenor Giants Featuring Oscar Peterson: com Jonny Griffin e Eddie "Lockjaw" Davis chamando o icônico Zoot Sims para uma batalha de três saxtenores, com acompanhamento do legendário trio do pianista Oscar Peterson!


Gene Ammons com Stitt, Coltrane, Quinichette, Dexter Gordon, James Moody...


Sendo, desde os anos 40, um dos pioneiro do jazz moderno em Chicago e tendo um som expressivo, de tom grave e um timbre melodioso capaz de preencher todo o ambiente -- um estilo que foi chamado de "soulful" na época --, Gene Ammons foi um dos grandes sax tenores mais afeitos ao lirismo cool a La Lester Young do que ao fraseado ágil imposto pela linguagem bebop a La Sonny Stitt -- apesar de também ter agilidade o suficiente para fazê-lo. Genne Ammons -- apelidado de Jug ou "The Boss" -- também foi um entusiasta destas gravações que tinham como intuito registrar batalhas e diálogos de improviso com seus pares saxofonistas. Seu parceiro preferido era, aliás, a antítese do seu próprio estilo: trata-se do talentoso Sonny Stitt, conhecido como o sax tenor que mais se aproximava do estilo de Charlie Parker. Ao lado de Sonny Stitt, Genne Ammons gravou diversos álbuns neste formato de "solo battles" ou apenas em caráter colaborativo -- vide fotos dos álbuns acima. Ademais, Gene Ammons registrou parcerias com diversos outros grandes saxofonistas durante as fases em que transitou entre os estilos bebop e soul jazz: os álbuns The Big Sound e Groove Blues (Prestige, 1958) trazem os saxofonistas John Coltrane (numa rara aparição tocando sax alto), Paul Quinichette e Pepper Adams; o álbum The Chase! (Prestige, 1970) traz o saxtenorita Dexter Gordon como seu convidado num dos shows regulares que ele apresentava no North Park Hotel, em Chicago; e neste mesmo espaço, onde ele era contratado para tocar, foi registrado também seu encontro com o saxtenorista James Moody, vide o álbum Chicago Concert (Prestige, 1971). Já na última fase da carreira, Gene Ammons registrou sua performance no Montreux Jazz Festival em 1973, uma das suas últimas aparições, ao lado de seus amigos saxofonistas Cannonball Adderley e Dexter Gordon, sendo este um dos melhores álbuns da sua discografia.


West Coast Encounters: Al Cohn, Zoot Sims, Phill Woods & friends

Como citado no início deste post, o cenário dos músicos brancos de West Coast -- preponderantemente mais lírico, mais cool e mais adepto aos pop songs hollywoodianos como sendo novos standards do jazz -- também tiveram seus grandes saxofonistas e as "batalhas", "diálogos" e parceria sonoras entre eles -- lembrando também que frequentemente os músicos negros de Nova Iorque se encontravam com os músicos brancos na Califórnia e vice-versa, e juntos eles esquentavam as cenas do jazz nos dois lados da América. Uma das principais parcerias -- como também foi já citado, aliás -- era dos saxtenoristas Al Cohn e Zoot Sims, que desde o início do bebop haviam se mudado do West Coast para o cenário de Nova Iorque e conseguiram um sucesso considerável a partir de 1956 na capital do jazz junto com seus conterrâneos brancos e com seus amigos negros. Al Cohn era tão fissurado pelo formato de dois ou mais saxofones se conversando e se duelando num palco ou num estúdio -- formato ao qual frequentemente ele revisitaria chamando essas suas formações de "The Brothers" --, que em 1955 ele já gravara o interessante álbum The Brothers! (RCA Victor, 1956) onde ele convida os também saxtenoristas Bill Perkins e Richie Kamuca. A parceria com Zoot Sims, especificamente, começa a ser registrada em 1957 pouco depois deles formarem um quinteto com o pianista Hank Jones: vide o álbum From A to...Z (RCA Victor, 1957), onde Cohn e Zoot lançam uma primorosa coletânea de interpretações e improvisos sobre baladas, standards e pop songs. Em seguida, a dupla revisita o citado formato do The Brothers num registro que também traz o sax tenor Herbie Steward e sax barítono de Serge Charloff: resultando no The Four Brothers... Together Again!, um álbum com quatro saxofones que só confirma a sina pelo aspecto das "jams" e das "battle sessions"! Em seguida a dupla grava um registro com uma track listing que, em sua maioria, traz temas originais compostos por Al Cohn: vide o álbum Al and Zoot (Coral, 1957), que já evidencia a presença do requintado piano de Mose Allison substituindo Hank Jones no quinteto. Em 1959, a dupla convida o legendário saxofonista alto Phill Woods para se apresentar no clube Half Note (NYC), registrando uma incendiária performance ao vivo dos três saxofonista na noite de 06 e 07 de Fevereiro: vide o álbum Jazz Alive! A Night at the Half Note. Por fim, um dos últimos registros do legendário Al Cohn/ Zoot Sims Quintet é o álbum You 'n' Me (Mercury/ EmArcy, 1960), um misto de improvisos e diálogos acalorados com primorosas interpretações à baladas e standards. Desconsiderando os naturais hiatos, os registros da dupla seguem firme anos 60 adentro com vários títulos lançados pelos selos Muse, Sonet e outros selos de menor expressão. Em 1976 Al Cohn lançaria dois títulos com o legendário saxofonista Dexter Gordon: vide os registros True Blue (Xanadu) e Silver Blue (Xanadu), cada um deles com três faixas de "batalhas" e "diálogos" mais longos.


Gerry Mulligan w/ Lee Konitz, Desmond, Johnny Hodges, Stan Getz & Ben Webster


O baritonista Gerry Mulligan também foi um dos entusiastas do formato de dois ou mais saxofones se duelando num palco ou num estúdio. Quem acompanha a história do jazz, deve saber que o pianoless quartet (quarteto sem piano) de Gerry Mulligan, com o trompetista Chet Baker, foi uma das bandas de maior sucesso entre os anos de 1952 e 1953 pelo fato de ser o primeiro combo a não ter um piano como instrumento acompanhante. Pois bem, nos meses de janeiro e fevereiro de 1953, o altoísta Lee Konitz -- um dos principais sax altos advindos do West Coast, com um fraseado ágil e cristalino e dotado de um vibrato cativante, tocando quase sempre acima do registro médio --, se encontrou com o legendário quarteto de Los Angeles e gravou diversas faixas, que seriam lançadas no álbum Lee Konitz Plays with the Gerry Mulligan Quartet pela World Pacific em 1957. Gerry Mulligan também registrou encontros e parcerias com outros músicos do West Coast neste formato sem piano. Em 1954, o saxofonista alto Paul Desmond também sugeriu ao seu amigo baritonista Gerry Mulligan que os dois gravassem um álbum juntos, já que eles eram dois dos principais músicos advindos do West Coast que vinham se destacando não apenas por suas participações em outras gravações e bandas, mas por individualmente serem diferenciados em termos de sonoridade: Desmond, dotado de um timbre cool e cristalino, e um bebop ágil de marcante elegância, estava começando a despontar como um dos grandes saxofonistas da época através da sua participação no quarteto do pianista Dave Brubeck; enquanto Mulligan, com seu timbre rouco/suave e inconfundível de sax barítono, já tinha trabalhando com Miles Davis (nas gravações e apresentações do noneto de "Birth of Cool", em 1949) e agora também acabara por alcançar fama com o quarteto sem piano ao lado do trompetista Chet Baker. As gravações registrando o encontro -- e registrando mais a faceta de bons compositores que eram, com temas originais de ambos -- só aconteceram, porém, em Agosto de 1957, nos estúdios da Capitol Records, em Los Angeles: resultando no álbum Gerry Mulligan - Paul Desmond Quartet, que também seria lançado com o título de Blues in Time pela Verve Records no mesmo formato de quarteto sem piano, como o baritonista já vinha explorando com Chet Baker. Posteriormente, já afamado e com uma carreira diversificada em diversos projetos -- que iam de combos menores até participações em big bands, além de ser um dos mais requisitados arranjadores e compositores --, Gerry Mulligan não chegou a focar uma parte da sua carreira em duplas ou co-lideranças com seus conterrâneos do West Coast, mas frequentemente se encontrou com saxofonistas como Al Cohn, Zoot Sims e Stan Getz. Em 1957, por exemplo, ele participou do primeiro volume da série The Jazz Greats of Our Time produzida pelo baritonista e arranjador Manny Albam, que reuniu numa mesma sessão Phil Woods, Zoot Sims e Al Cohn, tendo então quatro dos maiores saxofonistas advindos do cool e west coast. Ainda em 1957 ele também lançou o álbum Gerry Mulligan Meets Stan Getz (Verve Records), onde Stan Getz e Mulligan se revezam nos sax tenores e barítonos em sete standards e uma balada de própria autoria: um registros dos mais belos e expressivos timbres de sax tenor e sax barítono da história do jazz. Em 1959, Gerry Mulligan se encontra com o legendário sax alto Johnny Hodges -- conhecido desde os anos 30 por sua admirada expressividade em solos com vibrato na big band de Duke Ellington -- para gravar o álbum Gerry Mulligan Meets Johnny Hodges (Verve, 1960) mostrando as claras diferenças de timbre e fraseados de um sax barítono advindo do bebop e do cool jazz e de um altoísta advindo do swing que se adequou ao bebop. Igualmente legendário foi o encontro, nesse mesmo ano de 1959, de Mulligan com o saxtenorista Ben Webster: o álbum Gerry Mulligan Meets Ben Webster, mostrando o encontro de dois dos mais marcantes saxofonistas -- dotados com aquela sonoridade grave, cool, capaz de preencher todo o ambiente -- é um dos mais expressivos álbuns neste rol de parcerias.


Dexter Gordon w/ Wardell Gray, Booker Ervin, James Moody, Jack McLean e etc


Transitando entre Los Angeles e Nova Iorque, Dexter Gordon foi um dos primeiros beboppers e um dos mais expressivos saxtenoristas da história do jazz, tendo tocado com Charlie Parker, Benny Carter, Ben Webster e vários outros dos primeiros grandes saxofonistas do início do bebop. Inicialmente influenciado por Lester Young, ele próprio passou a ser uma influência para Sonny Rollins e John Coltrane e outros jovens saxofonistas que estavam estreando no efervescente cenário do bebop no final da segunda metade dos anos 40. Um dos primeiros adeptos também desses encontros, jams sessions e "solo battles" entre os saxofonistas mais ágeis expressivos, suas primeiras parcerias neste sentido foram com o saxtenorista Wardell Gray, com o qual gravou o álbum The Hunt ( gravado ao vivo pela Savoy, em 1947, mas só lançado 30 anos depois em 1977), e com o também saxtenorista Teddy Edwards, com o qual gravou The Duel (Dial, 1947). Em 1952, Dexter Gordon também pôde ser apreciado ao lado de Wardell Gray e Paul Quinichette, batalha em trio que foi registrada no álbum The Chase and The Steeplechase (Decca). No restante da década de 50 sua carreira foi, porém, interrompida várias vezes por causa do seu envolvimento com drogas, tendo perdido seu "cabaret card" (carteira que permitia o músico tocar nos night clubs) e tendo ficado preso alguns anos por porte ilegal de drogas. Seu retorno ao cenário do jazz dá-se quando ele assina um contrato com a Blue Note em 1960 e lança uma sequência de álbuns antes de partir para sua estadia de 14 anos em solo Europeu. Em sua fase de retorno repentino, aliás, suas duas principais influências seriam o hard bop e modal jazz de Sonny Rollins e John Coltrane, os mesmos jovens músicos que ele tinha influenciado em fins dos anos 40. Já em sua fase europeia, mesmo residindo na França e posteriormente Dinamarca, Dexter Gordon nunca deixou de receber convites para tocar e gravar com seus amigos compatriotas que também estavam expatriados ou com aqueles que visitavam o Velho Continente, continuando, portanto, a lançar diversos álbuns pelo selo Blue Note e Prestige Records, mas gravados em solo europeu. É o caso do álbum Setting the Pace (Prestige, 1965) que registra o encontro de Dexter Gordon com o saxtenornista Booker Ervin em Munique, Alemanha: neste registro, aliás, os dois saxofonistas também fazem questão de mostrar suas facetas enquanto compositores, com dois temas originais de cada um. Segue-se os álbuns The Tower of Power! (Prestige, 1969) & More Power! (Prestige, 1969) que registra seu encontro com o altoísta de James Moody, outro dos grandes veteranos do início do bebop. E por fim, nos anos 70, ainda residindo em Copenhague, o saxtenorista lidera um legendário quarteto -- com Kenny Drew (piano), Niels-Henning Ørsted Pedersen (contrabaixo) e Alex Riel (bateria) -- junto ao qual convidava diversos dos seus amigos americanos para performances ao vivo e em estúdio: caso dos álbuns The Meeting (SteepleChase, 1974) e The Source (SteepleChase, 1974), com o altoísta Jackie McLean. Voltando aos EUA, Dexter Gordon, agora na condição de um respeitado veterano, se encontrou com vários dos seus amigos também veteranos do início do bebop e cool jazz: caso dos dois já citados álbuns que gravou com Al Cohn & Zoot Sims. Para quem se interessar em aprofundar suas audições em relação à discografia de Dexter Gordon, uma das marcas registradas que o ouvinte deve se atentar nos solos deste grande saxofonista, além da expressividade latente, são as citações breves que ele faz de outros standards, temas e pop songs em meio aos improvisos -- prática que já influenciara vários outros saxofonistas a partir do final dos anos 40 em diante.