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30 Essenciais Álbuns de Piano Solo: Monk, Jarrett, Corea, Sun Ra, Don Pullen, Vijay Iyer, Jason Moran, Geri Allen e etc

Uma das coisas que aprendemos no jazz -- à medida que aprofundamos nossas escutas nesta forma de arte musical -- é separar os pianistas em uma classe à parte de gênios solitários: ou seja, dentro das bandas, conjuntamente com os músicos da "cozinha" e de outros instrumentos, eles enriquecem a harmonia e a rítmica do jazz; mas sozinhos, com apenas dez dedos, uma banqueta e 88 teclas, eles são especialistas em criar música nova e inclassificável, com expressionismos e impressionismos que nascem direto das suas técnicas, ideias e abstrações e são expelidas com cores inebriantes por entre seus dedos, como numa aurora boreal de teclas dedilhadas e percutidas -- algumas vezes, aliás, com abordagens e individualidades até aparentemente distantes da própria estética do jazz, o que acaba gerando retornos inovadores ao próprio jazz em forma de ganhos estéticos, num ciclo interminável de inovação. Neste post lhes trago 30 exemplos de pianistas de jazz de diferentes estilos que exprimiram releituras fantásticas e criaram música inventiva para piano solo a partir dos seus trejeitos, técnicas, abstrações, preferências e idiossincrasias. Aqui neste post, aliás, priorizo álbuns onde os pianistas equilibram os repertórios entre releituras e suas próprias criações: abordando desde os estilos mais tradicionais do jazz, passando pelo straight ahead, avant-garde até o estilo intimista contemporâneo dos álbuns da ECM, etiqueta que revolucionou este formato de piano solo. Na foto acima, uma das grandes pianistas da história do jazz: Geri Allen. Clique nos álbuns para ouvi-los individualmente. Ouça a playlist no final do post.
 
Blues for Smoke (Candid, 1960). Jaki Byard foi um pianista virtuoso que, nas décadas de 60 e 70, ficou conhecido por apresentar a mais completa miríade de estilos do jazz -- e, aliás, um estilo de completude que ele levaria pelo resto da sua carreira. Ele conseguiu congregar em sua paleta pianística todos os estilos até então: ragtime, stride piano, swing, bebop, post-bop e até elementos do free jazz -- unindo sempre o antigo ao moderno em suas gravações. Este álbum é o primeiro exemplo deste seu virtuosismo e completude: ele aborda da balada ao stride, do blues ao bebop, da releitura aos improvisos mais soltos sobre seus próprios temas. Detalhe para uma faceta bem divertida da sua personalidade: ele gostava de criar medleys, unindo dois ou mais temas num mesmo desenvolvimento, além de repentinamente mudar o andamento das suas releituras como uma dança em stride piano ou um desenvolvimento mais abstrato no meio de uma faixa que inicia suingada. Foi uma das principais influências para o pianista contemporâneo Jason Moran.
   
Solo Monk (Columbia, 1965). Blues, baladas, standards seus e de outros compadres...Aqui temos Thelonious Monk -- um pouco fora da curva do bebop, estilo do qual foi um dos pioneiros -- se aventurando em leituras e releituras várias em piano solo, mesclando o colorido convencional dos temas populares tarimbados com seus sombreamentos dissonantes e peculiares através do seu bem conhecido jeito jocoso, percussivo e bluesy de tocar piano -- estilo único que, aliás, é algo que ele traz, também, do velho estilo stride. Ademais, para quem ainda não tinha noção de que Monk também foi um pianista de rara sensibilidade em termos de releituras -- uma vez que a maioria dos seus álbuns são compostos dos seus exóticos temas próprios -- aqui atestará este seu lado mais desconhecido de "intérprete". Devido aos sombreamentos que Monk dá às baladas e aos standards, mesmos os mais açucarados acabam por soarem mais modernos. Além destes, Monk também apresenta seus sempre intrigantes temas de blues com sombreamentos dissonantes em meio às releituras. Essencial!

The New Tristano (Atlantic, 1961). Pioneiro do bebop e dono de uma escola inovadora para músicos modernistas entre o final dos anos 40 e início dos anos 50, Lennie Tristano -- cego de infância -- foi o primeiro pianista a gravar uma livre improvisação sem temas pré elaborados -- isso já em finais dos anos 40 e início dos anos 50, quando ainda nem se sonhava em free jazz. Além disso, Tristano era dotado de uma destreza invejável e de um jogo bem particular de combinar passagens contrapontísticas entre a mão esquerda e a mão direita, podendo tanto criar passagens bem articuladas em walking bass com a mão esquerda enquanto desenvolvia passagens ágeis com a mão direita, como também era capaz de deixar a música correr solta com as duas mãos, sem ritmo, sendo capaz de aplicar variações inesgotáveis de improvisos sobre um tema ou livres improvisos criados espontaneamente -- claro que ainda não soava atonal, mas já nascia ali os primeiros genes da vanguarda do jazz. Depois de alguns hiatos, Lennie Tristano ressurge em 1961 com este seu primeiro álbum em piano solo na carreira, The New Tristano (Atlantic), trazendo exatamente aquelas ideias precursoras com as quais perturbara a crítica especializada e a cena do jazz no início dos anos 50: nas faixas "C Minor Complex" e "G Minor Complex" ele trabalha complexidades harmônicas sobre standards de forma a desconstruí-los com inflexões melódico-harmônicas abstratas, aplicando as linhas do baixo com as teclas graves do piano em contraponto com as partes improvisadas da mão direita; e na faixa "Scene and Variations: Carol/Tania/Bud", ele aplica estas suas peculiares inflexões melódico-harmônicas no standard "My Melancholy Baby" aplicando três variações no seu melhor estilo de improvisar livremente, mas aqui sem as linhas de baixo com as teclas graves. Um registro tardio de um dos primeiros modernistas do jazz.

Ran Blake Plays Solo Piano (ESP-Disk, 1965). Ran Blake é um dos pianistas da vanguarda -- discreto, e nem sempre citado entre os grandes -- que mais expressou um toque particular de sensibilidade abstrata, principalmente neste formato de piano solo. Aqui neste álbum ele mescla blues e canções populares com temas jazzísticos da vanguarda do jazz dos anos 50 e 60 -- tais como "Stratusphunk" de George Russell e "Lonely Woman" de Ornette Coleman --, exprimindo uma síntese particularmente única, no mais alto nível do seu abstracionismo colorido e intimista, com uma ideia de explorar pianíssimos em tons agudos em meio a silêncios bem espaçados. Foi o único álbum que ele lançou pela ESP-Disk e o primeiro álbum em piano solo da sua carreira, formato do qual ele seria um dos principais modernizadores. A gravação original traz resquícios sonoros de um LP velho, mas com um pouco de concentração o ouvinte consegue não apenas a sentir as nuances citadas, como consegue prender-se em atenção.  

Monorails and Satellites, Volumes I & II (Saturn, 1968). Gravação realizada de forma independente pelo próprio Sun Ra em 1966, o primeiro volume foi lançado em 1968 e o segundo volume foi lançado no ano seguinte. Trata-se de um álbum para onde Sun Ra -- um músico que criou seu próprio personagem advindo do seu fascínio por Saturno, e baseado nas temáticas dos planetas, dos satélites e do espaço sideral -- traz todas suas idiossincrasias e viagens cósmicas, como que querendo traduzir para o piano solo seu space age, repleto de devaneios estranhos, que ele já vinha explorando com os teclados eletrônicos. As técnicas e improvisos que aqui Sun Ra já apresentam é uma amálgama da sua imersão nos meandros do free jazz com seu conhecimento pleno da história do piano jazz: ou seja, Sun Ra -- apesar da aparente figura iconoclasta e desde o início da sua carreira prezar o exótico, o estranho -- sempre foi um admirador de pianistas da tradição que desenvolveram um pianismo moderno a partir do estilo stride, tais como Fletcher Henderson, Duke Ellington e Fats Waller, ainda que aqui os ecos a esses mestres soam muito implícitos em meio a tanto exotismo e tortuosidades alienígenas. Em 2019 o selo Cosmic Myth Records reuniu as faixas deste LP raro mais um outro conjunto de faixas em piano solo descobertas postumamente por Michael D. Anderson, arquivista e diretor do Sun Ra Music Archive, e relançou o material no formato CD com um ensaio que vem no encarte escrito pelo pianista contemporâneo Vijay Iyer.

Facing You (ECM, 1971). Aqui temos o primeiro álbum de piano solo do pianista Keith Jarrett, que praticamente inaugura uma nova dinâmica criativa na história do jazz: compor temas instantâneos com desenvolvimentos livremente improvisados ao piano solo, no ato da performance. Os desenvolvimentos melódicos improvisados -- bem como as harmonias que deles emanavam no ato da performance -- soam não menos que inovadores, nos trazendo ainda hoje aquela sensação de terem sido compostas ontem, de tão contemporâneas que ainda soam. Essa contemporaneidade se explica pelo fato de Jarrett ser um exímio improvisador de jazz, mas também estudioso das canções de rock e pop da sua época, bem como um estudioso do piano erudito, tendo transmutado seus livres improvisos a partir das misturas destes elementos, o que resultou nesta amálgama pianística contemporânea. Jarrett inaugura aqui a faceta de sentar ao piano sem nenhum material em mente ou na estante do seu piano, fechar os olhos e expelir do âmago da sua inspiração os temas improvisados e seus desenvolvimentos ali na hora, de forma instantânea -- sem manuscritos, sem pauta, sem partituras na estante, sem nada. E então, só depois das peças improvisadas serem gravadas é que Jarrett dava títulos a elas. Jarrett levou esta faceta criativa pelo resto da sua carreira, gravando vários álbuns seminais a partir dela, a maioria deles ao vivo. E é aqui em Facing You que essa história começa.

Open, to Love (ECM, 1972). Este álbum de Paul Bley não é apenas um dos melhores álbuns de piano solo da história do jazz como também é considerado um dos álbuns que ajudaram a definir a estética intimista e contemporânea que começou a caracterizar a gravadora ECM em sua busca por uma sonoridade diferenciada nos anos 70. Paul Bley, outro dos mais sensíveis pianistas da vanguarda do jazz, aqui aplica interpretações poéticas sobre temas de Carla Bley e Annette Peacock -- primeira e segunda esposa, respectivamente. Os tons únicos das canções de Carla Bley e Annette aliadas às inflexões levemente dissonantes e poéticas de Paul Bley -- que algumas vezes, durante os sons das teclas, tange as cordas do piano com as próprias mãos --, fazem deste álbum um registro primoroso. Paul Bley tem uma atonalidade sensível e colorida, aqui levada ao mais alto nível.

Musa - Ancestral Streams (Strata-East, 1974). Este é um dos álbuns de piano solo mais interessantes da história do jazz. Surpreendente e sensível ao mesmo tempo. Co-proprietário da gravadora Strata-East, a qual fundou com o trompetista Charles Tolliver, Stanley Cowell é um dos legendários pianistas do post-bop setentista, período onde o jazz acústico perdia sua popularidade diante das novas formas mais comerciais de música (rock psicodélico, soul, funk, fusion, disco, pop e etc) e ao mesmo tempo absorvia novas amálgamas dessas mesmas formas para as quais perdia espaço. E o catálogo de mais ou menos 60 discos lançados pela Strata-East nos anos 70 é um dos reservatórios mais ricos e fantásticos dessa amálgama: a gravadora ficou conhecida por criar um catálogo surpreendentemente criativo, genuínamente acústico (com poucas e estratéticas inserções de instrumentos elétricos e sintetizadores, aliás) e especificamente ancorado nas premissas do nacionalismo negro do Movimento Black Power e nas misturas de elementos advindos do bebop, hard bop, free jazz, soul e funk -- e com inserções muito criativas de música erudita moderna no meio desse molho, diga-se de passagem. E este álbum, composto apenas de temas autorais, é um retrato fidedigno dessa amálgama em piano solo. Stanley Cowell começa com um tema funky ("Abscretions"), segue adiante com uma canção soulful e melodiosa ("Equipoise"), passa por duas partes de uma suíte impressionista com acordes um tanto eruditos e dissonantes ("Emil Danenberg" e "Maimoun", partes da sua "Illusion Suite"), explora inflexões sobre fraseados bebop ("Departure Nº 1"), explora inflexões que unem técnicidade erudita com os abstracionismos da free music ("Departure Nº 2") e termina o álbum com um tema agradável que evoca a poética das baladas e standards do jazz mais straight-ahead ("Sweet Song"). Na curta faixa "Traveling Man", bem ao estilo do pop-soul setentista, temos um interessante tema com overdub de piano elétrico (Rhodes) com uma kalimba africana.

Perugia (Freedom, 1974). Sir Roland Hanna -- que recebeu esse apelido de "Sir" no início dos anos 70, após ser condecorado como o título de Cavaleiro Honorário pelo Presidente William Tubman da Libéria, em reconhecimento aos concertos que ele tocou no país para arrecadar dinheiro para a educação -- é um dos pianistas mestres do formato piano solo. Um dos piano masters mais fantásticos do post-bop, Roland Hanna era dotado de uma técnica que congregava bebop, stride piano e fluência erudita, uma mistura que lhe conferia uma amálgama distinta e de forte personalidade musical. Neste álbum, fica claro o fascínio de Roland Hanna por Duke Ellington através das entusiasmantes versões que ele dá para os standards "Take the "A" Train" e "I Got It Bad (and That Ain't Good)", além de também dar uma face nova para "A Child Is Born", de Thad Jones. Além desses standards, Hanna mostra sua sensibilidade e sua amálgama em três faixas autorais: "Time Dust Gathered", "Wistful Moment" e "Perugia", que dá nome ao álbum. Com um jogo contrapontístico espetacular entre as mãos esquerda e direita, Sir Roland Hanna tem um estilo encorpado, um dedilhado de forte personalidade que começa percussivo nos acordes e notas mais marcadas, passa por ágeis improvisos e termina em pianíssimos singelos e sensíveis. Um dos grandes registros de piano solo gravado in concert no Festival de Montreaux.



Silent Tongues (Freedom, 1974). O formato de piano solo teve com Cecil Taylor alguns dos momentos mais explosivos e gloriosos na história do jazz. Tanto que não é arriscado dizer que parte da repercussão envolvendo seu nome, em vida, se deu à este formato -- assim como não é exagero dizer Cecil Taylor ajudou a "popularizar" ainda mais o formato do piano solo nos meandros do jazz exploratório. Desde o final dos anos 60, Cecil já vinha explorando o formato solo, conseguindo despertar o interesse dos produtores em festivais e palcos de vários países, mas é neste registro que ele documenta seu show mais fantástico. Sendo considerado o "Álbum do Ano" pela Downbeat e tendo uma repercussão considerável na mídia especializada da época, Silent Tongues é o registro da performance solo de Cecil Taylor no Festival de Montreaux de 1974, uma performance arrebatadora como nunca vista antes! Contudo, este álbum é para ouvintes "level hard" no quesito de música atonal, abstrata, incompreensível. O estilo pianístico de Cecil Taylor chega, neste momento, a expressar uma carga absurda de atonalismos, explosões e dedilhados percussivos cheios de staccatos e marttelatos, como se o piano fosse uma bateria de 88 teclas e não um instrumento harmônico-melódico. Há, portanto, um toque teatral-performático na arte musical de Cecil Taylor -- não é apenas free jazz, é também performance artística!

Live at Montreux (Freedom, 1975). Andrew Hill foi um pianista único: combinava uma estranha sensibilidade poética com inflexões impressionistas e angulares das mais inexplicáveis. E este álbum de piano solo -- apesar de ter outros títulos em piano solo em sua discografia igualmente bons -- é um dos primeiros e mais claros exemplos de como, num mesmo desenvolvimento de um tema, ele delineava suas teclas acelerando e desacelerando seus improvisos, saindo fora do tempo e do compasso da melodia, tateando acordes com sombreamentos exóticos aqui e ali, soando com um cristalino pianíssimo aqui, para depois atacar acordes fortes e cheios acolá, aplicando ágeis e cristalinos dedilhados com a mão direita enquanto sua mão esquerda pontua notas sombrias em um contraponto aparentemente irregular, entre outras idiossincrasias. Aqui neste álbum temos uma das raras gravações ao vivo em piano solo de Andrew Hill, gerando este álbum in concert direto do Festival de Montreaux de 1975, o que nos faz imaginar o nível de concentração com o qual o público teve de se empenhar para absorver o pianismo deste grande impressionista do jazz. Curiosamente -- e talvez pelo fato de estar numa gravação in concert, o que favorece performances mais longas no formato de "recitais" --, Andrew Hill apresenta apenas três composições suas em desenvolvimentos improvisativos longos e uma releitura mais curta sobre o tema "Come Sunday", de Duke Ellington, uma dinâmica diferente em relação aos seus álbuns de estúdio com maior número de faixas.

Piano Solo (FMP, 1977). Ao lado de Silent Tongues, de Cecil Taylor -- que menciono acima e também abordei no post dos Álbuns Essenciais do Free Jazz -- , talvez este seja o álbum de piano solo mais explosivo compreendido entre o range do free jazz e a livre improvisação europeia: fato que pode ser constatado já na primeira faixa "Brooks", de 13 minutos, que segue sempre num fluído ensurdecedor e constante de velocidade por meio de martellatos em toda a extensão das 88 teclas do piano. As faixas seguintes variam entre passagens atonais mais meditativas e espasmos explosivos aqui e ali. Influenciado pelo free jazz americano, o pianista alemão Alexander von Schlippenbach foi um dos expoentes mais onipresentes da livre improvisação, sendo um fomentador da cena alemã e europeia e desenvolvendo uma obra pianística explosiva e única. A força e a velocidade com que ele ataca seu piano aqui neste álbum é de assustar até o mais ensandecido ouvinte de free jazz -- mesmo quando já se ouviu este álbum algumas vezes e, depois de um tempo, volta-se a ouvir de novo.

The Piano (Columbia, 1979). Herbie Hancock estava imerso em jazz funk, eletrônica e disco music em suas explorações de teclados e sintetizadores quando gravou este álbum, repleto de destreza, sensibilidade e um com straight-ahead que soa não menos que fresco e moderno. Em paralelo à esta faceta mais pop e eletrônica, Hancock também estava excursionando em turnês regulares com o grupo V.S.O.P, um quinteto formado quase exclusivamente para resgatar o hard bop e post-bop acústico, e principalmente resgatar temas da fase acústica de Miles Davis e seu Segundo Grande Quinteto. Mas também, Hancock estava resgatando regularmente o formato de piano acústico em paralelo às suas explorações eletrônicas, tendo gravado um dueto interessante em piano solo com Chick Corea, um pouco antes. Neste ano de 1979, além dos shows com o V.S.O.P, Herbie Hancock gravou nos estúdios da Sony Music, no Japão, dois álbuns em duas direções opostas: o eletrônico Directstep, gravado na primeira semana de gravações; e este acústico The Piano, gravado na semana posterior. Até hoje, este álbum foi um dos registros de maior sucesso de Hancock no Japão. Hancock aborda baladas e standards do jazz como "My Funny Valentine", "On Green Dolphin Street" e "Some Day My Prince Will Come" e no segundo lado do LP também aborda quatro dos seus originais, incluindo um inspirado tema em blues. Apenas em 2004, mais de 25 anos após sua gravação, o álbum foi relançado em formato CD nas plataformas de outros países, tendo nessa edição em CD quatro tomadas alternativas para seus originais.

Evidence Of Things Unseen (Black Saint, 1984). Don Pullen é um dos pianistas mais completos e assustadores da história do jazz: passou pelo post-bop, imergiu-se no free jazz, lançou álbuns explorando a rítmica do funk e começou a aportar-se no samba, na música africana e em outras expressões da world music, além de apresentar momentos de rara sensibilidade nos meandros do jazz mais tradicional. Nos anos 70, Don Pullen já gravara álbuns assustadores de piano solo, mas ainda estava imergido num range mais ou menos compreendido entre os estilos straight ahead (mais tradicional), post-bop e o free jazz -- ou seja, ainda não tinha adentrado, de cabeça, em suas viagens pela world music. Neste álbum, já temos, então, a versão mais amalgamada e estendida do pianista, onde ele já começa a imergir na música africana -- vide a canção "Victory Dance (For Sharon)" --, além deixar evidente os resquícios do estilo pianístico gospel, apresentar improvisos sobre blues e apresentar longas peças improvisadas suas. Mas o que mais assusta em Don Pullen, além do seu fraseado repleto pontilhismos e de notas bem destacadas, é sua técnica única de aplicar clusters velozes e deslizantes sobre as teclas do piano, técnica que aqui neste álbum ele aplica à exaustão. Trata-se de álbum assustador e explosivo! Em seu início de ascensão na carreira, alguns críticos chegaram a comparar o estilo pontilhista de Don Pulen com o estilo percussivo de Cecil Taylor, comparação que é no mínimo descabida: apesar das semalhanças superficiais, Don Pulen foi um exímio e completo interprete e frasista dotado com a técnica inigualável dos seus clusters, enquanto Cecil Taylor foi um abstracionista de índole desconstrutiva -- praticamente o contrário um do outro.

Labyrinths (Victo, 1988). Influenciada pelas explosivas performances de piano solo de Cecil Taylor, tocando junto com Anthony Braxton -- com quem absorve o conceito de se usar silêncios e espaçamentos --, apaixonada pela música de John Coltrane e mesclando explosão com um lirismo melódico, cristalino e contemporâneo em improvisações livres: foi assim que a pianista Marilyn Crispell formou sua amálgama única a partir dos seus projetos e performances solos nos anos 80. Este registro, gravado in concert no Festival International de Musique Actuelle de Victoriaville, Quebec, Canadá, é um dos exemplos mais fantásticos da sua discografia, e um dos grandes álbuns de piano solo da história do jazz. Marilyn Crispell apresenta cinco temas e improvisos da sua autoria -- um deles dedicado diretamente a Cecil Taylor (uma das suas principais influências) --, dois temas de John Coltrane (lenda do jazz pelo qual desenvolveu uma clara admiração) e dois standards populares, exprimindo a partir daí um abstracionismo virtuoso e lírico ao mesmo tempo.

At Maybeck - Maybeck Recital Hall Series, Vol. 31 (Concord, 1993). Fred Hersch é considerado um dos mais influentes pianistas das últimas quatro décadas -- tendo influenciado e inspirado, inclusive, pianistas contemporâneos tais como Brad Mehldau (que foi seu aluno), Ethan Iverson, Jason Moran, dentre outros. Hersch é conhecido por expressar uma introspectividade impressionista e cristalina em seus temas e releituras, sendo um mestre inconteste na faceta de dar versões instigantes e requintadas para standards já bem manjados -- ele é uma espécie de Bill Evans com doses elevadas de impressionismo e contemporaneidade. Este é o seu primeiro registro de piano solo. Nem todos os críticos de jazz consideram este como sendo seu melhor álbum de solo piano, uma vez que depois deste ele gravaria uma sequência de álbuns requintados nesse formato -- é dificil escolher, aliás, apenas um álbum de piano solo como "o registro essencial" quando a discografia do gajo é recheada de excelentes álbuns nesse formato. Mas, particularmente, considero este álbum uma obra essencial pelo fato de ser um ponto de partida, e pelo fato de evidenciar, já no início dos anos 90, algumas características que já o diferenciavam dos demais pianistas da época e que influenciaram e influenciariam muitos dos pianistas que estavam surgindo e que surgiriam -- entre eles o já citado Brad Mehldau. Pontilhismos e jogos criativos entre a mão direita e a mão esquerda, delineamentos introspectivos e impressionistas, uso inteligente das nuances harmônicas mais coloridas em meio a silêncios estratégicos, versões impressionistas que deixam os standards e baladas com formas inéditas, ecos renovados advindos tanto de Bill Evans quanto de Thelonious Monk... Fred Hersch, enfim, apresenta aqui uma síntese perfeita e um equilíbrio fora de série entre criatividade, fluência técnica, introspectividade e nuances meditativas. Este álbum faz parte de uma série de 42 performances gravadas pelo selo Concord entre os anos de 1989 e 1995 no Maybeck Recital Hall. O Maybeck Hall foi um espaço de recital público com capacidade para 50 pessoas dentro da Kennedy-Nixon House, na Califórnia, que nos anos 80 passou a ser mantido pelo pianista Dick Whittington, que passou a fomentar recitais semanais com vários dos pianistas célebres do jazz. A Concord, aproveitando a oportunidade dos recitais e a beleza acústica do local, passou a realizar as gravações que compreendem em uma série de álbuns em piano solo e noutra série de álbuns com duelos de pianistas. Para entusiastas afins, vale à pena a dar uma pesquisada. Este álbum é o 31º da série.

At Maybeck - Maybeck Recital Hall Series, Vol. 42 (Concord, 1995). Este álbum é dedicado aos ouvintes do jazz mais straight ahead e hard bop, com aqueles tons renovados que tanto inspiraram os "young lions" em sua retomada do jazz acústico nos anos 80 e 90. James Williams foi um pianista que apresentou um estilo tardio de hard bop verdadeiramente elegante e bluesy, combinando virtuosismo e frescor tanto em seus registros, quanto na sua condição de sideman: não à toa, ele fez parte da tão frutífera fase que a banda Jazz Messengers empreendeu entre finais dos anos 70 e início dos anos 80, na qual o baterista-líder Art Blakey não apenas lançou alguns dos seus melhores álbuns como também revelou grandes jovens talentos que seriam responsáveis por retomar o jazz acústico com força total, tais como Wynton Marsalis, Mugrew Miller, Terence Blanchard, dentre outros. Este é o último álbum da série de recitais Live at Maybeck Hall (citada no álbum de Fred Hersch, acima) e a única gravação em piano solo de James Williams -- apesar de ele ser um exímio performer neste formato. O pianista mescla releituras frescas de blues, baladas e temas do hard bop e post-bop -- incluindo uma releitura do tema de Footsprint, de Miles Davis --, terminando o álbum com uma série de "spiritual medleys" baseados em spirituals e temas gospel.

Solo Piano: Originals (Stretch, 2000). Chick Corea é, talvez, o pianista de jazz que mais dedicou sua carreira pianística em abordar diferentes estilos e formas de jazz e da música em geral: post-bop jazz, free jazz, livres improvisações, fusion, foi um entusiasta da música espanhola e afro-latina, abordou a música brasileira, gravou diversos temas da música erudita e álbuns inteiros dedicados ao piano clássico e é, desde sempre, um dos grandes estudiosos dos standards do jazz -- ou seja, foi um músico e um pianista completo. Quando nos deparamos com a discografia de Corea, fica difícil escolher apenas um álbum de piano solo, dentre tantos títulos que ele dedicou a este formato, tantos com leituras aos seus próprios temas, releituras únicas a standard, bem como outros tantos de peças improvisadas de forma abstrata. Por isso, talvez o álbum mais indicado seja este gravado em 2000 pelo selo Stretch, pois aqui temos uma síntese, um resumo, das abordagens de Corea com seus principais originais -- seus temas próprios, aqui com mais dois prelúdios do compositor erudito Alexander Scriabin -- que ele mais gostava de apresentar em seus shows pelo mundo: aqui temos composições suas baseadas na música espanhola, latina e brasileira que se tornaram standards famosos do jazz, como "Armando's Rhumba", "Brasilia" e "Spain"; peças improvisadas que ele lançou em sua série de improvisações chamada Children's Song, baseada em músicas infantis e lançada originalmente pela ECM Records; os eruditos prelúdios de Scriabin, aqui inflexionados em improvisações abstratas; dentre outros grandes temas seus como "April Snow" e "The Yellow Nimbus".

Modernistic (Blue Note, 2002). Jason Moran -- um pianista que criou um estilo amalgamado baseado em stride piano, post-bop, hip hop e free jazz com influências advindas de Fats Waller, Andrew Hill, Jaki Byard, Thelonious Monk e Muhal Richard Abrams -- é um pianista com um dos fraseados mais impressionistas e contemporâneos das últimas décadas. E o seu álbum Modernistic (Blue Note 2002) é o retrato perfeito do seu pianismo pós-moderno. Com originais e releituras, o pianista dá versões para temas como "You've Got to Be Modernistic" do histórico pianista e mestre no stride piano James P. Johnson, o clássico hit "Planet Rock" do rapper Afrika Bambaataa (usando samplers para evocar as batidas originais), "Time into Space into Time" do pianista e freejazzer Muhal Richard Abrams, além de tocar um mini piano com sonoridade retrô no tema "Moran Tonk Circa 1936" e fazer um medley misturando um tema seu com um tema do compositor erudito do século 19 Robert Schumann em "Auf Einer Burg/In a Fortress". Um álbum de piano solo que nos apresenta uma amálgama realmente diferenciada, pós-moderna.

Live in Tokyo (Nonesuch, 2004). Esta fase imprescindível de Brad Mehldau -- que começou no formato piano-trio com sua série The Art of the Trio em meados dos anos 90, e se estendeu pela primeira metade dos anos 2000 -- é considerada, por si só, uma revolução no repertório e na estética do jazz a influenciar praticamente a todos os pianistas e músicos do post-bop dos anos 2000 e 2010. Brad Mehldau se especializara em dar releituras contemporâneas para temas tarimbados do songbook jazzístico e da música popular americana e incluiu, no meio destes, outros temas advindos do pop, do folk e do rock alternativo -- temas de bandas e cantores tais como Beatles, Radiohead, Nick Drake, Paul Simon, Joni Mitchell, dentre outros --, formando um repertório colorido com releituras únicas e inigualáveis através de compassos ímpares e de uma interação contrapontística nova com seu trio. Com essa nova dinâmica, o fraseado de Mehldau partiu do neo-bop e do straight-ahead para uma nova estética de post-bop contemporâneo. Neste álbum duplo, gravado ao vivo no Japão, temos Mehldau sem seu trio, apenas em piano solo. E aqui é a oportunidade para ver como que ele, sozinho, inflexiona seus fraseios e floreios contemporâneos sobre esses standards e temas do pop e rock.

Vision Towards Essence (Pi Recordings, 2007). Muhal Richard Abrams é um dos pianistas mais colossais do jazz: mestre inspirador de muitos, ele é um dos fundadores da AACM e uma das mentes criativas do free jazz, mas também dotado de uma fluência vasta que compreende do jazz mais post-bop à música erudita contemporânea. Este álbum é uma obra de arte. Gravado ao vivo em 1998 no Guelph Jazz Festiva, Canadá, o intrigante deste álbum são os belos acordes com os quais Muhal Richard Abrams expressa uma dissonância colorida, criativa repleto de sombreamentos contemporâneos. Trata-se de um álbum com três peças improvisadas, nas quais Abrams põe à prova muito do seu pianismo erudito, mas aqui inflexionado por livres improvisações impressionistas em torno de acordes com dissonâncias criativas. Embora Muhal Richard Abrams seja um freejazzer e abstracionista de primeira grandeza, sua sensibilidade enquanto compositor -- tendo composto peças em larga escala para quarteto de cordas, orquestras e outros ensembles eruditos -- o leva a ter uma imaginação amplamente rica quando o assunto também é composição espontânea. E é assim que as livres improvisações aqui soam: como composições espontaneamente improvisadas.

Flying Toward the Sound (Motéma, 2008). Um álbum fantástico! O título Flying Toward the Sound, vem acrescido com o real propósito no subtítulo “A Solo Piano Excursion Inspired by Cecil Taylor, McCoy Tyner and Herbie Hancock”. A capa do álbum evoca a mística dos anjos: e o material, constituído de solos cristalinos e introspectivos, faz jus à essa temática de “som angelical” – algo, aliás, que é realizado numa forma de “música improvisada” tão melódica quanto única. Não fosse o subtítulo, poucos ouvintes – até mesmo os de ouvidos mais apurados – conseguiriam perceber as conexões dos improvisos introspectivos da pianista com os estilos dos pianistas celebrados: Cecil Taylor, McCoy Tyner e Herbie Hancock, três dos maiores e mais inovadores pianistas da geração pós anos 60. Dotada de um estilo contemporâneo muito único – e sendo, ela mesma, um dos pilares do piano contemporâneo desde os tempos em que fazia parte do movimento M-Base, uma concepção inovadora criada pelo saxofonista Steve Coleman nos anos 80 –, Geri Allen até celebra esses “anjos criadores” deixando explícitas, em suas linhas de improvisos, algumas observâncias estilísticas relacionadas aos estilos de cada um deles, mas ela faz isso da sua forma e com seu cristalino estilo impressionista e angelical, sem querer soar demasiadamente alusiva, sem querer “copiar” ou “reler” tais mestres – tanto, que o material é totalmente autoral. Embora a obra não siga um determinado rigor estrutural, trata-se de uma suíte de nove peças, onde o ouvinte chega a não saber distinguir quais partes foram escritas e quais estão sendo improvisadas, tamanho o impressionismo vigente. Interessante também prestar atenção como a pianista mescla bem temas com desenvolvimentos ritmados com outros mais introspectivos.

Spirit (Jazz Legacy, 2009). Cyrus Chestnut é um pianista virtuose que ficou conhecido por ser um dos "young lions" a engrossar o coro da retomada do jazz acústico nos anos 90, lançando bons álbuns em trio, quartetos e quintetos nos estilos neo-bop, post-bop e straight-ahead. Tendo sua educação musical na igreja, o gospel, o blues e a soul music também são estilos que sempre estiveram presente em seu repertório. Neste álbum, em piano solo, Cyrus Chestnut apresenta, então, seu repertório particular de temas que incitam seu espírito criativo, misturando a nostalgia e a memória dos hinos tradicionais da igreja com a diversão de dar releituras para temas do pop, da soul music e para standards do jazz. Um álbum dedicado aos ouvintes que curtem essas atmosferas mais gospel, bluesy, soulful...com um straight-ahead renovado que soa tradicional e moderno, ao mesmo tempo.

Place to Be (Telarc, 2009). Inspirada por Oscar Peterson, a pianista japonesa Hiromi Uehara é uma espécie de tecnicista do piano, e nas últimas duas décadas se transformou numa das principais vozes do post-bop contemporâneo. Porém sua técnica avançada é sempre evidenciada através de uma simpatia natural e de performances pra lá de descontraídas -- nunca é narcisista. Aqui neste seu primeiro álbum no formato piano solo, ela apresenta oito composições próprias mais duas releituras, os quais tem a função de descrever, musicalmente, as suas viagens ao redor do mundo. Assim, temos temas que capturam sua nostalgia em viagens para a França, Itália, Las Vegas, dentre outros, e são desenvolvidos através de formas pianísticas variadas: post-bop, ragtime, música erudita e etc. Um álbum multifacetado de uma pianista talentosa, criativa e enérgica.
Solo (ACT Music, 2010). Vijay Iyer é um dos grandes pianistas e um dos inovadores do jazz das últimas décadas. Com um fraseado moldado por adereços advindos de estilos como m-base, free jazz, post-bop e da música carnática indiana, o pianista criou um fraseado exuberante e intrincado, um dos dedilhados mais inovadores dos últimos tempos. Aqui neste álbum, seu debut no formato piano solo, ele nos apresenta cinco de seus originais ousados ao lado de temas de Duke Ellington, Thelonious Monk, Steve Coleman, Jimmy Van Heusen e uma versão contemporânea da canção "Human Nature", de Michael Jackson. Com um fraseado exuberante e cheio de recursos melódicos e harmônicos -- que traz ecos vários, de Duke Ellington à Sun Ra, de Monk à música carnática --, Iyer praticamente transforma estas leituras e releituras em obras de arte contemporânea, deixando bem latente sua caricatura pianística. Não é um formato regular na discografia de Iyer, mas esta gravação tem seu requinte.

4 D (Thirsty Ear, 2010). Matthew Shipp é um dos pianistas mais espetaculares das últimas décadas: ele praticamente trouxe novos tons, novas dinâmicas e novas cores ao piano freejazzístico contemporâneo. Fica difícil, aliás, escolher apenas um álbum de piano solo de Matthew Shipp quando o gajo tem vários títulos gravados neste formato -- e todos excelentes! A minha justificativa para a escolha deste álbum é pelo fato de pegarmos aqui um reflexo da fase criativa que o pianista passou pela gravadora Thirsty Ear, com ele delineando suas teclas entre improvisações sobre peças autorais que ele já tinha abordado em álbuns anteriores em trio e outros formatos de banda -- como o tema Equilibrium, por exemplo -- e livres improvisações novas, deixando a segunda parte do álbum dedicada à iconoclastas releituras de standards de Cole Porter, Duke Ellington e de tradicionais como a canção popular "Greensleeves" e o hino gospel-luterano "What a Friend We Have in Jesus". Temos aqui, portanto, um álbum que retrata com perfeição a síntese criativa pela qual o pianista passava à época: temas elaborados em sua fase "Blue Series" na gravadora Thirsty Ear, pontilhismos e abstrações novas onde ele tenta expelir atmosferas cósmicas e espirituais, e desconstruções freejazzísticas sobre temas gospel e standards do songbook americano. Talvez seja por esta abordagem multifacetada que o álbum foi intitulado "4D": como se o pianista quisesse abordar aqui as quatro dimensões da sua alma criativa, à época.

Avenging Angel (ECM, 2011). Craig Taborn é um dos pianistas de uma livre improvisação das mais inteligentes, apesar de ocupar-se em várias direções -- do jazz mais mainstream, ao mais avant-garde -- e não focar-se apenas em livres improvisações. Este álbum é a prova da sua imaginação rica e da sua inteligente composição espontânea. Gravado em meio à uma passagem por Lugano, Suíça, e após um workshop com crianças, este álbum é, na minha opinião, um dos melhores álbuns de piano solo não apenas das últimas décadas, mas da história do jazz como um todo! É um álbum rico em ideias. A primeira faixa "The Broad Day King" começa com tons cristalinos em pianíssimo perfazidos por entre silêncios meditativos e um atonalismo angelical -- e talvez o fato de ter tido momentos inspiradores com as crianças de Lugano acabou lhe sendo uma inspiração para este ton mais angelical e infantil da primeira faixa, e que acaba se repetindo em outras faixas do álbum. A segunda faixa "Glossolalia" é um espasmo em forma de um fraseio rápido e free, como se o piano estivesse emitindo um discurso rápido e impulsivo -- algo inexplicável. A terceira faixa, "Diamond Turning Dream", traz o pianista trabalhando apenas com arpejos cristalinos nos registros médios e agudos, deixando cada nota ecoar umas sobre as outras em meio à silêncios meditativos. Outras faixas trazem temas com um dedilhado mais forte explorando as teclas mais graves, com abordagens menos intimistas e mais ostensivas, quando não com passagens mais contrapontísticas e ritmadas. E assim o álbum segue com cada faixa apresentando uma ideia, um desenvolvimento diferente -- quando não, mescla-se entre livres improvisações mais intimistas e passagens mais fortes. Algumas ideias -- de temas, de contrapontos, ritmos e improvisos livres -- o pianista expõe de uma forma aparentemente clara, mas o fato de o álbum ser praticamente quase todo livremente improvisado nos faz perguntar a todo momento: "De onde ele tirou essa ideia?". O álbum foi gravado num piano Steinway num modelo Grand Piano D-274 no Auditorio Radiotelevisione Svizzera, Lugano, Suiça. Uma obra-prima!

Arborescence (ECM, 2013). Quando Aaron Parks lançou seu seminal álbum de estreia Invisible Cinema (Blue Note, 2008), grandes atenções se voltaram para seu estilo de harmonias e melodias amalgamadas de acordes jazzísticos mais contemporâneos com tons da música pop e do rock indie -- uma música autoral que soava verdadeiramente jovem e cinematográfica. Da mesma forma ocorreu quando ele formou -- com Joshua Redman, Eric Harland e Matt Penman -- o quarteto James FArm, compondo temas ultra contemporâneos para esta banda. Cinco anos depois da sua elogiada estreia, Aaron Parks é requisitado pela ECM para gravar esta obra prima do piano solo. Parks dá vida aqui a um álbum contido, sem muita rebusquês técnica, procurando seguir à risca a estética intimista e contemporânea da ECM, mas com um pouco de concentração o ouvinte já sente a mesma música igualmente imagética e rica em cores cinematográficas que tanto caracterizou seus álbuns anteriores. Apesar do tom mais contido, este álbum é de um requinte absurdo, pois Parks une seus citados adereços harmônicos e melódicos contemporâneos com a faceta da composição espontânea por meio de improvisos que emanaram ali mesmo no ato da performance, seguindo as pegadas deixadas por Keith Jarrett.

Life Carries Me This Way (Firehouse 12, 2013). Este é um dos registros mais bem talhados da discografia rica de Myra Melford, pianista que flutua com facilidade entre o avant-garde e o mainstream. A gravação do álbum inteira é baseada em composições e improvisos sinestésicos transmutando em sons as pinturas do artista visual californiano Don Reich. O encarte do CD contém um livreto de 16 páginas que inclui as fotografias coloridas da arte de Don Reich, as quais a pianista usou para se inspirar. Sendo assim, suas composições soam ora coloridas, outrora com sombreamentos mais abstratos. "Life Carries Me This Way" é a primeira gravação piano solo da pianista / compositora Myra Melford, e uma das obras seminais de piano solo dos últimos tempos.

Solo (Libra, 2018). A pianista japonesa Satoko Fujii é uma das figuras mais enérgicas e criativas do free jazz contemporâneo. Este álbum é um continuum de outros álbuns em piano solo seus, principalmente do álbum mais intimista e contido chamado Invisible Hand (Cortez Sound, 2016), do qual Satoko Fujii empresta três dos seus temas -- "Inori", "Spring Storm" e "Gen Himmel" -- para dar aqui uma tratativa mais renovada, quando não vívida. Mesclando-se entre passagens mais impulsivas e passagens mais impressionistas, Satoko Fujii não apenas apresenta sua abstração esculpida pelos rompantes do free jazz americano e da noise music japonesa como também apresenta, entre uma faixa e outra, a faceta de explorar de forma mais experimental as cordas do piano: percurtindo com as próprias mãos, e plugando emuladores eletrônicos diretamente nas cordas por entre as teclas, entre outras abordagens mais estendidas. Satoko Fujii traz aqui -- assim como em outros álbuns de piano solo seus -- algumas inspirações do colorido atonal de Paul Bley -- com quem estudou --, faceta que ela mescla com suas próprias abordagens com dedilhados mais fortes e surpreendente ágeis. Satoko Fujii combina aqui tons intimistas e contidos com passagens supreendentemente rápidas e com ataques mais fortes nas teclas do seu piano, algumas vezes abordando clusters e glissandos idiossincráticos.