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Rock, Pop, Soul, Hip Hop, MPB & Eletrônica: 30 artistas, DJ's e bandas com conexões no Jazz, Avant-Garde e Erudito


Count Basie com sua big band conferindo versões swing jazz para as canções dos Beatles? O compositor e maestro Pierre Boulez encomendando peças eruditas ao roqueiro Frank Zappa? Wynton Marsalis e sua big band participando da gravação de um álbum do ícone pop Paul Simon? A London Symphony Orchestra interpretando uma peça sinfônica do ex-Beatle Paul McCartney? O compositor Philip Glass compondo sinfonias baseadas nos álbuns de David Bowie? As canções do compositor brasileiro Milton Nascimento sendo incorporadas ao songbook do jazz americano? DJ's como os ingleses Aphex Twin e Squarepusher e o brasileiro Amon Tobin sampleando compositores eruditos, e tendo suas criações eletrônicas transcritas para orquestras e ensembles como London Sinfonietta e Allarm Will Sound? Sim! Sejam bem vindos à música pós-moderna! A intenção desse post é mostrar essas e outras conexões envolvendo alguns dos artistas mais importantes da música popular do século XX e das últimas décadas. A intenção desse post é mostrar 30 artistas, DJ's e bandas da música popular em geral -- dos gêneros rock, pop, soul, hip hop, MPB e eletrônica e suas ramificações -- que foram influenciados pelo jazz, pela música erudita e pela música de vanguarda e criaram obras criativas e inovadoras, influenciando de volta os próprios compositores e músicos de jazz, ou sendo frequentemente abordados em programações e gravações dos grandes ensembles e orquestras sinfônicas, e abordados por músicos criativos ligados ao avant-garde. Muitos dos artistas e bandas aqui apresentados empreenderam-se em parcerias e projetos instrumentais próprios que transpuseram os limites estéticos da música, criando obras híbridas de grande inventividade. Então a ideia não é apenas mostrar releituras, mas obras autorais, projetos experimentais e álbuns conceituais que evidenciam essas conexões entre as ramificações dos gêneros rock, pop, soul, hip hop, MPB e eletrônica com as ramificações do jazz, avant-garde e música erudita: tanto álbuns de nomes pop com influências instrumentais, jazzísticas, eruditas e vanguardistas; quanto álbuns de músicos do jazz, do avant-garde, de orquestras e ensembles eruditos que se inspiram nessas figuras da cultura pop. Ao compreendermos como que esses artistas, DJ's e bandas começaram no formato da canção e da música vocal popular, mas foram gradativamente adotando métodos e processos criativos eruditos e instrumentais ou se conectando a orquestras sinfônicas e músicos de jazz para alcançar uma certa evolução quanto à elaboração e composição musical das suas obras, estaremos compreendendo a própria gênese do pós-modernismo musical que começou a emergir já em meados dos anos 60, quando, por exemplo, Frank Zappa passou a se inspirar na obra do compositor Edgar Varèse para misturar rock com música erudita moderna. Ouça a playlist no fim deste post e clique nas capas dos álbuns para ouvi-los.


Bob Dylan: um gênio da poesia no folk, um caipira na vibe do jazz

 

Bob Dylan nunca inundou seu folk interiorano com as inovações vanguardistas do jazz, mas é obvio que o jazz, como uma matize modernizadora do blues -- elemento sempre presente no folk e rock --, fazia parte da paleta de influências que permearam sua música: basta notar que nos anos 60, seu produtor foi Tom Wilson, especialista em jazz que dirigiu e produziu diversos trabalhos de músicos tais como Cecil Taylor, Sun Ra, Donald Byrd, Art Farmer e Eddie Harris, além de produzir álbuns inovadores para bandas e cantores do rock tais como Frank Zappa e The Mothers of Invention, Simon & Garfunkel, Nico, Eric Burdon e The Animals, entre outros. Iniciando sua carreira no blues e na folk music através de canções não menos que emblemáticas, com um inédito requinte poético e com uma crítica social penetrante, a obra de Bob Dylan é tão gigante e panorâmica que sua influência passou a ser sentida em praticamente todos os meios artísticos e intelectuais americanos, já desde os tempos iniciais da sua carreira na era da contracultura dos anos 60 até os dias atuais: do rock ao jazz, do blues ao gospel, da música à literatura, da crítica social à alta cultura, da poesia marginal aos meios literários acadêmicos...a obra de Dylan permeou ou foi permeada por tudo -- não à toa, ele foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 2016, pelo requinte poético das suas canções e pelo seu conjunto literário de textos, críticas, poemas e etc.

Diversas canções de Bob Dylan já receberam versões jazzísticas nas mãos dos mais renomados músicos e cantores: Abbey Lincoln, Stanley Turrentine, John Scofield, Joshua Redman, dentre outros. E não faz muito tempo que Bob Dylan participou de uma série de concertos intitulada Jazz at Lincoln Center Galas promovida por Wynton Marsalis para juntar alguns dos mais afamados artistas do pop e rock em uma das suas nostálgicas e ousadas celebrações da cultura do blues: vide o registro United We Swing: Best of The Jazz at Lincoln Center Galas (Blue Engine, 2018). Já em 1965, o saxofonista Jim Horn e o guitarrista Glen Campbell lançavam o álbum Dylan Jazz (GNP Crescendo), com os primeiros covers jazzísticos das suas canções. Em 2017, também tivemos um projeto bem interessante que se chamou Hudson (Motéma): o registro traz o baterista Jack DeJohnette, o contrabaixista Lary Grenadier, o pianista/tecladista John Medeski e o guitarrista John Scofield dando formas jazzísticas para algumas das mais emblemáticas canções de Dylan, canções que se tornaram verdadeiros hinos da contracultura, tais como "Lay Lady Lay", "Woodstock" e "A Hard Rain's A-Gonna Fall", além de outras releituras de outros cantores e bandas dos anos 70 -- o nome do projeto, aliás, vem do fato de que as propriedades e estadias do Vale do Rio Hudson passaram a ser os retiros preferidos para esses artistas da contracultura. Outro registro interessante -- este integralmente com releituras de canções de Dylan -- é o álbum Trouble: The Jamie Saft Trio Plays Bob Dylan (Tzadik, 2006): afeito à releituras experimentais e iconoclastas, o tecladista Jamie Saft atua basicamente com os formatos de piano-trio e organ-trio junto de Greg Cohen no contrabaixo e Ben Perowsky na bateria, convidando o vocalista americano Mike Patton e a cantora inglesa Anohni para colaborar em versões vocais em duas canções entre as oito releituras dispostas. A conexão de Jamie Saft com a música e poesia de Bob Dylan, enfim, se remonta ao fato de que o gênio caipira da contracultura era neto de judeus-russos, e ele também vem de descendência judia. Enfim...ainda que Bob Dylan não tenha se conectado de forma mais direta com o universo do jazz -- no sentido de lançar projetos instrumentais ou álbuns com arranjos de big band e etc --, suas canções com inflexões melódicas marcantes do folk e do blues são motivos suficientes para que sua obra seja apreciada por uma legião de músicos do jazz.


Beatles & Paul McCartney: as canções da banda em versões para big bands e as peças sinfônicas de McCartney

 

As canções dos Beatles transformaram o rock, modernizaram o formato da canção popular, deram início a cultura pop, incendiaram a contracultura e adentraram ao songbook do jazz já desde a segunda metade dos anos 60 quando Ella Fitzgerald passou a cantá-las e Count Basie lançou o álbum Basie's Beatles Bag (Verve, 1966) -- e Basie continuaria a dar suas versões para as canções da banda no álbum Basie on the Beatles (Happy Tiger, 1970). Além deste álbum de Count Basie -- que é, talvez, o primeiro registro em versões no formato big band para algumas das mais populares canções dos Beatles --, aqui quero indicar um registro contemporâneo que, apesar de vir com vocais, o ponto chave são os arranjos instrumentais inovadores, também em formato de big band. Falo de um dos covers contemporâneos da música dos Beatles mais idiossincráticos já gravados: falo do registro em que o iconoclasta multi-instrumentista e bandleader inglês Django Bates faz uma releitura jazzística do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 1968, considerado o álbum mais conceitual, inovador e artístico da banda -- a obra que incendiou a chamada contracultura, e por aqui, no Brasil, influenciou no surgimento da Tropicália. Intitulando o projeto de Saluting Sgt. Pepper (Edition Records, 2017), Django Bates se junta à Frankfurt Radio Big Band para dar uma versão -- mista de vocais e arranjos orquestrais -- pra lá de criativa e contemporânea. Em projetos pessoais anteriores, Django Bates já ficara conhecido por lançar álbuns com composições autorais onde ressignifica pastiches da música pop e do jazz em versões iconoclastas, irônicas e sarcásticas, com arranjos instrumentais -- misturando formas variadas do jazz com avant-garde, rock, pop e etc -- não menos que intrigantes e inovadores. Para este projeto, pois, Django Bates traz toda essa sua personalidade iconoclasta e pós-moderna para criar releituras ultra criativas para canções de um álbum que já é historicamente considerado, por si só, um marco revolucionário dentro da música pop.
Todos os quatro remanescentes dos Beatles tomaram caminhos próprios com projetos criativos -- todos eles eram criativos, afinal. Mas aqui quero indicar para que o leitor e ouvinte também ouça a obra sinfônica de Paul McCartney, principal compositor das canções da banda ao lado de John Lennon. Após a dissolução dos Beatles, John Lennon fundou a banda Plastic Ono Band com Yoko Ono. Paul McCartney, por sua vez, funda os Wings. Paralelamente à sua faceta de compositor de canções, nas próximas décadas Paul McCartney empreender-se-ia em lançar álbuns experimentais e trilhas sonoras. Nos anos 90, McCartney se aventuraria em mais uma nova direção da sua já multifacetada carreira: a composição de peças eruditas. Em 1991, McCartney lança o registro da sua ópera Liverpool Oratorio (EMI Classics) com a Royal Liverpool Philharmonic Orchestra regida por Carl Davis e o coral Liverpool Cathedral Choiristers. Particularmente, considero que McCartney atinge um bom resultado no álbum seguinte, Standing Stone (EMI Classics, 1997), com a London Symphony Orchestra e Coral regidos pelo maestro Lawrence Foster: a peça funciona como uma sinfonia com tons neoclássicos constituída de um conjunto de temas híbridos com orquestra e vozes distribuídos em quatro movimentos. O ex-Beatle registraria mais três projetos eruditos -- Working Classical (1999), Ecce Cor Meum (2006) e Ocean's Kingdom (2011) --, mas particularmente considero Standing Stone (EMI Classics, 1997) como o seu melhor trabalho do gênero.


Frank Zappa: Roland Kirk, Eric Dolphy, Edgard Varèse e Pierre Boulez, as influências e seus resultados
Falando na fase derradeira dos Beatles, não há como deixar de fora a mais irreverente e cerebral figura do rock progressivo dos anos 60 e 70: Frank Zappa. Normalmente, após ler uma sinopse do revolucionário álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Ban dos Beatles, um leigo em música perguntaria: "Ok, os Beatles influenciaram todo o rock, a música pop, a contracultura, a Tropicália..., mas...quem influenciou os Beatles? E a resposta seria: Frank Zappa! Zappa praticamente influenciou a todos os roqueiros da sua época a procurar as vias da música moderna e da experimentação. Dotado de um humor ácido e afeito a sátiras, paródias, ironias e colagens, Zappa é um dos principais pós-modernistas do século XX a influenciar não apenas o rock, mas o jazz e a música erudita moderna e contemporânea -- a música criativa em geral. Zappa influenciou e continua sendo sinônimo de música criativa, tendo construído uma das obras mais inovadoras de todos os tempos: dos Beatles à John Zorn, de Captain Beefheart à Pierre Boulez...a lista de grandes bandas e grandes músicos e compositores que se inspiraram e se inspiram nele não é pequena. Para construir e desenvolver a instrumentação e os arranjos dos seus temas intrincados de rock, Zappa usou vários processos criativos oriundos do jazz e da música erudita moderna, tendo como ponto de partida a música inovadora do compositor francês Edgard Varèse e os álbuns de músicos de jazz dos anos 60 que fizeram a ponte do bebop para o fusion e o avant-garde. Já na época do álbum Freak Out (Verve, 1966), um dos seus primeiros álbuns duplos e um dos seus primeiros registros conceituais com sua banda The Mothers of Invention, Zappa justificava que os improvisos, desenvolvimentos e arranjos intricados das suas canções traziam referências implícitas de uma lista de influências que já vinham sedimentando sua criatividade pessoal desde seu início de carreira: Edgar Varèse, Clarence 'Gatemouth' Brown, Cecil Taylor, Roland Kirk, Charles Mingus, Eric Dolphy, Bill Evans...Zappa chegou a afirmar em várias entrevistas de 1967 que estas influências -- misturadas, logico, com suas próprias idiossincrasias -- eram suas principais inspirações para seu processo de conceitualização musical. Um ano depois, os Beatles usariam o álbum Freak Out como a principal influência para os arranjos instrumentais do seu conceitual Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band. Das influências citadas que fizeram a cabeça de Zappa, dois dos músicos de jazz pelos quais o guitarrista tinha mais apreço eram o falecido clarinetista Eric Dolphy e o saxofonista Roland Kirk: no álbum Weasels Ripped My Flesh (1970), Zappa faz uma referência direta a Dolphy em seu tema "Eric Dolphy Memorial Barbecue"; e em duas ocasiões no ano de 1969, uma na quarta edição do Boston Globe Festival e outra na edição do Newport Jazz Festival daquele ano, Zappa convidou Roland Kirk para estar no palco com sua banda The Mothers of Inventions -- duas gigs que foram no mínimo inexplicavelmente incendiárias. O álbum de Zappa que mais traz ecos do post-bop vanguardista e do free jazz da segunda metade dos anos 60 é, portanto, Ripped My Flesh (1970). Nos anos 70, Zappa entraria numa vibe mais "fusion" e "jazz-rock", transformando-se, ele mesmo, num dos maiores expoentes do jazz-rock setentista: só que é preciso reparar que seus álbuns dessa fase evidenciam uma estética que soa mais como um rock instrumental intrincado com influências do jazz-fusion, do que propriamente como algo que soa jazz fusion com influências do rock -- é uma fase para abordarmos posteriormente em outro post.
Ademais, nos anos 80 Zappa recebeu uma encomenda de ninguém menos que Pierre Boulez, compositor e maestro francês que já era considerado um dos maiores fomentadores e ícones da música erudita moderna. Tendo fundado seu grande centro de música erudita moderna e eletroacústica em 1977, o IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique), Pierre Boulez acabara de entrar numa fase de fomentar e comissionar peças eletroacústicas compostas pelas principais personalidades criativas da música contemporânea da época -- dentro e fora da França --, e então solicita para que Frank Zappa componha três peças a serem estreadas pelo seu Ensemble intercontemporain. A empreitada foi registrada no álbum Boulez Conducts Zappa: The Perfect Stranger (EMI, 1984) gravado em Paris em abril de 1984, no IRCAM, e traz sete faixas intercaladas: três na execução do Ensemble InterContemporain, e quatro executadas pelo próprio Zappa usando sintetizadores Synclavier (faixas que são creditadas ao The Barking Pumpkin Digital Gratification Consort, atrelado ao seu selo independente Barking Pumpkin). Posteriormente, Zappa se empreenderia cada vez mais no universo do erudito contemporâneo, mas esses dois álbuns acima citados compreendem as portas de entrada de Zappa para suas aproximações com o jazz entre meados dos anos 60 e 70 e com a música erudita de forma mais direta nos anos 80.


Joni Mitchell: a amizade e parceria musical com Charles Mingus
A amizade que a cantora de folk-rock canadense Joni Mitchell nutriu com o cerebral contrabaixista e compositor de jazz Charles Mingus é emblemática. Fazendo uma dedicatória à Mingus e sua obra, em 1979 Joni Mitchell lança este homônimo álbum Mingus (Asylum), sendo esse o décimo registro da sua carreira. A cantora já era fã inveterada da música de Mingus e passou a ser ainda mais fã quando ambos se aproximaram em meados dos anos 70. Já no final da vida do compositor, ela idealizou este projeto -- que, aliás, não é composto só de releituras, mas também de curiosas transcrições para versões vocais dos temas instrumentais compostos por Mingus nos anos 50 e 60, além de canções que o próprio compositor escreveu exclusivamente para esta ocasião com a cantora. Com a participação direta do próprio Mingus -- que decidiu, ele mesmo, fazer questão da sua participação --, esse registro foi gravado nos meses que antecederam a sua morte, sendo o último projeto que o icônico bandleader participaria. O álbum revela um caráter experimental tênue, com passagens minimalistas marcadas por espasmos e silêncios, folk music, efeitos de guitarras acústicas, jazz fusion e sons pré gravados -- vide, por exemplo, os ruídos de lobos uivando que podemos ouvir na faixa "The Wolf That Lives in Lindsey". Todas as composições foram escritas por Mingus e todas as letras são de Joni Mitchell, que contratou para esta gravação músicos ligados ao jazz fusion setentista tais como o tecladista Herbie Hancock e os músicos do grupo Weather Report, vide a participação -- dentre outros músicos -- do saxofonista Wayne Shorter, do guitarrista John McLaughlin e do icônico contrabaixista Jaco Pastorius. Além das novas composições que Mingus escreveu exclusivamente para este novo projeto de Joni Mitchell, há releituras vocais sobre temas do legendário álbum Mingus Ah Um (Columbia, 1959), como evidenciado na faixa "Goodbye Pork Pie Hat". O álbum também contém trechos gravados de partes faladas, cedidas posteriormente pela viúva Sue Mingus, que evidenciam alguns momentos descontraídos que Joni Mitchell vivenciou com Charles Mingus antes do seu falecimento: incluindo as palmas e os comentários na última festa de aniversário do compositor e até um outro momento onde ele discute quanto tempo vai viver e como será seu funeral. Joni Mitchell já era uma cantora e compositora de canções que frequentemente vinha enxertando elementos de jazz em suas canções folk e pop, e por conta disso passou a ser muito admirada por músicos de jazz por sua sensibilidade melódico-harmônica. Mas a partir deste álbum sua influência no jazz cresceu ainda mais a ponto não ser mais incomum músicos de jazz aplicar versões instrumentais às suas canções. Este álbum fecha com chave de ouro e retrata -- além da sua admiração por Charles Mingus -- uma fase em que Joni Mitchell vinha trabalhando frequentemente junto com diversos músicos de jazz tais como Joe Sample, Herbie Hancock, Jaco Pastorius, Wayne Shorter, Pat Metheny, entre outros -- vide os seus álbuns com seus originais repletos de elementos do jazz fusion, lançados pela Asylum Records. Quase três décadas depois, em 2007, a aproximação da pop singer com o jazz volta às pautas através do pianista Herbie Hancock e seu premiado álbum The Joni Letters (Verve), num tributo claro às canções de Joni Mitchel, com participações de cantores famosos tais como Norah Jones, Corinne Bailey Rae, Leonard Cohen, Tina Turner e Luciana Souza -- e, tendo a participação da própria Joni Mitchell.


Stevie Wonder: o songbook jazzístico do soulman mais pop de todos os tempos

 

Por detrás da figura de soulman e da celebridade pop nas quais Stevie Wonder se transformou, existe um excelente músico de jazz de formação autodidata -- e um brilhante compositor de canções embebecidas de elementos do blues, gospel e jazz. Tanto, que seu álbum de estreia, lançado em 1962 aos 12 anos de idade, é um álbum de jazz e foi chamado The Jazz Soul of Little Stevie: e chega a ser assustador o talento do jovem soulman no manipular de vários instrumentos. Aliás, em 1968 Stevie Wonder repete a façanha lançando um álbum de standards de jazz -- neste atuando com solos de gaita, principalmente -- sob o pseudônimo Eivets Rednow -- curiosamente um anagrama para seu nome verdadeiro. O fato é que desde seu início de carreira, ainda criança, Stevie Wonder já mostrava que o jazz seria sua principal fonte de inspiração. Posteriormente, várias das canções de Steve Wonder se tornariam standards de jazz: figuras legendárias como Freddie Hubbard, Ella Fitzgerald, Ahmad Jamal e Sonny Rollins foram alguns dos que já aplicaram releituras jazzísticas sobre seus temas; e também vários outros grandes nomes do jazz -- de Dizzy Gillespie a George Benson -- foram seus sidemans em gravações ou shows. Em seus shows, aliás, nunca foi incomum que, entre uma canção e outra, temas instrumentais de jazz sejam incluídos: ele frequentemente toca temas tais como All Blues de Miles Davis (na gaita), Giant Steps de John Coltrane (no piano) e Spain de Chick Corea (no Fender Rhodes) com a mesma desenvoltura que qualquer músico de jazz de ofício. A flautista Bobbi Humphrey -- uma das icônicas figuras do jazz funk empreendido pela Motown, e sideman de Stevie Wonder nos anos 70 -- recorda que ele era tão fascinado por jazz, que o principal teste para músicos ingressar em sua banda era saber ler, interpretar e improvisar sobre standards: de Duke Ellington a Gershwin, de John Coltrane à Miles Davis. Para quem quer uma prova real e simples, experimente abrir o The Real Book -- uma série de books de partituras de standards de jazz, considerado a base de repertório para músicos jazzistas em geral --, e verás que nele contém mais composições de Stevie Wonder do que de qualquer outro compositor pop. 
Mas é preciso notar que o jazz não está presente na música de Stevie Wonder apenas como uma mera inspiração, mas também como um ingrediente principal. Diversos álbuns de canções de Stevie Wonder receberam uma influência mais direta do jazz. Em 1975, no álbum Songs in the Key of Life, Wonder convida o pianista e tecladista Herbie Hancock e mais uma troupe de músicos de jazz para participar das gravações do disco, que é um dos seus mais espetaculares registros. E essas conexões ficaram evidentes desde seus primeiros álbuns, possibilitando que suas canções se tornassem preferidas entre os músicos de jazz. Uma das primeiras lendas do jazz a fazer um cover de Stevie Wonder foi o saxofonista Roland Kirk, que certa vez em 1968 apresentou uma versão ao vivo de Ma Cherie Amour dizendo: "We'd like to play a black African prince tune for you ... written by a beautiful, black, blind, crazy brother, Afro-American prince". Repetindo o gesto em 1971, Roland Kirk também abordou a canção com seus rasantes saxofones no programa de TV The Ed Sullivan Show. O fascínio que Roland Kirk nutria por Stevie Wonder é emblemático porque ambos se encaixam na áurea dos gênios que nasceram ou ficaram cegos na infância -- os pianistas Art Tatum, Lennie Tritano e o soul singer Ray Charles, entre eles -- e que, portanto, desenvolveram sentidos musicais aguçados. Por fim, as canções de Stevie Wonder seguem sendo regularmente abordadas pelos músicos contemporâneos. Segundo o pianista Vijay Iyer -- que aplicou um cover jazzístico da canção "Big Brother" em seu álbum Historicity (ACT, 2009) --, suas canções têm o tipo de mudanças de acordes interessantes nas quais os músicos de jazz podem alçar grandes vôos em termos de arranjos e improvisos. Basta ouvir os covers jazzísticos que o San Francisco Jazz Collective já deu aos diversos temas de Stevie Wonder: trata-se de algumas das mais impactantes releituras das canções do soulman, um retrato perfeito da junção dos elementos melódicos das suas belas canções com arranjos jazzísticos bem elaborados.


Paul Simon: as releituras de Paul Desmond, e o soft-pop incorporando a instrumentação do jazz
Começando sua carreira imerso no folk através da sua dupla com Art Garfunkel e aos poucos rumando para uma carreira solo repleto de sucessos, Paul Simon é um dos cantores populares que mais empregaram músicos de jazz em seus shows e gravações, e até hoje é uma das estrelas da pop music que mais se inspiraram no jazz, consequentemente sendo um dos mais reverenciados artistas populares pelos músicos das últimas décadas. Transitando do folk a uma espécie de estilo um tanto soft pop e/ou easy listenen, as canções de Paul Simon já eram cantadas por Tonny Bennett, Frank Sinatra e vários outros cantores de jazz desde a segunda metade dos anos 60. Em 1970, o legendário sax-altoísta Paul Desmond lança o primeiro álbum de jazz instrumental dedicado integralmente a releituras de canções de Paul Simon: o álbum Bridge over Troubled Water (A&M/CTi, 1970) traz Desmond no seu melhor estilo de sonoridade "dry martini" suave acompanhado de grandes músicos como Herbie Hancock (electric piano), Ron Carter (contrabaixo), Jerry Jemmott (Fender bass) e Airto Moreira (percussão). Desde então, as canções de Paul Simon inundaram o repertório jazzístico e estão presentes em inúmeros álbuns de inúmeros instrumentistas de jazz. Em paralelo, Paul Simon também seguiu lançando diversos álbuns onde ele elevou o requinte instrumental dos seus arranjos através da inserção de harmonias sofisticadas, instrumentação rebuscada e improvisos jazzísticos: o álbum Still Crazy After All These Years (1975) é sem dúvidas seu álbum mais jazzístico dos anos 70, tendo a participação de músicos como o saxtenorista Michael Brecker, o baterista Grady Tate, os sax-altoístas Phill Woods e David Sanborn, o gaitista Toots Thielemans, o acordeonista brasileiro Sivuca, entre outros -- é deste álbum, inclusive, a canção "I Do It For Your Love", que tornou-se um standard obrigatório no repertório do pianista Bill Evans a partir de então. Dessa forma, as canções de Paul Simon seguiram recebendo releituras constantes em álbuns de jazz: cantores e músicos como Oscar Peterson, Kurt Elling, Karrin Allyson, Bob James e Brad Mehldau são alguns dos que deram roupagens jazzísticas para suas canções nas últimas décadas.

   

Mas as abordagens particulares de Paul Simon também se estendeu para o além-jazz. Mantendo a riqueza de detalhes e arranjos instrumentais sofisticados, alguns dos seus últimos álbuns tem convidados especiais que vão de nomes da música erudita moderna à DJ's criativos de música eletrônica: o álbum Stranger to Stranger (Concord, 2016), por exemplo, tem colaboradores como o DJ Clap! Clap!, o compositor e músico erudito Nico Muhly, o vocalista Bobby McFerrin, o tubista Marcus Rojas, o trombonista Wycliffe Gordon, dentre outros músicos criativos. Nos últimos anos, Paul Simon lançou pelo menos mais dois álbuns de canções com instrumentações criativas e/ou arranjos jazzísticos fora de série: o álbum Surprise (Warner, 2006) traz participações de vários músicos criativos tais como o contrabaixista Pino Paladino, o pianista/tecladista Herbie Hancock, o guitarrista Bill Frisel, o acordeonista Gil Goldstein e... Brian Eno nos eletrônicos; e o álbum In the Blue Light (Legacy, 2018), que traz colaborações do saxtenorista Joe Lovano, do contrabaixista John Patitucci, do guitarrista Bill Frisell e do trompetista Wynton Marsasalis e músicos da sua big band Jazz at Lincon Center Orchestra.


David Bowie: um camaleão com tons de blues e jazz; e a música minimalista de Philip Glass com tons de Bowie
Em 1977 o sucesso de David Bowie era tamanho, que ele foi convidado para gravar a narração da estória do clássico musical infantil Peter and the Wolf, do compositor russo Sergei Prokofiev: o registro está no álbum David Bowie Narrates Prokofiev's Peter and the Wolf, com a Philadelphia Orchestra conduzida pelo maestro Eugene Ormandy -- o álbum, enfim, pega carona no sucesso do rockstar e alcança boas posições nos rankings de vendas e de posição na Billboard (algo que se repetiria com Sting em 1990). Mas essa não seria a última conexão do camaleão com o formato erudito e outras galáxias estéticas. David Bowie foi, definitivamente, um artista criativo dentro da história do rock -- e não me refiro aos seus figurinos ou à sua temática andrógina em torno do que rotularam como glam rock nos anos 70, mas sim à sua versatilidade. Com uma paleta diferenciada através de diversas fases criativas e com canções coloridas de entonações melódicas incomparáveis -- permeando do rock mais visceral à pop art, das associações experimentais com Brian Eno aos seus posteriores registros com arranjos de cores esquizofrênicas --, seus temas também são os preferidos dos músicos de jazz. Quando analisamos a discografia de David Bowie, não encontramos muitas associações com o jazz, de fato. O que vemos é que ele manteve uma boa banda de apoio, com músicos da sua confiança advindos desde as fases mais roqueiras dos anos 70: o tecladista/pianista Michael David Garson, por exemplo, foi um dos seus mais longevos sidemans e é um excelente músico de jazz. Porém, suas canções evidenciam um colorido camaleônico que, não raramente, é abordado pelos jazzistas como algo a se explorar. Uma das suas primeiras associações com um músico de jazz, de fato, foi em 1985, quando ele foi convidado para participar da trilha sonora do filme The Falcon and the Snowman, composta pelo guitarrista Pat Metheny e o tecladista Lyle Mays. A partir dos anos 2000, Bowie continua cercado dos mesmos companheiros músicos das antigas, porém variando mais a instrumentação dos seus registros através da participação de músicos de jazz, quarteto de cordas, quarteto de guitarras e outros arranjos pra lá de criativos-- o guitarrista David Torn e a vocalista e pianista Catherine Russell são dois exemplos de músicos de jazz que estiveram presente em seus álbuns a partir dos anos 2000. Mas isso não significou que sua música estivesse tomando um rumo jazzístico -- era apenas sua natureza camaleônica buscando tons de diferenciação aqui, ali e acolá. Isso vai acontecer de forma mais latente pouco antes da sua morte quando ele se encontra com a arranjadora e bandleader Maria Schneider, que lhe faz um arranjo para a canção Sue (Or in a Season for a Crime), versão orquestral inserida no álbum compilativo Nothing Has Changed. David Bowie pergunta à Maria Schneider se ela lhe poderia indicar alguns bons músicos de jazz para um novo projeto que ele tinha em mente, o que ela fez de prontidão indicando o saxtenorista Donny McCaslin. Os dois se conhecem e logo a admiração foi mútua: Bowie chegou até a ir prestigiar a banda de McCaslin no Village Vanguard. A parceria passaria a ser a base principal para o último álbum de David Bowie em vida: Blackstar (Sony/ Columbia, 2016), gravado pouco antes da sua morte. Para o projeto deste registro, o saxtenorista Donny McCaslin indicou ao rockstar o pianista Jason Lindner, o contrabaixista Tim Lefebvre e o baterista Mark Guiliana, além de contar com participações do guitarrista Ben Monder -- alguns dos mais criativos músicos do jazz contemporâneo. Neste seu último álbum, sim, David Bowie dá uma tratativa jazzística mais latente e adiciona nesse molho pitadas de vários estilos e estéticas tais como drum'n'bass, art rock, folk, pop e até batidas bem próximas ao hip hop, entre outros estilos amalgamados. O álbum não soa como um disco de jazz, mas no meio desse hibridismo todo, os ouvintes de ouvidos mais calejados no jazz contemporâneo não demorarão pra identificar um certo frescor jazzístico através dos solos do piano de Jason Lindner, do saxofone de McCaslin e a da rica bateria de Mark Guiliana.

   

Mas antes, Bowie já havia tido uma conexão um tanto curiosa com o minimalismo erudito. O compositor Philip Glass compôs três das suas sinfonias baseadas nos álbuns instrumentais e experimentais que Bowie gravou com Brian Eno, e que são denominados como "A Trilogia de Berlim" dentro da sua discografia: vide os álbuns Low (RCA, 1977), Heroes (RCA, 1977) e Lodger (RCA, 1979). Baseado no álbum Low, Glass compôs sua Sinfonia No.1: estreada em 1992 e registrada em álbum em 1993 com o título Low Symphony, tendo a Brooklyn Philharmonic Orchestra regida pelo maestro Dennis Russell. Baseado no álbum Heroes, Glass compôs sua Sinfonia No. 4: estreada em 1996 e registrada no mesmo ano com o título Heroes Symphony, tendo a American Composers Orchestra sendo regida pelo maestro Dennis Russell (parceiro frequente de Glass). E baseado no álbum Lodger, Glass compôs sua recente Sinfonia No. 12: uma obra vocal com orquestra e orgão na qual o compositor faz uso das letras originais do álbum de David Bowie e Brian Eno, estreada em 2019 pela London Contemporary Orchestra e a cantora Angélique Kidjo, mas ainda não lançada em álbum.


David Byrne: as trilhas sonoras e as incursões da world music em projetos conceituais
Da geração do punk e art-rock dos anos 70, David Byrne é um dos compositores mais inteligentes e mais abertos à pesquisas etnomusicológicas e às misturas ecléticas. Desde suas abordagens com o Talking Heads, David Byrne já mostrava uma união de aberturas diversas como new wave, punk, avant-garde, experimental e música eletrônica, tendo na colaboração de Brian Eno uma das suas principais influências. Dos registros nutridos pelas parcerias que Brian Eno empreendeu com seus colegas da época, o álbum My Life In The Bush Of Ghosts (E.G, 1981), onde ele colabora com David Byrne, é um dos mais multifacetados, com partes faladas, efeitos eletrônicos e radiofônicos, instrumentais bem elaborados, percussões baseadas na world music africana, marcações rítmicas irregulares baseadas numa espécie de funk-rock -- uma profusão híbrida de sons que o próprio Brian Eno chamaria de "visão de uma África psicodélica". Posteriormente, David Byrne se consagraria principalmente como compositor de trilhas sonoras para balé, teatro e filmes, mas também teria uma maior liberdade para formular seus álbuns instrumentais em sua nova gravadora recém fundada no final dos anos 80, a Luaka Bop -- gravadora na qual Tom Zé, nosso cancionista revolucionário, renasceu.
Em 1985, David Byrne foi convidado para compor -- ao lado de compositores como Philip Glass, Gavin Bryars e outros -- a música para a ópera The CIVIL warS, de Robert Wilson. Como boa parte dos temas haviam sido compostos por Byrne, resultado surtiu efeito no lançamento do seu álbum The Knee Plays: a gravação traz peças com uma abordagem de brass band militar atualizada para moldes da drone music repetitiva, e o registro se tornaria um dos seus trabalhos mais reconhecidos, sendo posteriormente incorporados aos catálos da ECM Records e Nonesuch Records. Já nos anos 90, influenciado por suas pesquisas da world music, Byrne lançaria álbuns de canções com as mais exóticas misturas: misturando muito da sua amálgama roqueira-vanguardista de outrora com rítmos e adereços regionais do Brasil, Africa, Cuba e vários adereços tradicionais que ele conseguiu coletar das suas pesquisas e viagens pelo mundo -- nessa fase, um dos que mais o inspiraram foi, justamente, o cantor brasileiro Tom Zé. Mais recentemente, David Byrne conseguiu emplacar sua peça teatral American Utopia por quatro meses na Broadway, ficando em cartaz de 4 de outubro de 2019 à 16 de fevereiro de 2020, só sendo interrompida por causa da Covid-19. Um documentário sobre a produção dessa peça de Byrne foi dirigido por Spike Lee e lançada no final de 2020 nos canais HBO. Já o álbum da peça, American Utopia on Broadway, foi lançado em 2019 e recebeu um Grammy de Melhor Álbum de Teatro Musical. Uma outra conexão interessante é o cover que o Balenescu Quartet dá para sua peça High Life for Nine Instruments, que foi encomendada para um festival chamado New Music America, em 1980 em Mineápolis.


Brian Eno: de Erik Satie à eletrônica minimalista, um novo conceito de música ambiente

 

Iniciando a carreira como tecladista do grupo de rock Roxy Music no início dos anos 70, Brian Eno é o artista conceitual mais popular e importante a se originar nos meandros do rock, tendo diversas contribuições -- obras conceituais, experimentos e novas técnicas de gravação, além de obras oriundas de diversas parcerias -- amplamente reconhecidas como inovadoras e influentes dentro da história mais recente da música dos anos 70 até hoje. Brian Eno é o tipo de músico que se autodenomina um não-músico, ou seja, um fazedor de música que se dispôs a não trabalhar com as destrezas técnicas exigidas pela catedrática convencional e pela música mainstream, um fazedor de música que se dispôs não trabalhar com as técnicas de gravação, as técnicas de leitura musical, melodia, harmonia e ritmo convencionais e, ao contrário, sempre preferiu trabalhar com suas próprias amostragens, com seus próprios conceitos e experimentos -- ficando conhecido por fazer experimentos com inúmeros sintetizadores e gravadores sendo tocados ao mesmo tempo em delays e loops planejados, desenvolvendo performances, amostragens e, posteriormente, suas contribuições para a música ambiente conceitual. Um dos seus primeiros álbuns conceituais foi o Taking Tiger Mountain (By Strategy) (Island, 1974), quando ele ainda estava imerso numa espécie de glam rock híbrido, na época formando um paralelo com David Bowie, que posteriormente seria um dos seus principais parceiros. Taking Tiger Mountain (By Strategy) é um registro de rock baseado num conjunto de cartões postais advindos do modelo da ópera chinesa nos tempos da Revolução Cultural. Nesse álbum, aliás, ele tem a contribuição do baterista Robert Wyatt (ex-Soft Machine) -- outro dos seus regulares parceiros -- e da Portsmouth Sinfonia, uma orquestra tinha um conceito de ser constituída apenas por músicos não treinados originalmente em instrumentos sinfônicos -- inclusive com próprio Brian Eno sendo um clarinetista frequente dentro da orquestra. Em paralelo a esses álbuns de rock bem elaborados, Brian Eno já vinha trabalhando em projetos instrumentais seminais onde já mostrava os primeiros genes da sua conceitual música ambiente: caso dos álbuns No Pussyfooting (Island, 1973) e Evening Star (Island, 1975) em parceria com Robert Fripp (da banda King Crimson), com sintetizadores e guitarra. Mas o álbum que definitivamente marca a entrada de Brian Eno numa viagem ainda mais experimental e conceitual rumo à concretização da sua música ambiente -- já sem qualquer resquícios de rock -- é Discreet Music (EG, 1975): o registro é resultado de um experimento minimalista com sintetizador EMS Synthi AKS e delays e sequenciamentos planejados em fita magnética, tendo como premissa criar uma música minimal, de sons constantes e nuances atmosféricas onde a sonoridade inebria-se ao ambiente, levando o ouvinte a ter essa sensação de que o ambiente também é parte da composição. Brian Eno conta que a inspiração para este álbum começou quando ele estava internado num hospital por um acidente de automóvel e recebeu um álbum de música antiga para harpa composta no século XVIII: antes de ir embora, sua amiga colocou o álbum para tocar, porém como estava chovendo do lado de fora, o som da chuva parecia se misturar aos sons da harpa, lhe fazendo a ter essa ideia de provocar uma escuta diferente por meio da música em interação com seu ambiente. Outra influência direta no trabalho de Eno é as ideias conceituais do compositor Erik Satie que já em 1917 cunhava o termo "música para móveis" com uma música minimal, intimista e meditativa acontecendo ao mesmo tempo que outros sons de um ambiente cotidiano.
Brian Eno amplia sua abordagem no seu seminal registro Ambient 1: Music for Airports (Polydor, 1978), com a colaboração do amigo Robert Wyatt e do engenheiro Rhett Davies: já tendo cunhando termo música ambiente -- e apresentando a inserção minimal de vozes, piano acústico e sintetizadores (entre eles o novo ARP 2600) --, trata-se de um álbum que consiste em quatro peças de atmosferas sonoras contínuas criadas a partir de uma instalação com várias fitas magnéticas de diferentes comprimentos sendo sobrepostas em camadas de diferentes durações, projetadas para ser continuamente repetidas em interação com o ambiente e a atmosfera de um terminal de aeroporto, criando efeitos sutis de loops sobrepostos que se misturam a esse ambiente e anula por completo sua densa atmosfera sonora. Apesar da obra ser gravada em estúdios -- parte em Londres e outra parte em Colônia, Alemanha --, em 1980 foi feita uma instalação ao vivo para a execução da peça no Aeroporto do Terminal Marítimo de LaGuardia, em Nova York. Nos registros seguintes, Brian Eno continuaria expandindo suas obras nesse novo conceito minimalista de música ambiente -- vide os registros Music for Films (E.G, 1978) e Ambient 2: The Plateaux of Mirror (E.G, 1980) -- e expandindo ainda mais em direção da música eletrônica, explorando a maior variedade possível de sintetizadores e possibilidades eletrônicas para a produção das suas atmosferas sonoras. Em 1998 o ensemble Bang On A Can registrou sua versão da peça Music for Airports e quase dez anos depois gravou um segundo registro ao vivo da instalação da peça, registros que receberam considerável atenção e sucesso de crítica.


Robert Wyatt: as conexões do roqueiro com Michael Mantler, Carla Bley e Mary Halvorson, e suas canções estranhas
Membro da banda Soft Machine (1966 - 1984) e expoente maior da Canterbury scene, cena musical da cidade inglesa de Canterbury onde as bandas de rock progressivo eram mais apegadas à improvisação, jazz-fusion e avant-garde, o baterista Robert Wyatt é um dos roqueiros mais influentes dentro do jazz e um dos músicos mais convidados para atuar em trabalhos exploratórios de outras bandas e músicos nessas últimas décadas. Já no final dos anos 60, Wyatt mantinha uma conexão bem próxima com os músicos de jazz americanos e europeus. No início dos anos 70, ele foi baterista de uma curiosa big band chamada Centipede, que foi formada com músicos de jazz e instrumentistas do rock para se apresentar no JazzFest Berlin's New Violin Summit, um live concert com os violinistas Jean-Luc Ponty, Don "Sugarcane" Harris e Michał Urbaniak: o registro dessa "big band" está no LP duplo Septober Energy (Neon/ RCA, 1971), produzido pelo guitarrista Robert Fripp, guitarrista do King Crimson. Em seguida, Robert Wyatt passou a ter uma conexão muito próxima com Carla Bley e o marido Michael Mantler: o casal responsável por algumas das fusões mais inovadoras envolvendo rock e free jazz nos anos 60 e 70, incluindo o emblemático álbum Escalator over the Hill (JCOA Records, 1971). Nessa época, Robert Wyatt mantinha uma lista enorme de colaborações com várias bandas e músicos ao mesmo tempo: The Animals, Syd Barrett, Henry Cow, Hatfield and the North, Keith Tippett, Brian Eno... se colocando à disposição sempre como baterista, pianista, tecladista, percussionista ou como vocalista, sendo um dos pioneiros do uso de vocais experimentais. Em paralelo, Robert Wyatt também passa por um período de transição com um hiato da sua banda, a Soft Machine, e começa a investir em sua carreira solo. O seu primeiro álbum solo foi o interessante The End of an Ear (Esoteric Recordings, 1970), registro instrumental que traz uma incomum amostragem de free jazz e vocais experimentais com uma banda que incluía Elton Dean (do Soft Machine) no saxofone e Dave Sinclair (do Caravan) no orgão.

   

Já o álbum seguinte, Rock Bottom (Virgin, 1974) marca a fase em que ele teve de atravessar os dramas do acidente que o fez ficar paraplégico: em 1973, durante uma festa noturna em Londres, Wyatt caiu embriagado da janela de um banheiro no terceiro andar e ficou paralisado abaixo da cintura, drama que ele passou a enfrentar se dedicando integralmente à música, a começar pela composição desse álbum, que traz um misto de canções incomuns, o uso mais elaborado de efeitos eletrônicos e arranjos instrumentais com a participação de músicos como Gary Windo (clarone, sax tenor), Mongezi Feza (trompete) e Fred Frith (viola). Nos álbuns seguintes, Robert Wyatt levaria adiante esse hibridismo -- de canção com inflexões incomuns, ingredientes vanguardistas, instrumentação elaborada com abertura para improvisadores e uma aproximação cada vez maior com a eletrônica --, se direcionando cada vez mais  para centro das abordagens conceituais do art-pop e art-rock, começando, também, um ciclo de colaborações mútuas com Brian Eno: o álbum Ruth Is Stranger Than Richard já é bem coeso nesse sentido. O fato é que Robert Wyatt não era apenas um colaborador engajado, mas uma fonte inesgotável de ideias. Um dos meus álbuns preferidos com a participação de Robert Wyatt nos vocais é o álbum Fictitious Sports (Harvest, 1981), primeiro e único álbum autoral do baterista Nick Mason (baterista do Pink Floyd), que traz Carla Bley como a compositora e arranjadora de todas as canções: um registro entusiasmante com uma mistura de texturas de rock progressivo com a instrumentação de uma compacta big band ao estilo irônico-satírico de Carla Bley, orgão, coral e outras idiossincrasias. Nos anos 80, 90 e 2000, Robert Wyatt atravessaria longos hiatos entre um trabalho autoral e outro, mas manteria uma intensa lista de colaborações interdisciplinares: de Brian Eno à Ryuichi Sakamoto, de David Gilmour à Björk. Não faz muito tempo, a guitarrista de jazz Mary Halvorson -- uma das instrumentistas e improvisadoras mais inovadoras do jazz contemporâneo -- convidou Robert Wyatt para estar presente no segundo álbum do seu projeto Code Girl, um gesto que explicita a grande admiração que ela tem pelo ex-Soft Machine. Mary Halvorson explica que a influência de Wyatt sobre sua música é bem presente: "I’m starting with Robert Wyatt because his influence probably runs deepest. He is a true individual and innovator and I’ve spent years with many of his albums on repeat listen".


Kraftwerk: os pais da música eletrônica, o sinth-pop revisitado com quarteto de cordas

Considerado o criador do sinth-pop, estilo que deu origem à música eletrônica pop, o Kraftwerk é um grupo alemão que tem origem na banda experimental de krautrock chamada Organization de 1969. Formada pelos músicos Florian Schneider (flautas, sintetizadores, violino elétrico), Ralf Hütter (orgãos, sintetizadores) e seus músicos convidados, ela recebeu a adição de mais dois integrantes fixos em meados dos anos 70 antes de mudar o nome para Kraftwerk: Karl Bartos e Wolfgang Flür. Mesmo que a música eletrônica ainda não existisse como um gênero sedimentado, o Kraftwetk já era um grupo muito à frente do seu tempo, sendo essencialmente um grupo de música eletrônica desde seus primórdios e um dos principais precursores e pioneiros da música eletrônica pop, tendo adquirido uma influência de tal tamanho que sua música acabou se tornando não apenas cult, mas também material de pesquisa e influência para várias gêneros e gerações -- aliás, o grupo pode ser considerado tão influente para a cultura pop quanto Beatles e Michael Jackson, considerando os devidos gêneros e as devidas proporções. Inicialmente atrelado ao citado movimento experimental alemão chamado de krautrok, pouco a pouco o grupo caminha para uma tendência mais pop, sem deixar, contudo, sua veia experimental. Muito influenciado em sua época pela música eletrônica erudita de Stockhausen tanto quanto pelo precursor pop-rock experimental da banda Beach Boys (precursora no uso de orgãos, da psicodelia, do theremin e de técnicas avançadas de estúdio), o Kraftwerk é um dos principais precursores e pioneiros no uso dos vocoders, dos sintetizadores portáteis, dos orgãos Farfisa, dos teclados eletrônicos, da bateria eletrônica, dos samplers, bem como do uso de técnicas avançadas de estúdio, de overdubs e de softwares de computador já em seus primórdios. Sua estética mescla pop, música minimalista e o aspecto mais rústico e experimental do krautrock, por vezes com canções onde usa-se minimamente a voz quase sempre por meio de vocoders, instrumento que decodifica a voz em timbres eletrônicos e cria efeitos vocais robotizados. Difícil citar apenas um álbum do grupo como sendo "o grande álbum", quando na verdade quase todos seus álbuns dos anos 70 e início dos anos 80 são precursores revolucionários e apresentam, subsequentemente, evoluções e inovações sonoras que colocaram o grupo à frente de seu tempo. As conexões do Kraftwerk com outros gêneros da música -- jazz, erudito, hip hop, eletrônica, música pop e etc -- são muitas, pois é praticamente a banda que iniciou a música eletrônica como um gênero e popularizou e elaboração dos timbres eletrônicos não como meros efeitos aditivos, mas como uma forma nova de se fazer música: do rapper Afrika Bambaataa ao DJ Aphex Twin, da cantora Björk ao Balanescu Quartet, há uma legião de músicos, compositores e bandas que citam o Kraftwerk com uma influência. O violinista Alexander Balanescu considera o Kraftwerk como sendo compositores eletrônicos tão importantes como Luciano Berio ou Karlheinz Stockhausen: o violinista reitera que a música do grupo alemão consegue ser simples e ao mesmo tempo revolucionária, além de ser precursora da reflexão inteligente por meio do fato da sua música abordar as temáticas de uma sociedade totalmente imergida em tecnologia. Em 1992, o Balanescu Quartet lançou o álbum Possessed (Universal Music) com leituras de temas de Alexander Balanescu, releitura do tema Hanging Upside-Down de David Byrne, mais cinco releituras de temas clássicos do grupo de Dusseldorf: "The Robots", "The Model", "Computer Love", "Pocket Calculator" e "Autobahn".


Yoko Ono: John Lennon, Ornette Coleman, happenings, vocais experimentais, no wave, new wave, pop, improvisação livre...tudo junto e misturado.
Acusada de separar os Beatles ao conquistar o coração (e a música) de John Lennon, Yoko Ono é outra das figuras populares do século 20 e das últimas décadas que desde sempre esteve conectada com a arte de vanguarda, músicos de jazz, livre improvisação e afins. Artista multifacetada -- artista plástica, criadora de happenings, performances e instalações conceituais, sendo ela mesma um ícone do movimento Fluxus entre a passagem dos anos 60 para os anos 70 --, em 1969 Yoko Ono e John Lennon fundaram a banda Plastic Ono Band, que além de recrutar os amigos ex-Beatles George Harrison (guitarra elétrica) e Ringo Starr (bateria), também contou com vários roqueiros de outras bandas tais como Eric Clapton (do Cream) e Keith Moon (do The Who) e outros, além de contar com vários músicos de jazz. Yoko Ono, aliás, mantinha uma certa admiração pela música de Ornette Coleman, com quem chegou a, inclusive, manter uma breve conexão. Já no primeiro álbum, Yoko Ono/Plastic Ono Band (Apple, 1970), ela encaixa uma faixa chamada "AOS" gravada com Ornette e membros do seu quarteto -- Don Cherry não participa, mas Charlie Haden, Ed Blackwell e David Izenzon participam -- onde , curiosamente, Ornette toca trompete e se apresenta com um quarteto com bateria e dois contrabaixistas: a faixa foi gravada em 1968, no palco do Royal Albert, onde Ornette e seu quarteto se apresentavam e, entre um take e outro, o saxofonista-trompetista convida Yoko para uma performance com sua banda. 



É preciso notar, também, que já nos primeiros álbuns da Plastic Ono Band, John Lennon e Yoko Ono adotaram uma inédita e emblemática sinergia entre o pop e o avant-garde ao dividir as abordagens da banda entre canções com poesias reflexivas e pacifistas e as performances vocais e instrumentais mais experimentais: o primeiro álbum Yoko Ono/Plastic Ono Band (Apple, 1970) e o segundo Fly (Apple, 1971) já evidenciam uma série de abordagens experimentais nos vocais de Yoko e uma série de experimentações instrumentais os quais já se alinhavam com as gêneses do punk que estava a surgir e já abria as fendas por onde surgiriam, mais tarde, as abordagens do cenário no wave -- com Lydia Lunch de um lado, e John Zorn de outro. Mas Yoko Ono variou bastante: ela sempre esteve inquieta e preparada para transitar sinuosamente entre o pop e o avant-garde. Num dos álbuns seguintes, Feeling the Space (Apple, 1973), Yoko Ono deixa de lado os vocais experimentais para atuar numa abordagem palatável mais ao estilo do pop-rock setentista, mas dessa vez adota ideias implícitas da world music e recheia sua Plastic Ono Band com músicos de jazz tais como o pianista Ken Ascher, o saxofonista Michael Brecker, o vibrafonista David Friedman e o flautista Jeremy Steig -- todos ligados à nova tendência do fusion/jazz-rock. Os cinco primeiros álbuns da Plastic Ono Band trazem, então, esse roteiro de coexistência com pop-rock, free jazz, fusion, jazz-rock, world music e o avant-garde proveniente do movimento Fluxus. A Plastic Ono Band encerra suas atividades em 1974 e após o assassinado de Lennon, em 1980, Yoko Ono praticamente encerra suas abordagens musicais mais radicais, se aproximando das estéticas mais palatáveis da new wave e do pop oitentista -- ainda que, lógico, com abordagens sempre muito irreverentes e criativas.

         
Em 2009, Yoko Ono e seu filho Sean Lennon -- filho de John Lennon, na época com 34 anos -- retomam a Plastic Ono Band justamente com um registro repleto de improvisações próximo à abordagens da livre improvisação contemporânea casada com efeitos eletrônicos: o álbum Between My Head and the Sky (Chimera Music) contava com músicos de jazz americanos e improvisadores japoneses tais como Erik Friedlander (cello), Michael Leonhart (trompete, vibrafone, percussão), Daniel Carter (saxofones, flauta), Yuka Honda (eletrônica, piano, orgão, percussão, objetos) Keigo Oyamada (tenori-on, guitarra, contrabaixo, laptop etc), entre outros. O álbum seguinte Take Me to the Land of Hell (Chimera Music, 2013) amplia ainda mais as abordagens da versão 2.0 da Plastic Ono Band com uma instrumentação mais volumosa e densa, tendo a participação de músicos de jazz, improvisadores livres japoneses, mas também de vários músicos de outros gêneros como o guitarrista e pop singer Lenny Kravitz, o rapper e baterista Questlove (do The Roots) e o guitarrista Nels Cline (do Wilco).


Laurie Anderson: de Jules Massenet á eletrônica, da performance ao pop experimental
Artista seminal nas artes de vanguarda nos anos 70, 80, 90 e 2000, Laurie Anderson começou a carreira unindo performances com música no espaço artístico conhecido como The Kitchen, em Nova Iorque. Nos anos 70 uma das suas obras mais comentadas, entre tantas outras, foi a performance Duets on Ice, onde ela toca uma peça musical em seu violino ao mesmo tempo em que esquia no gelo. Pioneira da eletrônica junto à sua colega Pauline Oliveros, fusionista da art pop mais colorida com as mais estranhas experimentações, performer de performances várias, inventora de instrumentos -- tendo projetado um violino cujo arco usa fita magnética, ao invés de crina de cavalo, e um vocoder específico para suas abordagens vocais eletrônicas, entre outros --, Laurie Anderson criou uma obra tão única quanto incomparável. Com o lançamento do single experimental "O Superman" em 1981, Laurie Anderson alcançou o sucesso para além do universo das artes performáticas e alcançou definitivamente o mundo pop. A história é interessante. Em 1979, Laurie Anderson decide transformar em música sua indignação com os EUA em uma fracassada tentativa de resgatar os reféns da invasão que estudantes iranianos fizeram à embaixada americana em Teerã: "In 1979, Iranian students stormed the US embassy in Tehran. America went blazing in with helicopters to get the hostages out. But it backfired majorly. A helicopter and a plane crashed in the desert. We were left with dead bodies, a pile of burning debris and the hostages nowhere to be seen. So I thought I’d write a song about all that and the failure of technology." Inspirando-se na ária "Ô Souverain, ô juge, ô père" (O Sovereign, O Judge, O Father) da ópera Le Cid (1885) do compositor francês Jules Massenet, Laurie Anderson compõe então uma canção experimental "O Superman" com uma poética repleta de ironia crítica: a canção foi composta a partir de um loop feito em um harmonizador e com o uso de um vocoder bem específico para se encaixar em seu conceito irônico de tecnologia. Laurie Anderson foi convencida por seus amigos na época de encomendar uma prensagem limitada de 1.000 cópias, as quais ela começou a enviar uma a uma por correio para as pessoas que a encomendava. Não demoraria muito para aquele tipo de canção inusual chamar atenção. De repente, o DJ britânico John Peel começou a tocar "O Superman" em seu programa de rádio, alcançando a segunda posição de mais tocadas nas paradas inglesas. Uma distribuidora britânica pediu 80.000 cópias, mas logo a Warner Brothers cobriu a oferta e assinou um contrato com Laurie Anderson que rendeu oito seminais álbuns com esse pop mais experimental.
 
 

Embora Laurie Anderson alcançasse fama nessa sua nova fase mais pop, ela nunca se afastou das performances mais experimentais e eletrônicas, sempre aliando seu avant-pop para amostragens futuristas e exóticas. Seus álbuns são um misto de poemas falados, partes cantadas -- com letras muito influenciadas pela poesia do seu amigo William S. Burroughs --, vocalises exóticos, temas eletrônicos, as roupagens sintéticas do pop e instrumentações variadas, tendo a colaboração de diversos músicos do jazz e do avant-garde tais como o contrabaixista e produtor Bill Laswell, Arto Lindsay, Mark Dresser, Cyro Baptista, entre muitos outros. Laurie Anderson também participou do álbum Songs From Liquid Days (CBS, 1986) de Philip Glass, que na época tinha conseguido atingir um público mais pop através das suas trilhas sonoras. Violinista -- com predileção por seu distinto violino eletrônico -- e afeita às explorações de teclados e sintetizadores vários, Laurie Anderson tem conexões bem interessantes fora do seu habitat natural de pop vanguardista: vide o álbum de improvisação livre The Stone: Issue Three (Tzadik, 2008) com o guitarrista Lou Reed e o saxofonista John Zorn; vide o álbum Femina (Tzadik, 2020), onde ela participa como narradora num ciclo de composições de John Zorn; vide também o álbum Landfall (Nonesuch Records, 2018) com o Kronos Quartet.


Sonic Youth: um punk livremente improvisado, um free jazz livremente punk
Expoente do punk rock e do rock no wave ligado ao cenário da Downtown nova-iorquina, o Sonic Youth foi um exemplo perfeito de banda que não ficou apenas no rock e transpassou os limites do experimental ao popular e vice-versa. No blog do jornalista Fabrício Vieira há uma completa exposição das conexões do Sonic Youth nos meandros do free jazz e outras abordagens ligadas ao avant-garde. "O Sonic Youth foi uma das bandas de rock mais ligadas ao universo da free music. Nascido no underground nova-iorquino do início da década de 1980, em meio aos ventos da no wave, o Sonic Youth nunca deixou de lado suas raízes e referências iniciais vindas do cenário mais experimental, mesmo que tenha vivenciado momentos de maior apelo indie-pop em sua trajetória e alcançado certa fama com os discos "Goo" (1990) e "Dirty" (1992). O grupo (Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo e Steve Shelley), que esteve ativo durante cerca de três décadas – seu suspiro final se deu em novembro de 2011, curiosamente em um show no Brasil –, se aproximou de forma mais direta do universo do free impro mais para a metade da década de 1990, movimento que seria seguido por uma ampliação de suas experiências sonoras, apesar de suas obras-primas "Sister" (87) e "Daydream Nation" (88) já carregarem altas doses de ruidagem e improvisos." O jornalista ainda disseca dez registros onde o Sonic Youth e seus membros empreendem-se em parcerias com improvisações livres e abordagens mais experimentais. Clique aqui neste link para acessar o artigo.


Milton Nascimento: Wayne Shorter e Herbie Hancock "perdidos" nas esquinas melódico-harmônicas mineiras
A música de Milton -- e a revolução melódico-harmônica que a música mineira dos membros do Clube da Esquina proporcionaram à música brasileira -- é reconhecida no mundo todo como uma das belezas musicais do Brasil, sem mencionar suas letras que sempre foram um veículo de propagação de temas relacionados à amizade, paz e humanidade. Uma das conexões da música de Milton fora do território e do range da música brasileira, é a predileção que muitos músicos de jazz têm por sua música: isso já desde meados dos anos 70, quando Wayne Shorter lhe dedicou um disco inteiro, com direito aos seus vocalises distintos e a ter canções suas no repertório. Aliás, o fato das canções de Milton Nascimento se tornarem standards do jazz é quase uma informação de pleno conhecimento para todos que já conhecem um pouco do jazz. No entanto, deixar de salientar essa informação ou deixar de listá-lo nesta lista de 30 grandes nomes que transpuseram barreiras estéticas, seria omitir uma informação valiosa para nossos amigos-leitores leigos, do Brasil de outros países, que estão adentrando agora às escutas mais desafiadoras ou já ouviam jazz e música erudita, mas ainda não se aprofundaram nesta MPB mais criativa -- e é um crime que não estou disposto a cometer. Milton Nascimento é como Stevie Wonder: criou uma canção inflexionada onde as belezas melódica e harmônica abrem espaço para variadas interpretações e arranjos instrumentais -- tanto em termos do instrumental brasileiro, quanto em termos do jazz. Em termos do jazz, as canções de Milton mostraram uma sinergia sinestésica muito amalgamada com o fusion e o modal jazz de Wayne Shorter: vide, por exemplo, o álbum Native Dancer (Columbia, 1975).
 
 

Posteriormente, seria a vez de Milton Nascimento convidar Wayne Shorter e Herbie Hancock para participarem de um disco seu: o que aconteceu no álbum Milton (1976), onde os dois super músicos americanos participaram como sidemans da sua banda. Essas conexões de Milton com Shorter e Hancock se tornaram amizades e parcerias duradouras. Depois desses encontros nos anos 70, várias participações de ambos -- as vezes juntos, outras vezes separados -- ocorreram, vide os álbuns A Barca dos Amantes (com Wayne Shorter, em 1986), Yauaretê (com Shorter e Hancock, em 1987), Milton with Herbie Hancock (1989), Angelus (com Shorter, Hancock e Jon Anderson, em 1993) e Under Tokyo Skies (com Herbie Hancock, em 2010). Interessante notar nesses álbuns juntos com Shorter e Hancock como que muitas das vezes Milton nascimento deixa de lado o canto e dá uma tratativa instrumental para sua voz um tanto única, com vocalises que se fundem perfeitamente aos improvisos inebriantes dos dois jazzistas americanos e aos arranjos das bandas de apoio sempre recheadas com os maiores instrumentistas brasileiros e internacionais. Milton Nascimento é brasileiro, mas também é um patrimônio da humanidade!


Tom Zé: o sertanista dadaísta, o tropicalista dissidente, o popular vanguardista, o cancionista concreto
Um dos ícones da música popular brasileira, Tom Zé é figura chave do movimento da Tropicália, que no fim dos anos 60 representou a radicalização da canção popular brasileira através do resgate de ideias do movimento antropofágico do início do século 20, da intersecção da canção com a poesia concreta, da transfiguração da pop art e do rock progressivo em roupagens brasileiras numa clara valorização das culturas regionais, e da inserção de elementos do avant-garde sessentista no meio dessa farofa toda. E de todos os sujeitos que foram centrais no movimento da Tropicália -- Gilberto Gil, Caetano Veloso, Capinam, Gal Costa, Os Mutantes, Torquato Neto e etc --, Tom Zé é considerado por muitos não apenas o mais original tropicalista, mas também o que mais deu sequência às aberturas e possibilidades que o tropicalismo proporcionou, apesar de ter posteriormente se afastado do círculo de tropicalistas para explorar suas próprias ideias. Dotado de uma excentricidade cômica e teatral, afeito à jogos onomatopeicos e à metáforas engraçadas e enigmáticas, ingredientes com quais aplica um aprofundamento da reflexão sobre a estética da canção e uma das críticas sócio-políticas mais inteligentes da MPB, Tom Zé atravessou as últimas seis décadas como uma das figuras populares mais inovadoras e emblemáticas do Brasil. É preciso lembrar, porém, que depois do emblemático álbum Estudando o Samba (Continental, 1976), Tom Zé vai perdendo pouco a pouco sua popularidade até ser quase que totalmente esquecido nos anos 80 -- o músico entra, inclusive, numa fase onde viver apenas da sua música, continuando a ser irreverente e sarcástico como era da sua natureza, já não era mais possível, cogitando voltar à Bahia para trabalhar como gerente num posto de gasolina de propriedade do seu sobrinho. Contudo, o destino estava prestes a salvar a carreira do irreverente filho de Irará. Em 1986, o músico e compositor David Byrne (fundador banda de rock-punk-new wave Talking Heads) visitou o Brasil para apresentar seu filme True Stories e por aqui descobriu o álbum Estudando o Samba (Continental, 1976), ficando completamente extasiado com a irreverência de Tom Zé, que dentre outras idiossincrasias usa nesse álbum uma instrumentação incomum com sons de liquidificadores, serras elétricas e máquinas de escrever para condimentar seus sambas -- era apenas uma das suas naturais inclinações ao avant-garde dadaísta. Ao voltar para os EUA, David Byrne liga para um dos seus únicos amigos que já havia vivido no Brasil para procurar saber quem era o autor daquele disco que tanto o intrigara: Arto Lindsay. Tendo vivido sua juventude em Garanhuns, Recife, antes de retornar aos EUA e figurar como um dos artistas centrais da nova vanguarda no wave, Arto Lindsay era um aficionado pelos álbuns dos tropicalistas e pôde ajudar David Byrne a entender quem era e como era Tom Zé.
Já com um projeto de criar sua própria gravadora, no final dos anos 80 David Byrne tenta contatar Tom Zé para uma retomada em solo americano. Os laços entre os dois são estreitados e, em 1990, David Byrne lança algumas canções do cantor brasileiro em uma compilação chamada Brazil Classics, Vol. 4: The Best of Tom Zé - Massive Hits, um dos primeiros lançamentos da sua recém fundada gravadora Luaka Bop, que curiosamente começou no gênero world music lançando compilações baseadas nas pesquisas etnomusicológicas que o ex-Talking Heads empreendeu através das suas viagens pelo mundo e pelo Brasil, desenvolvendo um grande fascínio pelos rítmos da música brasileira. As críticas foram positivas, ecoaram até aos veículos jornalísticos brasileiros e retomaram a notoriedade em torno do nome do tropicalista dissidente. Em 1992, a Luaka Bop lança um segundo álbum dedicado a Tom Zé: o elogiado álbum Brazil Classics, Vol. 5: The Hips of Tradition, esse já com originais e participação do próprio Byrne. Tom Zé retorna com força total aos shows no Brasil, mas é convidado ainda mais para shows os EUA e na Europa. No Brasil, um dos projetos que marca a retomada de Tom Zé nos meios artísticos mais intelectuais é o projeto musical que ele desenvolveu para um balé brasilianista do coreógrafo Rodrigo Pederneiras do Grupo Corpo: desenvolvido em parceria com José Miguel Wisnik, a trilha sonora do balé intitula-se Parabelo e foi lançada em 1997, com participações de Arnaldo Antunes, Paulo Tatit e Alê Siqueira em alguns arranjos e produções. Parabelo é um álbum que chama nossa atenção para o instrumental nordestino mais rústico, regional, caipira e sertanista, ao qual Tom Zé sempre foi ligado em suas inflexões dadaístas e sarcásticas em torno da canção. Outro álbum instrumental produzido por Tom Zé é o fantástico álbum independente Danç-Êh-Sá (2006), que traz seu conceito de pós-canção através das suas "sete caymianas para o fim da canção": neste, já temos uma verve tropicalista mais contemporânea com a exploração da eletrônica como um elemento formador da sonoridade, da voz como veículo das expressões onomatopeicas que tanto lembram suas associações com a poesia concreta, e uma instrumentação rica formada por músicos como Lauro Léllis (bateria), Jarbas Mariz (cavaco, violão de 12 cordas, voz), Cristina Carneiro (teclados, voz), Sérgio Caetano (guitarra, voz), Daniel Maia (baixo, voz), Luanda (voz) e Paulo Lepetit (eletrônicos, produção e mixagem). Já nos EUA, o nome de Tom Zé é frequentemente associado ao avant-garde e citado entre as predileções dos artistas contemporâneos mais célebres. Um registro dessa conexão é o EP Post Modern Platos (Luaka Bop, 1999), onde DJs, artistas e bandas como Amon Tobin, High Lhamas, Tortoise, Sean O'Hagan, John McIntire, Sean Ono Lenon e Sara Frere-Jones aplicam remixes e releituras sobre faixas do álbum Com Defeito de Fabricação (Luaka Bop, 1998), um dos registros que alcançaram sucesso de crítica na gravadora de David Byrne. O remix de Amon Tobin na faixa Defect 2: Curiosidade é o ponto alto, mas o Post Modern Platos não chega a ser uma amostragem tão irreverente quanto as próprias produções de Tom Zé, mas é válida enquanto homenagem e celebração -- ainda que de forma tímida.


Radiohead & Jonny Greenwood: de Brad Mehldau à Krzysztof Penderecki, um novo rock, um novo som
Já são manjadas -- ainda que nunca enjoativas -- as versões inovadoras que o pianista Brad Mehldau deu às canções "Exit Music", "Knives Out", "Everything in Its Right Place" e "Paranoid Android" do grupo de rock alternativo Radiohead em seus registros do final dos anos 90 e início dos anos 2000: vide os álbuns Songs: The Art of the Trio Volume Three (Warner, 1998), Anything Goes (Warner, 2002), Largo (2002) e Day Is Done (Nonesuh, 2005). Foi a partir de Brad Mehldau que as canções da banda adentraram ao jazz, e a partir daí as conexões da banda com outros mundos inteligentes externos ao pop-rock não pararam de acontecer. Reconhecida como uma das bandas mais influentes das últimas décadas, o Radiohead é dotado de uma criatividade ímpar na construção melódico-harmônica das suas canções, tendo criado diversas canções fora da estrutura convencional de compassos e com progressões de acordes até então inusuais na música pop, além de uma elaboração muito inteligente de efeitos de manipulação eletrônica -- sem mencionar o conteúdo poético das letras, que também sempre são muito elogiados pela crítica especializada. Ademais, a partir da sua trilogia de álbuns "Ok Computer - Kid A - Amnesiac", o Radiohead também reformula consistentemente o uso da guitarra como um aditivo timbrístico em combinação com a manipulação eletrônica que, além de partir da eletrônica pop contemporânea, muitas das vezes se inspira na eletroacústica erudita. Essa nova sonoridade contemporânea alcançada sob a combinação de um inexplicável timbre psicodélico-contemporâneo de guitarra com novos efeitos eletrônicos influenciaria, inclusive, músicos de jazz tais como o pianista Robert Glasper e o trompetista Christian Scott -- entre muitos outros --, que pegaram elementos dessa timbrística contemporânea e misturaram com as novas técnicas do hip hop de J Dilla e as novas repaginações harmônico-melódicas da neo-soul. O segredo para o Radiohead alcançar esse som se dá pela junção de ideias da dupla Thom Yorke e Jonny Greenwood: Thom Yorke um aficionado por música eletrônica e Jonny Greenwood um aficionado por música erudita moderna e contemporânea -- e ambos aficionados pelo jazz. Após o sucesso estrondoso nos meandros do rock alternativo, os membros do Radiohead começam a empreender projetos particulares. Jonny Greenwood, principalmente, daria vazão em sua carreira como compositor nos meandros da música erudita contemporânea, além de outros projetos.


Em 2012, o importantíssimo compositor erudito polonês Krzysztof Penderecki registrou em disco uma improvável parceria com Jonny Greenwood! Fã inveterado de música erudita moderna e compositor iniciante na seara da escrita erudita e das trilhas para cinema, Greenwood já havia participado de um concerto com Penderecki no festival polonês Sacrum Profanum em 2011, mas poucos poderiam prever que a parceria sairia em disco. Lançado pela gravadora Nonesuch, este álbum contém duas já célebres peças de Penderecki, que são Polymorphia e Threnody for the Victims of Hiroshima (essa composta em memória das vítimas da Bomba de Hiroshima), e duas inéditas de Greenwood, que são Popcorn Superhet Receiver (inspirada em Threnody) e 48 Responses to Polymorphia (48 miniaturas em resposta à Polymorphia original). Fazendo um link com um projeto anterior, alguns excertos de Popcorn Superhet Receiver, inclusive, foram tirados da trilha sonora que Greenwood havia composto para o filme "There Will Be Blood" (Sangue Negro, no Brasil), dirigido por Paul Thomas Anderson e estrelado por Daniel Day-Lewis. É um registro que soa interessante, pois além de conferirmos como que Penderecki sabe fazer uma orquestra de cordas -- violinos, violas, cellos e contrabaixos -- soar extremamente atonal, ruidosa e rica de efeitos cacofônicos e timbrísticos, também acabamos por conferir como Greenwood, um compositor advindo do pop-rock, reage à influência erudita de Penderecki. As peças são interpretadas pela orquestra de cordas Polish AUKSO Orchestra, sob regência do próprio Penderecki e do maestro Marek Mos. Outro registro interessante envolvendo o Radiohead fora do seu habitat natural é o álbum We Suck Young Blood - The Radiohead Songbook lançado pelo quarteto de cordas holandês Zapp4, um quarteto de cordas holandês especializados em repertórios ecléticos e releituras do pop e rock: da música búlgara ao jazz, de compositores de música erudita contemporânea como Gene Dinovi e Allan Gilliland à peças livres de improvisadores como o francês Ernst Reijseger, e por aí vai... É interessante reparar como que os arranjos do Zapp4 para o repertório do Radiohead são econômicos no sentido de expor as melodias das canções exatamente com as roupagens pop que elas têm, ao mesmo passo em que há uma compensação nas sobreposições e acompanhamentos que sutilmente evidenciam cores e sombreamentos mais eruditos. Em certo ponto, aliás, há até mesmo uma ousadia de configurar os inteligentes efeitos e climas eletrônicos já conhecidos nos álbuns da banda de rock em efeitos e climas camerísticos. Ademais, fica a dica do álbum Radiohead, A Jazz Symphony (Buzz, 2012) onde a orquestra holandesa Noordpool Orchestra -- uma espécie de ensemble, big band e orquestra eclética e independente com 42 músicos -- constrói uma espécie de suíte através de alguns dos principais temas do Radiohead.


DJ Premier & Mc Guru: jazz e hip hop, as duas faces do Brooklyn
No final dos anos 80, MC Guru e seu parceiro DJ Premier junto com o saxofonista Branford Marsalis representaram o marco inicial do movimento jazz-rap ou hip hop jazz. Ainda que diversos grupos de hip hop já vinham usando samples de jazz, o movimento toma força mesmo quando músicos de jazz começaram a se juntar a DJ's e MC's para improvisar sobre batidas de hip hop e para usar rap em seus temas -- e vice-versa. E isso começou no final dos anos 80 quando o cineasta Spike Lee convidou Mc Guru e DJ Premier, dupla do Gang Starr, para se juntarem ao trompetista Terence Blanchard e ao quarteto do saxofonista Branford Marsalis com o objetivo de gravarem a trilha sonora do filme Mo' Better Blues, filme estrelado por Denzel Washington e Wesley Snipes -- o filme na verdade procurava retratar o jazz e o hip hop como as duas faces culturais do Brooklyn dentro do seu enredo, pois de fato havia uma nova efervescência da cultura afro-americana com o renascimento do jazz acústico nos clubes de um lado, e o hip hop estourando nas grandes das rádios do outro lado. Confirmando o sucesso do filme, em 1991 a trilha sonora foi nomeada ao Grammy na categoria Soul Train Music Award for Best Jazz Album.
Não demoraria muito para outros músicos de jazz começassem a perceber que experimentar novas misturas com hip hop era a tendência da vez. Em 1991, Miles Davis se juntou ao rapper e produtor Easy Moo Bee e gravou o fantástico álbum Doo-Bop, que foi lançado após seu falecimento em 1992. A essa altura Branford Marsalis, um dos músicos de jazz precursores do novo movimento já estava formando seu projeto Buckshot LeFonque, talvez o grupo mais representativo do movimento nos anos 90. DJ Premier, por sua vez -- desde sempre considerado um dos maiores DJ's e produtores do hip hop já a partir do seus scratches, samples e amostragens dos tempos da dupla Gang Starr, formada com MC Guru --, já era um dos pioneiros do uso de samples de jazz em singles de hip hop. DJ Premier sampleou partes do standard "A Night In Tunisia" registrado com Charlie Parker e Miles Davis em seu single "Manifest", que aparece no álbum No More Mr. Nice Guy, de 1989; compôs com Branford Marsalis as faixas do disco compacto "Jazz Thing", as quais foram usadas como trilha do filme Mo' Better Blues; produziu o primeiro álbum do grupo Buckshot Lefonque, liderado por Branford Marsalis; e usou samples de Donald Byrd na faixa "N.Y. State of Mind" do álbum Illmatic (Columbia, 1994) do rapper Nas. Posteriormente, DJ Premier se tornaria um dos maiores produtores de pop, hip hop e neo-soul: vide, por exemplo, o álbum Voodoo (Virgin, 2000) do soul singer D'Angelo, entre outras produções realizadas para Christina Aguilera, Mos Def, Jay-Z, Common e uma infinidade de artistas, cantores e rappers.

Já MC Guru por, sua vez, produziria uma série histórica de lançamentos chamada Jazzmatazz que reuniria uma quantidade considerável de músicos de jazz, bandas, cantores de soul music, MC's e DJs nesta nova empreitada de misturar jazz e hip hop: em seus cinco discos lançados de 1993 até 2007, a série reuniu nomes legendários tais como DJ Premier, Freddie Hubbard, Bernard Purdie, Roy Ayers, N’Dea Davenport, Erykah Badu, J Dilla, Ronny Jordan, MC Sollaar, Lonnie Liston Smith, Brandford Marsalis, Courtney Pine, entre outros. Com esta série, MC Guru fomentou não apenas as experimentações das fusões de jazz com hip hop, como também influenciou uma legião de rappers, cantores, músicos de jazz, bandas de acid jazz e, principalmente, a nova geração do neo-soul encabeçada por J Dilla, Erykah Badu e os Soulquarians. A série também resgatou a importância de mestres legendários do jazz tais como Freddie Hubbard, Bernard Purdie, Roy Ayers e Donald Byrd. No caso de Donald Byrd esse resgate foi emblemático: nos anos 70, o trompetista lançou discos seminais da estética jazz-funk que se tornaram alguns dos vinis mais influentes para essa nova geração, e a partir dessa retomada nos anos 90, sua fase setentista forneceu alguns dos temas mais sampleados, remixados e influentes para a nova geração de rappers, DJ's, produtores de música eletrônica e músicos do movimento neo-soul. A série Jazzmatazz reúne, então, tanto o resgate dos mestres por meio de remixes com singles e standards de jazz mais célebres, como também evidencia novos temas com músicos de jazz da época em interações com DJs e MC's, além de samples (recortes, colagens, edições) de temas de vinis célebres do jazz em meio a scratches e batidas de hip hop, bem como interações de soul singers com músicos e DJ's numa nova postura de experimentar as misturas de jazz, soul e hip hop através das novas técnicas dos DJ's.


J Dilla: novos beats mergulhados em jazz, a sonoridade lo-fi do produtor de Detroit
Surgido da cena do hip hop underground de Detroit no início dos anos 90, o DJ e produtor J Dilla (também chamado Jay Dee) é considerado por muitos o maior inovador da geração neo-soul a emergir em meados dessa década -- pessoalmente, também coloco o DJ Premier ao lado de Jay Dee como os dois maiores inovadores do hip hop na passagem dos anos 90 para os anos 2000, mas talvez por ter falecido jovem no auge das suas criações e produções, a áurea do gênio que falece precocemente tenha amplificado ainda mais a sua produção. O curioso, aliás, é que J Dilla atravessou boa parte dos anos 90 de forma discreta, adotando a discrição mesmo quando, gradativamente, suas produções começaram a ser reconhecidas e requisitadas por dezenas de rappers, cantores de soul e artistas pop. Posteriormente, ele entraria para o círculo de cantores, DJs, produtores e músicos do hip hop e neo soul que formariam o coletivo Soulquarians, fonte de onde surgiu alguns dos mais inovadores álbuns de hip hop e neo-soul dos anos 2000. Quando falamos de J Dilla existe dois tipos de artista que compunha uma só alma criativa: a do rapper que criava suas próprias produções, para seus próprios álbuns autorais, que geralmente eram dotados de um aspecto mais lo-fi; e a do produtor responsável por dezenas de lançamentos inovadores de outros rappers e cantores. Em seus álbuns autorais, Dilla empreendeu-se como um dos inovadores do hip hop underground e do estilo lo-fi através de uma sonoridade mais independente, artesanal, produzida praticamente através da técnica manual, praticamente caseira, mas ao mesmo tempo orgânica, fresca, com atmosferas acolhedoras e com batidas cativantes que já fugiam daquele beat rígido e artificial com drum machine pré programado em batidas simples de electro-funk. Para fugir das batidas artificiais, J Dilla desenvolveu a curiosa faceta dele mesmo tocar manualmente sua bateria convencional para gravar os beats em um sampler Akai MPC, ou dele mesmo acompanhar o drum machine com uma bateria convencional em tempo real: assim, ele mesmo poderia ditar o ritmo ou posteriormente editar, acelerar, desacelerar, aplicar quebras de ritmos e novas sincopações, conferindo aos seus beats maiores variedades de breakbeats e melhores efeitos acústicos de pratos, caixas, bumbos e etc -- "ele humanizou o drum machine", é o que geralmente dizem os aficionados. Essa nova abordagem da bateria e essa nova variedade rítmica que se inicia no hip hop com J Dilla influenciaria, inclusive, os novos bateristas de jazz que tiveram acesso aos seus discos e às suas produções na época, entre eles Mark Guiliana e Eric Harland, e após a sua morte influenciaria bateristas mais jovens ligados às bandas do pianista e tecladista Robert Glasper e do trompetista Christian Scott.
Multi-instrumentista, pesquisador e colecionador diletante de discos de vinis, J Dilla foi baterista, tecladista e amante inveterado de coisas como o jazz, a tecnologia analógica, a produção independente e artesanal e a edição inteligente de samples diversos -- aliás, muito embora atuasse também com rimas, sua paixão mesmo era a edição de samples e a combinação de timbres, nuances e colagens. Seu álbum de estreia Welcome 2 Detroit (BBE, 2001) traz samples do trio brasileiro Azymuth, do ícone do samba-jazz Sergio Mendes e do trompetista Donald Byrd. Já seu álbum álbum Donut (Stones Throw, 2006) -- gravado pouco antes da sua morte, aos 32 anos, após complicações de uma doença conhecida como lúpus -- passou a ser considerado uma obra prima do hip hop instrumental com uma coleção de samples dos mais variados gêneros: do cantor gospel Kirk Franklin, do rap-rock dos Beastie Boys, do rock progressivo de Frank Zappa, da soul e disco music de grupos como Kool & The Gang e The Jackson 5, do comediante David Ossman, da banda de pop-rock inglesa Motherlode, além de muitos outros samples que incluem ícones do blues, soul, jazz e do próprio hip hop local de Detroit. Entre as dezenas produções que J Dilla realizou para outros artistas, incluem as produções de alguns dos álbuns mais afamados e inovadores do hip hop: entre eles Things Fall Apart (MCA) do The Roots, Amplified (Arista, 1999) de Q-Tip e Like Water For Chocolate (MCA, 2000) de Common. Além do sampler Akai MIDI MPC 3000 que se tornou célebre em suas mãos, J Dilla também tornou célebre o uso do sintetizador Minimoog Voyager, modelo que foi projetado pelo próprio Robert Moog exclusivamente para ele.


Madlib: a invasão à Blue Note Records e suas bandas de jazz imaginárias
O DJ, Mc, e produtor Madlib -- ao lado de DJ Premier e J Dilla -- é o maior fusionista do jazz nos meandros do hip hop. Aliás, talvez Madlib seja até mais fanático por jazz que seus compadres -- e o leitor entenderá o porquê. Já nos finais dos anos 90, Madlib grava com J Dilla aquele que é considerado um dos maiores registros da história do hip hop: o álbum Champion Sound (Stones Throw Records, 2000), onde os dois produtores expõem suas amostragens ricas de samples diversos à exaustão -- incluindo samples de jazz. Mas duas das suas conexões com o jazz que aqui quero indicar são: o projeto que a gravadora Blue Note requisitou à Madlib, para que ele criasse samples criativos fazendo uso do seu enorme catálogo de clássicos do jazz; e o seus projetos "instrumentais" em torno do Yesterdays New Quintet e das suas "formações" dentro do Yesterdays Universe. Em 2003, Madlib recebeu a oportunidade de "invadir" os arquivos de discos de vinis da gravadora Blue Note e escolher -- numa tarefa árdua de tempo e indecisão, imagino -- alguns álbuns para usar em no projeto que a gravadora propunha ao DJ: criar um álbum instrumental de hip hop elaborado inteiramente a partir de samples originais de jazz com álbuns exclusivamente do seu catálogo. Para a empreitada o DJ Madlib escolheu uma lista de mais de 12 álbuns de musicos tais como Gene Harris & The Three Sounds, Bobbi Humphrey, Donald Byrd, Ronnie Foster, Bobby Hutcherson, Horace Silver, Herbie Hancock e Wayne Shorter -- todos compreendidos entre o range do hard bop dos anos 50 ao jazz-funk setentista. O resultado pode ser conferido no aclamado álbum Shades Of Blue: Madlib Invades Blue Note (Blue Note, 2003). Nesse álbum, inclusive, Madlib já apresenta seu Yesterdays New Quintet, uma banda fictícia e virtual com ele mesmo tocando os cinco instrumentos -- ele criou a banda virtual, aliás, em 2001.
Com o sucesso do projeto em parceria com a Blue Note, Madlib expandiria suas amostragens com o Yesterdays New Quintet para criações autorais onde ele mesmo comporia os temas, fazendo as vezes do DJ, pianista, bateria, contrabaixista, trompetista e etc...mostrando uma trabalhosa, talentosa e engajada faceta de multi-instrumentista nos meandros do estilo hip hop jazz. Em 2001, Madlib já havia lançado o álbum Angles Without Edges pela gravadora Stones Throw. Essa faceta dá resultado em pelo menos mais nove álbuns com estas fusões de hip hop e jazz, todos editados pela gravadora Stones Throw Records. Para nomear suas bandas imaginárias, Madlib usa uma lista variadas de nomes de fazer inveja a Sun Ra e suas várias arkestras: Monk Hughes & The Outer Realm, Sound Directions e The Last Electro-Acoustic Space Jazz são alguns deles. Ao verificar as liner notes, verifica-se que Madlib nomeava-se a si mesmo com um nome diferente para cada instrumento que ele incluía: ou seja, nas linner notes de alguns álbuns há uma ficha técnica com nomes de cinco ou mais músicos fictícios diferentes, mas na verdade todos são ele mesmo. Entre álbuns-tributos e álbuns autorais estão inclusos: Stevie (2004), dedicado às canções de Stevie Wonder; A Tribute to Brother Weldon (2004) abordando a música de Weldon Irvine; e o impactante Yesterdays Universe (2007), onde Madlib reúne o maior número de músicos e de formações diferentes do seu universo fictício para criar seus originais hiper-inteligentes em meio à samples de Miles Davis, Edu Lobo, Luiz Eça e do repertório de álbuns da gravadora Strata-East Records, uma das primeiras gravadoras independentes fundada por músicos negros, atualmente reconhecida como um verdadeiro baú de preciosidades do post-bop e do jazz-funk dos anos 70. Madlib também é um dos DJ's fanáticos pela música brasileira, especialmente o aspecto lounge que os samples de bossa nova proporcionam e os grooves do trio Azymuth. Neste Link há até um guia disposto no site da gravadora Stones Throw para guiar os ouvintes nas viagens jazzísticas de Madlib e suas bandas imaginárias.


Aphex Twin: a conexão com Philip Glass e suas peças eletrônicas interpretadas por ensembles eruditos
Aphex Twin (aka Richard D. James) é considerado por muitos o maior DJ das últimas décadas. O DJ inglês é um dos pais e, talvez, o maior inovador do estilo IDM (Inteligence Dance Music), que consiste em elevar as batidas dançantes para o cúmulo da elaboração e complexidade. Sua inovação consiste em congregar em suas discotecagens amostragens singulares de tehcno, house, ambient e drum'n'bass em estruturas rítmicas inusuais, com efeitos inovadores, sincopações e quebras de ritmo complexas, o que confere à sua música um dos designs mais intricados da música eletrônica contemporânea -- e ainda assim, o DJ consegue a façanha de construir beats complexos e se tornar uma das figuras mais populares da eletrônica das últimas décadas. Tanto que sua música passou a chamar atenção de uma legião de artistas em todo mundo: de Madona à Philip Glass, de Radiohead a ensembles de música erudita contemporânea, a eletrônica de Aphex Twin seduziu a todos -- Madonna chegou, certa feita, a lhe implorar para que ele remixasse suas músicas. E aqui quero indicar um álbum que é o documento vivo de uma das intersecções mais espetaculares da música eletrônica com a música erudita. O álbum Acoustica: Alarm Will Sound Performs Aphex Twin (Cantaloup Music, 2005). Este álbum trata do encontro da interpretação cirúrgica do célebre ensemble Alarm Will Sound com a elaborada música eletrônica do DJ Aphex Twin. O ensemble americano Alarm Will Sound, composto por mais ou menos 20 músicos de alto padrão, é um grupo especializado em música erudita moderna e contemporânea ao qual os jornalistas e críticos de Nova Iorque costumam creditar o título de "um dos ensembles responsáveis pelo futuro da música clássica". E ao ouvir o álbum Acoustica: Alarm Will Sound plays Aphex Twin ficamos cada vez certos disso, tamanha a ousadia e o tino inovador do ensemble nova-iorquino que se pode presenciar nessa transcrição/ interpretação/ arranjo. Aqui os músicos do Alarm Will Sound se propõem à desafiadora tarefa de transcrever a música eletrônica dos inovadores álbuns Selected Ambient Works Volume II (Warp, 1994), Richard D. James Album (Warp) e Drukqs (Warp): o processo consiste em retrabalhar algumas das intricadas amostragens eletrônicas desses discos através de arranjos eruditos e acústicos que potencializam a transcendentalidade das amostragens eletrônicas, transformando-as em complexas peças eruditas. O trabalho chega a ser extasiante: batidas eletrônicas aos estilos techno e drill'n'bass (uma espécie de drum'n'bass de batidas mais polirítmicas e aceleradas, muitas vezes caóticas) recebem um revestimento acústico-timbrístico com uma orquestra de 20 membros que inclui vários metais, instrumentos de sopro e cordas, resultando em uma fusão impressionante de conceitos eletrônicos e música erudita contemporânea. O CD também conta com um bônus de remixes eletrônicos a cargo do próprio DJ inglês.
Influenciado por Kraftwerk, pelo tehcno e house do DJ americano Derrick May, por John Cage, por Stockhausen e pelo ambient music de Brian Eno, Aphex Twin chegou a ser convidado para ser colaborador do compositor Philip Glass e foi um dos influenciadores da famosa banda de rock Radiohead em sua nova direção musical no final dos anos 90, quando a banda rumou sua sonoridade mais para o centro das texturas da eletrônica elaborada. Aphex Twin é também conhecido por desenvolver ou modificar seus próprios sintetizadores, samplers e computadores em busca sempre de uma sonoridade original, o que lhe dá o prestígio de ser, talvez, o designer mais cerebral da eletrônica contemporânea em termos de elaboração sonora -- basta apenas reparar que já em seus registros dos anos 90 sua sonoridade já se mostra algo muito à frente da época. A conexão com Philip Glass está registrada na faixa remixada "Icct Hedral" do álbum ...I Care Because You Do (Warp, 1995) e que se repete no EP Donkey Rhubarb (Warp, 1995), onde o DJ aplica uma amostragem orquestral desse tema do compositor americano. Já em 2007, a London Sinfonietta lança um curioso álbum com algumas das suas faixas sendo transcritas para o ensemble: trata-se do álbum Warp Works & Twentieth Century Masters, onde suas peças eletrônicas são transcritas em meio a peças de compositores tais como John Cage, György Ligeti, Conlon Nancarrow, Steve Reich, Karlheinz Stockhausen e Edgard Varèse.


Squarepusher: o supercontrabaixista e o DJ, e seu drill'n'bass repleto de jazz contemporâneo
Squarepusher é o codinome do DJ, contrabaixista, multi-instrumentista e produtor Tom Jenkinson, um dos mais criativos músicos da eletrônica contemporânea e figura frequentemente listada como uma influência por músicos de jazz. Squarepusher é, inclusive, amigo de outro gênio da eletrônica: Aphex Twin (aka Richard D. James). Foi Aphex Twin quem lhe apresentou aos trabalhos eletroacústicos de compositores eruditos tais como Tod Dockstader e Stockhausen, influências nas quais Squarepusher se inspirou para misturar eletroacústica com elementos do jazz fusion e de estilos da eletrônica pop tais como IDM e drum'n'bass para alcançar resultados inovadores. Além dos compositores da eletroacústica erudita e da natural influência de Aphex Twin -- que lhe influenciou principalmente na forma de trabalhar com as sincopações e quebras e ritmo alucinantes --, Squarepusher carrega influências iniciais das produções de Carl Craig, um dos criativos DJ's do cenário de Detroit, berço da música eletrônica nos EUA. Sonoridades das trilhas sonoras de Lalo Schifrin, dos teclados de Herbie Hancock, do rock progressivo de Frank Zappa e do contrabaixo de Jaco Pastorius também são outras inspirações frequentes. Porém, seus primeiros trabalhos parecem focalizados mais na efervescência do drum'n'bass dançante: vide os registros Feed Me Weird Things (Warp Records, 1996), Hard Normal Daddy (Warp Records, 1997) e Burningn'n Tree (Warp Records, 1997). Gradativamente, contudo, seus efeitos vão se tornando mais intrincados e Squarepusher vai atualizando, pouco a pouco, seu arsenal de teclados, sintetizadores, samples e aparatos afins, e começa a produzir seus próprios efeitos e batidas, ao invés de só usar amostragens de vinis. O álbum Selection Sixteen (Warp Records, 1999) já mostra uma direção sem volta rumo a breakbeats inovadores e efeitos cada vez mais digitais, ainda que ele nunca abandone completamente os efeitos analógicos. Já seus álbuns do início dos anos 2000 -- como Go Plastic (Warp, 2001), por exemplo -- apresentam uma aproximação ainda mais latente da eletroacústica erudita, ainda que sem abandonar o drum'n'bass. Squarepusher só vai suavizar seus breakbeats alucinantes no álbum Do You Know Squarepusher, que traz uma sensibilidade mais instrumental e mais focada em efeitos mais "ambient music", seguido de algumas faixas gravadas ao vivo. Nos álbuns seguintes, Squarepusher volta ao IDM e ao drum'n'bass polirrímtico -- muitas das vezes também chamado de drill'n'bass --, mas dessa vez recheando cada vez mais suas produções com melodias marcantes, estruturas jazzísticas mais elaboradas, muitas das vezes com ele mesmo tocando instrumentos acústicos como a bateria e o contrabaixo -- e no contrabaixo, sempre muito alusivo a Jaco Pastorius, aliás. Sua abordagem instrumental consiste em arranjar e improvisar partes acústicas com instrumentos concenvionais por cima da eletrônica, ou gravando previamente os samples com instrumentos acústicos para manipulá-los posteriormente. O álbum Hello Everything (Warp Records, 2005) é bem alusivo à sua faceta de multi-instrumentista, além de trazer certa elasticidade mais pop.
Já o álbum Elektrac (2017) é bem mais afeito às atmosferas jazzísticas com amostras claras de instrumentos convencionais aliados à eletrônica: é onde o DJ empunha seu contrabaixo e convoca sua banda Shobaleader One para explorar as influências do jazz-fusion, tendo a companhia dos músicos Strobe Nazard (teclados), Company Laser (bateria) e Arg Nution (guitarra) -- curiosamente, além dos pseudônimos semelhantes a nomes de um filme ou livro de ficção científica, a banda costuma se vestir à caráter, com trajes um tanto futuristas. E assim, Squarepusher vai variando seu drill'n'bass cheio de cores, atmosferas, quebras de rítmos, nuances e efeitos: do jazz-fusion à eletroacústica, das batidas simples de funk ao breakbeats alucinantes, das amostragens mais ambient ao pop mais sintético... o fato é que, apesar dos tantos efeitos eletrônicos e dançantes, no conjunto da obra sua música soa orgânica, jazzy e contemporânea. Não é à toa que o baterista de jazz Mark Guiliana credita Squarepusher como uma das suas principais influências e o contrabaixista Flea o credita como um dos maiores contrabaixistas do mundo. Certa feita, em meados de 2007, o DJ empreendeu uma série de shows no Queen Elizabeth Hall na Inglaterra, e na Cité de la Musique em Paris: a ideia foi apresentar shows instrumentais com ele explorando suas amostragens frenéticas ao contrabaixo e recebendo diversos músicos convidados, e curiosamente um dos convidados foi o saxofonista de free jazz Evan Parker. Outra conexão interessante foi com o ensemble erudito London Sinfonietta: em 2003, as peças "Port Rhombus" e "The Tide", criadas por Squarepucher, foram transcritas e interpretadas pelo ensemble como parte do Ether Festival do South Bank. Posteriormente a London Sinfonietta o convidou para realizar uma turnê junto com a orquestra, e ainda escolheu uma das suas faixas para serem transcritas em arranjos no álbum Warp Works & Twentieth Century Masters.


Amon Tobin: a eletroacústica futurística do DJ brasileiro e seus efeitos eletrônicos com nuances cinematográficas 

 

A música do produtor brasileiro, naturalizado canadense, Amon Tobin é um dos exemplos maiores de criatividade na eletrônica contemporânea -- em níveis de importância e inovação, trata-se de um dos três ou cinco maiores DJ's e designers de som da eletrônica nas últimas décadas. Iniciando a carreira apaixonado pelos samples de jazz e música brasileira, o criativo DJ começou imerso nos estilos nu jazz, drum'n'bass, trip hop, breakbeat e IDM (Inteligence Dance Music): casos dos seus primeiros álbuns Adventures in Foam (Ninebar, 1996, sob o pseudônimo de Cujo), Bricolage (Ninja Tune, 1997), Permutation (Ninja Tune, 1998) e Supermodified (Ninja Tune, 2000). Porém, desde o começo, suas produções eletrônicas de estúdio foram marcadas mais pela riqueza de detalhes nos efeitos do que no objetivo de se apresentar como algo próximo à dance music. Aliás, aos poucos suas construções eletrônicas foram se distanciando das rítmicas do drum'n'bass e do breakbeat e se aproximando mais da eletroacústica futurista com foco numa interação mais imagética e audiovisual -- tanto que suas criações passaram a ser encomendadas para diversos filmes, trilhas sonoras de videogames e comerciais de marcas de carro, além dele próprio rumar para uma veia exploratória mais idiossincrática relacionada à sinestesia das suas peças eletrônicas com instalações audiovisuais conceituais, muitas das vezes com designs sonoros baseados em filmes de diretores conceituais, como David Lynch, Irmãos Coen e Roman Polanski. No álbum Foley Room (Ninja Tune, 2007), gravado na sala de efeitos Foley do reconhecidíssimo estúdio de games Ubisoft Montreal, no Canadá, Amon Tobin trabalha com o conceito de amostragem com antigos discos de vinil editados a partir dos recursos futuristas de uma das salas mais sofisticadas do mundo em termos de criação de efeitos para games e filmes, temperando essas amostragens com samples pré gravados pelo baterista Stefan Schneider, a harpista Sarah Pagé, o quarteto de cordas Kronos Quartet, e por sons que ele e sua equipe de assistentes coletaram nas ruas com microfones de alta sensibilidade: sons de tigres rugindo num zoológico, a gatos comendo ratos, vizinhos cantando no banho, formigas comendo grama, um enxame de vespas irritadas, entre outros sons que foram editados de uma forma criativamente futurista.

   

Nos álbuns seguintes, a partir de ISAM (Invented Sounds Applied to Music) (Ninja Tune, 2011), Amon Tobin abandona quase que completamente as amostragens com discos de vinis e passa a operar apenas com edições de laptop, interfaces eletrônicas MIDI e sintetizadores ainda mais futuristas, entre eles os sintetizadores da marca Buchla -- vide o álbum Electronic Music for the Sydney Opera House - Amon Tobin Plays Buchla For The Sails. O fato é que além do jazz e da música brasileira, Amon Tobin -- que usa vários pseudônimos em suas criações -- usa e abusa de procedimentos da eletroacústica erudita, dos efeitos eletrônicos para games e procedimentos de efeitos sonoros cinematográficos, mostrando inspirações advindas de compositores de trilhas sonoras tais como John Williams e Jerry Goldsmith, e da produção eletroacústica de compositores eruditos tais como o húngaro György Ligeti e o americano Morton Subotnick. Em 2012, Amon Tobin é convidado para participar do projeto "Rework: Philip Glass Remixed" do produtor Beck, onde algumas das seminais composições do compositor minimalista foram retrabalhadas com remixes eletrônicos.


Matmos: eletrificando o plástico, plastificando a eletrônica, sintetizando a percussão


 

Matmos é um duo de música eletrônica experimental formado pelos DJs e produtores M. C. Schmidt e Drew Daniel que surgiram em São Francisco e agora residem em Baltimore. Sempre abertos a sonoridades exóticas e contemporâneas, o duo é conhecido por sido um dos colaboradores da cantora pop islandesa Björk nos álbuns Vespertine (2001) e Medúlla (2004) -- o que já dá uma ideia do alto nível de criatividade da dupla. Além de serem especialistas em criar música eletrônica utilizando sons pré gravados de animais e da natureza, a dupla também faz uso de bricolagem, sucatas, aparelhos domésticos e sons urbanos, além de vários objetos e instrumentos de plástico para impor uma reflexão em torno das temáticas do consumismo, do meio ambiente e de como nos tornamos reféns ao uso do plástico, um material que tem se mostrado extremamente nocivo ao ecossistema. Iniciando a carreira em meados dos anos 90, a dupla aborda uma profusão de estilos e subgêneros dentro da música eletrônica: minimal, drum 'n bass, techno, glitch, ambient, IDM e etc. A dupla -- que, como quase todos conjuntos de música eletrônica criativa, recebe influências da música eletroacústica --, também é afeita à inserção de instrumentos acústicos e vozes em interação com seus aparelhos: vide o álbum A Chance to Cut Is a Chance to Cure (Matador Records, 2001), que traz ótimas interações com vocais e clarinete. O álbum The Civil War (Matador Records, 2003) também traz samples de uma instrumentação bem elaborada ao abordar sons de instrumentos tradicionais tais como hurdy-gurdy, banjo, tuba, flautas orientais, gaitas de foles e etc, abordando sons e texturas que os exércitos medievais e exércitos dos séculos 17, 18 e 19 usavam em suas marchas para guerras e conflitos civis -- trata-se de uma outra faceta do duo, que é ressignificar sons épicos em eletrônica contemporânea.

 

Já no álbum The Rose Has Teeth in the Mouth of a Beast, a dupla -- que na verdade são um casal -- cria um trabalho mais engajado na reflexão contra o sexismo e a homofobia e dedica uma faixa para cada um dos seus heróis gays ou lésbicas: são 10 faixas dedicadas a 10 personalidades que vão do filósofo Ludwig Wittgenstein ao poeta William S. Burroughs -- é um álbum que também procura extravasar em sua abordagem sonora, com sons pré gravados de um útero bovino sendo modulados em sons eletrônicos. Nesse álbum, aliás, há uma participação do quarteto de cordas Kronos Quartet na faixa "Solo Buttons for Joe Meek". O álbum seguinte, Supreme Balloon (Matador Records, 2006), é interessante porque o duo volta completamente à eletrônica analógica de algumas décadas atrás para manipular apenas sintetizadores clássicos dos anos 60, 70 e 80, manipulando exemplares vintages das marcas Arp, Korg, Roland, Waldorf e Moog. Já em 2010, o duo lança um trabalho ainda mais instrumental em parceria com o ensemble de percussão erudita contemporânea So Percussion: o álbum, intitulado Treasure State (Cantaloupe Music), tenta fazer uma conexão da criativa eletrônica do duo com a criativa paleta percussiva do So Percussion, atualizando a abordagem percussão + eletrônica que se tornou usual nos meandros do erudito moderno desde as abordagens experimentais de Cage, Xenákis e Stockhausen, em meados do século XX. Ademais, outro álbum super interessante é o Plastic Anniversary (Thrill Jockey, 2019), onde o duo produz uma eletrônica inexplicável utilizando apenas materiais derivados de plástico: garrafas e canudos para refrigerantes, pentes, bolas de sinuca, silicone para implante mamário, flautas de plástico, instrumentos de PVC, objetos domésticos e materiais de plásticos usados para percussão, dentre tantos outros.


Stereolab: space-age pop, futurismo retrô com eletrônica analógica, uma amálgama inclassificável

 

A banda francesa Stereolab é uma das mais criativas da história da música em termos de identidade e design sonoro. A amálgama musical do Stereolab é formada através da junção de diversos elementos e colagens de estilos e sub-estilos diversos tais como indie rock, post-rock, art- pop, avant-garde, música minimalista, bossa nova, jazz, krautrock, sinth pop, eletrônica, lounge e easy listenen dos anos 60, o que confere à banda uma das músicas mais inexplicavelmente inovadoras das últimas quatro décadas -- e tudo isso com um som coeso, coerente, consistente. Em seus primeiros registros, a banda ainda tinha uma aproximação roqueira mais crua com o sessentista krautrock alemão, mas aos poucos a banda passa a temperar seu molho com uma variedade cada vez maior de sintetizadores, fitas magnéticas, pianos elétricos, teclados e orgãos eletrônicos -- orgãos Vox, os pianos elétrico da Wurlitzer, os sintetizadores Moog, os orgãos Farfisa, harpsichords, clavinets, Rhodes, rocksichords, Hohner Pianet, celestas e etc -- e passa a criar uma amálgama que muitas das vezes é explicada como sendo uma combinação de uma sonoridade stereo um tanto lo-fi com uma espécie de space-age pop, com um design gráfico próximo à um futurismo retrô. Da mesma forma, uma certa evolução ocorre em relação à estrutura dos seus temas: com canções muitas das vezes com pouca letra e maior volume instrumental, gradativamente a banda vai deixando de atuar com aquele ritmo roqueiro próximo de um motorik em 4/4 e aos poucos adota compassos ímpares, canções angulares e tons melódicos e harmônicos inusuais que vão ganhando cores lisérgicas e sinestésicas. Registros com essas características são encontrados em todos os álbuns pós 1994: Mars Audiac Quintet (Duophonic, 1994), Emperor Tomato Ketchup (Duophonic/Elektra, 1996), Dots And Loops (Duophonic/Elektra, 1997), Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night (Duophonic/Elektra, 1999), Sound-Dust (Duophonic, 2001), Margerine Eclipse (Duophonic, 2004), Chemical Chords (Duophonic, 2008) e Not Music (Duophonic, 2010).

 

Esses álbuns de estúdio trazem, enfim, uma amálgama extraordinária através de alguns dos arranjos mais bem elaborados da história da música pop, consistindo em uma combinação de eletrônica analógica com uma instrumentação orgânica jazzística e erudita através do uso de saxofones, trombone, vocalises e backing vocals, overdubs, e colagens e arranjos instrumentais que incluem o uso de instrumentos reverberantes como o vibrafone, a marimba e arranjos de cordas (violino, viola e cello). Contudo, a banda sempre deixou evidente que a intenção nunca foi fazer tributo ou copiar suas influências: a sonoridade da banda é tão original e amalgamada, que as influências acabam por soar despercebidas ou, no máximo, implícitas. O álbum Dots And Loops é um exemplo interessante porque alia o aspecto da lounge music com nuances implícitas das linhas melódicas e harmônicas da bossa nova, estilo musical brasileiro do qual os membros da banda são fãs confessos, mas ainda assim as nuances brasileiras soam muito implícitas e amalgamadas. Outras inspirações e influências implícitas podem ser averiguadas nos títulos e nas capas dos álbuns. O título do álbum Emperor Tomato Ketchup foi inspirado no filme experimental de mesmo nome do diretor japonês Shūji Terayama, com a capa do álbum tirada de um LP de 1964 contendo uma gravação da Bamberg Symphony Orchestra interpretando o Concerto para Orquestra de Béla Bartok. O título da compilação Switched On foi tirado do LP Switched-On Bach de 1968, onde a compositora Wendy Carlos interpreta de forma inédita algumas peças de Johann Sebastian Bach com alguns dos primeiros sintetizadores dos anos 60. Os álbuns Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night e Sound-Dust trazem uma certa influência do post-rock de Chicago com a participação do produtor John McEntire (ligado ao Tortoise) e do guitarrista, produtor e improvisador Jim O'Rourke. Já nos três últimos álbum, banda retorna à França e chegam perto de uma eletrônica mais pop, mas ainda assim cativante, sem perder a identidade.


Björk: a exótica cantora islandesa que começou cantando jazz, os músicos de jazz que veneram a cantora islandesa
A música da cantora islandesa Björk Guðmundsdóttir, ou simplesmente Björk, é uma paleta ampla de cores harmônicas exóticas, nuances que mesclam a música gótica nórdica com atmosferas futurísticas, linhas melódicas angulares e efeitos instrumentais e eletrônicos que beiram o cúmulo da criatividade -- uma amálgama só dela, um estilo inclassificável! Aliás, a explicação para a enorme abrangência e o senso de criatividade e improvisação da cantora -- sem mencionar, a princípio, aspectos singulares e idiossincráticos da sua própria alma criativa -- advém do fato dela ter percorrido uma trajetória que começou no folk islandês, passou pelo jazz e embarcou no rock alternativo numa era em que a música eletrônica já começava a dominar não apenas o universo pop, mas todos os outros estilos musicais ao redor do mundo. As primeiras gravações com seu nome foram ambientadas em canções ligadas ao folclore islandês, incluindo um álbum de jazz com ela cantando uma sequência de standards e antigas canções islandesas, sendo acompanhada por piano-trio convencional: vide o álbum Gling-Gló (1990), com o Tríó Guðmundar Ingólfssonar -- nesta fase, aliás, já se percebe as entonações vocais nada convencionais da artista. Após esta fase introdutória, Björk entra para a banda islandesa de rock alternativo The Sugarcubes, que ganhou considerável sucesso internacional, alçando o nome da cantora para além dos limites nórdicos. Em 1993, tendo se desligado do The Sugarcubes, a cantora junta-se ao produtor Nellee Hooper e ao compositor e programador de estúdio Marius de Vries para produzir seu álbum de estreia enquanto artista solo internacional: nascia o incrível álbum Debut, que marca o surgimento da sua própria identidade marcada pelo uso de melodias pop angulares e por uma produção exótica de teclados e sintetizadores, e que se tornou o seu mais vendido álbum até os dias de hoje.

 

A partir de Debut, os lançamentos de Björk foram se tornando cada vez mais experimentais e amalgamados com misturas instrumentais e estéticas diversas, bem como cada vez mais dotados de temáticas conceituais e poéticas que abrangiam desde a concepção musical até o figurino exótico da cantora e as artes das capas dos álbuns. Essa criatividade de cores e figurinos futuristas não moldava apenas o design estético dos álbuns, mas principalmente o exótico design sonoro da sua música, chamando a atenção dos músicos de jazz, gênero com o qual Björk flertou no início da carreira. Um dos exemplos de como a cantora é venerada no jazz, por exemplo, é o fato do saxofonista americano Travis Sullivan ter formado, em 2004, a Bjorkestra, um big band de 18 músicos ambientada exclusivamente em dar arranjos jazzísticos para as singulares canções da pop singer islandesa. Para o projeto, Travis Sullivan convidou músicos de jazz que já tinham adquirido esta sensibilidade eclética de transitar do pop ao jazz ao participar de shows e gravações com artistas e grupos como Arcade Fire, Dr. Dre, Charlie Hunter, The Spam All Stars, Maria Schneider e Saturday Night Live Band (a banda do canal NBC). Convidados especiais da Bjorkestra incluem importantes improvisadores do jazz como o saxofonista Donny McCaslin e o guitarrista Kurt Rosenwinkel. Ademais, para interpretar as canções de Björk, a Bjorkestra conta com a cantora Becca Stevens, que em sua carreira solo transita versatilmente entre a estéticas do jazz, chamber-pop, indie-rock e folk music. Registros oficiais da Bjorkestra incluem dois álbuns: Enjoy! (Koch, 2008) e I Go Humble (Zoho, 2013).


Mike Patton: de Luciano Berio ao noisecore, as abordagens mais experimentais da voz
Mike Patton é um dos vocalistas mais completos no range que vai do falsete às vocalizações contemporâneas, experimentais e guturais. Sendo vocalista de bandas de rock tais como Faith No More, Mr. Bungle, Tomahawk e Fantômas -- atuando com estas num range que vai do post-punk ao death metal, passando por associações experimentais com o grind, o noisecore e a livre improvisação --, Mike Patton desenvolveu-se de forma multifacetada para que sua voz alcançasse o mais longe que ele conseguisse e a maior quantidade de abordagens possíveis dentro do rock experimental e do avant-garde contemporâneo, desenvolvendo-se também como um produtivo colaborador de artistas e bandas diversas. Curiosamente, Patton já colaborou com sua voz para projetos, gravações e shows de Sepultura, Björk, Tin Hat Trio, Dan the Automator, Kool Keith, The X-Ecutioners, Team Sleep, Amon Tobin, entre muitos outros. Conforme já abordamos aqui no blog, uma conexão que enriqueceu ainda mais o alcance da arte vocal de Mike Patton foi sua amizade e seus projetos com o saxofonista e compositor John Zorn, com o qual desenvolveu trabalhos seminais de livres improvisações vocais com eletrônica e instrumentos acústicos -- isso sempre numa abordagem vanguardista que vai da arte do ruído à livre improvisação. Frequentemente, Mike Patton também explora as faces vocais mais vanguardistas do universo erudito: em 2010, ele empreendeu uma curiosa releitura da peça Laborintus II do compositor italiano Luciano Bério através de uma produção independente com a orquestra belga Ictus Ensemble e o grupo holandês de vozes Nederlands Kamerkoor, registro também já abordado aqui no blog. A discografia de Mike Patton é muito diversificada e teríamos um desafio considerável para dissecá-la e indicar todas suas conexões. Contudo, uma associação de Mike Patton que aqui quero indicar -- entre outras que já indiquei em post anteriores -- é sua parceria em dois álbuns com compositor australiano Anthony Pateras: vide os álbuns Geocidal (Ipecap Recordings, 2014) com peças para vozes e várias formações instrumentais compactas ou em formato large ensemble, e Necroscape (Ipecap Recordings, 2020), com uma formação mais compacta de quarteto com o próprio Anthony Pateras nos eletrônicos e sintetizadores, Will Guthrie na bateria e percussão e Erkki Veltheim no violino e mandolim. Em ambos os álbuns os aspectos do miticismo gótico medieval encontra com o avant-garde e a eletrônica contemporânea numa profusão eclética de ingredientes diversos que é impossível de ser categorizada.


Son Lux: eletrônica contemporânea, pop pós-minimalista e as conexões com o ensemble yMusic

 

Son Lux é uma banda experimental que mistura elementos pop, música eletrônica e influências do post-rock parar criar um dos mais elaborados designs sonoros da contemporaneidade. Iniciada em 2008 através dos trabalhos do tecladista Ryan Lott -- que já usava o codinome Son Lux na época --, em 2015 o guitarrista Rafiq Bhatia (de descendência indiana) e o baterista Ian Chang (de descendência chinesa) se junta à Ryan Lott e o projeto Son Lux se efetiva definitivamente como um trio. Além de um design sonoro que se configura como um diamante híbrido de música eletrônica pós-minimalista com pop e post-rock, a Son Lux frequentemente usa conjuntos de câmera em seus arranjos, sendo um tanto influenciada pela música erudita contemporânea independente ao estilo do aclamado sexteto nova-iorquino yMusic, para o qual os membros da banda frequentemente compõe. E todos os três membros têm mostrado trabalhos composicionais interessantes. Em 2017 o yMusic lançou o álbum First (Communal Table, 2017), com 11 faixas compostas por Ryan Lott -- registro que é o retrato vivo de uma música erudita mais indie, pós-minimalista e contemporânea que está em voga no cenário de nova-iorquino nestes últimos anos. Já o guitarrista Rafiq Bhatia tem uma interessante aproximação com músicos de jazz, tendo em seu currículo colaborações com Dave Douglas, Marcus Gilmore, Billy Hart e Vijay Iyer, além de ter participado de gravações com alguns dos mais importantes conjuntos de câmera da atualidade tais como International Contemporary Ensemble, JACK Quartet e Alarm Will Sound. O baterista Ian Chang, por sua vez, lança seu primeiro álbum, 属 Belonging (City Slang, 2020), baseado em influências tais como Bjork, Burial e Flying Lotus, explorando os mais variados efeitos rítmicos da eletrônica contemporânea -- um dos registros mais exploratórios dos últimos anos em termos de eletrônica. Dos artistas e bandas aqui apresentados, os trabalhos da Son Lux e seus membros são os mais recentes: uma oportunidade para o leitor se inteirar do que há de mais novo sendo criado em termos desses hibridismos entre o pop, a música eletrônica contemporânea e a música erudita atual.