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Top 15 Violin Concertos: Penderecki, Schnittke, John Adams, Magnus Lindberg, Wynton Marsalis, Philip Glass e etc

Após escrever um post sobre as explorações das cordas no universo do jazz e da música improvisada, me senti inspirado para um continuum dedicado ao universo concertante do violino. Aqui falo sobre alguns dos meus preferidos concertos para violino partindo da segunda metade do século XX até agora, nesse início do século XXI, abordando diferentes compositores, diferentes intérpretes e diferentes estéticas dentro da música de concerto neste período de 70 anos que compreende, de certo modo, a passagem da música moderna para a música pós-moderna. Aqui, no âmbito dos concertos para violino, teremos  obras que vão dos ecos passadistas da música atonal de Penderecki ao minimalismo de Philip Glass, passando pelo poliestilismo de Alfred Schnittke e aportando-se na nova consonância de Magnus Lindberg e no ecletismo americano de Wynton Marsalis. Em termos de escolas, o violino é um instrumento oriundo da música clássica secular que, pode-se dizer, traz um legado milenar de técnicas, praticabilidades e abordagens, tendo se transformado num dos instrumentos de tecnicidade mais vasta e complicada da história da música -- se não for, salvo engano, a mais vasta e mais complicada. Sendo assim, nem é preciso explanar muito sobre o fato de que o violino é, didaticamente falando, como o xadrez: para um compositor escrever um concerto para violino com a intenção de apresentar uma peça poderosa e relevante em termos técnicos, ele precisará praticar uma ardilosa pesquisa de campo para viajar na história e conhecer as inúmeras técnicas e os efeitos mágicos que o violino esconde por detrás de séculos de estudos -- geralmente, um compositor que não é violinista e tem a pretensão de escrever um concerto para violino, ele precisará da tutoria de um grande mestre do instrumento, nos mesmos moldes da famosa parceria que Brahms empreendeu com o violinista Joseph Joachim, que lhe deu dicas valiosas para seu Concerto em Ré Maior, Opus 77, uma das obras-primas máximas do repertório violinístico. Ademais, concertos para violino são interessantes porque eles unem, geralmente, o poder da técnica rebuscada com a sensibilidade melódica, eles unem a melodiosidade e as entonações sentimentais mais emocionantes  com a capacidade que o violino tem de apresentar uma sonoridade poderosa, densa, cheia de abstrações, espasmos e fraseados surpreendentes -- é um instrumento delicado e pequeno, mas que costuma nos assustar pela sua potência sonora e expressiva. Neste post, eu faço uma amostragem de concertos apenas de compositores pós-modernos porque eles apresentam abordagens mais idiossincráticas, geralmente misturando, mesclando e contracenando adereços da tradição com aspectos da modernidade, sem deixar de explicitar suas individualidades, preferências e abstrações: como Penderecki, por exemplo, que foi um especialistas em criar efeitos atonais e dissonantes com as cordas; ou como Philip Glass, por exemplo, que sai muito fora da curva ao inserir o violino em seu jogo de efeitos minimalistas; e como Wynton Marsalis que traz ecos implícitos do fiddle, do jazz e do blues para sua peça violinística. No reino erudito, enfim, o violino é o rei dos instrumentos. Assim como, em termos da música em geral, concertos para violino estão entre as peças mais poderosas e mais auditivamente arrebatadoras. Clique nos álbuns e ouça!

O Concerto para Violino No. 1, do compositor polonês Krzysztof Penderecki -- falecido aos 87 anos em 29 de Março de 2020, vítima da Covid-19 --, é uma obra que demonstra que o compositor já aderira a um certo tipo de consciência de que o radicalismo da primeira metade do século 20 havia chegado em sua fase de saturação, e que na altura dos anos 70 -- uma vez que a música já havia beirado o inaudível -- ser radical dentro da música erudita seria trazer ecos do passado para o futuro. Em suas obras das décadas de 50 e 60, Penderecki mostrara um radicalismo  sinfônico-orquestral-sacro com alguns dos acordes mais atonais e sombrios de toda a música erudita moderna da época, refletindo as sensações sombrias deixadas pela memória emocional da Segunda Guerra Mundial através de obras como Threnody to the Victims of Hiroshima (1960) e Polymorfia (1961). Aqui neste Concerto de Violino No. 1, escrito em entre 1976 e 77 (e revisado em 1987) e dedicado ao violinista americano Isaac Stern, já temos um Penderecki equilibrando ecos do romantismo tardio com este seu tão característico atonalismo sombrio, trabalhando como poucos as potencialidades expressivas do violino, das cordas e da orquestra como um todo. Algumas críticas rasas da época disseram que Penderecki estaria abrindo mão deste seu estilo sombrio, para se tornar mais palatável -- se é que isso fosse possível. Uma análise mais profunda desta peça para violino e outras obras suas a partir dos anos 70 nos mostra, porém, que embora o compositor estivesse evocando ecos da tradição romântica do final do século 19 e início do século 20, ele não apenas continua soando original e misterioso como também potencializa a carga emocional e a expressividade das suas obras, fazendo o ouvinte ter de equilibrar a audição entre passagens consonantes e passagens dissonantes, construindo uma nova harmonia em busca de um pós-modernismo eminente. Este seu primeiro concerto -- aqui interpretado pelo violinista polonês Konstanty Kulka -- mostra um violino extremamente técnico contracenando com efeitos orquestrais fantásticos e complexos, se equilibrando entre partes tonais e atonais, sobreposições e timbres arrebatadores, efeitos surpreendente de glissandos (técnica de criar efeitos deslizando os dedos nas cordas), e em meio a uma dinâmica misteriosa que vai de pianíssimos meditativos, passa por melodias expressivas e desemboca em fortíssimos e espasmos sombrios, além de mudanças e desníveis constantes de tempo e de estado de espirito entre o violino e a orquestra. Já o segundo concerto -- escrito quase duas décadas depois em 1994 e dedicado à célebre violinista alemã Anne-Sophie Mutter -- é uma peça onde Penderecki continua com seu tom neorromântico misterioso, só que de uma forma mais introspectiva em termos orquestrais, sem os espasmos assustadores do primeiro concerto, deixando a orquestra menos densa e fazendo com que o violino flutue dentro de uma tratativa solista mais sobressalente, ainda que com tons mais sensíveis -- é uma peça fina porque o compositor tenta combinar tudo aqui: a tecnicidade do violino, sensibilidade timbrística, tons orquestrais harmoniosos em passagens lentas e passagens ágeis mais complicadas. Lançado em 2003, este Concerto para Violino No. 2 aqui fica a cargo da então jovem chinesa Chee Yun junto à Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional da Polônia, sob direção de Antoni Wit. O motivo de eu escolher este álbum é porque, além de apresentar duas das maiores interpretações destes concertos de Penderecki, é um dos raros registros a trazer os dois concertos juntos num mesmo CD ou LP. Outra gravação indicada é o registro do segundo concerto gravado pela própria Anne-Sophie Mutter: mas neste caso, o álbum vem repartido com as sonatas para violino de Bartok. Curiosamente, os dois concertos são escritos sob a forma de um andamento único de 40 minutos cada: uma tratativa moderna para duas peças cheias de dinâmicas e nuances.
Pai da estética do poliestilismo -- que une procedimentos composicionais das eras anteriores da música erudita, ou seja, que usa "ecos" do barroco, classicismo, romantismo e modernismo num só estilo composicional, numa só composição --, o compositor russo Alfred Schnittke, pianista e cravista de origem, foi um dos poucos compositores da segunda metade do século XX a se se aventurar numa sequência de quatro concertos para violino. Escrever concertos para violino demanda não apenas ousadia, mas um estudo e uma pesquisa particularmente complicados, pois trata-se de um instrumento que soma séculos de escolas estilísticas, técnicas e virtuosismos afins. E embora próprio Scnittke confessasse que estes seus concertos para violino não vieram com a pretensão de se tornarem "best-sellers" no âmbito do virtuosismo, das técnicas e escolas violinísticas, pode-se dizer que o compositor alcançou bons resultados nesta empreitada pelas vias da  idiossincrasia, ou seja, deixando latente seu próprio discurso musical poliestilístico nestas peças. O seu Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra (1957) ainda traz um pouco dos ecos do romantismo tardio "shostakovitchiano": trata-se de um trabalho de talento precoce, de quando o compositor ainda estava estudando composição, aos 23 anos de idade -- um trabalho que ele mesmo sentiu a necessidade de revisá-lo em 1963. Já o Concerto Nº 2 para Violino e Orquestra de Câmera (1966) é ultramoderno (!): ele mostra um discurso violinístico lento e atonal e sem muito acompanhamento, num andamento único de 21 minutos, e com uma linha melódica sem muitas estripulias técnicas, mas ainda assim um tanto vigorosa, sendo interrompida repentinamente por intervenções orquestrais um tanto explosivas e ruidosas -- aliás, conforme explicitado no encarte do CD, a linha melódica desta obra foi uma homenagem à história de Jesus, como se o extenso e angular discurso do violino representasse um dos extensos discursos do próprio Cristo frente à sua multidão de seguidores em sua época. O  Concerto Nº 3, composto em 1978, também para Violino e Orquestra de Câmara, já deixa mais latente o seu recém descoberto poliestilismo: interlúdios românticos em meio a partes dissonantes, passagens românticas mesclando-se com longas e sombrias frases angulares ao estilo modernista... -- e como o primeiro e terceiro movimentos são mais lentos e intimistas, o destaque vai para o segundo movimento, um recheio repleto de fraseamentos angulares e diálogos conturbados entre o violino solista e a orquestra de metais. Por fim, no quarto e último concerto, Concerto para Violino e Orquestra No.4, Schnittke cai de cabeça no seu sarcástico e irônico poliestilismo, sempre muito marcado de ritmo e cheio de efeitos sonoros, com alguma explosão atonal aqui e acolá e muita rebusquês: o detalhe fica para o compassado segundo movimento,  uma variação sobre um tema composto numa rítmica clássica mozartiana, mas repleto de dissonâncias por entre as melodiosidades -- isso antes dessas melodias se desembocarem numa cacofonia desconcertante, a entusiasmar qualquer amante do free jazz. Para quem, enfim, é fascinado pela arte do concerto, fica aqui a dica da coletânea destes quatro concertos de Schnitkke: os quatro foram gravados na íntegra pelo célebre violinista letoniano Gidon Kremer e pelo maestro Christoph Eschenbach à frente das orquestras NDR Symphony Orchestra of Hamburg (ou Orquestra Sinfônica da Rádio do Norte da Alemanhã, com sede em Hamburgo), da Chamber Orchestra of Europe e da Philharmonia Orchestra. Uma outra versão de muito requinte é a do violinista ucraniano Oleh Krysa junto à Malmö Symphony Orchestra. Os quatro concertos para violino de Schnnitke não são as pepitas mais representativas da sua nova técnica chamada de poliestilismo que surpreendeu o mundo da música nos anos 60, 70 e 80 -- as pérolas desse novo conceito são suas primeiras sinfonias e seus "concertos grossos" --, mas para quem procura concertos modernos para este instrumento tão clássico (o instrumento clássico mais contemporâneo de todos, ao lado do piano), eis aqui um dos exemplos de como o violino soa moderno,  diferente e multifacetado sob a escrita de Schnittke. Trata-se, enfim, de uma reunião de paladares e nuances entre o amargo e o doce, o encrustado e o suave,  o romântico e o atonal, o relaxante e o assustador, o sério e o sarcástico. Estes quatro concertos até podem ser vistos como um perfil panorâmico -- ainda que incompleto -- das transformações que Schnittke sofreu durante os anos 60, 70 e 80.
Obra que ganhou o Prêmio Grammy de 1994 na categoria de Melhor Composição Contemporânea Clássica, o Concerto para Violino de Elliott Carter foi encomendado conjuntamente pelo violinista Ole Bøhn e a San Francisco Symphony no final dos anos 80, sendo concluído em 26 de fevereiro de 1990. Um dos maiores compositores americanos de todos os tempos e um dos compositores de escrita mais complexa da música erudita moderna, Elliott Carter tem uma carreira que une resquícios do brilhantismo neoclássico americano com uma latente idiossincrasia de prezar pelas orquestrações mais intrincadas, cheias de entrelaces ultramodernos -- quer dizer: no início da carreira, nos anos 30 e 40, ele passou por uma ligeira fase onde mesclava o neoclássico com o nacionalismo americano, mas a partir dos anos 50 passou a escrever peças estritamente atonais, desenvolvendo um estilo de escrita indescritivelmente única. Este seu concerto traz melodias e abstrações ultramodernas com o violino flutuaando o tempo todo entre os registros graves  e agudos -- uma característica do melodismo do compositor --, sendo acompanhado por contemplativos sombreamentos e pontilhismos orquestrais, muitas das vezes tendo o violino acompanhado apenas pelos naipes dos metais, palhetas e pela percussão ao invés de ser acompanhado pelo naipe de cordas -- ou seja, as cordas aparecem com menos frequência aqui, o que é, por si só, idiossincrático e curioso. Aliás, esses acompanhamentos e explosões pontilhistas com flautas, clarinetes, oboés, trompetes, trombones e tubas, e etc, é um dos ingredientes que conferem os tons da ultramodernidade americana da qual Carter é um dos principais artífices. Aqui o violino soa quase que estritamente moderno, extremamente técnico e com abstrações não menos que brilhantes. O concerto, na verdade, já começa impulsivo no primeiro movimento. No segundo movimento temos passagens melódicas mais tranquilas, mas ao invés de soarem sentimentais, elas soam como um discurso frio e atonal. E por fim, no terceiro movimento, Carter aplica esses seus pontilhismos complexos, essas suas explosões e essas suas intricâncias cintilantes à exaustão. Este álbum compreende o sexto volume da série The Music of Elliott Carter, uma compilação produzida e editada pela Bridge Records, tendo aqui o violinista alemão Rolf Schulte  e a Odense Symphony Orchestra sendo regidos pelo maestro Justin Brown. O restante do álbum apresenta outras quatro peças de Carter, também muito interessantes: apresenta 3 peças fantásticas para violino solo e a neoclássica peça orquestral Holiday Overture, peça mais palatável do seu início de carreira composta em 1944 e revisada em 1960.


Aqui estamos diante de um dos mais badalados -- se é que possamos usar este termo -- concertos para violino da música erudita contemporânea. O Concerto para Violino de John Adams é considerado uma das obras-primas maiores do repertório contemporâneo não apenas pela sua escrita bem elaborada, mas por representar um novo rumo na carreira de um compositor que já vinha sendo considerado um dos maiores compositores americanos à época: Adams começara trilhando os caminhos do minimalismo -- sim aquele cheio de "canons" e efeitos repetitivos inebriantes --  e agora rumava para um pós-minimalismo já dentro da estética harmônica da chamada "nova consonância", resgatando elementos do estilo neoclássico americano, do modernismo e do romantismo tardio. Na verdade, o estilo de composição que Adams aqui apresenta é uma mistura híbrida de todas essas estéticas -- neoclássico, neorromântico, pós-minimalismo, com pitadas de nacionalismo americano e música eletrônica -- sem soar sugestivo ou latente em relação a nenhuma delas, aliás. Trata-se de uma peça, afinal, onde o compositor alcança sua completude estilística, por assim dizer. Composta em 1993, e dedicado à então jovem violinista canadense Leila Josefowicz -- um nome a se guardar na memória, para quem quer buscar outras peças contemporâneas para violino --, este concerto apresenta uma agradável e contemporânea consonância minimalista em meios a ecos hibridos do modernismo passadista, configurando-se numa peça pós-moderna por excelência. Para tanto, o compositor retirou os excessos de metais dos seus planos na hora de compor esta peça e criou uma concepção sonora contemporânea formada por linhas fluídas de cordas e uma instrumentação mais "minimal" com no máximo duas flautas, dois oboés, dois clarinetes, duas trompas, um trompete, um vibrafone...sendo temperados pelos sons eletrônicos de dois curiosos sintetizadores -- os sintetizadores aliás, sempre soam escondidos na massa sonora das cordas, mas são eles que ajudam a orquestra a alcançar os tons contemporâneos que o compositor quer intrigantemente expressar, sem deixar latente. Essas características citadas podem ser conferidas no primeiro e segundo movimento. Já no terceiro movimento, temos mais uma demonstração de mudança estilística em seu jeito de compor: Adams aplica aqui, no terceiro movimento, motivos dançantes -- quase jazzísticos, aliás -- com desenvolvimentos de partes repetitivas minimalistas e sincopações marcadas por tons cintilantes dos pizzicatos e agudos dos violinos seguidas de passagens mais fortes e explosivas, temperadas pelos instrumentos de sopro e pela percussão, que aqui também soam mais abundantes. Leila Josefowicz interpretou essa obra pela primeira vez nos anos 90 e só gravaria esta obra em 2002, sob a regência do próprio compositor. Antes disso, o violinista Gidon Kremer já havia gravado a peça junto à London Symphony Orchestra, regida por Kent Nagano -- gravação também célebre. Porém esta gravação mais recente com  Leila Josefowicz ao lado da St. Louis Symphony, regida por David Robertson, é a mais indicada pelo fato desta orquestra ser especialista em obras contemporâneas e pela intimidade que Leila Josefowicz já tem com a peça: afinal de contas quando ela gravou este álbum, lançado em 2018 pela Nonesuch, ela já havia interpretado esta peça no mínimo algumas dezenas de vezes.
The Darma at Big Sur é uma peça para violino elétrico -- não é bem um "concerto" nos moldes eruditos dos concertos para violino mais técnicos e formais, mas aqui o considero como uma peça de concerto -- que John Adams escreveu dedicado especificamente para o violinista Tracy Silverman e seu violino elétrico de 6 cordas. Recebendo uma encomenda para escrever uma peça para a inauguração do Walt Disney Concert Hall, de Los Angeles, John Adams decide escrever uma peça para violino elétrico dividida em dois movimentos: um chamado A New Day e e escrito em homenagem ao compositor Lou Harrison; e o outro chamado Moonshine, em homenagem a Terry Riley. Além destas homenagens, Adams revela que ao ser requisitado para escrever uma peça para a inauguração do Walt Disney Concert Hall, logo lhe veio à mente as atmosferas, sensações, imagens, paisagens e climas das encostas do Big Sur, região costeira da Califórnia com o Oceano Pacífico: o que resultou em diversas imagens sonoras, landscapes estes que o compositor retrata aqui em forma de música programática. Portanto aqui estamos diante de uma obra de atmosfera basicamente nostálgica, mas intrigantemente contemporânea pela sonoridade e pelos procedimentos composicionais adotados. Além da sonoridade contemporânea do violino elétrico, John Adams solicita que alguns instrumentos (harpas, piano, samplers, entre outros) usem apenas um sistema de afinação chamado de "just intonation" também chamado de sistema de "entonação pura", sistema onde o instrumentista afina as cordas e teclas dos instrumentos usando intervalos baseados nas relações de números inteiros de frequências sonoras (hertz ), criando intervalos  e acordes que soam "puros", ao invés do temperamento convencional da afinação ocidental na qual todos os intervalos, exceto a oitava, soam "impuros" por apresentarem frequências sonoras com números irracionais caracterizados pela afinação cromática dos múltiplos de semitons. Essa idéia é uma inspiração direta do compositor americano Lou Harrison, que foi uma das figuras mais proeminentes nas tratativas da "just intonation" e da música microtonal. Aqui nesta peça, esses intervalos puros favorecem a nova consonância -- contemporânea, nostálgica e minimalista -- dos arranjos orquestrais de Adams, enquanto o violino elétrico se delineia por uma melodia fluída e contínua, como que, sensorialmente, estivesse percorrendo toda a costa do Big Sur. Composta em 2003, esta peça teve sua estréia na inauguração do Walt Disney Concert Hall à cabo de Tracy Silverman no violino elétrico ao lado da Los Angeles Philharmonic Orchestra regida por Esa-Peka Salonen. Em 2006, Tracy Silverman grava este álbum onde novamente apresenta a peça ao lado da BBC Symphony Orchestra, sendo regidos pelo próprio John Adams. O restante do álbum é completado com a peça My Father Knew Charles Ives, também de Adams.


O compositor finlandês Magnus Lindberg é um dos grandes compositores eruditos do nosso tempo. Iniciando-se através de experimentalismos orgânicos e eletrônicos nos anos 80, ainda amparado pelos aspectos das vanguardas do século XX, no final da década de 90 o compositor foi conferindo mais tenacidade à sua escrita, alcançando a maturidade com um estilo que sintetiza bem os aspectos do movimento contemporâneo conhecido como nova consonância: belas e brilhantes consonâncias clássicas e românticas em contrastes com dissonâncias opacas do modernismo, o lírico em contraste com o tenso. Este álbum contém três obras de Lindberg: seu já célebre Concerto No.1 para Violino, Jubilees e Souvenir, todas elas com a orquestra finlandesa Tapiola Sinfonietta. O Concerto para Violino fica a cargo da regência do próprio violinista que o interpreta: Pekka Kuusisto. Já as interpretações de Jubilees e Souvenir ficam a cargo da regência do próprio compositor à frente da orquestra. A cereja do bolo é, claro, o Concerto para Violino, que, composto em 2006, já recebeu diversas interpretações e gravações mundo afora. Só que o primeiro álbum de gravação deste concerto, a cargo da violinista Lisa Batiashvili e a Finnish Radio Symphony Orchestra, também continha o Concerto para Violino de Sibélius. Portanto este álbum é o mais indicado porque é um registro integralmente dedicado à escrita de Lindberg, com o próprio compositor regendo duas de suas peças. Encomendado para ser tocada no Festival de Mozart de 2006, em Salzburg, o Concerto para Violino de Lindberg emprega uma dinâmica poderosa entre violino e orquestra no melhor estilo clássico finlandês, só que aqui com uma orquestra mais compactada nos moldes clássicos das instrumentações de Mozart:  a obra pede uma orquestra do tamanho das orquestras dos tempos de Mozart -- composta por pares de oboés, fagotes, e trompas, e um modesto complemento de cordas --, mas transvestida de formas neoclássicas e neorromânticas contemporâneas, evocando traços da nostalgia nórdica que só o compositor sabe traduzir em seu jogo dinâmico entre violino e orquestra.


De todos os concertos desta lista, este é o mais recente: tendo sido concluído em 2015 e gravado em 2019, este Concerto para Violino foi uma surpresa mesmo em se tratando de Wynton Marsalis, um dos mais criativos e incansáveis compositores do jazz e da música erudita americana, uma figura da qual se pode esperar os mais surpreendentes e grandiosos lançamentos. Lançado pelo selo Decca, seu primeiro Concerto Para Violino em Ré Maior traz a The Philadelphia Orchestra sob regência do maestro Christian Macelaru e os solos da violinista escocesa Nicola Benedetti, que também interpreta o conjunto de peças Fiddle Dance Suite, que Wynton escreveu para violino solo. Segundo entrevistas que Wynton deu para jornais na época, esta peça reflete um momento onde o compositor sente que está envelhecendo e chega ao seu mais alto nível de maturidade e visão panorâmica da música, tendo a humildade de, inclusive, reconhecer que ele precisa estudar mais os aspectos da música moderna e contemporânea se quiser evoluir como o compositor criativo que é -- e que deseja continuar sendo. Tanto que neste concerto ele soa inteligentemente equilibrado: Wynton continua a expressar seu estilão caricato e divertido -- seus desenvolvimentos dançantes, suas sincopações jazzísticas e seus sombreamentos de blues --, mas o faz de uma forma menos saliente e mais entrelaçada com ecos da música neorromântica e da música moderna, suavizando suas preferências e excessos para explorar a completude das técnicas violinísticas e para explorar uma orquestração mais moderna. Essa busca inteligente já ficara claro na peça Swing Symphony, uma sinfonia onde ele consegue atingir um equilíbrio surpreendente entre a cintilância dançante dos ritmos jazzísticos swigantes com as explosões, sobreposições, intrincâncias e espasmos orquestrais mais modernos. Mas este seu Concerto para Violino vai além. Quer dizer, escrever peças e concertos para violino é, talvez, um desafio ainda maior do que compor uma sinfonia, haja vista que o violino vem de uma exigente escola de técnicas europeias onde peças concertantes têm a exigência de soarem demasiadamente intrincadas, exuberantes, virtuosísticas, com muitos detalhes técnicos capazes de desafiar a imaginação até do mais conceituado compositor -- contando, ainda, com a elaboração da orquestração que faz o "plano de fundo". Em termos de criatividade nos meandros da orquestração, Wynton é um dos mais hábeis criadores: expondo características pessoais originalíssimas em meio à ecos de Duke Ellington, Bella Bartók e Leonard Berstein -- sem mencionar a influência da third stream moderna de Gunther Schuller. Mas em termos de compor uma peça para um instrumento solista como o violino, Wynton mostra que absorveu muito do que  a violinista Nicola Benedetti lhe conseguiu passar em termos de técnicas. Em termos de origem e essência, a escola técnica a que Wynton se refere como inspiração é a estética do "fiddle", estilo "country" e arcaico de tocar violino que desde muito cedo se enraizou nas tabernas e saloons americanos do séculos 18 e 19. A partir deste ponto de partida, Wynton vai incorporando, à sua maneira, as outras técnicas clássicas, românticas e modernas para criar um concerto grandioso e inventivo.


Dos compositores ditos minimalistas -- e é preciso aqui ressaltar que Philip Glass nem curte esta delimitação --, Glass é o que tem um estilo mais mentalmente pegajoso, ou seja: é o compositor que mais conseguiu impregnar um estilo próprio no ideário da pós modernidade, praticamente se tornando um dos compositores mais populares das últimas décadas, trabalhando em várias direções, sim, mas sem abrir mão do seu original estilo harmônico-melódico-cinematográfico de compor. Seu primeiro Concerto para Violino é um exemplo disso: Glass praticamente não aborda nada das técnicas clássicas, românticas e modernas que perfazem o histórico do violino como instrumento erudito, e aqui insere-o em seu particular jogo de repetições minimalistas, com todo seu estilo cinematográfico repleto de escalas e arpejos inebriantes. De certa forma, para nós que somos amantes inveterados do repertório violinístico, isso nos incomoda um pouco, pois quando pensamos em violino queremos ver a "tecnicidade da coisa". Olhando por outro ângulo, porém, temos aqui duas peças que inserem o violino em uma nova abordagem performática, numa nova concepção contemporânea -- ainda que este minimalismo já soe passadista nos dias de hoje. Este seu Concerto para Violino No. 1 -- dedicado ao seu pai e escrito para o famoso violinista Gidon Kremer e, portanto, composto e concluído em 1993 ja com a intenção de ser uma peça de apelo popular,  -- praticamente transverte para o formato sinfônico-concertante motivos harmônicos-melódicos-rítmicos os quais ele já vinha trabalhando em peças para piano e combos menores, frequentemente expondo uma serie de repetições hipnotizantes e dançantes que trazem a sensação de uma trilha sonora. O Concerto No. 2 (2009) -- para violino solo, cordas e sintetizadores --, já é mais idiossincrático, sem aqueles efeitos repetitivos evidenciados em excesso no popular Concerto No.1 e mais amalgamado, trazendo ecos dos períodos barroco, clássico e romântico. Na verdade, a inspiração maior para este seu segundo concerto para violino são as Quatro Estações, de Vivaldi. Philip Glass -- em diálogos que duraram anos com o violinista  Robert McDuffie -- já vinha há muito tempo querendo transverter  a peça de Vivaldi para as formas do seu minimalismo contemporâneo. De imediato, o ouvinte não associa tanto esta peça aos famosos concertos do compositor barroco, mas com um pouco mais de concentração vamos percebendo que os arpejos e as inflexões melódicas surgem exatamente das ideias sensoriais da primavera, verão, outono e inverno de Vivaldi -- aliás, em certas passagens até parece que Glass aplica sobreposições minimalistas sobre os movimentos originais de Vivaldi, enquanto em outras as alusões são mais implícitas. Curiosamente antes de cada movimento, Glass dá a oportunidade de o violinista aplicar breves prelúdios em violino solo, o que substitui as corriqueiras cadências em violino solo presentes em praticamente todos os concertos para violino. A este seu Concerto No. 2, Glass deu o título de American Four Seasons: ou As Quatro Estações Americanas. Aqui eu escolho estes dois álbuns da Naxos -- ao invés de escolher as gravações com Gidon Kremer -- porque além de excelentes são registros onde o ouvinte tem acesso à outras obras de Philip Glass, conhecendo seu estilo de forma mais completa.



Foi por este seu Concerto para Violino que a compositora Jennifer Higdon recebeu o Pullitzer Prize de 2010. Imersa em um estilo neorromântico americano, Higdon já era uma figura célebre nos meandros dos compositores contemporâneos, tendo recebido diversos prêmios e sendo comissionada pelos maiores ensembles e orquestras americanas. Na verdade, Higdon parece ser uma compositora um tanto afeita aos concertos, tendo escrito uma série deles para diferentes instrumentos solistas: viola, harpa, oboé, percussão, tuba... e indo além. Já no primeiro movimento deste concerto para violino -- chamado apenas "1726", uma alusão ao número do endereço  do  Curtis Institute of Music, na Filadélfia, onde leciona --, Jennifer Higdon desafia o violinista a ser hábil com inusitadas e descontraídas passagens em agudos e harmônicos e passagens com intervalos complicados, além de divertidos diálogos do violino com outros naipes da orquestra conforme o concerto vai se desenvolvendo. O segundo movimento, "Chaconni", é onde mais sugestivamente o solista realiza duetos e trios com diversos instrumentos. Já o terceiro movimento, "Fly Forward", é um desenvolvimento em andamento rápido, onde Jennifer Higdon imaginou a violinista Hilary Hahn correndo nas Olimpíadas, enquanto compunha a peça. Para aplicar estas suas impressões descontraídas, Higdon cria uma paleta colorida de sons consonantes, diálogos, passagens interativas, reações e repostas bem ritmadas que prendem nossa atenção o tempo todo. Seu Concerto para Violino foi concluído em 2008 e foi dedicado à célebre violinista Hillary Hann, que o gravou em 2010 ao lado da Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, com regência de Vasily Petrenko. Uma crítica pessoal aqui expresso ao fato de que a outra parte do CD é completada com o melancólico Concerto para Violino de Tchakovisky, que é até uma grande peça romântica para violino, mas aqui destoa um tanto das nuances descontraídas de Higdon. Ao meu ver, ficaria melhor se o CD fosse completado com outras peças contemporâneas, de preferência com peças da própria Jennifer Higdon.


Ao lado do Concerto para Violino de Elliott Carter, este Concerto para Violino de György Ligeti é, talvez, o mais ruidoso da lista aqui apresentada, pelo fato de funcionar como uma espécie de mosaico com várias "colagens" de elementos da modernidade do século XX: tonalidades, atonalidades, desafinações microtonais, música pontilista, polirritmias, justaposições inusitadas, adereços do folclore húngaro, melodias búlgaras, pastiches, passagens em referência à música medieval e renascentista, referências a outras das suas próprias peças e passagens de violino solo que vai do lento e suave ao rápido e cacofônico, com espaçamentos conceituais de espasmos e silêncios, além de um conjunto de instrumento de percussão verdadeiramente rico. Na época em que Ligeti compôs esta peça, no início dos anos 90, ele estava interessado em explorar efeitos de harmônicos e formas alternativas de afinação microtonal: tanto que aqui ele pede que os violinos e as violas da orquestra se desafinem em relação às afinações padrão, e afinem suas cordas na harmonia natural do contrabaixo. O segundo movimento traz referências da terceira de suas Seis Bagatelles para Quinteto de Madeiras, mas aqui com duas oitavas abaixo e com variações reformuladas orquestralmente. A peça -- revista e reformulada algumas vezes até alcançar sua forma definitiva -- foi dedicada ao violinista Saschko Gawriloff, que aqui apresenta a premiére histórica, em 1993, ao lado do Ensemble InterContemporain conduzido por Pierre Boulez. Eu apresento aqui este registro por sua relevância histórica, mas o ouvinte mais curioso poderá ter acesso a outras versões ainda melhores, como no terceiro volume do box compilativo The Ligeti Project, onde este concerto é interpretado por Frank Peter Zimmerman ao lado do  ASKO Ensemble regido pelo maestro Reinbert de Leeuw. Note que, tanto na versão Gawriloff com o Ensemble InterContemporain como na versão de Zimmerman com o ASKO Ensemble, estamos falando de ensembles especializados estritamente em música moderna. Uma outra curiosidade é o fato de Ligeti ter usado excertos dos movimentos inacabados para compor a cadência final do quinto e último movimento -- uma vez que as primeiras escritas do concerto foram programadas para finalizar a obra em oito movimentos, os quais alguns ficaram inacabados pelo fato do compositor abandonar a empreitada e finalizá-lo com cinco movimentos. Contudo, como a cadência é um espaço que o compositor deixa em aberto para a inserção de improvisos e criações terceiras, outros compositores tais como Thomas Adès e John Zorn compuseram cadências para este concerto. Além deste concerto para violino, Ligeti nos apresenta aqui neste registro outras duas peças suas, ambas de caráter intrincado: o Concerto para Piano e Orquestra (1985-88) e o Concerto para Violoncelo e Orchestra (1966).