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Álbuns 2022: Mark Guiliana, Tim Berne, André Mehmari, João Taubkin, Brad Mehldau,Tyshawn Sorey, Jon Irabagon, etc

 
★★¹/2 - Tyshawn Sorey Trio - Mesmerism (Not On Label, 2022). 
Tyshawn Sorey já é figura recorrente aqui no Instrumental Verves. Temos postado —— ou ao menos citado —— alguns dos seus mais interessantes trabalhos nestes últimos tempos: abordamos aqui as gravações das suas composições eruditas com o ensemble Allarm Will Sound; também citamos um projeto que ele emendou logo em sequência na Capela Rothko, com foco nas obras de arte de Mark Rothko ali expostas para meditação e contemplação do estado mais essencial da arte; e também falamos do registro que ele gravou com o DJ King Britt em 2021, numa demonstração hiper contemporânea de interação entre bateria acústica e eletrônicos... Enfim... sugiro, aos interessados, que clique na tag do baterista e compositor para ler os textos sobre esses e outros dos seus trabalhos abordados aqui no blog. Mas aqui neste registro acima, em mais um atestado de versatilidade, o baterista volta-se mais ao que se chama de "straight-ahead jazz": que é quando um músico volta-se mais para a poética das canções, baladas e standards, ao crème de la crème do Great American Songbook. Acompanhado de dois aclamados músicos do post-bop contemporâneo —— o pianista Aaron Diehl e o contrabaixista Matt Brewer ——, Tyshawn Sorey e esse seu piano-trio aplicam releituras para standards como "Enchantment" (de Horace Silver), "Detour Ahead" (de Herb Ellis), "From Time To Time" (de Paul Motian), "REM Blues" (de Duke Ellington) e "Two Over One" (de Muhal Richard Abrams), além de uma versão para a canção Autumn Leaves (de Johnny Mercer). A bateria de Sorey atua com um impressionismo de detalhes sobre pratos e caixas que soa sutilmente pontilhista —— aliás, há que se ter muito treino para abordar a bateria da forma como ele aborda aqui! O piano de Aaron Diehl, por sua vez, atualiza para os ares contemporâneos aquela poética de pianismo minimalista —— no sentido de usar poucas notas, mas as notas certas, e de forma cristalina —— que tanto ficou reconhecida nas mãos do pianista Ahmad Jamal, mas aqui com teclas que gotejam cristalinas dissonâncias em meio às teclas consonantes. Dessa forma, esses standards soam frescos, contemporaneamente atualizados! 
★★¹/2 - Colin Webster & Matthew Crigg - Good To Be Back In Reality (NWOJ, 2022).
Na página do Bandcamp em que este registro de improvisação livre está disposto, está sublinhada a seguinte mensagem: "The aim of art is to represent not the outward appearance of things, but their inward significance". Essa é a premissa do selo New Wave Of Jazz fundado pelo artista sonoro belga Dirk Serries, que atua como curador e agitador de encontros entre músicos e artistas sonoros europeus adeptos dessa premissa de enxergar a música não apenas como um quadro paisagístico ou um retrato de natureza-morta, mas principalmente como a arte dos sons que produz mosaicos nas mais variadas formas: do noise fosco-ríspido e da free music abstrata à improvisação livre mais reducionista, passando por aplicações conceituais mais minimalistas no âmbito do avant-garde. Dirk Serries ainda explana melhor: "...a haven for the free and wilful. featuring music that originates from a fascination for free improvisation and modern minimal music...". Neste disco acima, pois, o saxofonista londrino Colin Webster —— especialista em explorar livres improvisos com técnicas estendidas várias —— se encontra com o experimental guitarrista Matthew Grigg, que aqui atua com uma guitarra mais puxada para a industrial music, além de usar efeitos experimentais de amplificador, para juntos dar vida a uma free impro em que os efeitos de rusticidade são tão importantes quanto a própria liberdade da abstração. Eis aqui então, um trabalho que valerá como uma oportunidade para os aficcionados em improvisação livre não apenas ouvir e conhecer como anda a figurar a free impro inglesa, como também conhecer o selo New Wave Of Jazz —— que tal como sua alcunha e seu mantenedor denotam, parece abordar a arte do livre improviso especificamente de forma plástica e essencialmente artística. 

★★★ - Sélébéyone - Xaybu: The Unseen (Pi Recordings, 2022).
O saxofonista Steve Lehman é um daqueles quadros do jazz que sempre está a inquietar-se por várias vias exploratórias. Neste lançamento acima, Xaybu: The Unseen, temos o segundo lançamento do Sélébéyone, o coletivo internacional de avant-rap que Lehman forma com o também saxofonista Maciek Lasserre (Paris) e os DJ's e MC's HPrizm (Nova York) e Gaston Bandimic (Dakar). A palavra “xaybu”, no título do álbum, refere-se a um conceito no misticismo islâmico de al-Ghaib: àquilo que é incognoscível e invisível. HPrizm, Gaston Bandimic e Maciek Lasserre são todos muçulmanos da linhagem sufi e essa conexão espiritual e sensação de abandono e entrega ao desconhecido tem sido a pedra angular do grupo desde o seu início. O projeto configura-se, portanto, de sons exploratórios —— brilhantes sons eletrônicos de roupagem futurista e improvisos jazzísticos de intrincados fraseados hindu-carnáticos —— com poesias e frases faladas. O cineasta senegalês Djibril Diop Mambéty é ouvido na faixa "Djibril" descrevendo parte do processo criativo que deu luz a este projeto e do ethos artístico do coletivo Sélébéyone. Aos interessados, sugiro procurar aqui no blog nossos escritos sobre outros projetos de Steve Lehman, esse saxofonista que é adepto da música erudita de vanguarda —— tendo gravado um álbum de sax-solo em que tenta imitar os extratos eletroacústicos do compositor Iannis Xenákis, por exemplo —— e dotado de um dos mais intricados fraseados do jazz contemporâneo!
 
★★¹/2 - André Mehmari - 21 Peças Líricas 1991/ 93 (Tratore, 2022).
Quem já adentrou aos estudos de órgão e piano sabe o quão natural é o contato com partituras e métodos com melodias breves e peças curtas de didática simples compostas exclusivamente para que o aspirante progrida gradualmente em seu dedilhado. O compositor austríaco Carl Czerny —— pupilo de Beethoven —— escreveu uma sequência delas em caráter de estudos, tornando seu método reconhecidíssimo. O alemão Robert Schumann, por sua vez, também escreveu uma sequência de 43 breves estudos dentro da premissa de uma didática de progressão, com níveis que vão dos simples aos mais avançados dedilhados, já adentrando a porta da música de concerto mais tecnicista. Alguns noturnos de Chopin e mais tarde algumas peças de Debussy e Erik Satie também captam essa ideia da simplicidade pianística para criar um universo de impressionismos e ludismos nonsenses. Béla Bartók, já na era moderna, compôs seis volumes com 153 peças curtas e mais 33 exercícios (para piano, piano e voz, e dois pianos) para os quais deu o nome de Mikrokosmos, uma obra que transcendeu os limites da didática e se tornou um dos standards mais benquistos do universo pianístico do século 20, sendo apreciada tanto por alunos como por pianistas experimentados, além de arranjadores afins que passaram a utilizar essas peças para criar adaptações camerísticas e orquestrais. O compositor brasileiro Villa-Lobos não ficou atrás e compôs suas sequências de Cirandinhas, entre outras peças infantis para piano. O fato é que esse tipo de composição, para fins didáticos ou não, foi criando adeptos e se tornando uma poética recorrente no universo pianístico. O pianista e compositor de jazz Chick Corea, por exemplo, escreveu —— e improvisou —— uma sequência de curtas peças minimalistas para captar a beleza e a simplicidade das crianças em uma série que ele chamou de Children's Songs, lançada pela ECM Records em 1984. E agora, aqui em nosso contemporâneo universo tupiniquim de verde-amarelo transmutado, o pianista e compositor André Mehmari (entrevistado em Novembro aqui no blog) acaba de revelar do fundo do seu baú de preciosidades uma sequência de 21 peças simples para piano que ele compôs na faixa dos seus 13 aos 15 anos, sob encomenda de uma escola de música de Ribeirão Preto, onde morou na passagem da infância para a adolescência. O feito precoce permaneceu destilado em partituras e memórias por três décadas até que o compositor resolvesse, agora em 2022, registrá-las e lançá-las em álbum, num momento onde seus últimos projetos nos surpreendem com um pianismo de arraigada sensibilidade e que consegue ser, ao mesmo tempo, intimista, eclético, atemporal e imagético —— vide os fantásticos álbuns Noël: Estrela da Manhã (2020) e Mehmari 20>21 (2021). E é mesmo essa capacidade precoce de exprimir e imprimir imagetismo —— navegar, flutuar e passear por várias imagens, lugares e sensações e transformar tudo isso em sons de calmaria —— que mostra o quão aguçada já era a sensibilidade musical do menino Mehmari aos 13 anos de idade. As 21 miniaturas de Mehmari, além de nos teletransportar ao espectro do sublime pelas vias de uma cristalina simplicidade, diferenciam-se dos exemplos didáticos-classicistas citados acima pelas nuances imagéticas que elas emanam: a simplicidade dos temas captam desde a sensação do vento até a nostalgia dos hinos sacros, passando pelas observâncias dos elementos da natureza —— uma constante na obra do compositor —— e indo até vilarejos, lugares escondidos na memória, reflexões e sensações humanas que já inquietavam o âmago criativo do garoto. Um garoto prodígio que não apenas já sonhava e flertava com os mestres, mas já transpunha suas sensações em música e já vivia profundamente essa Arte na prática.

★★★ - Immanuel Wilkins - The 7th Hand (Blue Note, 2022).
O jovem saxofonista Immanuel Wilkins é uma das grandes revelações da Blue Note dos últimos anos. O seu álbum de estreia Omega (Blue Note, 2020), produzido pelo aclamado pianista Jason Moran, foi um tanto elogiado e o colocou sob os principais holofotes especializados dos dois lados do globo terrestre. Immanuel Wilkins que traz em sua vida e em sua música uma espiritualidade de consciência fortemente arraigada no gospel, e surge no cenário jazzístico dotado de fraseados fortemente calcados nas inflexões das estéticas do neo-bop e do post-bop contemporâneo, exprimindo um reconhecido frescor em suas composições objetivamente diaspóricas quanto aos elementos melódico-rítmico-harmônicos afro-americanos, com vários dos seus temas autorais explicitando temáticas e inflexionando tonalidades e elementos advindos do gospel, neo-soul e ritmos africanos. Este álbum acima, pois, é um continuum do seu debut de 2020 e vem com o mesmo quarteto que o revelou —— com o pianista Micah Thomas, o baixista Darryl Johns e o baterista Kweku Sumbry —— mais a colaboração afro do Farafina Kan Percussion Ensemble e mais a participação da flautista Elena Pinderhughes, conhecida por seu trabalho com o trompetista Christian Scott aTunde Adjuah. Fluente e ágil frasista, Immanuel Wilkins nos direciona, então, para improvisos e fraseados calcados num certo neo-bop de sobreposições contrapontísticas na faixa de início "Emanation", passa pela bela canção "Don't Break" onde o Farafina Kan Percussion Ensemble nos faz dançar com suas percussões afros, e depois nos delicia com baladas de agradáveis imagetismos impressionistas, retornando aos fraseados ágeis e intrincados nas duas últimas faixas, onde o saxtenorista usa efeitos eletrônicos e chega a alcançar até um certo êxtase freejazzístico a La Coltrane.
 
★★¹/2 - Aaron Parks, Matt Brewer & Eric Harland - Volumes I & II (Ahem, 2022).
A morbidade e as atmosferas fúnebre da pandemia da COVID-19 conferiram um certo tom meditativo e comedido a uns, enquanto o tédio resultado dos constantes isolamentos impulsionou para que outros tirassem aquele projeto mais experimental e/ou idiossincrático da gaveta. No caso do pianista Aaron Parks, foi a vez de revisitar o "straigt-ahead" e gravar algo mais intimista, um alento de esperança para contrastar com as atmosferas e sensações ruins deixadas por esse período pandêmico. Aaron Parks, que em outros tempos lançou projetos marcados por improvisações livres e vôos melódico-harmônicos aventureiros —— em piano solo ou em piano-trio, além das gravações com o quarteto James Farm —— , com temas e composições calcadas num hiper contemporâneo post-bop com influências da eletrônica e de elementos do pop-rock alternativo, agora vem de lançar dois volumes de música mais intimista onde mescla composições suas e de seus amigos do piano-trio com releituras a standards. As atmosferas variam do modal jazz e do post-bop mais contemporâneo ao straight-ahead mais romântico das baladas e standards, mas flutua sempre dentro dessa camada de melodismo palatável com desenvolvimentos harmônicos levemente impressionistas. Contudo, aqueles cinematográficos tons coloridos —— com os quais Parks tanto nos inebriou em álbuns como Invisible Cinema (Blue Note, 2008) e James Farm (2012) —— ainda continuam implícitos no conjunto como um todo. Os temas variam de canções como "All The Things You Are" (Jerome Kern & Oscar Hammerstein II) e "Body and Soul" (Johnny Green, Edward Heyman, Robert Sour, Frank Eyton) a standards compostos por músicos de jazz como "Montara" (Bobby Hutcherson) e "Centering" (Frank Kimbrough), além dos temas compostos pelos próprios músicos do trio, que é formado por Aaron Parks (piano), Matt Brewer (contrabaixo) e Eric Harland (bateria).
 
★★¹/2 - Jon Irabagon - Rising Sun (Irabbagast Records, 2022).
Uma das grandes paixões do saxtenorista Jon Irabagon é viajar pelos confins e captar as belas imagens que a natureza esculpiu. Irabagon conta que os temas do álbum foram compostos, pois, durante uma extensa viagem familiar que ele e sua família fizeram por Dakota do Sul, Montana, Idaho, Utah, Colorado e Wyoming durante os primeiros meses de verão de 2020, quando os parques nacionais e estaduais estavam reabrindo após meses de interdição devido à pandemia: o saxtenorista conta que procurou "criar temas e canções tão expansivas quanto as formações rochosas, estradas e céus do oeste dos Estados Unidos que as inspiraram". De fato, Irabagon  já mostrou que é um diletante estudioso dos fraseados jazzísticos mais intrincados e expansivos, e seu range de sonoridades tem uma larga abrangência que vai do post-bop ao modern creative mais free: suas últimas explorações vem de amalgamar inspirações calcadas no intrincado fraseado de Charlie Parker —— vide o álbum Bird with Streams (Irrabagast Records, 2021), gravado no desfiladeiro Falling Rock da Floresta Nacional de Black Hills —— com inflexões mais freejazzísticas evidenciadas em outros tempos com o quarteto Mostly Other People Do the Killing (MOPDTK), quando tocou ao lado do trompetista Peter Evans, do contrabaixista Moppa Elliott e do baterista Kevin Shea —— quarteto esse, aliás, que lançou uma série de paráfrases mais "avant-garde" de álbuns clássicos do jazz tais como This Our Music (1961) de Ornette Coleman e Kind of Blue (1959) de Miles Davis. E aqui Irabagon inflexiona esses seus fraseados em formas supreendentemente intrincadas e únicas para captar as sinuosidades dos cânions do Velho Oeste, assim como dá acabamentos timbrísticos mais específicos para as sonoridades áridas e as melodias e harmonias expansivas, tentando transformar em música as sensações e as atmosferas absorvidas em sua contemplação da vastidão dos céus e em suas visitas e passagens pelas estradas, desfiladeiros e formações rochosas dessas áreas e terrenos dos EUA. Irabagon conta com uma formação de quarteto com Matt Mitchell (piano, Fender Rhodes), Chris Lightcap (contrabaixos elétrico e acústico), Dan Weiss (bateria) e conta com participações do guitarrista Miles Okazaki (na psicodélica faixa "Hoodootoo and Rising Sun") e do trompetista Adam O'Farrill (na faixa "Mammoth and Needles"). O pianista Matt Mitchell, aliás, dá um requintado toque harmônico à banda, conferindo belas e brilhantes dissonâncias ao conjunto das explorações, algo que contribui em muito para o imagetismo das composições.
 
★★★ - The Bad Plus - The Bad Plus (Edition Records, 2022).
Nos anos 2000 e 2010, um dos principais combos do jazz contemporâneo foi o piano-trio The Bad Plus formado com o pianista Ethan Iverson, o contrabaixista Reid Anderson e o baterista David King, os quais se especializaram em releituras iconoclastas e em compor temas ultra idiossincráticos para gravar setlists quase sempre baseadas numa junção densa e enérgica de avant-garde e elementos do pop, hard rock e grunge de bandas como Soundgarden, Nirvana, Heart, Pixies, dentre outras. De la para cá, o trio tanto conquistou respeito da crítica especializada como também mudou em tons e formações: em fins da década de 2010, o pianista Ethan Iverson deixa a banda para se dedicar ao professorado, pesquisa, composição e outros projetos particulares, e dá lugar ao pianista Orrin Evans, com o qual o The Bad Plus lançou os álbuns Never Stop II (2018) e Activate Infinity (Edition Records, 2019, resenhado aqui no blog). O caráter de energia e densidade daqueles temas e releituras de outrora, que misturaram elementos do avant-garde com elementos do pop e rock em versões instrumentais iconoclastas altamente originais, deram lugar para temas autorais mais comedidos e mais puxados para a estética do post-bop, mas sempre soando originais e com a mesma riqueza melódico-rítmico-harmônica de antes! Agora, pois, o The Bad Plus ressurge repaginado com uma outra formação: mantém-se o contrabaixista Reid Anderson e o baterista David King, fundadores do trio, mas o pianista Orrin Evans dá lugar para o guitarrista Ben Monder e a banda ainda traz a adição do saxofonista Chris Speed, que também atua com clarinetes e é proficiente em vários subgêneros do jazz. Formaliza-se, portanto, um quarteto de notáveis! E este lançamento acima recebe o título homônimo de "The Bad Plus" justamente para o quarteto autoafirmar-se como a formação que dará um novo "upgrade" à banda. Bem..., auditivamente falando, já conseguimos sentir aqui resquícios daquela boa energia e daqueles coloridos tonais de outrora! A guitarra Ben Monder —— conhecido por ter atuado junto a David Bowie no álbum Black Star (Columbia, 2016) —— soa reverberante em alguns temas e também soa psicodélica em outros. O guitarrista Chris Speed dá voz clara às exposições dos temas e canções, bem como aos improvisos mais intrincadamente fraseados. E a dupla fundadora —— o contrabaixista Reid Anderson e o baterista David King —— mantém a mesma sagacidade de outrora ao compor temas que misturam elementos de dentro e de fora do jazz, incluindo aqueles coloridos elementos tonais de pop e rock. Vida longa ao novo The Bad Plus!
Acima temos um registro que documenta duas vídeo-óperas criadas pelos compositores Julie Herndon e Davor Vincze em colaboração com o Decoder Ensemble, de Hamburgo, Alemanha. Julie Herndon é uma performer e artista que explora a relação do corpo com o som usando tecnologias, objetos e ferramentas como instrumentos musicais. Davor Vincze se concentra na meta-realidade e na narrativa musical usando um método próprio ao qual ele denomina de "microllage". As duas vídeo-óperas, que podem ser baixadas em vídeo junto às faixas musicais do álbum, contam histórias muito diferentes, mas de distopias perfeitamente congruentes. Na vídeo-ópera "Xinsheng" o compositor Davor Vincze fala do presente, ou talvez de um futuro próximo, retratando as relações conturbadas em um triângulo amoroso com Andrei, um boxeador, seu treinador e uma cirurgiã, trama que se se passa em um mundo quase distópico repleto de relacionamentos conturbados, competições acirradas e negligências médicas. Já a outra vide-ópera, "At That Time", de Julie Herndon, extrai toda uma trama da relação igualmente complexa da escritora Gertrude Stein e sua parceira Alice B. Toklas a partir de fragmentos de dois livros autobiográficos: The Autobiography of Alice B. Toklas —— um texto de 1933 que narra a vida de Toklas, mas foi escrito por Stein, tornando-o uma autobiografia apenas no título —— e uma continuação que Stein concluiu em 1937 chamada Everybody's Autobiography. O interessante desse trabalho é, portanto, essas relações e oralidades sendo "retratadas" em sons e texturas sonoras, oferecendo ao ouvinte-espectador uma rica experiência audiovisual, com uma música de design sinestésico que soa no mínimo inovador e futurista. As instrumentações incluem eletrônicos, vocais, e-zither (uma espécie de cítara eletrônica), objetos, ferramentas, clarinetes e percussões.

★★¹/2 - Passepartout Duo - Circo Pobre (Independent, 2022).
Já há algum tempo venho acompanhando as aventuras musicais desse duo de Verona, Itália, que trabalha num mix criativo entre percussões e eletrônica, quase sempre coletando impressões e elaborando projetos hiper criativos em suas viagens pelo mundo. Nesse seu mais recente tento, o duo formado por Nicoletta Favari (teclados e eletrônicos) e Christopher Salvito (percussão e eletrônicos) viaja para a América do Sul empunhado do seu mais novo instrumento musical, o Chromaplane —— um instrumento eletrônico que eles mesmos criaram, o qual se dá através do uso de uma bobina de captação em cada mão, com as quais eles "percutem" sobre a superfície plana do instrumento para tirar os sons produzidos pelo campo eletromagnético dos osciladores ——, e aqui, em territórios vizinhos ao Brasil, grava este álbum acima chamado Circo Pobre. O título refere-se a uma expressão muito usada no Chile para conotar situações que se assemelhem com a situação de um "homem-de-uma-banda-só" ou um artista de circo que precisa se desdobrar como apresentador, domador e trapezista ao mesmo tempo para terminar um show —— algo que divertidamente chamou a atenção do duo, que sempre se desdobra nessa formação enxuta para criar uma música altamente inovadora, geralmente se apresentando em museus de arte moderna e espaços alternativos abertos à música contemporânea mais experimental. Do Chile, o Passepartout Duo ainda seguiria para o Peru, onde também coletou ideias para o restante das peças. Sendo um dos duos mais criativos da new music em âmbitos mundiais, o Passepartout coletou essas impressões da América Latina e elaborou as peças enquanto ainda viajava e aportava em outros países. Durante esse processo, o projeto Circo Pobre foi, então, apresentado no Dar Meso em Tunis (Tunísia), gravado na Gampa Gallery em Pardubice (República Tcheca) e filmado no The Watermill Center em Nova York (EUA). No demais, eles também incluíram ao projeto uma gravação ao vivo capturada em 16 de abril de 2022 na Reserva Nacional de Paracas, no Peru, após passeios pelas praias e áreas litorâneas locais.

★★¹/2 - Barney McAll - Transitive Cycles (Extra Celestial Arts, 2022).
Projeto muito interessante do pianista e manipulador de eletrônicos australiano Barney McAll, residente em Mellbourne. Sendo um pianista dos mais requisitados da Austrália, colaborando como sideman e produtor junto a inúmeros músicos locais e tendo colaborado também com diversos músicos americanos tais como o saxofonista Gary Bartz, trombonista Josh Roseman e o guitarrista Kurt Rosenwinkel, dentre outros, nos últimos tempos Mcall vem dando vazão em peças que unem elaborados efeitos de eletrônica com elementos do pop e do jazz contemporâneo, faceta que tem sido muito elogiada pela crítica especializada. O álbum acima é um documento dessa fase e consiste nas duas partes de 20 minutos da sua peça Transitive Cycles, que traz uma instrumentação com sinos, percussões, um inusitado instrumento chamado chucky (inventado através de várias caixinhas de música, glockenspiel, kalimba e eletrônica),saxofones, trombone, flauta sakuhachi, contrabaixo, bulbul tarang (uma espécie de banjo indiano) e laptop interfaçado dom teclados/ sintetizadores modulares tais como Rhodes, Buchla e Moog Taurus. A peça foi estreada e captada ao vivo no Festival Internacional de Jazz de Melbourne e a gravação dessa performance saiu em formato LP de 12 polegadas numa edição limitada a apenas 300 cópias com brochura e encarte de luxo, tal como se vê acima. Trata-se, portanto, de um projeto mais conceitual onde Barney McAll alia o exotismo sonoro dos sinos e dessa miríade instrumentos tradicionais com o som de design eletrônico, criando amálgamas não menos que inovadoras.
 
★★¹/2 - João Taubkin - Coreografia do Encontro (Tratore, 2022).
Projeto composicional primoroso do contrabaixista, compositor e improvisador brasileiro João Taubkin, que aqui explora a linha tênue entre a música instrumental de verve popular e o arranjo erudito com pitadas de improviso aqui e ali fazendo as pontes entre os arranjos. João Taubkin, filho do aclamado pianista e compositor Benjamin Taubkin, tem uma carreira já coroada por cinco discos autorais —— contando com este Coreografia do Encontro, e sem citar outros discos onde ele tem um papel colaborativo —— nos quais há toda uma gama de influências que permeiam do rock à música popular brasileira, passando pela música de Moçambique, incorporando elementos da música erudita, entre outras influências que vão do jazz à world music. Para este projeto acima, que claramente é uma evolução à sua faceta mais composicional, Taubkin conta com a participação de Alexandre Ribeiro (clarinete e clarone), Ricardo Herz (violino) e Zé Godoy (piano). Em seu site, o contrabaixista e compositor explica esse seu mais recente projeto da seguinte forma: "O álbum Coreografia do Encontro apresenta sons de mares longínquos, que ao atravessar a alma do compositor, desaguam a musicalidade que surge a partir dessa experiência. Os temas revelam mares intempestivos, o ritmo da navegação, o arrefecimento das águas, o descortinar do horizonte, a chegada, e os novos caminhos que se revelam através dos encontros". De fato, as composições revelam mesmo uma escrita direcionada para cada um instrumentos presentes e para a arte do encontro de ideias e estéticas entre os instrumentistas, revelando justaposições elaboradas que deixam muito clara essa ideia de se alcançar essa "coreografia do encontro" através de uma verve mais camerística amalgamada com uma verve mais improvisativa e popular, resultando numa música prazerosa simbiose. O violino de Ricardo Herz, para além dos improvisos e do timbre peculiar desse violinista calcado na música popular, acrescenta muito da riqueza melódica do álbum. Enquanto a clarineta de Alexandre Ribeiro, o qual também usa o timbre grave do clarone estrategicamente em alguns arranjos, acrescenta graciosidade e timbrística cristalina ao conjunto, com ecos advindos do choro e até da world music através de entonações que lembram vagamente um duduk armênio ou um clarinete com abordagens da música médio-oriental em algumas passagens. João Taubkin, para além das composições e arranjos, oferece uma linha de baixo com acompanhamentos e preenchimentos um tanto quentes e esparsos, explorando seu contrabaixo tanto com pizzicatos (tangendo as cordas com os dedos) como também com arco, oferecendo uma voz adicional aos entrelaces e contribuindo de forma mais camerística em vários pontos dos arranjos. E o piano Zé Godoy soa harmonicamente rico e melodicamente minimalista no sentido de oferecer uma tapeçaria lúdica e idílica por debaixo das justaposições sem se sobrepor aos demais instrumentos. Com uma estética que preza pela arte do encontro entre o instrumental popular e o arranjo camerístico erudito, sempre com muita beleza e sem arroubos tecnicistas desnecessários, João Taubkin lança aqui um dos melhores álbuns do ano no espectro da música instrumental brasileira.
  ★★★ - Miles Okazaki - Thisness (Pi Recordings, 2022). 
Interessante e pouco usual essa abordagem do guitarrista Miles Okazaki, que segue lançando trabalhos no mínimo instigantes ano a ano. Este álbum, Thisness (Pi Recordings, 2022), é constituído do terceiro volume de composições que Okazaki elaborou para seu quarteto Trickster, formado com Matt Mitchell no piano, Anthony Tidd no baixo e Sean Rickman na bateria. O guitarrista conta que nos volumes anteriores, ainda que suas composições tenham improvisos e inflexões não-convencionais —— como em quase todos os seus álbuns ——, as composições ainda foram elaboradas com base nas estruturas de "peças" ou "temas", com exposições de motivos melódicos como tema principal seguido de improvisos sobre esse tema...ou na forma de peças previamente estruturadas com pontes de improvisos entre os motivos...e assim por diante. Agora aqui neste álbum, diferentemente, a ideia de Okazaki foi de compor cada faixa através de ideias soltas que ele e os músicos do seu quarteto fossem juntando e improvisando durante as sessões de ensaio e gravações, sem qualquer noção prévia de qual direção a música iria seguir, deixando as composições ganharem vida durante o movimento do projeto através de improvisações coletivas e de quaisquer outros caminhos que se abrissem para a banda —— a música criando-se sozinha em movimento enquanto a banda caminha em direção ao inesperado. O guitarrista disse que as fontes de inspiração vieram tanto de observâncias do seu entorno como de suas curiosidades, leituras e pesquisas: um "lugar distante" mágico chamado Salt Creek, uma aquarela da artista plástica Linda Okazaki (sua esposa), os escritos sobre surrealismo de Robin DG Kelley, os conceitos arquitetônicos do produtor David Breskin, os poemas de Sun Ra...entre outros elementos e inspirações.

★★¹/2 - Redman, Mehldau, McBride & Blade - LongGone (Nonesuch, 2022).
Entre os anos de 1993 e 1994, o saxofonista Joshua Redman formou um quarteto estelar com o pianista Brad Mehldau, o contrabaixista Christian McBride e o baterista Brian Blade, combo com o qual gravaram aquele notável rebento intitulado MoodSwing (Warner, 1994). Na época, esses músicos eram rotulados pela mídia como "young lions" e eram considerados os ases da geração daquele range de neo-bop e post-bop encabeçado anteriormente por Wynton Marsalis nos anos 80. Esses músicos, contudo, representariam uma geração posterior que, já a partir da segunda metade dos anos 90, começaria a dar novos rumos para essas variabilidades contemporâneas da linguagem bop: Redman e Mehldau, por exemplo, explorariam novas inflexões e novos repertórios advindos do pop e do rock alternativo, tanto efetuando releituras contemporâneas desses novos pop songs como também compondo seus próprio temas embebecidos por tonalidades frescas e rítmicas ímpares. Passadas quase três décadas, os quatro músicos se juntam mais uma vez para um resgate nostálgico daquele quarteto emblemático dos anos 90 com o qual eles iniciaram essa trajetória, aquele combo que formaram antes de cada um tomarem seus próprios rumos. O primeiro reencontro surgiu no final de 2019 para a gravação do ótimo álbum RoundAgain (Nonesuch, 2020), rebento lançado já em meio à pandemia. E agora, em 2022, o quarteto se junta novamente para gravar este LongGone, que soa tão orgânico e fresco quanto o álbum anterior, mas aqui ganha contornos mais comedidos onde os quatro músicos se divertem e se dialogam através de improvisos que fluem sem muitos arroubos tecnicistas, mas com interações de perfeita sinergia. Trata-se de um continuum interessante e necessário daquele combo emblemático dos anos 90 pelo qual se atesta a surpreendente capacidade desses quatro grandes músicos —— atualmente na faixa etária dos 50 anos de idade —— de se manterem jovens e atemporais mesmo quase três décadas depois daquelas primeiras sessões em que começaram a tocar juntos. As composições de LongGone foram todas escritas por Joshua Redman, que é notável compositor e um dos maiores saxofonistas do nosso tempo.

★★¹/2 - Miguel Zenón - Música de Las Américas (Miel Music, 2022).
Viagem fantástica pelos mares e territórios do Caribe e da América Latina! O saxofonista Miguel Zenón, porto-riquenho residente em Nova Iorque, convoca aqui seu quarteto de longa data —— com o pianista Luis Perdomo, o contrabaixista Hans Glawischnig e o baterista Henry Cole, mesmo combo com o qual explorou o ritmo portoriquenho da plena em seu fantástico álbum Esta Plena (Marsalis Music, 2009) —— para nos apresentar uma profunda cartografia musical das Américas, passeando por vários rítmos e nuances ameríndias, caribenhas e afro-latinas. Miguel Zenon detalha todo o processo em sua página no Bandcamp e diz que ele teve a ideia de produzir este álbum durante o entediante período pandêmico, após mergulhar na leitura de dois emblemáticos livros que narram a história das Américas: "Venas Abiertas de América Latina", de Eduardo Galeano e "Taínos y Caribes", de Sebastián Robiou Lamarche, livros os quais narram todo um conjuntos de lendas e fatos históricos das Américas, incluindo desde as conflituosas navegações caribenhas e seus piratas até as relações dos colonizadores espanhóis com os escravos africanos e com os índios que aqui estavam, bem como o início das formações culturais em torno desses povos e suas miscigenações. A partir dessas duas referências literárias, Zenon intensificou as pesquisas sobre as Américas e o Caribe e começou a elaborar os temas e as temáticas, tentando captar as nuances tonais e melódicas de cada região e tentando imagetizar suas pesquisas em formas de melodias, rítmos, harmonias, arranjos e improvisos. Miguel Zenon também diz que aqui seus temas refletem o "dinamismo e a complexidade das culturas indígenas da América, seus encontros com os colonos europeus e as implicações históricas desse processo", o que lhe fez pesquisar e explorar até as temáticas dos impérios Maias, Incas e Astecas. Quer dizer: as inspirações e as temáticas evocam a história e a cultura arcaica dos povos ameríndios, caribenhos e afro-latinos, mas a música aqui soa contemporânea e se dá numa miríade de improvisos jazzísticos mais próximos das correntes do neo-bop e post-bop, com calientes percussões latinas inusualmente inflexionadas. Para tanto, Miguel Zenon conta com o grupo porto-riquenho de vozes e percussões Los Pleneros de La Cresta e participações adicionais dos mestres Paoli Mejías na percussão, Daniel Díaz nas congas e Victor Emmanuelli no barril de bomba. Ademais, aqui mesmo no blog o ouvinte-leitor encontrará um post de Julho de 2022 onde exploramos uma sequência de indicações de mais ou menos 30 álbuns instrumentais de músicos, bandas e grupos de vários países da nossa querida América Latina. Pois bem: coincidentemente chegamos a indicar o álbum Esta Plena (Marsalis Music, 2009) de Zenon, que já no mês seguinte, em Agosto, anunciaria o lançamento deste fantástico álbum Música De Las Américas (Miel Music, 2022). O ouvinte-leitor mais curioso poderá, então, ter uma imersão realmente profunda nos rítmos e sonoridades das Américas através deste álbum acima e através das indicações que fizemos aqui 👉no blog.
 
★★ - Daniel Villarreal - Panamá 77 (International Anthem, 2022).
A gravadora de Chicago International Anthem tem sido uma fonte verdadeiramente uma rica de novas e inclassificáveis miríades sonoras. O jazz é, sim, uma diretriz que sedimenta as criações do seu plantel, mas muitos elementos de outros gêneros se amalgamam a esse transfigurado "novo jazz" mais textural para criar um instrumental rico de reverberações e atmosferas que flutuam do lounge às beiradas da música experimental. E foi pela International Anthem que o baterista e DJ panamenho Daniel Villarreal, residente há duas décadas em Chicago, lançou há poucos meses atrás esse seu primeiro álbum chamado Panamá 77. O músico, conhecido tanto por seu distinto figurino latino-americano como também pela surpreendente versatilidade com que trafega por vários estilos e gêneros, já é figura tarimbada nos clubes e casas de música de Chicago, tendo colaborado como baterista em inúmeros trabalhos de inúmeros músicos e cantores e sendo um DJ muito ativo nos clubes da movimentada 18th Street, no distrito de Pilsen, Chicago, local de muitos imigrantes do Leste Europeu e da América Central. Mas o fato é que só agora em 2022 chegou uma boa oportunidade para o seu debut. Através deste seu registro Panamá 77, o baterista e DJ tem sido muito elogiado pela crítica especializada. Daniel Villareal amalgama aqui uma miríade de elementos e sonoridades advindas do jazz e dos grooves de funk misturados com psicodelias, percussões e reverberações folclóricas latino-americanas, melodias com entonações panamenhas, efeitos eletrônicos vários, elementos caribenhos de dub e reggaeton, entre outros elementos e resquícios. Além de dedicar a gravação à riqueza cultural do seu país de origem, Panamá, Daniel Villarreal também nos mostra aqui um conjunto de experiências e influências adquiridas desde finais dos anos 90 e início dos anos 2000 quando começou a tocar em bandas de punk em Los Angeles, Chicago e outras cidades americanas e foi gradativamente rumando para colaborações com cantores, músicos de jazz, performances como DJ e manipulador de eletrônicos, revisitações às tradições músicais da América Central, incursões mais experimentais e explorações afins. Para compor, improvisar, editar e dar os acabamentos finais às faixas, o baterista e DJ contou com várias colaborações rotativas de músicos como a violinista Marta Sofia Honer, o guitarrista Jeff Parker, o saxofonista Elliot Bergman, o tecladista Bardo Martinez (nos eletrônicos e sintetizadores), o guitarrista Nathan Karagianis, o pianista e tecladista Kyle Davis (atuando com Rhodes), a contrabaixista Anna Butterss, entre outros.



★★ - Tim Berne & Gregg Belisle-Chi | Tim Berne & Matt Mitchell (Intakt, 2022).
O veterano sax-altoísta Tim Berne, um dos ases da free music de verve mais "modern creative", é muito conhecido por suas associações com guitarristas como Marc Ducret, David Torn e Nels Cline, com os quais atuou em trios, quartetos e outras formações maiores. Contudo, nos últimos tempos, talvez imbuído pelas condições impostas pela pandemia, Berne tem explorado formatos ainda mais enxutos como os duos e até o mesmo formato solo. Em 2022, Berne lançou pela Intakt, por exemplo, esses dois registros distintos indicados acima: um dueto com o guitarrista asiático-americano Gregg Belisle-Chi ao violão documentado no álbum "Mars"; e outro com o pianista, parceiro seu de longa data, Matt Mitchell, documentado no álbum "One More Please". Esses dois duetos são interessantes para observar como que as entonações sinuosas do idiossincrático sax alto de Tim Berne soam diferentemente melódicas diante das reverberações das cordas do violão e das teclas do piano: a diferença de um para o outro é que ao contracenar com o violão, Berne dialoga com umas ambiências mais folk e áridas —— e por isso, o título do álbum faz uma clara referência ao terreno árido do planeta Marte ——, por vezes marcando nossos ouvidos com partes em que o violão soa em uníssono com o sax alto para potencializar algumas linhas melódicas abstratas e para, em seguida, descontruir essas linhas em tortuosos improvisos e acordes dissonantes; enquanto no dueto com piano estamos mais próximos dos entrelaces, diálogos e  desconstruções naturalmente mais freejazzísticas, onde o sax alto de Berne conversa, desconversa e se sobrepõe com os contrastes pianísticos desenvolvidos por Mitchell através de clusters, ataques de acordes cheios, partes de livres improvisos onde o dedilhado corre solto e outras partes com teclas agudas onde ouvimos um colorido mais cristalino e pontilhista. O pianista Matt Mitchell, por sua vez, é daqueles improvisadores que verdadeiramente sabem explorar, de forma única e original, as várias possibilidades do colorido pianístico dentro da música improvisada!



★★¹/2 - Mark Guiliana - Music for Doing (Colorfield Records, 2022) & The Sound Of Listening (Edition Records, 2022).
Outro músico que não desperdiçou tempo no ano de 2022 foi o baterista, compositor e manipulador de eletrônicos Mark Guiliana, um dos grandes músicos do nosso tempo que está, inquestionavelmente, na vanguarda do jazz contemporâneo por suas investigações eletrônicas em projetos solos ou em projetos com seu grupo Beat Music! No decorrer do ano, o baterista lançou dois álbuns: um álbum mais calcado na contemporaneidade do post-bop acústico, com eletrônicos pontuais aqui e ali...; e mais um dos seus álbuns de "jazztronica", pelo qual dá continuidade em suas investigações quanto às interações da percussão orgânica e bateria acústica com vários dos mais sofisticados eletrônicos analógicos e digitais. Guiliana se inspira nas inovações e fundamentos estabelecidos por bateristas mestres do jazz como Elvin Jones e Art Blakey, mas também inspira-se no design futurista e nas frenéticas batidas eletrônicas do contrabaixista e DJ Squarepusher, amalgamando fundamentos jazzísticos com o que há de mais contemporâneo em termos de soung design eletrônico. O álbum The Sound of Listening traz então uma formação em quarteto acústico com Mark Guiliana nas percussões e baterias (acústica e eletrônica), Jason Rigby no saxofone tenor (também usando flauta, clarinete e clarone em algumas passagens), Chris Morrissey no contrabaixo e Shai Maestro no piano e sintetizadores: ou seja, os músicos do quarteto exploram um post-bop de design mais orgânico com seus instrumentos acústicos, mas também se revezam pontualmente entre as parafernálias analógicas e digitais para adicionar algumas explorações mais eletrônicas entre as faixas acústicas, utilizando laptop, sintetizadores, Fender Rhodes, mellotron, e bateria eletrônica. Já no álbum Music for Doing, Mark Guiliana faz o contrário: ele foca em peças essencialmente eletrônicas e adiciona apenas pontualmente passagens com instrumentos acústicos como saxofone (com David Binney) e violino (com Daphne Chen), além de inserir partes vocais num spoken word declamado por Troy Zeigler. Dois álbuns  interessantes para entender como Mark Guiliana tem feito as pontes entre esse post-bop acústico e suas avançadas fusões eletrônicas.




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