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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (09) 

 
★★★★ - Ulisses Owens Jr. - Kind of Grunge (Cellar Music Group, 2026)
Sem querer generalizar ou estereotipar, o grunge sempre me pareceu, ao menos numa primeira impressão, o tipo de rock feito para que jovens brancos desleixados e indignados dos anos 90 —— com suas camisas flaneladas em xadrez, cabelos despenteados e calças jeans surradas —— pudessem tocar violão e cantar suas canções no intervalo escolar ou tocar suas guitarras na garagem dos pais. Mas basta ouvir o álbum acima para perceber que esse estilo de música pode sugerir mais possibilidades do que essa primeira impressão faria supor. Aqui, pela enésima vez, temos um músico de jazz aplicando releituras sobre temas de pop-rock. Na verdade, a história mostra que vários dos standards clássicos do jazz advieram justamente de temas do cancioneiro pop: de cancionistas que fizeram sucesso na Broadway e em Hollywood nos anos 30, 40 e 50 —— tais como Oscar Hammerstein II, Jerome Kern e Richard Rodgers ——, passando pelos Beatles e Stevie Wonder e chegando, mais recentemente, às canções do Radiohead sendo reimaginadas pelo pianista Brad Mehldau. Só que aqui temos um projeto singular no quesito desse intercâmbio. Aqui, o baterista de jazz Ulysses Owens Jr., músico ligado ao range situado entre o straight-ahead e o post-bop contemporâneo, se lança, então, ao desafio de dar versões jazzísticas para temas do grunge rock, considerado o estilo mais marcante do rock alternativo dos anos 90, um estilo deveras distante da tradição do jazz. Esteticamente falando, o grunge foi um estilo dos anos 90 que condensou a psicodelia do heavy metal e a crueza do punk a partir de canções líricas e melancólicas em uma abordagem mais "despojada": foi um estilo de caráter juvenil que garantiu um novo frescor ao rock alternativo através de novas texturas, novas distorções e efeitos mais "rasgados" e com novas "arranhaduras", deixando de lado, por exemplo, aqueles solos rápidos, virtuosos e intermináveis de guitarra para centrar-se numa roupagem onde a textura —— o canto melódico e "rasgado" dos vocais, as novas eletrificações de guitarras cruas, os riffs curtos, e etc. —— se tornou mais importante do que o virtuosismo ou a complexidade harmônica. O frescor juvenil sintetizado por essas novas distorções e eletrificações frutificou-se, então, em um novo rock com linhas melódicas marcantes, mas com bases harmônicas relativamente simples, geralmente com riffs baseados em progressões de poucos graus, variações em torno de três acordes fundamentais ou power chords, além do uso de tríades suspensas sem terça menor ou maior. Nesse sentido, as canções do grunge parecem oferecer menos material para rearmonizações do que o standard tradicional, a balada de jazz ou canções de Stevie Wonder e Radiohead. Contudo, as canções das bandas de grunge marcaram uma época e trouxeram um frescor juvenil que ainda ecoa nas mentes dos jovens coroas nascidos nos anos 70, 80 e 90, muitos dos quais assíduos telespectadores que acompanharam essas bandas em videoclipes da MTV. Pois é daí que Ulysses Owens Jr. e seu grupo Generation Y empreendem o desafio. Parafraseando o título "Kind of Blue", do clássico álbum de Miles Davis, o baterista intitulou, então, esse seu álbum de Kind of Grunge, lançando-o agora, em agosto de 2026, pela Cellar Music Group. Abaixo, falo mais sobre o projeto!
 

O projeto foi concebido a partir de algumas experiências que Ulysses Owens Jr. teve no estúdio da plataforma canadense de ensino musical Drumeo, através da série For the First Time, onde os bateristas são desafiados a criar espontâneas passagens e improvisos para uma determinada canção sem ter ouvido previamente a gravação original. Foi nesse contexto que Ulysses Owens Jr. se deparou com canções como "Heart-Shaped Box" e "In Bloom", do Nirvana. Pois eis que a versão de "Heart-Shaped Box" apresentada pelo grupo tornou-se um fenômeno nas redes, com mais de 10 milhões de visualizações, repercussão que inspirou o baterista e sua banda a transformar o experimento em um projeto de maior escala. A proposta de Kind of Grunge consiste, então, em transformar esse repertório do grunge em jazz contemporâneo a partir de moods, tons, traços e toques renovados de straight-ahead, hard bop, post-bop, spiritual jazz, cool jazz, latin jazz e blues, preservando elementos melódicos reconhecíveis dos temas das canções originais, mas submetendo-os à interação, aos arranjos e à improvisação de uma banda de jazz, aqui, nesse caso, um sexteto. Ulysses Owens Jr. é acompanhado por Benny Benack III no trompete e vocal, Langston Hughes II no saxofone alto, Tyler Bullock no piano, Dan Wilson na guitarra e percussão e Thomas Milovac no contrabaixo acústico. O disco foi gravado em abril de 2026, nos Musora Studios, em Vancouver, e mantém como princípio criativo a premissa da espontaneidade que foi a marca registrada da série de desafios For the First Time, da Drumeo: apenas três das doze faixas receberam arranjos prévios, enquanto o restante do repertório foi essencialmente explorado e arranjado em tempo real, durante o próprio processo de gravação. Assim, o álbum funciona como um registro de descoberta coletiva, no qual experientes músicos de jazz recebem temas e canções com riffs simples característicos desse tipo de rock mais comercial para, em seguida, enriquecê-los com improvisos, harmonias mais sofisticadas e requintados arranjos jazzísticos. O repertório começa com "Touch Me I'm Sick", da banda Mudhoney, cuja melodia é deslocada para uma atmosfera de spiritual jazz; passa por "Even Flow", do Pearl Jam, tratada entre o cool e o latin jazz; chega a "Would?", do Alice in Chains, em uma leitura mais angular e dissonante; percorre "Disarm", do The Smashing Pumpkins, em uma das passagens mais contidas do álbum; e segue com "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana. Seguem-se releituras de temas de canções de Soundgarden, Stone Temple Pilots e Hole, além de uma releitura de "Where Did You Sleep Last Night", canção tradicional do bluesman Lead Belly, que recebeu de Kurt Cobain uma fresca versão no álbum MTV Unplugged (1994). Mais do que simples releituras, Kind of Grunge constitui um exercício instigante no qual Owens Jr. e o Generation Y evidenciam a capacidade que experientes músicos de jazz têm de aplicar novas relações harmônicas, rítmicas e tímbricas em temas de canções comerciais baseados em riffs curtos e progressões relativamente simples. Clique na imagem do álbum acima para ouvi-lo!

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Griot: Examining the Lives of Jazz’s Great Storytellers Vol. 1 - Relatos, estórias e perfis de vida com Jeremy Pelt


Jeremy Pelt é um dos mais destacados trompetistas do jazz contemporâneo. Mas ele não se destaca apenas como instrumentista. Chamado de "sound sculptor" numa das recentes capas da revista Downbeat -- que enfatizava o ótimo trabalho apresentado em seu álbum Jeremy Pelt, The Artist (HighNote, 2019), onde ele elabora novas vibes através de um jazz fusion bem talhado, fazendo uma alusão dessa construção mais elaborada de timbres e nuances eletrônicas com as esculturas do francês Auguste Rodin --, Jeremy Pelt frequentemente aparece acompanhado de mestres veteranos quando quer voltar-se ao jazz mais próximo à essência do post-bop e do straight-ahead jazz -- do jazz mais "puro" e acústico, por assim dizer. No álbum #Jiveculture (HighNote, 2016) ele convida para sua banda o contrabaixista Ron Carter e o baterista Billy Drummond. Já no álbum Art Of Intimacy Vol. 1 (HighNote, 2020), o trompetista convida o piano master George Cables para formar um trio com o contrabaixista Peter Washington. Com essa postura, Pelt mostra que tão importante quanto se desafiar em esculpir novas vibes contemporâneas é o desafio de não perder a consciência dos legados históricos deixados pelos grandes mestres do jazz e não perder as conexões com suas origens. Esse senso de tradição, de pertencimento, de manter conexão com suas origens, é importante porque ele acaba transparecendo em tons e sombreados nos trabalhos mais eletrônicos, da mesma forma que seu resgate do jazz mais "puro" ao lado de veteranos e mestres acaba sendo influenciado por seu senso de contemporaneidade, resultando num resgate sempre fresco e renovado. Em sua discografia, Jeremy Pelt apresenta como poucos esse tipo de equilíbrio. 



























Agora em 2021, Pelt acaba de lançar um interessante livro com algumas entrevistas que ele mesmo coletou junto a músicos jovens e veteranos, mostrando mais uma vez sua preocupação de conectar as visões de músicos de gerações diferentes -- dessa vez por meio da escrita. O livro chama-se Griot: Examining the Lives of Jazz’s Great Storytellers Vol. 1 e seu título se inspira na cultura africana dos griots: pessoas importantes das tribos e comunidades (anciães, líderes, e etc), que são responsáveis por serem contadores de estórias e responsáveis por passar a tradição dos mais velhos aos mais jovens, de geração em geração. O próprio trompetista se pôs à campo para realizar essas entrevistas, resultando em estórias, discussões e testemunhos de vida muito íntimos e sinceros com Paul West, Warren Smith, Bertha Hope, Dr. Eddie Henderson, Larry Willis, René Marie, Lewis Nash, Wynton Marsalis, Peter Washington, Terri-Lyne Carrington, Justin Robinson, Greg Hutchinson, JD Allen, Robert Glasper e Ambrose Akinmusire. Os assuntos abordados por esses músicos "contadores de estórias" são muitos: estórias descontraídas, relatos pessoais, curiosidades dos cenários do jazz nessas últimas décadas, discussões, opiniões em relação a outros gêneros (com o hip hop, por exemplo), questões raciais e étnicas dos afro-americanos e índios, entre outros. 

Essa faceta de um músico de jazz se aventurar em livros de bate papos, entrevista e discussões não é nova. Em 1977, o baterista Art Taylor lançava seu emblemático Notes and Tones - Musician-to-Musician Interviews, com 29 bate-papos e entrevistas sem restrições com algumas jazz singers e alguns dos músicos de jazz mais influentes dos anos 50, 60 e 70, incluindo Betty Carter, Art Blakey, Don Cherry, Kenny Clarke, Elvin Jones, Max Roach, Ornette Coleman, Miles Davis, Freddie Hubbard, Kenny Dorham, Nina Simone, Dizzy Gillespie, entre outros. O livro foi reeditado em pelo menos três vezes, sendo possível comprar exemplares antigos em plataformas como eBay ou as edições mais novas no Amazon.

O projeto de entrevistas de Jeremy Pelt expande-se, também, para o lançamento de um álbum onde o trompetista recortou trechos das entrevistas os quais ele considera importante e para cada trecho de cada músico entrevistado ele compõe um tema alusivo, criando um importante testemunho musical com vários relatos e falas. O álbum chama-se Griot: This is Important! (HighNote, 2021) e conta com uma banda com Chien Chien Lu – vibrafone, Victor Gould (piano, teclado Nord), Vicente Archer (contrabaixo), Allan Mednard (bateria), Ismel Wignall (percussão) e Brandee Younger (harpa). Tentando criar uma atmosfera mais reflexiva, aqui Jeremy Pelt adota mais insistentemente o formato da balada e delineia seus temas e seus arranjos próximos a um post-bop fresco e agradável, mas repleto de cores modais e vibes sedutoras, com a ressonância da harpa e do vibrafone contracenando com o seu trompete poético. Griot: Examining the Lives of Jazz’s Great Storytellers Vol. 1 pode ser encomendado no próprio no site do trompetista. Subentende-se que Jeremy Pelt lance um segundo volume logo menos: quem sabe neste mesmo formato de livro seguido de um registro musical? Clique nas imagens para ouvir e saber mais!




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