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Jazz and Art 2 - Weegee, Suehiro Maruo, Kiriko Kubo...Do mangá à fotografia perturbadora, o radicalismo de John Zorn


John Zorn é uma das figuras mais emblemáticas do pós-modernismo musical a emergir entre meados dos anos 70 e início dos anos 80. Trazendo influências da música erudita moderna desde quando ouviu Improvisation Ajoutée de Mauricio Kagel pela primeira vez aos 15 anos, sendo um aficionado por cinema, absorvendo diversas trilhas sonoras de desenhos animados de Carl Stalling e trilhas sonoras de filmes cult (John Barry, Ennio Morricone, Henri Macini, Jerry Goldsmith e etc), absorvendo o free jazz de Ornette Coleman e do chamado loft jazz da segunda metade dos anos 70, sendo um ativo integrante das manifestações mais experimentais do punk no wave, estando imerso em muitas manifestações performáticas do movimento Fluxus na downtown scene, e se estabelecendo como uma figura central de uma nova vanguarda  no Lower East Side, John Zorn criou em torno de si não apenas um ecletismo experimental poderoso como também passou a ser um fomentador e um agitador da música experimental na Downtown, com muitos artistas e músicos de diversas vertentes se juntando para criar livres improvisações, colagens e happenings nos eventos e projetos que ele desde sempre organizou. A arte musical eclética que John Zorn criou foi um acontecimento importante na história da música porque -- evoluindo a partir de algo que já vinha acontecendo com Frank Zappa, vide o álbum Lumpy Gravy (Capitol Records, 1968) -- ele transverteu todos os limites estéticos entre gêneros a partir de um experimentalismo gritante e de misturas radicais com volumes altos decibéis, misturas até então inéditas: Zorn e seus colaboradores passaram a explorar o lado mais instrumental do punk no wave em misturas com o free jazz, com os pastiches do jazz mainstream, com o folk e a country music, com a surf music, com a klezmer music judaica, com efeitos radiofônicos e efeitos de toca-discos, e extrapolando todos os limites da ecleticidade ao recriar e criar peças com recortes de trilhas sonoras e colagens de vários gêneros musicais numa mesma narrativa. Em suas abordagens mais próximas ao  hardcore punk e ao noisecore extremo, as temáticas também passaram a ser escolhidas para expressar os tabus e os limites mais repulsivos e constrangedores da condição humana: o prazer, o horror, a morte, o sadismo, o fetiche, a tortura, dentre tantas outras condições. Já em suas abordagens das game pieces livremente improvisadas, das explorações das canções klezmer e das suas experimentações com trilhas sonoras, as abordagens passaram a ser mais variadas -- e, às vezes, até descontraídas ou direcionadas para o universo das fábulas e fantasias. Para tanto, Zorn passou a lançar seus álbuns com capas tão criativas e perturbadoras quanto seus happenings musicais e suas temáticas. As artworks dos seus álbuns, aliás, seriam elaboradas com o mesmo senso de ecleticidade que suas peças: tendo à sua disposição colaborações de cartunistas, designers gráficos, desenhistas ligados à arte japonesa do mangá, e usando recortes de imagens de antigos filmes pornográficos experimentais ou filmes cult, fotografias antigas, imagens de arquivos médicos, entre muitas outras abordagens de capas.

   
Esta capa, do LP Cobra (hat ART, 1987) -- que traz as inovadoras game pieces de Zorn, com livres improvisações baseadas nas dinâmicas de alguns jogos de mesa --, é uma artwork da cartunista japonesa Kiriko Kubo e pode ser encontrada nas versões amarela (primeira edição de estúdio), azul (box com as faixas de estúdio, mais as faixas ao vivo) e lilás (apenas na versão ao vivo, estendida). Nascida em Tóquio, a artista estreou como cartunista em 1982 e alcançou grande sucesso a partir de uma série de curtas de animes chamada Cynical Hysterie Hour, criada para a TV japonesa no final dos anos 80, e uma série de história em quadrinhos-mangá chamada Imadoki no Kodomo. E da mesma forma que a artista colabora com Zorn ao elaborar a capa do seu álbum Cobra, o compositor americano também colabora com ela elaborando as trilhas da série de curtas Cynical Hysterie Hour. Em 1996, ao finalmente obter os direitos de reprodução, Zorn lança o conjunto de peças e miniaturas que compõe a trilha no álbum Filmworks VII: Cynical Hysterie Hour (Tzadik, 1997) -- álbum que compõe o sétimo volume da série Filmworks, onde o compositor lançou todo o conjunto de trilhas sonoras que ele compôs. Ademais, além dos mangás, de elaborar designs para CD's e LP's e criar animes para TV, Kiriko Kubo também passou a ser requisitada para lançar livros infantis, escrever ensaios e desenhar tirinhas em jornais e revistas. É também de sua autoria os animes Buckets de Gohan (que foi estreado na televisão em 1996) e Dobutsu Uranai ( de 1999).


Outro artista ligado ao mangá japonês do qual John Zorn usou alguns desenhos para ilustrar os álbuns da sua banda Naked City -- formada com Bill Frisell, Fred Frith, Joey Baron, e Wayne Horvitz -- foi o ilustrador e pintor Suehiro Maruo. John Zorn usou ilustrações de Suehiro para o encarte do primeiro álbum da Naked City, álbum homônimo lançado em 1989. A capa desse álbum é composta pela foto "Corpse With Revolver" que está no book Naked City (1945) do legendário fotógrafo americano Arthur Fellig, mais conhecido como Weegee (foto acima, no início do post). Aficionado pela vida noturna, pelas anomalias urbanas e seus personagens, Weegee fotografava cadáveres assassinados, bêbados, drogados, festas gay, badalações e tudo o que acontecia na cena noturna de Manhattan, com boa parte desse histórico de fotografias sendo lançado neste emblemático book de 1945 (foto ao lado). Posteriormente, Weegee seria um grande entusiasta da fotografia experimental -- principalmente no uso de deformações por meio de efeitos manipulados -- e trabalharia como produtor de curtas-metragens e como consultor de efeitos especiais e fotografia para diretores de cinema como Jack Donohue e Stanley Kubrick. Weegee, enfim, deixaria um legado inspirador para muitos dos jovens fotógrafos que estavam a surgir, sendo uma das maiores influências para a legendária fotógrafa Diane Arbus, que extrapolaria os limites estéticos e temáticos da fotografia ao retratar os casos mais incomuns do cotidiano e da diversidade: prostitutas, drag queens, casais gays, estrangeiros com feições incomuns, anãos, pessoas com necessidades especiais e diversos outros casos de diversidade. De Weegee, então, John Zorn não empresta apenas o nome do histórico book para dar título à sua banda, mas também empresta essa temática do momento mórbido e da sensação perturbadora para fazer uma alusão com a música radical que vinha produzindo -- música composta, como já citado, por uma combinação pós-moderna de free jazz, surf music, música erudita moderna, hardcore punk e noisecore em altos decibéis e diversos outros elementos advindos dos pastiches do jazz, country, folk, trilhas sonoras e colagens afins. Para rechear, ainda mais a temática do álbum homônimo, Zorn usa, como já citado, algumas das macabras ilustrações de Suehiro Maruo nos encartes. Outros álbuns do Naked City também receberiam essas ilustrações de Suehiro Maruo, como o álbum Torture Garden (Shimmy Disc, 1990), que é lançado com versões de capas que retratam a tortura e o sadismo -- e mais adiante, devolvendo a gentileza, Zorn contribuiria com o prefácio para a última coleção de mangás que Suehiro lançou em 2005. Nessa fase, percebe-se que não apenas o mangá chama a atenção de John Zorn como também as influências do noisecore japonês: o saxofonista passou a contar, com colaborações do vocalista experimental Yamatsuka Eye, algo que potencializou a sonoridade da banda. Por algum tempo, Zorn chegou a fixar residência em solo japonês, inclusive, o que lhe proporcionou conhecer muito do mangá, da arte contemporânea japonesa e da música experimental produzida por diversos músicos japoneses.

As demais capas dos álbuns lançados pelo Naked City são trabalhadas pelo designer Tanaka Tomoyo (aka Tomoyo T.L.) e recebem imagens que evidenciam o mórbido, o sádico e o brutal:  imagens eróticas de práticas sadomasoquistas, cadáveres, práticas de tortura chinesa (conhecidas como "lingchi"), entre outras. Entre finais dos anos 80 e meados dos anos 90, Tanaka Tomoyo trabalhou  numa editora de design gráfico em Manhattan chamada Karath=Razar -- que era propriedade de Tony Lee, que também elaborou algumas capas de John Zorn. Em paralelo, Tanaka Tomoyo também assina quase todas as capas dos álbuns da banda PainKiller, tendo, também, a colaboração do fotógrafo  Araki Nobuyoshi. Outro dos projetos experimentais de John Zorn, o PainKiller foi um trio formado por ele, Zorn, no saxofone, Bill Laswell no contrabaixo e Mick Harris (das bandas Scorn e Napalm Death) na bateria, tendo como convidados diversos músicos experimentais e improvisadores japoneses tais como os vocalistas Yamatsuka EyeKeiji Haino e o baterista Tatsuya Yoshida (que substituiria Mick Harris, posteriormente). Com essa banda, John Zorn mergulharia ainda mais rumo às explorações das estéticas extremas do hardcore e do noisecore japonês, já se aproximando do metal extremo característico do grindcore. Lançados pela gravadora inglesa Earache Records -- berço dos subgêneros ligados ao extreme metal e ao grindcore -- os álbuns do PainKiller recebem a mesma tratativa de se fazer uma sinestesia entre sons guturais de velocidades e volumes extremos com imagens perturbadoras, apenas se diferenciando com o fato de que agora as respectivas capas vinham com essas imagens emolduradas por paletas de cores fortes e com bordas trabalhadas com coloridos mosaicos medievais e asiáticos: caso dos álbuns Guts Of A Virgin (Toy's Factory/ Earache, 1991), que traz a imagem da necrópsia de uma mulher; Buried Secrets (Toy's Factory/ Earache, 1992), que traz a imagem de um prisioneiro desenterrando um cadáver; Rituals: Live in Japan (Toy's Factory, 1993), que traz uma imagem que expressa o sadomasoquismo; e Execution Ground (Toy's Factory/ Subharmonic, 1994), que traz a imagem de um enforcamento, entre outros álbuns com outras capas brutais, sádicas ou perturbadoras.

 

Por causa das suas radicais cover arts, por diversas vezes John Zorn foi questionado ou criticado de uma forma negativa nos holofotes especializados. Sempre colocando suas escolhas e seu estilo pessoal acima de qualquer imposição mercadológica, John Zorn teve problemas desde o início, em 1988, quando lançou o álbum Naked City com a fotografia "Corpse With Revolver", de Weegee, junto com as ilustrações do mangá macabro de Maruo Suehiro: a gravadora Nonesuch Records, pela qual Zorn lançou a primeira edição desse álbum -- na época ainda creditado como um projeto solo seu, e não creditado como uma banda --, imediatamente rechaçou que nesse ou nos próximos álbuns fossem usadas imagens explícitas de erotismo, imagens de autópsia e fotografias antigas de cadáveres, tortura e execuções, como o saxofonista vinha querendo. Bem... não houve os próximos álbuns: Zorn termina seu relacionamento com a Nonesuch, e passa a lançar os álbuns subsequentes do Naked City através de um selo que ele mesmo funda em território japonês, o Avant Records -- selo que, além de lhe ter proporcionado liberdade criativa, também foi o start para que nos anos 90 ele e o sound engineer Kazunori Sugiyama fundasse em Manhattan a gravadora Tzadik Records, que se transformaria num grande selo de avant-jazz, música experimental e música erudita contemporânea nos anos 2000. Agora, tendo seu próprio selo e seus próprios meios de lançar seus álbuns -- e tendo uma afinidade e uma conexão muito forte com o cenário experimental japonês, onde residia sua editora --, John Zorn teria toda a liberdade que precisava para não apenas criar seus sons radicais como também fazer essa associação imagética com os extremos temáticos e estéticos da condição humana. 

Porém, não tardaria muito para que o uso artístico dessas fotografias e ilustrações perturbadoras recebesse críticas e desse margem para polêmicas e discussões acaloradas -- dentro e fora dos EUA. Movidos por denúncias procedentes da comunidade asiática nos EUA, críticos de música e de arte, jornalistas feministas e autores de artigos universitários passaram a criar polêmicas e a colocar em discussão essas associações da música radical de Zorn com suas respectivas capas transgressoras. Muitos desses artigos são citados no livro John Zorn: Tradition and Transgression (Indiana University Press), escrito por John Brackett. Em 4 de Março de 1994, a Jornalista Elisa Lee publicou um artigo na AsianWeek chamado "Zorn’s Album Art of Asian Women Sparks Controversy", colocando em discussão o uso de imagens eróticas envolvendo mulheres asiáticas nas capas dos álbuns. Já a jornalista Denise Hamilton publica no Los Angeles Times, em 15 de Agosto do mesmo ano de 1994, o artigo "Zorn’s ‘Garden’ Sprouts Discontent Jazz": artigo no qual Zorn se justifica: "...the graphic images have been used for their transgressive quality, illustrative of those areas of human experience hidden in the gaps between pain and pleasure, life and death, horror and ecstasy. They are not and were never intended to denigrate or insult any particular person or groups of persons". Já o jornalista Alex Beels publica o artigo "Musician John Zorn’s Brutal Images of Asians Draw Fire" no Asian New Yorker, artigo de 5 de Maio de 1994, onde é abordado o uso das imagens brutais das capas dos álbuns do saxofonista para se criar essa associação com essa música mais radical. Ademais, a musicologista  Ellie M. Hisama escreveria uma pá de artigos universitários nos quais também abordaria essa associação, além de artigos que foram inclusos em livros posteriormente: entre eles constam o artigo "Postcolonialism on the Make: The Music of John Mellencamp, David Bowie, and John Zorn", incluso no livro Reading Pop: Approaches to Textual Analysis in Popular Music (Oxford University Press, 2000); e o artigo "John Zorn and the Postmodern Condition", incluso no livro Locating East Asia in Western Art Music (Wesleyan University Press, 2004). O fato é que, John Zorn chegou a ter de pedir para que seu selo Avant Records interrompesse as importações -- ao menos por algum tempo -- dos seus álbuns para o território americano.  

Já após fundar sua gravadora Tzadik, John Zorn expandiria ainda mais suas abordagens -- lançando suas trilhas sonoras via projeto Filmworks, lançando a coleção Book of Angels com canções klezmer baseadas nos anjos e demônios da mitologia judaica, bem como suas composições eruditas e etc --, agora contando com o trabalho do designer Heung-Heung Chin, que além de seguir um continuum em relação à associação conceitual entre imagens e sons que Zorn estabeleceu em sua obra, também evidenciou trabalho notável de ilustrações com personagens baseados em fábulas e fantasias -- vide, por exemplo, a capa do álbum The Dreamers:“O’o” (Tzadik, 2008). Abaixo, outras capas conceituais e outras artworks que ilustram alguns álbuns de John Zorn pela Tzadik.
     




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