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World Music em 15 Álbuns: taiko, jazz russo, gypsy brass bands, músicas latina e árabe, música indígena brasileira...



Uma das predileções deste humilde blog é as buscas pelas sonoridades exóticas da world music -- ainda que o tempo que dispomos para essas pesquisas não seja tão suficiente o quanto esse universo musical é vasto. Se fôssemos falar apenas de música tradicional brasileira, já teríamos um gigantesco acervo a destrinchar. Quando falamos de world music de uma forma mais universal -- procurando trazer à tona as tradições, os folclores e os adereços culturais dos povos e tribos de várias regiões do mundo --, temos, então, um tempo ainda mais escasso. Mas é possível, sim, indicar alguns álbuns mais certeiros e pontuais, partindo da universalidade que abrange o instrumental brasileiro e o jazz, e baseados em outras das nossas preferências instrumentais. Abaixo temos alguns exemplos de registros que tanto diletantemente já ouvimos. Música do Nordeste do Brasil, música indígena brasileira, a percussão do samba misturada com elementos da música indiana, música sul-americana, brass bands do Leste Europeu, música tradicional russa misturada com jazz contemporâneo, música folclórica finlandesa, percussão japonesa, música árabe, música das montanhas do Marrocos...Enfim, em todas essas indicações, o que prezamos aqui são as inflexões -- o uso -- desses elementos tradicionais, desses adereços tribais e folclóricos, nas intersecções com a música moderna e contemporânea. Ou seja, não basta reconhecer que essas tradições musicais são riquezas culturais regionais, mas é preciso mostrar que elas também romperam os seus limites geográficos para serem expostas e influenciar os ambientes dominados pelo jazz e a música moderna e contemporânea como um todo. Segue abaixo 15 excelentes registros de world music que permeiam as preferências mostradas aqui no blog. Clique nas capas dos álbuns para ouví-los.

O pianista Benjamin Taubkin é um dos grandes músicos e pesquisadores brasileiros a se enveredar pelos desertos, tribos, vilas e aldeias do world music, tendo liderado projetos e pesquisas que englobam, por exemplo, a música da América Latina, do Marrocos e a música indiana. Este registro é um exemplo. Samwaad: Rua do Encontro foi registrado ao vivo no teatro do Sesc Belenzinho em 2004, numa parceria de Taubkin e o grupo indiano Gandharva Mahavidyalaya, liderado pelo vocalista Madhup Mudgal. O interessante desse projeto é que ele também reuniu 31 ritmistas de escolas de samba de São Paulo, visando um diálogo entre a cultura brasileira, através dos elementos do samba, com a cultura da Índia: vê-se, então, um intercâmbio de sonoridades entre as cordas (contrabaixo, cavaquinho, violão e bandolim) e percussão brasileira (dirigidos por Rafael Y Castro) com as tablas, flautas, vozes e cítaras indianas, numa composição que soa tão coesa quanto original. Benjamin Taubkin, por sua vez, foi o responsável pelo arranjo harmônico do encontro. Este musical serviu de trilha sonora para o espetáculo de dança Samwaad: Rua do Encontro, de Ivaldo Bertazzo. O espetáculo também foi gravado em DVD. Ambos, DVD e CD, podem ser encontrados para venda no Portal do Sesc.

Natural da cidade de Passo Fundo e tendo crescido na cultura da música brasileira sulista -- regada à chamamé e às expressões musicais missioneiras do Estado do Rio Grande do Sul --, e depois tendo imergido nos estilos do choro e baião, o violonista gaúcho Yamandu Costa conta que também sempre esteve envolto de altas doses de latinidade através de contatos diretos e indiretos com músicos de países fronteiriços, principalmente colombianos, peruanos, argentinos, uruguaios e paraguaios. Este registro, pois, é uma espécie de retiro para um recanto individual onde o violinista relembra essas influências e esse sentimento latino-americano. Composto de temas autorais, Recanto nos apresenta um hibridismo de cores, motivos melódicos, arranjos e ritmos advindos de estilos musicais presentes nas fronteiras do Brasil com os países vizinhos tais como a chacarera, a valsa venezuelana, o chamamé, o milonga, dentro outros. Os temas têm, enfim, um toque pessoal de sentimentos, lembranças e homenagens: na faixa “Amigo Juan, zamba”, o músico faz uma homenagem ao violonista argentino Juan Falú; na faixa "Chacarera", ele já traça um retrato da característica dança do norte da Argentina, mas que também está presente na fronteira brasileira; e na faixa título “Recanto”, o violinista compõe uma sentimental lembrança numa homenagem in memoriam ao amigo Nini Flores, célebre acordeonista argentino. Este álbum, enfim, não chega a soar tão tradicional ou tribal como um autêntico disco "folk" de world music sem misturas, mas traz doses de uma latinidade sul-americana que precisa ser mais apreciada e mais enaltecida.

Neste álbum, quarto volume da série Música Popular do Nordeste da gravadora Discos Marcus Pereira -- um selo independente fundado no início dos anos de 1970 pelo advogado, folclorista e pesquisador musical Marcus Pereira --, temos uma compilação que mostra alguns dos principais elementos formadores da música folclórica e tradicional do nordeste Brasileiro: o bambelô (uma variante da dança de cabloquinhos), a embolada, os versos dos repentistas, a música da Banda de Pífanos de Caruaru e os frevos e baiões do Quinteto Violado (que já é um grupo que centra-se nas pesquisas das músicas tradicionais e folclóricas nordestinas, mas numa estética já bem próxima do instrumental brasileiro moderno). Desses elementos, o mais emblemático é a música criada pela Banda de Pífanos de Caruaru, a qual apesar de uma música aparentemente simples é tão característica para a identidade nordestina quanto influente para a MPB. Formada em 1924 pelos irmãos Manuel Clarindo Biano e Benedito Clarindo Biano no sertão do Estado de Alagoas, e depois estabelecendo-se no Estado do Pernambuco, a Banda de Pífanos de Caruaru é considerada um dos patrimônios da música popular brasileira, uma marca indelével do agreste nordestino. Tendo centrado-se no instrumental dos pífanos (provenientes das flautas indígenas) e nos ritmos e adereços afros da região tais como os repentes, o pagode tradicional nordestino, o coco, o frevo, a embolada, as pisadas dos cabloquinhos, o baião, entre outros, a Banda de Pífanos de Caruaru foi um dos grupos que impactaram o cantor Gilberto Gil quando, no final dos anos 60, ele viajava pelo Nordeste do Brasil e colhia elementos formadores da identidade brasileira para concretizar a estética do Tropicalismo, que misturaria muito dessas tradições com sonoridades do rock psicodélico e com elementos experimentais da música de vanguarda. A banda usa um instrumental simples composto por dois ou três pífanos -- tocados em sobreposições ou uníssonos -- que são acompanhados por uma percussão formada por triângulo, zambumba e pandeiro, também podendo ser recheado por tambor, pratos, vozes e sanfona (acordeão). É um tipo de banda muito comum e atuante nos festejos de São João e em outros festejos nordestinos. A justificativa para a escolha deste álbum nesta série de registros de world music se dá pelo fato de termos aqui uma compilação de alguns dos autênticos adereços instrumentais da música nordestina brasileira.

Neste fantástico registro, Neuneneu Humanity - Fragments Of Indigenous Brazil, a cantora, compositora e indigenista brasileira Marlui Miranda empreende um ousado projeto de miscigenar aspectos da música indígena brasileira e das flautas tribais com as sonoridades do violão, harmônica, contrabaixo e kora (uma espécie de harpa de origem africana). Quem empunha o contrabaixo acústico é o versátil instrumentista irlandês Martin Brunsden. Quem empunha a kora -- e também toca guitarra acústica e se arrisca nas flautas -- é o instrumentista inglês Ravi, um aficionado por world music e por esse instrumento africano. Ravi, inclusive, construiu suas próprias versões de kora elétrica e de alumínio, além de ter desenvolvido um estilo um tanto particular de abordar o instrumento de origem africana. Neuneneu -- que dá título ao álbum -- é uma expressão que representa humanidade e pluralidade humana, e é advinda da tribo indígena Mehináku, que habita do Parque Indígena do Xingu no Estado do Mato Grosso, Amazônia Central Brasileira. E o que Marlui Miranda faz aqui é um trabalho ousado e minucioso de registrar diversas canções baseadas em diversos povos e tribos indígenas da Amazônia, todas canções com suas respectivas temáticas humanas e as respectivas línguas nativas dos povos pesquisados. A sonoridade resulta-se em um hibridismo de canções em línguas nativas, flautas tribais, cordas dedilhadas -- kora africana e violão brasileiro --, harmônica, percussões sutis, sonoridades amazônicas e uma atmosfera jazzy proporcionada pelo contrabaixo acústico, ingredientes que deixam essas canções tribais com uma roupagem um tanto moderna.

Värtinnä é um grupo vocal de música folclórica finlandesa, mas não só: em sua música há muito requinte instrumental, com arranjos elaborados em torno da combinação de instrumentos modernos com instrumentos tradicionais nórdicos, frequentemente misturando música folclórica com rock, jazz e música pop. Banda que começou como um projeto das irmãs Sari e Mari Kaasinen em 1983, na vila de Rääkkylä, na Carélia, região sudeste da Finlândia, o grupo ganhou notoriedade nos anos 90 após passar por diversas formações -- com entrada e saída de vocalistas femininas, instrumentistas diversos e até um coral de crianças -- e, nos anos 2000, chegou a trabalhar com o famoso compositor indiano A.S. Rahman na adaptação da trilogia de O Senhor dos Anéis (de J. R. R. Tolkien) para o teatro. Com forte personalidade étnica, linguística e cultural em torno do dialeto careliano e de canções dos povos fino-úgricos, o Värtinnä também se difere pelo fato de muitas das suas canções serem compostas pelas irmãs Sari e Mari Kaasinen e as vocalistas da Carélia que são contratadas para colaborar com a banda. Contudo, no final dos anos 90, através do álbum Vihma (Wicklow, 1998), o grupo passou a se diversificar ainda mais com muitas das composições sendo escritas pelos instrumentistas masculinos da banda, o que conferiu arranjos instrumentais mais diferenciados, com efeitos eletrônicos, influências do jazz e mudanças rítmicas mais diversas e complexas.

Este fantástico registro, primeiro álbum gravado pelo Kodō, documenta muito das facetas percussivas do taiko proveniente dos povos de descendência indígenas no Japão conhecido como Ainos. O Kodō é um coletivo de percussionistas baseados na ilha japonesa de Sado, aos quais pode-se creditar muito da popularidade que a música dos tambores taiko têm dentro e fora do Japão -- eles regularmente fazem turnês pelo mundo apresentando as sonoridades únicas dos seus tambores. Além da característica percussão, evocações vocais, tipos de fue (flautas japonesas) e shamisen são outros adereços instrumentais que temperam sua música. Este registro, especificamente, foi gravado em março de 1985 no estúdio 20th Century Fox, Los Angeles, California, logo após as aclamadas apresentações no Olympic Arts Festival que prescederam os jogos da Olimpíadas de 1984. Em 2002, mais uma vez o coletivo seria convidado para ser uma das atrações de abertura da Copa Mundial de Futebol realizado pela FIFA. Sendo este seu primeiro registro, posteriormente o Kodō englobaria abordagens mais modernas em seu taiko de origem tribal.


 
As tradições musicais do mundo árabe são fundidas magistralmente com a improvisação do jazz e as técnicas clássicas europeias pelo músico e compositor libanês Rabih Abou-Khalil. Músicos e críticos de música costumam relatar que Abou-Khalil "procurou consistentemente criar uma ponte entre a milenar música árabe e o mundo musical mais moderno e universal de hoje em dia"; e ainda o elogiam como o detentor de "um estilo original que mostra ao mundo, com sucesso, a música folk e o jazz árabe feito no oriente médio". Ou seja, não obstante unir as modernidades das músicas americana e europeia com a música árabe, o músico ainda destila originalidade, identidade própria. Embora aprendesse tocar o oud -- instrumento derivado do alaúde, muito comum na música do Oriente Médio -- quando ainda era um jovem, Abou-Khalil se dedicou temporariamente à flauta clássica, que estudou na Academia de Música de Munique, Alemanha, durante sua fuga da guerra civil libanesa, em 1978. Em uma tentativa de explorar maneiras novas de tocar a música árabe, retornou ao oud e começou a incorporar as técnicas usadas mais frequentemente na guitarra jazzística. Combinando ousadia instrumental com explorações igualmente ousadas no ramo da composição, nos anos 90 Abou-Khalil, comissionado pela rádio Southwest German, escreveu duas peças que foram executadas em parceria com o Quarteto de Cordas Kronos no Stuttgart Jazz Summit em 1992, e que foram gravadas pelo Quarteto de Belanescu quatro anos mais tarde. Já com a carreira de instrumentista em franca ascensão, Abou-Khalil trabalharia com uma mistura de música árabe, indiana e jazz, estabelecendo parcerias com grandes músicos americanos. Dois dos álbuns que exemplificam esse intercâmbio são Bukra (1988) e Al Jadida (1991), os quais retratam esse início já consolidado e aplaudido pela crítica especializada: para esses álbuns, Rabih chamou o saxofonista alto Sonny Fortune, o baterista Glen Valez, percussionista e tocador de congas Milton Cardona, o acordeonista Howard Levydo e os contrabaixistas Glen Moore e Steve Swallow, além dos percussionistas indianos Nabil Khaiat e Ramesh Shotham. Ambos os álbuns exploram, com grande maestria, a intersecção do improviso jazzístico com as técnicas percussivas e instrumentais da música árabe e indiana.

O Hadouk é um trio excepcional que funde jazz com world music. Os três integrantes são Didier Malherbe (um mestre em vários instrumentos de sopro como o saxofone, o clarinete, a flauta transversal, além de flautas nativas e o hajouj, uma espécie de oboé da armênia que, a propósito, deu o nome hadouk ao trio), Shehan Steve (baterista e percussionista, mestre em uma variedade de tambores) e Loy Ehrlich (que toca sintetizador, kora, sanza e os mais variados instrumentos de cordas). Hadouk Trio é um grupo de uma universalidade com poucos paralelos na atualidade da world music contemporânea, tendo se destacado desde meados da década de 90 como um dos mais originais grupo de criadores e aventureiros musicais europeus, inspirados por elementos do jazz, da música armena, árabe, africana, dentre muitas outras. Com roupagens ambientadas em experimentações fusionistas, o trio usa muitos instrumentos étnicos inusuais para compor e improvisar próximo ao estilo chamado world-fusion, prezando, muitas vezes, por roupagens folks e acústicas, mas também usando o teclado eletrônico e o contrabaixo elétrico para contrastar com os instrumentos acústicos tradicionais. Utopies, o quinto e um dos melhores álbuns do grupo, é um exemplo claro que traz toda essa gama de sonoridades. Neste álbum,  há uma bela participação do  trompetista americano Jon Hassell, que colabora com uma sonoridade macia e faz jus à todo o clima contemporâneo e agradável do disco. Um dos mais belos lançamentos de 2006, Utopies (Naive) foi um dos discos de jazz mais vendido na França na época.


 

Um dos combos mais espetaculares e criativos a surgir na década de 90, o Moscow Art Trio surgiu das ambições do pianista ucraniano Mikhail Alperin, um músico com ascendência jazzística, mas com ideias de abrir o leque para abranger outros elementos da world music. A esse pianista juntou-se o trompetista russo Arkady Shilkloper, que antes de focar em sua carreira solo já tinha acumulado experiência no ramo da música erudita com uma cadeira fixa no Bolshoi Theatre, sendo músico do Bolshoi Brass Quintet e da Orquestra Filarmônica de Moscow. Com o colapso da antiga União Soviética em 1990, Arkady passou a ter mais liberdade de seguir suas ambições, desenvolvendo trabalhos independentes que abrangeram atuações com músicos da música improvisada europeia como Louis Sclavis e atuações com a grande Viena Art Ochestra. Em 1991 Mikhail e Arkady montaram um duo que logo foi acrescentado pelo vocalista e soprador Sergey Starostin, um músico russo fascinado pela música popular e pelo folclore de seu país. Assim, formou-se um dos maiores combos da nova música europeia: juntaram-se as influências, a fluência e o conhecimento jazzístico de Mikhail Alperin, a sensibilidade e técnica erudita de Arkady Shilkloper e o gosto pelo folclore de Sergey Starostin, e o condimento para uma música europeia híbrida estava formado. Lançando seus discos pelo selo Jaro, o projeto foi certeiro, obtendo um grande sucesso regado à interação de jazz, música erudita world music e elementos étnicos e folclóricos, colocando o grupo nos radares da crítica especializada. O Moscow Art Trio acrescenta em suas concepções o uso da livre improvisação, do minimalismo, do folk, das interações camerísticas eruditas e, movidos pela diversidade cultural proporcionada pelas expansões políticas da ex URSS, também incorporaram muito da música moldaviana, tcheca, chinesa, búlgara e escandinava. Com essa abrangência, o trio passou a ostentar sucesso de público e crítica em praticamente todos os palcos e festivais europeus abertos ao jazz contemporâneo e ao world fusion europeu -- da Rússia à Noruega. O álbum Hamburg Concert, indicado acima, é um bom exemplo de um jazz contemporâneo miscigenado com elementos tradicionais russos. Já para quem já quer ver ouvir o grupo imerso em abordagens ainda mais folclóricas, indico o álbum Mountain Tale (Jaro Medien) com a participação do grupo coral The Bulgarian Voices Angelite e com os músicos do grupo Huun-Huur-Tu de Tuva -- República de Tuva, região russa fronteiriça com a Mongólia --, os quais são conhecidos pelo canto diofônico (canto vocal que emite dois ou mais sons em simultâneo) e o uso de instrumentos tradicionais tais como o igil, o khomus (uma harpa de boca tuviniana), o doshpuluur e o dünggür (tambor xamânico), entre outros.

Atualmente liderado por Bachir Attar, o Master Musicians of Jahouka é um coletivo milenar de músicos tradicionais e vocalistas das Montanhas Rif, na Vila de Jajouka, localizada na região nordeste do Marrocos. Com uma tradição milenar -- musical, mitológica e ritualística -- conhecida como jbala sufi, e que foi passada de geração em geração, a peculiar música produzida pelo coletivo é caracterizada por técnicas vocais locais e instrumentos tradicionais milenares tais como o tebel e tariyya (bateria), ghaita (um instrumento de sopro), lira (uma espécie de flauta) e gimbri (um instrumento de cordas), os quais produzem uma sonoridade que desde os anos 60 vem ganhando as atenções de roqueiros, músicos de jazz e experimentalistas aficionados por world music. Brian Jones (do Rolling Stones), o saxofonista Ornette Coleman, o DJ Talvin Singh e o guitarrista Marc Ribot são alguns dos músicos célebres que contaram com o coletivo em gravações. Este álbum, gravado pelo produtor Bill Laswell é, curiosamente, um dos mais fiéis à sonoridade do coletivo da Vila Jajouka -- sem misturas. Desde sempre um experimentalista e aficionado por sonoridades estranhas e exóticas, Bill Laswell embarcou no Marrocos em 1991 e logo se dirigiu à pequena vila de apenas 800 habitantes nas Montanhas Rif, na real intenção de gravar o grupo para seu selo Axiom. O resultado é este fantástico documento Apocalypse Across The Sky. Ao contrário de outros projetos de Laswell que reúnem sons experimentais com diferentes culturas e gêneros, esse registro documenta a autêntica sonoridade do coletivo, se destacando primorosamente pela qualidade da produção e da gravação.

Este é um dos exemplos da gypsy music do Leste Europeu e um dos álbuns mais interessantes que já ouvi em termos de world music por seu aspecto de riqueza intercontinental. Trata-se de um álbum arranjado pelo trompetista sérvio Duško Gojković -- um célebre músico de jazz, diga-se de passagem --, em parceria com o também trompetista Ekrem Sajdic e sua brass band formada por músicos locais de Vranjska Banja, uma aldeia romani situada na região fronteiriça entre a Sérvia e Kosovo. Conhecida como Gipsy Groovz, essa banda de metais representa uma tradição musical romani-cigana local que é passada de geração em geração tanto como uma identidade cultural dessa localidade do Leste Europeu como também como um meio de sobrevivência, uma vez que essas bandas fornecem música para casamentos, enterros, festejos religiosos e outros eventos locais. É sabido que nessa região há, então, uma forte tradição de bandas de metais que carregam elementos, adereços e linguagens musicais de vários países circunvizinhos -- até por ser uma das regiões mais etnicamente complexas do planeta, com dezenas de povos de diferentes descendências e ascendências os quais até recentemente, há algumas décadas atrás, disputavam o mesmo território. E esse álbum é o retrato dessa riqueza: ele foi proporcionado através do "Golden Brass Summit", festival de bandas de metais que se realiza há mais de quatro décadas em Guča, Sérvia, onde o trompetista de jazz Duško Gojković teve a oportunidade de participar e conhecer esses músicos locais. Também está presente o percussionista sul-indiano Ramesh Shotam, que acrescenta um peculiar sabor percussivo proveniente dos talas carnáticos. Trompetes, cornetas, trompas, fliscornes, eufônios, tubas, clarinetes, percussões e outros sopros aqui se contracenam em exóticos e exuberantes uníssonos, improvisos e sobreposições polifônicas marcadas por elementos, linguagens e adereços melódico-rítmico-harmônicos ciganos, armênios, turcos, búlgaros, macedônios, sérvios e até indianos, com reflexos advindos até do flamenco espanhol (que é proveniente da música cigana, em sua origem) e da klezmer judaica.

Liderada pelo exímio trompetista Boban Marković, a Boban Marković Orkestar é outra das célebres gypsy brass bands da Sérvia que ficou conhecida por sua exuberância musical e sua riqueza de adereços culturais marcada pela miscigenação local de etnias, povos e linhagens balcânicas do Leste Europeu -- macedônicas, romani-ciganas, húngaras, gregas, romenas, croatas e até influências indianas que marcam o território... entre outras. Localizada na vila de Vladičin Han, no sul da Sérvia, A Boban Marković Orkestar também é outra das que frequentemente ganham destaque no célebre concurso de brass bands em Guča, Sérvia -- sem mencionar suas aparições frequentes em vários eventos, casamentos, festejos tradicionais, festivais locais e em festivais e shows em países fino-úgricos abertos aos adereços culturais dos balcãs. Este álbum é interessante porque é um dos registros que mais evidenciam o enriquecimento de abordagens pelo qual a brass band passou entre finais dos anos de 1990 e início dos anos 2000, quando ela expandiu ainda mais suas abordagens com mais dois percussionistas -- um especializado em bateria, outro especializado em percussões tradicionais árabes, balcãs, turcas e etc -- e passou por uma guinada rumo a um maior sucesso, contracenando com vários colaboradores e convidados célebres tais como o cineasta Emir Kusturica, o compositor Goran Bregovic, o violinista Felix Lajkó, dentre outros. Esse registro também marca a renovação da Boban Marković Orkestar com a chegada do jovem Marko Marković, filho de Boban, que se tornaria o principal solista e arranjador da banda. Com um repertório majoritariamente de canções tradicionais ciganas, sérvias e balcânicas impecavelmente arranjadas para brass band, também temos uma composição do célebre compositor indiano A. R. Rahman ("Mere Yaara Dildara"), uma canção do cantor e violinista polonês Tomasz Kukurba ("Sat (Time)"), um tema do violinista klezmer Frank London ("Magija"), uma canção popular de autoria de Dragan Miljanović ("Hajde Bobane Zasviraj") e um tema composto pelo próprio Boban Marković ("Balkan Fest").

Agora estamos na vila Zece Prăjini, Iași, no nordeste da Romênia, onde a brass band Fanfare Ciocărlia faz base. Uma das brass bands mais célebres do Leste Europeu, a Fanfare Ciocărlia é composta por mais ou menos 12 músicos ciganos mais percussionistas e convidados -- corais, cantores populares e outros instrumentistas adjuntos -- e centra-se nas abordagens das tradições musicais romenas, romani-ciganas, búlgaras, turcas, macedônicas, entre outras. Com o passar dos anos, eles também foram incorporando até uma série de melodias colhidas de rádios internacionais, standards de jazz e temas célebres do cinema -- do Hollywood americano ao Bollywood indiano. Neste álbum, Iag Bari - The Gypsy Horns from the Mountains Beyond, a banda centra-se na música popular dos povos cigano-romani das montanhas locais, tendo como convidados alguns dos célebres cantores e artistas da música pop romena tais como Dan Armeanca, Costel Vasilescu e Rom Bengale. Interessante também é a participação do coral The Bulgarian Voices Angelite, que traz um pouco da tradição do canto litúrgico búlgaro para o repertório. Tornando-se célebre, com muitas aparições em festivais europeus, a Fanfare Ciocărlia se apresentou no Prêmio Nobel da Paz de 2012 e é autora da trilha sonora do filme Borat Subsequent Moviefilm (2020), do cineasta e comediante Sasha Baron Cohen.