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Orquestras, Big Bands e Bandleaders: Michael Mantler, Jazz Composer's Orchestra e o humor orquestral de Carla Bley


Na última lista de rankings que compõe o DownBeat Critics Poll, com críticos do mundo todo que votam nos "melhores músicos e álbuns de jazz do ano", a compositora e bandleader Carla Bley, então com 85 anos, aparece com um merecido destaque ao ter sido agraciada com uma estrela em seu nome no Hall of Fame of Jazz, honraria divulgada anualmente pela Downbeat Magazine. A compositora, que venceu o pianista Kenny Barron e o saxtenorista Pharoah Sanders nessa eleição, saiu até na capa da edição de Agosto. E, de fato, a energia e a influência que a obra de Carla Bley emana na comunidade jazzística -- seja nos meandros do mainstream, seja nos meandros do avant-garde -- é algo muito presente e muito forte, desde finais dos anos 60. Numa época onde era muito raro haver mulheres entre os instrumentistas de jazz -- e ainda mais mulheres sendo compositoras e bandleaders --, Carla Bley já se fazia uma figura influenciadora através do seu humor, da sua natural aptidão para a liderança e da sua versatilidade em unir o avant-jazz da época com pastiches da tradição e elementos de diversos outros gêneros. Iniciando sua carreira profissional como garçonete no nightclub Birdland, um dos clubes seminais do jazz em Nova Iorque, Carla Bley inicia sua empreitada musical logo em seguida no início dos anos 60 ao conhecer o pianista Paul Bley, que seria seu primeiro marido. É Paul Bley quem a incentiva para escrever diversas peças para os principais músicos vanguardistas da época tais como George Russell, Steve Lacy e Charlie Haden. Mais tarde, a compositora e bandleader se especializa em peças para compactas big bands e orquestras, passando a imprimir um estilo distinto onde o humor sarcástico, através da mistura de gêneros e subgêneros -- partes escritas com colagens, jazz com rock, balada pop com ópera, partes instrumentais com partes faladas, free jazz com jazz tradicional e etc --, foi seu principal trunfo. Já acostumada a liderar os maiores músicos, Carla Bley lançou sua grande obra prima Escalator Over The Hill em 1971, uma ópera-jazz em parceria com o poeta e escritor Paul Haines que, em minha opinião, é um dos registros pioneiros do início da música pós-moderna no século 20 -- tal como Sinfonia de Luciano Berio (1969) ou Lumpy Gravy de Frank Zappa (1968). Neste post, pegando esse gancho da entrada da bandleader no Hall of Fame of Jazz, discorro abaixo sobre essa faceta da Carla Bley como bandleader, partindo da formação da sua Jazz Composer's Orchestra, que foi uma das principais fontes criativas do avant-garde jazz na passagem da segunda metade anos de 1960 para os anos de 1970, e da sua relação com o trompetista e compositor Michael Mantler, com o qual não apenas empreenderia uma frutífera parceria musical como também iniciaria um segundo casamento -- Michael Mantler, aliás, foi sua principal inspiração na formação conceitual das suas obras orquestrais, desde o início.

 

A Jazz Composer's Orchestra tem sua origem no Jazz Composer's Guild, uma organização de músicos e compositores de vanguarda fundado pelo trompetista Bill Dixon para produzir eventos, festivais, apresentações e para fomentar a comunidade e o desenvolvimento dos músicos na época ligados ao free jazz. Em 1964, Bill Dixon produziu uma série de concertos em Nova Iorque num evento que ficou conhecido como "October Revolution in Jazz" e que seria estendido para mais algumas apresentações em 1965. Michael Mantler e Carla Bley formaram, então, uma grande banda de improvisação coletiva que foi nomeada como Jazz Composer's Guild Orchestra e que seria uma das principais atrações deste importante evento de vanguarda. Após o término do "October Revolution in Jazz" e da dissolução da Jazz Composer's Guild, a "big band" passou a se apresentar com o nome Jazz Composer's Orchestra, mas agora regida por um selo e organização sem fins lucrativos chamada Jazz Composer's Orchestra Association Inc (JCOA). Em abril de 1965, Mantler e Bley lançaram seu primeiro registro com a orquestra intitulado Communication, pelo selo Fontana. Três anos depois, segue-se o lançamento do álbum The Jazz Composer's Orchestra (JCOA, 1968), onde, além da presença de alguns dos principais freejazzers da época -- incluindo o pianista Cecil Taylor com seu explosivo estilo de piano free -- faz-se necessário enfatizar a presença do guitarrista Larry Coryell, que na época já se tornava conhecido por sua distinta guitarra elétrica, com o peculiar timbre com o qual ficaria conhecido por ser um dos precursores do jazz fusion. Aliás começa a ficar claro, neste segundo registro, que a ideia de Michael Mantler e Carla Bley não era fechar o cerco da sua orquestra para abrigar apenas autênticos músicos de free jazz, mas sim permitir uma experiência coletiva variada, onde se pudesse unir músicos de diferentes estilos e possibilidades variadas de intersecções musicais. Portanto, podemos dizer que além de ser um dos primeiros coletivos de free jazz e improvisação livre da história do jazz -- surgida três anos depois do double quartet evidenciado no álbum Free Jazz - A Collective Improvisation (Atlantic, 1961) de Ornette Coleman, e surgida na mesma época da "big band" evidenciada no álbum Ascencion (Impulse!, 1965) de John Coltrane --, a Jazz Composer's Orchestra ainda seria a primeira "big band" de vanguarda a permitir que o free jazz fosse inserido dentro do contexto do arranjo pré-elaborado numa mistura com elementos de outros gêneros e subgêneros, tais como o rock e a world-fusion, bem como incluindo inserções de uma boa dose de drama, humor, paródia e ironia com influências advindas das canções vocais e poemas cantados ou falados ao estilo das obras de Kurt Weill  -- vide suas obras em parceria com Bertolt Brecht.

Nestes dois primeiros álbuns -- Communication e The Jazz Composer's Orchestra --, os arranjos, produção e direção ficam à cargo de Michael Mantler, ao passo que Carla Bley colabora mais como pianista do que como arranjadora. No próximo álbum, porém, Carla Bley toma as rédeas do projeto para adaptar os poemas de Paul Haines e dar luz ao clássico Escalator Over the Hill. Considerada uma jazz-ópera híbrida de influências que vão da música tradicional indiana ao canto lírico, do spoken word aos musicais ao estilo Kurt Weill, do rock ao free jazz, com pitadas de paródias e ironia, Escalator Over the Hill é um dos registros mais fantásticos da história do jazz, um registro verdadeiramente precursor do pós modernismo musical que se instauraria nas décadas seguintes, principalmente pela genialidade com a qual Carla Bley reuniu um grupo distinto de músicos, artistas, narradores, cantores e uma miscelânea de estilos e ideias diferentes para compor essa obra prima. Entre os artistas reunidos nesta gravação estão a atriz Viva (ligada a Andy Warhol), o rockeiro Jack Bruce (ligado ao Cream e Frank Zappa), a jovem cantora (ainda relativamente desconhecida) Linda Ronstadt, além de Jeanne Lee, Paul Jones, Don Preston, Sheila Jordan e a filha de 4 anos de Carla Bley e Michael Mantler, Karen Mantler. Ademais, esses registros com a Jazz Composer's Orchestra foram o suficiente não apenas para colocar os nomes de Michael Mantler e Carla Bley no organograma da música de vanguarda, como também inspiraram no surgimento de outros projetos orquestrais do tipo, como a Liberation Music Orchestra, fundada pelo contrabaixista Charlie Haden. Inspirado pelas temáticas do comparativo da Guerra Civil Espanhola (1939) com a luta armada de Che Guevara em Cuba no final dos anos 50, Charlie Haden dá vida à sua masterpiece, lançada pela Impulse! em 1970, justamente com a presença de Carla Bley nos arranjos. Em 1983, Carla e Haden retomariam a parceria lançando o ótimo The Ballad of the Fallen, editado pela ECM.


Sob o selo JCOA Records, cinco outros grandes músicos do free jazz empreenderia projetos orquestrais com a Jazz Composer's Orchestra em mais cinco registros exploratórios: Relativity Suite (produzido em 1973 pelo trompetista Don Cherry), um álbum que mistura free jazz com elementos de músicas chinesa, indiana, africana e música de New Orleans; Numatik Swing Band (produzido em 1975 pelo trombonista Roswell Rudd), um álbum gravado ao vivo com sessões mais compassadas e suingantes; The Gardens of Harlem (produzido em 1975 pelo trompetista Clifford Thornton), um álbum com várias influências afro-cubanas, jamaicanas, ganianas, argelinas e americanas (gospel e blues), incluindo uma peça baseada no grito cantante de um vendedor de frutas da Carolina do Sul; Echoes of Prayer (produzido pelo trombonista Grachan Moncur III), um álbum com uma única e extensa peça de quatro movimentos que permite a interação instrumental free com um ensemble de percussão e cantos vocais; e, por fim, For Players Only (produzido em 1975 pelo violinista Leroy Jenkins), um álbum com peças curtas, mas composicionalmente intrincadas. Estes álbuns -- lançados as duras custas destes músicos, que obtinham pouco dinheiro e poucos espaços naquele combalido cenário dos anos 70, economicamente falando -- encerram as atividades da Jazz Composer's Orchestra e da etiqueta JCOA, já que sua distribuidora New Music Distribution Service (NMDS) estava passando por dificuldades com dívidas que lhe obrigaria a não mais firmar acordos para novas gravações. Contudo, essas gravações mostram a importância deste coletivo de músicos que foi a primeira na linha sucessória dos coletivos de improvisação após os registros de Ornette Coleman e John Coltrane, e por onde passaram vários -- dos principais até os mais "underrateds" -- freejazzers das décadas de 1960 e 1970.
Carla Bley, por sua vez, se tornaria altamente reconhecida como um dos mais originais compositores, arranjadores e bandleaders da história do jazz. O sucesso de Escalator Over the Hill ainda inspiraria a compositora e arranjadora a lançar uma sequência de outros projetos orquestrais inspiradores. Em 1975, por exemplo, ela e Michael Mantler lançam o impressionante e raro LP Michael Mantler/ Carla Bley – 13 & 3/4 (WATT/ECM), com duas peças extensas: a primeira para piano e duas orquestras; a segunda apenas para piano e orquestra. Durante a maior parte da segunda metade dos anos 70, porém, a arranjadora se limitaria a não mais trabalhar com uma big band, propriamente dita, mas com o seu combo intitulado Carla Bley Band num compacto formato de octeto, noneto e principalmente tenteto, atingindo, no máximo, uma formação de 12 a 13 músicos, com adição de vocais e convidados especiais -- nesta fase, aliás, ela mostra um mínimo de influência da estética fusion através do uso de piano e baixo elétricos e principalmente através da sua predileção pelo órgão eletrônico, que muitas das vezes substituiu o piano acústico em seus shows e gravações. Lançando seus registros agora com o compacto combo Carla Bley Band pelos selo WATT -- subsidiado pela célebre gravadora alemã ECM --, seu estilo único de arranjo e composição distanciou-se da estética daquele free jazz cru e cacofônico e aperfeiçoou-se cada vez mais com composições marcadas por uma música colorida, irônica, sarcástica e marcada por paráfrases e "medleys" humorísticos com citações a outros compositores e/ou trechos com estilos diferente de música -- tendo, diga-se de passagem, uma mínima influência das suítes de Charles Mingus.


Após dar ênfase em projetos com combos menores, a arranjadora e compositora só voltaria ao formato orquestral no final dos anos 80 com o álbum Fleur Carnivore e no início dos anos 90 com os álbuns The Very Big Carla Bley Band e The Big Band Theory, mas agora com seu exótico estilo diluído na tendência maior da época, que era o neotradicionalismo: ou seja, a nova onda de revalorização das tradições e dos avanços passados do jazz na qual a maioria dos músicos -- incluindo os vanguardistas de outrora -- passaram a surfar e pela qual os elementos inovadores de mestres do passado seriam assimilados e retrabalhados. Em 1996, ela lança o interessante The Carla Bley Big Band Goes to Church: a gravação foi realizada ao vivo em Perugia, na Itália, num show onde a arranjadora e compositora inspirou seus temas em canções sacras/religiosas. Por fim, após mais um hiato em projetos orquestrais, em 2003 ela retorna ao formato big band no álbum Looking for America (WATT/ECM), onde ela explora a temática do nacionalismo americano usando fragmentos do "Hino Nacional Americano" em seus distintos arranjos. O último registro de Carla Bley com o formato de big band é o álbum ao vivo Appearing Nightly (WATT/ECM, 2008), onde a compositora e arranjadora explora, por meio do seu humor e da sua ironia, standards e elementos da Era do Swing com pitadas dos estilos de Duke Ellington e Charles Mingus. Apesar de nos anos 90 e 2000 Carla Bley ter adotado um revival às tradições do jazz, seu estilo irônico com humor intrigante sempre foi latente, bem como sua contribuição para a vanguarda do jazz nunca será esquecida.