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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (06) 

 

★★★★ - Kris Davis & Lutosławski 4tet- Solastalgia Suite (Pyroclastic 2026)
A pianista e compositora canadense-americana Kris Davis, que tem se destacado com seu ensemble de 10 integrantes Diatom Ribbons e com seu piano-trio com o baterista Jonathan Blake e o contrabaixista Robert Hurst, agora lança um projeto numa direção um tanto diferente. Trata-se deste álbum chamado The Solastalgia Suite, que traz uma interessante suíte em oito partes que ela escreveu para piano e quarteto de cordas, aqui com o excelente Quarteto de Cordas Lutosławski, da Polônia, e com ela mesma ao piano. A peça foi uma encomenda do Festival Jazztopad, em Wrocław, e o álbum está sendo lançado pela Pyroclastic Records, influente gravadora de propriedade da própria pianista. O quarteto é formado por Roksana Kwaśnikowska (primeiro violino), Marcin Markowicz (segundo violino), Artur Rozmysłowicz (viola) e Maciej Młodawski (violoncelo), e é reconhecido internacionalmente por suas interpretações afiadas do repertório moderno e contemporâneo, bem como por sua afinidade com a obra do grande compositor polonês Witold Lutosławski. Pois eis que a pianista, ao receber a encomenda, tratou logo de compor uma peça em que elementos do jazz contemporâneo coexistissem com elementos da música erudita moderna, sendo essa sua primeira composição nesse formato camerístico ampliado. A suíte foi estreada e gravada ao vivo em 23 de novembro de 2024, no Jazztopad Festival, na Polônia, e já teve apresentações subsequentes no Dizzy’s Club, no Jazz at Lincoln Center, em Nova York, e agora o respectivo álbum tende a ser um dos registros mais interessantes de 2026. O conceito central da peça deriva do termo "solastalgia", cunhado pelo filósofo ambiental Glenn Albrecht para descrever o luto, a angústia e o deslocamento psicológico que a degradação ambiental causa nas pessoas: a pianista teve esse insight ao observar que as degradações ambientais ocorridas em seu país natal, o Canadá, mudaram radicalmente a natureza e, consequentemente, mudaram a aura na relação da população com o meio ambiente. Estruturada em oito movimentos interligados, a suíte funciona como um arco narrativo contínuo que explora diferentes estados emocionais e paisagens sonoras, alternando passagens entre contemplação e angústia, espaçamentos e mudanças abruptas, tensão e melancolia, lirismo e densidade rítmica, imagetismo e rarefação espacial, tudo para evocar aspectos sensoriais e emocionais da relação conflituosa entre a alma humana e o meio ambiente. Tecnicamente, a peça é majoritariamente escrita e traz sobreposições contrapontos entre piano e cordas muito bem estruturados previamente em pauta, mas há pontos em que ela combina escrita rigorosa com improvisação controlada, além do uso extensivo de texturas atonais, harmonias rarefeitas, espaçamentos, ataques percussivos e efeitos sonoros bem pensados para evocar as tais sensações de "solastalgia". Em momentos específicos —— como em Towards No Earthly Pole ——, a pianista usa técnicas de piano preparado e os músicos do quarteto utilizam técnicas estendidas e recursos específicos nas cordas para criar tais efeitos, fazendo uso de recursos como harmônicos agudos, arranhaduras, staccatos agressivos, sul ponticello e sobreposições de massas sonoras em camadas. Para compor essa peça, Kris Davis abstraiu inspirações do tom apocalíptico emanado pela emblemática e histórica peça Quatuor pour la fin du temps, do compositor erudito francês Olivier Messiaen, e das ideias composicionais inovadoras do compositor de jazz Henry Threadgill, com quem ela estudou, abstraindo ideias singulares de lógica modular, elasticidade, sinergia entre improviso e composição, recusa de resoluções convencionais e coexistência de todos os instrumentos do ensemble como um só organismo. O piano de Kris Davis e as cordas do Lutosławski Quartet, enfim, tanto representam o ser humano e o meio ambiente em seus conflitos como também representam um só organismo vivo a contracenar diferentes emoções, sensações e climas. Esse será um dos álbuns a figurar entre os melhores de 2026!!!

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GIANTS: A história dos revolucionários sintetizadores Moog contada pelos engenheiros, produtores, músicos e bandas


A companhia RA Moog & Co., fundada em 1954, tem uma considerável parcela de responsabilidade no fato de que inúmeras bandas de rock, soul e funk, e muitos músicos de jazz, adotaram os sintetizadores e moduladores eletrônicos já nos anos 60, levando a música acústica para o novo território das sonoridades eletrônicas. Consequentemente, é impossível falar do nascimento da música eletrônica popular e da evolução da música pop em geral sem citar os inovadores modelos de sintetizadores e de outros eletrônicos criados pela Moog: ela revolucionou o timbre da música na segunda metade do século XX e só foi "superada" em fins da década de 70 com a chegada dos modelos digitais japoneses -- e ainda assim, seus modelos analógicos continuaram a conquistar adeptos, mesmo entre os músicos japoneses que foram precursores e pioneiros da eletrônica digital. Um artigo postado no site do The Guardian dá um resumo do legado deixado pelos instrumentos eletrônicos criados e empreendidos por Robert Moog, um engenheiro aficionado pela eletrônica que construiu seu primeiro theremin aos 14 anos de idade. Após levar a Moog ao topo entre meados dos anos 60 e meados dos anos 70, a empresa  engata uma série de mudanças desastrosas para competir com os japoneses, e Bob Moog deixa sua própria companhia em 1978. Ele trabalharia como consultor em outras inovações de música eletrônica, como no projeto do Fairlight CMI (Computer Musical Instrument), um dos primeiros sintetizadores digitais com interface computadorizada, e nos anos 90 voltaria a fabricar seus próprios theremins e pedais de efeitos, dentre eles o célebre Moogerfooger. Em 2002 Robert Moog readquire os direitos da marca Moog e volta a liderar a empresa anunciando novos sintetizadores, alguns deles protótipos exclusivos para músicos famosos. É dessa fase a produção do célebre Voyager, um modelo dedicado ao influente rapper e produtor J Dilla que é, na verdade, uma atualização bem sucedida do Minimoog, modelo furtado por Sun Ra em 1969. Sim: Sun Ra, nosso enigmático alienígena do jazz, teve uma relação bem próxima com a marca, sendo um dos primeiros músicos a propagá-la. Curiosamente, aliás, uma das primeiras artistas a popularizar os sintetizadores Moog foi a pianista clássica Wendy Carlos com releituras de obras de Johann Sebastian Bach em seu álbum de estreia Switched-On Bach (Columbia Masterworks, 1968), mas o iconoclasta tecladista de jazz Sun Ra também seria um dos primeiros a fazê-lo. Na série de posts "Organs, Keyboards & Synthesizers" aqui no blog  chegamos a contar a história em que o tecladista de Saturno visita à fábrica da Moog e se torna o primeiro músico de jazz a popularizar os sintetizadores da marca ao pegar emprestado um dos primeiros protótipos do Minimoog (Modelo B) e praticamente furtá-lo, sem nunca tê-lo devolvido à fábrica -- a história é relatada, aliás, no próprio site da companhia. Inclusive, para quem curte sonoridades eletrônicas, esta série de posts aqui no blog traz uma lista considerável de álbuns -- de jazz fusion e da música eletrônica, propriamente dita, em sua fase embrionária -- que são emblemáticos no uso criativo dos sintetizadores, moduladores e vocoders, incluindo o uso de diversos eletrônicos da Moog. Abaixo segue, também, indicações de dois documentários que abordam o sucesso de Robert Moog e seus sintetizadores. Ou seja, introduções auditivas e informativas em relação aos elementos iniciais da eletrônica não faltarão aqui para o ouvinte-leitor. 



Agora em fevereiro de 2022, a Moog acaba de anunciar uma nova série de documentário em seu canal do Youtube chamada GIANTS (primeiro episódio disposto acima), produzida justamente para celebrar os protótipos que fizeram história e os novos caminhos sonoros abertos pelos engenheiros precursores e pioneiros da eletrônica portátil relacionados à marca. O primeiro episódio da série apresenta o coinventor, compositor e educador Herb Deutsch, um dos fundadores da companhia junto com Robert Moog. Além de Deutsch, nomes importantes da eletrônica contemporânea, tais como Bernie Krause e Suzanne Ciani, também são convidados. Os episódios incluirão entrevistas e um rico arquivo de sons e imagens, além de depoimentos de diversos outros artistas, produtores e bandas de variados gêneros que adotaram o uso dos sintetizadores e moduladores da marca, incluindo a participação de Daniel Miller, fundador da Mute Records. Vale lembrar que um documentário similar já tinha sido lançado em 2004 -- um ano antes do falecimento de Robert Moog -- pelo pianista e filmmaker Hans Fjellestad, que intitulou seu filme apenas de MOOG. Só que o filme de Fjellestad centra-se apenas na figura de Robert Moog e sua relação com os músicos e com a indústria da música: o engenheiro-chefe criou vários protótipos exclusivamente dedicados aos músicos que ele conheceu -- como o já citado Minimoog Voyager, modelo projetado para J Dilla --, e por conta dessa relação de proximidade com o meio musical ele é considerado um verdadeiro midas da música eletrônica. Ou seja, MOOG não é um documentário abrangente da história da eletrônica nem serve como uma história cronológica do desenvolvimento dos sintetizadores da marca. Agora, pois, essa série  chamada GIANTS nos dará a oportunidade de conhecer o histórico da revolução empreendida pela Moog, adentrando aos detalhes dos seus modelos de sintetizadores e suas aplicações. Abaixo, a trilha sonora com faixas das bandas e músicos que participaram do documentário de Hans Fjellestad em 2004. Vá ao Youtube para assistir os episódios de GIANTS.





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