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Wadada: 80 anos de Vida, 50 anos de Arte: do free jazz à eletrônica, 15 álbuns que resumem o trompetista rastafari


O legendário trompetista Wadada Leo Smith é uma daquelas figuras que, no decorrer das últimas décadas, se tornou um exemplo inconteste de vitalidade artística e de longeva versatilidade dentro do jazz avant-garde. E nos últimos anos, mesmo chegando aos degraus da fase octogenária -- quando, naturalmente, a vitalidade física se esvai e o corpo precisa desacelerar --, Wadada segue sempre muito ativo, com vários lançamentos em direções diferentes a cada ano, mostrando, como poucos músicos na história, que ele soube e sabe aproveitar um tempo que lhe é finito a favor de uma arte que lhe é infinita. Só em 2021, recém chegado na idade dos 80 anos -- e tendo enfrentado, como todos, a ameaça iminente da COVID-19 --, o trompetista somou uma surpreendente sequência de lançamentos com seis álbuns novos em direções distintas: Sacred Ceremonies (TUM Records), Trumpet (TUM Records), The Chicago Symphonies (TUM Records), A Love Sonnet for Billie Holiday (TUM Records), Sun Beans Of Shimmering Light (pela Astral Spirits, com Douglas Ewart e Mike Reed) e Pacifica Koral Reef (pela 577 Records, com Henry Kaiser e Alex Varty). Essa penca de lançamentos é apenas um retrato da versatilidade de Wadada em empreender-se com diversas parcerias e transitar por diversos territórios da música exploratória. É claro que que as gravações ocorreram em anos anteriores à pandemia -- o álbum A Love Sonnet for Billie Holiday (TUM Records) onde o trompetista vem acompanhado do pianista Vijay Iyer e do baterista Jack DeJohnette, foi captado, por exemplo, em 2016. Mas ainda assim, essa fila de lançamentos só deixa ainda mais latente a prolificidade com a qual o trompetista não para de rechear seu baú com gravações preciosas -- ininterruptamente, ano a ano. Os lançamentos em álbum, propriamente ditos, vão sendo editados posteriormente, como é de praxe. E como foi de praxe em todo o universo musical, os selos TUM Records, 577 e Astral Spirits -- sem mencionar outros selos por onde o trompetista passou nos últimos anos -- não deixaram de aproveitar essa sombria fase de isolamento social para dar ao público do trompetista um necessário alento sonoro-psíquico-espiritual com esses lançamentos que estavam enfornados. O fato é que tem sido comum ver ao menos duas ou três gravações novas com Wadada Leo Smith sendo lançadas ano a ano, e muitas das vezes em direções variadas -- do free jazz à eletrônica, passando por composições para quarteto de cordas, e englobando até parcerias ainda mais interdisciplinares. Em 2020, por exemplo, Wadada lançou um álbum com a banda punk Deerhoof e um dueto com o compositor de música eletroacústica Barry Schrader.

WADADA LEO SMITH'S ANKHRASMATION GRAPHIC NOTATION: VISION, FROM KOSMIC MUSIC

Agora, aqui neste post, a ideia é homenagear a trajetória desse grande trompetista com um retrospecto de 15 registros de sua prolífica carreira, uma trajetória que já soma 50 anos de estrada com passagens por diversos selos e por diversas abordagens. A lista que vos apresento não é, logicamente, definitiva. Os fãs mais antenados de Wadada Leo Smith sentirão falta, por exemplo, de algum dos registros do projeto elétrico Yo Miles! (em parceria com o guitarrista Henry Kaiser), e também deixei de fora o box que documenta a extensa peça, indicada ao Pulitzer Prize, Ten Freedom Summers (Cuneiform, 2012): Yo Miles! é um projeto que Wadada elaborou em tributo ao jazz fusion de Miles Davis, e como essa influência das sonoridades eletroeletrônicas está presente em outros dos seus projetos mais composicionais e autorais, então achei melhor enfatizar esses outros projetos seus, afim de mostrar melhor seu universo particular; já o box que documenta Ten Freedom Summers (Cuneiform, 2012), ele já foi resenhado aqui no blog num post onde abordo registros emblemáticos de big bands e "jazz with strings". No demais, os 15 registros dispostos abaixo fornecerão um suscinto resumo das ideias, abordagens e sonoridades empreendidas por esse grande trompetista, que também é teórico, educador e grande compositor. Para quem quiser se aprofundar, vale a leitura do livro ao lado notes (8 pieces): source a new world music: creative music by Wadada Leo Smith:  o livro foi originalmente lançado pelo trompetista em 1973, em uma tiragem de 200 cópias, e mais recentemente a Corbett vs Dempsey editou uma reimpressão com uma tiragem de 1.000 cópias para acompanhar a exposição de arte e notações gráficas (vide um exemplo na imagem acima) Wadada Leo Smith - Ankhrasmation: The Language Scores, 1967-2015, apresentada de 11 a 29 de outubro de 2015 na The Renaissance Society da Universidade de Chicago. Confira! Clique nos álbuns abaixo para ouvi-los e ouça a playlist no final do post.

 

Kabell Years: 1971–1979 (Tzadik, 2004). Nascido no entorno do Delta do Mississippi -- e, portanto, inicialmente imerso em muito blues e R'n'B, através do seu padrasto Alec Wallace, um bluesman local do Delta --, Wadada Leo Smith mudou-se para Chicago em 1967 e logo se juntou aos membros da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), fundando, logo em seguida, a Creative Construction Company com o saxofonista Anthony Braxton e o violinista Leroy Jenkins. Assim como Braxton, Wadada desenvolveria seu próprio método conceitual de criar e compor música, para o qual ele deu o nome de "ahkreanvention" ou "ankhrasmation": um sistema que combinava notação musical própria, recursos imagéticos com símbolos para inspirar os improvisos e os entrelace de ideias diferentes numa mesma peça, conceitos etnomúsicológicos e filosóficos próprios quanto aos sons e os ritmos, além de incursões idiossincráticas pelas sonoridades e ritualidades do rastafarianismo, pan-africanismo e pelas influências orientais e hindus. Esta compilação editada e lançada em 2004 pela Tzadik -- selo e gravadora de John Zorn -- atualiza os fãs de free jazz, então, com um ousado compêndio da produção sonora que Wadada Leo Smith empreendeu nesse seu início de carreira, época em que ele funda o seu próprio selo, o Kabell Records, para lançar essas suas ideias sonoras em álbuns. Como veremos a seguir, John Zorn sempre foi um grande entusiasta da música de Wadada Leo Smith e, já a partir de meados dos anos 90, a Tzadik passou a lançar vários rebentos do trompetista -- a começar por este box. Neste combo de quatro CDs consta-se o conjunto de faixas advindas dos seguintes álbuns: Creative Music - 1 (1971), projeto solo onde Wadada empunha trompete e diversos outros instrumentos, incluindo flugelhorn, trompa, flauta doce, flauta indiana, gaita, autoharpa, cítaras, sinos, vários tambores, tigelas de alumínio, placas de metal, pratos, gongos e etc; Reflectativity (1975) que traz duas peças longas com Wadada Leo Smith ao trompete, flugelhorn, flauta indiana, atenteben (flauta de Gana) e percussão, sendo acompanhado de Anthony Davis ao piano e Wes Brown ao contrabaixo; Song of Humanity (1977) com Wadada tocando diversos sopros e percussões, mas agora em uma banda maior com Oliver Lake (flauta, saxes, marimba, percussão), Anthony Davis (piano, piano elétrico, orgão), Wes Brown (contrabaixo, atenteben, odurogyabe) e Pheeroan AkLaff (bateria, percussão); e Solo Music: Ahkreanvention (1979), que é praticamente uma extensão das suas abordagens em formato solo iniciadas em Creative Music - 1 (1971).

Divine Love (ECM, 1979).  Em meados dos anos 70, além das suas abordagens em formato solo e em ensembles maiores, Wadada Leo Smith também transitava frequentemente com um trio formado com Dwight Andrews (saxes, clarinetes, percussões, mbira, objetos) e Bobby Naughton (vibraharpa, marimba, sinos, percussões e objetos): esse trio fornecia à Wadada, então, a praticidade e o menor custo de uma banda compacta, um recurso intermediário para dar vazão em suas ideias etnomusicológicas e seu método de composição e organização musical. Manfred Eicher, o sempre atento proprietário da recém-fundada ECM Records, já vinha sondando Wadada desde seus primeiros tentos no início dos anos 70. E é neste registro, de 1978, que o trompetista lhe cede, então, a oportunidade de um lançamento. Divine Love, já indo de encontro com o princípio de ambiência e sonorização intimista conceitualizado por Manfred Eicher, é um registro que de fato evidencia uma ainda maior concentração dos músicos em seguir os símbolos, rituais e esquemáticas de Wadada e seu método "ankhrasmation", algo que resulta num álbum de sonoridade encantadora e atmosfera meditativa. O álbum nos traz um total três peças longas: o trio com Wadada Leo Smith, Dwight Andrews e Bobby Naughton são os protagonistas na primeira faixa; na segunda faixa, Wadada recebe a companhia apenas dos trompetistas Lester Bowie e Kenny Wheeler em uma curiosa peça com três trompetes; e o trio Leo Smith/ Andrews/ Naughton retorna na terceira faixa em companhia do contrabaixista Charlie Haden. Registro essencial!

Human Rights (Kabell/ Gramm, 1986). Esse álbum é um eclético manifesto sonoro em favor da justiça social no âmbito dos direitos civis. Muito embora a música de Wadada seja categorizada como "free jazz", muitas vezes o elemento da livre improvisação tem a função de apenas ser mais uma ferramenta dentre tantos outros elementos também manipulados por meio da sua metodologia "ankhrasmation". Quando analisamos o horizonte da sua música, verificamos que o uso desses métodos composicionais próprios e suas inserções diaspóricas e estilísticas -- algumas vezes usando até sua própria voz, por meio da fala ou do canto -- são definitivamente importantes para elevar sua arte musical para um patamar que está além da categorização. É o caso deste álbum acima. Wadada incorpora aqui elementos musicais ligados às suas origens no blues do Delta do Mississipi, ao reggae e aos ideais e origens etíopes do movimento rastafari, evidencia influências advindas dos sons eletroeletrônicos do fusion de Miles Davis e do e jazz-rock embebecido de world music ao estilo da Mahavishnu Orchestra, e condimenta essas fusões com variadas sonoridades através do uso de instrumentos como koto japonês, mbira africana, gongos chineses e sintetizadores vários. O LP original é dividido com três faixas de um lado e uma peça extensa do outro lado. A peça extensa do lado B tem 30 minutos e é chamada "Humanismo Justa (Human Rights)/ Tutmonda Muziko (World Music)": é onde Wadada eleva sua voz com um spoken word e evoca uma metáfora que associa a liberdade musical desses sons fusionistas com os pleitos dos direitos humanos, da igualdade racial e da liberdade dos povos. O verso da capa do LP traz a figura de Haile Selassié I, imperador da Etiópia (1916 - 1930), considerado um tipo de "messias" do Movimento Rastafari.

Rastafari (Sackville, 1983). Este registo foi lançado em 1983 pelo extinto selo canadense Sackville: o selo foi fundado em 1968 por John Norris e Bill Smith (que também era proprietário da CODA Magazine), e em 2011 o catálogo da extinta gravadora foi adquirido pela Delmark. Na época, em 1983, Bill Smith convidou Wadada Leo Smith para gravar uma extensão das suas elaboradas abordagens composicionais, e também se dispôs em ser colaborador e produtor ao mesmo tempo. Wadada toca trompete, flugelhorn, percussão e harmônica e tem a colaboração de Bill Smith no clarinete e saxes soprano e sopranino, e mais três instrumentistas que aqui compõe o Bill Smith Ensemble: o violinista David Prentice, o contrabaixista David Lee (que também explora o cello) e o vibrafonista Larry Potter. O resultado é um conjunto de peças que exploram, sim, as temáticas e abordagens diaspóricas, ritualísticas, improvisativas e filosóficas de Wadada e desses seus colegas -- inclusive com Wadada evocando um cântico rastafari no início da primeira faixa --, mas o faz sempre através de composições abstratas, em forma de peças introspectivas com inflexões eruditas. O uso do violino, do cello e do contrabaixo em explorações ruidosas com arco e a ambiência do vibrafone são, então, somados aos saxes agudos de Bill Smith e ao trompete rasante de Wadada (às vezes com surdina, outras vezes sem...), conferindo às peças um caráter de latente contemporaneidade. Este álbum foi reeditado e lançado em 2003 pela Boxholder e pela Delmark. Apenas a faixa-título é de autoria de Wadada Leo Smith, mas já trata-se de um prenúncio da evolução composicional que o trompetista mostraria mais adiante em suas composições para quarteto de cordas e outros ensembles expandidos de verve erudita.

Kulture Jazz (ECM, 1993). Em mais um tento para a ECM, Wadada Leo Smith explora o formato solo através do seu trompete e do seu flugelhorn, e um conjunto de instrumentos diaspóricos tais como koto, mbira, gaita, flauta de bambu, kits de percussão, além de usar o canto da sua própria voz em algumas faixas. É um álbum que marca o retorno do trompetista às temáticas e às possibilidades do formato solo abordados primeiramente em seus registros Creative Music 1 e Solo Music: Ahkreanvention, lançados respectivamente em 1971 e 1979. Ainda que o processo de mixagem tenha incluído algumas edições de overdubs aqui e ali -- sobrepondo linhas melódicas e acompanhamentos, todos gravados pelo próprio Wadada --, Kulture Jazz tem sido citado por revisores como um registro seminal do formato solo. Sozinho, diante de todos seus instrumentos e objetos sonoros, Wadada procura se conectar de forma ainda mais íntima com suas origens espirituais e estilísticas, abordando influências advindas do blues, do raggae, da filosofia rastafari, do free jazz, das sonoridades orientais e pan-africanas e daquele spiritual jazz conceitualmente expandido por John Coltrane e Albert Ayler nos anos de 1960. Além de Coltrane e Ayler, as peças são dedicadas a personalidades como a cantora Billie Holiday, a lenda do jazz Louis Armstrong, sua esposa Harumi, o escritor ganês Ayi Kwei Armah, dentre outros. Se Manfred Eicher precisa ser reconhecido por criar um conceito de música contemporânea onde "o som precisa ser mais belo que o silêncio" -- premissa de quase todas as gravações lançadas pela ECM --, Kulture Jazz é um dos registros que ratifica bem essa busca. As liner notes do álbum foram escritas pelo próprio Wadada Leo Smith.

Golden Hearts Remembrance (Chap Chap, 1997). Gravado e lançado pelo selo japonês Chap Chap em 1997, este álbum, nos mostra Wadada Leo Smith realizando uma incursão ainda mais profunda pelas sonoridades da world music oriental, mais precisamente pelas sonoridades hindus e asiáticas. Wadada Leo Smith toca trompete, flugelhorn e nohkan (um tipo de flauta japonesa) e lidera um ensemble chamado N'Da Kulture, um sexteto que aqui mistura jazz e música improvisada com música oriental e as letras dos poemas escritos por sua esposa, Harumi Makino Smith. Compõe o sexteto Glenn Horiuchi no piano e shiamsen, Hakumi Makino Smith na poesia falada, William Roper na tuba, David Philipson no bansuri e tambura e Sonship Theus na bateria. Cada peça discorre-se através de uma sequência longa de desenvolvimentos fluídos que podem variar da livre improvisação mais ruidosa às ambiências mais intimistas e meditativas, desembocando em texturas e atmosferas propícias para os poemas recitados por Harumi Makino Smith. Outro fator preponderante é a combinação inusual de timbres: ou seja, aqui temos um quarteto formado por trompete, piano, tuba e bateria contracenando com esses instrumentos orientais e hindus em tapeçarias sonoras fluídas e imprevisíveis. Ademais, cada faixa é dedicada a um nome importante do círculo de personalidades que inspiram Wadada Leo Smith: a segunda faixa, por exemplo, "Lotus Garden", é um mantra sonoro dedicado ao economista indiano Amiya Kumar Dasgupta; enquanto a quinta faixa, "Condor", é um memorial dedicado ao trompetista Dizzy Gillespie, um dos pais do jazz moderno. Enfim...considerar que esse é um dos álbuns de sonoridades mais singulares na discografia de Wadada Leo Smith é quase uma redundância -- haja vista que grande parte dos seus álbuns são dotados de sonoridades distintas. Mas, de fato, este registro é um dos que se destaca.

Lake Biwa (Tzadik, 2004). Este registro, do catálogo Composers Série da Tzadik Records, é um exemplo emblemático de como John Zorn deu suporte e ampla liberdade para Wadada Leo Smith produzir e lançar seus criativos rompantes composicionais. A exemplo de como Wadada já prenunciava no álbum Rastafari (Sackville, 1983), aqui já vemos um tipo de composição expandida através de aplicações eruditas para um tipo de conjunto híbrido de piano, cordas (violino, cello e contrabaixo), sopros (trompete, sax e tuba), guitarra numa pegada mais "noisecore"... e a densidade percussiva de uma bateria ensandecida! Para esse conjunto insano, Wadada Leo Smith dá o nome de Silver Orchestra -- ainda que não é sempre que a banda soa como uma orquestra, diga-se de passagem -- e compõe peças expandidas que trazem um misto de notação gráfica e livre improviso, mais uma vez evidenciando uma elaboração composicional mais arraigada. O ensemble é formado por Wadada Leo Smith (trompete), John Zorn (saxofone alto), Marcus Rojas (tuba), Jennifer Choi (violino), Erik Friedlander (cello), Marc Ribot (guitarra elétrica), Anthony Coleman, Yuko Fujiyama, Jamie Saft e Craig Taborn (piano), Wes Brown e John Lindberg (contrabaixo) e Gerald Cleaver, Susie Ibarra, Kwaku Kwaakye Obeng (bateria). As peças, todas compostas por Wadada Leo Smith, foram gravadas entre os anos de 2000 e 2004, e evidenciam aquele misto de solos matadores -- próximos ao ultra psicodélico noisecore já conhecido dos registros de Zorn e seus compadres -- com desenvolvimentos e inflexões camerísticas.

Snakish (Leo Records, 2005). Esse parece ser é um daqueles álbuns que prendem a atenção apenas dos ouvidos mais calejados. Com uma instrumentação inusual formada com Wadada Leo Smith no trompete, o sérvio Miroslav Tadic no violão acústico, o americano Mark Naussef na percussão e eletrônica, e os alemães Katya Quintus nos vocais e Walter Quintus no laptop e seus programas de computador, aqui temos um dos mais híbridos registros da música improvisada dos últimos tempos. Trata-se de um total de 15 curtos sketches onde o plano de fundo é formado por uma misteriosa, dissonante e sombria tapeçaria eletrônica que contracena com os improvisos livres e orgânicos do trompete, da voz e do violão acústico em sua superfície. Com o som rasante e muitas das vezes ríspido do seu trompete, Wadada Leo Smith nos faz lembrar, mais uma vez, das incursões eletrônicas empreendidas por Miles Davis em sua fase setentista -- uma das principais influências na sua carreira. Mas a sonoridade híbrida de sons eletrônicos, sons computadorizados e sons orgânicos evidencia aqui um design sonoro com uma contemporaneidade mais atualizada em relação àquela sonoridade vintage dos anos de 1970. A crítica negativa fica por conta da ambiência sempre sombria em detrimento de uma maior variedade de cores tonais entre os sketches, algo que dá uma sensação de inércia com vistas para um horizonte sempre anoitecido ao som de desconhecidas criaturas sonoras. Contudo, esse tipo de estranheza pode agradar os ouvintes mais outsiders.

Wisdom in Time (Intakt Records, 2007). Outro dos formatos preferidos de Wadada Leo Smith são os duetos. Aqui neste duo, o trompetista se contracena em improvisos freejazzístcos com o baterista alemão Günter Baby Sommer, um velho conhecido dos tempos setentistas, de quando ele foi convidado para participar de diversas gravações com alguns ases da livre improvisação europeia -- vide, por exemplo, sua participação no projeto Company de Derek Bailey registrado no álbum Company 5 (Incus, 1977), e vide os álbuns Touch the Earth e Break the Shells (FMP, 1979/ 1981), que registram um trio formado por Wadada ao trompete, Günter Baby Sommer na bateria e Peter Kowald no contrabaixo. Em 2005, Wadada e Sommer, sendo convidados a participar do festival Total Music Meeting, voltam a abordar o trio com o qual ficaram conhecidos em diversas apresentações europeias no final dos anos 70 e início dos anos 80, mas dessa vez com Barre Phillips no contrabaixo. Em maio de 2006 eles fizeram uma turnê por cidades alemãs e tiveram uma parada final no Festival Taktlo, em Zurique, Suíça, onde gravaram este duo Wisdom in Time para o selo Intakt. A peça "Bass-Star Hemispheres" é dedicada a Peter Kowald, falecido em 2002. Em termos comparativos, esse duo de trompete e bateria apresenta interações mais sedimentadas, frescas, melódicas e maduras do que o ruidoso trio setentista com Kowald, como se as timbragens da bateria e dos objetos percussivos de Sommer fornecessem texturas mais elaboradas para os efeitos melódicos e improvisativos do trompete de Wadada. Contudo, as duas versões podem, sim, agradar gregos e troianos dentro do âmbito do free jazz

Spiritual Dimensions (Cunneiform, 2009). A evolução composicional de Wadada Leo Smith -- iniciado a partir do seu método "ankhrasmation" nos anos de 1970 -- segue em alta aqui neste álbum duplo. O primeiro CD dispõe de peças elaboradas para o seu Golden Quintet -- uma extensão do seu anterior Golden Quartet, agora com duas baterias --, que aqui é formado com Vijay Iyer (piano, sintetizadores), John Lindberg (contrabaixo), Pheeroan AkLaff (bateria) e Don Moye (bateria). E o segundo CD traz o primeiro registro do seu ensemble Organic, formato com quatro guitarristas (Nels Cline, Brandon Ross, Michael Gregory e Lamar Smith), uma violoncelista (Okkyung Lee), contrabaixo (John Lindberg), baixo elétrico (Skuli Sverrisson) e bateria (Pheeroan AkLaff) -- isso mesmo: aqui temos um conjunto com quatro guitarras tocando juntas! Com uma expansão cada vez mais variada em suas formações instrumentais, o trompetista Wadada Leo Smith mostra aqui uma evolução fora de série em criar peças expandidas e em elaborar inusuais combinações de timbres ríspidos, psicodélicos, metálicos e eletrônicos com a rusticidade de instrumentos de cordas (cello e contrabaixo), entre outras combinações. Captadas ao vivo em 2008 e 2009, as duas performances evidenciam composições temáticas com densas cargas de spiritual jazz, ideias socioculturais -- vide a sétima faixa, em homenagem à filósofa Angela Davis --, ambiências meditativas e grooves eletrônicos inexplicáveis. Com a bateria de Pheeroan AkLaff na sua melhor versão de polirritmia intrincada, este duplo registro evidencia uma miríade de elementos advindos das estéticas do free jazz, do funk, do rock e do fusion, todos amalgamados numa simbiose experimental fora de série. E o trompete de Wadada, com um sopro sempre rasante e rico em timbre e tessitura -- algumas vezes inflexionado eletronicamente via pedais de efeitos --, é o principal discursante nestes dois registros fantásticos.

Heart's Reflections (Cunneiform, 2011). Este álbum representa uma expansão em todas as direções do projeto Organic. Wadada Leo Smith expande ainda mais seu conjunto Organic para uma versão orquestral com 14 músicos, expandindo também seu surpreendente design de timbres e grooves eletro-eletrônicos. Além das quatro guitarras presentes (Brandon Ross, Michael Gregory, Lamar Smith e Josh Gerowitz), o trompetista também conta com dois contrabaixos (Skuli Sverrisson e John Lindberg), Angelica Sanchez nas teclas (piano acústico e Wurlitzer), Stephanie Smith no violino, Casey Anderson no saxofone alto, Casey Butler no saxofone tenor, Pheeroan AkLaff na bateria e dois manipuladores de laptop (Mark Trayle e Charlie Burgin), os quais ampliam ainda mais o leque de sonoridades eletro-digitais. Os timbres e as rítmicas renovam com frescor a orientação experimental que Wadada vinha dando ao projeto ao amalgamar sonoridades, elementos e estruturas do blues, free jazz, fusion, funk, rock e a eletrônica produzida por meio do Wurlitzer e dos laptops. A bateria de Pheeroan AkLaff -- um parceiro musical de longa data, com o qual Wadada já pôde contar em diversos álbuns desde os anos de 1970 -- apresenta uma proliferação rítmica ainda mais quebradiça e intrincada em peças escritas em compassos ímpares ou compostos. As composições, por sua vez, são estruturadas em forma de "suítes" de duas partes ou temas com longos desenvolvimentos, e são dedicadas a personalidades como o trompetista Don Cherry, a escritora Toni Morrison e o violinista Leroy Jenkins. A evolução do processo composicional de Wadada, que se inicia nos anos de 1970 com seu método "ankhrasmation" -- que combina notas escritas em pauta, símbolos, arte abstrata como notação gráfica e aberturas para o livre improviso -- chega ao cúmulo da criatividade com esse projeto orquestral repleto de temáticas, amálgamas, grooves intrincados, timbrísticas texturais rústicas e aberturas para possibilidades inesperadas.

Twine Forest (Clean Feed, 2013). Confesso que, em termos de duo de trompete e piano, tive de escolher entre esse duo com Angelica Sanchez gravado pela Clean Feed e o dueto com Vijay Iyer gravado pela ECM -- vide o álbum A Cosmic Rhythm with Each Stroke (ECM, 2016). Em ambos, Wadada soa magistral, explorando todas as tessituras do seu trompete, que pode soar melódico, metálico, rasante e pode evocar até técnicas estendidas mais ríspidas. Porém, escolhi indicar mais diretamente esse dueto com Angelica Sanchez por dois motivos: primeiro que este registro acima evidencia uma abordagem mais virtuosística para trompete e piano, ao passo em que o duo com Iyer soa mais intimista e meditativo; e segundo porque aqui temos uma gravação empreendida pela excelente gravadora portuguesa Clean Feed, algo que vai de encontro com nossa ideia de aqui enfatizar a passagem de Wadada por várias gravadoras do universo do jazz e da música improvisada. Angelica Sanchez é uma pianista que mostra um senso harmônico assustador na forma como pontua as notas e na forma como combina acordes dissonantes com passagens consonantes, invocando uma densidade que sempre preenche o ambiente -- seja esse um preenchimento harmônico pelas vias desses seus acordes ressonantes, seja um preenchimento pelas linhas do dedilhado virtuosístico das suas mãos pesadas. E Wadada dialoga, contracena e preenche muito bem os espaços cedidos pela pianista.

Sonic Rivers (Tzadik, 2014). Aqui temos um exemplo fantástico de como a arte da livre improvisação segue se desenvolvendo no século 21. Tendo George Lewis no trombone e nos eletrônicos, Wadada Leo Smith no trompete e John Zorn no saxofone alto, as peças se desenrolam entre partes composicionalmente elaboradas e partes livremente improvisadas, envolvendo conversações melódicas, ruidosos contrapontos freejazzísticos, diálogos inexplicáveis entre sons e silêncio, inflexões eletrônicas que podem conflitar com os improvisos dos sopros ou podem usar esses próprios sopros para modular novos extratos...entre outras ideias. Lembra, um pouco, os registros em trios que John Zorn e George Lewis empreenderam com os guitarristas Derek Bailey (no álbum Yankees, de 1983) e Bill Frisell (nos dois volumes de releituras de News for Lulu, lançados em 1988 e 1992, respectivamente), mas aqui estamos num contexto ainda mais amplo de sopros com eletrônicos. George Lewis atua com modulações eletrônicas e mostra toda a amplitude improvisativa do seu distinto trombone, muitas vezes explorando efeitos timbrísticos através da surdina (objeto côncavo que muda o timbre em trompetes e trombones). John Zorn atua com seu rasante saxofone através de sons multifônicos, muitas vezes desferindo inexplicáveis sopros e notas trituradas. Wadada Leo Smith, por sua vez, pode ser ouvido em velozes improvisos freejazzísticos, sustentações melódicas ou sopros ríspidos, a depender do momento. Este álbum inaugura a série Spectrum dentro do catálogo da Tzadik, série na qual John Zorn convida e estimula diversos dos seus amigos improvisadores a formarem novos ajuntamentos e ensembles para registrar a amplitude e a ecleticidade da nova música improvisada no século 21. A arte gráfica do álbum traz uma mostra da simbologia artística e da notação gráfica usada por Wadada Leo Smith desde os primórdios do seu conceito composicional chamado "ankhrasmation".

Lebroba (ECM, 2018). Sendo considerado um dos melhores lançamentos de 2018, este álbum acima é um bom exemplo de como a visceralidade do free jazz tem sido diluída em amostragens mais atmosféricas e relaxantes -- sobretudo quando estamos falando de músicos do free jazz em gravações para o selo ECM. E embora essa amostragem não empolgue os fãs daquele free jazz mais ruidoso e visceral de outrora, isso não pode ser encarado como um demérito, mas sim como apenas mais uma variação dentro do contexto contemporâneo, uma abordagem mais atmosférica e textural da free music. É com essa visão, parece-se, que o baterista Andrew Cirille -- um dos ases mais enérgicos da percussão freejazzística -- aborda o seu drum set com uma sensibilidade melódico-timbrística fora de série aqui neste álbum. Bill Frisell, por sua vez, traz aquela distinta sonoridade reverberante de guitarra que é um misto de country e surf music -- às vezes folk, outrora punk -- que tanto já conhecemos de outras primaveras, e que tanto já nos surpreendeu pela versatilidade com a qual é capaz de transitar tanto pelo noisecore-punk de John Zorn e sua turma da Downtown quanto pelas abordagens minimalistas e meditativas da ECM Records. Wadada, por sua vez, se mistura: ora com um solo mais rasante aqui, outrora com sustentações mais melódicas acolá, mostrando que a versatilidade também é uma das suas virtudes principais.

Pacific Light and Water/Wu Xing - Cycle of Destruction (Ex Machina, 2020). Barry Schrader (1945) é um compositor americano especializado em música eletroacústica -- especificamente dedicado ao estudo erudito das sonoridades eletroeletrônicas e das sonoridades computadorizadas. Wadada Leo Smith é um trompetista hábil na arte da livre improvisação freejazzística, que também nutre essa predileção pelas sonoridades eletroeletrônicas -- algo que ele adquire da influência que o jazz fusion exploratório de Miles Davis exerce sobre sua alma criativa. Juntos, neste EP de 19 minutos, eles registram uma peça que funde os dois mundos e suas intersecções multidimensionais. Barry Schrader cria uma peça eletrônica se inspirando nos Cinco Elementos Chineses da filosofia Wu Xing, onde cada elemento o inspirou a criar texturas e extratos sonoros diferentes dentro da peça. Wadada Leo Smith, por sua vez, atua na superfície com livres improvisos e sopros de tecnicidade estendida dedicados a essas passagens que percorrem esses 19 minutos. O resultado é admirável e nos teletransporta para novas dimensões nessa intersecção entre sons orgânicos e eletrônicos. Embora Wadada tenha se embrenhado em diversos outros registros com aplicações eletrônicas -- e além dos álbuns indicados aqui neste post, também indiretamente indico, por exemplo, o álbum Luminous Axis (Tzadik, 2002), onde ele contracena com quatro manipuladores de laptop --, este EP surpreende e se destaca por essa união de estéticas advindas de mundos diferentes, tendo recebido diversas críticas positivas em 2020. Gravado ao vivo no REDCAT no Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, a produção inicial do CD foi de 100 cópias, das quais apenas 40 ficaram disponíveis para venda nas plataformas do Bandcamp e CD Baby.





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