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Noël Akchoté e a multiversidade das suas guitarras: de Beethoven à Braxton, da música renascentista ao avant-garde

 
O guitarrista francês Noël Akchoté -- que começou sua trajetória ainda criança e atravessou sua juventude admirando guitarristas como o brasileiro Baden Powell e o americano Jimmy Gourley -- é indiscutivelmente o músico mais completo em termos de repertório e direções variadas para guitarra e violão clássico. Seu campo de atuação cobre um vasto horizonte de escolas, estéticas e períodos, englobando da música renascentista à música erudita moderna, de Beethoven às composições conceituais de Anthony Braxton -- inclusive, já mencionamos aqui 👉 no blog essa sua empreitada de releituras. Em seu vasto catálogo de registros, o repertório pós-medieval de cantatas, madrigais e árias de compositores da música renascentista e barroca tais como Monteverdi, Orlando Di Lasso, Gesualdo, Palestrina, Guillaume Dufay e Bach convive no mesmo espaço afetivo que as peças modernas contemporâneas de compositores como Stravinsky, Schoenberg, Cage, Terry Riley, La Monte Young, Meredith Monk, Stockhausen, Anthony Braxton e etc, e no mesmo espaço que a sua predileção pela livre improvisação de ruidosidade mais experimental. Ainda sobra espaço para diversas parcerias e projetos mais interdisciplinares. Apenas entre 2006 e 2007, por exemplo, Noël Akchoté se desafiou em inusitadas e variadas direções: no álbum So Lucky (Winter & Winter) com releituras suas para as canções da cantora pop Kylie Minogue, nos efeitos psicodélicos de duas faixas do álbum Some Beans & an Octopus (Sonig) do produtor de música eletrônica Vert, e na produção da trilha sonora do filme Les Invisibles do diretor Thierry Jousse, projeto no qual também atuou como guitarrista tendo colaborações do tecladista e manipulador de eletrônicos Andrew Sharpley, do guitarrista David Grubbs e da dupla de música eletrônica Matmos, além de Philip Catherine nos vocais e no laptop. Já na década de 2010, Akchoté adotaria as facilidades das plataformas do Bandcamp e do Spotify para mostrar suas pesquisas, seus arranjos e transcrições da música renascentista e, posteriormente, dos repertórios eruditos clássicos, românticos e modernos, atuando com guitarra acústica, guitarra elétrica, violão clássico ou dobro -- explorando, portanto, uma variedade de timbres com cordas de aço.

 
Com essa postura eclética e completista, o guitarrista empreende-se em diversos arranjos e transcrições complicadas -- muitas das vezes de peças que não foram originalmente escritas para guitarra, dobro ou violão clássico, ou seja, de peças escritas para outros instrumentos -- e visa alcançar o mais amplo campo possível em termos de desafio e de aplicabilidade para suas cordas de aço, mostrando como algumas peças que foram escritas, por exemplo, para o canto polifônico medieval, para o piano erudito, para quarteto de cordas ou para ensembles mais contemporâneos podem soar interessantes quando transcritas para guitarra ou violão clássico. Dessa forma, chega a ser admirável -- e necessariamente exemplar! -- o fato de Akchoté não fazer nenhum tipo de acepção de gênero. Trata-se, aliás, de uma postura pós-moderna por excelência! Os mais céticos poderiam imaginar que um guitarrista que começou sua carreira antenado na cena da free music europeia -- ao lado de desbravadores como Lol Coxhill, Phil Minton, Evan Parker e Derek Bailey, os quais desde sempre rechaçaram os padrões clássicos da música previamente escrita -- não teria a capacidade técnica ou o tino afetivo para abordar peças de compositores renascentistas, clássicos e românticos, onde a leitura e a interpretação da pauta musical são imprescindíveis. Mas não. Além de improvisador, Noël Akchoté mostra um apetite insaciável para levar a guitarra e o violão clássico para tantos territórios quanto forem possíveis -- tanto os territórios da intuição improvisativa quanto os territórios da interpretação de repertório com peças que, muitas das vezes, não foram escritas originalmente para essa classe de instrumentos. E suas interpretações soam pessoalmente idiossincráticas. 
 
Após dezenas de transcrições e interpretações de peças do repertório renascentista, Noël Akchoté começou a empreender-se numa curiosa série de arranjos e transcrições de peças de compositores clássicos, românticos e modernos tais como Beethoven, Schubert, Schoenberg, Berg, Webern, Messiaen, Nadia Boulanger, Elliott Carter, dentre outros. A série é chamada Classical for Steel Guitar e seus exemplares seguem sendo lançados obstinadamente mês a mês, ficando totalmente disponíveis para audição nas plataformas do Bandcamp e do Spotify. O fato de o guitarrista lançar essas suas gravações de forma independente -- além das suas gravações já editadas por outros selos como Signature, Label Bleu, Blue Chopsticks, Rectangle e Winter & Winter --, facilita a desenvoltura, a velocidade e a quantidade com os quais ele recheia seu vasto catálogo, deixando seu público sempre acostumado a novidades. Como a maioria das peças não foram escritas originalmente para violão clássico, os arranjos incluem gravar as partes das peças separadamente para depois serem sobrepostas num todo. Para nós, que somos fascinados pelas formas da música moderna e contemporânea, é especialmente interessante suas versões para o Quarteto de Cordas Opus 28 (1936-1938) de Anton Webern, o Quarteto de Cordas em Ré Maior (1897) de Schoenberg, para as peças pianísticas das Klavierstücke (1901-1908) de Alban Berg e para outras peças, estudos e exercícios compostos por Olivier Messiaen, Nadia Boulanger e Elliott Carter. O fato desse repertório não ter sido composto originalmente para cordas dedilhadas, o fato desse tipo de repertório ter sido elaborado numa linguagem efetivamente moderna com um novo desafio para a percepção auditiva, e, por consequência, o fato desse repertório moderno ultrajar os padrões das aplicações classicistas nos campos da harmonia, melodia e ritmo, são os fatos que fazem com que essas transcrições para guitarra ou violão clássico soem no mínimo curiosas, instigantes e inusitadas. É lógico que essas gravações não podem ser apreciadas com aqueles ouvidos puristas de quem espera por interpretações essencialmente virtuosas, irretocáveis, sem ruídos ou resvalos. Noël Akchoté não é um concertista nascido das exigências puritanas das salas de concerto e não pretende soar como um Andrés Segovia. Essas suas interpretações estão mais no campo da multiversidade, do incomum, do inusitado, do desafio em trafegar por várias linguagens, do tino exploratório em repertórios não convencionais para suas cordas de aço, da busca pela inflexão e da busca pelo aumento do vocabulário dos seus dedilhados. No geral, Akchoté faz até questão de que os chiados e as imperfeições sejam partes do processo.
 
Para os fãs de avant-garde, quero explicitar a versatilidade que Akchoté também evidencia nessa seara mais exploratória e experimental. Dois registros particularmente interessantes é o seu divertido tributo em formato solo -- com guitarras acústicas e elétricas -- ao guitarrista pioneiro do free jazz Sonny Sharrock no álbum Sonny II (Winter & Winter, 2004), e seu álbum Impro-Micro-Acoustique (Blue Chopsticks, 2003), onde ele junta ao veterano pianista e compositor de música eletroacústica Luc Ferrari e ao percussionista Roland Auzet para uma intersecção de livre improvisação acústica com extratos sonoros concretos e eletroacústicos. Procurando fugir de estigmas, Noël Akchoté procura não reproduzir a mesma sonoridade extrema e psicodélica que já conhecemos dos registros pioneiros de Sonny Sharrock. Ao contrário, ele segue seu próprio caminho de preferências e evidencia uma sonoridade própria calcada na rusticidade folk das cordas de aço -- e esse tipo de sonoridade reverbera mesmo quando ele leva sua guitarra para o campo da eletrificação extrema. Uma aproximação estética com a guitarra do veterano mestre da improvisação livre Derek Bailey fica mais notável. Mas Akchoté procurar trilhar seu próprio caminho, com a missão de explorar essas sonoridades rústicas das cordas de aço em tantas direções quantas forem possíveis.

Ademais, também quero vos chamar a atenção para o fato de como o catálogo de Noël Akchoté é especialmente rico de parcerias com outros improvisadores e compositores. Os trios e duetos, ao meu ver, são formatos ideais para treinarmos nossos ouvidos em conferir mais diretamente as características dos instrumentistas: ou seja, com dois ou, no máximo, três instrumentos tocando juntos, fica tão mais fácil para os instrumentistas tocarem e se ouvirem intimamente quanto fica fácil para o ouvinte ouvi-los e diferenciá-los dentro da free improv. Nesse sentido, vale a audição da parceria de Noël Akchoté com o guitarrista veterano Derek Bailey no álbum Close to the Kitchen (Rectangle, 1996): álbum que revela o lado mais enérgico e psicodélico das cordas rústicas de Bailey captadas no canal direito contracenando com a guitarra "folk" de Noël Akchoté captada no canal esquerdo, num diálogo-confronto de duas guitarras elétricas e experimentais desferindo inúmeras ruidosisdades e efeitos inesperados -- vide áudio acima. Akchoté registrou vários outros momentos em parcerias com outros guitarristas nessa mesma linha exploratória da música livremente improvisada: com Mike Cooper no álbum Island Songs (Nato, 1996), com Fred Frith no álbum Reel (Rectangle, 1996), com o guitarrista de rock hardcore David Grubbs numa sequência de cinco álbuns gravados entre 1999 e 2002, e com a guitarrista Mary Halvorson em duas ocasiões em 2016 (vide imagem acima). E em cada um desses duetos, as combinações dos trejeitos e das características improvisativas desses guitarristas nos fornecem audições completamente distintas umas das outras. Adentrar-se ao catálogo de projetos e parcerias de Akchoté é, afinal, um convite imperdível para outros portais do seu multiverso musical -- especialmene auspicioso para o ouvinte de mente e ouvidos mais ecléticos.




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