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Toca-Discos, Sintetizadores e Laptops: 60 dos mais criativos DJ's, grupos, produtores e manipuladores de eletrônicos

DJ SPOOKY
Há algum tempo atrás, nos idos anos 2000, lembro que eu estava imerso nas comunidades e foruns de música do Orkut e fui envolvido por uma discussão entre os membros que se dava pela seguinte indagação: "Os DJ's podem ser considerados músicos, como o são os pianistas, contrabaixistas, saxofonistas... etc e tal?" Muitos vociferavam contra a idéia de se considerar um DJ como um instrumentista capaz de ser dotado de tanta musicalidade quanto um pianista, por exemplo. Hoje, lembro daquelas discussões -- muitas vezes engraçadas, outras vezes sem sentido (rsrs) -- com a graça de um ouvinte que não só aprendeu a respeitar todos os meios instrumentais de se criar música -- incluindo os meios contemporâneos ainda não reconhecidos pelo academicismo conservatorial e universitário --, como também constatou que os DJ's e manipuladores de eletrônicos estão entre os instrumentistas que mais transcendem os limites da música e mais contribuem com inovações para o nosso tempo. O fato, afinal, é que os sintetizadores, toca-discos, laptops e moduladores de sons eletrônicos definitivamente fazem parte da instrumentação da música contemporânea -- e toda (!) a música contemporânea: do erudito ao pop, do jazz ao hip hop, da eletrônica à world music... incluindo os gêneros e subgêneros advindos das camadas mais periféricas e marginais do popularesco... Ademais, muito mais do que suas aplicações popularescas, muito mais do que embalar as batidas da música popular em boates, bailes e raves -- no que podemos chamar, culturalmente e genericamente, de "dance music" --, os recursos da música eletrônica se tornaram meios inovadores imprescindíveis para se alcançar o conceito de arte musical concernente com o pós-modernismo das artes plásticas no que diz respeito a criar novos designs sonoros, manipular materiais pré-gravados e dar novas formas para todo e qualquer tipo de material sonoro através das técnicas de improviso, colagem, looping, overdubing, sampling, mixing, scratch, entre outras técnicas. Isso não quer dizer que os instrumentos eletrônicos tomarão o lugar dos instrumentos acústicos: a tecnologia da eletrônica, com todas suas técnicas inovadoras, ainda não é capaz de suplantar a espiritual capacidade humana de se escrever um concerto rebuscado para violino ou piano, ou de suplantar a arte de se ter um trompete ou saxofone improvisando intrincadas linhas jazzísticas sobre bases harmônicas modais. Isso quer apenas dizer que, agora, as possibilidades acústicas são somadas com as possibilidades eletrônicas, dando aos músicos contemporâneos ainda mais possibilidades de criação e de manipulação dos recursos e materiais dentro da arte da música -- infinitos recursos, infinitas possibilidades! Isso quer apenas dizer -- de forma taxativa mesmo! -- que a maioria dos músicos mais inovadores das últimas décadas viram e vêem nas possibilidades da eletrônica um meio imprescindível de se fazer arte sonora contemporânea, de se conectar com o tempo presente com a ideia de projetar-se ao tempo futuro. Já há algum tempo que o Instrumental Verves vem imergindo na história da música eletrônica. Neste post, iremos adentrar mais profundamente no instrumental dos DJ's, manipuladores e produtores mais criativos das últimas décadas, considerando desde as inovações surgidas através dos gêneros e subgêneros do hip hop e da "dance music" até as inovações eletrônicas nos campos do jazz, da música erudita e em vários outros campos da arte sonora experimental e/ou conceitual.

IKUE MORI & OKKYUNG LEE
Antes, adentremos a um breve resumo dessa história que já vem sendo contada aqui no blog. Os precursores foram os compositores eruditos -- Schaeffer, Messiaen, Cage, Boulez, Stockhausen e companhia --, que projetaram os extratos sonoros eletrônicos para o campo da arte concreta e da eletroacústica através dos enormes processadores de estúdio. Em seguida surge o tecladista de jazz Sun Ra, que já partir dos anos 50 figura como o grande precursor da eletrônica através dos primeiros orgãos, pianos elétricos e sintetizadores portáteis, criando seu desing afro-futurista quando ainda nem existia o conceito de sound designer: o que ele fazia -- de forma caseira, um tanto lo-fi, diga-se de passagem -- era tentar elaborar as sonoridades do seu surreal space-age baseando-se sempre no seu fascínio pela astrologia, cosmologia, ufologia, mistérios do Egito e outras viagens multidimensionais. Depois temos Miles Davis, Herbie Hancock, Chick Corea, Joe Zawinul, Lyle Mays...e outros tantos músicos de jazz que também trouxeram inovações indeléveis para o conceito de improviso e sound design dentro da evolução da eletrônica. A essa altura, as estéticas da cultura pop -- o rock, o soul, o funk, a música de discoteca (e, posteriormente, o hip hop) -- também já vinham incorporando as instrumentações eletrônicas. E além dos músicos de jazz e dos artistas da música pop, tivemos grandes músicos e grupos como Kraftwerk, Ryuichi Sakamoto, Yellow Magic Orchestra, Tangerine Dream, Jean-Michel Jarré, dentre outros, que passaram a fazer música nova usando apenas instrumentos eletrônicos -- sintetizadores, vocoders, pedais de feitos, caixas de rítmos e baterias eletrônicas, mixers, processadores digitais... sem usar instrumentos acústicos! --, levando a música eletrônica a se tornar, de fato, um gênero musical independente. Toda essa evolução da eletrônica na linha do tempo das décadas de 50, 60, 70 e 80 já foi abordada aqui no blog. Agora, abordaremos a evolução da eletrônica a partir dos anos de 1980 até os anos de 2010, período onde tivemos, então, uma expansão sem precedentes do uso criativo dos eletrônicos por meio dos músicos de jazz que retomaram as trilhas fusionistas,  através dos DJ's que fizeram do turntablism (manipulação de toca-discos) uma outra forma inovadora de se fazer música, e através dos improvisadores, manipuladores e produtores que passaram a usar os microprocessadores digitais e programas de laptops, e passaram até a inventar seus próprios sintetizadores e softwares. E a idéia é abordar os vários estilos que usam eletrônicos: do jazz-fusion ao hip hop, da techno music dos anos 80 até a IDM music (Ingelligent Dance Music) mais atual, passando pela arte dos manipuladores que trabalham com colagens, estéticas experimentais e livres improvisações. Deixei um player para cada exemplo: se não funcionar, clique sobre o player com o botão direito do mouse e depois clique em "atualizar frame".

Grand Mixer DXT
Pioneiro da primeira geração que fundou o hip hop, Grand Mixer DXT é considerado um dos primeiros DJ's a focar nos toca-discos como um instrumento de amplas possibilidades improvisativas, isso já entre fins da década de 70 e início da década de 80, quando músicos do rock, jazz e avant-garde tais como Ginger Baker, Herbie Hancock e Bill Laswell, dentre outros, começaram a convidá-lo para shows e gravações. Na verdade ele é taxativamente creditado como o "primeiro turntablist", algo que não pode ser levado tão a rigor pelo fato do artista plástico Christian Marclay também já estar usando o toca-discos já a partir de 1979, ainda que de uma forma um tanto pessoal. Mas, de fato, Grand Mixer DXT foi o primeiro a levar as técnicas oriundas do hip hop -- remixes, samples, alterações de pitch e scratch -- para o plano de uma aplicação instrumental, improvisativa e ao mesmo tempo experimental. Além dos registros que documentam suas amostragens pessoais, sua participações com scratchs, colagens, improvisos e remixes nos álbuns de Bill Laswell e na célebre trilogia electro-funk de Herbie Hancock -- com os discos Future Shock (Columbia, 1983), Sound System (Columbia, 1984) e Perfect Machine (Columbia, 1988) -- não são apenas emblemáticas, mas são sobretudo inovadoras e podem ser consideradas como um marco zero das aplicações das técnicas de "DJing" em interações instrumentais estentidas em bandas de rock, jazz, e outros gêneros. Ao lado de Herbie Hancock e do rapper e DJ Afrika Bambaataa, Grand Mixer DXT é considerado não apenas um dos pioneiros do electro-funk, mas também um predecessor do hip hop experimental e da techno music que explodiria em Detroit na segunda metade dos anos 80.

DJ Premier
DJ Premier é um dos intrumentistas da primeira geração do hip hop que formava uma dupla com o MC Guru chamada Gang Starr, amplamente reconhecidos como inovadores e muito influentes para a comunidade do hip hop e da pop music dos anos 80, 90 e 2000. Hábil nas técnicas do scratch e várias outras técnicas do toca-discos, DJ Premier foi um dos pioneiros no uso de samples de jazz, funk e soul: no álbum Steps in the Arena (Virgin, 1991) do Gang Starr, por exemplo, DJ Premier manipula um sample do hit "Parrty" com partes tocadas pelo saxofonista Maceo Parker e o The Macks, os quais formavam a banda de apoio de James Brown. Ao lado do saxofonista Branford Marsalis, DJ Premier é um dos pioneiros do subgênero jazz-rap, uma variante que surgiu da fusão do jazz com o hip hop no final dos anos 80 e que foi ainda mais popularizada através da participação de ambos na trilha sonora do filme Mo' Better Blues, de Spike Lee. Sugestão: ouvir seu início de carreira com a Gang Starr, dupla que ele formava com o MC Guru. O fato é que seus samples e batidas inteligentes inspiraram  toda uma geração de artistas do hip hop e da pop music, e ele tornou não apenas um dos grandes DJs da sua geração, mas um dos maiores produtores das últimas décadas. Podemos considerar que suas amostragens já precedem as abordagens que DJ's inovadores como J Dilla e Madlib explorariam a partir da segunda metade dos anos 90 e início dos anos 2000.  

Derrick May
Derrick May é considerado uma espécie de "sumo sacerdorte" do techno dance surgido em Detroit em meados dos anos de 1980, sendo ele mesmo considerado um dos pais do estilo. O techno é um estilo que surgiu muito influenciado pelo electro-funk e pelo synth-pop de grupos como o alemão Kraftwerk, o inglês Ultravox, a japonesa Yellow Magic Orchestra, incluindo nesse molho de influências as criações mais intrincadas de Ryuichi Sakamoto registradas no seu histórico álbum B-2 Unit, entre outras influências. A diferença é que, no techno, as batidas são sempre sincronizadas com uma orientação mais frenética de dança e suas quebras rítmicas (breakbeats), combinando toca discos, sintetizadores, mixers e drum machines tais como os Roland's TR-808 e TR-909 com sequenciadores como o SQD1 da Korg e o Roland MC500 MicroComposer ou Roland MSQ 700 Sequencer, muitas das vezes usando a tecnologia MIDI e softwares para melhorar as interfaces. Embora o techno seja o estilo que deu vida aos estilos de dança em clubes e raves de música eletrônica, seria eufemismo resumi-lo como um estilo popularesco orientado apenas à dança. Derrick May, mesmo, mostra muita técnica e criatividade em interfaçar seus eletrônicos, em variar as síncopes frenéticas das batidas e em sobrepor melodias, samples e efeitos, criando resultados no mínimo inovadores. E ele é sempre citado como uma influência indelével por outros DJs e manipuladores de eletrônicos de vários outros estilos. No áudio acima, temos uma faixa do seu álbum Inovattor (1996). Para quem se interessar pelos primórdios, vale a pena se inteirar da compilação Techno! The New Dance Sound of Detroit, elaborada pelo próprio Derrik May em 1988.

Frankie Knuckles
Frankie Knuckles é um dos pais da house music, estilo de eletro-dance nascido em Chicago. É similar ao techno de Detroit, mas suas batidas são menos frenéticas e sua origem remonta-se às modificações que os DJs faziam sobre os hits da disco music -- a música de discoteca dos anos de 1970. Tanto que, depois, a house music seria fortemente incorporada por muitos artistas pop que nasceram das influencias da disco, tais como Donna Summer, Whitney Houston, Janet Jackson, Madonna, entre outros. Uma das características constantes, além do uso regular de vocais cantados e vocais em rhytmn'n'poetry, seria o uso da modução "strings" em registros médios e agudos dos sintetizadores da Roland (síntese eletrônica para conjunto de cordas: violinos, violas, cellos). Posteriormente, com o uso das graves linhas de baixo do sintetizador-sequenciador Roland TB-303, teríamos o surgimento do acid house, uma outra variante do estilo que se desenvolveria com mais força nos clubes da Inglaterra -- com influências jazzísticas mais claras, inclusive. No áudio acima, temos um single produzido por Frankie Knuckles em 1987. 

 Aphex Twin
Aphex Twin é considerado por muitos um dos DJs e produtores mais geniais de todos os tempos -- sendo, talvez, o DJ mais influente das últimas décadas. Sua influência é citada por muitos dos músicos da eletrônica contemporânea e vai do mundo pop -- com a Madonna tendo implorado para tê-lo como parceiro -- ao universo da música erudita -- com seus remixes sobre composições de Philip Glass e com várias das suas criações intrincadas recebendo releituras de ensembles e orquestras tais como o Allarm Will Sound e a London Sinfonietta. Seu pioneirismo remonta-se ao surgimento dos estilos drill'n'bass -- uma variante ainda mais veloz e alucinada do drum'n'bass surgido no final dos anos 80 -- e IDM (Intelligent Dance Music), onde as batidas eletrônicas acontecem com sincronias e assincronias polirrítmicas de muita complexidade, trazendos influências das intrincadas peças eletroacústicas e atonais de compositores eruditos tais como Tod Dockstader, Iannis Xenakis e Krzysztof Penderecki. Aphex Twin chegou a confessar, inclusive, que costuma usar o UPIC (Unité Polyagogique Informatique CEMAMu), ferramenta computadorizada de composição musical idealizada pelo compositor Iannis Xenakis. Um paralelo entre a obra de Karlheinz Stockhausen com a obra de Aphex Twin também tem sido equivocadamente traçada por revisores e fanáticos. Contudo, ainda que Aphex Twin não tenha se inspirado na obra de Stockhausen de forma direta, o impacto que a obra desse DJ irlandês vem tendo sobre a música contemporânea nas décadas de 90, 2000 e 2010 é tão revolucionário quanto o impacto que o compositor alemão exerceu sobre a música da segunda metade do século 20. Sempre em busca de sonoridades idiossincráticas, Aphex Twin costuma modificar e inventar seus próprios sintetizadores, além de ter idealizado e criado diversos protótipos e softwares. 

Squarepusher
Squarepusher é ao lado de Aphex Twin -- seu amigo, que lhe exerce forte influência -- um dos produtores de música eletrônica mais geniais e influente dos últimos tempos. Sua influência é citada sobretudo entre os músicos do jazz contemporâneo. Sua música também é calcada nos estilos alucinantes do drill'n'bass e IDM (Intelligent Dance Music), porém com aberturas instrumentais mais variadas, frequentemente tocando contrabaixo elétrico e atuando com sua banda de "jazztronica" Shobaleader One em meio seus eletrônicos, synths e laptops. Em termos de contrabaixo elétrico, Squarepusher é dotado de uma técnica improvisativa absurda e é fortemente influenciado pelo contrabaixista de jazz fusion Jaco Pastorius. Ademais, embora sua música se situe quase sempre no território das complexas batidas polirrítmicas, não é incomum vê-lo atuar em faixas mais texturais mais próximas da estética "ambient". Com uma eletrônica rica de combinações timbrísticas orgânicas, quentes e frescas ao mesmo tempo -- isso muito por causa das suas combinações de timbres acústicos e eletroacústicos e da sua predileção pelo jazz --, Squarepusher transcende todos os limites do que pode ser considerado de mais criativo na música eletrônica, bem como em suas intersecções com a música acústica. Dois álbuns indicados para o ouvinte-leitor que queira observar essas características são o Hello Everything (Warp Records, 2006) e o album Elektrak do Shobaleader One (Warp Records, 2017). 

Amon Tobin
Amon Tobin é considerado um dos maiores sound designers do mundo -- senão o mais intrigante, dentro da sua incomparável proposta pessoal. Brasileiro radicado no Canadá, Amon Tobin já era considerado um dos grandes DJs do mundo em suas incursões eletrônicas mais ritmadas quando se inspirava mais no jazz, bossa nova, drum'n'bass e etc -- vide, por exemplo, suas criações sob o pseudônimo de Cujo. Depois que suas amostragens foram evoluindo, gradativamente para o campo do design com sofisticadas e inteligentíssimas construções abstratas, suas criações elevaram-se ao mais alto patamar da arte musical. Hábil em criar abstrações imagéticas -- sendo muito requisitado para compor peças para video-games e produções cinematográficas --, Amon Tobin é praticamente um dos fundadores de uma nova eletroacústica para o século 21. A extensão das suas aplicações é de uma completude assustadora: da bricolagem à eletroacústica, da colagem à manipulação e modulação de sons pré-gravados, do toca-discos aos portáteis sintetizadores analógicos e digitais, dos mais sofisticados softwares de laptop às mais específicas técnicas de estúdio...o artista mostra proficiência em todas as frentes da manipulação sonora! Dois álbuns recomendados são: ISAM (Ninja Tune Records, 2011), onde essa arte de se criar abstrações moldadas por imagetismos futuristas chega ao mais alto patamar; e o fantástico registro Electronic Music For The Sydney Opera House - Amon Tobin Plays Buchla For The Sails, onde ele cria uma sequência de "criaturas sonoras" usando um histórico sintetizador Buchla no espaço da Sydney Opera House. 

Carl Stone
Ao lado de figuras como Steve Reich e Pauline Oliveros, Carl Stone é um dos pioneiros compositores e experimentalistas americanos a trabalhar com a manipulação de eletrônicos: primeiro por meio de loops com fitas magnéticas nos anos 70, depois por meio dos áudios com interface MIDI proporcionados pelos primeiros computadores MacIntosh nos anos 80 e 90, e depois através dos sofisticados programas de laptop das últimas décadas. O fato é que Carl Stone é um daqueles pioneiros que veio se atualizando ante aos recursos e às abordagens pós-modernas das últimas décadas. Suas obras usam as mais diversas técnicas de manipulação para criar peças eletrônicas não menos que surpreendentes: colagens, emendas, overdubs, distorções, efeitos vários... Nos últimos tempos, com a pandemia, o compositor tem se submetido à faceta de se isolar em sua casa de retiro no Japão e usar seus programas de laptop, usando mais preponderantemente a linguagem de programação de áudio conhecida como MAX / MSP, para manipular, distorcer e descontruir pastiches da cultura pop. Seus últimos trabalhos, lançados na plataforma do Bandcamp, são simplesmente admiráveis. Compositor fantástico já abordado aqui no blog. 

J Dilla
Surgido na cena underground do hip hop de Detroit, J Dilla foi um DJ, rapper, baterista e produtor que praticamente dominou as produções do hip hop na segunda metade dos anos 90 e dos anos 2000 com suas distintas batidas "bêbadas" e marcantes, sendo um dos ases do movimento do neo-soul embalado pelo coletivo de cantores, músicos e rappers Soulquarians -- coletivo que, inclusive, o trompetista de jazz Roy Hargrove fez parte, sendo muito requisitado como arranjador. O fato é que as produções de J Dilla praticamente definiram a sonoridade e as batidas das produções de muitos rappers, bandas, grupos e cantores do final dos anos 90 e início dos anos 2000: suas produções foram requisitadas por Janet Jackson, The Pharcyde, De La Soul, Busta Rhymes, A Tribe Called Quest, Q-Tip, Common, Erykah Badu, Questlove, D'Angelo, James Poyser, Talib Kweli, entre muitos outros. De certa forma, em termos ilustrativos, J Dilla pode ser considerado uma espécie de "Miles Davis" do hip hop e neo-soul dos anos 2000 no sentido genial de simplificar os processos: adotando uma estética lo-fi, suas inovações vai muito de encontro com o processo de criar detalhes simplificadores nos processos de sequenciamento e remixes, mas simplificações inovadoras que definiram a sonoridade fresca e contemporânea dessa geração neo-soul. J Dilla é particularmente reconhecido pelo uso do sequenciador Akai MPC3000, e também foi honrado com um o modelo Minimoog Voyager, um sintetizador projetado em sua homenagem pelo próprio Robert Moog. Contudo, o frescor das suas inovações advém de processos muito mais abrangentes: enquanto produtores do pop e do hip hop dos anos 80 e início dos anos 90 usavam batidas artificiais com mixers, baterias eletrônicas e caixas de rítmo, J Dilla muita das vezes adotava uma estética mais lo-fi e gravava os rítmos na bateria acústica convencional -- sim, a bateria usada no jazz acústico, com caixa, pratos, bumbo, chimbal e etc -- para depois manipulá-los em seu Akai MPC3000, deixando as batidas da bateria fluírem de forma mais humana e compassada, sem o processo mecânico de quantização que marcava a precisão das batidas eletrônicas em outras produções mais sintéticas; além disso, seus remixes passaram a considerar sínteses de linhas graves de baixo e samples com elementos do jazz e do soul contemporâneo dos anos 70 -- aos estilos de Donald Byrd, Roy Ayers, Lonnie Liston Smith e etc -- oferecendo os ingredientes principais para a sonoridade do neo-soul dos anos 2000; e essas características também foram somadas a um inteligente e econônimo uso das possibilidades eletrônicas do scratch em toca-discos, do sequenciamento de loops, do uso do Minimoog Voyager e outros sintetizadores, entre outros detalhes que condimentaram a contemporaneidade das suas produções. A quem possa interessar, recentemente o escritor Dan Charnas lançou o livro Dilla Time, um best-seller que aborda a vida e obra desse grande produtor da geração neo-soul. 

Madlib
Madlib é um dos DJs e produtores mais completos que se tem notícia -- um dos maiores músicos e produtores do universo hip hop, ao lado de DJ Premier e J Dilla, de quem, inclusive, ele foi parceiro no projeto JayLib. Atuando em várias frentes dentro do universo do hip hop -- como cantor, MC, DJ e produtor --, e sendo sobrinho do trompetista de jazz Jon Faddis, Madlib também ficou conhecido pelas inteligentes manipulações instrumentais envolvendo samples de jazz. Um dos seus projetos mais conhecidos é o "Madlib invades Blue Note", onde a legendária gravadora de jazz abriu as portas para que ele explorasse seu gigantesco acervo de registros, projeto que surtiu efeito no álbum de remixes Shade of Blue (Blue Note, 2003). Mas mesmo antes, Madlib já vinha surpreendendo em projetos próprios onde sua sina era criar bandas de jazz imaginárias com aberturas improvisativas para o remix, os samples e o uso extensivo de eletrônicos: sendo um multiinstrumentista, Madlib tocava todos os instrumentos em todas as partes e, depois, interfaçava os overdubs e dava nomes criativos para os músicos imaginários, criando um processo criativo totalmente novo e inventivo. No áudio acima, por exemplo, temos uma faixa do interessantíssimo álbum Angles withoud Edge (Stones Throw Records, 2001), onde ele cria uma banda imaginária chamada Yesterday's New Quintet, mas é ele quem toca todos os instrumentos e efetua todas as colagens e manipulações. Em sua passagem pela Stones Throw Records, Madlib lançou uma sequência desses álbuns jazzísticos, onde as manipulações claramente são influenciadas por lendas do jazz tais como Miles Davis, Sun Ra, Weldon Irvine, Herbie Hancock, dentre outros. Para quem se interessar, leia uma resenha mais extensiva aqui no blog, onde abordamos melhor essas facetas de Madlib e também abordamos J Dilla. 

Daft Punk
O hiper criativo Daft Punk é uma dupla francesa formada no início dos anos 90 pelos músicos Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, os quais iniciaram antenados com a onda do acid house que explodia na Europa. É um dos nomes mais pop da música eletrônica e sua musica foi, talvez, a trilha que melhor representou a cultura cyberpunk em voga nos últimos tempos: tendo sido convidado, por exemplo, para compor a trilha sonora do filme Tron - O Legado (2010), um dos símbolos do cinema cyberpunk. Suas amostragens combinam pop, techno, acid house, synthpop, disco music e uma certa medida de punk rock psicodélico, na maioria das vezes combinando loops repetitivos e hipnóticos em batidas na velocidade média de um bpm de 130 a 140 batidas. Uma das influências principais da dupla foi, justamente, as amostragens do DJ Frankie Knuckles, um dos pais da house de Chicago. Posteriormente, as abordagens polirrítmicas de Aphex Twin também lhes influenciaram muito. Mas o fato é que um dos trunfos da dupla foi sempre se inspirar em muitas outras influências para criar suas misturas únicas, incluindo na lista dessas influências artistas e bandas do movimento da discoteca setentista e nomes como Funkadelic, Andy Warhol (e seu conceito pop-art de produção em massa), Wendy Carlos (pioneira dos sintetizadores), Vangelis, Philip Glass e Jean Michel Jarre. Embora a dupla tenha focado sua obra no território pop da dance music, suas misturas e abordagens contribuíram de forma relevante para a arte da eletrônica contemporânea. 

Stereolab
Muitas vezes categorizada dentro do rótulo "avant-pop", o grupo francês Stereolab é uma das bandas mais criativas da história da música em termos de identidade e design sonoro próprios. A amálgama musical do Stereolab é formada através da junção de diversos elementos e colagens de estilos e sub-estilos tais como indie rock, post-rock, art- pop, avant-garde, música minimalista, bossa nova, jazz, krautrock, sinth pop, eletrônica, lounge e easy listenen dos anos 60, o que confere à banda uma das músicas mais inexplicavelmente inovadoras das últimas quatro décadas -- e tudo isso com um som coeso, coerente, consistente. Em seus primeiros registros, a banda ainda tinha uma aproximação roqueira mais crua com os elementos sessentistas do krautrock alemão, mas aos poucos a banda passa a temperar seu molho com uma variedade cada vez maior de sintetizadores, fitas magnéticas, pianos elétricos, teclados e orgãos eletrônicos -- orgãos Vox, os pianos elétrico da Wurlitzer, os sintetizadores Moog, os orgãos Farfisa, harpsichords, clavinets, Rhodes, rocksichords, Hohner Pianet, celestas e etc -- e passa a criar uma amálgama que muitas das vezes é explicada como sendo uma combinação de uma sonoridade stereo um tanto lo-fi com uma espécie de space-age pop, com um design gráfico próximo à um futurismo retrô. O uso de instrumentação orgânica amalgamada com a instrumentação eletrônica é um diferencial: combinações pontuais e estratégicas com quarteto de cordas, vibrafone, trombone, trompa, entre outros instrumentos são comuns nas canções da banda.

André Mehmari
André Mehmari é um compositor, pianista, manipulador de eletrônicos e multi-instrumentista brasileiro, sendo um dos criadores musicais mais prolíficos, inteligentes e originais em âmbitos vários. Sua carreira é muitas das vezes centrada em resgatar valores e adereços do folclore e da música popular brasileira -- explorando tanto a veia cancionista, quanto a veia instrumental --, mas outras vezes também centra-se em sua própria veia composicional-idiossincrática, de onde se frutifica simbioses harmônico-melódicas das mais interessantes já vistas na música brasileira das últimas décadas. Seus temas e peças são compostos por um tino melódico aguçado e trazem ecos de várias influências e elementos díspares tais como a harmonia características das canções de Milton Nascimento e do Clube da Esquina, a música barroca, o jazz contemporâneo, a livre improvisação e a eletrônica -- sem mencionar sua veia de compositor erudito, no âmbito camerístico e orquestral. Para além dos seus registros com instrumentais acústicos temperados com pontuais e estratégicos efeitos de sintetizadores, em ao menos dois outros registros Mehmari lançou trabalhos onde atua com eletrônica de forma mais imersiva: no álbum Por Sete Vezes (Para o Balé da Quasar Cia. De Dança), registrado em 2018; e no álbum de livre improvisação Matéria de Improviso, lançado em parceria com o baterista e multiinstrumentista Antonio Loureiro em 2021 -- ambos resenhados aqui no blog. Uma das influências um tanto aparente na distinta amálgama musical de André Mehmari é a predileção por nuances e atmosferas inspiradas pela flora e pela fauna e pelos sons da natureza -- evocando, por exemplo, ecos da eletrônica do tecladista de jazz-fusion Lyle Mays. Entretanto, esses dois registros mais recentes -- Por Sete Vezes (2018) e Matéria de Improviso (2021) -- já evidenciam aberturas para novas outras sonoridades baseadas em inspirações da alma e do corpo humano e atmosferas também urbanas e futuristas.

Noisia
O Noisia é um trio holandês formado pelos DJs Nik Roos, Martijn van Sonderen e Thijs de Vlieger de Groningen (aka Thys). Ativo desde o início dos anos 2000, o trio ficou na ativa até 2020, quando decidiram se separar. Sendo um dos grandes nomes da eletrônica nos anos 2000 e 2010, trata-se de um dos nomes principais do estilo drum'n'bass e suas variáveis e correlações: electro-house, bassline, dubstep, techstep, eurofunk, grime, dentre outros. Inicialmente mais apegado às batidas rápidas do drum'n'bass, na década de 2010 o trio se tornou mais flexível e incorporou essas variantes e várias outras tendências, expandindo suas abordagens para vários estilos e emprendendo trabalhos com várias parcerias célebres. O álbum Split the Atom (2010) é um ponto inicial para essa maior abertura: com a marcante assinatura das batidas potentes nas linhas graves de baixo, o álbum vem dividido com um conjunto de originais e outro conjunto de remixes aplicados por DJs e manipuladores tais como 16bit, Loadstar, Amon Tobin, Neosignal, Bar9, Ed Rush, dentre outros. 

Opiate

Thomas Knak (aka Opiate) é um músico de eletrônica dinamarquês que atua sob o pseudônimo Opiate. Proficiente em compor trilhas sonoras, ele também ficou conhecido por produzir alguns arranjos eletrônicos para a cantora islandesa Björk em seu álbum Vespertine. Além desses ofícios, Knak também produziu remixes para outros músicos, tais como o manipulador Tim Simenon, o guitarrista de jazz Jakob Bro, a dupla Coldcut... e é membro dos grupos People Press Play, Future 3 e Opto (em dupla com Alva Noto). O estilo de Opiate é difícil de categorizar. Ele faz um misto de elementos IDM e ambient music, algumas vezes evocando a poética sonora nórdica -- aquele som ambiente gélido, com loops de melodias e extratos sonoros longos e etc --, priorizando timbres brilhantes, ritmos fragmentados e batidas singelas espaçadas de forma arrítmica e minimalista no percurso das peças, além de sempre condimentar suas amostras com alguns mínimos de elementos da estética glitch (baseada em ruídos de falhas eletrônicas), com alguns mínimos extratos de eletrificidade mais rústica e ruidosa para contrastar com os timbres brilhantes. Seu processo de criação se dá pelo uso de recortes, distorções e outras edições interfaçadas em MIDI com uso de softwares como Cubase e Live by Ableton, e pelo uso do sampler Ensoniq ASR-10. Thomas Knak também ficou conhecido por compor as trilhas sonoras dos filmes Reconstruction (2003) e Allegro (2005), do diretor dinarmarquês Christoffer Boe -- a trilha de Reconstruction (2003) chegou a ser, inclusive, premiado em Cannes na época. Dois álbuns indicados são Objects for An Ideal Home (1999) e o homônimo Opiate (2003). As amostragens de Opto (em dupla com Alva Noto) também são interessantes para entender sua predileção minimalista.
 
Valgeir Sigurdson
Fundador do bem requisitado estúdio islandês Greenhouse Studios, também fundador da gravadora e do coletivo de músicos e compositores Bedroom Community, a atuação de Valgeir Sigurdson transpassa os limites entre música eletrônica e música erudita contemporânea, incluindo colaborações com diversos artistas criativos e experimentais do universo pop e de vários gêneros da música: da sua longa estadia colaborativa com Björk até suas colaborações como mixer, programador e produtor em projetos com Thom Yorke (do Radiohead), Hilary Hahn, Brian Eno, Sigur Rós, Nico Muhly, dentre muitos outros. Seu primeiro álbum Ekvilibrium (Bedroom Community, 2007) é o registro das suas amostragens eletrônicas da época, vindo com misturas de música erudita ao som de cordas em longas texturas, música minimalista ao estilo nórdico, texturas ambient, estética glitch, canções próximas ao avant-pop, progressive house e entre outros elementos. Posteriormente, Sigurdson focaria suas produções em composições eruditas ambientadas em um certo minimalismo nórdico formado com misturas de texturas sonoras barrocas e medievais -- na maioria das vezes usando orquestra de cordas -- com texturas eletrônicas longas, graves, sombrias e gélidas. Valgeir Sigurdson é um dos nomes principais quando o assunto é a inserção da eletrônica na música erudita contemporânea. 

Gilles Peterson
A importância do DJ, produtor, empreendedor, colecionador e radialista Gilles Peterson -- nascido na França, mas radicado na Inglaterra -- remonta-se desde a segunda metade da década de 80, quando ele se torna um dos principais nomes do impactante movimento das rádios piratas inglesas e do acid jazz inglês, que explodia em paralelo ao jazz-rap nos EUA. Colecionador de discos adepto à cultura rare groove, Gilles Peterson é um aficionado em compilar sons raros e efetuar remixes com samples desses sons, tendo nas variantes do jazz, soul, funk, afro-beat e na música brasileira suas principais predileções. Recentemente por, exemplo, ele compilou uma coleção de excertos e faixas da discografia de Sun Ra, músico de jazz que foi pai do afrofuturismo e precusor da eletrônica via os primeiros claviolines, celestas eletrificadas, clavinets, Wurlizers, Moogs, Yamahas, Crumars, Farfisas e outros instrumentos eletrônicos. Apesar de exímio e requisitado DJ, no decorrer da carreira a importância de Gilles Peterson ficou centrada mais na difusão do que na discotecagem. Em 1987 ele fundou a gravadora Acid Jazz e no início dos anos 90 ele funda a Talkin' Loud, selos independentes importantíssimos para a difusão do acid jazz. Nos anos 2000, Gilles Peterson funda a Brownswood Recordings, pela qual empreenderia em diversos lançamentos de nomes importantes ligados aos estilos do jazz, UK street soul, brit funk, afrobeat, acid jazz, new wave jazz, broken beat, UK garage, entre outros. Sempre ligado à radio-difusão, Gilles Peterson mantem um importante programa na Rádio BBC, o BBC Radio 6 Music, onde difunde suas pesquisas e convida diversos músicos ilustres para entrevistas e bate-papos. Recentemente Gilles Peterson participou do álbum HH (Edition Records, 2020) do guitarrista Lionel Loueke, vide áudio acima.

Leftfield
Formado pela dupla Neil Barnes e Paul Daley, o Leftfield é considerado um dos nomes principais do techno/house britânico dos anos 90, uma das bandas mais influêntes das últimas décadas nessa seara. A dupla ficou conhecida por misturar elementos e estilos como techno, dub, raggae, hip hop, vocais pop e sonoridades da world music em suas discotecagens, sendo, portanto, pioneiros dos estilos que ficaram rotulados como progressive house e trip hop. Seu álbum Leftism (1995) é considerado um dos melhores álbuns da história da eletrônica no âmbito da dance music, tendo ganhado reedições em 2002 e em 2017, ambas a reedições com remixes de diversos DJs e manipuladores importantes. Mesmo centrada na dance music, a musicalidade de Neil Barnes e Paul Daley deve ser reconhecida: eles frequentemente chamam vocalistas, bateristas, percussionistas e outros instrumentistas para suas performances ao vivo, acrescentando elementos enriquecedores às suas batidas eletrônicas. A dupla teve um hiato de 2002 à 2010 para dar vazão em suas carreiras solo, mas na última década Neil Barnes assumiu sozinho o codinome Leftfield e lançou o ótimo álbum Alternative Light Source, mostrando um latente frescor futurista e uma evolução inconteste das suas abordagens. Posteriormente a dupla voltaria a se encontrar em shows, gravações e eventos sempre muito aguardados pelos aficionados em eletrônica. 

The Orb
O The Orb é uma influente dupla inglesa formada no final dos anos 80 pelos músicos Alex Paterson e Jimmy Cauty, que posteriormente foi substituído por Thomas Fehlmann. Assim como a maioria dos músicos e grupos da música eletrônica britânica, eles surgiram antenados com as variações do techno e da house music. Mas já entre fins dos anos 80 e início dos anos 90, eles começaram a criar amostragens com texturas suaves e efeitos relaxantes por cima das batidas, e em algumas faixas até suprimindo as batidas por completo, criando pulsações mais suaves e relaxantes e chegando a um estilo que foi rotulado de ambient-house ou chill-out. Os dois primeiros álbuns do The Orb -- o Adventures Beyond the Ultraworld (1991) e o U.F.Orb (1992) -- são muito referenciados quando o assunto é o nascimento do estilo chill-out. Geralmente, os músicos de eletrônica adeptos a esse estilo costumam citar, entre suas influências históricas, as texturas criadas por Jean-Michel Jarret e os estudos experimentais de La Monte Young, pai do subgênero minimalista conhecido como drone music, e de Brian Eno, um dos pais da estética "ambient music". Outra influência clara nos trabalhos do The Orb eram as temáticas futuristas advindas do sci-fi, da cosmologia e da ufologia, evocando sons e efeitos alienígenas relacionados ao espaço sideral e criando shows com muitas luzes e efeitos audiovisuais de palco -- algo que tem origem, também, com as performances de Jean-Michel Jarret nos anos 70. 

DJ Marky
É impossível falar no estilo drum'n'bass sem citar o DJ brasileiro Marky Mark, que nos anos 90 se tornou um dos mais energicos representantes do estilo. O drum'n'bass é um estilo advindo dos estilos dub, electro-funk, techno e jungle em voga a partir da segunda metade dos anos 80, mas apresenta batidas ainda mais frenéticas e velozes, podendo alcançar uma margem entre 170 a 180 BPM, além de um bassline (linhas de baixo) denso e potente. O protagonismo de DJ Marky nas pistas de dança de São Paulo, Tóquio, Bristol, Londres e outras cidades europeias que cultuavam o drum'n'bass foi praticamente dominante entre os anos 90 e 2000, além dos inúmeros shows e raves em vários outros países do mundo, sendo ainda hoje um nome sempre muito requisitado e muito referenciado no universo da música eletrônica voltada para as pistas de dança. DJ Marky também é conhecido por suas parcerias com outros nomes importantes do drum'n'bass tais como os brasileiros S.P.Y e XRS, o DJ japonês Makoto, dentre muitos outros. Apesar do DJ Marky ser essencialmente admirado por sua energia voltada quase que exclusivamente para as pistas de dança -- não sendo, portanto, um DJ voltado às amostragens conceituais e experimentais --, sua importância para a evolução do drum'n'bass é sempre referenciada e algumas das suas misturas e remixes envolvendo drum'n'bass com MPB, samba e bossa nova contribuíram com o surgimento de um subgênero conhecido como "sambass". 

Marcioz
Dessa lista aqui apresentada, o produtor brasileiro Marcioz, nascido em 1996, é o mais jovem representante do universo da música eletrônica criativa. Natural de Curitiba, Marcio Zygmunt adotou o nome artístico de Marcioz e começou a empreender-se em territórios internacionais onde houvesse um público ávido e um território fértil para sua música, fixando-se, por ora, na Alemanha. Suas manipulações incluem samples diversos, industrial music, avant-garde, noise, música erudita, música experimental, MPB e vários excertos de material pré-gravado, por meio dos quais o produtor elabora amostragens plásticas com base na sua visão de miscigenação racial brasileira e latino-sulamericana, mostrando uma abordagem experimental com um latente frescor pós-moderno. Em 2018 o célebre produtor e DJ San Holo o convidou para gravar um EP a ser lançado pela sua gravadora Bitbird, algo que resultou em um reconhecimento imediato ao seu talento. Através dos registros How to Make Love $tay (Bitbird, 2018) e Mulato Tragidy (jovemdeu$$, 2019) Marcioz já começou a ganhar notoriedade em diversas coletâneas, magazines especializadas e festivais, sendo atualmente considerado um dos mais proeminentes nomes da eletrônica contemporânea. 

Massive Attack
Formado pelos músicos e rappers Robert "3D" Del Naja, Adrian "Tricky" Thaws, Andrew "Mushroom" Vowles e Grant "Daddy G" Marshall o coletivo de Bristol Massive Attack é um dos principais nomes do estilo chamado trip hop, misto de vocais e instrumentais. Posteriormente Tricky sairia da banda para empreender-se em projetos solo, e Daddy G assumiria os vocais, ficando o coletivo sendo representado por um trio e mais seus vocalistas e músicos convidados. O álbum de estreia do Massive Attack, Blue Lines (1991), é considerado um dos marcos iniciais do trip hop, uma fusão de hip hop e eletrônica amalgamada com outros elementos do reggae, jazz, soul, funk, dub, R&B, pop e rock mais ao estilo post-punk melancólico com vocais oscilando entre a fala e o canto, oferecendo sempre um bassline marcante e, por vezes, uma sonoridade mais chegada ao psicodélico e ao experimental. O rótulo "trip hop", aliás, não deve ser levado a sério como uma estética fechada de "hip hop britânico" -- como o próprio termo pode denotar --, pois, como podemos constatar na música do Massive Attack e vários outros músicos e coletivos relacionados ao estilo -- Portishead, Tricky, Morcheeba, The Chemical Brothers, entre outros --, esse gênero é realmente uma amálgama de vários estilos vocais e instrumentais do final dos anos 80 e início dos anos 90, sobrando apenas alguns traços estilísticos dos vocais do rap e dos breakbeats característicos do hip hop. No álbum No Protection, por exemplo, o Massive Attack faria uma parceria com o DJ Mad Professor e incorporaria uma sonoridade instrumental mais flexível e mais voltada para o dub, um estilo reverberante calcado nas origens africanas do reggae (mas sem soar reggae, de fato). Com o álbum Mezzanine (1998), o Massive Attack chega ao auge do seu estilo trip hop, com uma amálgama já mais cristalizada. Talvez o fato do trip hop ter conseguido amalgamar todas essas influências do final dos anos 80 e início dos anos 90 seja o motivo da sua grande popularidade e influência na cultura pop dos anos 90 e 2000, tendo influenciado nomes que vão de Björk à Gorillaz, de Madonna à Radiohead, de PJ Harvey a Linkin Park. 

Fatboy Slim
Surgindo nos meandros do indie rock e do rock alternativo ainda nos momentos iniciais desses subgêneros no final dos anos 80, Fatboy Slim se tornaria um dos músicos mais populares da eletrônica dos anos 90 e 2000. Pioneiro do estilo bigbeat, seu gigante protagonismo nessa época divide espaços e atenções com outros grupos de grande popularidade como The Chemical Brothers, Prodigy e Crystal Method. O estilo bigbeat é similar ao trip hop, mas com os breakbeats mais orientados às batidas pesadas de funk misturadas às sonoridades do rock alternativo e aos sempre presentes loops repetitivos provocados por toca-discos, sequenciadores e mixers. O álbum You've Come a Long Way, Baby (1998) costuma ser creditado como um dos registros a documentar o auge do big beat característico de Fatboy Slim. Vários dos seus singles foram gravados com outros artistas de grande renome, tais como Macy Gray, David Byrne, Iggy Pop, dentre outros. Com David Byrne, inclusive, Fatboy Slim gravaria o álbum conceitual Here Lies Love (Todomundo/ Nonesuch, 2010), baseado na vida da ex-primeira-dama das Filipinas Imelda Marcos. Fatboy Slim é, enfim, não apenas um nomes mais populares do estilo bigbeat, mas é dotado de considerável criatividade e versatilidade. 

Benga
O DJ inglês Adegbenga Adejumo, mais conhecido como Benga, é um dos nomes principais do estilo dubstep surgido no distrito de Croydon. O dubstep é uma extensão progressiva e contemporânea do velho estilo dub, variante eletrônica surgida nos anos 70 na Jamaica através do reggae. Nos anos 2000, o dubstep seria popularizado sobretudo pela radialista e DJ Mary Anne Hobbs, responsável por compilar, discotecar e difundir muitos dos primeiros nomes do estilo, incluindo os nomes de Benga e Skream, que a partir da segunda metade dos anos 2000 se tornariam dois dos principais produtores do gênero. Contudo, é preciso frisar que apesar da sua associação inconteste com o dubstep, Benga tem uma abertura mais progressiva para outros estilos contemporâneos como o future house, o UK garage e o bassline e suas linhas de baixo graves e eletrificados. E essas aberturas lhes confere uma variedade de abordagens para suas batidas, loops e linhas de baixo. Um dos álbuns mais criativos nesse sentido é o Diary of an Afro Warrior (2008), com uma abordagem futurista e variada das batidas com influências no jazz, reggae e nas rítmicas africanas. Apesar de ser ainda muito jovem, em 2015 Benga anunciou sua aposentadoria por ter sido diagnosticado com transtorno bipolar e esquizofrenia, transtornos os quais ele atribuiu à sua frenética vida de drogas e shows. A descoberta da sua psicose, porém, o levaria a lançar um single chamado "Psychosis", em 2018. Desde então, aficionados em eletrônica tem esperado com ansiedade que esse grande DJ retorne à ativa. 

Skream
Skream é, ao lado de Benga, um dos nomes principais do dubstep. Em meados dos anos 2000, ele empreendeu colaborações de longa data com os DJ's Artwork e Benga, com os quais co-fundou um supergrupo de dubstep chamado Magnetic Man, tendo lançado com esse grupo o aclamado álbum Magnetic Man (2010). O álbum homônimo Skream (2006) é o seu primeiro álbum completo e um dos registros que efetiva o dubstep, tendo recebido inúmeros elogios do público, de vários outros produtores e da crítica especializada por esse lançamento. Muito embora Skream seja reconhecido como um dos grandes pioneiros do dubstep, já é a partir do seu álbum Outside the Box (2010) que ele começa a variabilizar seu trabalho com elementos de jazz, electro-pop, hip hop, techno, house, UK garage, chill-out, entre outros. Ativo também como empreendedor e difusor de novos talentos, entre os anos 2013 e 2014 o produtor também fechou sua gravadora chamada chamada Disfigured Dubz e abriu uma nova plataforma chamada Of Unsound Mind, mostrando uma fase aberta para mudanças amplas também em sua carreira como produtor. o selo tem sido responsável por revelar artistas da eletrônica tais como Motions, Billy Turner, Melody’s Enemy e Osolot.

 Jlin
Nos últimos anos, a produtora Jerrilynn Patton, conhecida como Jlin, tem sido apontada como uma das mais criativas figuras da música eletrônica contemporânea. Natural de Indiana, EUA, seus discos Dark Energy (2015) e Black Origami (2017) foram amplamente elogiados por público e crítica pela criatividade e inovação. Black Origami traz peças eletrônicas suas elaboradas exclusivamente para o lançamento do próprio álbum, mas também traz colaborações curiosas com a dançarina e performer Avril Stormy Unger, com o compositor  minimalista e experimental William Basinski na faixa "Holy Child", com a artista sonora Holly Herndon na faixa "1%", com a produtora Fawkes na faixa "Calcination" e com a rapper sul-africana Dope Saint Jude na faixa "Never Created, Never Destroyed". Seu estilo é uma mistura frequente de elementos do IDM (Intelligent Dance Music), com footwork -- um estilo de dança rápida e desordenada originado das batidas do gueto house -- e com suas predileções por elementos da música erudita contemporânea e da percussão acústica, algo que resulta numa amálgama incomparável de síncopas desordenadas, samples curiosos e misturas inovadoras. Recentemente, essa predileção pela percussão contemporânea contritbuiu, por exemplo, para que Jerrilynn Patton fosse convidada para colaborar com uma peça composta para o renomado ensemble erudito Third Coast Percussion, no álbum Perspectives (Cedille, 2022), que resenhamos recentemente aqui no blog. Antes, em 2018, Jlin já havia contribuído com o remix da faixa "Vladimir's Blues" para o relançamento de 15 anos do álbum The Notebooks (Deutsche Grammophon), do compositor pós-minimalista alemão Max Richter.

Lucrecia Dalt
Lucrecia Dalt é uma produtora, experimentalista e performer colombiana que se estabeleceu na Europa -- primeiro Barcelona, depois Berlim -- e se especializou em uma música eletrônica com conceitos reflexivos e temáticas poéticas -- no sentido moderno e pós moderno da poesia sonora conceitual. Seu estilo pessoal se dá pelas abordagens mais abstratas, atmosféricas e conceituais em torno dos estilos avant-garde, noise, glitch e ambient music de verve europeia, com batidas mais espaçadas e algumas vezes com spoken word (poesia falada). Influências que compõe seu leque de atmosferas e camadas sonoras incluem a exploração da oralidade poética com experimentação vocal, a física quântica dos sons e as temáticas da natureza e da engenharia geotécnica -- isso porque ela chegou a realizar estudos de física quântica e sua especialização acadêmica é em Geologia. É o que mostra seu álbum Anticlines (2018), onde o título está relacionado aos anticlinais, que são dobras convexas nas camadas de rochas e solos, ou formações rochosas em forma de arco. Lucrecia Dalt chegou a esta temática após passar vários meses criando novos "patches" sonoros e pensando em um tema conceitual em torno de instrumentos e aparelhos eletrônicos tais como o Clavia Nord Modular e o Moogerfooger MuRF. Para consolidar o conceito do álbum Anticlines, a produtora também contou com a colaboração de artista visuais como a espanhola Regina de Miguel e o australiano Henry Andersen na criação das imagens e vídeos sinestésicos. Para além das influências geológicas, a artista sentiu a necessidade de se reaproximar dos elementos da sua terra natal, Colombia, com alguns resquícios de elementos rítmicos e temáticos colombianos: o álbum abre com a faixa “Edge” onde a letra do spoken word se refere à lenda do "El Boraro", uma criatura mítica da Amazônia colombiana. Outra faixa bem sinestésica do álbum Anticlines é "Analogue Mountains", inspirada na história do meteorito marciano ALH 84001 que foi encontrado na Antártida em 1984, e no qual se descobriu fortes evidências microscópicas de vida antiga marciana. As camadas sonoras de Lucrecia Dalt são não menos que alienígenas, idiossincrátivas, claustrofóbicas e geniais. 

Autechre
Autechre é uma dupla hipercriativa formada por Rob Brown e Sean Booth, ambos de Rochdale, Greater Manchester, Inglaterra. Apesar de terem iniciado a carreira antenados com os movimentos do electro, hip hop e techno da segunda metade dos anos 80, já no início dos anos 90 eles expandiriam suas amostragems para abordagens experimentais de ambient music, rítmicas intrincadas e texturas futuristas abstratas, sendo um dos pioneiros das estéticas IDM e glitch, apesar de nunca terem se amarrado com nenhum gênero em específico e terem mudado de estilo diversas vezes, sobretudo após os anos 2000. Talvez o fato deles terem começado a dupla com amostragens através de equipamentos baratos antes de começarem a usar laptops e softwares -- como o sampler Casio SK-1 e uma bateria eletrônica Roland TR-606 -- foi o que contribuiu para que eles explorassem ruídos e efeitos que contribuiram para o desenvolvimento da estética glitch, que prioriza distorções, efeitos sonoros pela compressão de taxa de bits, ruídos advindos de defeitos e falhas eletrônicas, bugs de computador, curto-circuitos, chiados e falhas de rádio, efeitos produzidos por riscos em disco de vinís, entre outras abordagens. O fato é que a música do Autechre é uma mistura distópica entre dança, efeitos e atmosferas com esses elementos todos: ambient, techno, electro-house, um pouco dos rítmos intrincados do IDM, os efeitos ruidosos do glitch e etc. No áudio acima temos a faixa "Glitch", do álbum Amber (1994), considerado uma das primeiras amostragens do termo e do conceito "glitch" no âmbito da rave music. 

Zavoloka
A sound designer Kateryna Zavoloka é uma compositora de música experimental, noise e música eletrônica contemporânea, que também atua como improvisadora, performer e designer gráfica. Mantendo moradia em Kiev, capital da Ucrânia, mas frequentemente radicada em Berlim, Zavoloka evidencia uma clara evolução em sua discografia: partindo de álbuns com construções mais abstratas e indo em direção à estética da IDM (Intellingent Dance Music), mas sempre mantendo o caráter outsider, intrincado e experimental da sua intrigante arte musical. Seu primeiro registro, álbum homônimo lançado pelo selo ucraniano Nexsound e pelo selo austríaco Laton em 2005, é um bom exemplo de como a eletrônica experimental de Zavoloka se trajava em seu início de carreira: a construção abstrata, proporcionada por eletrônicos analógicos e digitais, recebe uma experimental tratativa da concepção denominada como "glitch", conceito que faz uso de chiados elétricos e ruídos baseados em falhas e defeitos técnicos, bugs eletrônicos, distorções e compressão de bits para se produzir um design sonoro experimental, ríspido e abstrato. Ademais, a maior inspiração de Zavoloka neste álbum foi a cultura étnica da região Ciscarpática da Ucrânia, propósito que gestou uma híbrida sonoridade através dessa mistura de influências folclóricas com uma eletroacústica rústica e futurista de estilo glitch. Logo após o lançamento deste álbum, Zavoloka recebeu menção honrosa no Prix Ars Electronica, uma das mais importantes premiações anuais no campo da música eletrônica criativa. Plavyna é um dos mais interessantes álbuns de eletrônica dos anos 2000. Mas os ouvintes mais aplicados também poderão se surpreender com seus álbuns posteriores.

Ryoji Ikeda
O artista de artes sonoras e visuais Ryoji Ikeda -- japonês, mas radicado na França -- é, talvez, o exemplo mais essencial de como integrar a arte da música com a arte conceitual do audio-visual. Sua arte, na verdade, está mais no campo conceitual de uma não-música e mais no campo do design sonoro e das explorações da percepção auditiva quanto aos sons e suas frequências quânticas. Suas instalações combinam grandes paineis e projeções de arte visual com as minúcias dos sons manipulados eletronicamente: Ikeda se concentra nas minúcias das frequências ultra-sônicas e nas partículas essenciais do som, oferecendo um novo desafio para a percepção e para a dianóia geométrica do som aplicado no tempo e no espaço. Dessa forma, sua arte alcança desde traços minimalistas com sons mínimos espaçados entre silêncios, passando pela hipnose da ambient music reducionista e englobando até traços da noise music e da estética lowercase com pulsos e ruídos quânticos que os ouvidos humanos não são capazes de identificar, mas que são amplificados e manipulados para atingir esse conceito de arte sonora. Sua arte sonora e audiovisual é constantemente referenciada e requisitada em museus de arte moderna, bienais e mostras alternativas de arte, instalações conceituais em desfiles e eventos e mostras de música mais específicas. Apesar de trabalhar a maior parte do tempo como um artista solo, Ikeda já empreendeu parcerias com outros nomes da eletrônica conceitual tais como Christian Marclay e Carsten Nicolai (aka Alva Noto, mas dessa vez sob o pseudônimo "Cyclo").

Gerald Cleaver
Embora o foco do baterista Gerald Cleaver seja o jazz e a improvisação livre, recentemente ele tem mostrado trabalhos eletrônicos de excelente carga criativo-experimental, vide por exemplo o álbum Griots (577 Records, 2021), já resenhado aqui no blog. Griots é o segundo registro da imersão do baterista Gerald Cleaver em improvisações eletrônicas -- o primeiro álbum chama-se Signs e também foi editado pela 577 Records, em 2020. E embora só agora mais recentemente estejamos à par da imersão do baterista nessa seara, a eletrônica é uma influência que praticamente percorre suas veias: o baterista é de Detroit, a capital americana da música eletrônica, onde os afluentes do soul jazz e do jazz-funk sempre estiveram presentes como elementos precursores da techno music desde seus primórdios. Sendo um álbum de atuação solo -- com o baterista atuando com teclados, sintetizadores vários, bateria eletrônica e outros aparelhos --, a essência de Griots em termos de inspiração é a de homenagear a "tribo", os "griots", a "comunidade" musical que cerca o músico -- lembrando que "griots" é um termo que advém da cultura africana e está relacionada aos anciãos responsáveis por passar as influências, sabedorias e os costumes para os mais novos. Cada uma das faixas apresentam texturas e combinações rítmicas diferentes e cada uma delas é inspirada em um grande músico ou algum tipo de influência do círculo de convivência e da admiração pessoal de Gerald Cleaver: sua mãe em "Remembrances"; o legendário pianista Cooper-Moore; o icônico saxofonista Faruq Z. Bey, que atuou em Detroit com a banda Griot Galaxy nos anos 80, muitas vezes apresentando idiossincráticas composições em métricas rítmicas inusuais; o baterista Victor Lewis; a icônica pianista Geri Allen; o trompetista Ambrose Akinmusire, que também participa nessa faixa dedicada a ele; e assim por diante. Com pouco apelo rítmico, as improvisações e manipulações eletrônicas de Gerald Cleaver são abstratas e não seguem nenhuma filiação estilística mais conhecida. Contudo, esses seus improvisos eletrônicos são no mínimo surpreendentes. 

Vijay Iyer
Vijay Iyer -- que, além da sua proficiência pianística, tem especializações em matemática, física e música eletroacústica pela conceituada Yale University -- é um dos maiores inovadores do jazz contemporâneo. Embora não focalize sua carreira em explorações eletrônicas, ao menos em quatro registros ele lançou trabalhos experimentais de grande criatividade nessa seara. Em 2003, ele se junta ao rapper Mike Ladd para lançar o projeto In What Language?, onde o pianista une seu estilo único com recortes do hip hop e spoken word, com pitadas de sintetizadores e eletrônica a La Sun Ra, para lançar uma crítica social em torno da discriminação contra imigrantes que passou a dominar o ideário dos EUA após os atentados de 11 de Setembro de 2001: este registro explora, através do spoken word de Mike Ladd, o incidente que o cineasta iraniano Jafar Panahi sofreu ao ser barrado no aeroporto JFK em 2001, no qual o cineasta foi detido e algemado erroneamente por funcionários da agencia da inteligência INS e enviado de volta a Hong Kong, já que ele não conseguiu explicar e provar, em inglês, que não era um imigrante ilegal ou mal intencionado. Em 2006 Mike Ladd e Vijay Iyer voltam com a parceria no registro Still Life with Commentator, registrando uma peça-multimídia que eles já haviam apresentado em dezembro de 2006 no Harvey Theater da Brooklyn Academy of Music, sob a bandeira do Next Wave Festival. A peça é um esforço colaborativo de Iyer e Mike Ladd com o artista conceitual Ibrahim Quraishi, resultando numa crítica sonora sobre a cultura do consumismo americano e sobre o modo como as tecnologias modernas afetam os indivíduos na sociedade -- interessante o uso do sample de um anúncio da TV japonesa na faixa “Riding on the Intro Graphics to Cable News”. Esse registro, aliás, traz uma combinação de artistas bastante diversificada e exótica, assim como também soa seu conteúdo musical: participam, além de Mike Ladd no spoken word, a vocalista islandesa Pálína Jónsdóttir evocando elementos do avant-pop da cantora Björk e a performer e vocalista Pamela Z com seu mix de parafernália eletrônica e técnicas vocais estendidas, além da participação da violoncelista e improvisadora sul coreana Okkyung Lee. Já em 2013, Vijay Iyer e Mike Ladd lançam o terceiro capítulo dessa série, o álbum Holding It Down: The Veterans' Dreams Project, que explora, musicalmente, outra discussão espinhosa que sempre assombra o ideário americano: de como os sonhos de soldados e veteranos de guerra americanos são minados pelo imperialismo e expansionismo bélico dos EUA -- assunto bem recorrente nos filmes americanos, onde vemos aquele veterano de guerra que volta para a sociedade desacreditado do seu país e sem perspectivas e, na maioria das vezes, precisa de apoio psicológico para retomar sua humanidade e se reintegrar socialmente. Em 2020, isolado pelo lockdown, Vijay Iyer reabre esse baú de explorações eletrônicas e aproveita vários daqueles excertos gravados com Mike Ladd apartir de 2003 e edita o último álbum da série: o álbum InWhatStrumentals. As narrativas-críticas, o amálgama de oralidades, signos sociais e elementos de sonoridades eletrônicas futurísticas, fazem deste protesto sonoro um dos projetos mais inovadores das últimas décadas! 

Antipop Consortium
Antipop Consortium é um grupo de hip hop alternativo formado na segunda metade dos anos 90 pelos músicos e rappers Beans, High Priest, M. Sayyid e o produtor Earl Blaize. Eles ficaram conhecidos por uma abordagem mais experimental em seus samples e loops eletrônicos e pelo uso do conceito de "fluxo de consciência" em seus raps e rimas, com letras inteligentes que fazem o ouvinte e o espectador a apelar para lógica contextual dos signos e oralidades. Sendo notados em alguns selos de hip hop underground e experimental no final dos anos 90, o grupo chegou ao auge quando assinou com a Warp Records e passou a ser requisitado em várias parcerias com outros músicos hiper-criativos, incluindo o contrabaixista Bill Laswell e o pianista Matthew Shipp, com o qual lançou o álbum Antipop vs. Matthew Shipp pela gravadora Thirsty Ear Recordings em 2003. Além do registro que documenta a parceria com Matthew Shipp, eu particularmente recomendo uma audição atenciosa ao álbum Arrhythmia (Warp, 2002), um dos registros de hip hop mais fantásticos já produzidos em termos de elaboração, detalhes eletrônicos, samples inteligentes e letras contextualizadas.

Sevish
O produtor e DJ Sevish -- inicialmente influenciado por Aphex Twin, pela techno dance e por trilhas sonoras de videogames -- é um dos mais fanáticos criadores de música eletrônica a explorar as possibilidades das combinações microtonais. Sevish começou a lançar suas criações de forma totalmente independente e on-line já aos 16 anos em espaços alternativos da internet, conseguindo amplo reconhecimento em blogs, fóruns e sites como o maior desbravador da eletrônica microtonal do ambiente web. Também sendo um exímio explorador das possibilidades analógicas e digitais -- com preferência pelo uso do controlador hexagonal MIDI AXiS-49 para criar microtons e vários pluggins e DAWs como Ableton Live, Bitwig Studio, Max/MSP, além de usar vários sistemas digitais de afinação --, entre 2010 e 2011 ele passa a ganhar reconhecimento amplo da crítica especializada com os álbuns Golden Hour e Subversio (esse em parceria com os estudiosos das propriedades xenarmônicas Tony Dubshot e Jacky Ligon). Adodando sempre uma visualização factral do colorido sonoro e seus microtons quânticos, a música eletrônica produzida por Sevish soa instigantemente desafinada em relação aos loops tonais explorados por outros DJ's, uma característica que o coloca no olimpo dos criadores mais seminais da música eletrônica contemporânea.

Otomo Yoshihide
Sendo um dos pioneiros do uso experimental do toca-discos, Otomo Yoshihide é um multiartista japonês ligado às artes do free jazz, da livre improvisação, do noisecore, hardcore rock, avant-garde, extreme metal e radicalidades afins. No campo da eletrônica, Yoshihide trabalha em várias frentes: ora destrinchando ruidosidades das cordas da sua guitarra, ora trabalhando recortes e colagens, outrora se embrenhando em manipulações improvisativas com seus toca-discos e vários outros eletrônicos, objetos e brinquedos em performances ao vivo. Artista seminal para a arte do noisecore japonês -- ao lado dos seus compatriotas Keiji Haino e Yamantaka Eye --, Otomo Yoshihide também ficou conhecido por liderar uma importante banda/coletivo chamada Ground Zero: a banda teve origem em meados dos anos 80, quando Yoshihide colabora com o saxofonista e compositor americano John Zorn ajudando-o no conceito e na formação do time de improvisadores que executaram a sua célebre game-piece chamada "Cobra". Assim, esse coletivo formado para dar vida a essa game-piece de Zorn foi logo uma base para a formação do Ground Zero, que passou a ser um coletivo com membros fixos e rotativos -- vide o álbum Ground-0, No. 0 (1991). Além dos álbuns desse coletivo, as aplicações eletrônicas de Yoshihide podem ser apreciadas em vários projetos solos e colaborativos tais como os álbuns Duo e Silanganan Ingay (1989) ao lado do percussionista Junji Hirose, Turntables Solo (1992), Monogatari: Amino Argot (1994) com o compositor eletroacústico Carl Stone (do qual já falamos acima), Moving Parts (2000) com o veterano do turntablism experimental Christian Marclay, dentre muitos outros.

Henrik Schwarz
Sendo um dos pioneiros do estilo deep house na Europa, uma variante da house music de Chicago que incorporou de forma mais "quente" e orgânica as rítmicas da bateria característica do jazz-funk e vocalizações próximas ao soul entre os loops e efeitos eletrônicos, o DJ e produtor alemao Henrik Schwarz segue atuando em várias frentes desde o início da década de 90, colaborando com inúmeros artistas, bandas e compositores tais como Coldplay, Jarrah McCleary, Mary J. Blige, Bugge Wesseltoft, entre muitos outros. Sempre muito ativo, Henrik Schwarz já lançou mais de uma centena de remixes, criações e produções em selos e gravadoras tais como Jazzland, Warner Music, Universal Music, Motown, Sony/BMG, Studio !K7, Verve Records e etc. Seu campo de atuação vai do jazz à eletrônica e extende-se até o universo da música erudita com remixes e reworks: como, por exemplo, no EP Works Piano (Studio !K7) e no rework que ele aplicou para a peça Gymnopédie No.3 de Erik Satie num single lançado pela Deutsche Grammophon. Um outro registro dessa intersecção de jazz, música eletrônica com música erudita seria lançado no EP Aphorisms, onde Henrik Schwarz trabalha em colaboração ao compositor sírio Khaled Kurbeh e o Raman Khalaf Ensemble. Parcerias interessantes incluem o duo que Henrik Schwarz empreendeu com o tecladista de jazz Bugge Wesseltoft em dois álbuns para o selo Jazzland (em 2011 e 2014) e, mais recentemente, seu trabalho orquestral com a Metropole Orkest registrado no album Henrik Schwarz & Metropole Orkest – Scripted Orkestra (7k!, 2018). 

Sepalot
Sebastian Weiss (aka Sepalot, à esquerda na foto acima) é um dos grandes nomes do hip hop alemão como membro fundador, produtor e DJ do gupo Blumentopf, ativo de 1992 até 2016. Mais recentemente, após a dissolução do Blumentopf, Sepalot formou um quarteto juntamente com Angela Aux, Fabian Füss e Matthias Lindermayr, abordando com essa banda um estilo próprio calcado numa fusão de hip hop, camadas de jazz, elementos do pop-rock indie e batidas e texturas eletrônicas, uma mistura que soa num range entre o acid house e o "nu jazz", mas com esse toque "pop" que o diferencia. Essa mistura é uma amálgama das sonoridades com as quais Sepalot e os membros do seu quarteto estiveram imersos entre a passagem da juventude da pós-adolescência para a fase adulta mais madura, quando passaram de uma fase de muito pop, hip hop, house e techno music em clubes de música eletrônica para uma maior apreciação do jazz. A quem possa interessar, Sebastian Weiss ainda tem outros projetos solos anteriores onde as mistura de pop, rock, hip hop e eletrônica soam mais latentes e sintéticas, sem as astmosferas de jazz e os solos de trompete presentes em álbuns mais recentes tais como Sepalot Quartet: A New Cycle (Eskapaden Musik, 2018) e NOWNEXT (Eskapaden Musik, 2020). Os álbuns Chasing Clouds (Eskapaden Musik, 2011), Chasing Beats (Eskapaden Musik, 2012) e Black Sky (Eskapaden Musik, 2013) documentam essa fase criativa anterior. Ao formar, então, uma banda como um quarteto de jazz e acrescentar solos de trompete e as modernas harmonias jazzísticas, Sepalot eleva o nível de requinte da sua música sem perder a jovialidade pop e a diversão inebriante das repetitivas batidas eletrônicas. 

clipping.
Sendo um dos principais nomes da influente gravadora Sub Pop -- gravadora independente de Seattle, famosa por revelar nomes do grunge tais como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney, mas que posteriormente lançaria outros grandes nomes do folk, indie pop, hip hop underground e cercanias --, o trio clipping. é um dos mais interessantes e criativos grupos de hip hop experimental dos últimos tempos. Radicado em Los Angeles, o grupo é formado pelo rapper Daveed Diggs e pelos produtores William Hutson e Jonathan Snipes. Suas temáticas incluem consciência social, distopia, filmes de terror, inteligência artificial e ficção científica, e seus samples incluem muitas amostragens de chiados, ruídos de materiais sendo destroçados e efeitos baseados na industrial music, música concreta e eletroacústica europeia, além do fato de que suas letras fogem muito da lógica de rimas padronizadas e sincronizadas vistas no hip hop mainstream. Um álbum seminal para entender o estilo do grupo é Splendor & Misery (Sub Pop, 2016), onde eles se inspiram na aclamada série de álbuns de vinil Prospective 21 Siècle, lançada pela Philips de 1967 à 1972 sob a curadoria de dois pioneiros e estudiosos da música concreta e eletroacústica, François Bayle e Pierre Henry. Mais recentemente, no aclamado álbum Visions of Bodies Being Burned (Sub Pop, 2020), o grupo criou um single chamado "Chapter 319" com o sample de uma música de DJ Screw com George Floyd como Big Floyd, em dedicatória aos protestos Black Live Matter eclodido com o assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis.

DJ King Britt
Natural da Filadélfia, King Britt começou sua trajetória como comprador de discos numa filial da loja Tower Records, ofício com o qual pôde revelar novas gravadoras, impulsionar a divulgação de novos grupos e bandas e também fazer muitas conexões na comunidade musical. Seu conhecimento de jazz, funk, pop, hip hop, techno e house era tão enciclopédico, que logo ele se tornou uma autoridade de curadoria e compras na empresa, assim como também isso ajudou a impulsionar sua carreira como DJ e produtor. Suas primeiras colaborações incluíram participações em shows do Digable Planets e da banda inglesa Sade. Seu primeiro lançamento foi em 1994 em uma colaboração com Ursula Rucker, numa amostragem de eletrônica com spoken world. Em 2001, Britt lançou Sylk130 Re-Member's Only, que conta com participações de Alison Moyet, Martin Fry, Kathy Sledge, Grover Washington Jr e De La Soul. Logo em seguida viria o aclamado projeto Adventures In Lo-Fi (BBE, 2003), com participações de Madlib (como Quasimoto), De La Soul, Dice Raw, Ivana Santilli e Butterfly (do Digable Planets): o projeto comportou uma versão com essas participações vocais e outra versão apenas com as amostragens instrumentais elaboradas por King Britt. De certa forma, esses registros primeiros já evidenciam a miríade de influências que dão forma para a música de King Britt: sua eletrônica inclui estilos como o breakbeat, o trip hop -- mais puxado para uma conexão mais direta com o hip hop, sem as conexões pós-punk e pop presentes no trip hop inglês -- e elementos advindos do techno e do house, com pitadas ancestrais do jazz, funk, soul e gospel. No álbum King Britt Presents: Sister Gertrude Morgan (Ropeadope, 2005), o DJ sampleia, por exemplo, as canções gospel que a missionária e artista plástica autodidata Irmã Gertrude Morgan registrou em uma gravação de campo de 1970. Já no álbum The Intricate Beauty SAMPLER, King Britt retorna magistralmente aos primórdios da disco, do electro, house, techno e dub, com parcerias com Kim English, Byron Stingily, Ryat, Carlos Izaguerre, Rucyl Mills e Astrid Suryanto. Mais recentemente, King Britt lançou uma empolgante parceria com o baterista de jazz Tyshawn Sorey, num misto de sonoridades polirrítimicas da bateria acústica com os breakbeats e efeitos eletrônicos do toca-discos, samples, sintetizadores e eletrônicos vários. 

DJ Spooky
DJ Spooky é um dos mais importantes DJ's americanos no campo das interações das técnicas instrumentais do hip hop e da eletro-dance com as aplicabilidades estéticas do avant-garde e da música experimental. No âmbito mais popular ele é categorizado como um dos pais e pioneiros dos subgeneros "illbient" e "hip hop experimental", sendo um dos expoentes da cena cultural do Brooklyn, N.Y., ao lado do conterrâneo DJ Olive. Mas no âmbito da música contemporânea em geral, a proficiência de DJ Spooky alcançou diversos territórios. Só para se ter uma idéia, suas parcerias vão do guitarrista Thurston Moore (da banda de punk rock Sonic Youth) ao pianista de jazz Matthew Shipp, do pioneiro do noisecore japonês Masami Akita ao compositor e pioneiro da eletrônica Ryuichi Sakamoto. Seu álbum Optometry (Thirsty Ear, 2002) traz participações dos músicos de free jazz Matthew Shipp, William Parker, Guillermo E. Brown e Joe McPhee. Em outra oportunidade, DJ Spooky colaborou com ninguem menos que o compositor grego Iannis Xenákis e o STX Ensemble: vide sua participação na gravação da peça Analogiques A + B registrada no álbum Ianissimo! (Vandenburg Wave, 1997) e na gravação da extensa peça homônima do álbum Kraanerg (Asphodel, 1997). Dessa forma, as amostragens de DJ Spooky são sempre quebradiças e cheias de intervenções advindas dessas influências dos campos da eletroacústica erudita, do jazz, da improvisação livre, da ambiente music, do noisecore mais próximo à estética industrial music, entre outras influências. Suas performances tem sido requisitadas em diversos contextos: museus de arte moderna, instalações multimídia, trilhas sonoras de filmes, participações em shows e gravações com outros instrumentistas, e muito mais. 

DJ Olive 


DJ Olive é, ao lado de DJ Spooky, um dos pais e expoentes do estilo illbient, sendo uma importante figura da cena cultural do Brooklyn, e presente também na Downtown nova-iorquina ao lado de expoentes do avant-garde tais como Arto Lindsay, Zeena Parkins, Ikue Mori, John Zorn, Dave Douglas, Uri Caine , Medeski Martin e Wood, dentre outros -- muito interessante, por exemplo, é sua participação nos álbuns onde Uri Caine "interpreta" clássicos da música erudita em formas desconstrutivas e livremente improvisadas. O estilo illbient é caracterizado pelo uso experimental e improvisativo do toca-discos em confluência com outros eletrônicos, buscando misturas de hip hop, dub, noise, industrial, dark ambient e o uso de samples numa abordagem mais improvisativa, mais próxima as colagens experimentais inauguradas, por exemplo, por Christian Marclay. Em meados dos anos 90, DJ Olive fundou o coletivo de illbient chamado We, formando um trio com DJ's e Lloop e Once 11, e atuou na formalização do estilo ao lado de DJ Spooky, Byzar, Sub Dub e Soundlub, todos expoentes do illbient que efervesciam a cena mais underground do Brooklyn na época. Contudo, como já citado, as colagens e improvisações de DJ Olive podem ser ouvidas em uma pá de álbuns de músicos de avant-jazz e da livre improvisação de Nova Iorque.

Carl Craig
Depois dos pioneiros Derrick May e Juan Atkins, Carl Craig é considerado o mais influente músico da techno music, expandindo essa influência para outros gêneros e subgêneros e se transformando num dos produtores e agitadores culturais mais influentes da música eletrônica. Carl Craig surge no final dos anos 80 e logo se mostra, claramente, um dos DJ's a aplicar inovações ao techno, usando remixes de bandas, músicos e compositores ambientados no jazz, new wave, industrial, krautrock, ambient, e diversos outros gêneros. As novas abordagens que Carl Craig deu ao techno também o levam a ser considerado um dos precursores dos subgêneros drum'n'bass e IDM, ainda que nunca tenha seu autoproclamado um adepto dessas correntes. Mas o fato é que, além de variabilizar mais os breakbeats, as amostragens de Carl Craig conferiram ao techno uma abordagem mais melódica e ambient, não apenas voltada para a dança frenética incorporada pela primeira geração de DJ's de Detroit, mas também voltada para o uso criativo de sintetizadores e, por consequência, para uma apreciação de audição mais apurada -- sobretudo a partir de fins dos anos 90, quando ele começa ampliar seu leque de influências e passa a atuar com o pseudônimo de Innerzone Orchestra. Em 2002, convidado pela Ropeadope Records, Carl Craig capitaneia o interessante projeto The Detroit Experiment ao lado do produtor Aaron Levinson: o projeto contou com diversos músicos de jazz, soul e eletrônica de Detroit -- como a violinista Regina Carter, o saxofonista Bennie Maupin, a pianista Geri Allen, o trompetista Marcus Belgrave, o baterista Francisco Mora, o saxofonista Allan Barnes, o DJ Karriem e o cantor e tecladista Amp Fiddler -- e visou fornecer um tributo ao perfil da rica cena musical da Motor City (projeto já resenhado aqui no blog). Ademais, em 2008 Carl Craig é convidado pela Deutsche Grammophon a trabalhar no projeto Recomposed ao lado do produtor Moritz von Oswald, gravando um álbum de remixes sobre peças de Mussorgsky e Ravel. 

Jameszoo
Se mostrando um inconteste especialista em conceitos idiossincráticos de improviso, colagem, descontrução, distorção e fragmentação em suas amostragens, o holandês Jameszoo é dos mais criativos e originais produtores de música eletrônica do mundo. Com aguçado humor pós-moderno e fascinado pelo jazz -- tendo no álbum Sextant (Columbia, 1973), de Herbie Hancock, um dos seus clássicos preferidos de todos os tempos --, Jameszoo rotula sua música como sendo algo próximo a um "naive computer jazz". Jameszoo também é fascinado pela música brasileira, sua principal inspiração na elaboração dos emblemáticos EPs Faaveelaa (Rwina Records, 2012) e Guanyin Psittacines (Kindred Spirits, 2012). Daqui do Brasil, dois dos grandes ídolos musicais de Jameszoo é o multinstrumetista Hermeto Pascoal e o cantor e compositor Arthur Verocai, que chegou a ser convidado para participar da produção do álbum Fool (Brainfeeder, 2016). Esses álbuns já evidenciam que, apesar de Jameszoo ser proficiente em batidas dançantes, seu fascínio mesmo está pelas colagens e combinações esquizofrênicas de instrumentação eletrônica com instrumentação orgânica, incluindo descontruções, distorções e fragmentações, muitas das vezes com participações de vários instrumentistas. Em seus últimos álbuns participam instrumentistas de várias estéticas e de vários cantos do mundo tais como o tecladista holandês Niels Broos, o contrabaixista sueco Petter Eldh, o baterista britânico Richard Spaven, o baterista suíço Julian Sartorius, a violinista holandesa Diamanda La Berge Dramm, o pianista e organista inglês Kit Downes, o trompetista americano Peter Evans, o veteraníssimo saxofonista-improvisador britânico Evan Parker, o baterista alemão Christian Lillinger, dentre outros. 

eRikm
Inspirado pelas colagens e manipulações de Christian Marclay e muito antenado com a evolução da música concreta e da eletroacústica europeia, o manipulador de eletrônicos francês eRikm encontrou na improvisação livre uma seara fértil para suas abordagens, sendo frequentemente visto em performances ao lado de improvisadores como Phil Minton, Günter Müller, Martin Tetreault, Otomo Yoshihide, Norbert Möslang, Toshimaru Nakamura, dentre outros. Suas influências e colaborações incluem o pioneiro da música concreta Luc Ferrari, o pioneiro da noise music japonesa Otomo Yoshihide, o ensemble de percussão erudita Les percussions de Strasbourg, o próprio Christian Marclay, dentre tantos outros. Muito interessante é, aliás, sua associação com o Les percussions de Strasbourg no álbum Drum-Machines (2018), onde eRikm aplica deformações sobre as abordagens desse célebre ensemble que se notabilizou por difundir inúmeras peças de percusão compostas por Boulez, Stokhausen, Xenakis e compositores correlatos -- muitas dessas peças de percussão, aliás, combinadas com as possibilidades da eletroacústica. Já o álbum Transfall ~ 2012 estabelece uma ponte entre a música concreta e a eletroacustica erudita com a noise music, o glitch, a ambient music mais experimental e a improvisação livre. Também é interessante sua participação no coletivo DJ Trio, um trio de toca-discos com Christian Marclay e DJ Olive, coletivo que foi convidado para várias apresentações em mostras, museus e palcos de livre improviso.

Christian Marclay
Muito influenciado pelo dadaísmo, por John Cage (o precursor do uso dos toca discos), pelo movimento Fluxus, pela livre improvisação e pela pop art, o pioneiro DJ Christian Marclay nunca chegou a ingressar no estudo musical propriamente dito. Seu encontro com a música deu-se na condição de artista plástico e performer ligado ao audiovisual e à criação de imagens e filmes experimentais. Em 1979, Marclay teve a idéia de produzir um curta metragem experimental explorando recortes de imagens sob o pano de fundo de uma trilha sonora um tanto avant-garde e original: como não era músico, ele compunha as músicas da trilha cantando-as e gravando-as em fitas K7; ele também chegou a contratar um guitarrista chamado Kurt Henry para lhe dar suporte, descobrindo que podia haver uma interação interessante entre um DJ e qualquer outro músico. Sem dinheiro para contratar ou formar uma banda inteira com contrabaixista e baterista, Marclay começou a utilizar toca-discos simultâneamente para produzir rítmos de acompanhamento, a exemplo de como os DJs do hip hop começaram a fazer na época -- mas tudo isso à sua maneira. Dessa forma Christian Marclay acabou descobrindo que, usando toca discos, podia improvisar em tempo real e associar suas performances de livre improvisação às suas concepções relacionadas a arte da performance e do audiovisual. Em paralelo com seus vídeos e com suas criações no ramo das artes plásticas, Marclay começou a se apresentar ao vivo com seus equipamentos, utilizando inúmeros discos de vinil e alguns toca discos portáteis. Emprestando técnicas dos DJs do hip hop e desenvolvendo outras tantas, ele começou a manipular dois ou três toca discos ao mesmo tempo na intenção de produzir rítmos e efeitos inéditos: mixagem, scratch, sobreposições, cortes, colagens e etc. Muitos dos seus vinis eram de gravações dos mais variados gêneros, artistas, bandas, enquanto outros recebia a mesma preparação de um piano preparado de John Cage: recebiam arranhões, fitas colantes e deformações na intenção de se obter ruídos inusitados. Não demorou muito para Marclay ser considerado uma sensação da música experimental: já em 1982 começou a colaborar com o compositor experimentalista John Zorn em várias gravações. Desde então, Marclay já lançou diversos albuns solo e aparece em diversas colaborações com músicos, compositores e improvisadores como William Hooker, Elliott Sharp, Otomo Yoshihide, Butch Morris, Shelley Hirsch, Flo Kaufmann, Arto Lindsay, Fred Frith, Thurston Moore, entre outros. Seus primeiros registros são datados dos anos 80 e podem ser ouvidos numa compilação chamada Records (1981-1989), onde o improvisador reúne gravações caseiras guardadas em suas fitas K7, gravações ao vivo, bem como uma apresentação que ele fez no célebre programa de TV Night Show, apresentado pelo saxofonista David Sanborn. Christian Marclay é considerado o principal precursor do glitch e da arte do "turntablism experimental". 

DJ Logic
Conheci DJ Logic ouvindo o excelente álbum Live At Tonic do contrabaixista de jazz Christian McBride. Tendo surgido na cena hip-hop do Bronx no início dos anos 90, inicialmente DJ Logic foi mentorado e influenciado pelo guitarrista Vernon Reid (da banda de funk-rock Living Colours) e formou, com esse, a dupla Yohimbe Brothers, posteriormente sendo convidado por diversos outros nomes do jazz e do rock para participações em shows e gravações. Além de atuar com grupos de hip hop, DJ Logic é um dos pioneiros em inserir o toca-disco dentro de bandas de jazz, rock e jam bands, assim como é conhecido por inserir muitos samples de jazz, funk e soul em singles de hip hop. Além de atuar com Christian McBride no álbum Live At Tonic (Ropeadope, 2006), a criatividade de DJ Logic também pode ser presenciada no ótimo álbum Prototype (HighNote, 2004) do trompetista Wallace Roney, e no álbum Groundtruther II: Longitude (Thirsty Ear, 2005) com o guitarrista Charlie Hunter e o baterista Bobby Previte. Seu álbum Zen of Logic (Ropeadope, 2006) é um dos seus projetos autorais mais indicados para o ouvinte que quer começar a se inteirar em suas amostragens e misturas, que incluem estilos váriados de blues, electro-funk, funk-rock, jazz fusion, acid jazz, nu jazz, hip hop, jam band, drum'n'bass entre outros. Em termos de remixes, DJ Logic também foi incluido nas compilações Remixed e Reimagined da Sony Legacy, tendo remixado músicas de Nina Simone e Billy Holiday.

Flying Lotus
Flying Lotus é um dos multi-artistas que estão na vanguarda do hip hop experimental e da eletrônica contemporânea. Descendente de uma familia de músicos e cantores de renome -- sendo sobrinho-neto da harpista Alice Coltrane (esposa do saxofonista John Coltrane) e neto da cantora Marilyn McLeod --, Flying Lotus começou sua carreira estagiando na pioneira gravadora de hip hop Stones Throw Records, mas sempre com ouvidos abertos para uma abordagen mais experimental da eletrônica. No início da carreira, Flying Lotus não deixava de confessar a influência que as abordagens de J Dilla tinham em sua música. Posteriormente, porém, Flying Lotus mostraria uma grande evolução para um inconteste estilo pessoal que mistura aspectos do neo-soul, hip hop instrumental, spiritual jazz, nu jazz, glitch, IDM, amostragens abstratas e inúmeros outros elementos. O álbum seminal dessa faceta é Cosmogramma, lançado pela Warp em 2010: o álbum evoca a atmosfera do spiritual jazz que marca seu parentesco com a Família Coltrane e exprime um dos mais intrigantes abstracionismos da música eletrônica dos últimos tempos, tendo, ainda, participações de nomes importantes da música tais como o saxofonista Ravi Coltrane (seu primo, filho de Alice e John Coltrane), o contrabaixista Thundercat, o cantor Thom Yorke (do Radiohead), dentre outros. Suas influências ainda evocam elementos do afrofruturismo iniciado por Sun Ra, dos breakbeats intrincados de Aphex Twin e uma curiosa predileção por composições eletrônicas imagéticas com muita influência de animes, games, cartoons, séries de TV e filmes. Em seu álbum Flamagra (Warp, 2019), o videoclipe da faixa "Fire Is Coming" foi elaborado em parceria com o aclamado cineasta David Lynch, e o videoclip da faixa "More" foi elaborado com o aclamado diretor de anime japonês Shinichirō Watanabe.

Brad Mehldau
O pianista Brad Mehldau é uma das figuras mais inovadoras do jazz das últimas décadas. Seu trabalho com piano acustico -- no campo do range entre o neo-bop e post-bop, com a inclusão de novos standards de canções de Nick Drake, Radiohead, entre outras canções do pop e rock alternativo... -- foi praticamente inovador, emblemático e basilar para o jazz contemporâneo nas décadas de 2000 e 2010. Além disso, suas manipulações eletrônicas também são igualmente emblemáticas, sobretudo com os registros mais fusionistas dos últimos anos. Sua primeira incursão com manipulações e efeitos eletrônicos foi em seu emblemático álbum Largo (Warner, 2002). Mais recentemente, influenciado por seu amigo e baterista-colaborador Mark Guiliana -- líder do interessantíssimo grupo de jazztronica Beat Music! --, Brad Mehldau lançou ao menos três registros com uma eletrônica ainda mais imersiva e inovadora: Mehliana: Taming the Dragon (Nonesuch, 2014), em parceria com Mark Guiliana; Finding Gabriel (Nonesuch, 2019); e Jacob's Ladder (Nonesuch, 2021). Esses três registros soam inovadores não apenas no sentido de reformular as estéticas do jazz fusion e da jazztronica -- tendo como influências, ainda, aspectos do rock progressivo, rock aternativo e eletrônica contemporânea --, mas também pelo imagetismo e ludismo das temáticas: com combinações vocais e instrumentais altamente elaboradas, com efeitos inteligentes e sintetizações das mais cinematográficas, Mehldau praticamente recria uma simbiose electro-orgânica onde o mundo biblíco de profetas, anjos e dragões é retratado. Recentemente, dediquei um post com uma apresentação mais expansiva dessa nova faceta empreendida por Brad Mehldau nesses últimos tempos.

Matmos
Matmos é um aclamado duo de música eletrônica experimental formado pelos DJs e produtores M. C. Schmidt e Drew Daniel que surgiram em São Francisco e depois se estabeleceram em Baltimore. Sempre abertos a sonoridades exóticas e contemporâneas, o duo também é conhecido por ter sido um dos colaboradores da cantora pop islandesa Björk nos álbuns Vespertine (2001) e Medúlla (2004) -- o que já dá uma ideia do alto nível de criatividade da dupla. Além de serem especialistas em criar música eletrônica utilizando sons pré gravados de animais e da natureza, a dupla também faz uso de sons de bricolagem, sucatas, aparelhos domésticos e sons urbanos, além de vários objetos e instrumentos de plástico para impor uma reflexão em torno das temáticas do consumismo, do meio ambiente e de como nos tornamos reféns do uso do plástico, um material que tem se mostrado extremamente nocivo ao ecossistema. Iniciando a carreira em meados dos anos 90, a dupla aborda uma profusão de estilos e subgêneros dentro da música eletrônica: minimalismo, drum 'n bass, techno, glitch, ambient, IDM e etc. A dupla -- que, como quase todos conjuntos de música eletrônica criativa, recebe influências da música eletroacústica --, também é afeita ao uso de discos temáticos e à inserção de instrumentos acústicos e vozes em interação com seus seus eletrônicos: vide o álbum A Chance to Cut Is a Chance to Cure (Matador Records, 2001), que traz ótimas interações com vocais e clarinete; vide o álbum The Civil War (Matador Records, 2003) também traz samples de uma instrumentação bem elaborada ao abordar sons de instrumentos tradicionais tais como hurdy-gurdy, banjo, tuba, flautas orientais, gaitas de foles e etc, abordando sons e texturas que os exércitos medievais e exércitos dos séculos 17, 18 e 19 usavam em suas marchas para guerras e conflitos civis; e vide o álbum Supreme Balloon (Matador Records, 2006), onde a dupla explora a eletrônica analógica, explorando somente sintetizadores clássicos dos anos 60, 70 e 80, manipulando exemplares vintages das marcas Arp, Korg, Roland, Waldorf e Moog; entre outros exemplos. Ademais, outro álbum super interessante é o Plastic Anniversary (Thrill Jockey, 2019), onde o duo produz um design sonoro hiper-criativo utilizando apenas materiais derivados de plástico manipulados eletronicamente: bexigas, garrafas e canudos para refrigerantes, pentes, bolas de sinuca, silicone para implante mamário, flautas de plástico, instrumentos de PVC, objetos domésticos e materiais de plásticos usados para percussão, dentre tantos outros. Recentemente abordamos esse duo aqui no blog. 

DJ Yoda
DJ Yoda é um explorador das técnicas turntablism que faz uso de samples engraçados, descontraídos e divertidos em suas amostragens. Nascido na Inglaterra, desde o início dos anos 2000 -- quando passou a gravar fitas demos e distribuir em lojas, rádios e selos independentes na cena underground de Londres -- Yoda passou a ser considerado um dos melhores DJ's do universo do hip hop inglês, ganhando diversos prêmios a partir de então. Seu incrível álbum The Amazing Adventures of DJ Yoda (Antidote Records, 2006) é um dos excelentes demonstrativos da sua música cheia de samples inteligentes e colagens divertidas. Em 2009, convidado pelo compositor Gabriel Prokofiev -- neto do compositor erudito russo Sergei Prokofiev --, DJ Yoda gravou o inovador Concerto For Turntables & Orchestra junto à Heritage Orchestra, ganhando com essa gravação o 9º Prêmio Anual de Música Independente na categoria de Melhor Álbum Clássico Contemporâneo -- faceta que já resenhamos aqui no blog. Sempre expandindo suas abordagens, sem perder as características da sua música descontraída, em 2019 DJ Yoda lançou o ótimo álbum Home Cooking (Lewis Recordings), onde contracena com diversos artistas e instrumentistas do jazz e da música pop inglesa tais como a saxofonista Nubya Garcia, a multiartista Eva Lazarus, o rapper Edo.G, o tubista Theon Cross, o tecladista Henry Wu e o cantor Joel Culpepper.

Invisibl Skratch Piklz
Invisibl Skratch Piklz é um grupo de DJs fundado em 1989 inicialmente por DJ Qbert e Mix Master Mike, dois dj's americanos de descendência filipina -- lembrando que Mix Master Mike também foi membro dos Beastie Boys, influente grupo de hip hop. Não muito posteriormente, o Piklz recebeu outros membros tais como DJ Apollo, DJ Disk, Shortkut, DJ Flare, Yogafrog, D-Styles e A-Trak, se tornando um dos principais -- senão o principal -- dos coletivos a explorar a arte do "turntablism", termo usado para designar a música eletrônica feita exclusivamente por toca discos e mixers de Dj's de uma forma mais instrumental. Muito embora tenha começado no final dos anos 80, os álbuns oficiais do grupo datam de meados dos anos 90, sendo um dos mais interessantes o álbum Vs. Da Klams Uv Deth (1996). Dos fundadores do grupo, o panamenho DJ Disk foi o que mais procurou criar técnicas próprias, o que mais interagiu com outras formas de música, desenvolvendo um gosto incomum pela livre improvisação e pela música experimental. Não à toa, DJ Disk já participou de inúmeras gravações e apresentações como colaborador de músicos como Herbie Hancock, Bill Laswell, Buckethead, Zakir Hussain, Mike Patton, Norah Jones, Flava Flav, Rancid, Jack DeJohnette, dentre outros. No final dos anos 90, DJ Disk fundou o grupo El Stew, esse justamente para explorar o turntablism inserido dentro de uma música eletrônica mais experimental. O álbum homônimo El Stew (1999) é um exemplo elevadíssimo de música eletrônica experimental via toca discos, samples e parafernálias afins. 

Annie Gosfield
Annie Gosfield é uma compositora radicada na Downtown especializada no uso das técnicas estendidas, da música microtonal e de samples contendo microfonias, ruídos de rádios, ruídos industriais, sinais de satélites e etc. A maioria dos seus trabalhos abrangem mais composições para grupos de câmara, composições de música eletrônica, projetos de vídeo e música para dança. Dotada de um humor pós moderno, ela usa tanto a música composta por notação tradicional quanto a improvisação, tendo nas chamadas técnicas estendidas o principal meio para explorar um mundo sonoro que elimina as fronteiras entre música e ruído, entre composição pré elaborada e improvisação livre. Sua música é muitas vezes inspirada pela beleza inerente aos sons não-musicais, tais como máquinas, ruídos de instrumentos destruídos, discos de vinil, frequências de rádio e etc. Um dos principais divulgadores do trabalho de Annie Gosfield é o compositor e experimentalista americano John Zorn, que além de incluí-la em suas curadorias já abriu o espaço da sua gravadora Tzadik para pelo menos quatro álbuns da compositora. Seu terceiro álbum, Lost Signals and Drifting Satellites, apresenta peças compostas para violino solo acompanhado de ruídos de sinais de transmissões via satélite. O álbum anterior, Flying Sparks and Heavy Machinery, apresenta duas peças compostas com base em suas pesquisas de campo nas fábricas de Nuremberg, na Alemanha, onde registrou ruídos do maquinário local. Em Burnt Ivory and Loose Wires, seu quarto álbum pela Tzadik, ela montou outro programa notável de peças inspiradas (entre outras coisas) por ruídos de discos de vinil de 78rpm, ruídos de sucata e barulhos gravados em uma apresentação de baseball, incluindo nesse molho uma peça par seu seu próprio eletric ensemble inspirado em sons industriais, um concerto para violoncelo e toca discos e uma composição para piano solo e rádio de ondas curtas. 

Ikue Mori
Tendo surgido como baterista da banda punk/no wave DNA no final dos anos 70, e sendo pioneira no uso da bateria eletrônica e da manipulação de eletrônicos em performances ao vivo, em meados dos anos 90 Ikue Mori passa a usar o laptop para expandir sua música, tornando-se, desde então, uma das mais celebradas performers de improvisação livre a usar programas de laptop em interações espontâneas. Sempre ligada ao cenário da Downtown -- por onde transitam figuras do avant-garde americano como Bill Laswell, John Zorn, Fred Frith, Christian Marclay e Elliott Sharp, entre outros --, a improvisadora pode ser presenciada em colaborações inúmeras aos mais diversos músicos de jazz e da livre improvisação dos EUA e da Europa, bem como em vários álbuns da Tzadik Records, gravadora dirigida por John Zorn. Um exemplo é o álbum Hemophiliac (Tzadik, 2002) que traz o ácido saxofone de John Zorn acompanhado de Ikue Mori na bateria eletrônica, outros eletrônicos e laptop, além das improvisações guturais do vocalista Mike Patton (Faith No More, Tomahawk, Fantômas, e etc), que também atua com eletrônicos ao lado de Zorn e Mori: o álbum é uma edição de dois CD's com tiragem limitada e traz uma das mais interessantes interações experimentais com voz, material pré gravado, espaçamentos meditativos, eletrônicos, colagens, ruidos estentidos de saxofone e explorações afins. Outro exemplo é o álbum Near Nadir (Tzadik, 2011) que traz Ikue Mori ao lado do saxofonista inglês Evan Parker, do contrabaixista americano Bill Laswell e do grande percussionista Mark Nauseef -- um dos mais instigantes exemplos de como a improvisação livre pode se configurar numa construção estética de ruídos que transpassa o senso comum do que é música, e se transforma em pura arte sonora. Outro exemplo indicado com Ikue Mori é o precursor álbum Bit-Part Actor (Braille Records, 1996): este registro independente documenta a turnê de Ikue Mori e David Watson na Austrália e Nova Zelândia ao lado de performers e improvisadores eletroacústicos australianos, mais especificamente numa apresentação feita para a rádio australiana ABC -- um registro de improvisação puramente eletrônica! 

Sam Pluta
Radicado em Chicago, Sam Pluta é um improvisador que usa não apenas eletrônicos, mas principalmente programas de laptop, multimídia e tecnologia de computador para criar improvisos e performances sonoras inovadoras, na maioria das vezes ao vivo e no ato da performance. Um dos seus parceiros mais regulares é o trompetista virtuose Peter Evans, que atua tanto no jazz e na livre improvisação quanto na seara erudita. Juntos desde 2008, Evans e Pluta vêm trabalhando em amplos espectros musicais: desde grupos de jazz até em formações de livre improvisação, com destaque para o formato de duo com o qual os dois já se apresentaram nos mais variados clubes, universidades e mostras de música e arte. Algumas das gravações mais interessantes desta parceria, desde então, podem ser conferidas nos álbuns Ghost (More Is More Records, 2011) com Sam Pluta formando um quinteto ao lado do Peter Evans Quartet -- uma gravação que traz a tradição do jazz para o plano da eletroacústica contemporânea --, e Event Horizon (Carrier Records, 2014) e Two Live Sets (Carrier Records, 2019), ambos em um duo de livre improvisação. Sam Pluta também é lider do ensemble de música erudita contemporânea Wet Ink Ensemble, e regularmente escreve peças instrumentais acústicas e eletroacústicas para grandes ensembles e orquestras tais como New York Philharmonic, International Contemporary Ensemble, Yarn/Wire, Mivos Quartet, Ensemble Dal Niente, Mantra Percussion, Rage Thormbones e Prism Saxophone Quartet, dentre outros. Sam Pluta é, enfim, um dos mais abrasivos criadores no âmbito da eletroacústica contemporânea via laptops e softwares.           

Alva Noto
Carsten Nicolai (aka Alva Noto) é um dos mais sofisticados criadores e designers sonoros dentro das estéticas minimalistas da ambient music, noise, glitch e microsound. Influenciado por seus estudos iniciais na arquitetura e paisagismo, suas abordagens adotam um design minimalista tanto no aspecto micro e reducionista dos sons eletrônicos quanto nas texturas e nas ambiências. Suas parcerias incluem nomes seminais desse tipo de eletrônica mais minimal e conceitual tais como Ryoji Ikeda, Opiate (aka Thomas Knak) e Ryuichi Sakamoto. Um álbum muito interessante, aliás, é o registro do projeto orquestral Utp_ (Raster-Noton, 2011) com Ryuichi Sakamoto e o Ensemble Modern. Outro projeto interessante que ele participou foi a composição da ópera "Sparkie: Cage and Beyond" em colaboração com o compositor Michael Nyman, projeto apresentado em 2009. Entre 2014 ele também colaborou com o aclamado diretor e roteirista Alejandro G. Iñárritu compondo a trilha sonora do filme O Regresso (The Revenant, 2015), estrelado pelo ator Leonardo DiCaprio. Seu sound design, suas instalações e sua arte são sempre muito requisitadas em mostras e museus de arte moderna tais como o Guggenheim de Nova Iorque, o SF MoMA, Modern Art Oxford, NTT Tokyo, Tate Modern de Londres e Venice Biennale da Itália.

Nicholas Payton
Natural de New Orleans, Nicholas Payton é um dos trompetistas de jazz mais aclamados das últimas décadas. Nos anos 90, apoiado por Wynton Marsalis, Payton foi uma das pratas do neo-tradicionalismo que resgatou e atualizou as tradições, os valores e as inovações dos mestres do passado (Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, Thelonious Monk, a fase acústica de Miles Davis...e etc). A partir dos anos 2000, Payton não perderia a consciência em torno da tradição do jazz, mas também se deslocaria cada vez mais para seus teclados e para as sonoridades eletrônicas iniciadas com o jazz-fusion de Miles Davis em sua chamada fase elétrica. O marco zero desse enviezamento foi o inovador álbum Sonic Trance, lançado pela Warner em 2003. A intenção do trompetista e multiinstrumentista de New Orleans é, depois de ter explorado o passado, fazer música conectado com as inovações do presente, usando as trilhas deixadas pelo jazz fusion de Miles Davis para incorporar técnicas e características do uso da eletrônica no R'n'B contemporâneo, no electro-funk, no hip hop, e até do uso da eletronica na música jamaicana -- no reggae, dub, dancehall e etc --, se conectando com as novas gerações, com as temáticas e questões sociais contemporâneas e mostrando uma real e mais atual consciência da diáspora musical afroamericana. Desde então, Payton não parou mais de explorar instrumentos eletrônicos, se revezando sempre entre os ecos da tradição do jazz e a eletrônica mais futurista, e algumas vezes até reproduzido eletronicamente caracteristicas e elementos rítmicos tradicionais do blues e da música de rua de New Orleans, numa amálgama de grooves que soa no mínimo inovadora e instigante.

Mark Guiliana & Beat Music!
Beat Music! é uma banda de jazztronica liderado pelo baterista Mark Guiliana, que está na vanguarda da bateria jazzística, com uma pesquisa instrumental com poucos paralelos neste atual momento onde a música eletrônica se efetiva como um dos principais ingrediantes influenciadores para o futuro do jazz. Inspirando-se em Art Blakey (um dos bateristas de batida mais emblemática da história do jazz) sua obsessão é criar manualmente beats polirítimicos com a precisão de um computador -- há momentos, aliás, que o ouvinte não conseguirá diferenciar, de imediato, se o baterista está tocando uma bateria de caixa e pratos tradicionais ou se está tocando uma bateria eletrônica, se está usando apenas programação em aparatos e computadores ou se está ele mesmo tocando com suas próprias mãos. Iniciando com essa banda em 2010, o ouvinte mais aventureiro pode encontrar esses estudos e pesquisas nos seguintes álbums: Beat Music (2012), BEAT MUSIC The Los Angeles Improvisations (2014) e o mais recente Beat Music! Beat Music! Beat Music! (2019), sendo que este último representa o ápice da carreira do baterista com a banda, tendo sido reconhecido como um dos melhores lançamentos de 2019 e tendo ganhando um Grammy Award na categoria Best Contemporary Instrumental Album. Muito embora haja críticos mais puristas que não consideram a banda Beat Music! como sendo uma banda de jazz, propriamente dita, Mark Guiliana deixa claro que, apesar do jazz ser a base central da sua obra e carreira, ele foi tão impactado pela música eletrônica pop quanto pela música de John Coltrane, o que levou a unir as duas estéticas, a eletrônica e o jazz: suas audições à música do criativo DJ Aphex Twin o associou a ouvir Elvin Jones com Coltrane, e as batidas eletrônicas de Squarepusher o atingiu de maneira semelhante de quando ele ouviu Tony Williams com Miles Davis pela primeira vez -- ele explica. Então por que não unir aspectos criativos de duas estéticas musicais distintas para criar música nova? 

Radiohead
Originada de Oxford, Inglaterra, -- e tendo como integrantes Thom Yorke (vocais, guitarra, eletrônicos), Jonny Greenwood (guitarra, instrumentação, arranjos, eletrônicos), Ed O'Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo, sintetizadores) e Phil Selway (bateria) -- o Radiohead pode ser considerada a banda que revolucionou o rock alternativo, sendo uma banda-síntese do pop-rock contemporâneo. Na segunda metade dos anos 90 o Radiohead escolheu passar por um processo de desenvolvimento conceitual que prezou por fugir dos clichês já massificados por outras bandas do punk, grunge e britpop, submetendo-se, desde então, a um maior engajamento crítico, a um resgate repaginado das sonoridades do krautrock e a um maior teor experimental com a inclusão de uma eletrônica mais contemporânea em suas canções, inspirando-se em dj's e manipuladores tais como Aphex Twin e DJ Shadow, e em figuras hipercriativas da música tais como Miles Davis, Ennio Morricone, Charles Mingus e Krzysztof Penderecki. Essa reviravolta acontece entre os anos de 1997 e 2001, nos quatro anos de lançamento da "trilogia" que modernizou o som da banda: ou seja, na sequência dos álbuns Ok Computer, Kid A e Amnesiac, onde o uso hiper criativo da eletrônica se mostrou o principal sedimento. Agora com uma mistura inovadora de eletrônica com pós-punk e brit-pop, e com canções com entonações harmônicas cada vez mais modais e distintas, o Radiohead se transformava numa das bandas mais criativas das últimas décadas. Para quem quer ir mais a fundo, os projetos solos dos membros também se intensificariam em outros gêneros e influências: Thom Yorke, por exemplo, participaria de gravações com Flying Lotus, e Jonny Greenwood se mostraria um proficiente compositor erudito, tendo composto diversas peças orquestrais e trilhas sonoras de sucesso.

Son Lux
Son Lux é uma banda experimental que mistura elementos pop, música eletrônica e influências do post-rock parar criar um dos mais elaborados designs sonoros da contemporaneidade. Iniciada em 2008 através dos trabalhos do tecladista Ryan Lott -- que já usava o codinome Son Lux na época --, em 2015 o guitarrista Rafiq Bhatia (de descendência indiana) e o baterista Ian Chang (de descendência chinesa) se junta à Ryan Lott e o projeto Son Lux se efetiva definitivamente como um trio. Além de um design sonoro que se configura como um diamante híbrido de música eletrônica pós-minimalista com pop e post-rock, a Son Lux frequentemente usa conjuntos de câmera em seus arranjos, sendo um tanto influenciada pela música erudita contemporânea independente ao estilo do aclamado sexteto nova-iorquino yMusic, para o qual os membros da banda frequentemente compõe. E todos os três membros têm mostrado trabalhos composicionais interessantes. Em 2017 o yMusic lançou o álbum First (Communal Table, 2017), com 11 faixas compostas por Ryan Lott -- registro que é o retrato vivo de uma música erudita mais indie, pós-minimalista e contemporânea que está em voga no cenário de nova-iorquino nestes últimos anos. Em 2022, a banda compôs a trilha sonora do filme ficção científica Everything Everywhere All At Once (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo), dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert. Son Lux é detendora de um design sonoro muito particular e intrigantemente distópico e futurista. 

Talvin Singh
Percussionista proficiente em tablas, o renomado DJ e produtor Talvin Singh é considerado um dos pioneiros e inovadores dos subgêneros "asian electronica" e "asian underground", efetuando misturas de elementos tradicionais asiáticos e hindus com estilos de música eletrônica tais como techno, drum'n'bass, IDM, trip hop, e outros. Seu amplo campo de atuação também lhe faz ser sempre muito requisitado para remixes e participações em shows e gravações, tendo colaborações e parcerias com bandas, cantores e músicos tais como Siouxsie and the Banshees, Madonna, Björk, Massive Attack, Bill Laswell, Ryuichi Sakamoto, entre tantos outros. Um projeto interessante que ja teve sua contribuição é o Tabla Beat Science, empreendido por Zakir Hussain e Bill Laswell, com colaborações interessantíssimas dos percussionistas Karsh Kale e Trilok Gurtu, do turntablist DJ Disk, do tocador de sarangi Ustad Sultan Khan e do tecladista Sultan 32 (aka Fabian Alsultany). Outra produção que vale a penas procurar é seu projeto de trazer as sonoridades do milenar coletivo marroquino Master Musicians of Jajouka para o campo da eletrônica, projeto em parceria com Bachir Attar. A faixa que ouvimos acima é do seu álbum de estreia OK (Island, 1998), considerado um dos mais seminais registros da música eletrônica asiática.