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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (02) 

 ★★★★¹/2 - Gabriel Prokofiev - Dark Lights (Nonclassical, 2025).
Dark Lights, o novo álbum do compositor russo-inglês Gabriel Prokofiev —— neto do aclamadíssimo ícone russo Serguei Prokofiev e um dos importantes criadores para o futuro da música erudita ——, é uma surpreendente simbiose eletrônica-orquestral, na qual efeitos de bassline em subwoofer, beats extraídos de um Roland TR-808, linhas melódicas futuristas geradas por sintetizadores modulares, glitches e efeitos, contrastes entre tons dissonantes e tons brilhantes e texturas electroacústicas afins se entrelaçam e se diluem com os sons sinfônicos de sopros e cordas da orquestra juvenil FAMES European Youth Orchestra e com piano marcante de Viviana-Zarah Baudis, todos sob a direção do maestro suíço Etienne Abelin. Interessante lembrar, aliás, que nestas suas incursões mais híbridas, Prokofiev costuma contar mais com orquestras interdisciplinares, uma vez que as orquestras sinfônicas tradicionais não incluem esse tipo de peça contemporânea em seus escopos. Neste álbum, Prokofiev reúne, então, onze peças originais, incluindo as três últimas faixas com remixes assinados pelos DJs e produtores proeminentes da cena clubber londrina: NWAKKE, Adhelm e Nicholas Thayer. O interessante na escrita de Prokofiev é a valorização do caráter idiomático, sustentado por sobreposições inteligentes que diluem o eletrônico dentro do orgânico, por motivos e frases de considerável riqueza rítmico-melódica, por um conceito harmônico avançado e colorido no qual tons de atonalidade se entrelaçam com tons mais brilhantes, por passagens de linguagem erudita super elaborada e por efeitos timbrísticos e arranjos que se interconectam e valorizam todos os elementos eletrônicos e orgânicos como puzzles que se encaixam minuciosamente dentro de uma estrutura —— diferentemente de alguns compositores contemporâneos que tem explorado apenas texturas a pairar no espaço-tempo, sem forma, sem ritmo, sem frases e sem o discurso idiomático. Dessa forma, Prokofiev dá vida a uma atualização do espectro que remonta às primeiras décadas da música moderna, na primeira metade do século XX, quando os compositores pioneiros da música concreta e da eletroacústica já estabeleciam uma incursão entre o ruído eletrônico e a tradição sinfônica. Mas Prokofiev faz isso agora com uma verve avançadamente pós-moderna, atualizada, estabelecendo não apenas um mero encontro ou diálogo, mas uma verdadeira simbiose em que o sintético e o orgânico, a tradição e o futuro —— passando, logicamente, pelo presente —— se fundem a ponto de constituírem um único organismo híbrido, sem impedir que percebamos o brilhantismo das aplicações de cada um dos elementos que ele usa dentro de suas peças. Assim, elementos variados da eletrônica contemporânea —— de drum’n’bass, IDM, trap, hip hop, glitch, grime e etc —— tornam-se simbiontes dentro da escrita sinfônica e camerística de Prokofiev. Em seu site, o compositor registra que estas peças abordam o ponto de encontro entre a máquina e o ser humano numa justaposição da energia robótica da música eletrônica sequenciada à liberdade dos músicos de uma orquestra, uma metáfora sonora que reflete a forma como vivemos hoje no século 21: constantemente conectados à tecnologia, mas ainda profundamente humanos. Grande ideia!!!


Essa simbiose entre tradição e futuro, entre a sonoridade sinfônica e a eletrônica contemporânea, já vinha ficando clara em peças que Gabriel Prokofiev compôs no final dos anos 2000, como seu Concerto for Turntables and Orchestra (lançado em 2009), e também nos registros de remixes e reimaginações eletrônicas que o compositor vinha aplicando sobre as sinfonias de Beethoven, em projetos como Beethoven Reimagined (com a BBC National Orchestra of Wales), BEETHOVEN9 Symphonic Remix (com a Orchestre National des Pays de la Loire) e no mais recente Pastoral Reflections - Beethoven Pastorale 21 (lançado em 2024, com o UNLTD Collective). Esses remixes, reimaginações e procedimentos funcionam, então, como antecedentes estéticos e como estudos que pavimentam o caminho para que Gabriel Prokofiev crie as simbioses eletrônico-sinfônicas que ouvimos neste surpreendente álbum de 2025. Assim como quando ele inflexiona o rico desenvolvimento temático e o complexo idioma presente nas sinfonias de Beethoven por meio de loops, grooves e reagrupamentos com novos beats e efeitos eletrônicos, Prokofiev agora segue ainda mais em evolução, nestas suas peças autorais, ao criar sua própria assinatura sonora, sua própria escrita idiomática, suas próprias combinações e ao estabelecer, por meio de fusões e diluições de uma eletrônica futurista dentro de arranjos sinfônicos, um universo próprio repleto de ingredientes contemporâneos. Fundador do selo Nonclassical —— que segue dando vazão a uma linha mais independente em que a música erudita contemporânea se vê permeada por ingredientes eletrônicos da cena clubber ——, Gabriel Prokofiev é compositor, produtor, DJ e figura central da cena londrina e, com álbuns de peças tão bem desenvolvidas quanto estas, reafirma seu lugar como um dos compositores futuristas mais instigantes do nosso tempo. Dark Lights se revela como o registro em que ele finalmente encontra a simbiose perfeita ao unir, dentro do seu espectro sinfônico singular, os vários elementos que ele vem estudando e colecionando desde os tempos em que sua escuta e seu trabalho como DJ foram moldados, passando por sua formação em composição e música eletroacústica nas universidades de York e Birmingham, até suas investigações e explorações mais recentes, que englobam tanto conexões com a cena clubber de Londres quanto suas obras sinfônicas, peças de música de câmara, ópera, dança, cinema e projetos híbridos. Dark Lights foi lançado digitalmente em 3 de outubro de 2025, já está disponível no Spotify e no Bandcamp e contará com uma edição em disco físico prevista para ser vendida a partir de janeiro de 2026. E, nessa mesma linha de evolução futurista, também é imperdível o seu Synthesizer Concerto, encomendado pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e pela Filarmonica Arturo Toscanini, obra que dá continuidade à sua investigação com concertos para instrumentos inexplorados dentro da tradição sinfônica (eletrônicos, turntables, bumbo sinfônico, saxofone, entre outros). E essas peças e concertos inovadores só atestam como Gabriel Prokofiev ja é um dos grandes compositores do nosso tempo!!!

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Ed Motta e a amplitude de uma trajetória audiófila: do popular ao instrumental, de Dwitza à Behind The Tea Chronicles


O último álbum de Ed Motta, reconhecido soulman brasileiro, tem gerado certa admiração e um turbilhão de críticas positivas pela profundidade, abrangência e qualidade da produção. Trata-se do álbum Behind The Tea Chronicles, lançado agora em 2023 pela MPS, conceituada gravadora de jazz alemã. Em termos de álbuns recentemente lançados na seara vocal dos gêneros soul e jazz, podemos considerar este tento de Ed Motta um dos melhores lançamentos de 2023 ao lado do originalíssimo álbum Mèlusine (Nonesuch, 2023) lançado em francês pela cantora americana Cécile McLorin Salvant. Na verdade, o disco é ótimo, mas não é nada tão extraordinário para um músico da estirpe de Ed Motta. Pelo o que se pode observar, o êxito em torno desse seu novo disco é apenas a concretização de um processo pregresso onde o artista carioca já vinha alcançando a plenitude da sua autoafirmação, da sua honestidade, da sua integridade, da confluência dos seus gostos, hobbies, experiências e aprendizados destilados nas últimas três décadas. Numa época onde a mentira é contada mil vezes até se tornar "verdade" e as fake news são alimentadas até mesmo pelas grandes corporações e plataformas de buscas e notícias que lucram com engajamento e cliques, o ato de se deparar com uma pessoa verdadeira que ainda se cerca de princípios, opiniões sinceras e valores reais pode oferecer um certo impacto nem sempre confortável —— principalmente para quem já nasceu e se criou nessa era atual ou já se deixou contaminar por essa tendência de falsidades. E é esse impacto que Ed Motta frequentemente tem causado. Nos últimos tempos, para além da direção honesta e da qualidade de produção dos seus grandes álbuns, o cantor, produtor e multi-instrumentista carioca tem trafegado com grande repercussão no YouTube e noutras redes sociais através de lives, entrevistas e dos chamados videos reacts (vídeos curtos com reações publicados TikTok, Instagram e etc), meios através dos quais ele se expressa sempre com divertidas reações e ácida sinceridade em relação a outras bandas e outros músicos, dando seus pitacos e suas sarcásticas opiniões em relação ao mercado fonográfico e às pasteurizações musicais as quais considera inqualificáveis, externando suas indignações, externando suas exigências em termos de produção musical, abordando seus vários hobbies (vinhos, chás, cervejas especiais, coleção de discos, filmes e história em quadrinhos e etc), e abordando até outros assuntos aleatórios fora desse circuito de música e hobbies. Por mais que essas divertidas lives e esses sinceros video reacts tenham sido enfatizados pelo artista como uma forma de expressão e de interação honesta com seu público, por outro lado, muitas das vezes, suas declarações emitidas nessas aparições tem dado espaços para várias celeumas, polêmicas e incompreensões: não foram poucas as vezes em que a honestidade, as convicções e as demonstrações de sinceridade do músico carioca chegaram a ser confundidas como sinônimo de arrogância e/ou prepotência. Ed Motta deixa claro, contudo, que essa sua liberdade de sempre ser ele mesmo, de se autoafirmar em torno das suas expertises, dos seus hobbies, do direito de opinar e de sempre ser verdadeiro...essa sua liberdade não está à venda.




Entretanto, acredito que, para qualquer pessoa que ainda não tenha assassinado seu senso crítico nesse mar de falsidades dos últimos tempos, é totalmente perceptível que nessas demonstrações e reações de Ed Motta há muito daquela velha integridade artística que está praticamente em extinção hoje em dia. Fale o que se queira falar de Ed Motta, mas há nele virtudes incontestes que raramente são encontradas nos artistas de MPB de hoje em dia, principalmente nos novos artistas dessa fase mais atual dos últimos tempos, incontestavelmente a fase mais decadente da música popular brasileira em termos de criatividade, de qualidade, de valores e princípios artísticos. Ed Motta é, pois, um dos poucos artistas populares a ostentar aquele tipo de honestidade conquistada em décadas de processo de maturação talhada por pesquisas audiófilas e experiências consistentes, um tipo de honestidade que chega mais robusta do que nunca neste seu novo álbum Behind The Tea Chronicles, um tipo de honestidade onde não se é permitido jamais de comungar com todo esse mau caratismo, com toda essa hipocrisia e todo esse cinismo que observamos em cantores que são rotulados como "MPB", até circundam com certa criatividade pelos circuitos mais restritos e até gostam de serem tratados como artistas "cult", mas... afinal de contas, sempre acabam adotando máscaras de acordo cada "panelinha" e cada conveniência, sempre acabam adotando a farsa do bom-mocismo diante das injustiças mercadológicas, e sempre acabam aceitando convites para estarem inseridos no círculo daqueles artistas pop donos de hits e músicas de baixa qualidade e baixo calão. Isso pode ser até visto como uma questão de sobrevivência. Mas isso também é uma questão de falta de honestidade, falta de integridade e contamina todo um histórico de alta qualidade e riqueza cultural que sempre foi vernacular na música brasileira. Nadando de braçada contra essas ondas de falsidades, a discografia de Ed Motta nos apresenta, então, a mais honesta e bem talhada síntese de um percurso que passa pelo pop, explora a pesquisa, experimenta o instrumental e passa a ter canções destiladas numa miríade de amálgamas e possibilidades criativas. Abaixo, entre tons de senso crítico e resenha, tentaremos entender esse processo o qual há décadas o músico carioca vem perseguindo. 


Particularmente, lembro de ouvir o nome de Ed Motta nos idos anos 90 quando as rádios tocavam sem parar hits como "Manuel", "Fora da Lei", "Colombina", "Tem Espaço na Van" e outros. Mas na época eu era apenas um jovem criado na igreja que estava interessado mais em ouvir Bach, Vivaldi, Wynton Marsalis, concertos de violino e colecionar fitas cassetes de música clássica. Já nos anos 2000, quando comecei a escrever sobre jazz, o nome de Ed Motta novamente me sobreveio quando minhas pesquisas sobre música instrumental brasileira levaram a me deparar com dois dos seus mais criativos álbuns: Dwitza (2002) e Aystelum (2005). Parafraseando o próprio Ed, talvez na época eu teria dito algo do tipo: "Peraí, bicho! Isso aqui é instrumental dos mais avançados, tá!? A partir daí, ainda que eu não tenha me aprofundado no restante da sua discografia, minha convicção sempre foi a de que o gajo era um cantor com um puta par de ouvidos e com uma puta expertise instrumental! E de fato, sempre que ouço algo de Ed Motta, há sempre uma sensação e uma impressão de que ele sempre esteve perseguindo uma trilha, algum tipo de busca, de evolução..., saindo do território do popular —— um popular que chegou a beirar o baile, a dança e até o popularesco —— para o território do arranjo, da finesse, do requinte, da produção de alto nível e até mesmo da experimentação. Ed Motta é relativamente jovem: ele chegou há pouco na casa dos seus 50 anos —— e para um artista de ímpeto criativo constante, essa é uma idade que evidencia que há, ainda, muito a se esperar desse artista. Mas trata-se, enfim, de um artista que já ostenta 15 discos e mais de três décadas de carreira, com uma trajetória que transitou da música mais popular ao instrumental mais cerebral. E aí é que entra a honestidade de todo um processo, tudo muito bem fundamentado em estudos e pesquisas. Em muitas entrevistas, quando Ed Motta fala da sua trajetória e das suas intenções ele não apenas enfatiza que segue nutrindo uma exigência fora do comum em termos de expertise instrumental e elaboração dos arranjos, bem como também enfatiza que nem sempre produziu música de acordo essa sua exigência e essa sua percepção de qualidade musical, deixando claro que em muitos momentos da sua carreira teve mesmo de baixar o nível da sua musicalidade ao nível da música mais popular para, assim, conseguir viver de música e conseguir "pagar o condomínio". E, ao meu ver, está tudo bem! Inúmeros artistas, de músicos de jazz a cantores populares, tem adotado por décadas essa estratégia de mesclar a carreira entre trabalhos mais conceituais e trabalhos mais palatáveis para conseguirem sobreviver nesse mercadão de food service musical e de arte popular congelada e ultraprocessada. Entretanto, até mesmo as produções mais comerciais e palatáveis podem evidenciar uma qualidade acima da média quando esse artista já vem, desde sempre, nivelando sua carreira no mais alto nível. É o caso de Ed Motta. A própria evolução da sua trajetória musical tratará de nos elucidar que até mesmo essa aproximação com o popularesco foi importante para que ele alcançasse hoje esse nível de requinte, de integridade e de honestidade. Não obstante, para além dessa honestidade sempre expressa em lives, shows e entrevistas, o cantor e multi-instrumentista carioca mostra uma qualidade acima da média quando o assunto é pesquisa e conhecimento musical. Sendo um dos maiores colecionadores de discos que se tem notícia no Brasil, Ed Motta tem nutrido e educado seus ouvidos através de milhares de diamantes sonoros garimpados e minerados em pesquisas de LP's e rare grooves, o que também lhe dá propriedade para se autoafirmar e para ser o tipo de artista com um alto nível de exigência, e com ouvidos clínicos e cirúrgicos em termos de produção e expertise instrumental: são os tipos de ouvidos sempre ávidos e espertos para já ter definido, por exemplo, quais variações de acordes deverão ser usadas para que uma canção soe mais colorida, quais tipos de timbres e combinações instrumentais podem ser explorados dentro de um arranjo, e qual o kit de percussão será usado para deixar o groove mais polirítmico ou envolvente. 


A discografia de Ed Motta evidencia, então, uma íngreme linha evolutiva a ser percebida. Justiça seja feita, e como já mencionado, mesmo nos álbuns mais pop de Ed Motta, as qualidades dos arranjos e grooves sempre estiveram acima da média do popularesco pastel que se convencionou embalar nas produções pasteurizadas da música brasileira nestas últimas décadas. Basta ouvirmos o divertido Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (Universal Music, 1997) para estarmos convictos disso. A própria qualidade da sua voz e o seu próprio estilo de música exigem uma boa ossatura de arranjos, uma quente e envolvente membrana daquela vibe groovy e soulful que é inerente na linha evolutiva da trilha gospel-soul-funk-disco, além de ser natural haver um mínimo de solos de jazz surgindo aqui e ali sempre muito bem embrenhados. Mesmo na sua fase mais pop, então, sua música foi marcada por um potente scatting vocal, por sofisticados grooves e entonações de jazz, por progressivas sonoridades de electro-funk, por arranjos instrumentais inteligentes, por uma envolvente vibe eletrônica indo em direção a uma roupagem mais urbana —— muito resultada das inteligentes escolhas de quais sintetizadores vintages e analógicos lhes trariam melhor design sonoro —— e por improvisos jazzísticos rasantes e arrebatadores, características e elementos que já colocavam sua música em um patamar só comparável aos patamares alcançados por figuras como Djavan, Lenine, Marisa Monte, Chico César, Seu Jorge e alguns poucos nomes que foram sinônimos dessa busca por uma renovação mais urbana da MPB nas décadas de 90 e 2000. Quer dizer: na sua condição de artista brasileiro mais apegado à soul music e ao R&B americano, talvez Ed Motta não seja nem considerado por muitos como um "artista de MPB" propriamente dito, mas até nesse quesito, de embebecer seu estilo de música com mais pitadas e influências de brasilidade, seu aprofundamento foi inconteste. Já quando ele lança os instrumentais Dwitza (2002) e Aystelum (2005), um recado ainda mais firme é emitido no sentido de que, a partir daí, ele estaria se aprofundando ainda mais em suas pesquisas e elevando para ainda mais alto o nível das suas produções! A partir desses álbuns suas produções cresceram não apenas na preferência por arranjos instrumentais mais orgânicos e mais elaborados, mas também na amplitude com a qual englobaria e amalgamaria todo seu mosaico de preferências, hobbies, aprendizados, experiências, pesquisas e temáticas pelas quais ele já vinha há tempos se interessando. 


Sendo discos majoritariamente instrumentais dedicados à sua esposa, a quadrinista Edna Lopes, Dwitza e Aystelum mostram, então, que Ed Motta passaria a valorizar cada vez mais suas próprias pesquisas e seus próprios hobbies, incluindo influências da música brasileira para as quais ele ainda não tinha dado a devida atenção. Dessa forma, direta ou indiretamente, suas canções e arranjos passarão a sofrer influência das poéticas de figuras como Tom Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque e Guinga, também sofrendo influência das métricas ímpares das peças afro-brasileiras do maestro Moacir Santos, das canções de Sueli Costa e Dorival Caymmi, das levadas de bossa latina de João Donato, do samba-soul de Dom Salvador e seu Grupo Abolição, do movimento setentista de soul-funk carioca denominado Black Rio, das misturas samba-soul-rock de Markus Ribas..., amalgamando toda essa brasilidade com influências e elementos advindos dos seus favoritos heróis do jazz e da black music americana, dos seus favoritos discos históricos tais como os LP's setentistas da CTI Records, dos álbuns de avant-garde e spiritual jazz, passando por discos da dupla Jackie Cain & Roy Kral, englobando sonoridades próximas ao soul progressivo dos discos de Stevie Wonder, inspirações advindas do tecladista e organista inglês Brian Auger, influências do rock progressivo e da banda de jazz-rock Steely Dan e indo até inspirações advindas do jazz-fusion e do electro-funk experimental de Herbie Hancock, inspirando-se ainda nas misturas de world jazz empreendidas pelo saxofonista Yusef Lateef, no bebop brasileiro de Vitor Assis Brasil, no conceito brasilianista de música universal de Hermeto Pascoal, na música erudita moderna..., e enxertando no meio desse molho todo inspirações advindas até da chanson francesa, dos musicais da Broadway e das trilhas sonoras de filmes noir ao estilo das adjacências de Henry Mancini e do cult Enio Morricone. A partir daí, os próximos discos de Ed Motta seguiriam sempre nessa universalidade de enfatizar menos a identificação popular para englobar letras, arranjos e temáticas autenticamente relacionados às suas predileções em trilhas sonoras, englobando suas histórias em quadrinhos favoritas, seus filmes cult favoritos, englobando também homenagens aos seus heróis e personagens favoritos, e toda uma correlação de diferentes estilos, hobbies e preferências que transformou sua música em um mosaico de canções e composições ecléticas e profundas. O mais intrigante, aliás, é que esse seu ecletismo nunca deformou a uniformidade do seu particular estilo jazzy-funky-soulful de ser, o que mostra que ele conseguiu manter-se original e conseguiu concluir produções altamente coesas mesmo englobando dentro desse seu range arranjos dos mais variados, estilos dos mais díspares e temáticas das mais diversas. A partir dos álbuns Dwitza e Ayestelum, fica claro uma evolução nesse sentido de ecletismo e amplitude, uma linha evolutiva que agora se desagua neste seu destilado Behind The Tea Chronicles, produzido por seu próprio estúdio, o Dwitza, Studio, mas com partes gravadas em três outros estúdios fora do Brasil: com os sopros sendo captados no Plymouth Rock Recording Company, em Detroit, EUA; com os backing vocals sendo captados no Nolan Shaheed, Pasadena, EUA; e as cordas sendo captadas no Smecky Music, Praga, República Tcheca. O álbum foi lançado e distribuído na Europa pela MPS Records e nos EUA e Japão pela Virgin. Abaixo, aproveitando algumas descrições do próprio Ed Motta e confluindo-as com nossas próprias percepções, dissecaremos esta obra que já tem sido considerada uma das sensações discográficas de 2023. Clique nas imagens para ouvir e saber mais! Compre. Baixe. Ouça!


★★★¹/2 - Ed Motta - Behind The Tea Chronicles (Dwitza/ MPS Records/ Virgin, 2023)
Com todas as canções em inglês e cheias de referências e transições entre diferentes cadências, estilos e camadas, Ed Motta gesta este álbum autoral com a clara intenção de premiar seu público na Europa, Japão e EUA —— no Brasil, o ouvinte que é fã também se identificará, naturalmente. A primeira canção da set list de Behind The Tea Chronicles começa, então, com uma intro de arranjos de cordas no melhor estilo de uma misteriosa orquestração de trilha sonora noir e já logo se desemboca num funky-groove de envolvente levada rítmica acentuada pelo abrasileirado jogo sincopado das teclas por cima desse groove sustentado pela bateria, percussão e pelo contrabaixo elétrico, tendo ainda belos solos e belas harmonizações de piano Rhodes com respostas das cordas: esse é, mais ou menos, o arranjo da canção "Newsroom Costumers", que abre o álbum e traz uma letra a contar a história de um jornalista que queria ser escritor, mas se tornou amigo da máfia para crescer na carreira, história tirada do filme mudo Gran Mondo (1923). Segue-se a segunda faixa, "Slumberland", que é curiosamente marcada por transições entre diferentes cadências e diferentes estilos de levadas rítmicas, com texturas temperadas por camadas lúdicas de backing vocals, guitarra, harpa, piano, synths, orquestrações e percussões relaxantes: essa é uma faixa que foi inspirada na história de "Little Nemo in Slumberland", uma HQ lançada em 1905 e dirigida por Winsor McCay, o inventor de um estilo de animação que influenciaria enormemente o surrealismo de Salvador Dalí —— uma faixa que traz um certo "quê" de impressionismo marcado por transições entre diferentes camadas e inflexões. A terceira faixa, "Safely Far", é um tema soul-funk que conta a história do casal de um filme da nouvelle-vague, estilo de cinema francês dos anos 60. E assim Ed Motta vai passeando por diversas referências, temáticas, histórias e cadências, se inspirando em séries televisas dos anos 70 tais como as americanas "Columbo" (1971), "Barnaby Jones" (1973) e "Streets of San Francisco" (1972/77) e a inglesa "Quatermass" (pioneira série de ficção científica, produzida pela BBC em 1979), bem como se inspirando em filmes antigos de diretores tais como George Cukor, Jacques Tati, Jean-Pierre Melville e Basil Dearden. E de repente essa trilha cine-imagética nos pega de surpresa com uma canção um tanto cômica e jocosa, ao estilo dos musicais de vaudeville da Broadway: vide a valsa cômica "Of Good Strain", que se baseia na irônica história de uma cientista médica que tenta curar as pessoas, mas é boicotada pela família rica do seu marido médico que é serial killer. Mais surpresos ainda ficamos quando chegamos na canção de estilo folk-western "Buddy Longway", uma referência à série de HQ franco-belga de mesmo nome. Segue-se a canção "Shot In The Park", uma ode de Ed Motta à Donald Fagen e Steely Dan (banda pela qual é fanático), com ótimos solos jazzísticos de flauta e de uma slide guitar de estilo blues-rock. E o álbum vai terminando em faixas como a ótima "Deluxe Refuge", um samba-soul com coloridas camadas de metais e vozes sobrepostas e com uma atmosfera lounge marcada por ímpares e quebradiças sincopações, e finaliza com "Confrere’s Exile", canção inspirada pela música impressionista francesa de Stephen Sondheim aqui marcada por minimalistas acordes de piano acústico em modo  harmônico menor. 


Interessante notar, ademais, que a voz de Ed Motta aqui soa mais texturizada, mais aveludada, mais "jazzy" e mais equilibrada no sentido de ter que dividir espaços com os elaborados arranjos e orquestrações, diferindo de outros álbuns anteriores onde suas entonações e seu scatting singing são mais protagonistas dentro e uma verve mais pop. Esse é um sinal, aliás, que denota e reafirma o maduro equilíbrio e o grande requinte instrumental alcançados, além da admirável coesão estética que o artista conseguiu gestar mesmo se fartando de todas essas referências. Ed Motta conta com um timaço de músicos brasileiros e internacionais que inclui Michel Limma (piano e teclados e direção musical), Sergio Mello (bateria), João Oliveira (guitarra), Cristina Braga (harpa), Tutty Moreno (bateria), Marcelo Martins (flauta), Otávio Rocha (dobro-slide, guitarrista da banda Blues Etílicos), Alberto Continentino (baixo), vocalistas de apoio como Paulette McWilliams (participante nas sessões de backing vocals do álbum "Off The Wall", de Michael Jackson) e Philip Ingram (irmão de James Ingram e membro fundador do grupo Switch), além músicos da FILMharmonic Orchestra Prague, da República Tcheca.