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Música Erudita do Século 21: Kaija Saariaho, Anna Meredith, Kronos Quartet, yMusic, indicados ao GRAMMY 2024, etc

                                                                                                   AWADAGIN PRATT & ANNA MEREDITH 

Nesse post estamos elencando mais alguns dos grandes lançamentos de música erudita lançados entre 2022 e 2023. Já estamos a seguir com a vida normalmente, após praticamente três anos de pandemia, mas os traços, as cicatrizes e os reflexos culturais, políticos, econômicos e sociais desses últimos tempos de grande agonia continuam a moldar e a tematizar a música: tem muita gente, vários artistas dentre toda essa gente, que ainda está a tentar superar os traumas desses anos que tão agonizadamente combinou a eminência de insegurança e de morte trazida pela pandemia da Covid-19 com, por exemplo, o surto político-social do fascismo sendo potencializado pelo vício cibernético e pelas fake news, uma combinação nefasta que fez eclodir a cólera e o ódio entre amigos e familiares, bem como o racismo, a violência doméstica, a piora da saúde mental, a misoginia, o desrespeito à cultura e ao meio ambiente, guerras culturais e territoriais... e tudo o que demais nefasto estava incubado nos âmagos das sociedades em todo o mundo. Por outro lado, setores mais pacifistas e progressistas da sociedade estão se arregimentando em todo o mundo para combater esses surtos maléficos da melhor forma. Aos artistas, por exemplo, lhes cabem a tarefa de criar obras, peças e performances que tragam alívio e alento e, ao mesmo tempo, façam seus espectadores questionar, debater e idealizar um novo porvir com mais amor e respeito ante às diversidades. Até mesmo na música erudita, descarada e cinicamente rotulada como "música clássica" para manter seu caráter mercadológico conservador e passadista, tem havido sinais de alento, esperança e evolução. Algumas das peças registradas nos álbuns indicados abaixo trazem justamente essas propriedades artísticas e terapêuticas incutidas na pós-modernidade com a qual os músicos e os compositores nos teletransportam ao passado sob um novo olhar, ao mesmo passo em que outras obras tratarão de retratar o presente e/ou se projetar ao futuro para nos fazer imaginar um mundo mais igualitário e mais cheio de amor, consciência e respeito. A partir de alguns álbuns abaixo, o caro espectador logo terá a clareza de que o nível de consciência social e a busca por inclusão e igualdade finalmente começam a aumentar dentro do gênero da música erudita. Num mundo onde a individualidade é cada vez mais priorizada pelas pessoas, há um desafio urgente para que as diferenças socioculturais sejam respeitadas no âmbito do psicossocial. Dessa forma, os velhos padrões ocidentais e as velhas panelinhas formadas por conservadores e puristas começam a caducar, e começam a ter de ceder algum tanto do seu espaço dantes dominante para que artistas diferentes com novos olhares também possam ter voz ativa e altiva. E a única forma de não estarmos atrasados no tempo e na vida é valorizarmos a riqueza da diversidade de gêneros, de estéticas, de estilos e de misturas do nosso tempo presente! Sigam os artistas, comprem os álbuns, assistam aos concertos!

★★★★ - André Mehmari & Radamés Gnatalli - Duo Siqueira Lima & Orquestra GRU Sinfônica com Emiliano Patarra - Dois Violões em Concerto (Tratore, 2023)
O duo de violões Siqueira Lima, formado pela uruguaia Cecília Siqueira e pelo brasileiro Fernando de Lima, acaba de lançar um refinado álbum com uma obra inédita do compositor André Mehmari (1977- ) e uma leitura de uma peça de Radamés Gnatalli (1906-1988). O duo se juntou à Orquestra GRU Sinfônica, da cidade de Guarulhos, sob regência do maestro Emiliano Patarra, para gravar os Portais Brasileiros No.4 (para dois violões e pequena orquestra) de André Mehmari e o Concerto No. 3 (para dois violões, flauta, tímpano e orquestra de cordas) de Radamés Gnatalli. Essa obra de Radamés foi escrita em 1957 e foi retomada em 1981 numa adaptação que o compositor fez dedicada ao emblemático Duo Assad, sendo uma peça estruturada na forma clássica de três movimentos —— Allegro, Expressivo e Ritmado —— com o distinto aspecto de soar dentro de uma estética nacionalista mais diluída, com os adereços brasilianistas mais diluídos. Aliás, Mehmari e Gnatalli congregados num mesmo disco não é um incidente ao acaso: ambos são brasilianistas ressignificando e inflexionando elementos culturais da alma brasileira, cada um no seu tempo e ao seu modo. Nesse sentido, essas duas obras desses dois compositores preenchem o álbum praticamente numa intenção de correlatividade. Sendo um compositor do nosso tempo que traz em sua veia criacional uma combinação de melodismo particular com uma miríade mais pós-moderna —— no sentido de fazer várias formas, ritmos, elementos, estruturas, cores harmônicas e nuances de estilos e épocas diferentes soarem todos numa só confluência contemporânea, numa só amálgama ——, Mehmari manipula a arte da ressignificação como poucos compositores conseguiram e conseguem fazê-lo! E esse é um dos puros estados da ARTE. Um dos papéis da ARTE enquanto divina transcendência, para além de suavizar o peso da nossa realidade nos levando para novas dimensões da abstração e da subjetividade, é criar novos mosaicos com novas combinações que resignifiquem e atualizem os elementos e as inovações do passado.  E no caso de Mehmari, ele não apenas os ressignifica como também os dilui, e os conflui para criar um novo organismo híbrido.

DUO SIQUEIRA LIMA
Portais Brasileiros No.4 para Dois Violões, subintitulado A Saga dos Dois Violões, já começa com uma introdução que evoca esse puro estado da ARTE! A intro conflui um curioso início de singelos e luminosos efeitos repetitivos, sons luminosos em cascata que lembram um pouco a estética minimalista —— com violinos no registro agudo criando ecos, os dois violões se respondendo e se sobrepondo, flauta reverberando, oboé entrando em seguida... —— com efeitos de entrelaces polifônicos neobarrocos, sendo que esses efeitos logo se diluem quase imperceptivelmente em motivos brasilianistas (algo do choro, da melodia nordestina...) onde os violões já se instigam para criar nuances e cadências mais ritmadas e o fagote já apresenta aqueles tons mais jocosos por detrás desses entrelaces, enquanto as flautas e as cordas respondem evocando linhas de belas melodias neoclássicas. Em muitos momentos os dois violões soam mais num curioso obbligato de entrelaces, ambos criando coloridas combinações de frases sobrepostas com respostas mútuas, ou ambos respondendo-se ante as contracenações criadas entre os naipes. Interessante e distinta essa concepção concertante de Mehmari: ao que parece, ele foca mais nessas contracenações e nas cores que os dois violões protagonistas podem proporcionar em meio a toda massa sonora do que propriamente na amostragem solista de frases virtuosísticas —— ou seja, vale mais o colorido do que a tecnicidade. Ainda assim, as frases e linhas de melodia da obra exigem que tanto os solistas como os membros dos naipes da orquestra estejam em dia com a destreza técnica. Depois dessa intro cheia de camadas, sobreposições e efeitos, Mehmari convida o ouvinte a curtir adereços brasilianistas mais sugestivos, com cada movimento se diluindo sequencialmente um ao outro através de singelas transições: passa por um breve Corta-Jaca, um adereço rítmico advindo do velho maxixe que, em meio a um fundo de efeitos metálicos, se dilui num meditativo e melodioso Choro-Canção com os dois violões em sobreposições e respostas impressionistas; passa por um Baião Caipira evocado por uma intrigante linha melódica; passa por uma jocosa Polca Carioca, que traz um aspecto mais lúdico e brincalhão à peça; passa por uma melancólica Valsa de Esquina; e termina com Tempo Primo & Coda, que retorna ao desenvolvimento da confluência de efeitos, sobreposições e elementos descritos na introdução. Interessante notar que mesmo nesses movimentos de adereços mais salientes e sugestivos o compositor vai passando de um cenário para o outro através de singelas transições, praticamente diluindo um movimento no outro sem apresentar arestas ou sobressaltos ao ouvinte, o que faz com que a obra transcorra de forma muito fluída e muito coesa. É como se estivéssemos numa longa viagem de trem pelo Brasil profundo onde sentamos ao lado da janela e seguimos tranquilamente curtindo diferentes cenários com transitórias paisagens campestres e florestais entre cada estação. Vida longa à arte de Radamés e sucesso às criações de Mehmari! 

★★★¹/2 - Christopher Butterfield - Aventa Ensemble & Rick Sacks w/ Bill Linwood - Souvenir/ Parc/ Frame/ Port Bou (Redshift Records, 2023).
A Redshift é um selo fundado em Vancouver, Canadá, com foco em gravar e difundir a música de compositores contemporâneos. O Canadá tem se mostrado um dos mais criativos redutos das Américas em termos de música contemporânea inventiva, e os álbuns lançados pelo selo é uma prova viva disso. Neste álbum acima, temos o Aventa Ensemble, da cidade de Victoria, Columbia Britânica, sendo conduzido pelo maestro Bill Linwood na interpretação de peças do compositor Christopher Butterfield, emérito professor da Escola de Música da Universidade de Victoria. Tendo começado a carreira nos anos de 1970 revezando-se entre ser artista performático, guitarrista de rock e compositor com muita aproximação com o avant-garde, com a poesia sonora e com as artes visuais, Butterfield sofreu influências de figuras modernistas que vão desde o compositor tcheco-canadense Rudolf Komorous, passando pelo iconoclasta John Cage, pelo artista plástico dadaísta Kurt Schwitters, pelo pensador Walter Benjamin e indo até Claude Vivier, um das figuras canadenses centrais dentro música erudita moderna na segunda metade do século 20. O álbum acima traz, pois, quatro peças originais escritas por Butterfield entre 1995 e 2013, todas dispostas de lampejos desse modernismo pregresso entranhados na singular escrita do compositor. Embora aqui as interpretações estejam centradas nos músicos do Aventa Ensemble, cada peça foi encomendada por um ensemble canadense diferente em épocas diferentes, portando revelando diferentes dinâmicas e combinações. "Souvenir" (1995), por exemplo, é uma peça para ensemble acústico baseadas num outro conjunto de improvisações eletrônicas que o compositor vinha trabalhando, tendo como plano de fundo curiosos sons pré gravados de coaxar de pererecas capturados em Barbados. "Parc" é uma peça escrita originalmente para percussão e ensemble que soa bem próxima da estética serialista, tendo a interpretação do virtuoso percussionista Rick Sacks ao lado do Aventa Ensemble, onde ambos criam contracenações entre o ludismo das cores atonais e as combinações de timbres através de abstrações, dinâmicas e texturas instáveis, fragmentadas e não-lineares. A terceira peça do álbum "Frame" é interpretada pelos músicos do Arraymusic Ensemble, de Toronto, sob direção do percussionista Rick Sacks: nessa peça Butterfield se baseou na técnica de aleatoriedade que John Cage usou na obra "Ryoanji", obra do seu final de vida onde ele criou instalações audiovisuais e sonoras baseadas nos seixos de pedras distribuídas aleatoriamente no Templo Ryoanji, Japão. A peça que fecha o disco, "Port Bou", foi originalmente escrita para o maestro Lorraine Vaillancourt e o Nouvel Ensemble Moderne, de Montreal, mas aqui é interpretada pelo maestro Bill Linwood à frente do Aventa Ensemble: a peça também mescla atonalidade serial e o acaso da aleatoriedade para prestar homenagem ao destacado pensador Walter Benjamin, com o título fazendo alusão ao local do seu falecimento, em Portbou, Alt Empordà, na Catalunha, Espanha.

★★★★ - Daníel Bjarnason & Aarhus Symphony Orchestra w/ Jakob Kullberg & Karin Torbjörnsdóttir - From Earth to Ether (Dacapo Records, 2023).
Daníel Bjarnason (1979- ) é um dos principais jovens maestros e compositores da nova geração da Islândia e uma das principais estrelas do emblemático selo Bedroom Community (fundado e gerido por Valgeir Sigurðsson). Dois álbuns indicados para introduzir-se na música hiper imaginativa de Daníel Bjarnason são Processions (2010) e Collider (2018), ambos lançados pela Bedroom Community. Entretanto, observa-se que a arte musical de Bjarnason tem se expandido ainda mais em abrangência de temáticas e elementos pós-modernos à medida que o compositor se aventura a lançar álbuns por outros selos e etiquetas —— como Sono Luminus, Deustche Grammophon, Dacapo Records e etc ——, expandindo-se para além do perfil da Bedroom Community, que é mais fincado numa amálgama de neobarroco com pós-minimalismo nórdico. Suas últimas criações —— para além da sua carreira como maestro —— tem variado proeminentemente, então, do minimalismo nórdico cheio de texturas gélidas e imagens etéreas aos mais densos extratos de sons abstratos entrelaçados, do melodismo de um determinado neobarroco a um modernismo dissonante que beira a um expressionismo que logo se dissipa ou se dilui de forma intrigante e inexplicável. E este álbum acima é um exemplo contumaz desse seu estilo, um estilo singular que parece misturar, por exemplo, ecos advindos das texturas gélidas de Einojuhani Rautavaara e do poliestilismo de Alfred Schnittke com esse textural pós-minimalismo nórdico. Neste álbum, Bjarnason se junta ao violoncelista Jakob Kullberg e à Orquestra Sinfônica de Aarhus, da Dinamarca, para registrar três das suas imaginativas peças escritas nos últimos anos. O álbum começa com a peça Bow to String em três movimentos: a peça começa com uma pulsante passacaglia que logo se esvoaça e se dilui nas texturas neobarrocas das cordas, as quais, em determinado momento, irão sobrepor uns contrastes de melodismo barroco com gélidas arranhaduras dissonantes, e em outros momentos irão criar um contraste muito interessante com os rompantes de metais e os outros naipes da orquestra, sempre deixando pairar uma melodia que parece ter viajado no tempo para chegar em nossos dias nebulosos, até que tudo se dissipa em longas notas a criar camadas etéreas. Segue-se a peça Over Light Earth, que traz dois pianos posicionados para ressoar em lados opostos da orquestra, o mais afastados possível: a obra flutua da névoa sonora mais meditativa a momentos de camadas com densidade mais elevada, sendo distribuída em duas partes respectivamente inspiradas em duas obras-primas da pintura expressionista abstrata americana: na tela No.9 (Dark Over Light Earth) pintada por Mark Rothko em 1954, e na tela No. 1 de Jackson Pollock, pintada em 1949. Por fim, o álbum termina com a peça Larkin Songs, onde o compositor cria três canções musicando os textos do poeta Philip Larkin: as canções vocalizadas pela mezzo-soprano Karin Torbjornsdottir também imergem a voz nesse intrigante jogo de texturas e camadas etéreas e abordam, em sua temática, a diluição do companheirismo e do amor, como que numa miragem que se dissipa quando tentamos segura-la em nossos braços. Daníel Bjarnason é um nome a não perder de vistas!

★★★★ - yMusic - YMUSIC (Independent, 2023).
Sendo um dos conjuntos de câmeras imprescindíveis do nosso tempo, o ensemble americano yMusic traz uma inusual formação com flauta e voz (Alex Sopp), clarinetes (Hideaki Aomori), trompete e outros horns (CJ Camerieri), violino (Rob Moose), viola (Nadia Sirota) e cello (Gabriel Cabezas), trabalhando todo o frescor contemporâneo do pós-minimalismo americano regado a efeitos repetitivos e melodiosidades advindas do pop e do indie rock desse novo século, com alguma pitada de modernismo dissonante aqui e ali para criar uns contrastes. Depois de ter participado de projetos colaborativos com figuras do pop, tais como Paul Simon, Ryan Lott (da banda Son Lux), Sufjan Stevens, Arcade Fire, Vampire Weekend, The National, Björk e David Byrne, e depois de ter lançado cinco álbuns com peças dos mais jovens e proeminentes compositores americanos, tais como Nico Muhly, Timo Andres, Missy Mazzoli, Caroline Shaw e Paul Wiancko (do Kronos Quartet), agora o yMusic lança um álbum homônimo em que seus próprios integrantes também se autoafirmam como grandes compositores, prezando por lançar um álbum autoral onde as peças são trabalhadas de forma aberta e colaborativa por todos os seis integrantes e os créditos são dados ao ensemble como uma unidade, sem destacar quem foi que escreveu cada peça. O álbum foi gravado em Reykjavík, Islândia, no célebre Greenhouse Studio, de Valgeir Sigurðsson. Interessante notar que algumas das faixas recebem títulos relacionado ao meio ambiente e ao reino animal, entre outras temáticas. Música nova, do nosso tempo.
 
★★★★ - New Woods Collective - Branches (Indepedent, 2022)
Esse coletivo debutante de meninas lançou um bem talhado álbum de estreia que evidencia o quão pulsante tem sido música erudita contemporânea inglesa. Trata-se de um trio formado por Hannah Shilvock (clarinete baixo), Maya-Leigh Rosenwasser (piano) e Christina Alishaw (flautas): elas se conheceram no Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance, Londres, onde se aperfeiçoaram em seus instrumentos, cursaram bacharelado e mestrado em música e expandiram o vocabulário e repertório através da tutela de grandes instrumentistas e compositores tais como a pianista nipo-canadense Megumi Masaki, o saxofonista irlandês Gerard McChrystal e os pianistas e compositores Rolf Hind (britânico) e Douglas Finch (canadense). A instrumentação não tão usual do trio levou as instrumentistas a prezar pelo repertório moderno do século XX e pelo repertório contemporâneo de nossos dias, dando vazão em peças tanto de compositores consagrados como de artistas emergentes do Reino Unido. O trio chama-se New Woods Collective e aqui neste debut as peças abordadas foram escritas por compositores como Michael Clulow, James Hurst, Emily Abdy, Electra Perivolaris e Dan Keen, todos jovens compositores do Reino Unido. O álbum começa com a peça "Structures", de Michael Clulow, repleta de pontilhismos modernistas em contrapontos. Segue-se a peça "From a Notebook", de James Hurst, que é formada por miniaturas com variações de sensíveis linhas melódicas dissonantes em diálogos sobrepostos. Segue-se a peça "Crazy Stereo Systems (and Subway Love)", de Emily Abdy, que começa insistentemente com uma única nota do piano e vai recebendo intervenções de acordes e intervenções dos sopros até desembocar num final com um efeito denso, forte e repetitivo. Segue-se a textural peça Landscape No.1, de Electra Perivolaris, que trabalha texturas combinadas com nuances tonais de forma mais esparsa. E, por fim, o álbum termina com a melodiosa e classicista peça "Muddled Minds" de Dan Keen, que traz os três instrumentos imersos e sobrepostos numa melodiosidade repleta de cores modais e divertidas frases neoclássicas. Um exemplo de como os jovens compositores ingleses estão manipulando o vocabulário modernista.

★★★¹/2 - Anna Meredith & Ligeti Quartet - Nuc - String Quartets (Mercury KX, 2023).
Aqui estamos diante de um trabalho hiper inventivo da compositora escocesa Anna Meredith, uma das figuras que vem revolucionando o conceito de música erudita na nossa contemporaneidade através de uma simbiose entre os sons clássicos orgânicos e os sons sintéticos da eletrônica dos últimos tempos —— ela soma-se, enfim, a outros compositores tais como o americano William Britelle e o russo-inglês Gabriel Prokofiev (neto de Serguei Prokofiev), os quais vêm criando uma nova música erudita a partir dessa junção. Neste álbum acima, lançado pelo selo Mercury KX, temos uma coleção de peças que Anna Meredith compôs para quarteto de cordas. O álbum inclui trabalhos para quarteto de cordas, para quarteto de cordas com eletrônica, e inclui as peças "Haze" e "Nautilus" que foram previamente escritas pela compositora e depois foram "reeditadas" ou "manipuladas" pelo violista Richard Jones, membro do Ligeti Quartet. Anna Meredith tem uma relação colaborativa de longa data com Richard Jones e com o Ligeti Quartet, parceria que só facilitou toda a elaboração do projeto. O título do álbum "Nuc", advindo de "núcleo", é um termo apícola que tem relação com as armações de favos que os apicultores removem de uma colmeia para extrair o mel, e até evoca certa poética de um enxame de abelhas, como já nos evidencia a primeira peça, que abre o álbum com uma combinação de efeitos das cordas em glissandos combinados com batidas e efeitos eletrônicos. O álbum segue com peças que fazem uso de pizzicatos (tangir dos dedos nas cordas), efeitos de glissandos (deslize dos dedos nas cordas), chamadas e respostas entre um trompetista e o quarteto, repetições e variações de melodias minimalistas, texturas sensivelmente ruidosas combinando a massa sonora das cordas com eletrônica e cantos de pássaros, repetições minimalistas em densas sobreposições, efeitos e batidas de eletrônica advindas da influência techno-house, entre outras dinâmicas e aplicações.

★★★★ - Wynton Marsalis  - Jazz at Lincoln Center Orchestra & Melbourne Symphony Orchestra - The Jungle - Symphony No.4 (Blue Engine Records, 2023).
Um dos maiores compositores americanos vivos, Wynton Marsalis (1961- ) lançou agora em 2023 essa sua expansiva Sinfonia No.4, obra que segue na mesma linha da diretriz "third stream" com a qual ele iniciou sua jornada sinfônica em All Rise (Symphony No.1), em 1999. A música de Wynton Marsalis —— cheia de ritmos em métricas ímpares, síncopes suingantes com sotaques de New Orleans, criativos efeitos de surdina, criativas sobreposições entre os naipes, orquestrações brilhantes, bitonalidade, politonalidade, sombreamentos harmônicos modais com enxertos de blues e repleta de elementos e adereços culturais americanos —— sempre foi super inventiva e original em todas as fases e facetas do compositor. Porém, para o público de fãs e os críticos já familiarizados com sua produção, pode haver uma sensação de que o compositor esteja a repetir a fórmula que ele começou a construir em seus álbuns jazzísticos de verve ellingtoniana tais como Citi Movement (Columbia, 1992), onde ele cria uma suíte-balé baseada nos sons urbanos da cidade de Nova Iorque dos tempos do swing jazz, e Big Train (Columbia, 1999), onde ele cria uma suíte baseada na temática dos trens que cortam os EUA de Leste à Oeste. Posteriormente, à medida em que avançava para o território da composição erudita, Wynton adiciona novos elementos e influências advindas de compositores como Ives, Stravinsky, Berstein, Shostakovitch, Bártok... Mas a verve-base da sua originalidade vem sendo destilada sem grandes alterações em sua essência —— salvo em algumas exceções, como aconteceu com seu magnífico Violin Concerto in D (2017), onde ele insere novos elementos dentro dessa sua essência, adquirindo um equilíbrio poli-estilístico fora de série que até dilui um pouco as arestas do seu estilão caricato. Essa percepção de que Wynton segue trabalhando sempre num mesmo continuum se acentua, sobretudo, pelo fato dele estar utilizando sempre os mesmos tons de blues por entre suas linhas de harmonia e estar sempre se fartando em utilizar os elementos advindos do amplo vocabulário jazzístico destilado no âmago da sua big band, promovendo um encontro da orquestração do jazz com a orquestração sinfônica: com exceção da sua Swing Symphony (Symphony No.3) e do seu Violin Concerto, obras escritas estritamente para o formato sinfônico, todas suas últimas peças eruditas foram escritas para incutir a big band de jazz no território da orquestra sinfônica e vice-versa. Neste álbum acima, pois, Wynton escreve e registra sua Symphony No.4 - The Jungle seguindo essa mesma verve criativa. A obra —— com um subtítulo que parafraseia o "jungle style" das abrasivas orquestrações de Duke Ellington —— é uma epopeia moderna baseada na Cidade de Nova Iorque, uma tentativa de evocar musicalmente a história, as culturas, as paixões, as desigualdades e os dilemas dessa "selva urbana" que é a cidade mais cosmopolita do mundo, evocando até os sons dos carros e buzinas do trânsito caótico. A obra foi capturada em 2019 no Hamer Hall de Melbourne, Austrália, com o maestro Nicholas Buc à frente da Melbourne Symphony Orchestra e da Jazz at Lincoln Center Orchestra.

★★★★ - William Britelle & Roomful of Teeth - Rough Magic (New Amsterdam, 2023).
William Brittelle (1977- ) é um dos compositores essenciais do nosso tempo. Sendo cofundador e codiretor artístico da emblemática gravadora New Amsterdam Records, posto que ele divide com os compositores Sarah Kirkland Snider e Judd Greenstein, William Brittelle tem sido amplamente aclamado por suas peças híbridas de eletrônica, pós-punk, avant-pop e música erudita, revelando um estilo intrigantemente fluído. Essa sua essência futurista fica patente, por exemplo, no seu emblemático álbum Loving the Chambered Nautilus (2012), que traz uma série de peças sedimentadas por eletrônica em combinação de música de câmara, misturando sons e texturas de sintetizadores e programação de bateria eletrônica com as sonoridades orgânicas dos instrumento clássicos do American Contemporary Music Ensemble (ACME). Uma década depois, Brittelle continua a nos impressionar com este extraordinário álbum acima, que traz composições com o mesmo continuum em termos de miríade, mas dessa vez utilizando combinações de texturas eletrônicas com as vozes do Roomful of Teeth, um ensemble experimental de vozes que trabalha numa amplitude que engloba desde a repaginação de elementos dos corais medievais até as expansividade das técnicas vocais estendidas, passando pelo pop e vários tipos de vocalizações. No álbum acima, pois, Britelle registra peças que trabalham toda essa amplitude, nos mostrando espectrais efeitos, nuances e combinações do multiverso vocal em simbiose texturizada com vocoder e sintetizadores, evocando uma viagem no tempo que vai da distopia ao futurismo. William Britelle acaba de receber, inclusive, uma indicação para ganhar um prêmio Grammy através da composição "Psychedelics", peça que abre este álbum e está cotada para ser premiada na categoria de "Melhor Composição de Música Erudita Contemporânea", ao que brindamos e torçamos para aconteça! O Roomful of Teeth já ajudou Caroline Shaw a ganhar um Pulitzer Prize em 2013. Agora, mediante peças tão criativas, é merecedor que também impulsione a genialidade de William Brittelle!

★★★ - Aylton Escobar - Música Contemporânea Brasileira ( Aos 80 anos do compositor) - Nucleo Hespérides Música das Américas (Tratore, 2023).
Dedicado estritamente à música moderna e contemporânea no Brasil, o Núcleo Hespérides foi idealizado e fundado em 2002 pela pianista Rosana Civile para reunir, preservar e divulgar a música das Américas, principalmente a música de câmara produzida a partir do século XX. Sendo um coletivo fixo e ao mesmo tempo rotativo de músicos fundadores, sócios e colaboradores, o Núcleo Hespérides vem apresentando ano a ano esse repertório pelo Brasil e já lançou cinco registros os quais, para o ouvinte brasileiro que curte música moderna, vale à pena procurá-los: Luminamara (com obras inéditas escritas exclusivamente para o núcleo), Retratos de Radamés (CD duplo, com o Trio de violões OP. 12 e outras obras de Radamés Gnattali), Sons das Américas (CD duplo, pelo SELO SESC, um painel da música das Américas, do Canadá à Argentina, passando por compositores como Villa-Lobos, Piazzolla, John Cage, John Beckwit, Silvestre Revueltas e compositores americanos), Hõkrepöj (com obras da etnomusicóloga, antropóloga e compositora Kilza Setti, que criou uma obra singular a partir dos seus estudos em Portugal, América do Sul e a partir da sua vivência com os índios) e Cantigas e Momentos (álbum de 2019 com peças para piano solo compostas por Antonio Ribeiro, todas interpretadas por Rosana Civile). Este álbum acima, pois, é o sexto lançamento do Núcleo Hespérides e centra-se na obra do compositor brasileiro Aylton Escobar. Sendo uma das figuras que desenvolveram a estética modernista no Brasil, Escobar foi aluno de compositores e maestros tais como Osvaldo Lacerda, Camargo Guarnieri, Alceo Bocchino e Francisco Mignone e estudou música eletroacústica nos EUA, no pioneiríssimo Columbia-Princeton Electronic Music Center (CMC) da Columbia University. Tendo iniciado, então, sob influência da corrente nacionalista, Escobar posteriormente moldou sua escrita composicional através do formalismo pró-dodecafônico, inserindo-se, também, no círculo de criadores fascinados pela eletroacústica. Este álbum acima, pois, reúne um amplo mosaico de peças que Escobar compôs em várias épocas e para várias formações: de Movimento de Sonata (1967) para piano solo, que ainda soa com ecos do nacionalismo brasileiro, até Sete Palavras e Um Punhal (1982) para flauta, voz e eletrônicos, passando por Cantos Novos & Vazios (1977) para voz soprano e piano, passando por Cantares para Airton Barbosa (1982) para fagote solo, e indo até obras escritas mais recentemente tais como El Laúd y Las Brumas (2013) para voz, percussão, violão e eletrônicos, Leminski: quatro dizeres e uma sombra (2014) para voz barítono e piano e En El Hondo Silencio de La Noche - Escena (2015) para um ensemble compacto formado com clarinete, cello, piano e coro feminino. Como o ouvinte bem poderá notar, Aylton Escobar foi aquele tipo de compositor modernista que não subjugou a poética em prol do formalismo frio e matemático tal como alguns compositores modernistas fizeram. Conectado com outras formas de expressões artísticas, principalmente com a poesia e com o teatro, Aylton Escobar nutriu forte apreço pela aplicação da voz e do canto lírico e evidencia até um claro teor meditativo regado até por uma certa profundidade emocional, algo que logo instiga o ouvinte a imergir em tons, espectros e cânticos desconhecidos. O álbum acima, pois, comemora os 80 anos dessa importante figura do nosso modernismo.

★★★¹/2 - Missi Mazzoli - Peter Herresthal/ Arctic Philharmonic & Tim Weiss/ Bergen Philharmonic & James Gaffigan - Dark with Excessive Bright (BIS, 2023).
A compositora americana Missy Mazzoli, também revelada na emblemática New Amsterdam Records, é outra das figuras imprescindíveis da nossa contemporaneidade: suas peças tem sido encomendadas para palcos como o Metropolitan Opera House, o Kennedy Center e o Carnegie Hall e tem sido estreadas e recorrentemente interpretadas pelos principais conjuntos de câmera, ensembles e orquestras dos EUA e do mundo! Até recentemente, Mazzoli vinha se destacando mais por suas peças de câmera e por suas óperas, incluindo sua já bem conhecida ópera Breaking the Waves para 9 cantores principais, coro masculino e orquestra de câmara, peça baseada no filme "Ondas do Destino" do cineasta dinamarquês Lars von Trier. Outra peça sua que tem sido incorporada no repertório deste início de século 21 é a Vespers for Violin, escrita para violino amplificado com efeito eletrônico de delay e trilha sonora, peça com a qual foi indicada ao Grammy de Melhor Composição Contemporânea de Música Erudita em 2019. Trabalhos escritos para sua banda electro-acústica Victoire, com ela mesmo performando e estando à frente dos músicos, tem sido amplamente aclamados: caso das peças registradas nos álbuns Cathedral City (2010), Song from the Uproar (2012) e Vespers for a New Dark Age (2015), esse último com a colaboração do refinado percussionista Glenn Kotche (da banda Wilco). Mas agora, peças sinfônicas cada vez mais robustas também começam a ganhar protagonismo dentro da sua carreira. E este novo álbum acima é o primeiro a mostrar sua música puramente sinfônica. Com um espírito imaginativo fora de série para ressignificar paletas e camadas neoclássicas e neorromânticas sob uma nova ótica de efeitos pós-minimalistas, Missy Mazzoli registra acima seu bem estruturado concerto Dark with Excessive Bright (2018), escrito para contrabaixo solo ou violino acompanhado por um quarteto de cordas: ou seja, a peça pode ser adaptável tanto para contrabaixo, como para violino e orquestra, bem como para um quinteto de cordas. Neste álbum acima, pois, a peça é abordada de duas formas: o álbum abre com a versão para violino e orquestra e finaliza com a versão para quinteto de cordas, tendo como solista o aclamado violinista norueguês Peter Herresthal. Sendo uma peça dotada de um imagetismo surpreendente, seu título "Dark with Excessive Bright" foi tirado do poema Paradise Lost (1667) e as camadas e texturas em efeitos sobrepostos criam sofisticados desenvolvimentos em torno da temática desse poema épico escrito pelo poeta inglês John Milton no século XVII, um poema que aborda as alegorias em torno das estórias do Gênesis, de Adão e Eva, do fruto proibido da Árvore do Conhecimento, da subsequente Queda do Homem, dos Anjos Caídos e de Satanás. Nessa peça, o violinista soa quase sempre em obbligato, sendo o solista principal, sim, mas sempre soando entrelaçado em meio às camadas sobrepostas da Bergen Philharmonic Orchestra. No recheio do álbum, Mazzoli registra outras das suas peças sinfônicas com a Arctic Philharmonic —— Sinfonia (for Orbiting Spheres) (2014), These Worlds in Us (2006) e Orpheus Undone (2019) —— e inclui sua já aclamada peça Vespers for Violin (para violino, delay eletrônico e soundtrack). Interessante notar, sobretudo, o fascínio que a compositora destila para trabalhar com sofisticadas paletas e camadas: na peça "For Orbiting Spheres", por exemplo, ela sobrepõe três gaitas em três tonalidades diferentes para produzir camadas inventivas! No demais, vale destacar que, com este álbum, a compositora volta a ser cogitada ao Grammy em duas categorias: "Melhor Compêndio" e "Melhor Composição Contemporânea".

★★★ - Sphinx Virtuosi - Michael Abels, Valerie Coleman, Ricardo Herz, Jessie Montgomery, Carlos Simons - Songs for Our Times (Deutsche Grammophon, 2023).
Focada em aumentar a representatividade na música erudita, a Sphinx Virtuosi foi recentemente apoiada pela Deutsche Grammophon, o maior selo de música clássica do mundo, para lançar um projeto de curadoria onde fosse elaborada uma lista de obras de compositores latinos e afro-americanos —— compositores consagrados e emergentes, homens e mulheres ——, para que essas obras constituíssem um álbum que pudesse refletir a realidade do "palco global" atual, refletindo a universalidade da música erudita no mundo hoje. Sabemos que o jazz foi o gênero precursor que começou a derribar todos os muros e limites dos preconceitos advindos das velhas ideologias conservadoras ocidentais, e que agora vagarosamente a música erudita também segue nessa mesma trilha para expurgar todas as limitações e os prejuízos causados por preconceitos como a misoginia (machismo, preconceito contra a mulher), o racismo (preconceito contra os negros, os latinos e outras raças) e a xenofobia (preconceito de um povo ou nação em relação a imigrantes vindo de um outro povo ou nação). A Sphinx Virtuosi já vinha conseguindo grandes resultados enquanto organização, mas agora essa sua atuação é coroada com esse álbum de estreia "Songs for Our Times" lançada por seu ensemble formado por 18 excepcionais músicos negros e latinos. As faixas incluem as gravações de estreia de peças de emergentes e consagrados músicos e compositores tais como a violinista americana Jessie Montgomery, o trompetista americano Michael Dudley, a flautista americana Valerie Coleman, o pianista venezuelano Aldemaro Romero, o violinista brasileiro Ricardo Herz, dentre outros. Ainda foram inclusas as Bachianas Brasileiras nº 9 (1945) de Heitor Villa-Lobos, o String Quartet No. 2 (1935) de Florence Price e a Sonata para Violino nº 9 op. 47 de Beethoven. As peças inéditas, para além da diversidade cultural e estilística de cada compositor, refletem pacifistas ecos de protestos sonoros, além de temáticas distintas e reflexões humanistas que nos fazem ter esperança mediante toda essa ainda dominante ordem de preconceitos que dita o conservador modus operandis no vitoriano e pedante reino erudito. Destaco aqui a ampla fluência musical do brasileiro Ricardo Herz, que tem lançado obras e projetos que transitam com surpreendente fluidez entre os territórios da música popular e da música erudita: para além dos seus álbuns de choro e jazz, tempos atrás ele se juntou à Camerata Romeu de Cuba para lançar seu rebuscado álbum Nova Música Brasileira para Cordas (2019) e, agora, o vemos envolvido com mais outro projeto de grande expressão.

★★★¹/2 - Awadagin Pratt - Roomful of Teeth/ A Far Cry (Ensemble)/ Vários compositores - Stillpoint (New Amsterdam Records, 2023).
O pianista afro-americano Awadagin Pratt é uma das figuras mais renomadas e polivalentes do universo erudito. Tendo sido um garoto-prodígio, aos 16 anos ele ja cursava música na Universidade de Illinois, sendo posteriormente transferido ao Conservatório de Música Peabody, em Baltimore, onde foi o primeiro aluno a receber diplomas em três áreas de atuação diferentes: piano, violino, e regência. Com uma carreira brilhante, ele é um verdadeiro pioneiro no quesito de enfrentar o racismo dominante dentro da música erudita. Além de ser violinista e pianista virtuose, Awadagin Pratt vem desenvolvendo uma carreira sólida como maestro. Não obstante, ainda é conhecido por ser um refinado conhecedor de xadrez e vinhos finos. Agora em 2023, Awadagin Pratt chega ao seu nono álbum da carreira focando em promover obras de compositores contemporâneos, especialmente de compositores afro-americanos. O álbum, lançado pela New Amsterdam Records, foi idealizado quando Pratt e o compositor Judd Greenstein (co-fundador da New Amsterdam Records) foram convidados pelo produtor executivo Mark Rabideau para servirem como jurados em um concurso de música de câmara que buscava quebrar os velhos padrões de gênero há muito estabelecidos no que ainda se convenciona chamar, conservadoramente, de "música clássica". Ali em 2016, então, se concretizava a ideia de a New Amsterdam Records concentrar um dos seus esforços em promover a inclusão de obras de compositoras mulheres e compositores afro-americanos que se adequassem ao seu perfil contemporâneo "indie" e "pós-gênero": a gravadora foi uma das responsáveis, por exemplo, em promover a obra genial de Julius Eastman, compositor afro-americano, marginalizado, assumidamente gay, e um dos pais da estética pós-minimalista. Sem deixar desfalecer a ideia de lançar um álbum nessa direção, Awadagin Pratt contataria, então, os seguintes compositores para que eles escrevessem composições exclusivamente para esse seu projeto: Alvin Singleton, Jessie Montgomery, Judd Greenstein, Paola Prestini, Pēteris Vasks e Tyshawn Sorey (baterista de jazz que tem também tem alçado elogiada carreira na música erudita contemporânea). Stillpoint (New Amsterdam, 2023) é formado, então, por um repertório recém encomendado, onde engloba-se obras escritas exclusivamente para Awadagin Pratt atuar como pianista, como maestro e também como diretor musical: há obras escrita para piano, para o ensemble de vozes Roomful of Teeth e para a orquestra de cordas A Far Cy, à frente da qual ele atua como maestro. Sendo um álbum primoroso que reflete, então, esse caráter "pós-gênero" dentro do que a mídia americana convencionou chamar de "indie classical music", este álbum acaba de ser destaque na lista de indicações do Grammy 2024, com a bela peça "Rounds" de Jessie Montgomery sendo indicada para concorrer ao prêmio de Melhor Composição de Música Erudita Contemporânea.

★★★¹/2 - Seth Parker Woods - Difficult Grace (Cedille Records, 2023).
Seth Parker é um dos multi-artistas em ascensão ao qual devemos estar atentos! Um fervoroso adepto das artes contemporâneas, o violoncelista americano já colaborou e fez parcerias com uma ampla gama de artistas e compositores em todo o mundo, desde Louis Andriessen, Elliott Carter, Heinz Holliger, Helmut Lachenmann, Klaus Lang, Peter Eötvos e Anna Thorvaldsdottir até artistas fora do universo erudito tais como Peter Gabriel, Sting, Lou Reed, Dame Shirley Bassey e Rachael Yamagata. Tendo atuado também com artistas das artes cênicas e visuais como Ron Athey, Vanessa Beecroft, Jack Early, Adam Pendleton e Aldo Tambellini, Seth Parker vem se dedicando a entrelaçar música, performance, audiovisual, filme e poesia, caso deste seu último projeto acima. Em 2022 ele recebeu o prêmio Chamber Music America Michael Jaffee Visionary e agora acaba de receber uma indicação para concorrer ao Prêmio Grammy na categoria Melhor Performance Instrumental Solo por sua atuação expressiva na faixa-título deste seu fantástico álbum. Lançado pela Cedille Records, o álbum tem como ponto central o registro musical do concerto multimídia chamado "Difficult Grace", uma espécie de tour de force autobiográfico em que Seth Parker se desdobra nas tarefas de violoncelista, performer e narrador. A música dessa peça, elaborada para violoncelo solo, eletrônica e texto falado, foi escrita pelo compositor Fredrick Gifford (1972- ) exclusivamente para Seth Parker, que ficou responsável por oralizar as temáticas e pelo spoken word com partes do poema "Primitives", de Dudley Randall: a peça, em seu conjunto, é uma espécie de semiautobiografia, uma abstrata viagem interartes que explora e intercala a história de vida do músico com a ancestralidade e a história afro-americana, abordando temáticas como identidade, diáspora e os reflexos da Grande Migração (fenômeno ocorrido entre as décadas de 1920 e 1970, no qual os afro-americanos do sul dos EUA migravam para o norte do país, fugindo do preconceito e da violência). O álbum segue com peças e canções de outros compositores, incluindo estreias de peças inéditas escritas exclusivamente para Seth Parker dar vazão neste seu projeto: segue-se uma parte da já reconhecida peça "Calvary Ostinato" de Coleridge-Taylor Perkinson (1932–2004) e gravações das estreias de "Agoru II" de Alvin Singleton (1940- ), "Winter Tendrils" de Monty Adkins (1972- ), "Dam Mwen Yo" e "The Race: 1915" de Nathalie Joachim (1983- ), finalizando com "Freefucked" (musicado a partir de poemas de Kemi Alabi) e "After We Ruin", ambas de Ted Hearne (1982- ). Aqui temos, então, uma experimentação hiper criativa com solos de cello, fragmentos poéticos, improvisos livres, oralizações, canções, temáticas diaspóricas e efeitos de eletrônica.
 
★★★★ - Kaija Saariaho - Helsinki Chamber Choir & Nils Schweckendiek - Choral Music -  Reconnaissance (BIS Records, 2023).
Os gênios tem dessas: eles falecem e sempre deixa alguma gema a ser revelada, assim como nos deixam a procurar por suas pepitas mais preciosas, algumas delas ainda incompreendidas e sendo lapidadas pelo tempo, outras delas inéditas advindas de um súbito lapso de genialidade sendo reveladas inesperadamente, quando não algumas outras ainda por muito tempo empoeiradas em algum fundo de gaveta ou baú a esperar por uma descoberta. E a compositora finlandesa Kaija Saariaho, uma das pioneiras da música espectral —— eletrônica e orgânica —— é dessas figuras geniais. Falecida recentemente, em 2 de junho de 2023, em Paris, a impressão que Kaija Saariaho nos deixou é que por muito tempo a humanidade —— uma pequenina parte da humanidade, formada por humanos de ouvidos inquietos —— estará destilando suas obras em audições cada vez mais bem polidas para, só assim, começar a compreender o nível de genialidade da compositora. É o que nos revela, por exemplo, este álbum acima, um registro póstumo com uma coleção de 82 minutos de obras escritas para o formato de canto coral compostas entre 1991 e 2020. Lançada agora em 2023 pela BIS Records, o álbum nos traz os 24 vocalistas do Coro de Câmara de Helsinque sendo dirigidos por Nils Schweckendiek em interpretações de peças que abordam apenas vozes, vozes com eletrônica, vozes com ensemble e vozes com eletrônica e instrumentos. Aliás, aqui estamos no território da voz sendo estritamente explorada enquanto instrumento musical, incluindo abordagens onde várias dinâmicas e técnicas vocais estendidas são inteligentemente sobrepostas e sequenciadas. Kaija Saariaho vai ainda mais além. Ela trabalha aqui com algumas transladações temporais, alguns saltos no espaço-tempo, que vai do canto medieval à atonalidade sci-fi, da polifonia pré-barroca às vocalizações inspiradas pela música espectral, nos imergindo em atmosferas inesperadas, misteriosas sobreposições de camadas, e por vezes em inimagináveis espectros de som, como se fôssemos transladados para algum lugar desconhecido no espaço e no tempo ou para algum planeta deserto e escuro, ou para dentro de algum filme de sci-fi interplanetária...ou algo do tipo...




O álbum começa com a genial peça "Nuits, adieux" (1991), onde a compositora evidencia seus fortes laços com o espectralismo: a peça, escrita para vocais e eletrônica e com fragmentos advindos de textos extraídos de Honoré Balzac e do poeta contemporâneo Jacques Roubaud, traz quatro cantores aplicando camadas texturais de técnicas estendidas (chiados, zumbidos, gemidos, gargarejos e etc) sob duas camadas de canto, um canto solista fazendo flutuar uma vagarosa melodia atonal sobrepondo um outro canto soando uníssono e uniforme, enquanto um quase imperceptível trato de eletrônica fica incumbido de aplicar delays, sobrepor espectros, reverberar os ecos e renderizar os contornos. Segue-se a breve peça "Horloge, tais-lo!" (2005) para coro de vozes e piano em movimento uno: a peça soa levemente animada e funciona como um interlúdio de cores uníssonas sobrepostas com alguns contrapontos aqui e ali sendo salpicados por estalar de línguas e sons de tic-tac. Em seguida temos a peça Écho! (2007), que traz o mesmo estilo espectralista na sobreposição de camadas, mas agora submerso em uma interpretação quase operística baseada no mito de Eco e Narciso. Segue-se a peça Tag des Jahrs (2001), para coro e eletrônica: a peça, com fragmentos advindos de textos do poeta alemão Friedrich Hölderlin, aborda e mistura camadas monolíticas de vozes cantadas e faladas, sons da natureza (vento, pássaros, etc), uma voz fantasmagórica processada eletronicamente, um percussionista aplicando efeitos de pratos e sons eletrônicos que soam como sinos e algum tipo de órgão alienígena. Em seguida a set list ruma para duas peças para vozes e instrumentos: Überzeugung (2001) para vozes femininas, violino, cello (também inspirada no poeta Friedrich Hölderlin); e a peça-título Reconnaissance (2020) para coro misto, percussão e contrabaixo, com a colaboração de músicos do Uusinta Ensemble. Para além das características espectrais nas sobreposições de camadas monofônicas ou polifônicas, a peça-título Reconnaissance (2020) traz um curioso texto de ficção científica sobre a terraformação de Marte, finalizando com uma faixa chamada "Desert People" marcada por contrastes entre cantos sobrepostos e vocalizações tribais: a peça foi, inclusive, indicada para concorrer ao prêmio Grammy na categoria Melhor Performance Coral, nomeação para a qual devemos torcer! Por fim, o álbum finaliza com uma outra versão de "Nuits, adieux" (1991), agora somente com vozes a cappella, o que nos dá a oportunidade de ouvir como Saariaho trabalha o espectralismo vocal sem eletrônica para, depois, comparar com a mesma peça que abre o álbum com vozes e efeitos eletrônicos. Na opinião deste inquieto ouvinte que voz escreve, este é um dos grandes álbuns de peças vocais do nosso tempo!
 
★★★ - David Lang - The Little Match Girl Passion (Cantaloup Music, 2023).
E por falar em peças vocais, temos acima um inédito registro da já aclamada The Little Match Girl Passion do compositor pós-minimalista americano David Lang, um dos fundadores do coletivo Bang On A Can e da gravadora Cantaloupe Music. A obra é influenciada pela Paixão Segundo São Mateus, BWV 244 (1727) de Johann Sebastian Bach e ganhou o Prêmio Pulitzer de Música em 2008, logo passando a ser considerada uma das grandes peças vocais escritas neste início de século 21. Já havia uma gravação lançada em agosto de 2009 pela gravadora francesa Harmonia Mundi: registro que traz o Theatre Of Voices e o Ars Nova de Copenhagen, ambos grandes ensembles de vozes, sob regência do inglês Paul Hillier. Agora, David Lang lança, através da seu próprio selo Cantaloupe Music, uma versão mais enxuta da peça para trabalhar de forma mais detalhista e individual no texto, nas nuances e sobreposições, enfatizando cada respiração e cada aspecto da individualidade dos vocalistas que interpretam os sujeitos da masterpiece. A obra de David Lang é inspirada no conto de fadas The Little Match Girl publicado em 1846 pelo poeta dinamarquês Christian Andersen e ressignifica aspectos da Paixão Segundo São Mateus de Bach sob um olhar pós-minimalista, sem adotar a rebusques estética da polifonia barroca: ou seja, sob uma nova e singular abordagem pós-minimalista, Lang elabora textos e compõe linhas de melodias e loops melódicos nos quais intercala a narrativa do poeta dinamarquês com partes da narrativa escrita por Christian Friedrich Henrici, libretista que colaborou com Bach em Paixão Segundo São Mateus, substituindo a figura de Jesus pelo sofrimento da garotinha que vivia de vender fósforos diante das respostas de uma multidão de pessoas indiferentes, tal como acontece com Jesus no oratório do compositor barroco. Encomendada pela Carnegie Hall Corporation e The Perth Theatre & Concert Hall, essa obra vocal de David Lang estreou em 25 de outubro de 2007 no Zankel Hall no Carnegie Hall, Nova York, e logo se tornou um marco desse formato de coral de vozes —— com naturais ecos medievais e barrocos —— ressignificado pelo pós-minimalismo americano atuante neste início de século 21.

★★★ - Ghost Train Orchestra and Kronos Quartet - Songs and Symphoniques - The Music of Moondog (Cantaloup Music, 2023).
Já falamos várias vezes desse gênio aqui no blog. Moondog foi dos pais da música minimalista —— talvez o real founding father do minimalismo americano —— e é, desde sempre, uma das figuras mais misteriosas e intrigantes da história da música do século XX. Moondog foi um curioso músico de rua cego, praticamente um morador de rua —— ele até mantinha estadias curtas em humildes apartamentos aqui e ali em NYC, tendo até dividido um pequeno espaço com o então jovem Philip Glass nos anos de 1960 ——, mas sua estadia principal era as ruas, mais especificamente na 6ª Avenida, fato pelo qual ficou conhecido como o Viking da 6ª Avenida. Suas vestimentas viking, seus poemas, seu conhecimento sobre música, a musicalidade das suas canções e seus instrumentos inventados logo passaram a chamar a atenção da multidão de transeuntes que trafegavam entre a 5a. e 6a. avenidas, incluindo figuras lendárias como o saxofonista de jazz Charlie Parker, o maestro Leonard Berstein e o poeta beatnick Allen Ginsberg, dentre muitos outras figuras das artes de Nova Iorque, os quais passaram a tê-lo em grande estima. O fato é que Moodog deixou uma obra tão intrigante quanto a sua figura mítica do transeunte viking que colou nos anais e nas memórias da cidade de Nova Iorque. Sendo uma figura estimada no underground e praticamente desconhecida do grande público, só agora neste início de século sua música começou a ser mais reconhecida dentro dos circuitos do mainstream, muito em parte pelo motivo da sua arte musical intrigante e da sua curiosa história de vida chamar as atenções das novas gerações de ouvintes em buscas pela internet —— a internet, aliás, tem revelado muitos autores da arte underground e muitos grandes criadores musicais que ficaram fadados ao ostracismo mediante o capitalismo manipulado do mercado fonográfico no século XX. E agora o legendário quarteto de cordas Kronos Quartet se junta à orquestra indie Ghost Train Orchestra, uma eclética e híbrida orquestra de jazz fundada pelo cantor e trompetista Brian Carpenter, para dar novos polimentos às peças e canções de Moondog. A parceria é perfeita, pois traz novos arranjos que hibridificam perfeitamente aspectos do precursor minimalismo erudito com aspectos do jazz e da canção popular americana tal como Moondog propôs em seus ciclos de repetitivas e marcantes melodias de simplicidade nonsense com percussão mínima e sons pré gravados das ruas e do trânsito de Nova Iorque, algo que ele próprio já chamava de "minimal means" e/ou "minisyms" muito antes do termo "minimalismo" existir enquanto definição de estética musical. O álbum acima, então, é mais um registro a contribuir para que a arte musical precursora de Moondog esteja entre as grandes criações musicais do século 20 —— como, aliás, é de direito! —— e, para tanto, também conta com adições de aclamados músicos e aclamadas vozes de figuras tais como Sam Amidon, Jarvis Cocker, Petra Haden, Karen Mantler, Marissa Nadler, Aoife O'Donovan, Rufus Wainwright e Joan Wasser. Os discos estão sendo vendidos em vinil e CD e incluem um luxuoso encarte com ensaio do biógrafo Robert Scotto, letras das canções de Moondog, fotografias de Dan Efram e uma entrevista mediada pelo historiador musical Irwin Chusid com o fundador do Kronos Quartet, David Harrington, e com o fundador da Ghost Train Orchestra, Brian Carpenter. 
 
★★★¹/2 - Michael Gordon & Kronos Quartet - Campaign Songs (Cantaloup, 2023)
Michael Gordon é um dos três pilares —— ao lado de Julia Wolfe e David Lang, com os quais fundou o Bang On A Can e a Cataloupe Music —— do pós-minimalismo ecleticista que tem sido protagonista no universo da música erudita americana, tendo precedido a geração dos jovens compositores que atualmente chamam de "indie classical music". Neste curto EP acima, inspirado por toda a polarização eclodida no seio da eleição americana em 2020 —— cheia de polarizações potencializadas pela pandemia e pelo Black Lives Matter, uma das disputas mais acirradas, mais cheias de polêmicas e conflitos ideológicos da história dos EUA, sem mencionar a subsequente Invasão do Capitólio... ——, Michael Gordon faz uso de inflexões sobre motivos melódicos de canções e hinos relacionados a slogans de campanhas políticas americanas para criar peças curtas, praticamente  miniaturas, as quais parecem atuar entre um range conceitual que vai da ironia à celebração. Como estávamos todos confinados pelo lockdown pandêmico nessa época, Michael Gordon escreveu cada miniatura da peça separadamente, enviando cada parte separadamente para cada um dos membros do Kronos Quartet, os quais estrearam a peça no formato de live, on line, cada um em sua casa, isso em entre outubro e novembro de 2020. Campaign Songs é uma peça, então, que surgiu com o sentido "galvanizar" a disputa eleitoral na eleição de 2020. Ao todo o projeto é constituído de oito peças curtas acompanhadas dos seus respectivos vídeos curtos, onde ambos abordam questões raciais, climáticas, econômicas, sociais, entre outros temas. Arranjadas com base no cânone da música patriótica, no jingles e hinos que permeiam a política e o folclore americano, as peças evocam motivos melódicos de canções tais como "This Land is Your Land" de Woodie Guthrie, "God Bless America" (uma canção da disputa eleitoral de 1950, da campanha de Franklin Delano Roosevelt contra seu oponente, Wendell Willkie), "When Johnny Comes Marching Home" (uma canção de campanha de James A. Garfield), "America the Beautiful" e "The Star Spangled Banner".




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