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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (09) 

 
★★★★ - Ulisses Owens Jr. - Kind of Grunge (Cellar Music Group, 2026)
Sem querer generalizar ou estereotipar, o grunge sempre me pareceu, ao menos numa primeira impressão, o tipo de rock feito para que jovens brancos desleixados e indignados dos anos 90 —— com suas camisas flaneladas em xadrez, cabelos despenteados e calças jeans surradas —— pudessem tocar violão e cantar suas canções no intervalo escolar ou tocar suas guitarras na garagem dos pais. Mas basta ouvir o álbum acima para perceber que esse estilo de música pode sugerir mais possibilidades do que essa primeira impressão faria supor. Aqui, pela enésima vez, temos um músico de jazz aplicando releituras sobre temas de pop-rock. Na verdade, a história mostra que vários dos standards clássicos do jazz advieram justamente de temas do cancioneiro pop: de cancionistas que fizeram sucesso na Broadway e em Hollywood nos anos 30, 40 e 50 —— tais como Oscar Hammerstein II, Jerome Kern e Richard Rodgers ——, passando pelos Beatles e Stevie Wonder e chegando, mais recentemente, às canções do Radiohead sendo reimaginadas pelo pianista Brad Mehldau. Só que aqui temos um projeto singular no quesito desse intercâmbio. Aqui, o baterista de jazz Ulysses Owens Jr., músico ligado ao range situado entre o straight-ahead e o post-bop contemporâneo, se lança, então, ao desafio de dar versões jazzísticas para temas do grunge rock, considerado o estilo mais marcante do rock alternativo dos anos 90, um estilo deveras distante da tradição do jazz. Esteticamente falando, o grunge foi um estilo dos anos 90 que condensou a psicodelia do heavy metal e a crueza do punk a partir de canções líricas e melancólicas em uma abordagem mais "despojada": foi um estilo de caráter juvenil que garantiu um novo frescor ao rock alternativo através de novas texturas, novas distorções e efeitos mais "rasgados" e com novas "arranhaduras", deixando de lado, por exemplo, aqueles solos rápidos, virtuosos e intermináveis de guitarra para centrar-se numa roupagem onde a textura —— o canto melódico e "rasgado" dos vocais, as novas eletrificações de guitarras cruas, os riffs curtos, e etc. —— se tornou mais importante do que o virtuosismo ou a complexidade harmônica. O frescor juvenil sintetizado por essas novas distorções e eletrificações frutificou-se, então, em um novo rock com linhas melódicas marcantes, mas com bases harmônicas relativamente simples, geralmente com riffs baseados em progressões de poucos graus, variações em torno de três acordes fundamentais ou power chords, além do uso de tríades suspensas sem terça menor ou maior. Nesse sentido, as canções do grunge parecem oferecer menos profundidade harmônica do que o standard tradicional, a balada de jazz ou canções de Stevie Wonder e Radiohead. Contudo, as canções das bandas de grunge marcaram uma época e trouxeram um frescor juvenil que ainda ecoa nas mentes dos jovens coroas nascidos nos anos 70, 80 e 90, muitos dos quais assíduos telespectadores que acompanharam essas bandas em videoclipes da MTV. Pois é daí que Ulysses Owens Jr. e seu grupo Generation Y empreendem o desafio. Parafraseando o título "Kind of Blue", do clássico álbum de Miles Davis, o baterista intitulou, então, esse seu álbum de Kind of Grunge, lançando-o agora, em agosto de 2026, pela Cellar Music Group. Abaixo, falo mais sobre o projeto!
 

O projeto foi concebido a partir de algumas experiências que Ulysses Owens Jr. teve no estúdio da plataforma canadense de ensino musical Drumeo, através da série For the First Time, onde os bateristas são desafiados a criar espontâneas passagens e improvisos para uma determinada canção sem ter ouvido previamente a gravação original. Foi nesse contexto que Ulysses Owens Jr. se deparou com canções como "Heart-Shaped Box" e "In Bloom", do Nirvana. Pois eis que a versão de "Heart-Shaped Box" apresentada pelo grupo tornou-se um fenômeno nas redes, com mais de 10 milhões de visualizações, repercussão que inspirou o baterista e sua banda a transformar o experimento em um projeto de maior escala. A proposta de Kind of Grunge consiste, então, em transformar esse repertório do grunge em jazz contemporâneo a partir de moods, tons, traços e toques renovados de straight-ahead, hard bop, post-bop, spiritual jazz, cool jazz, latin jazz e blues, preservando elementos melódicos reconhecíveis dos temas das canções originais, mas submetendo-os à interação, aos arranjos e à improvisação de uma banda de jazz, aqui, nesse caso, um sexteto. Ulysses Owens Jr. é acompanhado por Benny Benack III no trompete e vocal, Langston Hughes II no saxofone alto, Tyler Bullock no piano, Dan Wilson na guitarra e percussão e Thomas Milovac no contrabaixo acústico. O disco foi gravado em abril de 2026, nos Musora Studios, em Vancouver, e mantém como princípio criativo a premissa da espontaneidade que foi a marca registrada da série de desafios For the First Time, da Drumeo: apenas três das doze faixas receberam arranjos prévios, enquanto o restante do repertório foi essencialmente explorado e arranjado em tempo real, durante o próprio processo de gravação. Assim, o álbum funciona como um registro de descoberta coletiva, no qual experientes músicos de jazz recebem temas e canções com riffs simples característicos desse tipo de rock mais comercial para, em seguida, enriquecê-los com improvisos, harmonias mais sofisticadas e requintados arranjos jazzísticos. O repertório começa com "Touch Me I'm Sick", da banda Mudhoney, cuja melodia é deslocada para uma atmosfera de spiritual jazz; passa por "Even Flow", do Pearl Jam, tratada entre o cool e o latin jazz; chega a "Would?", do Alice in Chains, em uma leitura mais angular e dissonante; percorre "Disarm", do The Smashing Pumpkins, em uma das passagens mais contidas do álbum; e segue com "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana. Seguem-se releituras de temas de canções de Soundgarden, Stone Temple Pilots e Hole, além de uma releitura de "Where Did You Sleep Last Night", canção tradicional do bluesman Lead Belly, que recebeu de Kurt Cobain uma fresca versão no álbum MTV Unplugged (1994). Mais do que simples releituras, Kind of Grunge constitui um exercício instigante no qual Owens Jr. e o Generation Y evidenciam a capacidade que experientes músicos de jazz têm de aplicar novas relações harmônicas, rítmicas e tímbricas em temas de canções comerciais baseados em riffs curtos e progressões relativamente simples. Clique na imagem do álbum acima para ouvi-lo!

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O vocabulário expansivo de Jon Irabagon: peças eruditas, hibridismos, eletrônica, humor, paródias, técnicas estendidas

 
O interessante no jazz é que o músico contemporâneo sempre terá a sina de seguir seu próprio caminho, mas essa sina pessoal pela originalidade e pela inovação é conjugada também com o orgulho de ter partido de algumas inspirações específicas da tradição e de um determinado círculo de influências para, assim, construir seu vocabulário e seguir conectado com a linha evolutiva dessa música que é histórica e, ao mesmo tempo, sinônimo de inovação e liberdade. É o caso do incrível saxofonista Jon Irabagon que, entre influências que vão dos ídolos do bebop Charlie Parker e Sonny Rollins, passando pelo m-base de Steve Coleman, incorporando eletrônica e indo ate os conceitos do iconoclasta mestre do avant-garde Anthony Braxton, tem sido um dos improvisadores e compositores inovadores que hoje reinventa a estética "modern creative" do jazz, usando de forma amplamente multifacetada os recurso pós-modernos das técnicas estendidas dentro de composições estruturadas e das misturas de elementos de estéticas variadas. Não seria exagero dizer, por exemplo, que ao usar essa multiplicidade de recursos, Irabagon se estabelece hoje como um dos músicos dotados do mais expansivo vocabulário dentro da estética do modern creative. Em seu álbum Bird with Streams (2021), por exemplo, Irabagon registra seu sax tenor em plena Black Hills (região montanhosa da Dakota do Sul) para revisitar o mestre Charlie Parker, conectando suas inflexões do intrincado fraseado bebop com a plena liberdade das suas criativas técnicas estendidas. Já em Raw Dog (2026), Irabagon se debruça sobre composições de Anthony Braxton tais como "Composition 40M" e "Composition 23M", dessa vez explorando o saxofone baixo, dialogando diretamente com a radicalidade do mestre do free jazz que partiu das inovações empreendidas pela AACM para criar seu próprio universo de composições conceituais. Paralelamente, em seus álbuns autorais lançados em seu próprio selo Irabbagast Records, Jon Irabagon segue lançando uma sequência hiper criativa com as mais inventivas ideias, indo de fraseados angulares ao encaixe de eletroacústica e técnicas estendidas dentro das suas composições estruturadas. Nascido em Chicago em 1978, e sendo de origem filipino-americana, Irabagon teve formações pelas DePaul University, Manhattan School of Music e Juilliard, e teve seu início de carreira marcado com o fato de ter sido vencedor da Thelonious Monk International Competition, em 2008. Não demoraria muito para o jovem saxofonista estar metido no centro das atenções da nova geração do modern creative —— a começar pela sua participação como membro fixo da impressionante banda Mostly Other People Do the Killing, uma banda que mistura avant-garde com sátiras e paródias —— e para ele também ser considerado pela DownBeat um dos importantes "rising stars" nas categorias do sax alto e do sax tenor, sendo considerado um dos músicos mais importantes para o futuro do jazz. De lá para cá, Irabagon se firmou como voz central da nova geração por meio de seus projetos autorais e de colaborações com importantes músicos e compositores tais como Mary Halvorson, Dave Douglas, Matt Mitchell e Peter Evans, sendo celebrado pela crítica especializada por sua ousadia composicional, pela sua amplitude técnica, por seu humor e suas paródias e por seus arranjos, improvisos e composições inovadoras. E agora, em 2026, ele acaba de ser agraciado como um dos músicos do jazz a receber o Guggenheim Fellowships, uma das mais importantes honrarias e bolsas de incentivo dadas para músicos inovadores. Abaixo, teremos uma overview mais completa sobre esse genial saxofonista e compositor através dos seus álbuns lançados pelo selo Irabbagast, incluindo seus últimos lançamentos!!! Ouça-os!!!
 
Além dos prêmios, das honrarias e de sua presença marcante entre os jovens inovadores do jazz contemporâneo, uma das realizações mais importantes da carreira de Jon Irabagon foi ele ter fundado seu próprio selo, o Irabbagast Records. Assim, Irabagon encontrou o espaço fundamental para mostrar toda a extensão de suas técnicas estendidas e radicalizar sua busca por inovação, libertando-se das amarras comerciais, realizando as mais variadas e divertidas misturas estilísticas e explorando os limites de seus muitos instrumentos de palheta. É interessante notar que, em boa parte da amplitude dessas misturas, o saxofonista faz uso da paródia e de certos traços humorísticos, em uma busca constante pelo inusitado, pelo humor e pelo exótico. Esse humor já se manifesta de maneira explícita em Foxy (2010), lançado pela Hot Cup, uma paródia sobre o clássico álbum do colossal saxtenorista Sonny Rollins Way Out West (1957), cuja própria capa recria a estética western do álbum original, mas substitui Rollins por uma modelo em traje de banho, enquanto o próprio Irabagon aparece no verso vestido de cowboy e faz uma provocação com um trocadilho baseado em "Doxy", composição de Rollins. Para além do uso da paródia, da sátira e do gosto pelo humor em suas criações, Jon Irabagon também busca constantemente novas sonoridades, novas ambiências e arranjos exóticos. Através dos lançamentos do seu selo Irabbagast, não raramente constatamos que o saxofonista grava em locais inusitados tais como mausoléus, montanhas, florestas e galpões, para explorar novas ressonâncias e ambiências. Já no álbum I Don't Hear Nothin' but the Blues Volume 2: Appalachian Haze (2012), Jon Irabagon se junta ao baterista Mike Pride e ao guitarrista Mick Barr, associado ao heavy metal e ao rock experimental, para partir da convencional influência do blues em direção a uma torrencial improvisação de quase 48 minutos, combinando free jazz, ruído e heavy metal em uma densa massa sonora abstrata. Já em Outright! Unhinged (2012), o saxofonista amplia seu quinteto para uma orquestra iconoclasta, com a qual mistura elementos de post-bop, free jazz, avant-garde e atonalidades, se inspirando na tradição de Charlie Parker e brincando com a própria história do saxofone por meio de peças com títulos como "Charles Barkley", "Kremzeek!", "Parker Posey" e "Silent Smile (Urban Love Song)". Não obstante, Irabagon escala o tecladista Jacob Sacks para acrescentar a seu caleidoscópio orquestral um arsenal de teclas que inclui piano, órgãos, electric harpsichord, clavinet e Fender Rhodes. O uso da eletrônica, aliás, é uma das suas predileções.
   

Outro exemplo é o humorístico álbum Dr. Quixotic's Traveling Exotics (2018): nesse registro, ele se remete à poética do circo e captura em sons as imagens de um show de horrores circense, combinando procedimentos criativos do m-base, composição estruturada, post-bop, métricas irregulares e improvisação livre. Já em Invisible Horizon (2019), Irabagon adentra a música de câmara escalando o excelente Mivos Quartet para contracenar com vários improvisadores, empreendendo suas primeiras incursões no âmbito da música erudita. Segue-se o incrível álbum Survivalism (2024), no qual Irabagon explora sozinho seus saxofones em uma sequência de amostragens de técnicas estendidas, inclusive abordando novamente o soprillo, o menor e mais agudo dos saxofones: o álbum foi gravado em dois antigos bunkers militares abandonados e apresenta uma crítica ambiental à caça e ao desmatamento, se baseando nos chamados de caça (game calls) para explorar ruídos saxofônicos, uivos, gritos, reverberações e ambiências naturais como elementos alusivos à natureza, aos pássaros e outros animais. Outro álbum que mistura ousadia e humor é Recharge the Blade (2024), no qual Irabagon assume o sax soprano e reúne duas formações: uma banda com o trombonista Ray Anderson, o pianista e tecladista Matt Mitchell, o contrabaixista Chris Lightcap, o baterista Dan Weiss e o guitarrista Ben Monder, e outra com mais de uma centena de músicos participando remotamente. O álbum brinca com o pastiche do pop, explora temáticas de violência, fantasia e humor e traz Irabagon imitando deliberadamente o saxofonista de smooth-pop-jazz Kenny G para, em seguida, transformar essa imitação em um caleidoscópio de improvisações abstratas —— uma sátira que, afinal, tem o intuito de explorar toda a sua destreza no sax soprano. Ademais, a variedade com que Irabagon domina diversos instrumentos de palheta —— saxes soprano, alto, tenor, baixo, sopranino, soprillo, diversos clarinetes etc. —— também acaba sendo uma das suas facetas principais. No álbum Blue Hour (2024), por exemplo, ele se une ao pianista e tecladista Brian Marsella, utilizando saxes mezzo-soprano, tenor e sopranino, enquanto Marsella combina piano, Yamaha CS-60, órgão Korg BX-3 e sintetizador eletrônico Ritm-2, produzindo uma música que a crítica descreveu como uma criativa viagem ao desconhecido, com uivos, gritos, ataques e mudanças repentinas de direção, mas também com estruturas improvisatórias excêntricas e lúdicas. Assim como Wayne Shorter que era fascinado por histórias em quadrinhos e pelo ludismo dos sonhos e fantasias, Irabagon também demonstra, ao seu modo, suas próprias afinidades com um imaginário cheio de brincadeiras com os pastiches da cultura pop, e com os quadrinhos e  cartoons, recorrendo a personagens, histórias e temáticas de faroeste, e levando esses elementos para a paródia, para o humor e para o exotismo como uma extensão da sua própria expressividade visual e sonora.


Irabagon em novas inspirações: kulitang filipino, inteligência artificial, ilusões ópticas e música erudita contemporânea
 

Em meados dos anos 90, já existia certo temor diante dos avanços da computação, de que as máquinas não apenas substituiriam os seres humanos, como também poderiam escravizá-los. Isso se traduz, por exemplo, na sequência dos filmes Matrix, escritos e dirigidos entre fins dos anos 90 e início dos anos 2000 pelas cineastas transgêneras Lana e Lilly Wachowski, que, na época, eram creditadas como os "irmãos" Larry e Andy Wachowski. A partir dos anos 2000, a ciência da computação evoluiu progressivamente em duas frentes complementares: de um lado, a redução do tamanho físico dos dispositivos de hardware e, de outro, o aumento da capacidade de processamento e armazenamento de dados por meio de softwares e infraestruturas cada vez mais sofisticados. Seguiram-se, então, a expansão da Internet das Coisas (IoT), o desenvolvimento da computação em nuvem para armazenar e gerenciar grandes volumes de dados, a expansão do fenômeno do Big Data e, mais recentemente, o avanço da Inteligência Artificial (IA), capaz de gerar previsões, automatizações e sistemas de decisão cada vez mais sofisticados. Nesse processo, atividades humanas nas mais variadas áreas foram progressivamente substituídas por aplicativos, plataformas digitais e por sistemas de inteligência artificial. Para processar essa enorme quantidade de dados, as big techs e os governos investem bilhões nos chamados data centers, enormes centros de processamento de dados que demandam grandes quantidades de energia e água e que vêm sendo associados a preocupações crescentes com os limites das matrizes energéticas e os limites hídricos dos países ao redor do mundo. É daí que surge a ideia deste álbum, Server Farm, de Jon Irabagon. O álbum apresenta uma obra conceitual que explora as relações entre humanidade, natureza, tecnologia e inteligência artificial em uma narrativa musical progressivamente densa e híbrida, captando os conflitos e hibridismos entre sons orgânicos e eletrônicos para explorar musicalmente a relação entre homem e máquina. O próprio título já sugere esse hibridismo ao utilizar um termo orgânico —— "farm" —— junto ao um termo cibernético —— "server" ——, referindo-se aos enormes data centers e complexos de servidores destinado a sustentar o universo digital. Para compor e estruturar peças que aludissem à inteligência artificial e ao mundo cibernético, Irabagon teve a ideia de criar uma espécie de "processamento de dados" interativo: durante 10 meses ele ouviu e estudou as discografias e trejeitos criativos de seus músicos convidados para, assim, incorporar características de suas linguagens pessoais às composições, sempre deixando espaço para a improvisação, técnicas estendidas e a contribuição individual. Esse procedimento produz, enfim, uma tensão constante entre composição e espontaneidade, entre sons orgânicos e sons eletrônicos, entre o humano e o digital.


 
★★★★ - Jon Irabagon - Server Farm (Irabbagast Records, 2025)

Para tanto, Jon Irabagon —— a cargo dos saxofones, composições e efeitos eletrônicos —— forma um expansivo ensemble de dez músicos criativos, praticamente organizado como uma variação de dois quintetos: reunindo seu quarteto habitual —— com Matt Mitchell (piano, Fender Rhodes, Prophet-6), Chris Lightcap (baixo elétrico) e Dan Weiss (bateria) —— mais as participações de Mazz Swift (violino e voz), Peter Evans (trompete e flugelhorn), Miles Okazaki (guitarra), Wendy Eisenberg (guitarra), Michael Formanek (contrabaixo) e Levy Lorenzo (kulintang, laptop, eletrônica e vibrafone). A set list é preenchida por cinco extensas composições: "Colocation" (13:03), "Routers" (7:07), "Singularities" (14:04), "Graceful Exit" (9:41) e "Spy" (15:05). "Colocation", como o próprio título denota, remete ao universo das server farms, dos grandes data centers que alugam espaços, banda larga e infraestruturas com muita disposição de energia e resfriamento para manterem enormes quantidades de dados: a peça começa com o kulintang de Levy Lorenzo, instrumento tradicional formado por gongos afinados e ligado às raízes filipinas, e desenvolve-se a partir dos oito tons característicos desse estilo de música tradicional filipina, enquanto um groove marcante formado pelo contrabaixo de Chris Lightcap e pela bateria de Dan Weiss pavimentam certo desenvolvimento melódico a ser emitido pelos sopros e, mais adiante, os guitarristas Miles Okazaki e Wendy Eisenberg e outros músicos do ensemble adicionam novas camadas, efeitos eletrônicos e cacofonias, numa alusão entre o conflito orgânico e o cibernético. As guitarras inclusive, acrescentam tons de psicodelia que se hibridizam muito bem com os eletrônicos. Já a peça "Routers" trabalha inicialmente com a interpolação e contraponto rítmico de técnicas estendidas, improvisos e efeitos, permitindo logo adiante que os músicos construam progressivamente uma massa sonora em torno de elementos melódicos e harmônicos sebrepostos. Já a terceira peça, "Singularities", representa o ponto central do encontro e do conflito entre o humano e a inteligência cibernética, entre o orgânico e o eletrônico: a peça começa com linhas angulares em uníssono sendo executadas pelo ensemble, e, em pontos entremeados da composição urge certa desordem freejazzística até que os solos bluesy de saxofone tenor de Irabagon surge contrapondo-se  aos improvisos de Peter Evans, até ambos serem novamente mergulhados em meio ao caos da improvisação coletiva. "Graceful Exit" introduz uma atmosfera mais contemplativa, com um improviso livre sombrio emitido pelo contrabaixo acústico de Michael Formanek sendo tocado com arco, desenvolvendo-se em seguida uma espécie de balada misteriosa e lírica até que essa beleza acústica seja progressivamente invadida por acordes graves e sombrias interferências eletrônicas, criando justamente o contraste entre o humano e o artificial cibernético. Irabagon explicou que pretendia preservar a "beleza" mesmo diante da sensação de destruição iminente. Finalmente, "Spy",  a longa composição que finaliza o álbum, leva o conceito ao estágio da paranoia da constante vigilância que sofremos: em meio a extratos e sons chapiscados através de técnicas estendidas e eletroacústica, ouve-se a voz de Mazz Swift cantando um texto escrito e processado eletronicamente, no qual uma abelha com uma câmera surge como um drone de vigilância, enquanto os vocais, o sopranino de Irabagon, os efeitos eletrônicos, a guitarra, os metais e as texturas fragmentadas criam uma paisagem na qual a distinção entre natureza e máquina já praticamente desaparece. Assim, em Server Farm, Irabagon transforma dados coletados, composição, improvisação, polirritmias, fragmentação de motivos, processamento eletrônico, sobreposição de timbres, interpolações e interações entre os dez músicos em uma metáfora do conflito e hibridização entre o humano e a inteligência artificial, entre o vírus cibernético e a humanidade, conduzindo o ouvinte para um hibridismo que conjuga a ancestralidade humana dos gongos do kulintang filipino e das instrumentações acústicas com o universo digital e eletroacústico. Um dos álbuns mais criativos de 2025!!!


   
★★★★ - Jon Irabagon - Focus Out (Irabbagast Records, 2026)
 
Aqui Jon Irabagon já apresenta a formação central com seu quarteto habitual com Matt Mitchell no piano e Fender Rhodes, Chris Lightcap no baixo elétrico e Dan Weiss na bateria, com participações potuais de Kokayi (voz), Dave Ballou (trompete), Miles Okazaki (guitarra), Donny McCaslin (saxofone tenor) e Mark Shim (saxofone tenor). Trata-se, também, do retorno de Irabagon ao saxofone alto após ele ter explorado o tenor e o soprano em trabalhos anteriores. O repertório reúne cinco composições próprias de Irabagon e duas em parceria com o vocalista Kokayi: "Paper Planes" e "Indigo Stains". Gravado em 30 de abril de 2022, o álbum é inspirado na experiência pessoal de Irabagon ao conciliar criação musical e a vida familiar sob a condição de paternidade, além de também trazer inspiração da sua fascinação pelas ilusões ópticas do psicólogo japonês Akiyoshi Kitaoka, cujas figuras chamadas "RNA Fragments 2" e "Out of Focus" foram exibidas nos shows de apresentação das peças e funcionam praticamente como extensão da música: o saxofonista usa, então, essas figuras estáticas que produzem sensação de movimento, deslocamento e instabilidade, traduzindo-as em escritas musicais na quais as métricas ímpares, acentuações, linhas melódicas e relações entre os instrumentos parecem constantemente escorregar de posição, fazendo do próprio ato de ouvir uma espécie de experiência perceptiva. A ideia é particularmente evidente na faixa-título, "Focus Out" (9:15), cujo groove assimétrico e mudanças métricas criam uma sensação de instabilidade. O álbum inicia com "Morning Star" (2:53) cujo sax alto, Rhodes e bateria protagonizam um desenvolviento inquieto e frenético de frases angulares que lembram a "sheet of sounds" de John Coltrane, com o motivo melódico sendo posteriormente retomado em "Evening Star" (10:01), que utiliza a mesma melodia, mas a transforma em uma peça de maior escala, inspirada explicitamente por Ascension, de Trane: aí temos, então, a entrada do trompete de Ballou, da guitarra de Okazaki e dos saxofones de McCaslin e Shim formando uma frente ampliada de metais e massa sonora. Irabagon explicou à JazzTimes que desejava ouvir essa melodia em uma faixa "à maneira de Ascension", justamente para explorar como a mesma ideia poderia ser simultaneamente reconhecível e profundamente desequilibrada em outro contexto instrumental. Já as peças "Paper Planes" (4:48) e "Indigo Stains" (9:18) contam com a atuação do músico Kokayi, cuja participação acrescenta uma dimensão vocal ligada ao hip-hop, spoken word e improvisação livre, trazendo certos ecos de influência dos procedimentos critivos do m-base de Steve Coleman. Segue-se "Prayer (for Reomi)" (4:31), um lamento que reduz drasticamente a densidade do conjunto e funciona como o momento mais meditativo do álbum, explorando o diálogo entre Irabagon e Mitchell, assim sendo um contraste em relação as peças mais frenéticas do álbum. E por fim, temos "Center Post" (5:27), uma peça mais ao estilo do post-bop/ neo-bop que aparece como faixa final e é identificada na edição do álbum física como faixa bônus, completando o repertório.


 
★★★★ - Jon Irabagon - WINDS (Irabbagast Records, 2026)

Esse é o segundo álbum de Jon Irabagon totalmente dedicado à linguagem erudita. Uma das suas primeiras incursões documentadas com escrita de caráter propriamente dentro do campo da música erudita contemporânea foi no álbum Invisible Horizon, projeto lançado em 2019 pela Irabbagast Records, onde o saxofonista e seus músicos convidados se juntam ao Mivos Quartet para dar vida a três extensas e expansivas peças. E agora em WINDS, lançado em 10 de agosto de 2026 também através do seu selo Irabbagast Records, Jon Irabagon continua a expandir-se na seara erudita com este registro acima de 79 minutos, nos apresentando duas obras extensas e independentes: a primeira, Méta-Harmonie, que é um quinteto de sopros em quatro movimento; e a segunda, Orbit, é um quinteto de saxofones em três movimentos —— "Orbit Part 1 - A Look" (15:07), "Orbit Part 2 - A Story" (12:30) e "Orbit Part 3 - Charisma" (14:23). O conceito de WINDS nasce, sobretudo, da oposição entre o mecanismo físico dos instrumentos de sopro e o sistema respiratório dos intérpretes: Irabagon afirma que, durante o processo de composição, esteve interessado na justaposição entre "the mechanical systems of the instruments" e "the respiratory systems of the performers", pensando no encontro entre o industrial/mecânico e a capacidade e necessidade humana de sopro e expressão. Dessa maneira, o próprio título "WINDS" pode ser entendido simultaneamente tando como referência à família dos instrumentos de sopro como em referência ao sopro, ao fluxo de ar indispensável para a exploração dos mesmos. A peça Méta-Harmonie foi concebida a partir de uma experiência de 2018, quando Irabagon integrava a banda/projeto 3dom Factor do baterista Barry Altschul e, durante uma turnê de verão, o grupo improvisou no Museum Tinguely, em Basel, Suíça, inspirando-se nas esculturas sonoras cinéticas Méta-Harmonie, de Jean Tinguely: interessante que há alternância entre passagens tecnicamente exigentes de intenso contraponto e trechos mais serenos, líricos e lineares, todos concebidos justamente para refletir ante ao caos cinético característicos das máquinas de Tinguely. A formação dessa primeira peça é um quinteto tradicional de sopros, com Roberta Michel (flauta), Katie Scheele (oboé), Joshua Rubin (clarinete), Nicolee Kuester (trompa francesa) e Sara Schoenbeck (fagote), com a escrita explorando a bela combinação timbrística desses cinco instrumentos acústicos e exigindo dos intérpretes uma justaposição entre precisão camerística, contraponto e flexibilidade. Segue-se a segunda peça do álbum, Orbit, que é centrada na formação de quinteto de saxofones e foi composta por Irabagon como uma espécie de diálogo com a linguagem e o gigantesco legado composicional de Anthony Braxton. A peça Orbit foi originalmente encomendada pelo 30º Music Biennale Zagreb e estreada em 10 de abril de 2019, com Irabagon explorando o raro saxofone mezzo-soprano ao lado do Zagreb Saxophone Quartet. Para a gravação do álbum, Irabagon atua com o sax mezzo-soprano e reúne quatro saxofonistas de primeira linha: Steve Wilson (saxofone soprano), John O'Gallagher (saxofone alto), Seamus Blake (saxofone tenor) e Carl Maraghi (saxofone barítono). Trata-se de uma peça para quinteto que é predominantemente composta, escrita em pauta, mas deixa espaços determinados para solos improvisados, combinando gestos mais foscos, espontâneos e atonais associados a Braxton com uma linguagem mais tonal e até momentos de forte caráter bluesístico, assim alternando entre motivos melódicos, emaranhados harmônicos e rítmicos e episódios de improvisação individual e coletiva. Ouçam!!!




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