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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (08) 

 

★★★★★ - Grupo Um - Nineteen Seventy Seven (Far Out Recordings, 2026)
Celebrando seus 50 anos, o Grupo Um resgata de seus arquivos um segundo álbum perdido dos anos 1970 e reafirma seu papel como um dos grupos mais radicais do avant-jazz brasileiro. A gravação foi lançada agora em janeiro de 2026 pela gravadora inglesa Far Out Recordings, que frequentemente foca em rare grooves brasileiros, já tendo lançado anteriormente gravações perdidas de nomes como Hermeto Pascoal, Grupo Vice Versa, Marcos Resende & Index e Azymuth. Vale lembrar, aliás, que a Far Out já havia lançado, em 2023, o álbum "Starting Point" (1975), com algumas das primeiras gravações do próprio Grupo Um. Essas gravações perdidas são sempre festejadas quando vêm a público, pois se tratam de verdadeiras relíquias sonoras de uma época em que esses músicos estavam experimentando e descobrindo inúmeras possibilidades e combinações. Nineteen Seventy Seven foi assim intitulado em referência direta ao ano em que foi gravado e surge como mais uma pepita rara do "brazilian fusion" vanguardista dessa banda que surgiu no seio das formações com Hermeto Pascoal e se tornou um dos grupos icônicos da Vanguarda Paulista. Naquela época, ainda imersos em um cenário de repressão e censura da ditadura militar, os músicos sofriam com os censores do governo e as gravadoras temiam lançar até trabalhos mais elaborados da canção popular, quiçá obras experimentais. Assim, poucos ou quase nenhum recurso restava aos músicos de vanguarda, o que os obrigava a recorrer à cena underground e a meios de produção alternativos. Essa gravação, por exemplo, ocorreu no estúdio Vice-Versa, de Rogério Duprat, em São Paulo, sob limitados recursos técnicos e financeiros: o grupo optou pelo pequeno Studio B, equipado com uma mesa Tascam (TEAC) 12x8 e um gravador AMPEX AG 440 de quatro canais, o que os obrigou a registrar tudo sem overdubs, direto na fita, imprimindo ao resultado das experimentações uma roupagem crua de rara textura orgânica. Expandindo-se de trio para quinteto, os membros originais Lelo Nazario (teclados), Zé Eduardo Nazario (bateria) e Zeca Assumpção (baixo) convidaram o saxofonista Roberto Sion e o percussionista Carlinhos Gonçalves —— os quais, inclusive, já haviam tocado juntos no grupo Mandala —— consolidando a formação aqui registrada. O grupo intercala, então, composições estruturadas com improvisações livres e experimentos eletroacústicos numa liberdade poucas vezes vista na cena da música instrumental brasileira. Nesse período, Lelo Nazario encontrava-se profundamente imerso na experimentação com sintetizadores modulares, trabalhando extensivamente com o ARP 2600 e o EMS Synthi AKS, e tais explorações eletroacústicas constituem, assim, a base sonora da quinta faixa do álbum, "Mobile/Stabile", uma das primeiras composições a fundir síntese modular com música brasileira. A peça estreou no primeiro Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em 1978, com a participação do trompetista Márcio Montarroyos, e, na ocasião, os organizadores do festival interromperam a apresentação dos músicos por causa da experimentação, gerando forte reação do público e da imprensa, que denunciaram o episódio como explícita censura artística. Não foi à toa, portanto, que o Grupo Um e tantos músicos dessa época tenham se desestimulado a lançar vários dos seus registros mais exploratórios. Aqui, em Nineteen Seventy Seven, os arranjos articulam ritmos afro-brasileiros com improvisos livres, síntese modular e uma profusão de apitos, percussões e pedais de efeito, evidenciando uma ousada síntese sonora que vai dos grooves de samba da faixa de abertura "Absurdo Mudo", passando por inflexões sobre rítmicas do maracatu em "Cortejo dos Reis Negros (Version 2)", até aportarem-se na já citada peça experimental "Mobile/Stabile". Álbum fantástico!!!

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O vocabulário expansivo de Jon Irabagon: peças eruditas, hibridismos, eletrônica, humor, paródias, técnicas estendidas

 
O interessante no jazz é que o músico contemporâneo sempre terá a sina de seguir seu próprio caminho, mas essa sina pessoal pela originalidade e pela inovação é conjugada também com o orgulho de ter partido de algumas inspirações específicas da tradição e de um determinado círculo de influências para, assim, construir seu vocabulário e seguir conectado com a linha evolutiva dessa música que é histórica e, ao mesmo tempo, sinônimo de inovação e liberdade. É o caso do incrível saxofonista Jon Irabagon que, entre influências que vão dos ídolos do bebop Charlie Parker e Sonny Rollins, passando pelo m-base de Steve Coleman, incorporando eletrônica e indo ate os conceitos do iconoclasta mestre do avant-garde Anthony Braxton, tem sido um dos improvisadores e compositores inovadores que hoje reinventa a estética "modern creative" do jazz, usando de forma amplamente multifacetada os recurso pós-modernos das técnicas estendidas dentro de composições estruturadas e das misturas de elementos de estéticas variadas. Não seria exagero dizer, por exemplo, que ao usar essa multiplicidade de recursos, Irabagon se estabelece hoje como um dos músicos dotados do mais expansivo vocabulário dentro da estética do modern creative. Em seu álbum Bird with Streams (2021), por exemplo, Irabagon registra seu sax tenor em plena Black Hills (região montanhosa da Dakota do Sul) para revisitar o mestre Charlie Parker, conectando suas inflexões do intrincado fraseado bebop com a plena liberdade das suas criativas técnicas estendidas. Já em Raw Dog (2026), Irabagon se debruça sobre composições de Anthony Braxton tais como "Composition 40M" e "Composition 23M", dessa vez explorando o saxofone baixo, dialogando diretamente com a radicalidade do mestre do free jazz que partiu das inovações empreendidas pela AACM para criar seu próprio universo de composições conceituais. Paralelamente, em seus álbuns autorais lançados em seu próprio selo Irabbagast Records, Jon Irabagon segue lançando uma sequência hiper criaiva com as mais inventivas ideias, indo de fraseados angulares ao encaixe de eletroacústica e técnicas estendidas dentro das suas composições estruturadas. Nascido em Chicago em 1978, e sendo de origem filipino-americana, Irabagon teve formações pelas DePaul University, Manhattan School of Music e Juilliard, e teve seu início de carreira marcado com o fato de ter sido vencedor da Thelonious Monk International Competition, em 2008. Não demoraria muito para o jovem saxofonista estar metido no centro das atenções da nova geração do modern creative —— a começar pela sua participação como membro fixo da impressionante banda Mostly Other People Do the Killing, uma banda que mistura avant-garde com paródias —— e para ele também ser considerado pela DownBeat um dos importantes "rising stars" nas categorias do sax alto e do sax tenor, sendo considerado um dos músicos mais importantes para o futuro do jazz. De lá para cá, Irabagon se firmou como voz central da geração inovadora atual por meio de seus projetos autorais e de colaborações com importantes músicos e compositores tais como Mary Halvorson, Dave Douglas, Matt Mitchell e Peter Evans, sendo celebrado pela crítica especializada por sua ousadia composicional, pela sua amplitude técnica, por seu humor e suas paródias e por seus fraseados, improvisos e composições inovadoras. E agora, em 2026, ele acaba de ser agraciado como um dos músicos do jazz a receber o Guggenheim Fellowships, uma das mais importantes honrarias e bolsas de incentivo dadas para músicos inovadores. Abaixo, teremos uma overview mais completa sobre esse genial saxofonista e compositor através dos seus álbuns lançados pelo selo Irabbagast, incluindo seus últimos lançamentos!!! Ouça-os!!!
 
Além dos prêmios, das honrarias e de sua presença marcante entre os jovens inovadores do jazz contemporâneo, uma das realizações mais importantes da carreira de Jon Irabagon foi ele ter fundado seu próprio selo, o Irabbagast Records. Assim, Irabagon encontrou o espaço fundamental para mostrar toda a extensão de suas técnicas estendidas e radicalizar sua busca por inovação, libertando-se das amarras comerciais, realizando as mais variadas e divertidas misturas estilísticas e explorando os limites de seus muitos instrumentos de palheta. É interessante notar que, em boa parte da amplitude dessas misturas, o saxofonista faz uso da paródia e de certos traços humorísticos, em uma busca constante pelo inusitado, pelo humor e pelo exótico. Esse humor já se manifesta de maneira explícita em Foxy (2010), lançado pela Hot Cup, uma paródia sobre o clássico álbum do colossal saxtenorista Sonny Rollins Way Out West (1957), cuja própria capa recria a estética western do álbum original, mas substitui Rollins por uma modelo em traje de banho, enquanto o próprio Irabagon aparece no verso vestido de cowboy e faz uma provocação com um trocadilho baseado em "Doxy", composição de Rollins. Para além do uso da paródia e do gosto pelo humor, Jon Irabagon também busca constantemente novas sonoridades, novas ambiências e arranjos exóticos. Em sua discografia, principalmente nos álbuns lançados pelo Irabbagast, o saxofonista não raramente grava em locais inusitados tais como mausoléus, montanhas, florestas e galpões, para explorar novas ressonâncias e ambiências. Já no álbum I Don't Hear Nothin' but the Blues Volume 2: Appalachian Haze (2012), Jon Irabagon se junta ao baterista Mike Pride e ao guitarrista Mick Barr, associado ao heavy metal e ao rock experimental, para partir da convencional influência do blues em direção a uma torrencial improvisação de quase 48 minutos, combinando free jazz, ruído e heavy metal em uma densa massa sonora abstrata. Já em Outright! Unhinged, o saxofonista amplia seu quinteto para uma orquestra iconoclasta, com a qual mistura elementos de post-bop, free jazz, avant-garde e atonalidades, ao mesmo tempo em que se inspira na tradição de Charlie Parker e brinca com a própria história do saxofone por meio de peças com títulos como "Charles Barkley", "Kremzeek!", "Parker Posey" e "Silent Smile (Urban Love Song)". Não obstante, Irabagon escala o tecladista Jacob Sacks para acrescentar a seu caleidoscópio orquestral um arsenal de teclas que inclui piano, órgãos, electric harpsichord, clavinet e Fender Rhodes. O uso da eletrônica, aliás, é uma das suas predileções criativas.
   

Outro exemplo é o humorístico álbum Dr. Quixotic's Traveling Exotics (2018): nesse registro, ele se remete à poética do circo e captura em sons as imagens de um show de horrores circense, combinando procedimentos criativos do m-base, composição estruturada, post-bop, métricas irregulares e improvisação livre. Já em Invisible Horizon (2019), aproxima seu saxofone da música de câmara ao lado do Mivos Quartet e de Matt Mitchell, naquela que foi uma das suas primeiras incursões registradas no âmbito da música erudita. Segue-se o incrível álbum Survivalism (2024), no qual Irabagon explora sozinho seus saxofones em uma sequência de amostragens de técnicas estendidas, inclusive abordando novamente o soprillo, o menor e mais agudo dos saxofones. O álbum foi gravado, entre outros espaços, na região montanhosa de Black Hills e em antigos bunkers militares abandonados, e apresenta uma crítica ambiental à caça e ao desmatamento, fazendo uso de chamados de caça (game calls) e explorando ruídos saxofônicos, uivos, gritos, reverberações e ambiências naturais como elementos alusivos à natureza, aos pássaros e a outros animais. Outro exemplo que mistura ousadia e tons humorísticos é o álbum Recharge the Blade (2024), no qual Irabagon assume o saxofone soprano e reúne duas formações: uma banda com Ray Anderson, Matt Mitchell, Chris Lightcap e Dan Weiss, com Ben Monder na guitarra, e outra com mais de uma centena de músicos participando remotamente: o álbum brinca com o pastiche do pop, explora temáticas de violência, fantasia e humor e traz Irabagon imitando deliberadamente o saxofonista pop Kenny G para, em seguida, transformar essa imitação em um caleidoscópio de improvisações abstratas —— uma paródia que, afinal, tem o intuito de explorar toda a sua destreza no sax soprano. Ademais, a variedade com que Irabagon domina diversos instrumentos de palheta —— saxes soprano, alto, tenor, baixo, sopranino, soprillo, diversos clarinetes etc. —— também acaba sendo uma das facetas principais de sua carreira. No álbum Blue Hour, por exemplo, ele aparece ao lado do pianista e tecladista Brian Marsella, utilizando saxes mezzo-soprano, tenor e sopranino, enquanto Marsella combina piano, Yamaha CS-60, órgão Korg BX-3 e sintetizador eletrônico Ritm-2, produzindo uma música que a crítica descreveu como uma viagem ao desconhecido, com uivos, gritos, ataques e mudanças repentinas de direção, mas também com estruturas improvisatórias excêntricas e lúdicas. Assim como Wayne Shorter que era fascinado por histórias em quadrinhos e pelo ludismo dos sonhos e fantasias, Irabagon também demonstra, ao seu modo, suas próprias afinidades com um imaginário cheio de brincadeiras com os pastiches da cultura pop, e com os quadrinhos e  cartoons, recorrendo a personagens, histórias e temáticas de faroeste, e levando esses elementos para a paródia, para o humor e para o exotismo como uma extensão da sua própria linguagem visual e sonora.


Irabagon em novas inspirações: kulitang filipino, inteligência artificial, ilusões ópticas e música erudita contemporânea
 

Em meados dos anos 90, já existia certo temor diante dos avanços da computação, de que as máquinas não apenas substituiriam os seres humanos, como também poderiam escravizá-los. Isso se traduz, por exemplo, na sequência dos filmes Matrix, escritos e dirigidos entre fins dos anos 90 e início dos anos 2000 pelas cineastas transgêneras Lana e Lilly Wachowski, que, na época, eram creditadas como os "irmãos" Larry e Andy Wachowski. A partir dos anos 2000, a ciência da computação evoluiu progressivamente em duas frentes complementares: de um lado, a redução do tamanho físico dos dispositivos de hardware e, de outro, o aumento da capacidade de processamento e armazenamento de dados por meio de softwares e infraestruturas cada vez mais sofisticados. Seguiram-se, então, a expansão da Internet das Coisas (IoT), o desenvolvimento da computação em nuvem para armazenar e gerenciar grandes volumes de dados, a expansão do fenômeno do Big Data e, mais recentemente, o avanço da Inteligência Artificial (IA), capaz de gerar previsões, automatizações e sistemas de decisão cada vez mais sofisticados. Nesse processo, atividades humanas nas mais variadas áreas foram progressivamente substituídas por aplicativos, plataformas digitais e por sistemas de inteligência artificial. Para processar essa enorme quantidade de dados, as big techs e os governos investem bilhões nos chamados data centers, enormes centros de processamento de dados que demandam grandes quantidades de energia e água e que vêm sendo associados a preocupações crescentes com os limites das matrizes energéticas e os limites hídricos dos países ao redor do mundo. É daí que surge a ideia deste álbum, Server Farm, de Jon Irabagon. O álbum apresenta uma obra conceitual que explora as relações entre humanidade, natureza, tecnologia e inteligência artificial em uma narrativa musical progressivamente densa e híbrida, captando os conflitos e hibridismos entre sons orgânicos e eletrônicos para explorar musicalmente a relação entre homem e máquina. O próprio título já sugere esse hibridismo ao utilizar um termo orgânico —— "farm" —— junto ao um termo cibernético —— "server" ——, referindo-se aos enormes data centers e complexos de servidores destinado a sustentar o universo digital. Para compor e estruturar peças que aludissem à inteligência artificial e ao mundo cibernético, Irabagon teve a ideia de criar uma espécie de "processamento de dados" interativo: durante 10 meses ele ouviu e estudou as discografias e trejeitos criativos de seus músicos convidados para, assim, incorporar características de suas linguagens pessoais às composições, sempre deixando espaço para a improvisação, técnicas estendidas e a contribuição individual. Esse procedimento produz, enfim, uma tensão constante entre composição e espontaneidade, entre sons orgânicos e sons eletrônicos, entre o humano e o digital.


 
★★★★ - Jon Irabagon - Server Farm (Irabbagast Records, 2025)

Para tanto, Jon Irabagon —— a cargo dos saxofones, composições e efeitos eletrônicos —— forma um expansivo ensemble de dez músicos criativos, praticamente organizado como uma variação de dois quintetos: reunindo seu quarteto habitual —— com Matt Mitchell (piano, Fender Rhodes, Prophet-6), Chris Lightcap (baixo elétrico) e Dan Weiss (bateria) —— mais as participações de Mazz Swift (violino e voz), Peter Evans (trompete e flugelhorn), Miles Okazaki (guitarra), Wendy Eisenberg (guitarra), Michael Formanek (contrabaixo) e Levy Lorenzo (kulintang, laptop, eletrônica e vibrafone). A set list é preenchida por cinco extensas composições: "Colocation" (13:03), "Routers" (7:07), "Singularities" (14:04), "Graceful Exit" (9:41) e "Spy" (15:05). "Colocation", como o próprio título denota, remete ao universo das server farms, dos grandes data centers que alugam espaços, banda larga e infraestruturas com muita disposição de energia e resfriamento para manterem enormes quantidades de dados: a peça começa com o kulintang de Levy Lorenzo, instrumento tradicional formado por gongos afinados e ligado às raízes filipinas, e desenvolve-se a partir dos oito tons característicos desse estilo de música tradicional filipina, enquanto um groove marcante formado pelo contrabaixo de Chris Lightcap e pela bateria de Dan Weiss pavimentam certo desenvolvimento melódico a ser emitido pelos sopros e, mais adiante, os guitarristas Miles Okazaki e Wendy Eisenberg e outros músicos do ensemble adicionam novas camadas, efeitos eletrônicos e cacofonias, numa alusão entre o conflito orgânico e o cibernético. As guitarras inclusive, acrescentam tons de psicodelia que se hibridizam muito bem com os eletrônicos. Já a peça "Routers" trabalha inicialmente com a interpolação e contraponto rítmico de técnicas estendidas, improvisos e efeitos, permitindo logo adiante que os músicos construam progressivamente uma massa sonora em torno de elementos melódicos e harmônicos sebrepostos. Já a terceira peça, "Singularities", representa o ponto central do encontro e do conflito entre o humano e a inteligência cibernética, entre o orgânico e o eletrônico: a peça começa com linhas angulares em uníssono sendo executadas pelo ensemble, e, aproximadamente em pontos entremeados da composição urge certa cacofonia desordem freejazzística até que os solos bluesy de saxofone tenor de Irabagon surge contrapondo os improvisos de Peter Evans, até ambos serem novamente mergulhados em meio ao caos da improvisação coletiva. "Graceful Exit" introduz uma atmosfera mais contemplativa, com um improviso livre sombrio emitido pelo contrabaixo acústico de Michael Formanek sendo tocado com arco, desenvolvendo-se em seguida uma espécie de balada misteriosa e lírica até que essa beleza acústica seja progressivamente invadida por acordes graves e sombrias interferências eletrônicas, criando justamente o contraste entre o humano e o artificial cibernético. Irabagon explicou que pretendia preservar a "beleza" mesmo diante da sensação de destruição iminente. Finalmente, "Spy", a composição mais longa e que finaliza o álbum, leva o conceito ao estágio da paranoia: em meio a extratos e sons chapiscados através de técnicas estendidas e eletroacústica, ouve-se a voz de Mazz Swift cantando um texto escrito e processado eletronicamente, no qual uma abelha com uma câmera surge como um drone de vigilância, enquanto os vocais, o sopranino de Irabagon, os efeitos eletrônicos, a guitarra, os metais e as texturas fragmentadas criam uma paisagem na qual a distinção entre natureza e máquina já praticamente desaparece. Assim, em Server Farm, Irabagon transforma dados coletados, composição, improvisação, polirritmias, fragmentação de motivos, processamento eletrônico, sobreposição de timbres, interpolações e interações entre os dez músicos em uma metáfora do conflito e hibridização entre o humano e a inteligência artificial, entre o vírus cibernético e a humanidade, conduzindo o ouvinte para um hibridismo que conjuga a ancestralidade humana dos gongos do kulintang filipino e das instrumentações acústicas com o universo digital e eletroacústico. Um dos álbuns mais criativos de 2025!!!


   
★★★★ - Jon Irabagon - Focus Out (Irabbagast Records, 2026)
 
Aqui Jon Irabagon já apresenta a formação central com seu quarteto habitual com Matt Mitchell no piano e Fender Rhodes, Chris Lightcap no baixo elétrico e Dan Weiss na bateria, com participações potuais de Kokayi (voz), Dave Ballou (trompete), Miles Okazaki (guitarra), Donny McCaslin (saxofone tenor) e Mark Shim (saxofone tenor). Trata-se, também, do retorno de Irabagon ao saxofone alto após ele ter explorado o tenor e o soprano em trabalhos anteriores. O repertório reúne cinco composições próprias de Irabagon e duas em parceria com o vocalista Kokayi: "Paper Planes" e "Indigo Stains". Gravado em 30 de abril de 2022, o álbum é inspirado na experiência pessoal de Irabagon ao conciliar criação musical e a vida familiar sob a condição de paternidade, além de também trazer inspiração da sua fascinação pelas ilusões ópticas do psicólogo japonês Akiyoshi Kitaoka, cujas figuras chamadas "RNA Fragments 2" e "Out of Focus" foram exibidas nos shows de apresentação das peças e funcionam praticamente como extensão da música: o saxofonista usa, então, essas figuras estáticas que produzem sensação de movimento, deslocamento e instabilidade, traduzindo-as em escritas musicais na quais as métricas ímpares, acentuações, linhas melódicas e relações entre os instrumentos parecem constantemente escorregar de posição, fazendo do próprio ato de ouvir uma espécie de experiência perceptiva. A ideia é particularmente evidente na faixa-título, "Focus Out" (9:15), cujo groove assimétrico e mudanças métricas criam uma sensação de instabilidade. O álbum inicia com "Morning Star" (2:53) cujo sax alto, Rhodes e bateria protagonizam um desenvolviento inquieto e frenético de frases angulares que lembram a "sheet of sounds" de John Coltrane, com o motivo melódico sendo posteriormente retomado em "Evening Star" (10:01), que utiliza a mesma melodia, mas a transforma em uma peça de maior escala, inspirada explicitamente por Ascension, de Trane: aí temos, então, a entrada do trompete de Ballou, da guitarra de Okazaki e dos saxofones de McCaslin e Shim formando uma frente ampliada de metais e massa sonora. Irabagon explicou à JazzTimes que desejava ouvir essa melodia em uma faixa "à maneira de Ascension", justamente para explorar como a mesma ideia poderia ser simultaneamente reconhecível e profundamente desequilibrada em outro contexto instrumental. Já as peças "Paper Planes" (4:48) e "Indigo Stains" (9:18) contam com a atuação do músico Kokayi, cuja participação acrescenta uma dimensão vocal ligada ao hip-hop, spoken word e improvisação livre, trazendo certos ecos de influência dos procedimentos critivos do m-base de Steve Coleman. Segue-se "Prayer (for Reomi)" (4:31), um lamento que reduz drasticamente a densidade do conjunto e funciona como o momento mais meditativo do álbum, explorando o diálogo entre Irabagon e Mitchell, assim sendo um contraste em relação as peças mais frenéticas do álbum. E por fim, temos "Center Post" (5:27), uma peça mais ao estilo do post-bop/ neo-bop que aparece como faixa final e é identificada na edição do álbum física como faixa bônus, completando o repertório.


 
★★★★ - Jon Irabagon - WINDS (Irabbagast Records, 2026)

Esse é o segundo álbum de Jon Irabagon totalmente dedicado à linguagem erudita. Uma das suas primeiras incursões documentadas com escrita de caráter propriamente dentro do campo da música erudita contemporânea foi no álbum Invisible Horizon, projeto lançado em 2019 pela Irabbagast Records, onde o saxofonista e seus músicos convidados se juntam ao Mivos Quartet para dar vida a três extensas e expansivas peças. E agora em WINDS, lançado em 10 de agosto de 2026 também através do seu selo Irabbagast Records, Jon Irabagon continua a expandir-se na seara erudita com este registro acima de 79 minutos, nos apresentando duas obras extensas e independentes: a primeira, Méta-Harmonie, que é um quinteto de sopros em quatro movimento; e a segunda, Orbit, é um quinteto de saxofones em três movimentos —— "Orbit Part 1 - A Look" (15:07), "Orbit Part 2 - A Story" (12:30) e "Orbit Part 3 - Charisma" (14:23). O conceito de WINDS nasce, sobretudo, da oposição entre o mecanismo físico dos instrumentos de sopro e o sistema respiratório dos intérpretes: Irabagon afirma que, durante o processo de composição, esteve interessado na justaposição entre "the mechanical systems of the instruments" e "the respiratory systems of the performers", pensando no encontro entre o industrial/mecânico e a capacidade e necessidade humana de sopro e expressão. Dessa maneira, o próprio título "WINDS" pode ser entendido simultaneamente tando como referência à família dos instrumentos de sopro como em referência ao sopro, ao fluxo de ar indispensável para a exploração dos mesmos. A peça Méta-Harmonie foi concebida a partir de uma experiência de 2018, quando Irabagon integrava a banda/projeto 3dom Factor do baterista Barry Altschul e, durante uma turnê de verão, o grupo improvisou no Museum Tinguely, em Basel, Suíça, inspirando-se nas esculturas sonoras cinéticas Méta-Harmonie, de Jean Tinguely: interessante que há alternância entre passagens tecnicamente exigentes de intenso contraponto e trechos mais serenos, líricos e lineares, todos concebidos justamente para refletir ante ao caos cinético característicos das máquinas de Tinguely. A formação dessa primeira peça é um quinteto tradicional de sopros, com Roberta Michel (flauta), Katie Scheele (oboé), Joshua Rubin (clarinete), Nicolee Kuester (trompa francesa) e Sara Schoenbeck (fagote), com a escrita explorando a bela combinação timbrística desses cinco instrumentos acústicos e exigindo dos intérpretes uma justaposição entre precisão camerística, contraponto e flexibilidade. Segue-se a segunda peça do álbum, Orbit, que é centrada na formação de quinteto de saxofones e foi composta por Irabagon como uma espécie de diálogo com a linguagem e o gigantesco legado composicional de Anthony Braxton. A peça Orbit foi originalmente encomendada pelo 30º Music Biennale Zagreb e estreada em 10 de abril de 2019, com Irabagon explorando o raro saxofone mezzo-soprano ao lado do Zagreb Saxophone Quartet. Para a gravação do álbum, Irabagon atua com o sax mezzo-soprano e reúne quatro saxofonistas de primeira linha: Steve Wilson (saxofone soprano), John O'Gallagher (saxofone alto), Seamus Blake (saxofone tenor) e Carl Maraghi (saxofone barítono). Trata-se de uma peça para quinteto que é predominantemente composta, escrita em pauta, mas deixa espaços determinados para solos improvisados, combinando gestos mais foscos, espontâneos e atonais associados a Braxton com uma linguagem mais tonal e até momentos de forte caráter bluesístico, assim alternando entre motivos melódicos, emaranhados harmônicos e rítmicos e episódios de improvisação individual e coletiva. Ouçam!!!


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