Após um longo período de luta contra os vícios em drogas e bebida, John Coltrane seria uma força motriz de espiritualidade e inovação sem prescendentes. Apesar de já estar em cena desde fins dos anos de 1940, a carreira solo do saxofonista só foi deslanchar na segunda metade dos anos 50 através das suas aparições em discos de Miles Davis, Red Garland e Thelonious Monk. Mas, com muita espiritualidade e determinação, ele só precisaria de 10 anos para se tornar uma lenda. De 1957 até o ano de sua morte, em 1967, a carreira solo de Trane atravessou uma década em que seus discos extraordinários ajudaram a polir as estéticas do hard bop, post-bop, jazz modal, world jazz, spiritual jazz e avant-garde: discos como Blue Train (Blue Note, 1958), Giant Steps (Atlantic, 1960), Africa/Brass (Impulse!, 1961), A Love Supreme (Impulse!, 1965), Ascension (Impulse!, 1966) e Interstellar Space (Impulse!, 1967), entre outros, atravessam essas estéticas e são registros obrigatórios nas estantes de qualquer amante de jazz. Dentro destes estilos, suas harmonias modais e temáticas se nutriram de muito blues, gospel e cadências africanas, hindus, orientais e até hispânicas, assim criando uma aura harmônica inovadora que ainda hoje tentamos assimilar. E aqui neste post vamos celebrar sua obra, então, indicando 12 álbuns de tributo ao mestre. John Coltrane sempre foi assunto por aqui e, cá entre nós, não precisa que haja nenhum tipo de efeméride para que sua obra seja celebrada. Sem deixar de mencionar que, de tempos em tempos, as pepitas perdidas que surgem já são mais do que suficientes para mantê-lo sempre em alta. Mas também não deixaremos passar batida por aqui essa celebração em torno do seu centenário. Como aqui no blog já abordamos as fases e facetas do saxofonista em nossos podcasts e já resenhamos diversos dos seus álbuns inovadores, a intenção aqui neste post é celebrar a genialidade dessa lenda do jazz de uma outra forma: indicando uma lista de álbuns criativos e originais nos quais outras figuras geniais dessas últimas décadas prestam tributos ao Trane e/ou recriam seus temas inovadores. O critério é que, ao invés de indicar tributos e dedicatórias de músicos que viveram na mesma época e nos mesmos espaços de Trane —— de músicos como Alice Coltrane, McCoy Tyner, Elvin Jones, Pharoah Sanders e Archie Shapp ——, é mais interessante mostrar tributos e dedicatórias inflexionados por músicos contemporâneos, assim evidenciando o quanto a influência de Trane só cresceu. De fato, John Coltrane estabeleceu uma aura indelével em torno da sua vida e obra: sua espiritualidade, sua história de vida, seus rompantes criativos, seus improvisos complexos e suas inovadoras harmonias cíclicas são elementos indeléveis que tanto mantêm essa aura em torno do seu nome como também nutrem nossa contemporaneidade de mística e inspiração. Sim, a aura em torno de Coltrane chega aos patamares do místico! Não se trata de um misticismo especificamente religioso ou esotérico —— apesar de, em vida, o músico ter cultuado seu interesse por estudar filosofias, religiões, astrologia e esoterismo cósmico ——, mas se trata, sim, de um misticismo natural que pode explicar o porquê de sua obra envolver de uma forma tão acalentadora nossa contemporaneidade, o porquê de suas vibes harmônicas seduzirem tantos músicos de diferentes estilos, o porquê de seus improvisos e suas frases complexas energizarem tantos músicos inovadores ao longo das décadas e ainda hoje continuarem a soar tão contemporâneos. De fato, a obra de John Coltrane é tão influente que sua figura abrange desde a playlist do neófito desavisado que o escuta pela primeira vez numa dessas descaradas playlists ao estilo "Coltrane For Lovers" até estátuas, bustos, murais e póstumas consagrações em halls of fame —— e não é à toa que até uma igreja (um templo mesmo!) tenha sido erguida para louvar a espiritualidade instituída pelo músico, como é o caso da Saint John Will-I-Am Coltrane African Orthodox Church, localizada em San Francisco, Califórnia. Por aqui, contudo, deixamos que apenas sua música fale por si só! E que sua música continue nos nutrindo tanto no furor da sua livre criatividade quanto na paz e no deleite de uma simples e doce balada tocada num pacato domingo à tarde. Seguem abaixo alguns dos álbuns com tributos e releituras mais interessantes que alguns dos músicos mais criativos das últimas décadas nos trazem sobre a aura e os temas de John Coltrane. Clique nos álbuns para ouvi-los. Também deixarei à disposição uma playlist com várias releituras em que vários músicos, de estilos diversos, já aplicaram sobre os temas do mestre. Ouçam!

Carlos Santana & John McLaughlin - Love, Devotion, Surrender (Columbia Records, 1973)
Era o ano de 1973 e o funeral de John Coltrane, falecido em 17 de julho de 1967, ainda era uma imagem viva nas mentes dos músicos e da multidão de amigos, fãs e artistas que compareceram naquele 21 de julho na igreja St. Peter's Lutheran Church, em Manhattan: só para se ter uma ideia, Albert Ayler e Ornette Coleman tocaram no funeral e o evento de despedida do mestre foi amplamente noticiado pela mídia americana. Aqui, na época deste álbum, os tempos já eram outros e a estética predominante era o jazz-fusion munido de funk, rock, world music e um enviesamento hippie marcado por influências hindus e orientais e muita transcendência e psicodelia, onde o rock progressivo e suas guitarras elétricas já não deixavam muitos espaços para trompetes e saxofones tal como eles soavam nas formas de jazz acústico dos anos 50 e 60. A música e a aura de John Coltrane, contudo, se mostrava inesquecível. Em 1967, o guitarrista de rock Carlos Santana e o guitarrista de jazz-fusion John McLaughlin ainda eram jovens desconhecidos que caminhavam para a ascensão artística e nenhum dos dois havia visto Coltrane tocar ou encontrado a lenda do jazz. Contudo, a aura de Trane, que ainda ecoava nas mentes e corações de músicos da época, também os envolveu, e o que os dois guitarristas fazem neste álbum é trazer a espiritualidade de A Love Supreme para dentro da estética setentista do jazz-rock. Além de uma curta abordagem de A Love Supreme, eles também incluíram na set list uma meditação original escrita por John McLaughlin e o tema "Naima", outro standard obrigatório de Trane. A set list é completada por "The Life Divine", composição original de McLaughlin que retoma diretamente o universo espiritual de A Love Supreme, e pelo hino tradicional "Let Us Go Into the House of the Lord" (baseado no Salmo 122:1, "Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor"), uma canção sempre presente na tradição de hinos cristãos e no gospel norte-americano. Nas sessões de gravação, os guitarristas são acompanhados por músicos das suas respectivas bandas, Santana e Mahavishnu Orchestra.
Dave Liebman - Homage to John Coltrane (Owl Records, 1987)
Dotado de um moderno fraseado pós-coltraneano, Dave Liebman é um dos maiores e mais versáteis saxofonistas da história do jazz e sua carreira foi construída em torno de inúmeras fases e facetas em que ele transitou do jazz tradicional ao avant-garde, passando pelo jazz-fusion e misturas afins. Tendo visto John Coltrane tocar nos clubes de Nova York aos 15 anos e tendo participado de shows e gravações tocando ao lado de ninguém menos que Miles Davis —— lembrando que ele é um dos músicos presentes, por exemplo, no estupendo On The Corner (Columbia, 1972) ——, Liebman dá aqui um enfoque maior para o sax soprano e registra um tributo que traz um pouco da aura de Coltrane para as fronteiras entre o post-bop e o jazz-fusion. Interessante notar que aqui já estamos envolto de uma estética oitentista, onde um resgate contemporâneo do post-bop acústico se esbarrava com as novas ondas eletrônicas dos teclados e sintetizadores digitais. Gravado em Nova York em janeiro de 1987, no vigésimo aniversário da morte de Trane, o álbum é construído, entao, em duas metades distintas: a primeira, acústica, reúne Liebman (saxofone soprano), Jim McNeely (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Adam Nussbaum (bateria e percussão); a segunda mergulha no universo eletrônico do jazz-fusion, com Jim Beard nos sintetizadores, Mark Egan no baixo elétrico e Bob Moses na bateria e percussão, além do oboísta Caris Visentin. É justamente essa mudança de atmosfera que torna o disco particularmente interessante: listando 10 releituras de temas compostos por Coltrane, Liebman parte de "Crescent", "Love", "Joy/Selflessness" e "After the Rain" em uma abordagem essencialmente acústica e, a partir de "India", conduz a aura do mestre para uma paisagem mais "fusion". Como já dito, Liebman dá aqui enfoque total para sax soprano, instrumento o qual John Coltrane foi um dos responsáveis por popularizá-lo dentro dos meandros do jazz e da música improvisada.
Marilyn Crispell - For Coltrane (Leo Records, 1993)
Uma das improvisadoras mais interessantes do free jazz, Marilyn Crispell, inicialmente influenciada por Cecil Taylor, desenvolveu uma diretriz brilhante e cristalina de improvisação livre mais abstrata que acabou por desaguar até no universo desconhecido de Anthony Braxton, sem deixar de passar pela aura de John Coltrane e pelas ambiências contemporâneas empreendidas pela gravadora contemporânea alemã ECM Records. Nesse registro acima, gravado ao vivo em Londres em 1987 e lançado em 1993 pela Leo Records, ela traz a aura de Coltrane para o universo das 88 teclas através de um requintado tributo em piano solo. Trata-se de um tributo singular em que Marilyn Crispell transforma a influência que Coltrane exerce sobre ela em matéria-prima para seus belos abstracionismos pianístico. Embora o álbum inclua algumas composições de Trane, como "Dear Lord", "Lazy Bird", "Coltrane Time" e "After the Rain", não se trata de um álbum propriamente de "releituras", uma vez que a premissa da pianista é submeter esses temas a belas desconstruções e inflexões através de improvisos livres. E, aliás, o coração da obra está mesmo na peça em três partes chamada "Collages for Coltrane", peça livremente improvisada onde podemos sentir os ecos das harmonias modais coltraneanas numa aurora boreal de tons sobre tons e teclas sobre teclas. Nas notas do encarte do álbum, Crispell escreveu: "Eu estava ouvindo A Love Supreme uma noite e isso mudou minha vida. Decidi voltar à música e tive essa experiência mística onde senti a presença e a orientação do espírito de Coltrane na sala. Pedi a ajuda dele e sei que ele me deu porque eu podia senti-lo lá e porque logo depois tudo na minha vida foi repentinamente e fortemente na direção certa..." Além de grande tribulo, For Coltrane é um dos grandes registros de piano solo da história do jazz.
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Wynton Marsalis & Lincoln Center Jazz Orchestra - A Love Supreme (Palmetto Records, 2005)
Wynton Marsalis sempre foi um revisionista apaixonado, mas em tudo o que toca e reescreve há sempre sua genialidade e seu estilão próprio e ousado impactando mentes e ouvidos. Nos anos 90 e 2000, houve certa "coltranemania" generalizada e até a A Love Supreme, a peça mais sagrada de Trane, passou a ser um alvo dos revisionistas de plantão. Em 2004, seria a vez de Wynton Marsalis gravar sua versão de A Love Supreme. Apenas citando três exemplos: em 1992, o próprio Elvin Jones (baterista do Quarteto clássico de John Coltrane) gravou o álbum Tribute to John Coltrane "A Love Supreme" no clube Pit Inn, no Japão, tendo o próprio Wynton como sideman; já em 1999, Branford Marsalis e seu quarteto empreenderam sua releitura de A Love Supreme, registrada no DVD A Love Supreme Live in Amsterdam; enquanto, em 2000, David Murray também já havia lançado seu tributo a John Coltrane com seu Octeto. Até aí, tudo bem: eram apenas o baterista que fora sideman do próprio Trane e dois grandes saxofonistas contemporâneos empreendendo suas versões da peça mais sagrada de seu ídolo. Mas, dentre essas e outras releituras, a versão de Wynton foi a que gerou maior divisão de opiniões e polêmica. A ideia de Wynton de transcrever peças de Coltrane para o formato de orquestra de jazz, ou "big band", não era propriamente inédita. Em 1995, por exemplo, a bandleader Maria Schneider já havia feito isso com o intrincado tema "Giant Steps", em seu álbum Coming About. Mas transcrever A Love Supreme inteira —— a peça mais sagrada de Coltrane, gravada com seu clássico Quarteto —— para o formato de uma moderna big band ellingtoniana pareceu distópico e ousado demais para alguns críticos. Mas... reescrever uma peça que havia sido concebida e lançada para quarteto agora para uma big band, teria sido mesmo uma ousadia descabida? Não para Wynton, que já havia ganhado o Prêmio Pulitzer de Música justamente por escrever uma das peças orquestrais mais ousadas que o jazz já conhecera: seu fantástico oratório Blood on the Fields (Columbia, 1997). O próprio Wynton explicou que sua motivação estava justamente em investigar aquilo que poderia acontecer quando as ideias melódico-harmônicas de Coltrane fossem retiradas do contexto original do Quarteto e colocadas sob o novo contexto de uma formação orquestral. Para ele, grande parte das inovações de Coltrane não estava apenas naquilo que havia sido escrito, mas também na maneira como seu quarteto —— com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones —— transformava aquele material espiritual por meio da improvisação. Polêmicas à parte, o histórico já mostrava que o inflexível Wynton Marsalis dificilmente lançaria um trabalho que parecesse ingênuo ou mal arranjado —— e, com esta releitura, não foi diferente. Para reescrever A Love Supreme, Marsalis buscou inclusive interagir novamente com Elvin Jones, o emblemático baterista do quarteto de Coltrane que está na gravação original dos anos 60, procurando assim compreender melhor a arquitetura e o espírito da obra. O resultado é uma transformação expansiva de escala em termos de composição e de arranjo: os quatro movimentos —— "Acknowledgement", "Resolution", "Pursuance" e "Psalm" —— deixam de ser a experiência íntima de um quarteto para ganhar uma paleta orquestral ampla de metais, madeiras e seção rítmica, com as linhas de Coltrane sendo distribuídas, harmonizadas e passadas de instrumento para instrumento como numa aurora boreal de orquestrações. Com arranjos expansivos, solos impressionantes, estilo próprio e grande originalidade, Wynton Marsalis levou A Love Supreme para uma expansão orquestral jamais vista até então. Fantástico!

David Murray Octet - Octet plays Trane (Justin Time, 2000)
Aqui temos uma das releituras mais fantásticas e singulares do universo coltraneano. David Murray, inicialmente conhecido como um membro onipresente do fantástico World Saxophone Quartet, não é propriamente um dos sax-tenoristas de free jazz que, em termos de estilo, faz parte dos discípulos de Coltrane: ele optou por construir um estilo próprio onde influências do free jazz advindas de sax-tenoristas como Albert Ayler e Archie Shepp pudessem comungar com influências advindas de grandes colossos do sax tenor clássico, tais como Coleman Hawkins, Ben Webster e Paul Gonsalves, assim construindo um estilo que dialoga com o avant-garde mas, ao mesmo tempo, comunga com o bebop, com o soul, o funk e o blues de forma um tanto singular. Mas, como todos os sax-tenoristas que surgiram nos anos 60 e 70, David Murray sempre fez questão de mostrar que ele também foi tocado pela música de Coltrane. Não é à toa, por exemplo, que já em 1987, em gravação posteriormente lançada em 1988, Murray tenha participado do álbum Blues for Coltrane: A Tribute to John Coltrane, juntamente com o pianista McCoy Tyner e o baterista Elvin Jones Tyner (dois remanescentes do famoso quarteto sessentista de Trane), com o sax-tenorista Pharoah Sanders (outro dos discípulos do mestre), com o contrabaixista Cecil McBee e com o baterista Roy Haynes: por sua atuação neste álbum, inclusive, Murray recebeu o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz em 1988. Contudo, é neste projeto acima, do final dos anos 90, que David Murray imprimiu uma assinatura reconhecidamente mais singular para suas releituras de temas de John Coltrane, dessa vez com um octeto que tanto consegue soar como uma "mini big band" como também consegue soar como uma banda compacta em que seus membros se dialogam em contrapontos, arranjos inusitados e improvisações espontâneas. Aliás, não seria ingênuo dizer que David Murray se inspirou um tanto no projeto Africa/Brass, registrado por Coltrane nos anos 60. Lançado em 2000 pela canadense Justin Time, Octet Plays Trane reúne David Murray (sax tenor e clarinete baixo) com um octeto formado por D.D. Jackson (piano), Jaribu Shahid (baixo), Mark Johnson (bateria), Craig Harris (trombone), Rasul Siddik e Ravi Best (trompetes) e James Spaulding (sax alto e flauta). Gravado em 30 de abril e 1º de maio de 1999 no Sound On Sound Studios, em Nova York, o álbum percorre cinco composições de John Coltrane —— "Giant Steps", "Naima", "India", "Lazy Bird" e "A Love Supreme, Part 1: Acknowledgement" —— intercaladas por "The Crossing", composição autoral com levadas de funk que o próprio Murray escreveu para dialogar com o espírito de Trane. A premissa fundamental desse projeto de David Murray está justamente em não tentar reproduzir fielmente Coltrane, mas submetê-lo a inflexões, improvisos, sobreposições e contrapontos que vão de um certo world jazz até um determinado free-bop, ainda tendo espaço para o swing e levadas de funky. O interessante, aliás, é como Murray varia bem nos arranjos, inclusive submetendo o tema "India" a um toque tribal-indiano bem diferente através de uma cadência lenta que é mantida com uso de tabla pelo baterista Mark Johnson, o baixo sendo tocado com arco por Jaribu Shahid, com a flauta-baixo de Spaulding flutuando na superfície e com ele próprio encorpando o arranjo com clarone (clarinete baixo). São oito excelentes músicos desferindo contrapontos, bons solos e criando camadas e tons de Coltrane!!! Destaque, por exemplo, para a versão extensa de "Giant Steps" onde Murray transcreve e entrelaça as frases do improviso original de Coltrane com camadas de improvisos entre os músicos. Também há que se notar a influência dos arranjos do World Saxophone Quartet nos contrapontos. Muito Singular!!!

Charles Gayle, William Parker & Rashied Ali - Touchin' On Trane (FMP, 1993)
Aqui temos um tributo estupendo de Charles Gayle (1939-2023), um saxtenorista que impactou o universo do free jazz nas últimas décadas com sua fervorosidade gospel e com seu personagem Streets, um palhaço maltrapilho recém saído das ruas (em parte, essa fora a realidade do músico, diga-se de passagem). Neste registro Charles Gayle está com um trio poderoso com o contrabaixista William Parker e o baterista Rashied Ali e aqui sua homenagem a John Coltrane não se dá pelo repertório, mas se dá justamente através de improvisos livres que resgatam, de forma profundamente pessoal, ecos e rompantes do free jazz gritante e espiritual adotado por Coltrane em seus últimos trabalhos antes de falecer em 1967. Gravado ao vivo em Berlim, em 31 de outubro e 1º de novembro de 1991, durante o Total Music Meeting, e lançado pela alemã FMP em 1993, o álbum nos traz, então, uma longa seção de improvisação em cinco partes —— "Part A" (14:41), "Part B" (7:05), "Part C" (12:28), "Part D" (27:42) e "Part E" (4:48) —— onde os três músicos evocam o espírito de Trane para criar peças totalmente espontâneas, todas improvisadas coletivamente. E aqui temos todo o peso histórico advindo do fato de Rashied Ali ter sido o baterista que tocou com Coltrane em sua fase final, notadamente na obra-prima em sax-duo Interstellar Space, se somando, então, com as diretrizes de William Parker e Charles Gayle, que pertenciam à geração posterior que radicalizaria ainda mais o free jazz. Aqui também é preciso notar como o estilo profundamente denso e pessoal de Charles Gayle se aproxima de Trane justamente pelas vias da influência de Albert Ayler, que com seu sax tenor é cru, gritante e ríspido evocou a fervorosidade do gospel para se aproximar daquele free jazz espiritual com o qual Coltrane tanto abalou as estruturas do jazz entre os anos de 64 e 67.

Nels Cline & Gregg Bendian - Interstellar Space Revisted: The Music of John Coltrane (Atavistc, 1999)
Se nos anos 70 os guitarristas Carlos Santana e John McLaughlin empreenderam seu tributo e sua releitura de Coltrane através de roupagens que comungavam com o jazz-fusion e com o rock progressivo da época, no final dos anos 90 seria o guitarrista Nels Cline, que posteriormente seria membro da banda de rock alternativo Wilco, a atualizar e revisitar a aura de Coltrane dentro de um novo contexto. Na segunda metade dos anos 60, um dos assuntos mais estudados por Coltrane —— além de filosofias, religiões e novas sonoridades africanas, hindus e orientais —— era a cosmologia espacial, as novas descobertas da astronomia moderna. Daí surgiu sua inspiração para gravar Interstellar Space, álbum que ele registrou em 22 de fevereiro de 1967, praticamente numa única sessão, num único dia, uma semana após a sessão que produziu Stellar Regions: há, inclusive, citações e semelhanças entre os temas e peças gravadas nos álbuns Stellar Regions e Interstellar Space, registros nos quais Coltrane se inspira em nebulosas, estrelas e planetas para criar suas melodias modais e motívicas, abertas para o livre improviso. A proximidade entre as duas sessões é particularmente significativa porque "Venus", de Interstellar Space, apresenta a mesma melodia do tema-título de Stellar Regions, enquanto "Mars" também guarda relação melódica com "Iris". Além disso, Coltrane aqui surpreendeu por escalar apenas o baterista Rashied Ali e deixar de fora da sessão de gravação os outros músicos que, na época, o acompanhavam, praticamente introduzindo o duo de sax tenor e bateria como um combo recorrente dentro dos meandros do free jazz a partir de então. E é neste álbum acima que temos, então, uma atualização um tanto interessante, onde o guitarrista Nels Cline e o baterista Gregg Bendian têm a ideia de revisitar essa obra-prima através, também, de um duo de guitarra e bateria. Interstellar Space Revisited: The Music of John Coltrane, lançado em 1999 pela Atavistic, é, portanto, uma releitura integral de Interstellar Space, gravada por John Coltrane e Rashied Ali, na qual o guitarrista Nels Cline e o baterista e vibrafonista Gregg Bendian revisitam a obra-prima original e a atualizam dentro dos meandros da psicodelia contemporânea: ou seja, se a transcendência e a explosão da obra-prima original residem no free jazz do sax-tenor agudo e expressivo de Coltrane e na bateria compulsiva de Rashied Ali, aqui, neste álbum, essa transcendência é atualizada dentro do contexto de um novo frescor psicodélico produzido pela guitarra contemporânea de Nels Cline e de uma nova disposição polirrítmica e tímbrica, onde o baterista Gregg Bendian não aplica apenas frenéticas pulsações polirrítmicas, como também usa novas ambiências com vibrafone. Não se trata, portanto, de uma simples releitura, mas de uma reconstrução que percorre as cinco composições presentes no registro de 1967 —— "Mars", "Leo", "Venus", "Jupiter" e "Saturn" —— e ainda acrescenta o tema "Lonnie's Lament", também de Coltrane. A ideia central é transferir para a guitarra o papel melódico e expressivo que originalmente pertencia ao saxofone de Coltrane, mas sem tentar reproduzir suas frases, mostrando que a guitarra elétrica pode ser um instrumento de tanta amplitude tímbrica e expressividade quanto um saxofone. Para tanto, Nels Cline alterna torrentes de notas com distorções, microfonias, ruídos, ataques percussivos, efeitos de sustain e reverb e até efeitos eletrônicos, enquanto Bendian estabelece com a bateria um diálogo permanente de alta intensidade, polirritmia, pulsações frenéticas e explosões percussivas que atualizam, ao seu modo, toda a explosividade free-jazzística de Rashied Ali. A dupla, portanto, preserva a essência da interação aberta entre um instrumento melódico e a bateria que definia Interstellar Space, mas a reinterpreta a partir da estética da nova psicodelia do rock dos anos 90, sem deixar de trazer ecos de um certo jazz contemporâneo.

ROVA: Orkestrova - Electric Ascension (Atavistic, 2005)
O Orkestrova é um projeto de grande porte do Rova Saxophone Quartet, um quarteto de saxofones que expande sua formação original para um ensemble maior, praticamente uma "orquestra" de formação livre e aberta à experimentação. E Electric Ascension é, sem dúvida, o registro mais aclamado e importante da Orkestrova. O álbum foi lançado pela Atavistic em 2005, a partir de uma apresentação gravada ao vivo em 8 de fevereiro de 2003 para a KFJC, e talvez seja a releitura mais radical já realizada da grande peça Ascension, de John Coltrane, uma das obras fundamentais do free jazz no âmbito da livre improvisação coletiva. O que os membros do ROVA fazem é desmontar deliberadamente a instrumentação original e reconstruí-la com uma paleta elétrica, eletrônica e tímbrica tão ampla e expansiva quanto os caminhos da música improvisada contemporânea exigem. O projeto nasceu no contexto das comemorações dos 25 anos do ROVA e representou uma segunda abordagem do quarteto à obra de Coltrane, haja vista que, desde 1995, por ocasião dos 30 anos do LP Ascension, o ROVA já vinha realizando suas releituras da peça, na época em uma versão muito mais próxima da formação original. O fato é que os membros do ROVA foram agregando outros improvisadores e novas ideias pelo caminho, até expandir ao máximo as possibilidades de abordagem e experimentação em torno da peça. O que Jon Raskin e Larry Ochs fazem é reorganizar a obra em uma espécie de novo caos controlado, uma espécie de "composição aberta" ou "improvisação livre estruturada", preservando o princípio de alternância entre blocos coletivos, solos e diferentes combinações de músicos, criando, assim, combinações tímbricas das mais inusitadas. A orquestração é totalmente caótica, livre e distinta daquela da peça original. O ROVA substitui, por exemplo, os dois trompetes de Coltrane por dois violinos e elimina completamente o piano, incorporando guitarra elétrica, baixo elétrico, bateria, toca-discos, drum machines, sampler e outras instrumentações eletrônicas. Composta de uma única faixa, simplesmente intitulada "Ascension", a sessão de improvisação dura cerca de 64 minutos ininterruptos, durante os quais o núcleo do ROVA —— constituído por Bruce Ackley (sax soprano), Steve Adams (sax alto), Larry Ochs (sax tenor) e Jon Raskin (sax barítono) —— contracena com músicos como Nels Cline (guitarra elétrica), Fred Frith (baixo elétrico), Don Robinson (bateria), Chris Brown (eletrônica), Ikue Mori (drum machines e sampler), Otomo Yoshihide (toca-discos e eletrônica), Carla Kihlstedt (violino e efeitos) e Jenny Scheinman (violino). Impressionante!!!

Kenny Garrett - Pursuance: The Music of John Coltrane (Warner, 1996)
Kenny Garrett é um dos altoístas mais impressionantes da Geração Young Lions, a geração de jovens virtuoses que resgatou o jazz acústico com força total pelas vias de bebop e do post-bop sob uma nova perspectiva contemporânea entre os anos de 1980 e 90. E aqui, neste álbum acima, Garrett e seu quarteto aplicam releituras para vários standards escritos por John Coltrane, perfazendo uma trilha de temas históricos com os quais o mestre foi do bebop, passou pelo jazz modal, nutriu sua faceta mais "política", espiritual e contemplativa e desembarcou no post-bop do seu grande Quarteto com McCoy Tyner, Elvin Jones e Jimmy Garrison. Assim nasce Pursuance: The Music of John Coltrane, lançado pela Warner Bros. em 1996. O álbum foi gravado em Nova York no início daquele ano e é o sétimo álbum de estúdio do saxofonista. Em depoimentos e entrevistas, o próprio Garrett explicou posteriormente que o projeto surgiu por sugestão de seu empresário, Robin Burgess, quando não havia tempo suficiente para preparar o álbum autoral que ele pretendia fazer com o incrível guitarrista Pat Metheny, e que inicialmente considerou um desafio muito ousado tocar Coltrane no saxofone alto, instrumento mais ligado a Charlie Parker na linha evolutiva do jazz e, portanto, diferente do sax tenor associado a Trane. Mas aí é que está o segredo: se Parker foi o founding father do bebop, Coltrane foi o revolucionário que levou o fraseado bebop para um patamar de evolução nunca dantes imaginado! E essa linha evolutiva se conjuga muito bem na fluência e na contemporaneidade dos fraseados ligeiros de Kenny Garrett, com Pat Matheny também mostrando frases de descomunal fluência em sua guitarra. Da mesma forma, a "cozinha" aqui é um tanto diferente da sessão rítmica que foi protagonizada pelo clássico Quarteto seiscentista de Trane: Garrett é acompanhado por Pat Metheny na guitarra elétrica, Rodney Whitaker no contrabaixo e Brian Blade na bateria. A guitarra contemporânea de Metheny, inclusive, é um dos elementos que dão o tom singular do projeto —— lembrando que, de fins dos anos 70 a meados dos anos 90, Metheny foi a principal figura a dar novos tons de contemporaneidade para o jazz-fusion e o mainstream mais "crossover". O repertório foi escolhido pelos quatro músicos e conta-se que eles não tiveram muito tempo para elaborar novos arranjos, tendo que entrar no estúdio para gravar os temas praticamente no dia seguinte após a escolha dos mesmos. O resultado é tecnicamente um álbum espontâneo de 11 faixas e aproximadamente 65 minutos, no qual esses jovens músicos atualizam o universo de grandes temas de John Coltrane para a linguagem do neo-bop e do post-bop dos anos 90. A seleção percorre, como já denotado, temas que Coltrane escreveu na transição dos estilos bebop/hard-bop/jazz modal/post-bop e alcança até as suas composições de caráter mais contemplativo: começa com "Countdown" (3:42) e "Equinox" (7:38), passa pela africanista "Liberia" (7:33), pelas contemplativas baladas "Dear Lord" (5:53) e "Lonnie's Lament" (5:23), aborda "After the Rain" (7:21), "Like Sonny" (6:13) e "Pursuance" (6:05), inclui a politicamente engajada "Alabama" (6:10), que Coltrane a escreveu em resposta ao atentado à bomba na Igreja Batista da Rua 16 em 15 de setembro de 1963 —— um ataque da Ku Klux Klan em Birmingham, Alabama ——, e encerra com a complexidade modal de "Giant Steps" (3:23). O disco finaliza a viagem, enfim, com a autoral "Latifa" (5:47), composta por Garrett e seus sidemans para dialogar com o espírito coltraneano. "Pursuance", especificamente, corresponde à terceira parte da suíte espiritual A Love Supreme, enquanto "Like Sonny" é a homenagem de Coltrane ao saxofonista Sonny Rollins, mestre maior do bebop que muito influenciou Trane nos anos 50. Para além da abrangência na escolha do repertório, que perfaz boa parte da extraordinária trajetória dos 10 anos em que Coltrane revolucionou o jazz com seus temas e temáticas, a particularidade fundamental está justamente na diferença deste quarteto em relação ao quarteto clássico de Coltrane: em vez da combinação de saxofone, piano, contrabaixo e bateria, Garrett substitui o piano pela guitarra elétrica de Metheny, criando uma textura harmônica e tímbrica muito diferente, enquanto Whitaker fornece o baixo acústico e Blade uma bateria extremamente dinâmica, com toda a polirritmia e o dinamismo inerentes ao neo-bop e post-bop dos anos 90.
José James - Facing East: The Music of John Coltrane (2026)
Desde o início de sua carreira, o cantor José James sempre nutriu certo fascínio por John Coltrane e por todo o universo que gira em torno do spiritual jazz, sendo um dos poucos vocalistas de jazz a aplicar releituras cantadas sobre os temas instrumentais do mestre. Agora, em 2026, José celebra o centenário de John Coltrane lançando este revelador Facing East: The Music of John Coltrane, lançado oficialmente em 16 de janeiro de 2026, de forma independente no Bandcamp. O tento é, na verdade, o resgate de uma apresentação ao vivo realizada em 23 de setembro de 2009, na Ancienne Belgique, em Bruxelas, dentro de um projeto desenvolvido pelo cantor com o pianista belga Jef Neve para justamente celebrar a música de Coltrane na época. O álbum reúne José James (voz, sinos e loop station), Jef Neve (piano), Michael Campagna (saxofones tenor e soprano, flauta) e "Level" Neville Malcolm (contrabaixo), e a set list reúne sete faixas que fazem um elo entre John Coltrane e sua esposa Alice Coltrane, também uma das figuras transcendentais do spiritual jazz: são elas "Om", "Welcome", "Africa", "My Favorite Things", "Lush Life", "Paramahansa Lake" e "Psalm". Mais do que um simples tributo, o disco sintetiza, então, o fascínio que o cantor começou a desenvolver pelo universo dos Coltranes já na adolescência: James descobriu John Coltrane aos 17 anos e começou sua relação com a música do mestre justamente escrevendo letras para seus temas e solos, tratando suas linhas improvisadas como matéria-prima para a voz, convertendo frases saxofônicas em frases cantadas e usando as articulações e as acentuações em torno da linguagem moderna do mestre como matéria-prima para seus vocalises, sem deixar de salientar toda a aura harmônica que emana de seus temas. Foi assim que José James abordou "Equinox", registrado em seu fantástico The Dreamer (2008), e essa predileção se prolongou em outras incursões pelo universo coltraneano, incluindo "Lush Life", "My One and Only Love" e "It's Wonderful", trabalhadas em suas apresentações com McCoy Tyner, nas quais ambos relembram a parceria de John Coltrane com o cantor Johnny Hartman, sem deixar de mencionar sua releitura de "My Favorite Things", gravada em Merry Christmas from José James (2021), resgatando a icônica releitura que Coltrane fez da famosa canção de Rodgers e Hammerstein. Em Facing East, James mostra de forma mais expansiva, então, essa sua ousada faceta: o cantor praticamente emerge, então, sua voz para dentro da linguagem instrumental e improvisatória do mestre, utilizando vocalises, palavras sobre os solos e linhas improvisadas, vocalizações singulares, sobreposição de camadas, loop station, sinos e drones vocais para construir uma arquitetura sonora densa e meditativa. O repertório aproxima o Coltrane modal, espiritual e africanista de "Om", "Welcome", "Africa" e "Psalm" da dimensão cósmica de Alice Coltrane em "Paramahansa Lake", estabelecendo uma ponte entre a espiritualidade de A Love Supreme e a posterior cosmologia com a qual pianista e harpista expandiria sua transcendência musical já a partir do final dos anos 60 e anos 70 adentro. Coltrane vive!!!

Sapropelic Pycnic - A Love Supreme (No Index, 2016)
Sapropelic Pycnic é um projeto da artista experimental Ka Baird, especialista em aliar as técnicas estendidas vocais a microfonias, ruídos eletrônicos e as mais variadas experimentações. E em 2016 a artista lançou este seu A Love Supreme pelo selo independente No Index, de Chicago, como uma releitura experimental concebida para justamente homenagear os 50 anos da sagrada suite que John Coltrane escreveu em seu louvor ao amor e a Deus. O trabalho, de apenas três faixas e 28 minutos, desloca a suíte espiritual de Coltrane para um território de improvisação experimental, ruídos eletroacústicos e experimentação vocal, mostrando uma incomum aproximação da aura do mestre com os limites da noise music. Paralelamente, a artista também concebe outras peças que tentam dialogar com esse universo espiritual. Temperando suas experimentações com outros instrumentos, a artista também faz questão de incluir saxofone, flauta, violino, piano e sintetizadores, mostrando afiada musicalidade. O álbum começa com a autoral faixa "Elation Elegance Exaltation" (5:54), em que Baird utiliza voz e Taralie Peterson toca saxofone alto, enquanto a cantora vocaliza o poema que o próprio Coltrane escreveu e incluiu nas notas do seu histórico álbum A Love Supreme. Segue-se "He Wrote Meditations" (8:09), peça em que Baird utiliza piano, flauta e voz e usa as letras de Gil Scott-Heron em seu tributo a Coltrane, e chega à faixa-título "A Love Supreme" (13:59), na qual Baird combina voz e flauta com o violino, os teclados de Troy Schafer, o sintetizador modular de Andy Ortmann e o saxofone alto de Peterson. O conceito aqui, então, é basicamente trazer a dimensão espiritual de Coltrane para dentro de uma música mais experimental através da voz, do sopro, da eletrônica e da improvisação, preservando a ideia de transcendência que tanto fundamenta as buscas que o próprio Trane começou a buscar em sua época. Uma mostra de como a aura do mestre abrange até os confins da experimentação.
Lakecia Benjamin - Pursuance: The Coltranes (Ropeadope, 2020)
Dos tributos aqui mencionados, e dentre tantos outros que existem por aí, este da altoísta Lakecia Benjamin é um dos mais diversificados em termos estilísticos. Em Pursuance: The Coltranes, lançado pela Ropeadope em 2020, Lakecia empreende um ousado tributo que amplia deliberadamente o elo existente entre John Coltrane e Alice Coltrane, reunindo 13 faixas e um elenco de aproximadamente 40 músicos de diferentes gerações e estilos. Trazendo a aura dos Coltranes para uma contemporaneidade mais eclética, Lakecia trabalha os temas com elementos, tons, toques, traços e vibes de soul, funk, R&B, gospel, hip-hop, latin jazz e post-bop contemporâneo, mostrando o quanto a transcendência musical dos Coltranes se encaixa nos mais variados estilos. O repertório começa com "Liberia" (5:51), de John Coltrane, com Gary Bartz no alto e Lonnie Plaxico no contrabaixo. Segue-se "Prema" (6:02), de Alice, com flauta de Gamiel Lyons, piano de Surya Botofasina, cordas e Brandee Younger na harpa. "Central Park West" (4:28), de John, recebe aqui uma roupagem soul/funky/R&B com Jazzmeia Horn nos vocais e Chris Rob nos teclados, com o órgão e o scat transformndo o tema em uma releitura ainda mais contemporânea. Já "Walk With Me" (7:05), hino associado ao universo de Alice, traz toda a sonoridade única do violino de Regina Carter contracenando com Lakecia. O tema "Going Home" (6:37), igualmente ligado à dimensão espiritual de Alice, incorpora Brandee Younger na harpa, Marcus Strickland no clarinete baixo e uma seção de cordas, adquirindo certa majestade orquestral. O não tão conhecido "Syeeda's Song Flute" (6:36), de John, reúne Lakecia com Ron Carter no contrabaixo e Keyon Harrold no trompete, incluindo a bateria de Darrell Green, uma vibe mais atmosférica de Rhodes tocada por David Bryant e uma certa sobreposição entre sax alto e trompete. Já "Spiral" (5:43) coloca Lakecia Benjamin frente a frente com Steve Wilson em um duelo de saxes altos, impulsionado pela bateria de Marcus Gilmore e assumindo um acentuado impulso latino. Segue-se "Om Shanti" (5:28), de Alice, evocando passagens mais devocionais, com Georgia Anne Muldrow nos vocais, Meshell Ndegeocello no contrabaixo, Ricardo Ramos na guitarra e uma combinação de vozes, piano elétrico e bateria. Já "Alabama" (2:50), o tema mais político de John, recebe um tratamento diferenciado com os pianos de Sharp Radway e Bertha Hope e os contrabaixos de Reggie Workman e Lonnie Plaxico. Seguem-se partes da sagrada suíte A Love Supreme, singularmente trabalhadas com o canto de Dee Dee Bridgewater, o spoken word de Abiodun Oyewole (dos Last Poets) e o piano de Marc Cary. Por fim, temos os temas "Turiya and Ramakrishna" (7:50) e "Affinity" (7:11), ambos de Alice Coltrane, encerrando o álbum de forma transcendente e intensiva. E em todas as faixas o sax alto agudo e marcante de Lakecia permeia e é permeado pelos arranjos e harmonias de forma não menos que original. O projeto aborda, enfim, de forma expansivamente eclética toda a amplitude transcendental e as influências orientais que John e Alice proporcionaram ao mundo da música através de suas diferentes abordagens, que iam do gospel à música indiana, dos mantras e da dimensão mística à pregação do amor universal. A própria Lakecia Benjamin explicou que abordou o trabalho de maneira estilisticamente variada para mostrar que ambos escreviam a partir de diferentes concepções religiosas, mas partilhavam a ideia de que todas as religiões conduziam à mesma unidade espiritual. A escolha dos convidados também integra o conceito: o mestre contrabaixista Reggie Workman, que tocou com ambos os Coltranes, funcionou como co-produtor e mentor do projeto, enquanto nomes de diferentes gerações —— de Ron Carter, Gary Bartz e Regina Carter a Jazzmeia Horn, Brandee Younger, Marcus Strickland, Keyon Harrold, Dee Dee Bridgewater, Meshell Ndegeocello, Greg Osby e Marc Cary —— fornecem experiências e linguagens distintas. Lakecia Benjamin chegou a dividir seus convidados em três grupos geracionais de músicos, procurando fazer da própria formação do elenco uma representação da transmissão do legado coltraneano. Um projeto estupendo para ser ouvido com o máximo de atenção! Um exemplo do quanto aura musical dos Coltranes é universal e atemporal!!!
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