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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (09) 

 
★★★★ - Ulisses Owens Jr. - Kind of Grunge (Cellar Music Group, 2026)
Sem querer generalizar ou estereotipar, o grunge sempre me pareceu, ao menos numa primeira impressão, o tipo de rock feito para que jovens brancos desleixados e indignados dos anos 90 —— com suas camisas flaneladas em xadrez, cabelos despenteados e calças jeans surradas —— pudessem tocar violão e cantar suas canções no intervalo escolar ou tocar suas guitarras na garagem dos pais. Mas basta ouvir o álbum acima para perceber que esse estilo de música pode sugerir mais possibilidades do que essa primeira impressão faria supor. Aqui, pela enésima vez, temos um músico de jazz aplicando releituras sobre temas de pop-rock. Na verdade, a história mostra que vários dos standards clássicos do jazz advieram justamente de temas do cancioneiro pop: de cancionistas que fizeram sucesso na Broadway e em Hollywood nos anos 30, 40 e 50 —— tais como Oscar Hammerstein II, Jerome Kern e Richard Rodgers ——, passando pelos Beatles e Stevie Wonder e chegando, mais recentemente, às canções do Radiohead sendo reimaginadas pelo pianista Brad Mehldau. Só que aqui temos um projeto singular no quesito desse intercâmbio. Aqui, o baterista de jazz Ulysses Owens Jr., músico ligado ao range situado entre o straight-ahead e o post-bop contemporâneo, se lança, então, ao desafio de dar versões jazzísticas para temas do grunge rock, considerado o estilo mais marcante do rock alternativo dos anos 90, um estilo deveras distante da tradição do jazz. Esteticamente falando, o grunge foi um estilo dos anos 90 que condensou a psicodelia do heavy metal e a crueza do punk a partir de canções líricas e melancólicas em uma abordagem mais "despojada": foi um estilo de caráter juvenil que garantiu um novo frescor ao rock alternativo através de novas texturas, novas distorções e efeitos mais "rasgados" e com novas "arranhaduras", deixando de lado, por exemplo, aqueles solos rápidos, virtuosos e intermináveis de guitarra para centrar-se numa roupagem onde a textura —— o canto melódico e "rasgado" dos vocais, as novas eletrificações de guitarras cruas, os riffs curtos, e etc. —— se tornou mais importante do que o virtuosismo ou a complexidade harmônica. O frescor juvenil sintetizado por essas novas distorções e eletrificações frutificou-se, então, em um novo rock com linhas melódicas marcantes, mas com bases harmônicas relativamente simples, geralmente com riffs baseados em progressões de poucos graus, variações em torno de três acordes fundamentais ou power chords, além do uso de tríades suspensas sem terça menor ou maior. Nesse sentido, as canções do grunge parecem oferecer menos profundidade harmônica do que o standard tradicional, a balada de jazz ou canções de Stevie Wonder e Radiohead. Contudo, as canções das bandas de grunge marcaram uma época e trouxeram um frescor juvenil que ainda ecoa nas mentes dos jovens coroas nascidos nos anos 70, 80 e 90, muitos dos quais assíduos telespectadores que acompanharam essas bandas em videoclipes da MTV. Pois é daí que Ulysses Owens Jr. e seu grupo Generation Y empreendem o desafio. Parafraseando o título "Kind of Blue", do clássico álbum de Miles Davis, o baterista intitulou, então, esse seu álbum de Kind of Grunge, lançando-o agora, em agosto de 2026, pela Cellar Music Group. Abaixo, falo mais sobre o projeto!
 

O projeto foi concebido a partir de algumas experiências que Ulysses Owens Jr. teve no estúdio da plataforma canadense de ensino musical Drumeo, através da série For the First Time, onde os bateristas são desafiados a criar espontâneas passagens e improvisos para uma determinada canção sem ter ouvido previamente a gravação original. Foi nesse contexto que Ulysses Owens Jr. se deparou com canções como "Heart-Shaped Box" e "In Bloom", do Nirvana. Pois eis que a versão de "Heart-Shaped Box" apresentada pelo grupo tornou-se um fenômeno nas redes, com mais de 10 milhões de visualizações, repercussão que inspirou o baterista e sua banda a transformar o experimento em um projeto de maior escala. A proposta de Kind of Grunge consiste, então, em transformar esse repertório do grunge em jazz contemporâneo a partir de moods, tons, traços e toques renovados de straight-ahead, hard bop, post-bop, spiritual jazz, cool jazz, latin jazz e blues, preservando elementos melódicos reconhecíveis dos temas das canções originais, mas submetendo-os à interação, aos arranjos e à improvisação de uma banda de jazz, aqui, nesse caso, um sexteto. Ulysses Owens Jr. é acompanhado por Benny Benack III no trompete e vocal, Langston Hughes II no saxofone alto, Tyler Bullock no piano, Dan Wilson na guitarra e percussão e Thomas Milovac no contrabaixo acústico. O disco foi gravado em abril de 2026, nos Musora Studios, em Vancouver, e mantém como princípio criativo a premissa da espontaneidade que foi a marca registrada da série de desafios For the First Time, da Drumeo: apenas três das doze faixas receberam arranjos prévios, enquanto o restante do repertório foi essencialmente explorado e arranjado em tempo real, durante o próprio processo de gravação. Assim, o álbum funciona como um registro de descoberta coletiva, no qual experientes músicos de jazz recebem temas e canções com riffs simples característicos desse tipo de rock mais comercial para, em seguida, enriquecê-los com improvisos, harmonias mais sofisticadas e requintados arranjos jazzísticos. O repertório começa com "Touch Me I'm Sick", da banda Mudhoney, cuja melodia é deslocada para uma atmosfera de spiritual jazz; passa por "Even Flow", do Pearl Jam, tratada entre o cool e o latin jazz; chega a "Would?", do Alice in Chains, em uma leitura mais angular e dissonante; percorre "Disarm", do The Smashing Pumpkins, em uma das passagens mais contidas do álbum; e segue com "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana. Seguem-se releituras de temas de canções de Soundgarden, Stone Temple Pilots e Hole, além de uma releitura de "Where Did You Sleep Last Night", canção tradicional do bluesman Lead Belly, que recebeu de Kurt Cobain uma fresca versão no álbum MTV Unplugged (1994). Mais do que simples releituras, Kind of Grunge constitui um exercício instigante no qual Owens Jr. e o Generation Y evidenciam a capacidade que experientes músicos de jazz têm de aplicar novas relações harmônicas, rítmicas e tímbricas em temas de canções comerciais baseados em riffs curtos e progressões relativamente simples. Clique na imagem do álbum acima para ouvi-lo!

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Egberto Gismonti e a trupe do selo Carmo: da eletrônica aos sons indígenas, uma síntese experimental de brasilidade!!!


Estava lendo um interessante editorial do Selo Sesc, a ZUMBIDO —— publicação digital dedicada a explorar a música dentro do site ——, e me vi inspirado com a ideia de curtir mais imersivamente as obras-primas do catálogo do selo Carmo, empreendido nos anos de 1980 pelo grande compositor e multi-instrumentista Egberto Gismonti. A matéria, escrita pelo jornalista e pesquisador Piero Locatelli, destaca a trajetória de Egberto Gismonti frente ao selo e lista 18 títulos raros produzidos nessa fase em que o multi-instrumentista brasileiro —— influenciado por Manfred Eicher, pelas experiências que vivenciou na legendária gravadora alemã ECM Records e por buscas por independência criativa —— vinha de um aprofundamento em suas pesquisas tupiniquins e teve a iniciativa de investir na construção de um projeto fonográfico independente no Brasil. Minha ideia, então, é se debruçar sobre esses raros álbuns lançados pelo selo Carmo nos anos 80, assim assimilando esse cenário marginal onde Gismonti abriu seu estúdio e deu oportunidade para que uma trupe de músicos e compositores super originais gravasse obras mais experimentais e mais fora do senso comum. Na verdade, Gismonti e essa sua trupe de músicos estabeleceram, nessa fase, uma verdadeira síntese experimental de brasilidade. No estúdio ao qual ele chamou de "Porão", instalado em sua residência no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, Gismonti iniciou o empreendimento montando um equipamento em torno de um gravador vintage de quatro canais e começou a reunir uma verdadeira trupe de músicos criativos que lançou algumas das produções mais inventivas da MPB e da música instrumental brasileira. Essa empreitada estabeleceu um verdadeiro núcleo criativo ao entorno de Gismonti, tal como Hermeto Pascoal já vinha estabelecendo em sua casa no bairro Jabour, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro. Além de empreendedor e dono do negócio, Gismonti também assumia as funções de produtor, orientador musical e, frequentemente, instrumentista, acompanhando de perto a concepção, a gravação, os arranjos e a mixagem dos trabalhos, deixando a parte administrativa para sua esposa, a atriz e cantora Dulce Bressane. Atualmente, alguns desses títulos podem ser adquiridos via relançamentos por outros selos que obtiveram licença para reeditarem parte do material da Carmo, enquanto vários outros estão fora do catálogo em circulação, com os LPs originais atingindo preços altos que só os audiófilos e colecionadores têm coragem de se dispor a pagar. Interessante que, como muitas das facetas da própria obra de Egberto Gismonti, o empreendimento do selo Carmo está tão ligado à forma como ele amalgamou influências e experiências que coletou em suas digressões pelo mundo quanto pelo saudosismo e nostalgia de suas pesquisas individuais dentro do Brasil e de suas origens maternais e paternais. O nome do selo refere-se, por exemplo, à sua cidade natal, no interior do Rio de Janeiro, lembrando que ele também já havia lançado o emblemático álbum Carmo (EMI/Odeon, 1977), no qual faz uma ode à cidade e inclui músicas tiradas de seu seio familiar, tal como um hino composto para a cidade por seu tio Edgar e uma valsa de seu avô materno, Antônio Gismonti, chamada "Ruth". Esse histórico de experiências e nostalgias não apenas gerou uma poética em torno de Gismonti e suas obras-primas repletas de ludismos, como também se expandiu para se tornar uma obra que trouxe uma contribuição estética essencial ao desenvolvimento da música instrumental brasileira. E o selo Carmo é um repositório, uma ampliação experimental disso à medida que Gismonti dava oportunidade para outras mentes criativas.

 

Como dito, os encontros de Gismonti com o produtor Manfred Eicher, fundador da ECM Records —— a gravadora independente que revolucionou a música contemporânea mundial com sua estética distinta ——, foram inspiradores para o desenvolvimento de uma nova perspectiva sobre sua produção fonográfica. Os primeiros encontros, aliás, ocorreram na gravação de Dança das Cabeças, em 1976, fruto de um convite para que Gismonti gravasse ao lado do percussionista brasileiro Naná Vasconcelos: o disco unia o piano e o violão de oito cordas de Gismonti às percussões orgânicas e ancestrais de Naná, tornando-se um dos sucessos da ECM e uma obra seminal para a inserção da música instrumental brasileira dentro dos meandros da música contemporânea sob uma nova estética. Sempre prezando por formações enxutas e combinações instrumentais mais minimalistas, a ECM produziria em seguida um segundo álbum de Gismonti, o aclamado Sol do Meio Dia. Essa é uma fase na qual Egberto Gismonti começa a contracenar com alguns dos músicos mais criativos da cena internacional tais como o contrabaixista Charlie Haden, o percussionista Naná Vasconcelos, o multi-instrumentista Ralph Towner, o citarista Collin Walcott, o saxofonista Jan Garbarek, entre vários outros. Era, também, uma fase em que Manfred Eicher estava prezando pelas sofisticadas gravações a solo —— a exemplo de como ele instigou o pianista Keith Jarrett a gravar o aclamado álbum Köln Concert, que fez fenomenal sucesso... ——, e Gismonti frequentemente relembra o nível de exigência do produtor no estúdio. Um dos episódios mais emblemáticos dessa parceria ocorreu em 1978, durante a gravação do seu álbum Solo na Noruega: após Gismonti finalizar as gravações do repertório planejado, Eicher pediu que ele voltasse ao estúdio para gravar tudo novamente, desafiando-o a buscar uma abordagem que o próprio músico ainda desconhecia, o que resultou num dos discos mais aclamados de sua trajetória. E o fato de ele, assim como Naná Vasconcelos, levar a música brasileira para os confins nórdicos e lá, na ECM, contracenar com músicos de outros lugares do mundo, foi algo que lhes abriu os olhos e ouvidos para a contemporaneidade da world music aliada à eletroacústica, ao jazz, à música experimental e à música contemporânea mais universal, como um todo. Aliado a isso, Gismonti também já relatou que uma das suas principais inspirações foi o contato que ele teve com os músicos associados ao movimento argentino chamado MIA, Músicos Independientes Associados, coletivo que abria suas memoráveis apresentações no Teatro Coliseo, em suas turnês na Argentina nos anos 70: ele ficou impressionado com a independência criativa do movimento em plena ditadura militar. Gismonti também buscava referências em outros selos independentes pioneiros no Brasil, tal como a histórica gravadora Forma, que lançou títulos singulares como Coisas (1965), de Moacir Santos, e Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, além de também se interessar por ideias, experimentos e iniciativas em torno de artistas e repertórios pouco contemplados pela indústria fonográfica. Essas experiências, ideias e iniciativas o influenciaram, enfim, a fundar seu próprio selo, o Carmo, no início dos anos de 1980. A partir daí, então, as produções da Carmo consolidaram-se como um dos empreendimentos independentes mais singulares da música instrumental brasileira, especialmente entre 1983 e 1987, período em que o selo lançou os citados 18 discos —— hoje, bolachões raros e cult, não por acaso... —— e reuniu uma verdadeira trupe de músicos criativos, dispostos a explorar caminhos menos óbvios, cruzamentos estéticos e procedimentos experimentais inexplorados dentro da música instrumental brasileira. Lembrando também que Gismonti frequentemente ainda fez uso do próprio selo para relançar algumas das suas gravações previamente publicadas pela EMI-Odeon, entre elas Árvore (1973), Circense (1980), Nó Caipira (1978), Academia de Danças (1974) e Trem Caipira (1985), títulos que integrariam o catálogo da Carmo num parceria para que a ECM gerisse a distribuição internacional a partir de 1991. Importante frisar, contudo, que, na construção da estética do selo Carmo, Gismonti até dará atenção para alguns dos elementos minimalistas praticados pela ECM, mas ele adotará, sobretudo, uma estética maximalista no sentido de misturar sons eletrônicos com sons da world music, percussão brasileira, MPB, sons indígenas e com os inúmeros sons e adereços da nossa afro-brasilidade, sempre prezando pelas ideias experimentais e singularidades dos músicos que eram convidados ao seu estúdio, quando não os instigando a buscar novos caminhos.
Alguns dos músicos que estiveram ao lado de Gismonti nesses anos em que ele se empreendeu frente ao selo Carmo relatam o quanto o músico era exigente na busca pela originalidade. As produções da Carmo passaram a reunir sobretudo artistas independentes da cena carioca e alguns dos mais criativos compositores, percussionistas, pianistas, violonistas, guitarristas, cantores e multi-instrumentistas da época, entre eles André Geraissati, Nando Carneiro, Marco Bosco, Piry Reis, Fernando Falcão, Luigi Irlandini, Carioca, Aleuda, William Senna, Antônio José, Mu Carvalho, incluindo participações das cantoras Beth Goulart, Tetê Espíndola, Selma Reis, Joyce Moreno e Marlui Miranda. Dulce Bressane, esposa de Gismonti, desempenhou papel ativo na produção executiva, enquanto o próprio Gismonti atuava diretamente nos trabalhos dos artistas, tocando, colaborando nos arranjos, nas orquestrações, nos experimentos e nas decisões de produção, com o propósito de estimular identidades musicais próprias. Sua rede de colaboradores também incluiu instrumentistas mais afamados tais como o próprio Hermeto Pascoal, o super baterista Robertinho Silva, o super saxofonista Mauro Senise, o pianista Luiz Eça, o percussionista Naná Vasconcelos,  o contrabaixista Luiz Alves, entre outros. Tal como Manfred Eicher, Gismonti exigia que os músicos buscassem arranjos inusitados, ideias originais e experimentos inéditos para, assim, criarem obras que passassem longe tanto do mainstream comumente disseminado pelos modelos de produção já dantes conhecidos como daquela coisa já manjada da experimentação pela experimentação. Com uma brasilidade maximalista, sua proposta era estabelecer um espaço de total liberdade de expressão musical, mas uma liberdade acompanhada de exigência, disciplina, rigor e uma concepção própria em que cada álbum emanasse as individualidades dos músicos. Quando ouvimos os discos dessas produções, vemos que, como já denotado, a ideia não era copiar a "estética ECM", mas se inspirar no modelo da gravadora alemã para criar um novo caminho de selo independente onde músicos brasileiros pudessem se inspirar naquela nova vanguarda internacional e para, a partir daí, gestar uma nova estética brasilianista de contemporaneidade. Em sua nova empreitada pela Carmo, Egberto explorou mais imersivamente, por exemplo, produções em que as sonoridades dos novos synths e instrumentos eletrônicos e digitais dos anos 70 e  80 começaram a ser amalgamadas com timbres, toques e traços de brasilidade, incluindo sons afros e indígenas. Ou seja, existia aí, então, uma aspiração por uma nova estética de antropofagia brasileira mais universal, uma linhagem de brasilidade universalista que comungava, inclusive, com o conceito de música universal de Hermeto Pascoal, ainda que a poética de Egberto Gismonti fosse mais formalista e mais centrada na fusão entre o erudito e o popular. A ECM, por sua vez, seguiria cada vez mais uma estética de música de vanguarda mais minimalista. Fundada em Munique em 1969, a gravadora de Manfred Eicher já era uma grife de referência mundial com sua nova estética de jazz contemporâneo, onde também a música improvisada e a música erudita contemporânea se aproximavam de outros procedimentos do avant-garde para criar uma sonoridade intimista, minimalista e espacialmente elaborada, valorizando o silêncio, a dinâmica, os timbres, a ambiência e a personalidade singular de cada músico e compositor: sua estética inovadora redefiniu o jazz e a música contemporânea por meio de uma abordagem que era, sim, experimental, mas que seguia uma estética de minimalismo de apurada concepção sonora, sem depender da cacofonia ou da eletrônica disruptiva para ser chamada de "vanguarda". Já a estética tupiniquim desenvolvida na Carmo revela uma amplitude na qual a diversidade reunida pelas pesquisas de Gismonti e seus parceiros se hibridizou para constituir não uma escola de sonoridade uniforme, mas para oferecer liberdade de criação a músicos brasileiros abertos à experimentação.



No período experimental do selo, de 1983 até 1987, as sessões privilegiaram misturas estruturadas em arranjos dos mais variados —— tanto com gravações no formato solo como em grupos pequenos, bem como ainda com grandes formações, grupos abertos e arranjos mais elaborados ——, priorizando misturas elaboradas de improvisos livres com procedimentos de composição erudita, estruturas modais abrasileiradas, ostinatos, uso não convencional do canto, construção coletiva de novas texturas, nossos batuques em novas polirritmias, além de experimentações tímbricas, novas combinações entre cordas, percussões e eletrônica e diversas referências à world music e às manifestações populares, afros e indígenas. Nesse sentido de fusões mais universalistas, a diferença entre a poética gismontiana e o conceito de "música universal" difundida por Hermeto Pascoal e os músicos do seu Grupo no Jabour é que Gismonti forjou-se através da formação acadêmica e adotou, portanto, um rigor e uma diretriz mais adeptos ao formalismo erudito, lembrando que, no início da sua carreira, ele teve como orientadores a lendária maestrina e compositora Nadia Boulanger e o compositor dodecafônico Jean Barraqué, em Paris. Seu clássico álbum Academia de Danças é um exemplo revolucionário dessas intersecções. E como já dito, tal como Hermeto que fez da sua casa no bairro Jabour, RJ, um espaço para encontros que formalizou uma nova música instrumental brasileira contemporânea, Gismonti também foi um gênio que, a partir do seu selo Carmo, fundou um verdadeiro núcleo aberto ao experimental. Gismonti aliás se cercou de mentes criativas que lhes daria suporte tanto quanto ocorreu nos momentos e movimentos mais criativos e revolucionários da música brasileira. Se, no Movimento Tropicalista, que teve seu auge de 1968 até o início dos anos 70, os cancionistas tiveram nos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia os verdadeiros mestres dos arranjos e orquestrações, nessa sua fase mais experimental, entre os anos 70 e 80, Gismonti teve as colaborações dos maestros Lindolfo Gaya e Benito Juarez, que estaria à frente da Orquestra Sinfônica de Campinas por 25 anos e foi um dos grandes responsáveis por romper as barreiras entre a música erudita e a popular no Brasil. Dessa forma, os processos criativos gismontianos valorizavam misturas estruturadas do jazz contemporâneo oitentista com avant-garde, brasilidades e música erudita moderna, prezando o diálogo entre os instrumentos, a liberdade rítmica, a improvisação à brasileira e a amálgama dos timbres de instrumentos acústicos com uma nova paleta instrumental que abrangia, agora, diversos teclados e sintetizadores digitais, articulando elementos acústicos e eletrônicos para criar camadas, contrastes, densidades e paisagens sonoras alusivas às nossas gêneses afros-indígenas. Aliás, outra das facetas que distingue as produções de Egberto e sua trupe das produções de outros movimentos e momentos da música instrumental e da MPB é a exploração de uma nova eletrônica, a eletrônica sintética oitentista. Similarmente ao processo experimental adotado por músicos do jazz fusion, tais como Miles Davis, Joe Zawinul e Chick Corea em seu período oitentista com a Elektric Band (fundada em 1986), Egberto Gismonti e sua trupe prezaram por experimentar o uso de uma parafernália de sintetizadores e eletrônicos digitais que incluía Prophet-5, Mini Moog e Korg Poly-6, os teclados Yamaha DX7 e Sequential Six-Trak, a guitarra sintetizada Roland GR-707, a bateria eletrônica Simmons SDS-8, o piano elétrico Yamaha CP-70, entre outros. Contudo, me arrisco a dizer que, nas mãos de Egberto e sua trupe, as sonoridades sintéticas dessa parafernália de novos eletrônicos se hibridizaram em sonoridades mais quentes, eruditas e orgânicas em relação as produções americanas e suas sonoridades sintéticas, principalmente através das inúmeras possibilidades de combinações tupiniquins nas misturas com os timbres dos instrumentos acústicos e sons alusivos à natureza e às matrizes sonoras afros-indígenas. As explorações eletrônicas e percussivas de Marco Bosco e Fernando Falcão, assim como as técnicas inovadoras de André Geraissati em seus violões com cordas de aço, bem como as explorações sonoras interdisciplinares de Nando Carneiro, Piry Reis e Luigi Irlandini, evidenciam a diversidade de misturas tupiniquins acolhidas pela gravadora sob uma nova diretriz estética. Segue abaixo resenhas para os títulos dessa fase de Gismonti e sua trupe no selo Carmo! Clique nos álbuns para ouví-los!

 
Álbuns de Egberto Gismonti licenciados pela Carmo, com distribuição internacional pela ECM Records.
Com uma imaginação criativa muito aberta ao lúdico, a obra de Egberto Gismonti caracteriza-se por uma ampla simbiose entre a canção e a música instrumental, entre o popular e o erudito, entre o jazz, o avant-garde, a world music e as sonoridades brasileiras, bem como entre a improvisação e a composição formalmente estruturada. Soma-se a esse universo sua predileção por temáticas indígenas, desenvolvida e aprofundada a partir das experiências vivenciadas junto aos povos indígenas do Alto Xingu, entre o final de 1976 e o início de 1977. Sua experiência com a gravadora alemã ECM ampliou ainda mais esse horizonte de fusões de estéticas, resultando em trabalhos fundamentais como Dança das Cabeças (1977), em parceria com Naná Vasconcelos, e Sol do Meio-Dia (1978), que inclui faixas relacionadas à sua experiência com a cultura indígena, além de álbuns gravados com Charlie Haden e Jan Garbarek, nos quais a improvisação, a exploração de timbres e o diálogo entre diferentes culturas musicais assumem papel central. Como vimos, seu senso de contemporaneidade, sua autonomia estética, a busca por liberdade criativa e o desejo de manter o controle sobre o próprio repertório levaram-no a criar, no início dos anos 1980, o selo Carmo, empreendimento por meio do qual o compositor também proporcionou a diversos cantores e instrumentistas originais a oportunidade de lançar trabalhos progressivos e experimentais. O selo serviu igualmente para recuperar, administrar, ampliar e difundir seu próprio catálogo, tanto no Brasil quanto no exterior. No início dos anos 1990, esse empreendimento permitiu que gravações de diferentes fases de sua trajetória voltassem a circular no mercado, agora em formato de CD, incluindo títulos originalmente lançados pela EMI-Odeon. Para alcançar um público maior, Gismonti firmou um acordo com Manfred Eicher para que a distribuição internacional desses títulos, dentre outros, fosse administrada pela ECM Records a partir de 1991. Entre esses trabalhos, destacam-se os relançamentos dos seguintes títulos: Árvore, originalmente lançado em LP em 1973; Academia de Danças, de 1974; Circense, de 1980; Kuarup, trilha sonora do filme homônimo dirigido por Ruy Guerra, lançado em 1989; Trem Caipira, gravado em setembro de 1985 e dedicado à música de Heitor Villa-Lobos; Nó Caipira, originalmente lançado em 1978; Amazônia, trilha sonora composta para o documentário Amazonia: Voices from the Rainforest (1991), dirigido por Monti Aguirre e Glenn Switkes e dedicado às vozes dos povos indígenas da Amazônia; e Alma, lançado em LP em 1986, com foco no piano solo e no emprego sutil e discreto de sintetizadores ao fundo, além da participação de Nando Carneiro. Reunidos, esses álbuns evidenciam diferentes facetas do universo musical de Egberto Gismonti, revelando a amplitude de sua pesquisa sonora, a integração entre matrizes populares e eruditas, a liberdade de experimentação e suas incursões pelos instrumentos eletrônicos, sintetizadores e teclados digitais nos anos 70 e 80.

 
André Geraissati - Entre duas Palavras (Carmo, 1983)
Sendo um universo muito saudosista em torno do choro e da música erudita, o universo violonístico ainda não valoriza tanto músicos inovadores e experimentais como o grande André Geraissati, um dos violonistas mais singulares da história da música brasileira. Como sabemos o universo violonístico deve muito a Egberto Gismonti e, nessa seara, André Geraissati foi um dos seus principais e mais inventivos parceiros. Sendo um dos primeiros títulos lançados pelo selo Carmo, o álbum Entre Duas Palavras é também um dos marcos iniciais da carreira solo de Geraissati, incrível compositor e instrumentista que levou o violão com cordas de aço para o universo da new age e explorou novas afinações e novas sonoridades com esse instrumento. Este álbum acima constitui-se, portanto, num dos mais importantes registros no quesito de enriquecer ainda mais o já rico universo violonístico brasileiro. Com produção dividida entre Gismonti, André Geraissati e Ary Rogério, e o repertório reúne cinco faixas: "Mágico", composição do próprio Gismonti; e quatro de André Geraissati, sendo elas "Entre Duas Palavras", "Lagoa Silenciosa", "Cedral/Corumbá" e "Imagem". Adotando o formato solo e formações minimalistas, André Geraissati aqui é acompanhado por Gismonti nos teclados, cello e também no violão em “Mágico” e Marcos Bosco na percussão. Aqui Geraissati já privilegia novas ressonâncias, contrastes, dinâmicas, espaços de silêncio e texturas contemplativas, em uma abordagem que aproxima a música instrumental brasileira de elementos do minimalismo, da ambient music e da new age.

 
Nando Carneiro - Violão (Carmo, 1983)
Aqui temos outro registro que leva o violão para o campo das novas interações e explorações tímbricas. Violão, LP lançado em 1983 por Nando Carneiro —— parceiro de Egberto em alguns dos seus álbuns, de André Geraissati no grupo Insight, de Trilok Gurtu no grupo The Glimpse e tendo colaborações com instrumentistas internacionais de renome tais como John McLaughlin e John Scofield, entre outros ——, traz uma concepção musical que combina violões acústicos, piano e voz com os sintetizadores, a percussão e a flauta, explorando o encontro entre elementos da canção e da música instrumental brasileira com muita experimentação tímbrica, texturas eletrônicas e atmosferas contemplativas combinadas com uso de drum machines e outros eletrônicos. O álbum apresenta oito faixas e um repertório integralmente autoral composto por Nando Carneiro, incluido a suite e faixa-título “Violão” composta em três movimentos intitulados “Espelho”, “Companheiro” e “João Gabriel”. Como ilustrado na capa do ábum, Nando Carneiro ainda recebe colaborações do próprio Egberto Gismonti, de André Geraissati, que participa com violão solo em “Juliana” e “As Gralhas” e Beth Goulart, que empresta sua voz na faixa “João Gabriel”. É um álbum que começa a incorporar a proposta que Gismonti instituiu no selo Carmo de abrir espaço para compositores e instrumentistas com propostas próprias e singulares de combinações de timbres e novas combinações instrumentais. Nesse sentido, este álbum articula e sintetiza o amplo vocabulário de Nando Carneiro, que vai, por exemplo, das suas experiência como violonista multifacetado forjado entre a música erudita, a MPB e o jazz-rock e sua experiência como integrante do grupo A Barca do Sol.

 
Nando Carneiro - Mantra Brasil (Carmo, 1985) 
Nando Carneiro (Fernando Ribeiro Carneiro) é um maestro, violonista, pianista, guitarrista e compositor brasileiro, nascido em Belo Horizonte em 26 de junho de 1953, e irmão do poeta e escritor Geraldo Carneiro. Fundador do grupo A Barca do Sol, parceiro recorrente de Egberto Gismonti e compositor de uma imaginação muito criativa,  Carneiro também foi um excelente compositor de trilhas para o cinema, incluindo a música do filme O Beijo da Mulher Aranha (1985), em parceria com John Neschling. E aqui neste álbum fantástico vemos o quão inventiva e criativa era sua imaginação composicional! Em Mantra Brasil, álbum totalmente autoral, Nando Carneiro ainda centra-se no violão mas amplia substancialmente sua paleta como multi-instrumentista e também acrescenta novos sintetizadores e teclados ao seu arsenal de possibilidades, ampliando ainda mais suas fusões articulando música instrumental brasileira, canção, experimentação eletrônica e elementos associados ao jazz-rock, à música progressiva e à estética new age. A obra dá continuidade à pesquisa iniciada em Violão (1983), mas amplia o universo sonoro por meio de arranjos ainda mais expansivos e imersos em texturas eletrônicas. A participação da sua esposa, a cantora e atriz Beth Goulart, responsável pelos vocais em seis faixas, também aproxima o repertório instrumental da forma canção, enquanto a flauta de David Gang acrescenta um tom ainda mais meditativo. Destaca-se, sobretudo, o uso de teclados e sintetizadores com as sonoridades sintéticas oitentistas mais próximas da estética new age, bem como também se destaca o uso de drum machines nas faixas "Emboscada" e "Topázio". Esse é um dos álbuns mais expansivos dos anos 80!

 
Luiz Eça - Luiz Eça (trio Triângulo) (Carmo, 1983)
Luiz Eça, um dos grandes pianistas da história da música brasileira e fundador do emblemático Tamba Trio —— um dos ases do samba-jazz nos anos 60, mas que continuou a se expandir em outros rumos dentro do range do brazilian jazz nas décadas posteriores ——, também foi outro que foi instigado por Egberto a lançar um trabalho mais experimental. O resultado, então, foi este álbum com um repertório que reúne sete faixas autorais em torno de um piano trio tão expansivo quanto original. Com um trio formado junto ao baterista e percussionista Robertinho Silva e o contrabaixista Luiz Alves —— um trio que na época de chamou Trio Triângulo ——, Luiz Eça explora seu piano acústico imerso numa brasilidade que também abraça texturas de sintetizadores, além de adentrar uma verve onde seu piano-trio flutua por estéticas e harmonias mais contemporâneas, rítmicas mais soltas e composições mais abertas ao livre improviso. Trata-se de um disco que pode ser ouvido como uma extensão da pesquisa que Eça já desenvolvia com o Tamba Trio. Mas aqui Luiz Eça eleva seu brazilian jazz para uma roupagem assustadoramente contemporânea e atemporal!!! Esse álbum, inclusive, isola o nome de Luiz Eça como o pronome de um projeto próprio, haja vista que posteriormente o trio gravaria um outro álbum sob o título homônimo de Triângulo, com o qual o trio se nominava à época. E embora esse trio Triângulo —— com Eça, Robertinho Silva e Luiz Alves —— tenha atuado num curto período de tempo, trata-se de um dos mais interessantes piano-trios da história da música brasileira!!!

 
Robertinho Silva - Bateria (Carmo, 1983)
Robertinho Silva —— baterista importantíssimo que foi integrante da banda Som Imaginário e do Clube da Esquina, além de suas muitas outras grandes contribuições —— também foi provocado por Egberto Gismonti a aprofundar sua pesquisa sobre as possibilidades da bateria e da percussão na música instrumental brasileira contemporânea a partir de um projeto solo. E conta-se que Gismonti o provocou até mesmo para que ele se aventurasse nas teclas e synths, já que o baterista também vinha aprendendo a explorar alguns eletrônicos à época. O resultado é este álbum, Bateria, que traz uma concepção a combinar jazz-fusion, funk, eletrônica e MPB com referências rítmicas afro-brasileiras. Acompanham o baterista os contrabaixos (acústico e elétrico) do grande Nico Assumpção, as guitarras e a guitarra sintetizada de Ricardo Silveira e os sopros do saxofonista Nivaldo Ornelas, outro dos integrantes do Clube da Esquina. O repertório apresenta seis faixas autorais, algumas das quais compostas pelo baterista em parcerias com seus colegas da banda. Robertinho Silva explora, então, bateria, percussão e teclados, incluindo um sintetizador Yamaha DX7. Entre os momentos mais expressivos do álbum estão a transição da balada improvisada "Cara de Palhaço" para o solo de bateria da faixa-título, os momentos mais fusionistas com eletrônica na faixa "Barra 200", as atmosferas sintéticas rítmicas de inspiração tribal da faixa "Kalimba" e o encerramento percussivo que evoca a capoeira e combina bateria, berimbau e sintetizador faixa "Ginga". Robertinho, que já havia feito um golaço ao lançar um LP seminal dentro da série "Música Popular Brasileira Contemporânea", pela Philips" —— ouçam!!! ——, marca aqui outro golaço, um disco que pode ser considerado um dos grandes registros de bateria da história da música brasileira. Fantástico!

 
Piry Reis - Caminho do Interior (Carmo, 1984)
Aqui temos um projeto centrado na MPB enquanto estética, mas que traz arranjos instrumentais um tanto expansivos e avançados em relação aos trabalhos da MPB mediana, e anos-luz à frente do popularesco. Trata-se de um trabalho do cantor, compositor e violonista carioca Piry Reis que combina elementos da canção brasileira com harmonias e texturas instrumentais associadas à bossa nova, ao samba, ao jazz e à música instrumental brasileira contemporânea, incorporando também atmosferas levemente psicodélicas e timbres eletrônicos. A sonoridade do disco se caracteriza pela integração entre o violão e a voz de Piry, os teclados de Egberto Gismonti, o baixo elétrico de Nico Assumpção, a bateria e a percussão de Robertinho Silva, as percussões adicionais de Wanderley Pereira, o saxofone soprano e as flautas de Mauro Senise e o violão e a guitarra de Romero Lubambo. Carlos Walker, identificado em outros encartes de relançamento, aparece como vocalista convidado e participa das faixas "Cisplatina" e "Limites". O resultado é uma produção que privilegia a interação entre a canção e os arranjos instrumentais, com espaço para linhas melódicas contrapontísticas, diálogos entre sopros e cordas e uma combinação de timbres acústicos e eletrônicos. O repertório original reúne oito faixas autorais de Piry Reis —— algumas das quais evidenciando sua recorrente parceria com o letrista Geraldo Carneiro —— tais como "O Sol na Janela" (em parceria com Carneiro),"“Dina e Nata" (com João Carlos Pádua), "Lyra das Mimosas" (com Marcos Darlan e José Carlos Miranda), "Por um fio" (com Xico Chaves), "Céu de Manágua" e "Limites” (ambas em parceria com Geraldo Carneiro), entre outras. Lançado originalmente em vinil pelo selo Carmo, o álbum foi posteriormente remasterizado a partir das fitas originais e relançado em 2021 pelo selo holandês Records We Release, em edição que acrescentou uma faixa bônus extraída do compacto Quase Meio-Dia / Idade Média, de 1974.

 
Aleuda - Oferenda (Carmo, 1984)
A cantora, percussionista e compositora cearense Aleuda iniciou sua carreira nos anos 1960, em Santos, participando de festivais universitários de música. De 1974 a 1978, fez parte da banda de Hermeto Pascoal, como vocalista e percussionista e participou do Festival de Abertura (Rede Globo), em 1975, interpretando a canção "Porco na festa", de Hermeto, que inclusive recebeu o prêmio de Melhor Arranjo. Em 1978 atuou com a banda Azymuth, com a qual gravou dois discos lançados nos Estados Unidos e na Europa. Dedicando-se à carreira como vocalista convidada, sua voz está presente em discos de Milton Nascimento (Sentinela e Yauaretê), Lô Borges (Via Láctea), Egberto Gismonti (Circense), Fagner (Orós), José Roberto Bertrami (Blue Wave) e Robertinho Silva ("Série MPB Instrumental" e "Bodas de Prata"), entre outros artistas. Este álbum Oferenda é o primeiro disco solo de Aleuda e um dos trabalhos mais representativos do encontro entre a música instrumental brasileira, a improvisação jazzística e as tradições musicais do Nordeste no catálogo da gravadora Carmo. Com produção, arranjos, composições e direção musical de Hermeto Pascoal, o disco propõe uma celebração das raízes culturais nordestinas por meio da combinação entre cantos de matriz popular, ideias originais, ritmos brasileiros e uma instrumentação acústica diversificada, na qual flautas, saxofones, piano, violino, violoncelo, acordeom, viola, bombardino, órgão, baixo, bateria e percussões se articulam em arranjos que alternam passagens melódicas, rítmicas ímpares e espaços para a inventividade instrumental tal como já conhecemos da aura de Hermeto. Recentemente, a gravadora britânica Far Out Recordings fez o relançamento internacional do álbum e o destacou com uma das preciosidades brasileiras lançadas em vinil a merecer maior destaque na nossa contemporaneidade. O repertório original compreende oito faixas: "Oferenda", de Luiz Eça e Lenita Eça; "Casinha Pequenina", tema tradicional de domínio público, adaptado e arranjado por Hermeto Pascoal; "Galope", de Hermeto Pascoal; "Passarinho", de Egberto Gismonti e Marilda Pedroso; "Jurema", de Anastácia; "Ceará", de Filó Machado e Aleuda; "Fofoca", de Hermeto Pascoal; e "Rede", de Filó Machado e Aleuda. A ficha técnica reúne Aleuda (voz e percussão); Hermeto Pascoal (flauta, viola, viola caipira, piano, acordeom, bombardino e órgão); André Dequech (piano e violino); Zeca Assumpção (baixo); Robertinho Silva (bateria e percussão); Mauro Senise (flautas, saxofone alto e saxofone soprano); Zé Américo (acordeom); Jaques Morelenbaum (violoncelo); Júnior Homrich (percussão nas faixas “Galope”, “Passarinho” e “Rede”); e Frank Colon (percussão em “Casinha Pequenina” e “Jurema”). Essa formação permite que a voz e as percussões de Aleuda se integrem à concepção dos arranjos instrumentais e ao conceito de "música universal" de Hermeto, cuja atuação como instrumentista e arranjador explora a diversidade tímbrica e a liberdade rítmica como nenhum outro maestro e/ou arranjador na história da música brasileira. Um dos exemplos fantásticos de como Hermeto influenciou a MPB com sua criatividade!!!

 
Antonio José - Um Mito - Uma Coruja Branca (Carmo, 1984)
O álbum Um Mito — Uma Coruja Branca é um registro seminal de piano solo e o único registro fonográfico conhecido do pianista brasileiro Antônio José. Com esse lançamento, Egberto Gismonti abriu espaço para um músico praticamente desconhecido fora de seu círculo imediato: apresentado ao pianista por um amigo, ficou impressionado com sua técnica e decidiu registrar sua música. O disco apresenta oito composições originais de Antônio José, executadas ao piano solo, sem acompanhamento instrumental. A concepção musical apoia-se na expressividade do piano acústico, conjugando linguagens populares e eruditas com improvisação e imaginação, o que resulta em contrastes impressionantes entre passagens contemplativas e momentos de maior intensidade, na construção de imagens sonoras sugeridas pelos próprios títulos das peças. "Coruja Branca", que abre o álbum, estabelece um universo de contrastes entre quietude e movimento, composição e livre improvisação. Quase sempre flutuando entre dinâmicas contemplativas, imaginativas e meditativas, as faixas seguintes também sugerem liberdade melódica, deslocamentos, ambientes e imagens de caráter descritivo, além de explorar referências melódico-harmônicas de maior carga emocional, e assim prossegue o percurso musical do disco. Egberto Gismonti também teria participado da oitava faixa, "Volta ao Ninho", tocando um instrumento identificado nos créditos como sorongue, possivelmente o tradicional instrumento indiano de corda (friccionada) tocado com arco. Um álbum de piano solo que, à época soou deveras diferente do convencional. Fica a dica, inclusive, para procurarmos mais informações e registros desse singular pianista.

 
Carioca - 7 Dias 7 Instrumentos Música (Carmo, 1984)
Aqui temos um trabalho super singular do violonista, compositor e multi-instrumentista Carioca, nome artístico de Ronaldo Leite de Freitas. O álbum foi concebido como uma exploração das possibilidades tímbricas e expressivas de sete instrumentos de cordas dedilhadas, em um curioso percurso musical —— aparentemente registrado em sete dias de imersão —— que combina a tradição instrumental brasileira, referências nordestinas, experimentação, world music, improvisação e uma abordagem próxima da música contemporânea. Todas as oito faixas são composições de Carioca, e o conceito se desenvolve por meio da alternância entre esses instrumentos de diferentes configurações, afinações e registros: a cítara nordestina, os violões de 12, oito e dez cordas, o bandolim de três cordas e a viola de dez cordas, com inclusões pontuais de voz a flauta. A abertura com a sugestiva faixa "Revoada — Abertura" apresenta a primeira configuração da cítara nordestina. Seguem-se: "Alvorada", que explora o violão de 12 cordas; "Brisa" utiliza o bandolim de três cordas; "Branca" apresenta o violão de oito cordas; "Despertar" emprega o violão de dez cordas; "Brilho" destaca a viola de dez cordas; "Caminho do Sol" retoma a cítara nordestina em combinação com a voz de Rosaly; e "Revoada — Final" encerra o álbum com uma segunda configuração da cítara, acompanhada pela flauta de Gismonti. A sequência sugere um arco poético que parte da ideia de voo e passagem, atravessa imagens de alvorada, brisa, despertar e luminosidade e chega ao caminho solar, antes de retornar ao motivo inicial para concluir o ciclo. A diversidade instrumental não funciona apenas como demonstração técnica: cada instrumento oferece uma identidade sonora própria, permitindo que Carioca explore contrastes de ressonância, articulação, densidade e sustentação das notas, com dedilhados rápidos, tremolos, ataques percussivos e variações de intensidade que aproximam a música de um conceito específico de experimentação acústica, sem abandonar suas referências brasileiras. Aos que quiserem conhecer mais sobre este singular artista, Carioca já havia desenvolvido uma trajetória própria com os álbuns Mistérios da Amazônia (1980), Luar do Sertão (1982) e Ciranda (1983). Mas é neste trabalho que ele aprofunda a investigação das cordas dedilhadas por meio de uma abordagem que combina elementos da música brasileira, exploração tímbrica muito comum na world music e liberdade interpretativa repleta de trejeitos e ideias próprias. Esse foi um dos poucos discos que ganhou uma edição em CD pelo catálogo Carmo/ECM em 1992, com duas gravações adicionais, ampliando o registro original de oito para dez faixas. Trabalho super distinto na música brasileira!!!

 
Grupo Papavento - Aurora Dórica (Carmo, 1984)
O Grupo Papavento surgiu em São Paulo fazendo uma ponte entre a música instrumental brasileira, a MPB, o jazz e a música erudita com Gil Jardim (flauta, flautim e sanfona), João Cuca (oboé) Roardo Bernardo (clarinete, sax tenor e clarone), Gil Reyes (piano e clarinete), Gerson Frutuoso (contrabaixo). O movimento de descoberta e reconhecimento do grupo na época esteve fortemente ligado ao circuito de shows de São Paulo, tais como as apresentações na Funarte e no emblemático teatro Lira Paulistana —— berço de várias bandas, grupos e músicos experimentais ——, onde o Papavento tocava frequentemente. E Egberto Gismonti, atento ao que se fazia de mais progressivo e contemporâneo à época, logo convidou o grupo para gravar este álbum em seu Estúdio Porão. Assim é concebido este álbum, cujo título refere-se à peça "Aurora Dórica" ou, no título completo da faixa, "Aurora Dórica Para o Embaixador de Júpiter", uma composição do multi-instrumentista e compositor Gil Reyes. Trata-se de um álbum instrumental que combina a sonoridade de um quinteto clássico de sopros com piano, acordeom e contrabaixo, aproximando a música erudita de câmara de linguagens do jazz e da música instrumental experimental, como um todo. Dessa forma, a instrumentação explora contrastes tímbricos entre oboé, flauta, flautim, clarinete, clarone, saxofone tenor, piano, sanfona e contrabaixo acústico, e curiosamente não há bateria ou percussão nas instrumentações. O repertório é constituído de onze faixas, sendo a maioria de peças compostas por Gil Reyes mais peças e canções de terceiros: "Saci" de Roardo Bernardo; “Ponta de Areia”, de Milton Nascimento e Fernando Brant; “Suavemente”, de Gerson Frutuoso e “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro. Esse é um ótimo exemplo de amálgama entre a música popular e a música erudita!!!

 
Luigi Irlandini - Azul & Areia (Carmo, 1985)
Aqui temos um outro registro de improvisações livres sob as mãos do pianista brasileiro-italiano Luigi Antonio Irlandini. A empreitada nasceu de gravações que Irlandini enviou previamente à Egberto Gismonti, contendo composições próprias e improvisações. Interessado especialmente na faceta das improvisações e composições espontâneas —— tal como Keith Jarrett já vinha realizando em seus registros de piano solo lançados pela ECM, mas aqui com características e dinâmicas abrasileiradas ——, Gismonti convida, então, o pianista para gravar em seu estúdio. Segundo relato do próprio Irlandini, o álbum foi registrado em um único dia, com orientações pontuais de Egberto sobre as ideias, dinâmicas, ênfase rítmica e duração de algumas das peças livremente improvisadas. Ou seja, não houve edições posteriores: o resultado preserva, portanto, a espontaneidade da execução e o caráter imediato da improvisação como peças que foram compostas —— quase e/ou totalmente —— no exato momento da performance já durante a gravação no estúdio. A sonoridade do disco se constrói exclusivamente em torno do piano acústico em formato solo, explorado por meio de motivos melódicos concisos, frases de caráter quase modal, contrastes dinâmicos, silêncios, mudanças de densidade e intensidade e alternâncias entre passagens contemplativas e episódios de maior energia rítmica. Irlandini transita livremente entre referências que podem evocar a música erudita, o jazz, a música popular brasileira e uma linguagem introspectiva própria, sem se prender integralmente a nenhum desses estilos. Os títulos sugerem imagens de paisagens, deslocamentos e estados sensoriais, mas o princípio central da obra não é a descrição programática de cenários: é a criação espontânea de formas musicais no próprio ato de tocar e no próprio ato do pianista exprimir suas sensações em tempo real com suas 88 teclas. Apenas na faixa "Ditirambo" que há a participação de Gismonti na percussão, ampliando o espectro sonoro para além do piano solo. Irlandini posteriormente consolidaria sua trajetória como compositor, pesquisador e professor na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), dedicando-se à seara da música contemporânea e a pesquisa de tradições ocidentais e ancestrais na poética composicional dos séculos XX e XXI, com especial interesse na música japonesa das tradições gagaku e honkyoku e em instrumentos de percussão, shakuhachi, flautas doces, voz solo e vocais a cappella.

 
Mú Carvalho - Meu Continente Encontrado (Carmo, 1985)
Este álbum é o primeiro trabalho solo de Mú Carvalho —— nome artístico de Maurício Magalhães Carvalho ——, compositor, pianista, arranjador e integrante fundador do grupo A Cor do Som. Neste álbum Mú Carvalho desenvolve uma linguagem instrumental centrada no universo das teclas —— abrangendo piano acústico, piano elétrico, synths e teclados afins —— para assim explorar a intersecção entre música popular brasileira, jazz, experimentação harmônica e sonoridades eletrônicas. Há certo caráter de exploração harmônica no conceito do álbum, que pode ser compreendido como uma investigação pessoal das possibilidades melódico-harmônicas e tímbricas entre sons acústicos e eletrônicos, alternando peças de caráter lírico e contemplativo com composições rítmicas, brincalhonas e virtuosísticas. Essa diversidade reflete bem a amplitude da experiência de Mú Carvalho na música instrumental brasileira dos anos 1970 e 1980, especialmente no contexto do grupo A Cor do Som, que aproximou elementos do rock, do jazz e da música brasileira por meio de fusões com instrumentos eletrônicos e acústicos. A sequência original reúne faixas que, só pelos títulos, já denotam certo caráter lúdico: seguem-se "O Despertar dos Mágicos", "Toda a Felicidade pra Você (Gabriel)", "O Elefante Equilibrista", "O Continente Perdido de Mu", "Bruno e Daniel", "Valsa do Amor (n.º 1)", "Essa É pra 'Cor'", "Escuta Esse Chorinho", "O Sanfoneiro Mais Rápido do Oeste" e "Meu Continente Encontrado", todas compostas por Mú Carvalho. A ficha técnica registra Mú Carvalho nos teclados, no piano acústico e no piano elétrico; Egberto Gismonti nos teclados, no piano e nas programações de instrumentos eletrônicos, Luiz Eça ao piano em "Valsa do Amor (n.º 1)"; e Zé Luiz Oliveira no saxofone soprano em "Essa É pra 'Cor'". O repertório também revela a amplitude de interesses composicionais de Mú: "Escuta Esse Chorinho" dialoga explicitamente com a tradição do choro; "O Sanfoneiro Mais Rápido do Oeste" sugere uma abordagem bem-humorada e virtuosística do baião; e a faixa-título, "Meu Continente Encontrado", sintetiza poeticamente a ideia de revelação da própria identidade e originalidade do músico expressa num universo de ludismos próprios.  Artista excepcional!!!
 
William Senna - O Homem do Madeiro (Carmo, 1985)
O álbum O Homem do Madeiro é um trabalho do violonista, compositor e multi-instrumentista mineiro William Senna. O álbum, também aberto ao lúdico, gira em torno de uma investigação das possibilidades expressivas do violão e do corrupio, instrumento originado de um brinquedo rudimentar de efeito sonoro muito comum na tradição indígena. O álbum combina, então, referências indígenas, elementos da MPB, experimentação tímbrica próxima à world music, procedimentos de improvisação e atmosferas contemplativas. O disco apresenta dez composições autorais de Senna, que explora a ressonância das cordas, os contrastes entre registros, a articulação dos ataques e a construção de motivos melódicos com forte sentido de movimento, alternando peças instrumentais com passagens vocais e participações especiais. O repertório original compreende "Corrupio", "Cena Aberta — Elo", "Surya", "Desanoitece Isabela" — também grafada "Desanoitece Isabella" em algumas fontes —, "Horizonte", "Colméia", "Movimento dos Corpos", "Ventre da Lua", "Viver" e "Porã", todas compostas por William Senna. A concepção instrumental se desenvolve principalmente a partir do diálogo entre o violão e o corrupio, com Senna alternando a execução solo dos instrumentos e combinações entre ambos; em "Horizonte" e "Porã", a voz de Dulce Bressane acrescenta uma dimensão lírica à música, enquanto a participação de Egberto Gismonti amplia o espectro tímbrico com um segundo violão em "Colméia" e teclados em "Ventre da Lua" e "Porã". O resultado é uma obra de caráter predominantemente acústico, mas aberta a ludismos e a amálgamas a partir da incorporação de timbres eletrônicos e de vozes em passagens pontuais. Dessa forma, a investigação instrumental não se limita ao virtuosismo, procurando estabelecer relações entre sonoridades, espaços e expressões que vão da MPB aos sons indígenas. Aos que se interessarem por conhecer mais sobre este artista mineiro, fica a dica: antes desse registro, William Senna gravou o emblemático LP "Canto do Tempo", seu primeiro registro lançado de forma independente, isso em 1978.


Luiz Eça, Robertinho Silva & Luiz Alves - Triângulo (Carmo, 1985)
Aqui temos o mesmo trio do álbum homônimo acima de Luiz Eça composto pelo pianista, o baterista e percussionista Robertinho Silva e o contrabaixista Luiz Alves —— lembrando, para não se confundir, que Luiz Eça gravou diversos discos com outros trios, tais como o famoso Tamba Trio e o álbum póstumo Luiz Eça Trio em 1995, gravado em estúdio em 1991 com Luiz Alves e Ricardo Costa. Gravado ao vivo na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, em julho de 1985, esse disco acima documenta, então, o segundo registro desses três músicos com trajetórias profundamente ligadas à bossa nova, ao samba, ao jazz, ao Clube da Esquina e à música instrumental brasileira. Trata-se de uma performance que ultrapassa os limites convencionais do piano trio de jazz com contrabaixo acústico e bateria que se estava acostumado a ter no samba-jazz, tanto pela amplitude melódico-rítmica-harmmônica como pela extensão das faixas. O repertório original compreende três faixas: "Balão", composição de Kledir Ramil, Luiz Alves e Wagner Tiso; "Amando", de Dori Caymmi e Nelson Motta; e "Triângulo", criação coletiva creditada aos três integrantes do grupo. Nas duas primeiras peças, os temas compostos funcionam mais como prextextos abertos a explorações polirrítmicas, improvisos livres e experimentações afro-brasileiras, funcionando como pontos de partidas para o desenvolvimento estético a ser evidenciado na extensa peça posterior, que de fato modula e consagra a estética do trio. Segue-se, então, a extensa faixa-título que ocupa todo o lado B do LP, estende-se por aproximadamente 18 minutos e apresenta momentos de maior densidade rítmica, passagens de caráter livre e diálogos entre piano, contrabaixo e bateria. Triângulo permanece, assim, um registro instrumental expressivo da convergência entre jazz contemporâneo, improvisação coletiva e música afro-brasileira, documentando a cumplicidade musical de três instrumentistas que transformam uma formação tradicional de trio em espaço de improvisação, investigação rítmica, harmônica e tímbrica, mesmo num formato tão clássico como o piano trio. Fantástico!!!

 
Marco Bosto - Fragmentos da Casa (Carmo, 1986)
Este é um dos álbuns mais densos e experimentais do selo Carmo. Nascido em 1956 no Brasil, o percussionista, compositor e multi-instrumentista brasileiro Marco Bosco iniciou sua carreira em 1974, tocando com diferentes bandas. Em 1980, como líder do Grupo Acaru, gravou o álbum "Live at Hot-Crocket" (RCA/Japão), durante sua temporada em Tóquio. De volta ao Brasil em 1981, participou do início da produção fonográfica independente brasileira, quando produziu, gravou e distribuiu de forma independente "Aqualouco" (FIF/Brasil), o segundo álbum do Grupo Acaru. E foi essa empreitada em busca do desenvolvimento da produção independente no Brasil que o aproximou de Egberto Gismonti, dando origem ao lançamento do álbum acima pelo selo Carmo. O álbum centra-se numa investigação musical que combina percussão brasileira, sintetizadores, teclados eletrônicos, instrumentos elétricos e timbres acústicos em uma concepção experimental cheia de contrastes e expressividade orgânica no campo da percussão em misturas com sonoridades eletrônicas. O conceito consiste em representar musicalmente uma viagem de um dia e uma noite pelos cômodos de uma casa imaginária, contrapondo o universo sintetizado dos equipamentos digitais e instrumentos eletrônicos a uma estética acústica e destacando as características tímbricas dos instrumentos percussivos. A obra foi desenvolvida a partir de uma fita que Bosco havia gravado por conta própria e apresentado a Gismonti. Posteriormente, as ideias tiradas do material foram desenvolvidas e ampliadas no estúdio Porão de Gismonti, com a participação de vários outros músicos convidado pelos dois. Para dar densidade ao projeto e gravar os ínumeros instrumentos e arranjos, Gismonti equipou seu estúdio com 16 canais ao todo, resultando em camadas, texturas eletrônicas, sequências de loops, timbres sintetizados e percussão de diferentes dialectos da world music e dos ritmos afro-brasileiros, incluindo instrumentos acústicos como violão, craviola, cítara nordestina, dentre outros, e instrumentos da world music e da nossa tradicional percussão afro-indígena tais como chocalhos, caxixis, berimbaus e tambor de língua, chizanzhi, purrinhola, reco-reco, xequerês, e até instrumentos fabricados pelo luthier Bira Reis, da Oficina de Investigação Musical, sediada em Salvador, Bahia. A edição original apresenta oito faixas, cuja sequência desenvolve a narrativa dos espaços imaginários da casa: o álbum abre com “Fragmentos” (Marco Bosco), suíte subdividida em três partes (“Noite Escura”, “Crescendo o Medo” e “Despertar das Águas”) e segue com faixas que prolonga a narrativa sonora em torno dessas intersecções entre a percussão e a eletrônica. Destaque para a faixa “Dia Claro” (de Paulo Calasans), que traz a participações vocais de Tuca Fernandes e Nadir e de um coro infantil. Segue-se “Tua Casa, Minha Casa”, uma versão para a canção do repertório da dupla Sá & Guarabyra reinterpretada com uma sonoridade eletrônica. Em seguida aportamos na faixa “Quarto”, com a participação do próprio Gismonti nos teclados. E assim o álbum vai seguindo com peças fantásticas que trazem participações de Oswaldinho do Acordeom, do contrabaixista do baixista J. Pienasol, dos tecladistas Paulo Calasans e Alaor Neves somando nos synths, de Luis Carlos de Paula somando nas percussões, entre outros. Além da riqueza tímbrica dos kits de percussão, vemos aqui a inclusão de recursos e instrumentos eletrônicos pioneiros dos anos 70 e 80 tais como o sistema eletrônico de percussão Simmons SDS-8, o Emulator, o sintetizador Korg Poly-6, o machine drum, o piano elétrico Yamaha CP-70, os sintetizadores Yamaha DX7 e Sequential Six-Trak, o Prophet-5, as guitarras Roland GR-707 e GR-700, entre outros dispositivos eletrônicos. Dessa primorosa coleção de lançamentos oitentistas da Carmo, a edição original deste álbum, enfim, é uma das relíquias mais procuradas pelos colecionadores e completistas!!!

 
Piry Reis - Rio Zero-Grau (Carmo, 1986)
Logo após seu trabalho em Caminho do Interior (1984), o violonista e cantor Piry Reis emenda esta outra empreitada com Gismonti e nos apresenta nove faixas que articulam a canção brasileira, a MPB, a bossa nova e uma instrumentação que incorpora violão de oito cordas, piano, baixo elétrico, bateria, percussão e teclados eletrônicos. Cantor, compositor e violonista nascido em Glicério, distrito de Macaé, no Rio de Janeiro, Piry Reis desenvolve de forma ainda mais intensiva neste disco sua parceria com o poeta Geraldo Carneiro, responsável pelas letras de diversas composições, combinando canções autorais e colaborações com uma sonoridade de arranjos elaborados por Nando Carneiro, onde as letras e atmosferas dizem muito da nostalgia e melancolia urbana do Rio de Janeiro, suas praias e sua boemia contemporânea e Ipanema e Leblon. O disco foi gravado em outubro de 1985, no estúdio Porão e o repertório original está organizado em nove faixas em torno da parceria entre Piry Reis e o letrista Geraldo Carneiro, sendo apenas a última faixa concebida em torno da colaboração com a pianista Moema Campos. Na instrumentação, Piry Reis assume os vocais e o violão de oito cordas, enquanto Nando Carneiro toca teclados, Bororo toca baixo elétrico, Vanderlei Pereira participa na bateria e na percussão e Moema Campos toca piano nas faixas "Marinheiro do Sol", "Rio Zero-Grau" e "Alma Delta". O álbum também apresenta participações vocais de Wauke em "Thereza", Beth Goulart em "Cabaret da Lapa" e Selma Reis em "Arte de Amar". Nando Carneiro responde pelos arranjos e teclas de todas as faixas, contribuindo para a integração entre o acústico e a eletrônica, enquanto a produção preserva o protagonismo da voz e do violão de Piry.

 
Fernando Falcão - Barracas Barrocas (Camo, 1987)
Uma das últimas gravações incorporadas ao catálogo da Carmo nessa experimental fase oitentista, este álbum Barracas Barrocas é um projeto autoral do percussionista, compositor e artista multidisciplinar Fernando Falcão, sucedendo seu projeto independente Memória das Águas (1981). Gravado em 1983, no estúdio Eldorado, em São Paulo, em 16 canais analógicos, o disco foi concebido após o retorno do músico ao Brasil, em 1984, depois de aproximadamente 15 anos vivendo na França. A produção foi coproduzida por Fernando Falcão e Daniel Taubkin, e o trabalho amplia a investigação iniciada no álbum anterior, no qual o compositor explorava esculturas sonoras, instrumentos construídos ou adaptados e recursos percussivos inspirados em diferentes tradições culturais. Em Barracas Barrocas, essa pesquisa em torno dos instrumentos construídos se articula também em torno de arranjos de maior densidade orquestral, com cordas, metais, sopros, teclados e percussões, criando uma sonoridade que aproxima ritmos brasileiros, referências afro-diaspóricas, música instrumental, jazz, experimentação tímbrica e procedimentos de composição cinematográfica. O repertório original reúne dez faixas, todas compostas por Fernando Falcão ou coescritas por ele em parcerias com outros artistas tais como Alceu Valença, Lelo Nazário, Tetê Espindola, entre outros. A faixa “Elas (À Girges Ristum)” homenageia Girges Ristum, jornalista, ator, assistente de direção, sociólogo e poeta brasileiro que teve uma atuação marcante no cenário cultural e cinematográfico nas décadas de 1960 e 1970, e também atuou ao lado de grandes nomes do cinema mundial e do Cinema Novo tais como Bernardo Bertolucci, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Glauber Rocha e Neville de Almeida. Já a faixa “Canção do Exílio” estabelece uma colaboração com Alceu Valença, que também participa como cantor. Seguem-se “Purundirindas” e “Disse Alguém”, as quais apresentam a participação composicional de Lelo Nazário, músico participante da Vanguarda Paulistana e associado à pesquisa instrumental e à experimentação eletroacústica brasileira. A instrumentação reúne Fernando Falcão nas tablas, percussões e voz, além de sua pesquisa com esculturas sonoras e instrumentos inventados —— incluindo a chamada orquestra de águas e o balauê, uma variante do berimbau desenvolvida pelo artista —— e outros músicos tais como: Cláudio Leal Ferreira ao piano; Lelo Nazário na celesta, nos teclados, no órgão e no sintetizador; Teco Cardoso e Rodolfo Stroeter nos saxofones; Toninho Carrasqueira na flauta e no piccolo; Zé da Flauta na flauta; Théo da Cuíca na cuíca; Jorge Degas no baixo elétrico; Pratinha no bandolim; e Tetê Espíndola e Alceu Valença nos vocais. Os arranjos são distribuídos entre Cláudio Leal Ferreira, responsável pelos arranjos orquestrais, Lino Simão e Lelo Nazário, encarregados dos arranjos para formações menores. Essa relíquia é outro dos trabalhos mais densos e experimentais dessa fase de produções independentes do selo Carmo.




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