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Álbuns 2022: Tony Malaby, Mark de Clive-Lowe, Miho Hazama, Tyshawn Sorey, Boris Kozlov, Peter Bröztman e etc...

****¹/2 - VEIN Trio - Our Roots (Indepedent, 2022)
Aqui estamos diante de um dos grandes piano-trios da Europa, mais especificamente da Suiça. Já mencionamos rapidamente o VEIN Trio aqui no post que dedicamos às facetas do criativo baterista Florian Arbenz, onde o contexto de Arbenz era expor a bateria ao risco de uma "cozinha" com falta de um revestimento harmônico em idiossincráticos duos com sopros, sax-trio e outros inusuais combos sem piano. E agora eis que nos deparamos com essa excelente gravação, com o baterista mostrando toda sua polirritmia cirúrgica e sua maestria em fazer a bateria soar timbristicamente rica dentro do contexto de um piano-trio. Além de Florian Arbenz, fazem parte do trio o pianista Michael Arbenz e o contrabaixista Thomas Lenens. Os três músicos são altamente proficientes em expor seus instrumentos ao risco dos contrapontos e das abordagens inusuais. E como se não bastasse essa inusual riqueza técnica, o VEIN é um combo que vem se especializando em se diferenciar também na abordagem conceitual com a qual escolhe seu repertório: ou seja, em dar versões jazzísticas diferentonas para peças e temas do repertório clássico -- e como fervorosos europeus que são, é com o termo "nossas raízes" que eles classificam esses clássicos temas da música erudita europeia dentro da sua bagagem de experiências. Aqui neste álbum o trio ataca o conhecidíssimo tema da 5ª Sinfonia de Beethoven, a ária da "Flauta Mágica" de Mozart, o tema de "Pássaro de Fogo" de Stravinsky, partes de "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky e uma curta exposição do "Concerto para Contrabaixo" de Hans Werner Henze. E os temas clássicos realmente se transformam em contemporâneas peças de jazz, com toda a gama de sobreposições, contrapontos e improvisos de um piano-trio apegado ao post-bop dos últimos tempos. Imperdível!
Um dos afluentes mais instigantes do jazz atualmente é a tendência de alguns dos mais destacados e criativos músicos se diversificarem com projetos experimentais onde a improvisação (livre ou estruturada) encontra a eletrônica, por exemplo. O pianista Vijay Iyer e o rapper Mike Ladd lançaram álbuns fantásticos nesse sentido. Brad Mehldau e o baterista Mark Guiliana também empreenderam alguns dos mais criativos projetos com sintetizadores, baterias eletrônicas, efeitos inúmeros. O baterista Gerald Cleaver também já lançou dois tentos hiper criativos com eletrônicos. Jamire Willians deu o que falar em 2021 com seu álbum conceitual But Only After You Have Suffered (International Anthem, 2021)... Enfim, sejam bem vindos às possibilidades infinitas da música pós-moderna, onde nada se copia, mas tudo se mistura -- e não estamos falando de fusões alusivas ao já manjado jazz fusion e jazz-funk setentista, mas sim de novas fusões com as mais novas possibilidades da eletrônica contemporânea mista de analógicos e digitais, de pop e jazz, de DJ's e instrumentistas improvisadores, de escrita erudita e música improvisada... No último trimestre de 2021 foi a vez do baterista Tyshawn Sorey empreender um projeto nessa direção com o DJ e manipulador de eletrônicos King Britt. O projeto evidencia um intricado jogo de improvisações e conversações de bateria acústica -- e seus tambores, caixa, bumbo e pratos -- com eletrônicos e pedais de efeitos variados, com beats polirritmicos, efeitos sci-fi e grooves inexplicáveis. Uma ótima oportunidade para apreciar o quão talentoso e proficiente é Sorey em seus solos improvisativos, assim como também é uma ótima porta de entrada para se adentrar ao trabalho do DJ King Britt.
Aqui temos um dos projetos mais elogiados de 2021: o encontro da compositora e arranjadora japonesa, radicada em N.Y, Miho Hazama com a Danish Radio Big Band, fantástica orquestra de jazz da Dinamarca. Na linner note disposta em seu espaço no Bandcamp, Miho Hazama deixa claro sua expectativa no início do projeto: "This is a significant milestone-moment for me. Since I have a classical music background, my brain sound has been more symphonic. However, The Danish Radio Big Band changed my perspective. They are so open and enthusiastic to new music. They can play diverse music with organic flow. I am extremely excited to work on this album". Já reconhecida como uma das mais proeminentes arranjadoras do jazz atual, em 2019 Miho Hazama assume o cargo de arranjadora e maestrina-chefe da Danish Radio Big Band, dando sequência em um trabalho que começou a se sofisticar lá atrás quando, no final dos anos 70, o trompetista e compositor americano Thad Jones deixa sua célebre big band com Mel Lewis e muda-se para a Dinamarca para dirigir essa big band. Miho Hazama conta que além de Thad Jones, outras duas influências presentes em sua concepção de arranjo é Bob Brookmeyer e Jim McNeely. O álbum traz, portanto, aquela concepção mais contemporânea de texturas e arranjos coloridos com melodiosidades e rítmicas implícitas do pop e rock, mas sem soar demasiadamente melódico: ao contrário, os fraseios bem desenvolvidos e o improviso jazzístico correm soltos a todo o momento por entre essas nuances, texturas e rítmicas implícitas. Pode-se dizer que Miho Hazama encontra um ótimo equilíbrio entre sua experiência sinfônica, as características históricas do jazz -- com algumas partes evocando um certo swing e até algumas vibes que lembram a parceria de Gil Evans com Miles Davis -- e toda essa nova concepção de big band.
O TST, Tout Sur Le Tout, é uma banda-grupo-ensemble fundada em janeiro de 1994 durante o New Jazz Festival On Tour '94, Suíça. São membros regulares Jacques Demierre (piano, teclados), Sylvie Courvoisier (piano, teclados), Gergely Suto (clarinetes, taragot), Adrien Kessler (contrabaixo, voz) e Andreas Valvini (bateria), que foi substituído posteriormente por Jim Meneses. Esses músicos são profissionais em diversas formas e estéticas: jazz, música erudita contemporânea, bandas de rock, projetos experimentais mais inclassificáveis e afins. No fim de 2021, esses músicos voltaram a se reunir para exporem toda a criatividade destilada em anos, produzindo essa fantástica gravação de livre improvisação. As peças, embora majoritariamente livres, expõe uma notável capacidade desses músicos sincronizar efeitos, contrapontos e diálogos em tempo real, e combinar essas abordagens mais livres com a arte da escrita mais elaborada e a arte do arranjo, misturando texturas acústicas e eletrônicas.

Peter Bröztmann chegou à casa dos 80 anos de idade, mas seus pulmões não acompanharam essa natural viagem ao envelhecimento -- trata-se de um sopro que carrega toda a energia e a bagagem de uma vida dedicada à arte da free music ligada ao abstracionismo, dadaísmo e expressionismo europeu, sem mencionar as muitas conexões com músicos americanos. Quer dizer: aqui ele soa menos eruptivo, mas a energia que sua presença transmite para a banda continua a mesma. Aqui temos um registro em dois atos que documenta o encontro desse mestre alemão do saxofone vulcânico com músicos mais jovens da nova geração de improvisadores compatriotas, tais como o pianista Oliver Schwerdt, o contrabaixista John Eckhardt e baterista Christian Lillinger. Na verdade, este quinteto se remete ao encontro de Oliver Schwerdt e Christian Lillinger no início dos anos 2000, quando ambos decidem criar uma banda para tocar aquele bom e velho free jazz baseado nos anos 60 e 70, e convidam, portanto, o saxofonista Luten Petrowsky para fazer parte do projeto, destinados a se apresentarem com regularidade na naTo, icônico centro cultural especializado na cena underground de Leipzig. A ideia de chamar Petrowsky para esse projeto a ser apresentado na naTo é reverenciar esse que foi um dos saxofonistas dos mais fortes sopros da free music da Alemanha Oriental nas décadas de 60 e 70 e, ao mesmo tempo, resgatar a conceito daquela sonoridade crua, tórrida e free ao extremo. A banda segue inicialmente em trio de piano, bateria e saxofone e em 2008 eles gravam o álbum White Power Blues (Euphorium Records), antes de expandirem o trio para um quinteto com Robert Landferman e John Edwards nos contrabaixos: uma banda com dois contrabaixos -- abordagem iniciada, por exemplo, nos anos 60 no álbum Unit Structures (Blue Note, 1966) de Cecil Taylor, com Alan Silva e Henry Grimes -- que pode ser ouvida em três álbuns lançados em 2017 com o título "New Old Luten Project" pela Euphorium Records. Porém, Luten Petrowsky teria uma piora em seus problemas de saúde, o que fez com que Schwerdt e Lillinger convidassem Peter Bröztmann para substitui-lo -- uma substituição à altura, afinal.... Essa é a história, então, dessa banda atualmente intitulada Big Bad Brötzmann Quintet, que aqui neste disco inspira-se na temática da sexualidade com o melhor da free improv alemã documentando esse encontro de gerações. O quinteto é formado, então, por Peter Brötzmann (sax tenor, clarinete, tarogato), Oliver Schwerdt (grand piano, percussão, pequenos instrumentos), John Edwards (contrabaixo), John Eckhardt (contrabaixo) e Christian Lillinger (bateria, pratos, percussão).



**** -  Mark de Clive-Lowe - Midnight Snacks Vol. 2 (2021)/ Motherland (2022)
Conheci o DJ e pianista Mark de Clive-Lowe -- um dos grandes nomes da jazztrônica e do groove contemporâneo, sujeito meio japonês e meio neozelandês -- com o coletivo japonês Ronin Arkestra, grupo de fusão de jazz e eletrônica com desdobramentos próximos aos estilos acid jazz, nu jazz, trip hop, downtempo e broken beat, muito influente ante a nova geração do jazz britânico -- e extremamente original. Esse Midnight Snacks é o segundo volume de um projeto de dedicatórias onde Clive-Lowe exprime, imprime e cria suas fusões, beats, improvisos e grooves sempre se baseando e se inspirando em algum dos seus ídolos. A faixa "Crush Velvet", traz grooves e texturas eletrônicas em dedicatória ao falecido DJ Phil Asher, pioneiro da London Scene. A faixa "Sorceress" é inspirada por Chick Corea e seu emblemático grupo de jazz fusion Return to Forever. Já a faixa "Joyful Resistance Part II" é um electro-samba de groove quebradiço em 3/4 com paladar latino. Além deste projeto mais focado no groove, Mark de Clive-Lowe acaba de lançar um álbum de piano solo que soa muito agradável, cristalino e fresco -- com efeitos de reverb, alguma ambiência eletrônica aqui e ali, mas com foco em piano solo. Chamado Motherland, o álbum foca nas características do piano-jazz -- com o uso de sintetizadores apenas para lapidar essa sonoridade mais ambient music -- acrescidas de evocativas influências tradicionais japonesas e de mitologia e folclore dos países asiáticos, soando mais meditativo e minimalista -- um belo contraste em relação aos seus grooves rítmicos e viscerais de outrora.
Kahil El’Zabar é um baterista e multipercussionista adepto ao spiritual jazz e às abordagens world fusion e africanistas dentro do free jazz, sendo um dos mais relevantes nomes da percussão criativa no cenário de Chicago das últimas quatro décadas. Para este álbum, o baterista parece querer apenas evocar um estado de espírito mais meditativo e contemplativo com temas de maior extensão melódica e maior identificação com o blues, R&B, soul, gospel, percussão afro...até chegar nas texturas eletrônicas da house music -- tudo dentro do contexto de um spiritual jazz que tem seus fundamentos lá atrás nos anos 60 com as abordagens de John Coltrane e Pharoah Sanders, por exemplo. Kahil El'Zabar explora vocais, bateria, cajon, kalimba e outros kits de percussão, e vem acompanhado de trompetista Corey Wilkes, do tecladista Justin Dillard e do saxofonista Isaiah Collier, os quais também se revezam entre os kits de percussão e outros instrumentos.
The Cave of Winds é o nome do mais novo lançamento do saxofonista Tony Malaby. Para quem acompanha o jazz contemporâneo sabe que esse é um daqueles grandes saxofonistas que transita com fluência e desenvoltura pela free music e pelo post-bop -- um dos mais versáteis saxofonistas das últimas décadas, geralmente relacionado àquele tipo de jazz que consegue equilibrar fraseios livres com ideias composicionais estruturadas. Pois bem, esse trabalho vem da sua inspiração em tocar nas ruas, mais especificamente debaixo de um dos viadutos de Nova Jersey, em decorrência das paralisações forçadas pela COVID-19. Nessas ocasiões, Malaby se apresentou com um sax trio, mas também contou com a presença de outros amigos músicos que iam quebrar o tédio nesse cenário aberto com transeuntes trafegando por ali, ainda que a distância. Esses encontros sedimentaram o repertório de standards e originais que deram vida à The Cave of Winds, álbum de estúdio com um sax-trio acrescido da presença do guitarrista Ben Monder. O time é de peso! Malaby nos saxes, Michael Formanek no contrabaixo, Tom Rainey na bateria e Ben Monder com seu distinto som de guitarra psicodélica. Na verdade, essa faceta de se apresentar ao ar livre deve ter provocado uma certa nostalgia de início de carreira em Malaby, pois é exatamente com essa mesma banda, com esses mesmos músicos, que ele gravou seu primeiro álbum Sabino (Arabesque, 2000), com a diferença de que o posto da guitarra em 2000 era ocupado por Marc Ducret. O som psicodélico da guitarra acrescido dos improvisos acústicos -- que ora são totalmente livres, outrora provoca uma tratativa free-bop desconstrutiva aos standards -- confere a essa gravação uma concepção crua, visceral e fresca ao mesmo tempo. O álbum conta com uma free improv em 18 minutos -- com o quarteto variando bastante em suas dinâmicas e abordagens, incluindo com partes em que Formanek utiliza a sonoridade do arco no contrabaixo -- e mais uma tratativa mais estrutural e caricata aos restantes dos temas, com bastante variações tonais e modais. O tema "Corinthian Leather" é uma (des)construção de "Woody 'n You", de Dizzy Gillespie, e o tema Closer "Just Me, Just Me" é uma versão mutante do standard "Just You, Just Me", com um melodismo cavernoso e caricato.
Aqui estamos diante de um excelente exemplo de como os estilos do neo-bop e do post-bop têm se trajado nos últimos tempos -- e nas mãos de um dos maiores contrabaixistas das últimas décadas. O talento de Boris Koslov, nascido na Rússia e radicado nos EUA desde o início dos anos 2000, pode ser apreciado em álbuns de várias bandas e vários músicos tais como os trompetistas Alex Sipiagin e Brian Lynch, o pianista David Kikoski, a orquestra Mingus Big Band, o trombonista Robin Eubanks, além de participações em álbuns de músicos russos. Em sua carreira solo, o contrabaixista chega agora em seu terceiro tento com este álbum acima: antes, ele havia lançado o registro do seu projeto com contrabaixo solo chamado Double Standard (Not On Label, 2010) e o álbum Conversations At The Well (Criss Cross, 2016). Explorando diferentes tipos de contrabaixo (acústico, elétrico, piccolo bass), Boris Kozlov apresenta aqui sua estreia pelo selo Posi-Tone com um quinteto formado com o saxtenorista e flautista Donny McCaslin, o vibrafonista Behn Gillece, o tecladista Art Hirahara e o excepcional baterista Rudy Royston -- e quem acompanha jazz contemporâneo sabe do peso que tem esses nomes. O resultado é uma música contemporânea formada por temas e baladas impressionistas, requintadas ambiências modais, grooves distintos e ricas aplicabilidades rítmicas, ora evocando um neo-bop mais ligeiro, ora deixando as rítmicas implícitas em característicos contrapontos do mais contemporâneo post-bop. Destaque para o excelente timing do dedilhado de Kozlov em seus ágeis improvisos em contrabaixo-solo.
***¹/2 - Joel Lyssarides - Stay Now (ACT Music, 2022)
Quem acompanha as cenas jazzísticas europeias sabe que não é de hoje que os países escandinavos -- principalmente Dinamarca e Suécia -- são um dos redutos mais pulsantes e ricos de grandes músicos e grandes bandas. E qualquer jazzófilo mais antenado sabe o quanto a gravadora alemã ACT Music tem enriquecido o jazz e a música europeia contemporânea. Nesta sua estreia pela gravadora, o jovem pianista sueco em ascensão Joel Lyssarides apresenta 12 originais no esquema padrão de tema-improv-tema, baseando-se em características advindas tanto do jazz americano quanto da música contemporânea europeia -- ou seja, para efeito de referência ouve-se ecos advindos tanto do célebre piano-trio do falecido pianista sueco Esbjorn Svensson quanto do trio do pianista americano Brad Mehldau. A melodiosidade do piano de Joel Lyssarides recebe uma envolvente tratativa sonora e improvisativa do contrabaixista Niklas Fernqvist e do baterista Rasmus Blixt. Um álbum agradável para curtir de olhos fechados. Vida longa ao trio!

**** - Dave Rempis & Avreeayl Ra - Bennu (Aerophonic Records, 2022) 
A passagem do ano de 2020 para o ano de 2021 compreendeu numa das épocas mais tumultuadas da história dos EUA: a COVID-19 obrigava o isolamento social e o lockdown em vários setores da economia e da sociedade, e as tensões sociais do Black Lives Matters eclodiram por causa da violência policial contra afro-americanos, era a época das tumultuadas eleições americanas com direito à invasão da Casa Branca pelos supremacistas, e em seguida sobreveio um dos mais fortes invernos em décadas. São esses acontecimentos que o baterista Avreeayl Ra, 74 anos, e o saxofonista Dave Rempis, 46, ambos do cenário de Chicago, citam como o ponto de ebulição para esta gravação em sax-duo. Impossibilitados de se reunirem em formatos maiores -- lembrando que Ra e Rempis se encontram regularmente desde os anos 2000 em outros combos --, saxofonista e baterista contam que essa gravação foi o registro de uma apresentação por meio de uma live que eles fizeram para seus ouvintes. O formato de sax-duo -- sem o amparo harmônico de um contrabaixo e um piano -- já é um combo clássico dentro dos meandros da free music. Mas Dave Rempis e Avreeayl Ra ainda não tinham se aventurado neste formato, apesar de terem sido parceiros em um trio com o contrabaixista Joshua Abrams, que logo se expandiria para um quarteto com a entrada do pianista Jim Baker, em 2016: vide os álbuns Aphelion (2014), Perihelion (2016) e Apsis (2019), os três pelo selo Aerophonic. Agora, pois, os dois músicos se unem nesta empreitada onde a função da bateria e do sax é soarem tanto ritmicamente unidos quanto melodiosamente envolvidos: e para tanto, Avreeayl Ra mostra sua admirável maestria em usar percussões e baquetas personalizadas para variabilizar suas rítmicas e timbres, ao passo que Dave Rempis também explora amplas possibilidades melódicas, timbrísticas e improvisativas dos seus saxes alto e tenor. O título do álbum é uma inspiração no símbolo do Pássaro Bennu, uma divindade egípcia (provavelmente uma inspiração para o mito da Fênix, da Grécia Antiga) que, como diz a lenda, era uma divindade nascida das sombras do início dos tempos: daí a alusão, a temática da música que renasce e se renova em tempos sombrios.
Um dos selos escandinavos mais interessantes é o Hubro, gravadora norueguesa inspirada em jazz contemporâneo, música erudita contemporânea, pós-minimalismo, new music, folk contemporâneo e cercanias -- lembra um pouco as abordagens da gravadora alemã ECM, mas dentro do conceito sonoro minimalista e paisagístico nórdico. E a violinista Benedicte Maurseth é conhecida por sua abordagem sempre calcada na música tradicional norueguesa e escandinava, tendo mergulhado também em instrumentos barrocos e medievais como a viola d'amore. Neste álbum acima, então, a violinista traz inspirações dessa sua jornada na música nórdica folk e medieval e mescla com elementos contemporâneos da eletrônica, do pós-minimalismo e música erudita. Entre diversas outras inspirações, um dos fundamentos que mais inspira Benedicte em termos de temática e conceito sonoro é a ecosofia, a escola de filosofia ambiental desenvolvida por Arne Næss, que afirma que a humanidade não é o centro do mundo natural, mas sim um participante dele: é o que inspira a faixa “Heilo”, que traz os músicos em variações que ocorrem de acordo com o ritmo do som característico dos pássaros. A faixa “kollasj I” resume de várias maneiras a visão por trás de todo o conceito do álbum: consiste em entrevistas com o tataravô de Benedicte, Franz Gustav Andersson Törna, do norte da Suécia, e seu bisavô Leif Maurseth, ambos caçadores e pastores de renas. E assim cada faixa traz uma história campestre, pastoril, da natureza, com sons tradicionais nórdicos, inspirações medievais, inspirações nas montanhas da Noruega e na temática folk como um todo. Essa ambiência de música folk-minimalista acrescida de vibrafone, percussão, efeitos eletrônicos e fiddle cria uma amalgama um tanto transcendente. Benedicte Maurseth toca hardanger fiddle (uma espécie de violino tradicional da Noruega) e está acompanhada de Mats Eilertsen (contrabaixo, electrônicos) e Håkon Stene (vibrafone, percussão electrônicos) mais outros músicos convidados atuando com langleik (instrumento de corda tangida do folclore norueguês), efeitos, saxes, guitarra e outros.