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A sensibilidade composicional do baterista Tyshawn Sorey: polirritmias, free music e abstrações entre sons e silêncio


Um dos músicos e compositores americanos mais elogiados nos últimos anos pela crítica especializada em jazz e música erudita contemporânea é o baterista -- e multi-instrumentista: pianista, trombonista, e etc -- Tyshawn Sorey. Quem acompanha jazz contemporâneo deverá se lembrar da suas magistrais atuações ao lado do saxofonista Steve Lehman e do pianista Vijay Iyer: o álbum Blood Sutra (Artists House, 2003), lançado pelo emblemático Vijay Iyer Quartet, é um dos primeiros registros, a que me recordo ter ouvido na primeira metade dos anos 2000, a evidenciar a maestria de Sorey no conduzir de uma bateria que já é caracterizada mais pelas polirrítmicas rufadas do m-base do que apenas pelas as convencionais marcações de caixa, bumbo, pratos e chimbal. Tendo como uma das suas principais inspirações e influências esse conceito do m-base, elaborado pelo saxofonista Steve Coleman, as baquetas polirrítmicas de Sorey também podem ser ouvidas no álbum The Mancy of Sound (Pi Recordings, 2011) lançado pelo próprio Steve Coleman, saxofonista esse que nas últimas décadas vem inovando o jazz sobremaneira com essa sua linguagem intrincada e suas tratativas composicionais em compassos mais complexos -- ou seja, os inusuais compassos ímpares e compostos que evidenciam marcações e contrapontos mais quebradiços, quialterados e polirrítmicos. Posteriormente, porém, o estilo de Sorey também passa a sofrer uma determinada influência do free jazz braxtoniano, onde ele começa a prezar por efeitos e silêncios esparsos no espaço e no tempo de cada composição, direcionando sua abstração rítmica à um nível elevado de sofisticação introspectiva. Para efeito de comparação, basta ouvir dois álbuns próprios de Sorey para atestar esse redirecionamento: Oblique-I (Pi Recordings, 2011), onde as polirritmias do m-base ainda são o principal ponto focal; e Alloy (Pi Recordings, 2014), onde seu tino composicional já evolui para esse tipo de abstração mais espacial. Essa fase de 2014 em diante, onde Sorey passa a contar com o distinto pianista Cory Smythe e o contrabaixista Chris Tordini, é amplamente mais direcionada para a composição de peças cada vez mais abstratas, o que também lhe influenciará como baterista e como o arranjador que segue experimentando diversos formatos e texturas. O álbum The Inner Spectrum of Variables (Pi Recorfings, 2016), por exemplo, nos traz uma amostragem desse seu piano-trio -- com o pianista Cory Smythe e o contrabaixista Chris Tordini -- imerso nos sons texturais de um quarteto de cordas. E esse redirecionamento mais "erudito" é engatilhado, sobretudo, pela estadia que Sorey teve com o mestre Anthony Braxton entre 2009 e 2011, período no qual se graduou em composição pela Wesleyan University. Contudo, essa nova ênfase não significará um abandono total da polirritmia. Sorey não apenas continua a contribuir como baterista imbuído de destreza polirrítmica, como também passa a contrabalancear em sua carreira esses dois polos das extremidades criativas: os conceitos polirrítmicos advindos do seu inicial contato com o m-base, e o conceito braxtoniano de espaçamentos, efeitos e sombreamentos entre sons e silêncio. E é esse dualismo que enriquece ainda mais seu arsenal de possibilidades. Clique nas imagens para ouvir e saber mais.

Após estudar com Anthony Braxton na Wesleyan University, Tyshawn Sorey embarca em um doutorado na Columbia University, onde absorve valiosas influências de mestres como George E. Lewis (célebre trombonista e compositor, tanto de jazz como de música erudita) e Fred Lerdahl (célebre compositor erudito conhecido por seus escritos e teorias sobre espaços de frequências tonais, e autor do conceito "Cognitive Constraints on Compositional Systems"). Essa fase, onde ele se aprofunda em teoria musical e composição, lhe servirá de sólida base para o amplo reconhecimento midiático que passaria a ter após 2015 como um dos mais proeminentes jovens compositores americanos de música contemporânea. Mas, mesmo antes, já era possível sentir seu aguçado faro composicional através de peças como "Seven Pieces for Trombone Quartet" e "Permutations for Solo Piano", ambas lançadas em 2007 no box de 2 CD's that / not (Firehouse 12 Records). Um outro fator que corroborou para esse reconhecimento mais amplo, foi a concepção de não-gênero que o baterista-compositor passou e mentalizar em sua retórica e em sua carreira. A sua ideia é que -- apesar do inevitável fato dos conceitos, procedimentos e composições se estilizarem e receberem, portanto, rotulações estéticas e estilísticas -- essa sua liberdade musical não seja criativamente delimitada ou limitada por estilos, gêneros e/ou subgêneros. A sua maior aspiração, portanto, é que o público o veja não apenas como um músico e compositor entusiasta de misturas e hibridismos -- uma vez que sua obra composicional é mesmo um misto de procedimentos jazzísticos, eruditos, ritualísticos, espirituais, idiossincráticos e etc --, mas principalmente como um músico e compositor metamorfo que leva a sério essa arte de se adaptar aos vários ambientes e momentos criativos da música contemporânea: do jazz à música erudita, da livre improvisação à composição escrita, da aleatoriedade à elaboração prévia de ideias, da canção ao instrumental... e por aí vai. E é uma postura pós-moderna por excelência.



Em termos de estilo próprio, muitas das composições de Sorey são marcadas por intercalações de música escrita com música improvisada em peças de duração estendida. E nos dois casos -- tanto na música escrita quanto na improvisada --, as artes plásticas é uma das suas principais inspirações em seus sons e texturas. O conceito de composição instantânea, onde o compositor atua como maestro e vai ditando as entradas dos músicos, as dinâmicas e as texturas em tempo real através de sinais ideográficos de regência ou através de cartazes, também é uma prática criativa comum em sua obra -- uma pratica musical contemporânea que já pôde ser apreciada em diferentes e precursoras abordagens de mestres como Anthony Braxton, Butch Morris e John Zorn. Com essas ideias -- permutadas, intercaladas e entrelaçadas --, Sorey vem escrevendo composições e elaborando peças de grande relevância e lançando álbuns que são seguidamente aclamados, ano a ano. Em 2017, Tyshawn Sorey foi premiado com uma honrosa bolsa MacArthur Fellowship na categoria "Genius", dada somente para artistas que exacerbam os limites da criatividade dentro comunidade artística americana. Em 2018, o baterista-compositor recebe uma United States Artists Fellowship, em Chicago. Ainda em 2018, seu álbum Pillars (Firehouse 12 Records) foi considerado um dos principais registros orquestrais do ano e da década de 2010. E nos últimos anos vem sendo comissionado, como compositor residente, por grandes ensembles e orquestras e companhias tais como International Contemporary Ensemble, Seattle Symphony e Allarm Will Sound. Suas peças vocais "Cycles of My Being" e "Save the Boys" e "Death" -- nas quais Sorey faz uma mistura de canto operístico com corais que transmutam as influências de canções do negro spirituals -- foram estreadas, por exemplo, pela Lyric Opera of Chicago e pela Opera Philadelphia. Ademais, recentemente Tyshawn Sorey também foi um dos poucos compositores negros a ser convidado para apresentar suas peças no histórico Festival de Música Nova de Darmstadt, Alemanha -- o que não é pouco, visto que esse histórico festival é caracterizado, ainda, por um certo formalismo de identificação europeia onde são raras essa e outras práticas inclusivas. Uma das suas últimas comissões, já em 2022, lhe colocou o desafio de escrever uma peça contemplativa para a célebre Capela Rothko, cinquenta anos depois que o compositor Morton Feldman foi exclusivamente comissionado para compor uma peça para esse monumento da arte moderna: a peça de Sorey tenta capturar a atmosfera da capela que foi idealizada e financiada a partir da segunda metade dos anos de 1960, na intenção de se criar um espaço de comunhão entre as pinturas do artista plástico Mark Rothko e o caráter meditativo e sinestésico das suas longas telas de tons abstratos em cor única. Uma peça a ser aguardada em um eventual álbum em parceria com algum dos grandes ensembles do círculo da new music americana.


 
Além de um resumo biográfico-introdutivo sobre as facetas da carreira e da arte musical de Tyshawn Sorey, este post tem a função de indicar aqui um dos seus últimos lançamentos: entre outros acontecimentos, o ano de 2021 marcou a carreira de Sorey com um interessante álbum erudito que documenta sua parceria com o célebre e interdisciplinar ensemble Allarm Will Sound. O álbum, intitulado For George Lewis (Cantaloup Music, 2021), traz uma longa peça em homenagem ao trombonista e compositor de Chicago George E. Lewis e mais duas peças chamadas "Autoschediasms 2019, no.4: St. Louis" e "Autoschediasms 2020: Video Chat Variations". A primeira peça, em homenagem ao trombonista e compositor de Chicago é composta de notas alongadas e dissonâncias esparsas que também lembram alguns sombreamentos braxtonianos ao longo da peça -- lembrando, por vezes e também, os longos indeterminismos de Morton Feldman. As outras duas peças intituladas "Autoschediasms..." são mais caracterizadas pela improvisação livre e pela composição espontânea através de sinais e cartazes ideográficos, evidenciando os já citados ecos do conceito "Conduction" de Butch Morris. A segunda parte, "Autoschediasms 2020: Video Chat Variations", é um retrato perfeito, aliás, de como a criação musical pôde fluir no ápice da pandemia, pois foi curiosamente gravada de forma remota, onde o compositor indicava as entradas, as dinâmicas, as texturas e todo o fazer musical em tempo real, e os músicos -- isolados, cada um em suas casas e estúdios -- se concentravam e se contracenavam para criar a peça através dos cartazes ideográficos que Sorey indicava aqui do outro lado -- essa performance, inclusive, está disponível no Youtube para os mais curiosos. O projeto é interessante tanto pelas ideias frescas de Tyshawn Sorey como pela sua parceria com o Allarm Will Sound, um dos principais ensembles de música contemporânea dos EUA e do mundo. Para o ouvinte que vem de fora, que vem dos meandros do pop e da eletrônica, basta lembrar que o Allarm Will Sound é conhecido por empreender-se em comissionamentos um tanto interdisciplinares, o que vem se configurando como uma tendência e uma prática expansiva para a música contemporânea: na primeira metade dos anos 2000, por exemplo, a parceria com o DJ Aphex Twin surtiu efeito no épico registro Acoustica: Alarm Will Sound Performs Aphex Twin (2005), um dos álbuns mais icônicos da música erudita contemporânea dos últimos tempos. Já para o leitor e ouvinte que já é desde sempre antenado nessas contemporaneidades, esse lançamento de 2021 é interessante porque reforça a síntese de que os atuais ensembles eruditos vêm aderindo abertamente às artes da livre improvisação orquestral e da composição instantânea, práticas de criação musical dantes desenvolvidas apenas num determinado range entre o avant-garde jazz americano e a livre improvisação europeia.




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