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Entrevista com Fabricio Vieira – Jornalista: a crítica musical e o panorama do free jazz na America Latina e no mundo

O blog Instrumental Verves inicia, aqui, uma série de esporáricas entrevistas com músicos, jornalistas, blogueiros e quem mais se achegar para um bate-papo sobre as várias instâncias da música e da cultura. O primeiro entrevistado é o jornalista e crítico musical e literário Fabrício Vieira. Atuando como um profissional de redação para a Folha de S.Paulo, o Valor Econômico, entre outros veículos jornalísticos, e tendo mestrado em Literatura e Crítica Literária, Fabricio Vieira também tem sido um dos pioneiros da informação sobre jazz e músicas de vanguarda na internet e blogosfera brasileira. Seu blog FreeForm, FreeJazz é um dos principais e mais completos sítios alternativos com informações sobre jazz que podemos acessar no Brasil. E, considerando sua especialidade -- que é abordar as estéticas do free jazz, livre improvisação, avant-garde, música outsider como um todo --, isso não é pouco. Recentemente, no período de isolamento pandêmico, Vieira apresentou em seu blog algumas das suas mais agudas pesquisas de registros essenciais para o ouvinte-leitor que quer ampliar seu horizonte de audições: vide, por exemplo, as listas “101 Álbuns Essenciais do FREE JAZZ” e “AMÉRICA LATINA: Free The Jazz!”. Também sendo frequentemente convidado para colaborar com magazines e músicos internacionais, Fabricio Vieira colaborou com a revista portuguesa Jazz.pt e é autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records). Abaixo, o jornalista nos conta mais da sua experiência, suas observâncias e pesquisas ligadas a jornalismo musical, mídias alternativas, música instrumental e improvisada e etc. Vieira ainda nos traz um panorama da free music no Brasil, América Latina e no mundo, além de nos indicar alguns dos músicos, bandas, álbuns, filmes e livros sobre música e artes que mais lhe impactaram e lhe impactam. Clique nas imagens para acessar alguns dos ótimos artigos escritos pelo jornalista!


Ao que me recordo, leio o Free Form, Free Jazz há mais de uma década... Quando e como foi o seu encontro com a música? Conte-nos como se deu esse start de escrever um blog sobre free jazz.

FV: A música se tornou central na minha vida a partir de uns 12, 13 anos. O rock por um bom tempo foi o grande foco, em especial as vias mais alternativas, pós-punk, grindcore, shoegaze, extreme metal, industrial, e foi assim durante boa parte dos anos 90. Somente na faculdade um cara que estudava comigo me apresentou o que chamava de “música contemporânea”, Stockhausen, John Cage, Steve Reich, Flô Menezes, e uma revolução na escuta aconteceu... O jazz seria uma próxima etapa. E curiosamente veio por meio de um livro, “O Jazz: do rag ao rock”, o clássico do Joachim-Ernst Berendt que fui ler mais por curiosidade, aquele “rock” no título... Os olhos saltaram quando, ao falar sobre o free jazz, destacava as palavras “ruído” e “atonalismo”. Com aquilo na cabeça, encontrei em uma loja um CD do Cecil Taylor, uma coletânea que fazia parte da coleção “A Jazz Hour With”, da Movieplay, e esse foi o primeiro disco de jazz que ouvi. A partir daí, um novo mundo se abriu. O FreeForm, FreeJazz viria apenas uma década depois, após anos em que a free music havia passado a ocupar meus interesses de forma protagonista. Na época, já escrevia sobre jazz para a Folha de S.Paulo há um tempo, mas achei que seria interessante ter um espaço onde pudesse escrever o quanto e quando quisesse. O FreeForm, FreeJazz teve sempre apenas um intuito: ajudar a divulgar a free music, ajudar a levar esta música a pessoas que poderiam se interessar por ela.   

Na década de 2000, os blogs tiveram um papel muito ativo na disseminação da música como um todo através dos famigerados serviços de hospedagem e links de compartilhamento de MP3. Depois, o mercado e os governos trataram logo de moralizar e impor barreiras legais para esse compartilhamento, e os blogs diminuíram. Mas os blogs informativos nunca sumiram e outras formas de mídia alternativa também surgiram. Naquele momento dos anos 2000, em específico, dá para dizer que os blogs tiveram tanta ou mais importância que os grandes jornais e magazines especializados na disseminação da música? Como você analisa a atuação e a importância dos blogs e da mídia alternativa na atual era do streaming?

FV: Sem dúvida os blogs musicais tiveram um papel fundamental na disseminação de discos e artistas, novos e antigos, e isso foi especialmente importante para quem estava interessado em free music duas décadas atrás. Até meados dos anos 2000, antes de o streaming se tornar amplo e dominante, buscar blogs que disponibilizassem arquivos de MP3 era fundamental, talvez então o principal modo de descobrir música. Muitos artistas fundamentais tive acesso pela primeira vez dessa forma, Frank Wright, Kaoru Abe, Irène Schweizer, Evan Parker, Borbetomagus, tantos outros... Alguns desses blogs sobreviveram e fazem isso até hoje, como o Inconstant Sol. Esses não costumavam ser espaços propriamente noticiosos, para saber o que estava acontecendo na free music. Traziam informação, sim, por meio dos textos que falavam sobre os discos disponibilizados, mas não eram locais destinados a acompanhar o que estava rolando. Em paralelo, surgiram sites/blogs mais focados em informar, preenchendo uma outra lacuna. O The Free Jazz Collective, que está no ar desde 2006, é o principal desses. Ele foi criado na Bélgica, pelo Stef Gijssels, e com o passar dos anos integrou vários colaboradores, o que permitiu que trouxesse resenhas quase diárias, se tornando o principal espaço de informação sobre novidades de free jazz/free impro. Juntando essas duas faces dos blogs, o que fizeram pela disseminação do free no século XXI... nenhum veículo tradicional de imprensa chega perto. Na última década, houve a ampliação das plataformas, que se tornaram outro modo fundamental de fazer a informação circular, e o Bandcamp é sem dúvida o principal espaço para a free music. Não só por ser mais interessante para os músicos, ao menos dessa seara, mas por concentrar um número muito amplo de material para ouvir e pesquisar, tanto novo quanto histórico. De qualquer forma, ainda é nos blogs e sites especializados onde o leitor/ouvinte vai encontrar informação, contínua e atualizada, sobre free music. Antigamente me incomodava a grande imprensa dar pouco espaço ou mesmo ignorar, a depender da época, essa música. Hoje acho que não faz diferença, as informações circulam e chegam a quem deve chegar. Basta ver como o interesse pela free music cresceu na última década aqui no Brasil mesmo. 

Existe mesmo uma tendência no sentido de se ter cada vez menos espaço para escrever sobre música nos jornais e revistas? Ou essa restrição é apenas em relação à música instrumental? Como se deu essa diminuição?

FV: O jornalismo impresso mudou muito nas últimas duas décadas. Todos os veículos encolheram, perderam espaço progressivamente com os anos. Não poucos deixaram de circular. E na área cultural não foi diferente. Além da diminuição de espaço para escrever, vale ter em mente que os cadernos culturais refletem muito o perfil de seus editores, que podem ser ou não pessoas musicais, e da equipe de repórteres e colaboradores. E isso se reflete nas áreas que ganham mais destaque e nas que perdem de tempos em tempos, com as mudanças de perfil das equipes. Junto a isso estão as radicais mudanças nos hábitos de leitura neste século, com o acesso massificado à internet, o surgimento dos veículos digitais independentes... Na disputa pela atenção do leitor, hoje com opções infinitas, alguns vão optar por dar preferência àquilo que mais tenha potencial de atrair as pessoas. Nesse jogo, como fica o jazz, a música instrumental, os experimentalismos sonoros? Não estão na ordem de prioridades, com certeza. Para que não desapareçam da imprensa tradicional, é necessário que alguém lá dentro esteja interessado nessas vias artísticas, não vai ser algo “natural” que vai levá-los às páginas. Não que sejam vetados; nunca tive as portas fechadas para o free jazz, por exemplo. Mas é no mínimo muito indicativo de como as coisas sempre foram o fato de eu ter sido o primeiro a escrever na Folha (e possivelmente o mesmo se daria em outros jornais à época) sobre a música de David S. Ware, Joe Morris, Matthew Shipp, Joëlle Léandre, Mats Gustafsson... E isso após 2005, que é quando comecei a escrever com regularidade sobre música. Quero dizer, os críticos que vieram antes e tinham ainda muito espaço ignoravam muito do que de mais inventivo era feito no universo jazzístico e da improvisação. O tema nunca foi vetado; apenas certo conservadorismo predominava e isso se refletia nas reportagens, críticas e também nos line-ups de festivais de jazz.  

GALINA USTVOLSKAYA & REINBERT DE LEEUW



Tenho uma certa impressão de que nos últimos tempos a expressão popular “gosto não se discute” também invadiu muitas das mentes dos musicólogos e críticos por detrás dos canais, sites e veículos da mídia especializada em música. Também frequentemente se lê algo como a “crise da crítica” ou algo do tipo... Na atual era dos hibridismos, individualismos e ecletismos e outros "ismos" indefiníveis, a crítica musical ainda existe em sua essência? Qual o papel da crítica musical hoje? Um jornalista ainda consegue fazer uma análise de “bom” ou “ruim”, e exprimir juízo de valor em termos qualitativos, técnicos e estéticos?

FV: A crítica cultural, como as próprias artes em si, vive períodos de crise de tempos em tempos. A consciência desta crise crítica pode nos ajudar a encontrar novos caminhos, a escapar das armadilhas inerentes a esse tipo de atividade. A crítica musical/literária/cinematográfica tem vários caminhos e espera-se que quem adentre esse universo conheça os rumos possíveis e qual deles vai seguir. Leyla Perrone-Moisés, no instigante “Falência da Crítica” (Perspectiva, 1973), destaca diversas possibilidades críticas que foram dominantes em um período ou outro: a crítica impressionista, a estruturalista, psicanalítica, sociológica, semiológica, biográfica, ética etc. Tem um tipo que ela chama de “crítica do gosto e do desgosto”, que é uma posição impressionista que parece dominar sites, blogs, jornais, revistas (não acadêmicos) em nossos tempos. Crítica mesmo pouco se faz, na verdade. O que temos no máximo são resenhas críticas, com muitas mais se assemelhando a um comentário pessoal, parágrafos de achismos na linha “gosto/desgosto”. Agora, tem a outra ponta: o que o leitor quer? Quando ele acessa o FreeForm, FreeJazz, o Instrumental Verves ou a página de cultura de um periódico qualquer ele busca o quê? Caminhos de reflexão e descoberta ou só uma olhada rápida para decidir com o que vai gastar alguns minutos, considerando que a música está, grande parte das vezes, a um click? 

Como leitor, vou contar uma história. Em 1996 li um texto do Augusto de Campos, no extinto caderno Mais!, da Folha, sobre a compositora russa Galina Ustvolskaya. O texto me deixou muito impressionado e curioso para conhecer aquela música. Recortei o jornal, guardei o texto até encontrar um disco dela. Era 1996 e não tinha esse negócio de streaming, plataforma, Youtube. Para ouvir algo novo, havia basicamente três caminhos: comprar o disco, conhecer alguém que o tivesse para emprestá-lo ou ouvir no rádio. Naquele momento, Galina Ustvolskaya não estava disponível em nenhuma dessas opções para mim. Eu só conseguiria comprar um disco com uma peça dela em 2001. Foram cinco anos de espera, com o recorte do artigo guardado, até ter a oportunidade de ouvir aquela música e reler o que Campos dizia sobre ela. Essa para mim deveria ser a função básica da crítica musical: estimular, inquietar as pessoas, apresentar novos mundos sonoros. Crítica não pode ser simplesmente gosto/desgosto. Ao menos não deveria. 

E como que você sente, hoje, o processo de chegada dessas músicas mais exploratórias ao público? Dá para ter uma experiência abundante nas plataformas de streaming? Quais tem sido as rotas mais comuns de tráfego e chegada da informação sobre esse tipo de música ao público ávido por música nova?

FV: Mais do que nunca, está tudo aí à mão, basta conhecer as rotas. O básico é: acompanhar as páginas dos principais selos (a maioria dos ligados à free music utilizam o Bandcamp; alguns usam mais o Spotfy); acompanhar as páginas dos músicos (muitos deles têm sites ou conta do Bandcamp); e seguir os principais sites/blogs, que vão fazer o garimpo do que está ocorrendo no mundo (é praticamente impossível conseguir ver tudo que está saindo por conta própria). E para quem vai realmente adentrando este mundo, os livros ainda são um veículo importantíssimo para aprofundar conhecimento. Muita coisa tem sido editada nos anos 2000 no universo da free music, especialmente em inglês, oferecendo possibilidades múltiplas para conhecer melhor essa música.    

Sempre tive a impressão de que não é correto falar e escrever sobre música tentando explicar quais sensações e emoções que uma determinada composição ou um determinado álbum pode causar em quem ouve, uma vez que  cada ouvinte pode sentir a música diferentemente... – prefiro explanar sobre algumas características musicais mais observáveis. Como jornalista, você também tem essa diretriz de descrever, relatar, noticiar, pesquisar, resenhar e etc, mas deixando que cada ouvinte-leitor tenha sua própria experiência emocional? Ou a faceta de tentar fazer com que o ouvinte "enxergue" emoções e sensações por meio da escrita também lhe é uma prática válida? O free jazz, por exemplo, é um tipo de música que pode ser explicada ou é apenas para ser sentida?

FVAqui voltamos ao tema do papel da crítica musical. Existe espaço para diferentes perspectivas e cada um vai encontrar seu caminho de escrita. O free jazz pode ser explicado, sim, escrito a partir de uma perspectiva técnico-teórica; Ekkehard Jost fez isso no clássico “Free Jazz” (1975). Mas que leitor será alcançado, fora do mundo acadêmico, com textos assim? Tanto para quem escreve quanto para quem apenas é ouvinte, acho que a questão primeira a se levantar é: o que é música para mim? Para que serve? É só divertimento, distração, algo para relaxar da estafa cotidiana? Ou é uma linguagem em constante reinvenção, uma expressão cultural sempre em transformação que tanto espelha quanto modifica a sociedade? A partir das respostas, isso vai ecoar na forma que você escreve, ouve, vivencia a música. O tom dos textos que escrevo inevitavelmente muda de acordo com o disco (show, livro) que esteja sendo resenhado. Há trabalhos que demandam mais elementos contextuais, históricos. Outros, o foco é na obra em si. Há artistas que irão nos estimular a escrever mesmo, outros podem soar mais distantes, rendendo apenas um breve comentário. Acontece não raro de o disco parecer bom, mas não se encontrar precisamente o que dizer. Às vezes uma via descritiva acaba sendo o melhor caminho. Como nem sempre é possível dizer o que gostaria para o leitor, entram em ação as famigeradas estrelinhas, com a função de indicar “não deixe de ouvir isso!” ou “ouça apenas se tiver tempo”... 

METE RASMUSSEN/ INGEBRIT HAKER FLATEN/ AXEL FILIP

Pelo que você observa e cobre como pesquisador e jornalista, quais as cenas mais pulsantes hoje em termos da free music internacional? Pode nos dar um resumo dos músicos e gravadoras envolvidos nessas cenas?

FVDeixando Nova York e Chicago de lado, olhando para a música feita no século XXI fora dos Estados Unidos, destacaria as cenas escandinava e portuguesa. A Escandinávia tem sido um importante palco para o jazz mais inventivo há décadas, com nomes aparecendo para o mundo de tempos em tempos. Mas o quanto essa região se tornou pulsante e vital a partir dos anos 2000 é impressionante. Desde artistas que começaram antes, mas que tiveram a oportunidade de se tornar mais conhecidos nas últimas décadas, como Mats Gustafsson, Lotte Anker, Frode Gjerstad, Sten Sandell, Paal Nilssen-Love, Raymond Strid, Ingebrigt Haker Flaten, a artistas que apareceram em anos mais recentes, como a Mette Rasmussen, o baterista Gard Nilssen, os trompetistas Niklas Barnö e Magnus Broo, a Maja Ratkje ou os grupos Atomic, The Thing, Fire, Attack, Larg Unit, a Escandinávia é um celeiro sonoro incrível. Não dá para achar que conhece a free music atual sem acompanhar o que está sendo feito nessa parte do globo. Tem chamado a atenção o número de mulheres saxofonistas que estão fazendo a música acontecer por lá, seguindo uma trilha aberta por Lotte Anker décadas atrás: as dinamarquesas Amalie Dahl, Laura Toxvaerd, Mia Dyberg e a já citada Mette Rasmussen, as suecas Anna Högberg e Elin Larsson, as norueguesas Mette Henriette, Hanna Paulsberg e Jenny Froysaa, isso apenas para lembrar das que já gravaram e puderam ser descobertas no exterior. 

Já Portugal vejo com uma realidade mais deste século mesmo, quando o número de músicos que fazem avant-jazz explode por lá. O relacionamento de Portugal com o jazz é antigo, pode-se voltar até a década de 1920, mas a cena, me parece, sempre foi mais restrita ao público local (não vamos esquecer que o país só se abre, com o fim do salazarismo, em meados da década de 1970). Na free music, Portugal tem um forte representante na ativa (e tocando no exterior) há décadas, o violinista Carlos Zíngaro. Mas a cena de lá foi descoberta e exportada mesmo nos anos 2000. E a partir de 2010 já tinham seu espaço bem demarcado no cenário global. É curioso que tenhamos visto no Brasil mais artistas da Escandinávia que de Portugal. Que Luís Vicente, Ernesto Rodrigues, Maria do Mar, Rodrigo Pinheiro, Luís Lopes, Miguel Mira, Marcelo dos Reis, Rafael Toral, Gonçalo Almeida, dentre outros, nunca tenham vindo se apresentar no Brasil é espantoso. A genial trompetista Susana Santos Silva veio apenas uma vez e como convidada do Fred Frith! Rodrigo Amado, saxofonista sempre destaque nas listas de melhores do ano, tocou aqui apenas em 2013! Então tem esta cena portuguesa em ebulição que, tão próxima da gente por diferentes aspectos, permanece tão distante. Uma vantagem da cena portuguesa são os diversos selos locais dedicados à free music. Quem tiver interesse, vai encontrar a nata do que tem sido feito por lá em selos como Creative Sources, JACC, Cipsela, Partícula, Clean Feed (que tem um catálogo com muitos estrangeiros também), Carimbo Porta-Jazz, o novo Phonogram Unit, tudo com discos no Bandcamp (e outras plataformas), além de, em sua maioria, editarem também em formato físico, para quem gosta de ter o disco. Ouvir o que está sendo feito na cena de Portugal, destacadamente em Lisboa, Porto e Coimbra, está aí na mão, é só ir atrás. Agora aguardamos nossos produtores/curadores olharem para lá com mais atenção.     

E no Brasil? Parece que tivemos um aumento considerável de público e concertos a partir da década de 2010... Descontados estes dois anos pandêmicos, como você resume o cenário brasileiro da última década em termos das possibilidades de concertos, shows, festivais, músicos que por aqui estiveram, músicos propriamente brasileiros e etc? Podemos dizer que tivemos uma efervescência?

FVHouve uma mudança dramática na última década, um pouco mais. Vejo como um marco o ano de 2008, quando aconteceu a primeira visita do Peter Brötzmann ao país e a volta do Art Ensemble of Chicago, tudo isso em poucos meses e de uma forma acessível, no Sesc, não naqueles caros festivais elitistas que traziam, raramente, algum nome do free jazz de peso histórico, como o Cecil Taylor em 2007, mas que excluíam parte significativa do público interessado em free music. Aquele ano meio que foi uma faísca e dali para frente foram acontecendo sucessivamente eventos que deram oportunidade de levar a free music a mais gente e dar início à formação de um público e de novos artistas – além de, vale lembrar, permitir que Marcio Mattos e Ivo Perelman, dois pioneiros do free que tiveram que se estabelecer lá fora para fazer sua música, pudessem começar a se apresentar no país. A partir de 2010, muita coisa foi acontecendo em paralelo: os eventos dedicados à free music no Centro Cultural São Paulo (CCSP), sob a curadoria do Juliano Gentile; a criação pelo Sesc do Jazz na Fábrica, que passou a colocar sistematicamente em seu line-up músicos de free jazz/impro livre; vários festivais independentes que foram despontando; o surgimento de espaços como Ibrasotope (SP) e Audio Rebel (RJ, no qual seria inclusive gravado um disco do Full Blast); a atuação de produtoras como Desmonta, Norópolis e Uirapuru, fazendo a ponte para trazer músicos do exterior; a aparição de selos em diferentes lugares do país, como QTV, Seminal, Brava, Sê-lo, Submarine, Mansarda, dentre outros. Em São Paulo, importante destacar ainda o Circuito de Improvisação Livre, que se tornou um palco itinerante fundamental para apresentar artistas locais, estimular a criação sonora e levar a free music a diferentes lugares. Esses são apenas exemplos, não esgotam o que tem acontecido desde então, claro. O resultado disso tudo é que a free music passou a existir de fato entre nós, a fazer parte da nossa cena cultural. Claro que trata-se de uma música underground, mas é assim praticamente no mundo todo.  

RÁDIO DIÁSPORA



Nessa linha de música instrumental mais outsider (jazz, free music, exp, instrumental brasileiro e cercanias), quais os novos músicos e bandas do Brasil e da América Latina que você tem acompanhado e indica aos nossos leitores?

FVO que falei sobre Brasil também vale para a América Latina, a cena da free music ganhou muita força na região a partir dos anos 2000. Argentina, Chile, México e Colômbia, em especial, têm cenas bastante ativas. Para não ficar citando uma infinidade de nomes, vou destacar apenas um punhado de artistas que ando ouvindo mais nesse momento. A Argentina tem a cena jazzística e free mais viva da AL, muita coisa a ser descoberta e acompanhada, mas destacaria hoje a saxofonista Camila Nebbia. Ela estreou poucos anos atrás e mostra uma inventividade criativa impressionante, tanto como instrumentista quanto idealizadora de projetos inovadores. Os álbuns "Aura", de 2020, e “Corre el Rio de la Memoria...”, do ano passado, têm que ser conhecidos. E não dá para falar de Argentina e não citar a pianista Paula Shocron, que se sedimentou como uma das artistas obrigatórias da atualidade. São vários projetos e discos já lançados; ela começou mais ligada ao jazz e se embrenhou pelo free impro na última década, deixando trabalhos incríveis pelo caminho. O trio SLD é um de seus projetos fundamentais; do ano passado, vale muito ouvir “El Templo”, que ela gravou em trio junto com o William Parker. Do Chile, destacaria a contrabaixista Amanda Irarrázabal, que tem feito um trabalho de grande potência; ela acaba de lançar “Rayas”, ouçam. Vale parar para escutar também a violinista venezuelana Leonor Falcón, que já fez parte da Orquestra Sinfónica de Venezuela e tem se dedicado à free music nos últimos anos; ela editou há poucos dias o segundo volume de seu Imaga Mondo, um quinteto de jazz avant-garde muito interessante. Esses dias estava ouvindo um disco muito inquietante que saiu uns meses atrás, “Desciende”, um duo que reúne o flautista peruano Camilo Ángeles e a mexicana Concepción Huerta (eletrônicos), recomendadíssimo. 

Uma coisa que sinto é uma falta de maior integração entre Brasil e América Latina na free music, e isso seria sem dúvida muito frutífero para todos, público, músicos... Aqui no país, com a retomada dos shows presenciais, vai dar para voltar a ter a oportunidade de ver novas e novos artistas, coisa que os últimos dois anos deu uma quebrada. De novidade, acabei de receber um disco de um trio de Pernambuco, com instrumentistas que não conhecia. O álbum, “Grammelot”, estreia deles, está saindo neste mês pelo selo Boa Vista e recomendo bastante. O trio tem uma formação muito interessante, com a trombonista Neris Rodrigues, Leonardo Pellegrim (saxes) e Hugo Medeiros (bateria) e oferece um som com base jazzística, brasilidades e improvisação livre, uma instigante exploração instrumental. Também com uma base mais jazzística, tem o Conde Favela Sexteto, que lançou seu potente disco de estreia bem quando a pandemia estava prestes a eclodir, e voltou com marcante apresentação no retorno do Sesc Jazz, em outubro. Agora mais gente vai ter a oportunidade de vê-los ao vivo, o que é muito bom. De Minas Gerais apareceu durante a pandemia um potente duo de sax (Francisco Cesar) e bateria (Bernardo Caldeira), vale ficar de olho nos próximos passos deles. Outro bom fruto da pandemia foi “Fio”, álbum em duo com várias parcerias comandadas pela vocalista e improvisadora Inés Terra. E não dá para deixar de falar do Radio Diaspora, para mim o mais importante projeto ligado à free music feito no país atualmente. Romulo Alexis e Wagner Ramos levaram ao máximo as ideias de um projeto que em sua criação já prometia muito. Se eles ficassem na base trompete/bateria, considerando a inventividade ao extremo com que fazem isso, já seria um duo gigante. Mas eles vão além, trazendo outros elementos sonoros e adicionando participações preciosas, elevando em muito a potência basilar do projeto. O Radio Diaspora é um grupo que deveria estar circulando lá fora, rodando os mais destacados palcos da free music, sendo resenhado pelos principais veículos... Temos que descobrir uma forma de ajudar a fazer isso acontecer.

PAULA SHOCRON


Enquete Rápida:

Três músicos da história do jazz que mais te impactaram e seus álbuns:

FVCharles Mingus: “Mingus Ah Um” (1959); “Presents Charles Mingus” (1960); “The Black Saint and The Sinner Lady” (1963)

John Coltrane: “Meditations” (1965); “Om” (1965); “Interstellar Space (1967)

Cecil Taylor: “Student Studies” (1966); “Dark To Themselves” (1976); “Alms / Tiergarten (Spree)” (1989)

Três músicos/ bandas contemporâneas do jazz/ free jazz que mais te impactaram e seus álbuns:

FVThe Thing: “Garage” (2004) 

Matana Roberts: “Coin Coin: Gens De Couleur Libres” (2011) 

Eve Risser/ Benjamin Duboc/ Edward Perraud: “En Corps” (2012)

Três músicos/ bandas de música brasileira que mais te impactaram e seus álbuns:

FVHermeto Pascoal: “Zabumbê-bum-á” (1979)

Jocy de Oliveira: “Estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos” (1981)

Naná Vasconcelos: “Storytelling” (1995)

Três músicos/ bandas de outros gêneros que mais te impactaram e seus álbuns:

FVEinstürzende Neubauten: “Halber Mensch” (1985)

Napalm Death: “Scum” (1987)

Galina Ustvolskaya: “Compositions 1, 2, 3” (1971-75)

Três indicações de livros, seus autores e seus assuntos:

FV“Nothern Sun, Southern Moon: Europe’s Reinvention of Jazz”, Mike Hoffley (2005, Yale University Press)

“A Power Stronger Than Itself: The AACM and American Experimental Music”, George E. Lewis. (2008, The University of Chicago Press)

“Música e Mediação Tecnológica”, Fernando Iazzetta (2009, Perspectiva)

Três indicações de filmes/ documentários que envolvam música ou artes:

FV“Rising Tones Cross” (1985), de Ebba Jahn 

“O Mandarim” (1995), de Julio Bressane

“Endless Waltz” (1995), de Koji Wakamatsu