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Álbuns 2022: Dave Gisler Trio, Jaimie Branch, Stefano Moliner, John Hébert, yMusic, Michael Formanek, Palour Tape +


★★★★¹/2 - Dave Gisler Trio with Jaimie Branch... - See You Out There (Intakt, 2022). 
Este registro documenta o encontro de quatro grandes músicos ligados ao jazz avant-garde: o guitarrista suíço Dave Gisler, o baterista suíço Lionel Friedli, o contrabaixista americano Raffaele Bossard, a trompetista americana Jaimie Branch e o veterano saxtenorista americano David Murray. Gisler, Friedli e Bossard formam um trio de guitarra-contrabaixo-bateria já com recorrentes registros, e já haviam se encontrado com a trompetista Jaimie Branch. Agora, neste registro o veterano David Murray também chega com seu potente sax tenor para dar mais densidade a um tipo de free jazz misto de musicalidades americanas e europeias e inúmeras possibilidades. A banda mostra desde temas que evocam certa inspiração no "free jazz clássico" dos anos 60 e 70 -- como, por exemplo, a sinuosa e ligeira faixa "Bastarde On the Run", que abre o set list --, até faixas que trabalham com sons texturais e atmosferas intimistas um tanto "cool" -- como, por exemplo, "See You Out There", com o trompete de Jaimie Branch soando com surdina e os outros músicos aplicando texturas em meio aos sons eletrônicos atmosféricos --, bem como faixas com uma verve roqueira mais punk e psicodélica -- vide a faixa "What Goes Up...". O baterista Lionel Friedli sabe tanto expelir aquele contraponto polirrítmico mais intrincado exigido ao free jazz mais visceral, quanto sabe trabalhar com seu drum kit de pratos, vassourinhas e percussão de forma mais econômica, harmônica, melódica e atmosférica. O guitarrista Dave Gisler também faz da sua guitarra um instrumento de sonoridades amplas: ora soando com um som próprio de psicodelia seca e áspera, ora fazendo sua guitarra soar como um sintetizador capaz de produzir sons texturais que se misturam aos efeitos eletrônicos intimistas, outrora soando próximo ao som vintage da guitarra semiacústica. E a trompetista Jaimie Branch também mostra uma musicalidade ímpar, sendo capaz de desferir tanto improvisos mais rasantes, rápidos e estridentes como aplicar solos mais melódicos, algumas vezes usando o som do trompete com surdida de forma bela, "cool" e "noir". Registro que merece estar entre os grandes álbuns de 2022!

★★★★¹/2 - Stefano Moliner - Apotheosis (Umbilical Records, 2021).
Não é de hoje que o reduto do Grande ABC, nos entornos da cidade de São Paulo, nos oferece um dos ricos e ecléticos cenários de bandas, grupos e grandes músicos. E o contrabaixista brasileiro Stefano Moliner é mais um dos grandes instrumentistas residentes desse rico reduto paulista que dispõe de diversas bandas de rock, reggae, hip hop, jazz, instrumental e afins -- o contrabaixista, aliás, reflete muito bem essa riqueza em suas preferências e em seu som! Seu álbum lançado recentemente, Apotheosis, foi concebido durante a fase mais crítica da pandemia, entre abril de 2020 e início de 2021, e traz uma amálgama interessante de sonoridades. Aproveitando a fase de isolamento, o contrabaixista entrou em seu próprio estúdio e resolveu colocar à prova algumas das suas ideias composicionais que já vinham sendo maturadas desde 2018, quando ele lançou o álbum Miração. As composições são inspiradas em seu fascínio pelas sabedorias e filosofias ligadas ao esoterismo, ocultismo, metafísica, teosofia, thelema, budismo tibetano, mitologia suméria e aos mantras indianos. Para trazer esses seus mantras e sensações sinestésicas para os temas, Moliner trabalha com uma miríade de inspirações, sonoridades, arranjos e harmonias que tendem a transcender a sua música para muito além do senso comum de "música boa", levando-a para o campo da contemplação, para o campo da escuta mais aplicada, e evocando uma verdadeira apoteose que eleva o mais simples e primitivo ao mais divino e inexprimível. Só para se ter uma ideia, o contrabaixista diz que seus temas e arranjos se inspiram em diversos ingredientes relativamente díspares: do jazz-fusion de Weather Report de Wayne Shorter, Return To Forever de Chick Corea e Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin; passando pelas facetas mais hard, progressivas e psicodélicas do rock (Black Sabbath, Yes, etc); e finalizando com aquele toque brasileiro com inspirações advindas dos mestres Hermeto Pascoal e Milton Nascimento. Ademais, se os temas se destacam tanto por seus arranjos e improvisos é porque Stefano Moliner (contrabaixo) está muito bem acompanhado de uma superbanda com Fábio Leal (guitarra), Rodrigo Digão Braz (bateria), Cássio Ferreira (saxofone e flauta) e Jonathan Vargas (teclados).

Nascido em New Orleans e tendo estabelecido raízes em Nova York desde meados da década de 1990, John Hébert se tornou um dos contrabaixistas mais requisitados de sua geração, mantendo-se como sideman em bandas lideradas por Andrew Hill, Paul Bley, Mary Halvorson, Fred Hersch e Uri Caine. Desses nomes citados, Hébert vem mantendo, por exemplo, uma longa relação de trabalho com o grande pianista Fred Hersch. E nos últimos anos também passou a revezar-se entre as atividades de sideman, bandleader e de professor na Western Michigan University. Esta distinta gravação acima é um registro que Hébert resgatou do seu arquivo de gravações ainda não lançadas em álbum: trata-se de uma apresentação ao vivo no Jazz in Bess em Lugano, Suíça em 27 de março de 2013. Na época, Hébert vinha se interessando muito pela música do contrabaixista Charles Mingus, e teve uma ideia de juntar músicos que nunca ou raramente tinha se encontrado para tocar juntos, justamente para dar o seu toque pessoal em torno dos temas do mitológico contrabaixista. Hébert junta então o cornetista Taylor Ho Bynum, o sax-altoísta Tim Berne, o pianista Fred Hersch e o baterista Ches Smith (que se tornou célebre por ser um dos bateristas mais regulares nos combos liderados pela guitarrista Mary Halvorson). O repertório do álbum inclui releituras idiossincráticas e inflexões com base em alguns temas que Charles Mingus lançou na época em que ele liderava o seu célebre quinteto-sexteto com o clarinetista e saxofonista Eric Dolphy, o trompetista Johnny Coles, o pianista Jaki Byard e o baterista Dannie Richmond, bem como da sua fase setentista: vide as faixas "Duke Ellington's Sounds of Love" e "Remember Rockefeller at Attica", presentes no álbum Changes One (Atlantic, 1975). Outras faixas são composições próprias, mas também são inflexionadas com base em temas ligados a Mingus: "Love What" é elaborado com base em "What Love" que Mingus escreveu através de uma inflexão sua para a canção "What Is This Thing Called Love?" de Cole Porter; e a faixa "Frivolocity" é um tema modelado a partir de "Sue's Changes". Ademais, apesar de Mingus ser a inspiração central deste álbum -- lembrando que neste ano de 2022 celebra-se o centenário desse grande contrabaixista e compositor --, os temas próprios e as releituras soam inflexionados, com arranjos que jamais soam como cópias ou covers convencionais.

★★★★ - Six Degrees of Separation (NMC Digital, 2021).
Este é um ótimo registro para se inteirar de como a música erudita britânica tem se comportado nesses últimos tempos de distopia pandêmica. O registro, gravado e distribuído de forma totalmente digital, gira em torno de um projeto de comissões a novos compositores chamado Panufnik Composers Scheme, empreendido pela sempre ativa London Symphony Orchestra, que aqui permite que seus músicos formem ensembles compactos para as gravações das peças. O LSO Panufnik Composers Scheme foi concebido em parceria com a fotógrafa e escritora Lady Panufnik, em memória de seu falecido marido, o compositor Sir Andrzej Panufnik, e é generosamente apoiado pela filantropista Lady Hamlyn e sua fundação The Helen Hamlyn Trust. Esse registro acima, pois, traz peças de seis compositores que foram comissionados pela LSO e a Helen Hamlyn Trust em plena fase de pandemia, quando todas as apresentações e atividades foram obrigatoriamente cessadas. Os seis compositores comissionados são Christian Drew, Stef Conner, Patrick John Jones, Emma-Kate Matthews, Chris McCormack e Alex Paxton. E as peças foram inspiradas nos sentidos de "paralisação", "desaceleração", "separação" e o silencioso "caos" trazidos pela pandemia, bem como outras agonias e sensações que essa fase pandêmica impôs à praticamente todas as pessoas do mundo. A peça "See Slow Blue" do compositor Christian Drew se inspira, por exemplo, na música da banda de indie rock americana Yo La Tengo -- conhecida por ser uma das pioneiras do estilo shoegaze --, para evocar os lentos deslizes das suas guitarras através de glissandos ao violino que são planos de fundo para tons em notas longas e o farfalhar de sinos, marimba e percussão leve, como que evocando a imagem de uma cidade distópica, deserta onde só se ouve o som do vento poluído e do silêncio agonizante. A peça "Remote Overlap" da arquiteta e compositora Emma-Kate Matthews explora ideias de comunicação à distância através de motivos dissonantes que soam esparsos em espaços vastos, como se estivessem procurando um ao outro, uma evocação das sensações de saudade e frustração sentidas por muitos durante a pandemia. Já a peça do compositor, trombonista e improvisador Alex Paxton é uma fantasia caótica inspirada na pintura "The Fairy Feller's Master-Stroke" do artista plástico Richard Dadd, conhecido por suas pinturas de fadas, gnomos, duendes e outras figuras sobrenaturais: a ideia do compositor nessa peça é partir dessa sua fixação pessoal pela obra de Richard Dadd parar cria uma curiosa intersecção entre a fantasia e o caos densamente compactado.

★★★★ - Judd Greenstein & yMusic - Together (New Amsterdam Records, 2022).
Este EP de quatorze minutos, gravado pelo emblemático ensemble yMusic, é o registro de uma peça de Judd Greenstein, diretor do emblemático selo New Amsterdam Records, agitador cultural em Nova Iorque e um dos grandes compositores do nosso tempo -- um dos compositores baseados na estética da música pós minimalista mais "indie", mais apegada ao conceito contemporâneo de "new music". A peça, chamada "Together" também se inspira nos efeitos da pandemia, principalmente no que diz respeito ao vai-e-volta que tanto nos assolou nesse período: ao estar isolado das pessoas, depois estar junto em uma fase de flexibilização, e depois, com uma nova onda de contágios, estar isolado novamente. Esse processo envolve toda as quatro partes da peça. o primeiro movimento "I. Together Not Together" foi composto para que os músicos pudessem executá-lo em vídeo, separadamente, de onde quer que os músicos estivessem, com os seis músicos podendo soar fora da sincronia da peça, se movendo através de espécie de sobreposições em “nuvem” – juntos, mas não precisamente juntos. O segundo e o terceiro movimentos foram escritos para serem executados assim que os músicos do ensemble pudessem estar no mesmo espaço novamente. Á medida que a peça continua, mais e mais essa união toma conta, de forma que a sincronia da peça vai se construindo e crescendo ao longo da sua performance. A peça se conclui, pois, em fevereiro de 2022, quando os músicos do yMusic finalmente podem se reunir para tocar "Together" pela primeira vez em sua completude, concluindo a forma definitiva da peça em toda sua completa sincronia.

★★★ - Johan Lindvall & Trondheim Jazz Orchestra - ...om du reser mycket...(2021).
Pesquisando sobre as mais destacadas orquestras de jazz do território europeu, descobri essa gravação que me soou distintamente idílica -- parece evocar alguns pastiches de forma idílica e imagética, o que me soou particularmente interessante. O registro traz um conjunto de temas elaborados pelo bandleader de jazz e compositor sueco Johan Lindvall em torno do seu interesse pelo cinema e do seu conceito nórdico de imagetismo cinematográfico, o que surte efeito em arranjos que unem elementos de um certo imagetismo retrô, de um certo jazz vintage, e outros elementos do space-age, easy listening, minimalismo nórdico, free music, eletrônica contemporânea e etc. A peça "...om du reser mycket..." é uma espécie de suíte-fantasia em 10 partes e foi comissionada pela Trondheim Jazz Orchestra, da cidade de Trondheim, Noruega. A apresentação ao vivo inclui um filme produzido por Johan Lindvall e pela cinegrafista Jenny Berger Myhre, refletindo esse imagetismo cinematográfico onde o objetivo é o diálogo entre imagens e sons. Residente em Bergen, Noruega, Johan Lindvall é um destacado pianista e compositor sueco, que além de escrever peças orquestrais também atua com piano-trio e outras formações e ensembles. Fica, aí, a dica para quem estiver interessado em mergulhar nas entranhas da música criativa europeia.

★★★★ - Tijn Wybenga & AM.OK - Brainteaser (ZenneZ Records, 2021). 
De Amsterdam, Holanda, descobri este registro do compositor e bandleader Tijn Wybenga. Anos atrás, Wybenga formou uma orquestra de 14 músicos que ele chamou de AM.OK (Amsterdam Modern Orkest). Através desse "ensemble" o compositor desenvolve um conceito contemporâneo de "jazz orchestra" que, além de ter o intuito de impulsionar novos instrumentistas, tem esquemas de composição e improvisação um tanto únicos: as composições, além de serem baseadas nas vivências e preferências musicais dos jovens músicos, também são desenvolvidas através de arranjos e improvisações que são advindas de jogos, labirintos e ideias esquemáticas. Além dos elementos do jazz contemporâneo e do rock, Tijn Wybenga cita que suas principais influências são a música concreta e os aspectos das músicas de grandes modernistas e pós modernistas tais como o compositor erudito Oliver Messiaen, o roqueiro Frank Zappa e o manipulador de eletrônicos Aphex Twin. Este registro acima "BRAINTEASER" é a segunda gravação da AM.OK (Amsterdam Modern Orkest), e traz uma criativa paleta de arranjos que, apesar de soar um tanto consonante, ratifica essa maestria do compositor em unir elementos da música erudita moderna e pós-moderna com elementos do jazz, eletrônica, rock e outros elementos trazidos pelos próprios músicos, de forma intrincada, sim, mas também um tanto agradável de se ouvir. A orquestra é uma incomum formação de "big band" com teclados e sintetizadores no lugar do piano mais a adição criativa de cordas (violino, viola e cello).

★★★¹/2 - Rob Buckland - Short Stories for Solo Saxophone (2021).
O saxofonista britânico Rob Buckland vem construindo uma carreira um tanto singular e elogiada. Rob Buckland também pode ser ouvido em seu Apollo Saxophone Quartet (ensemble do qual é cofundador), no Equinox Trio (com a percussionista Simone Rebello) e vários álbuns com ensembles e orquestras como Michael Nyman Band, London Saxophonic, BBC Philharmonic, além de ser solista convidado de várias orquestras sinfônicas e filarmônicas tais como Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, City of Birmingham Symphony Orchestra, Strasbourg Radio Philharmonic, Banda Sinfonica Portugesa, dentre tantas outras. Desafiando categorizações, o saxofonista se move em diversas direções: em sax-solo, como músico de jazz, concertista erudito, músico de câmara, improvisador e especialista em peças de música erudita contemporânea para saxofone. Neste registro acima, não sentimos falta de nenhum outro instrumento! Queremos ouvir apenas as ideias em torno das peças que Rob Buckland interpreta, e em torno das composições próprias que o músico elaborou. O saxofonista nos traz nove peças para saxofone solo compostas por compositores contemporâneos do Reino Unido, mais cinco peças suas (escritas e improvisadas), em todas as quais vagueia e divagueia através do seu arsenal de saxes soprano, alto, tenor, barítono e sopranino. Algumas peças soam melódicas, outras mais articuladas. O álbum, em seu total, soa um tanto agradável de se ouvir.

★★★★ - PIVOT - Terraform (2021).
Esse é outro dos achados da plataforma do Bandcamp! O PIVOT, residente na cidade de Boone, Carolina do Norte, EUA, é um duo composto por Dakota Corbliss (trompa) e Matthew Castner (saxofone) que é focado em uma ampla gama de ecletismos, trabalhando tanto com peças eruditas, peças escritas e improvisadas -- em duo, e em interação com outros músicos e ensembles --, quanto com transcrições, arranjos e adaptações de hinos e canções mais próximas ao songbook americano e a música nativa do EUA. Interessante também que os dois músicos, para além dessa formação em duo um tanto incomum, também se revezam nos samples e efeitos eletrônicos, trazendo um mix mais do que idiossincrática para junto da trompa e do saxofone. O set list varia da canção mais consonantemente agradável de se ouvir até peças mais dissonantes e ruidosas que exigem uma audição mais apurada. Este álbum acima é o primeiro álbum do duo.
★★★¹/2 - Michael Formanek - Were We Where We Were (Circular File Records, 2022).
O contrabaixista Michael Formanek -- ambientado nas estéticas do free jazz e modern creative -- inaugura neste registro acima o seu Drome Trio com Chet Doxas nos saxofones e clarinetes e Vinnie Sperrazza na bateria. Este seu primeiro lançamento com o trio chama-se Were We Where We Were e foi lançado em Março deste ano de 2022 pela Circular File Records. O álbum nos mostra faixas onde os três músicos evidenciam grande capacidade de aplicar variedades de dinâmicas e fraseios criativos uns se contrapondo aos outros. Em sua página no Bandcamp, Formanek nos conta que a pandemia -- para além da necessidade de se manter ativo, criativo e de se reinventar -- lhe trouxe novas percepções na forma como ele já vinha ouvindo e repondo seu âmago de música, bem como na forma como ele já vinha percebendo a relação de tempo e dinâmicas musicais: ele percebeu que seu gosto estava cada vez mais centrando-se em aplicar inversões e reinvenções em torno de notações gráficas inusuais, mudanças de tempo e compasso dentro de uma mesma narrativa, métricas irregulares e ímpares, noções de aceleração e desaceleração, arritmias, dinâmicas entre diferentes intensidades de sons e velocidades, solos mais fluídos em contrastes com a aleatoriedade, entre outras percepções. Após estudar essas possibilidades, o contrabaixista começou sua fase de colocar essas suas novas ideias em torno do que ele chamou de "palíndromos musicais". Este álbum acima reflete, portanto, uma suíte de três partes em solos longos improvisados que inicia essa sua Série Palindromo. Formanek conta que as composições foram inicialmente escritas em notação gráfica inusual através de desenhos de representações pictóricas em pautas musicais em um iPad com um Apple Pencil, e foram sendo desenvolvidas partir daí tanto nessa escrita mais inusual em pautas como nas interações e prática em grupo -- lembrando que muitos dos encontros com os músicos ocorreram em fase pandêmica ao ar livre, onde as únicas possibilidades para se tocar juntos para um público era nas ruas e viadutos com os transeuntes trafegando à distância.

★★★★ - Paradise Complete - Slice of Life (Palour Tape +, 2022).
A Parlour Tapes+ é uma gravadora de música experimental de Chicago especializada em processos inusuais usando apenas fitas cassete. A ideia é usar as velhas fitas magnéticas para destruir, descontruir, remendar os sons e criar colagens sonoras das mais bizarras e estranhas possíveis, criando uma música experimental intrigante e condizente com o cenário criativo da música contemporânea em Chicago -- e atraindo, também, interessados de outros locais do mundo que queiram encomendar ou consumir esse tipo de música através da plataforma do Bandcamp e do site parlourtapes.biz. Apesar de já ter produzido projetos de músicos e ensembles já de renome -- tais como o Spektral Quartet (duas vezes indicado ao Grammy), o flautista Tim Munro (ex- Eighth Blackbird) e o violinista Austin Wulliman (ex-Spektral Quartet, agora membro do JACK Quartet) --, a Parlour Tapes+ se dedica em projetos de músicos e compositores experimentais pouco conhecidos, emergentes e undergrounds que gostam dessas manipulações eletrônicas com fitas magnéticas, preenchendo um espaço pouco habitável, em uma área de atuação muito pouco explorada mesmo no ramo da música experimental. Neste álbum acima temos as construções, desconstruções e colagens de dois artistas experimentais que souberam se reinventar nos momentos pandêmicos mais solitários: Ben Davis e Nick Meryhew, os quais formam o duo Paradise Complete. Esses criadores experimentais elaboraram o seguinte processo com as fitas cassete: primeiramente a diretriz teria de ser a "confiança mútua", "fazer o que lhes parecessem certo", "levar o tempo que fosse preciso em cada processo" e "não pensar demais, ser espontâneo"; depois o processo criativo teria de ser baseado num esquema onde a pessoa A envia um áudio para a pessoa B de qualquer coisa, a pessoa B pode fazer o que quiser com esse áudio, a pessoa B envia o resultado de volta para a pessoa A, a pessoa A pode fazer o que quiser com esse resultado, a pessoa A envia o resultado desse resultado alterado para a pessoa B, e assim essa troca de resultados se repetiria até que os ambos considerasse a composição finalizada. O resultado é surreal. É um tipo de música para quem gosta de sons experimentais, música concreta e da arte do noisecore.
★★★¹/2 - Rodolfo Caesar - Música Eletroacústica Brasileira (LAMI, 2021).
O LAMI - Laboratório de Acústica Musical e Informática, gerido pela Escola de Comunicações e Artes - ECA-USP, é um projeto vinculado ao Departamento de Música da Universidade de São Paulo voltado para a difusão da produção da música de pesquisas nas áreas de eletroacústica, sonologia e música erudita brasileira. Neste registro acima, temos peças eletroacústica do compositor Rodolfo Caesar, um dos especialistas nesse tipo de música que nasce da música concreta e eletroacústica da segunda geração de modernistas do século 20 representada por compositores como Stockhausen, Nono, Berio, Schaeffer, Pousseur, Xenakis, dentre outros. Rodolfo Caesar nasceu em 1950 no Rio de Janeiro e estudou no Instituto Villa-Lobos com Marlene Fernandes, Bohumil Med e Reginaldo Carvalho. Especializou-se no Groupe de Recherches Musicales/Conservatoire de Paris, com Pierre Schaeffer e Guy Reibel, de quem foi assistente, doutorando-se mais tarde sob a orientação de Denis Smalley, na Inglaterra. Frequentou o mestrado em filosofia no IFCS/UFRJ. Lecionando e palestrando em diversas instituições nacionais e internacionais, atualmente é Rodolfo Caesar professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordena o Laboratório de Música e Tecnologia (LAMUT). Ele dirige ainda o seu site na internet chamado sussurro.musica.ufrj.br, onde pode ser ouvida grande parte de suas obras e inúmeras produções musicais contemporâneas brasileiras. Para quem quiser saber mais, clique na imagem do álbum acima, onde há uma ampla disposição de informações em português sobre o set list deste registro, e sobre a obra desse importante compositor.





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