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Egberto Gismonti em arranjos de Gaia Wilmer, Moacir Santos revisitado por Letieres, e a jóia escondida do Grupo Um


Desconsiderando os atos antidemocráticos, o patético golpismo e a quebradeira dos terroristas aloprados que invadiram as instalações dos Três Poderes em 08/01, a passagem do ainda nebuloso ano de 2022 para o já esperançoso ano de 2023, para nós que amamos a música brasileira ——  a cultura brasileira, a arte brasileira e a nossa democracia como um todo ——, já veio com as boas novas de que fomentos para projetos culturais voltarão a ter espaço. E essa nova fase se torna ainda mais esperançosa quando, já neste início de ano, nos deparamos com os lançamentos espetaculares que vos indico abaixo. Numa época em que teremos o árduo objetivo de sepultar o fascismo, as escabrosas fake news, os velhos preconceitos, os inadmissíveis discursos de ódio e o descarado obscurantismo... para ao mesmo tempo tentar resgatar nossa cívica brasilidade —— ao mesmo tempo de elevá-la ao patamar da contemporaneidade concernente ao século 21 ——, faz-se necessário que as figuras e as artes dos nossos mestres maiores sejam reafirmadas como ricas e inestimáveis heranças culturais desse nosso Brasil caloroso e alegre, tendo as importâncias desses mestres sempre ratificadas como símbolos maiores da nossa identidade-pátria. Egberto Gismonti praticamente revolucionou a nossa música com miscigenações de música erudita moderna, MPB, música indígena, jazz e world music. O maestro Moacir Santos colocou os elementos afro-brasileiros dentro de um novo contexto de composição e arranjo contemporâneo como nenhum outro maestro já havia feito. E o Grupo Um foi um dos poucos combos que conseguiram mostrar que a música instrumental brasileira podia, sim, soar ainda mais expansiva e experimental, que podia adentrar-se ao avant-garde sem que, contudo, fosse necessário renegar nossa brasilidade. Esses, sim!, são exemplos de patriotismo! E apenas as pessoas que valorizam esses emblemas brasileiros advindos da nossa miscigenação de brancos, pretos e índios, bem como valorizam os nossos traços culturais e as artes que marcam essa nossa identidade miscigenada, podem ser consideradas de fato patriotas! Em novembro, aqui mesmo no blog —— comemorando o livramento que tivemos em relação ao desastroso desgoverno que nos acometera nos últimos quatro anos ——, demos início em um post onde elencamos uma sequência de resenhas semanais com o objetivo de chegar a mais ou menos 200 indicações de grandes álbuns de música instrumental brasileira: essa lista pode ser acessada aqui 👉neste link e já estão inclusos as resenhas e indicações de álbuns de Egberto Gismonti, Moacir Santos e Grupo Um. E agora, abaixo, segue novos rebentos envolvendo as artes musicais dessas importantíssimas figuras da nossa história. Apreciem sem moderação!  Clique sobre as imagens para ouvir os álbuns e saber mais!

Gaia Wilmer Large Ensemble - Folia: The Music of Egberto Gismonti (Sunnyside Records, 2023)
A saxofonista, compositora e arranjadora brasileira Gaia Wilmer —— natural de Florianópolis, com passagem pelo Rio de Janeiro, e radicada nos EUA —— acaba de lançar pela gravadora americana Sunnyside Records uma releitura esplêndida de um conjunto de temas e peças de Egberto Gismonti —— uma das nossas lendas vivas, um dos maiores compositores da história da música brasileira! Gaia Wilmer reúne dezenove instrumentistas para formar um ensemble com possibilidades amplas e recursos variados, e engloba no projeto desde ingredientes advindos das orquestras populares brasileiras, passando por elementos de uma big band contemporânea até arranjos mais eruditos e camerísticos, criando um projeto verdadeiramente híbrido. Aliás, arrisco-me a afirmar que esse hibridismo apresentado aqui por Gaia Wilmer por meio das possibilidades de um ensemble expansivo se achega realmente para fazer jus ao miscigenado caleidoscópio de elementos nordestinos, sudestinos, indígenas, elementos do jazz e elementos da world music com o qual Gismonti revolucionou a música em sua passagem por selos como EMI, Odeon, Carmo, Polydor e ECM Records! Na página do Bandcamp da gravadora Sunnyside, a arranjadora nos conta que conheceu o mestre Gismonti já em sua estadia no Rio de Janeiro, quando entrou para a banda Corações Futuristas, um conjunto de sopros que acompanhava o compositor regularmente. Depois, Gaia Wilmer se mudaria para Boston para complementar seus estudos na Berklee College of Music —— com carta de recomendação escrita pelo próprio Gismonti, inclusive —— e se fixaria nos EUA para dar entrada em seu mestrado no New England Conservatory, onde lhe seria dada a oportunidade de integrar-se a uma big band de ensaio formada pelos próprios alunos, por meio da qual começou a criar e a apresentar seus arranjos com base em canções, peças e temas da música brasileira, mas sempre com ênfase na música de Gismonti, seu ídolo maior. As próximas etapas consistiram em expandir a ideia da big band em um ensemble de dezenove integrantes, dar ainda mais voz para suas próprias ideias e trazer essa experiência e aprendizado ao Brasil, algo que foi possível em 2018 quando o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) lhe concedeu uma bolsa para dezesseis apresentações em diferentes palcos do CCBB: o projeto foi gestado para comemorar os 70 anos de Egberto e teve apresentações em Brasília (DF), Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, contando com a participação do próprio Egberto Gismonti e com participações de outros grandes instrumentistas como o violinista Ricardo Herz, o pianista André Mehmari, o violoncelista Jaques Morelenbaum, o violonista Yamandú Costa, o gaitista Gabriel Grossi e o saxofonista Mauro Senise. Mesmo em meio à pandemia o projeto de Gaia Wilmer ganhou corpo e repercussão, e agora neste início de 2023 a gravadora americana Sunnyside Records agora lança o registro da empreitada com este álbum que vos apresento abaixo.

 
Nos trazendo arranjos inventivos, divertidos e festivos, Gaia Wilmer consegue realmente reinventar o repertório gismontiano dentro dessa estendida proposta orquestral de um ensemble contemporâneo disposto de variados timbres, texturas, tessituras, sobreposições e efeitos advindos de uma elaborada mistura das estéticas da big band americana, das orquestras populares brasileiras e dos conjuntos de câmera. Fica muito evidente, aliás, como que a arranjadora consegue obter um equilíbrio coeso com tantos desses adereços, ingredientes, elementos e recursos sem desfigurar as composições do mestre —— as quais, por si só, já são criativas e inflexivas ——, mas ao mesmo tempo conferindo à elas novas versões com inflexões e roupagens inteligentes e hiper contemporâneas que vão muito além da simples releitura interpretativa, conceitualmente falando. Ou seja: mesmo nas passagens onde elementos da world music, ingredientes do folclore e ritmos brasileiros se tornam mais salientes —— como o baião, o frevo, o maracatu, a música indígena e a música flamenca do Oriente Médio, ritmos e adereços muito bem trabalhados por Gismonti em seus temas ——, Gaia Wilmer foge da mera representação ou da repetitiva reprodução desse folclore e expõe suas próprias ideias em inteligentíssimas amostragens mais inflexionadas desses ritmos e adereços, sempre através de harmonias ricas, rítmicas angulares, solos bem fraseados, vocalises à brasileira, diálogos entre os instrumentos, sobreposições contrapontísticas e até brilhantes efeitos cacofônicos, criando uma sequência de eventos e uma variedade de arranjos dinâmicos que realmente prendem a atenção do ouvinte mais aplicado. Entre as peças e os temas clássicos do repertório gismontiano que foram abordados estão "Bianca", "Loro", "Maracatu", "Baião Malandro", "Cego Aderaldo", entre outros. Agora, passados os momentos de lockdown, Gaia Wilmer e seu Large Ensemble seguem apresentando o projeto no Brasil e em várias partes dos EUA, incluindo com apresentações agendadas no Dizzy's Club Coca Cola, famoso e requintado point de Manhattan pertencente ao complexo do Lincoln Center. Vida longa ao projeto! E também desejamos que, num futuro breve, Gaia Wilmer também nos apresente composições próprias para este combo mais expansivo: com certeza, a julgar pelos ricos arranjos apresentados neste seu projeto, teremos outro rebento digno de nota! Vida longa ao Ensemble!

Moacir de Todos os Santos - Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz (Rocinante, 2022)
Moacir Santos é outro dos maestros que compõe a mesa de mestres do oráculo dentro do olimpo da nossa rica herança musical. Numa época onde o samba dos morros e do subúrbio foi incorporado pela juventude de Copacabana e Ipanema, a qual criou a bossa nova através da influência do jazz mais "cool", o pernambucano Moacir Santos residia na cidade de Rio de Janeiro e trabalhava na Rádio Nacional já com uma outra proposta musical pessoal: criar composições que conferissem certa sofisticação e novas estruturas aos elementos afro-brasileiros que ele trazia do nordeste. Essa nova postura fica clara em seu clássico álbum Coisas (Forma, 1965): ainda que imerso pelos arredores do samba e da bossa nova, Moacir encontra sua própria voz composicional e cria novas formas de inflexionar ritmos e adereços afro-nordestinos, frevos, afoxés e canções do Nordeste do Brasil, criando composições com métricas e estruturas incomuns, bem como arranjos orquestrais muito sofisticados. Aqui mesmo 👉 no blog, o leitor mais curioso encontrará uma lista de indicações de álbuns que contam a história musical desse grande maestro: desde seu começo no Rio de Janeiro até sua mudança para os EUA, onde continuou aprimorando sua arte através de uma sequência de lançamentos pela gravadora Blue Note. Nos EUA, Moacir misturou suas estruturas incomuns de samba, frevo, afoxé e canções nordestinas com as harmonias, melodias e estruturas rítmicas advindas das variantes jazzísticas da soul music, ampliando ainda mais sua amálgama e sua miríade de arranjos orquestrais. Nas décadas de 80 e 90, o maestro caiu em um ostracismo que praticamente o afastou do contato com o público e com o fazer musical: apenas amigos e antigos alunos —— como Horace Silver, Baden Powell, Gilberto Gil, Roberto Menescal e outros —— lembravam do grande mestre e circulavam com seu nome no meio artístico. O resgate à obra e à figura de Moacir Santos viria a ocorrer já nos anos 2000, quando os músicos Mario Adnet (violonista, arranjador, produtor) e Zé Nogueira (saxofonista, curador, produtor) criam um projeto de trazer o compositor e sua obra de volta ao Brasil, projeto que culminou nos lançamentos dos álbuns Ouro Negro (Universal, 2001) e Choros & Alegria (Adventure Music, 2005), onde temos uma nova atualização de temas, peças e canções que o maestro compôs entre as décadas de 40 e 90. Os retornos regulares de Moacir ao Brasil e esse resgate à sua obra aqui em nossos círculos musicais foi especialmente importante para que o público e a geração de músicos mais jovens também pudessem conhecer as maravilhas musicais desse grande maestro: depois disso, tivemos o lançamento do Projeto Coisa Fina que lançou o álbum Homenagem Ao Maestro Moacir Santos (Not On Label, 2010) e muitos outros relançamentos dos álbuns de Moacir, shows, tributos e oficinas em sua homenagem foram, ano a ano, ratificando a importância do grande maestro. Agora, pois, temos mais esse grande tributo liderado pelo maestro baiano Letieres Leite, fundador da Orkestra Rumpilezz. Letieres Leite, uma das vítimas da COVID-19, faleceu em 27 de outubro de 2021, mas deixou uma marca indelével na música brasileira com suas orquestrações que ressignificaram a percussão do afoxé e do candomblé, e também fundiram elementos afro-brasileiros com o jazz contemporâneo, mais ou menos seguindo a trilha que Moacir Santos iniciou décadas atrás. Antes de falecer, pois, Letieres deixou engavetado esse grande tributo ao maestro, o qual comento abaixo.




 
De um maestro para outro maestro: de um gênio para o outro! Esse conjunto de releituras que o maestro Letieres Leite arranjou para alguns dos temas e peças principais do maestro Moacir Santos é interessante por ao menos dois motivos que já são, de cara, bem aparentes: primeiro que prioriza o repertório de temas e peças que Moacir Santos começou a mostrar em seu cult álbum Coisas lançado pelo selo Forma em 1965, através do qual o compositor pernambucano iniciou relevantes inovações com rítmicas, arranjos e métricas irregulares nas tratativas do samba, da canção nordestina e dos ritmos afro-brasileiros; e segundo porque essas releituras não soam como cópias ou meras reproduções interpretativas, mas sim como versões inteligentemente incomuns onde as características das percussões do samba e do afoxé baiano —— formada por pandeiros, surdos, timbau, atabaques, agogôs, caxixis e tambores afins (rum, rumpi e o lé) —— são bem inflexionadas e potencializadas ao lado de uma bateria jazzística, uma tuba potente e em meio a sopros bem arranjados. Os sopros, aliás, não soam como se estivessem numa característica big band americana —— apesar de, logicamente, trazer traços de influências da orquestração jazzística. Os sopros, por sua vez, tentam potencializar a junção da beleza melódica dos temas de Moacir com a forte marca dos arranjos de Letieres através de uma concepção timbrística que dá voz mais aos instrumentos de registros graves e médios: com flugelhorns fazendo as vezes dos trompetes em alguns momentos, as flautas dando aquele toque de suavidade no recheio dos arranjos, e com os saxofones (alto e tenor) e os trombones (tenores e baixo) tendo papéis preponderantes nesse conceito de tessituras médio-graves de tons bem sombreados, nos oferecendo uma massa sonora densa que preenche bem o espaço-tempo. Letieres também usa, dentro desta sua concepção, intervenções pontuais de sax barítono e flauta em sol (uma flauta transversal de tessitura média), além de potencializar os grooves dessa sua "cozinha" de bateria e atabaques com as graves marcações da tuba de Fernando Rocha. Com essa concepção de tessitura sonora médio-grave, Letieres dá um foco bem especial para aquele conjunto de composições de métricas irregulares que Moacir chamou de "Coisas": Letieres e sua Orkestra Rumpilezz abordam, então, "Coisa No.1", "Coisa No.2", "Coisa No.4", "Coisa No.7", "Coisa No.8" e "Coisa No.9", sendo que apenas a emblemática canção "Nanã" —— aqui abordada com a ilustre participação de Caetano Veloso —— não faz parte daquele cult álbum que Moacir lançou pela gravadora Forma em 1965. Além de Caetano Veloso, outras participações especiais incluem os solos do recentemente falecido Raul de Souza (trombone e trombone baixo), Joander Cruz (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor) e a já citada presença marcante da tuba de Fernando Rocha. Uma joia de registro que mostra o quanto Letieres Leite estava em um nível avançado de contemporaneidade, ressignificando diversos dos principais elementos da MPB e dos ritmos afro-brasileiros dentro de uma concepção orquestral rica e inovadora!

Grupo Um - Starting Point (Far Out Recordings, 1975/ 2023)
Já o Grupo Um é uma herança indelével do que se convencionou chamar da Vanguarda Paulistana no âmbito da música instrumental underground de São Paulo eclodida nos anos 70. Iniciando a carreira já adolescentes tocando com Hermerto Pascoal —— numa fase mais experimental em que o "Bruxo dos Sons" retornara ao Brasil depois de ter atuado ao lado de Miles Davis, Donald Byrd e Airto Moreira nos EUA ——, os irmãos Lelo Nazário (teclados) e Zé Eduardo Nazário (baterista) convidaram o contrabaixista Zeca Assumpção e formaram logo em seguida um trio que seria a base do Grupo Um, que logo passou a contar com outros instrumentistas —— tais como Felix Wagner, Roberto Sion, Teco Cardoso e Mauro Senise (nos saxes e flautas), Marcio Montarroyos (no trompete), Rodolfo Stroeter (contrabaixo) e Carlinhos Gonçalves (percussões). Ao lado do Hermeto Pascoal & Grupo, esse grupo dos irmãos Nazário representou um avanço inconteste da moderna música instrumental brasileira rumo às fusões dos ritmos brasileiros com as inovações implementadas pelas vanguardas do jazz, da world fusion e da música dodecafônica, apresentando uma miríade de fusões instrumentais orgânicas e eletrônicas, além de arranjos e improvisos intrincados, timbrísticas inovadoras, harmonias cromáticas e atonais, procedimentos composicionais iconoclastas e experimentalismos afins. Estando inativo em pelo menos durante a segunda metade dos anos 80 e durante toda a década de 90, o Grupo Um só voltaria aos interesses de um público ávido a partir dos anos 2000 com a popularização da internet, quando os irmãos Nazário receberam a tutoria do produtor e músico carioca Marcelo Spíndola Bacha para o relançamento da sua trilogia de LPs lançada entre 1979 e 1983 através de um novo selo chamado Editio Princeps. O relançamento dessa trilogia nas décadas de 2000 e 2010 —— que o leitor também os encontra resenhados aqui 👉neste post —— abriu as portas para que a Editio Princeps iniciasse não apenas um revival ao Grupo Um, mas também abriu as portas para outros relançamentos e novos lançamentos de outras bandas obscurecidas do gênero, trazendo essas bandas adeptas do avant-garde e da música instrumental mais progressiva para o interesse de um novo público que surgia com a massificação da internet. Sendo, a partir de então, muito requisitados para voltar com o grupo, os irmãos Nazário chamariam os velhos integrantes para, vez ou outra, realizar aparições especiais: caso do álbum gravado ao vivo no Jazz na Fábrica, Grupo Um, Uma Lenda Ao Vivo, lançado pelo Selo Sesc em 2016.

Agora neste início de 2023, o selo inglês Far Out Recordings —— especializado em lançamentos da música brasileira lá na gringa —— acaba de resgatar das gavetas dos irmãos Nazário as fitas que registraram exatamente o início do Grupo Um. Era o auge da censura levada a cabo pela Ditadura Militar no Brasil e vários dos principais compositores brasileiros estavam exilados em outros países ou estavam fugindo da opressão ditatorial, além do fato de muitos bares e casas de shows terem sido interditados pelo então governo militar. À estes jovens instrumentistas sobraram, então, o cenário underground paulistano onde ainda se podia experimentar. E o álbum acima marca exatamente o início do Grupo Um nos porões e estúdios da Rua Teodoro Sampaio situada na capital de São Paulo, já na época marcada pela presença abundante de estúdios, lojas de instrumentos e pontos de encontros de músicos. As fitas acimas foram gravadas, pois, em dois dias no Estúdio Vice-Versa, mantido pelo engenheiro Renato Viola: o estúdio era um dos melhores de São Paulo e os músicos podiam se comunicar com os engenheiros por meio de câmeras e um monitor, permitindo ao grupo uma imersão total no processo. Eles também fizeram uso da sala hemisférica de azulejos do estúdio, que servia como uma câmara de reverberação acústica, algo que também deu qualidade à gravação. Os temas, todos composições próprias, além de fazerem uma ponte entre o jazz-fusion brasileiro e outras aspirações de vanguarda cultuadas pelos irmãos Nazário —— free jazz, conceitos do avant-garde mais conceitual, rítmicas ímpares e expansivas, eletroacústica, experimentações iconoclastas afins ——, já prenunciam as inovações que seriam empreendidas na trilogia dos álbuns Marcha Sobre a Cidade (Lira Paulistana, 1979), Reflexões Sobre a Crise do Desejo (Som da Gente, 1981) e A Flor de Plástico Incinerada (Lira Paulistana, 1983). Start Point já nos traz, pois, o trio de base do Grupo Um —— com Lelo Nazário (piano, piano preparado, Fender Rhodes, percussão e voz), Zé Eduardo Nazário (bateria, percussão, berimbau e voz) e Zeca Assumpção (contrabaixo e voz) —— trabalhando desde formas livres até formas complexas em métricas ímpares de 11/8, bem como inflexionando ritmos e adereços da brasilidade dentro de uma nova concepção de experimentações, abordagens iconoclastas e sonoridades mais urbanas. Assim como muito do material musical setentista foi censurado e/ou engavetado por falta de selos e gravadoras com interesse e liberdade para empreender edições de álbuns mais experimentais, estas fitas também não foram lançadas na época, ficando quase meio século engavetadas. Felizmente, os irmãos Nazário conseguiram manter as fitas em boas condições de preservação e agora em 2023 a Far Out Recordings nos dá a honra de ouvir a germinação daquele som com o qual o Grupo Um revolucionou o instrumental brasileiro!





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