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 MÚSICO/ BANDA/ ENSEMBLE/ ALBUM DA SEMANA (04) 

 
★★★★¹/2 - Shoko Nagai - Forbidden Flowers (Infrequent Seams, 2025)
A pianista, mestra das teclas, improvisadora e manipuladora de eletrônicos Shoko Nagai é uma imigrante japonesa que vive nos EUA e é uma das figuras mais criativas a transitar pelos circuitos do jazz contemporâneo e da música experimental de Nova York, com presença mais assídua na vívida cena criativa do Brooklyn. E aqui neste álbum, a artista encontra a mistura perfeita entre a composição pré-elaborada e o improviso livre, entre os timbres acústicos e os efeitos eletrônicos, entre a fragmentação e a coesão. Lançado em 14 de novembro de 2025, Forbidden Flowers soa como uma suíte que transcreve em sons justamente essa sua jornada e trajetória artística e existencial como mulher e musicista atuante nessas cenas de Nova York. Para tanto, Nagai funde com absoluta liberdade elementos de jazz contemporâneo, livre improvisação, música erudita, world music e efeitos e fragmentos de eletrônica em peças que são curtas, mas que trazem muita informação por meio de misturas inteligentes. Todo esse aspecto pessoal e existencial também se soma ao fato de o álbum ter sido viabilizado com apoio do NYFA Women’s Fund NYC, programa que apoia instrumentistas mulheres em Nova York. O disco apresenta 11 faixas que equilibram improvisos livres, misturas densas e, ao mesmo tempo, passagens de lirismo imagético, com temas que instauram uma dinâmica na qual as passagens melódicas são interpoladas e transformadas por intervenções, técnicas estendidas, efeitos eletrônicos, contrastes tímbricos e estruturas fragmentadas. Ainda assim, Shoko Nagai consegue manter o caráter narrativo de cada peça, o que faz com que toda a set list, no conjunto, realmente soe como uma suíte existencial. A instrumentação é singular e corrobora essa viagem: Nagai atua com piano acústico, Farfisa e Fender Rhodes, além de utilizar sons de videogame extraídos de um Nintendo DS e efeitos provenientes de outros eletrônicos, criando camadas híbridas que dialogam com o violino multifacetado de Pauline Kim Harris, com o trompete de Pam Fleming —— que evoca, aqui e ali, matizes da klezmer music —— e com a bateria e percussão de Kate Gentile, cuja abordagem alterna sutileza textural e pulsação intensa num viés mais art-rock. Dessa forma, os timbres extraídos dos instrumentos e dos eletrônicos se fundem em uma assinatura sonora não menos que elaborada, da mesma forma que os efeitos eletrônicos se integram aos improvisos, às intervenções e às passagens melódicas numa liga sonora não menos que genial. Ouçam!!!

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Playlist - Christmas Jazz Albums: 2023 não foi mágico, mas já dá pra desejar a todos um Feliz Natal e um Feliz 2024!!!

Passam anos, entram anos, passam gerações, surge outra geração, e o Natal continua sendo a data mais esperada do ano! Há pessoas que até levam a sério a relação religiosa que se estabeleu para tal data, enfeitando suas casas e lares com luzes coloridas e árvores de Natal, presenteando seus familiares e amigos e celebrando o nascimento de Jesus Cristo com dedicação e fervor: quem é católico vai à missa, algumas denominações protestantes empreendem cultos de Natal em suas igrejas... e até algumas denominações de evangélicos, apesar de não enxergarem o Natal com a devoção com a qual os católicos o enxergam, fazem aí suas ceias e reúnem suas famílias em torno de algo mais simbólico. Mas a data do Natal teve, antes de tudo, uma origem pagã —— era uma data usada pelos romanos, mesopotâmicos e outros povos medievais para comemorar o nascimento do Deus Sol, no solstício de inverno (natalis invicti Solis), só sendo substituída pela comemoração do Nascimento de Jesus com o avanço do cristianismo —— e, a partir do século XX, passou a ter um sentido mais comercial do que propriamente religioso. O capitalismo deu logo um jeito de potencializar toda a fantasia e as alegorias para alimentar o vício ao consumismo. Contudo, mesmo a despeito de todas as distorções, o Natal se tornou tradição, se tornou tradicionalmente uma data para celebrar a humanidade, o amor, a amizade e a espiritualidade entre familiares e amigos. O Natal realmente é uma data envolvente e até encantadora, principalmente para as crianças que ficam encantadas com o mito do Papai Noel, com os presentes e os adereços ao entorno! Nos EUA e em muitos países do hemisfério norte, o Natal ganha uma poética totalmente acalentadora e elegante com a neve do inverno e todo o mito que se criou em torno da data. Todos os anos, a indústria do cinema americano cria e lança diversos filmes natalinos, a indústria da música também incentiva seus músicos e cantores a lançar álbuns com releituras de canções, hinos e temas natalinos, e as ruas, lojas e casas são todas enfeitadas com luzes, cores e árvores de Natal. No Brasil, porém, essa identidade visual, essa tradição e essa "indústria do Natal" são agentes muito menos expressivos. No Brasil, a maioria das famílias está interessada mais em fazer uma ceia com churrasco, assar um pernil de porco, brincar de "amigo secreto" e bailar com amigos ao som dos estilos de música popular da moda (samba, sertanejo, variedades de forró, o tal funk-pop que aí está e etc): todo o resto de mitos e ritos religiosos fica em segundo plano, e todo o resto de alegorias natalinas é tratado com muito menos importância.

MATT WILSON & TREE-O
Mas e para nós que não nos encaixamos nessas tradições, nessas fantasias de datas e comemorações populares? E para nós, ouvintes de música instrumental, que não temos ligação afetiva com esses festejos? Como lidamos com tudo isso? Bem... acredito que ninguém deve procurar se encaixar onde seu espírito não caiba... Mas também acredito que a vida é muito mais leve e divertida quando não levamos tudo a "ferro e fogo" e deixamos, muitas vezes, nos envolver momentaneamente pelo espírito de alguma dessas fantasias. E para quem tem filhos, isso é algo até inevitável: as crianças são todas envolvidas pela alegria que essas fantasias geram. E o Natal é isso. Eu, particularmente, não consigo fugir disso: alguém das famílias dos três lados —— do lado do meu pai, da minha mãe ou da família da minha mulher —— tratará logo de me arrastar para algum desses eventos repletos de comidas, zoeiras, música ruim e papos aleatórios. Nesses momentos, temos mesmo de curtir os familiares, parentes e amigos!!! Mas ao voltar para nosso mundo particular, não há nada mais acalentador do que colocar aquele clássico bolachão na vitrola ou curtir nossas playlists com um bom fone de ouvido!!! Foi pensando em seres humanos desse nosso tipo (rsrs...) que aqui lhes trago uma playlist apenas de faixas instrumentais de jazz baseadas na temática do Natal. Afinal de contas, após termos sobrevivido aos três anos pandêmicos e quatro anos de um lamaçal sócio-político-econômico fascista, acho que devemos usar, sim, essa data para elevar nosso humanismo, nossa espiritualidade e prestigiar a vida com mais alegria e leveza!!! Quer dizer, 2023 ainda ficou longe de ter sido o ano mágico, mas já pudemos sentir uma melhora significativa de humor e de condições nos círculos sócio-político-culturais. Especialmente no âmbito cultural, muitos dos nossos músicos, bandas e artistas favoritos retomaram suas carreiras e puderam voltar às estradas, aos shows, exposições e concertos!!! Sigamos firmes!!! Viva a música, viva a arte, viva a vida!!! Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos!!! Que em 2024 estejamos todos juntos aqui novamente!!!
   
Bem... vamos à nossa playlist! O jazz, como gênero-base da cultura americana, sempre teve uma ligação muito forte com o Natal. Não é de hoje que os grandes crooners e cantores de jazz lançam álbuns exclusivamente para essa data. Mas aqui quero lhes trazer um conjunto de álbuns e faixas onde os hinos, standards e canções populares relacionados ao Natal sejam arranjados e tocados em versões instrumentais. Um dos campeões nessa seara é o trompetista e bandleader Wynton Marsalis: o gajo, ostentando espírito educativo e popularidade cultural, já empreendeu uma sequência de álbuns natalinos, e todos os anos ele e sua big band Jazz at Lincoln Center Orchestra promovem programas e concertos de Natal no Lincoln Center, com alguns desses concertos sendo prontamente lançados em álbuns, vide a série "Big Band Holidays". Só para se ter uma ideia, os números de Wynton no Spotify saltam dos seus habituais 500.000 para mais de um milhão de ouvintes nessa época natalina, tamanha é sua popularidade nesse quesito. Mas quando olhamos para a história do jazz, vemos que as gravadoras e os produtores sempre incentivaram seus músicos a lançarem álbuns com esse apelo popular, de forma que essa prática foi se tornando uma tradição cativa na linha do tempo do jazz. Mesmo o grande Duke Ellington, que já deixara de lado o aspecto mais popular e festivo do swing para compor suas aprimoradas e longas suites, não conseguiu escapar dessa tradição. Logicamente que Duke fez isso à sua maneira, com a classe e genialidade que lhe era habitual: no álbum The Nutcracker Suite (Columbia, 1960), o bandleader e seu fiel companheiro Billy Strayhorn fizeram uso do clássico balé "The Nutcracker", composto sob temáticas natalinas em 1892 por Tchaikovsky, para criar arranjos que transformassem essa composição clássica em uma bela fantasia natalina de jazz com as roupagem de uma big band. Depois tivemos aí uma considerável quantidade de músicos de jazz —— principalmente chefes de big band e pianistas —— lançando álbuns com arranjos e improvisos sobre hinos, canções populares e standards relacionados à temática do Natal: Stan Kenton e sua orquestra em 1961, o pianista Duke Pearson em Merry Ole Soul (Blue Note, 1969), o pianista Oscar Peterson em um tento pela Telarc, o organista Jimmy Smith em Christmas '64 pela Verve, o pianista e tecladista Ramsey Lewis em duas ou mais ocasiões, o organista Don Patterson pela Prestige Records... e até músicos advindos do avant-garde —— tais como Carla Bley, John Zorn e Geri Allen ——, ironicamente também lançaram álbuns com temáticas natalinas nessas últimas décadas. Mais recentemente, o baterista Matt Wilson e seu trio sem piano Tree-O também iniciaram uma tratativa não menos que crua e distinta para essa temática, já tendo lançado ao menos dois álbuns natalinos. Fato é que a música, por mais que esteja ligada à conceitualidade do que pode ou não ser considerado ARTE, ela também está ligada à CULTURA, e cultura está ligado a povo: sendo assim, é totalmente compreensível que os improvisadores e os músicos de jazz, por menos afeitos ao mainstream que sejam, achem graça nesse tipo de releitura e tentem se aproximar do seu público por meio da temática do Natal, levando mais descontração e alegria para as pessoas que os seguem. Ouçam abaixo a playlist. Da até pra tocar como trilha de fundo durante a ceia!!!