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Retrospectiva - The Best Albums of 2023: jazz, free improv, classical, experimental, electronic & brazilian music...

MATANA R. | KATE GENTILE | VALENTIN CECCALDI | MAREK POSPIESZALSKI | A. AKINMUSIRE | MARCUS STRICKLAND | HIROMI | TOMAS FUJIWARA | STEVE LEHMAN | DARIUS JONES

Sigamos firmes aqui no Instrumental Verves, mesmo ante aos perrengues —— e após sobrevivermos à COVID-19 e ao fascismo ——, curtindo a música como ARTE no espírito de John Zorn, Kaija Saariaho, genial compositora que nos deixou recentemente, e tantos outros gênios do nosso tempo! Infelizmente, neste ano de 2023, algumas das mais geniais e expressivas figuras da música nos deixaram: Kaija Saariaho, Charles Gayle, Carla Bley, Ahmad Jamal, Ryuichi Sakamoto, Wayne Shorter... —— apenas para citar alguns. Mas foi um ano muito produtivo!!! Vários dos álbuns listados abaixo já foram mencionados ou resenhados aqui. Alguns dos dos que ainda não foram aqui abordados, os abordaremos em posts futuros. Listas dos "melhores" ou "maiores" álbuns de um período ou de um certo range músical sempre trazem algo de subjetivo que nem o crítico e nem o leitor conseguem explicar de forma objetiva: podem estar relacionadas a gostos já bem cristalizados —— e o gosto em si, é individual e pessoal ——; e podem estar relacionadas a distintos aspectos sensoriais e emocionais —— e sensações e emoções também acontecem diferentemente em cada pessoa. Ou seja, diante de uma dessas listas há apenas uma única pergunta a fazer: "Quais méritos e requisitos foram usados para julgar tais discos como "melhores" ou "maiores"? Foi o gosto? Foram as sensações e emoções que tais obras desencadearam no crítico? E é lógico que tudo isso conta em qualquer lista: seríamos ingênuos de não considerarmos a importância do emocional na fruição da ARTE. E é por isso que uma análise musical mais fria e racional vem a calhar para que uma lista de álbuns não venha a ser, total e somente, refém do gosto e da sensação momentânea. Aqui nas nossas listas o mérito e pré requisito é sempre o nível de criatividade atestado sob certas observâncias mais racionais que qualquer ávido ouvinte pode perceber se tiver uma audição atenta. Na verdade, a tentativa é descrever algumas observâncias musicais e colocar o racional acima do emocional. A emoção fica por conta do nosso leitor e ouvinte! 

ANDRÉ MARQUES
E quando falamos em criatividade, aqui no âmbito da abordagem deste site, estamos falando em criatividade em termos de dinâmicas, interação, improvisação, estruturas composicionais, diferentes formas de arranjos, diferentes texturas, diferentes ritmos e diferentes métricas sobre tais rítmos, diferentes combinações e misturas, diferentes formas em como os cenários influenciam, diferentes contextos, etc, etc... É o nível de criatividade que o compositor e saxofonista Steve Lehman nos mostrou com seu álbum Ex Machina: onde ele cria arranjos e improvisos fantásticos fazendo confluir os lampejos de uma big band de jazz com harmonias microtonais e texturas advindas do conceito de música espectral, confluindo arranjos orgânicos com camadas sonoras produzidas por computador. É o nivel de criatividade que o cantor Ed Motta, soulman e multiinstrumentista brasileiro,  mostrou em seu mui bem arranjado último álbum, Behind The Tea Chronicles: onde ele fez usa um apanhado de inspirações advindas de filmes, séries e quadrinhos cult parar criar canções envoltas de arranjos instrumentais bem elaborados, canções que que são capazes de nos teletransportar para novas dimensões da arte e da vida. É o nível de criatividade que músicos brasileiros, tais como André Marques e Hamilton de Holanda, estão atualmente empreendendo ao inflexionar formas, motivos, rítmos e estilos tradicionais do nosso Brasil (como o samba, o choro, o baião, a canção popular e etc) em arranjos inusuais, roupagens urbanas e em métricas ímpares. É o nível de criatividade pósmoderna que o compositor americano William Britelle mostra ao fazer uma ponte entre o cântico coral medieval e as vocalizações pop com texturas de sintetizadores analógicos, vide seu elogiado álbum Rough Magic (New Amsterdam). Enfim..., aqui gostamos de pensar na música como uma extensão sonora das ARTES, no mais alto nível de elaboração e conceitualização dentro dessa confusa pós-modernidade que nos impacta. E vejam que não se trata de simples e complexo, mas apenas de níveis conceituais e criacionais que tragam novos questionanentos, novas abordagens, que tragam sofisticação, renovação, inovação à ARTE, tanto em termos de conceitos maximalistas como em termos de conceitos minimalistas, bem como, ainda, em termos de ecletismos individuais, indefinidos e indefiníveis. Abaixo deixo minhas impressões e um resumo em retrospectiva do que foi este ano de 2023 através desses artistas, seus projetos e álbuns. Como já citado, boa parte destes álbuns já foram resenhados aqui. Para os álbuns que não foram aqui abordados, deixarei o link de sites e blogs que acompanhamos desde sempre, nos quais o leitor terá mais informações. Clique nos álbuns para saber mais e ouvi-los!

STEVE LEHMAN | ORCHESTRE NATIONAL DE JAZZ | DARIUS JONES


The Best Brazilian Instrumental, Jazz & Free Improv Albums of 2023

O ano de 2023 começou com um ótimo lançamento da arranjadora brasileira Gaia Wilmer dando versões orquestrais para as composições de Egberto Gismonti a partir de um large ensemble! Foi um ano produtivo para a música instrumental brasileira, pois a maioria dos músicos retomaram seus shows, lançamentos e voltaram à estrada. Por aqui, Brasil, podemos dizer que o instrumentista do ano foi o bandolinista Hamilton de Holanda: ele lançou um álbum de releitura com canções de Djavan e seu álbum Flying Chicken trouxe seu trio de choro com uma roupagem mais urbana e inflexionando as rítmicas brasileiras sob métricas ímpares, algo realmente imperdível! O pianista e multiinstrumentista André Mehmari também lançou um ótimo álbum sob a poética do choro, mas aplicando roupagens de synths e piano Rhodes ao gênero. Esses registros podem estar sinalizando que os instrumentistas brasileiros mais criativos desde início de século tenderão a dar uma roupagem mais urbana para a música brasileira, fazendo confluir a organicidade da nossa música com a contemporaneidade da eletrônica. Até para quem toca apenas música acústica, um dos desafios atuais tem sido criar uma sonoridade contemporânea que não soe mais apenas "folk", "tradicional", "rural" ou "primitivista", mas que soe com um frescor contemporâneo mais distópico, urbano e digital. Assim como o desafio também tem sido criar sínteses eletrônicas ou misturas de sons acústicos e eletroacústicos, de sons orgânicos e sons eletrônicos, sem soar por demais sintético ou artificialmente supérfluo: o desafio é soar elaborado, orgânico e envolvente, conferindo um frescor mais cibernético e, ao mesmo tempo, orgânico para as novas misturas de sons desse nosso tempo. Essa, aliás, tem sido uma tendência que está a impactar desde o jazz até a música erudita, englobando a música improvisada: vide por exemplo os álbuns da dupla YoshimiOizumikiYoshiduO, da dupla de Joana Queiroz e Bruno Qual e do excelente álbum Alula: Captivity de Caroline Davis, dentre outros. Após essa complicada fase de pandemia, piora da saúde mental, ebulições sociais eclodidas, Black Lives Matter..., as temáticas humanistas também estão em alta. Junte essa organicidade urbana —— essa mistura orgânica de sons acústicos com eletrônica —— com temáticas humanistas e espirituais e nós temos exemplos de como anda a evoluir o jazz em sons e temáticas: vide o ótimo álbum do saxofonista Marcus Strickland, The Universe's Widest Dream, que aborda as temáticas da diáspora afro e da ancestralidade dentro de uma roupagem de spiritual jazz mais "dub" e "urban music".

PETTER ELDH & KOMA SAXO


Ademais, vale muito a pena o ouvinte-leitor, de ouvidos mais aventureiros, garimpar os álbuns dos compositores do avant-jazz que estão a adotar uma verve mais composicional no âmbito do que se convencionou chamar de "modern creative": o post-bop ainda é o núcleo definidor e dominante dentro do mainstream e o free jazz ainda resiste dentro da pura abordagem da improvisação livre sem temas ou composições pré concebidas, mas a riqueza atual do jazz, em termos de inovações, parece realmente ter evoluído para o círculo de músicos jovens e veteranos que tem sido capazes de abordar a forma livre e os elementos inovadores das vanguardas modernas e contemporâneas dentro de novas estruturas de composição e novas formas de interação em bandas e ensembles criados sob novas combinações instrumentais totalmente diferentes dos padrões clássicos de trios, quartetos, quintetos, sextetos e septetos, inclusive considerando a inserção da eletrônica como um sedimento importante. Essa predileção por um avant-jazz mais composicional é um continuum das inovações empreendidas por veteranos como Anthony Braxton, Henry Threadgill, John Zorn e Tim Berne, os quais continuam a impactar o jazz com formações idiossincráticas várias. Dessa forma, músicos mais jovens já bem estabelecidos como Mary Halvorson, Tomas Fujiwara, Steve Lehman, Kris Davis, Tomeka Reid e Matana Roberts acabam por se inspirar nesses e noutros veteranos parar criar formações instrumentais totalmente inusuais e compor peças com misturas e combinações timbrísticas, texturais e estruturais totalmente iconoclastas onde a improvisação já não é mais o meio e o fim em si, mas é apenas mais uma dentre tantas ferramentas, num conjunto de possibilidades que pode incluir de efeitos eletrônicos até a edição de colagens e o uso de samples pré gravados. Lembrando que muitas dessas figuras inovadoras que estão transformando a linguagem do jazz são musicistas mulheres! Um novo nome que emerge nesse "modern creative" é o da baterista Kate Gentile: os últimos álbuns dela são superlativamente criativos e coloridos, realmente surpreendentes em termos composicionais e em termos de inusuais formas de interação. Ademais, um outro fator que será cada vez mais essencial para a universalidade do jazz é a riqueza inter-gêneros que está a crescer na Europa, puxada principalmente pelos cenários de Portugal e dos músicos nórdicos da Escandinávia, com reverberações na França, Inglaterra, Polônia e vários cenários espalhados pelo continente: casos das peças e álbuns geniais gestados pelo francês Valentim Ceccaldi, pelo polonês Marek Pospieszalski, pelo sueco Petter Eldh e pelos portugueses Rodrigo Amado e Luis Lopes. Enfim...,deixo ao ouvinte-leitor a tarefa de perceber os fatores, elementos e características que esses novos registros do nosso tempo propõem.  Após essas pinceladas, seguem abaixo os discos que consideramos mais criativos nos âmbitos da música instrumental brasileira, da free improv e do jazz contemporâneo!!! Clique nos álbuns para saber mais e ouvi-los!!!


Ed Motta - Behind The Tea Chronicles (Dwitza/ MPS Records/ Virgin)


Cecile McLorin Salvant - Mélusine (Nonesuch)

 

Darcy James Argue's Secret Society - Dynamic Maximum Tension (Nonesuch)



Gaia Wilmer Large Ensemble - Folia: The Music of Egberto Gismonti (Sunnyside Records)



André Mehmari - Choros & Pianos (Estúdio Monteverdi)



Hamilton de Holanda Trio - Flying Chicken (Brasilianos/ Sony Music)



André Marques Trio - Tempo de Criança (Tratore)



Bruno Migotto Trio - Adapt (Tratore)



Leo Ferrarini & Guilherme Fanti - O Som da Canção



Joana Queiroz & Bruno Qual - Bru._.Jo (YB Music)



Felipe Senna & Câmeranóva - Câmera Brasileira (Tratore)



KAZE & Ikue Mori - Crustal Movement (Circum/ Libra Records)



Marcus Strickland - The Universe's Widest Dream (Strick Muzik)



YoshimiOizumikiYoshiduO - To The Forest To Live A Truer Life (Thrill Jockey)



Cory Smythe - Smoke Gets In Your Eyes (Pyroclastic Records)

 

Nicole Mitchell & Alexander Hawkins - At Earth School (Astral Spirits)

 

Kate Gentile - Find Letter X (Pi Recordings)



Valentin Ceccaldi - Bonbon Flamme - (Clean Feed)



Marek Pospieszalsk - No Other End of the World Will There Be (Based on the works of Polish Female Composers of the 20th Century) - (Clean Feed)


Johnathan Blake - Passage (Blue Note)



Steve Lehman & Orchestre National de Jazz - Ex Machina (Pi Recordings)



Koma Saxo - Post Koma (We Jazz Records)



Tomas Fujiwara & Triple Double - March On (Firehouse 12)



Marc Ducret - Palm Sweat: Marc Ducret Plays the Music of Tim Berne (Screwgun)



Rodrigo Amado The Bridge - Beyond The Margins (Trost)



Caroline Davis - Alula: Captivity (Ropeadope)



Peter Evans' Being & Becoming - Ars Memoria



Avishai Cohen - Continuo (Radaz Recordz)



Ben Wendel - All One (Edition Records)



Christian McBride's New Jawn - Prime (Mack Avenue)



Henry Threadgill - The Other One (Pi Recordings)



Naïssam Jalal – Healing Rituals (Les Couleurs Du Son)



Myra Melfords's Fire and Water Quartet - Hear The Light Singing (RogueArt)



Ambrose Akinmusire - Owl Song (Origami Harvest/ Nonesuch)



Lesley Mok - The Living Collection (American Dreams Records)



Sana Nagano & Leonor Falcón - Peach and Tomato (577 Records)



Hiromi & SonicWonder - Sonicwonderland (Telarc)



Ned Rothenberg - Crossings Four (Clean Feed)



Jason Moran - From the Dancehall to the Battlefield (Yes Records)



Darius Jones - fLuXkit Vancouver (its suite but sacred) (We Jazz Records/Northern Spy)



Kris Davis - Diatom Ribbons Live At The Village Vanguard (Pyroclastic Records)



Fire! Orchestra - Echoes (Rune Grammofon)



John Zorn - Parrhesiastes (Tzadik)



Matana Roberts - Coin Coin Chapter Five: In the Garden (Constellation)



James Brandon Lewis & Red Lily Quintet - For Mahalia, With Love (TAO Forms)



jammie branch - Fly or Die Fly or Die Fly or Die (World War) - (International Anthem)



JSPHYNX - Reflex - (Sekito)



Angel Bat Dawid - Requiem for Jazz - (International Anthem)



The Best Experimental & Electronic music Albums of 2023

No âmbito da eletrônica e da música experimental, uma das figuras que mais deram o que falar em 2023 foi o rapper norte-americano Andre 3000, que ficou famoso a partir da segunda metade dos anos de 1990 com o grupo Outkast e agora, repentinamente e depois de 17 anos, ele deixa de lado os vocais e surge com um curioso álbum instrumental: o álbum, com produção de Carlos Niño (seminal músico do cenário jazzístico de Los Angeles), é o primeiro da sua carreira solo e chama-se New Blue Sun (Epic/ Sony), sendo ambientado em sons etéreos da eletrônica ambient, flautas, sopros sintetizados com winds controller, percussões texturais e outros elementos contemplativos, com as faixas tendo títulos extensos e durações longas e etéreas. Outro trabalho notável onde a eletrônica ganha contornos instrumentais de interessante estranheza é o último álbum do produtor brasileiro Claudio Katz Szynkier, que é natural de São Paulo e assina seus projetos como "Babe, Terror": o registro chama-se Teghnojoyg e foi amplamente elogiado pela crítica especializada (Bandcamp, Pitchfork, The Guardian, etc) pela confluência conflitante de sons instrumentais distorcidos em meio a sons etéreos sintetizados, samples pré gravados, vocais flutuantes e uma pá de sons exóticos conflitantes que o músico cria a partir de synths da Moog, Akai MPC e alguns recursos os quais ele descreve como "moonmelter station, cosmosampler, leaking synths, exotic body and its meat". Já o baterista de jazz e improvisação livre Gerald Cleaver continuou a dar vazão na sua sequência de criativas peças eletrônicas a partir do álbum "22/ 23", dessa vez captando algumas sensações da realidade recente e inspirando-se nas lembranças que essa fase de retomada pós pandemia lhe trouxe. Ademais outros dois projetos que chamaram a atenção da crítica especializada foram os registros minimalistas de Alva Noto, que lançou um ótimo conjunto de peças ambientadas em glitchs e micro sounds, e Ryuichi Sakamoto, que faleceu em 2023 e nos deixou seu mui bem polido álbum "12", que é praticamente uma extensão da poética minimalista que ele vinha desenvolvendo desde a década de 90 —— trajetória que abordamos aqui 👉neste post. Ainda que neste ano eu tenha pesquisado pouco sobre novos projetos experimentais e eletrônicos, estes conceituais álbuns abaixo já foram o suficiente para preencher, por ora, minha cota dos sons experimentais que me tiraram da rotina de ouvir apenas jazz e música erudita contemporânea. O álbum LXXXVIII (Ninja Tune) do produtor ingles Actress também foi um dos registros notáveis neste 2023.

 

Alva Noto - HYbr:ID II (Noton Records)



Gerald Cleaver - 22 / 23 - (577 Records/ Positive Elevation)


Actress - LXXXVIII (Ninja Tune)


Andre 3000 - New Blue Sun - (Epic)



Ryuichi Sakamoto - 12 - (Milan/ Commmons)



 

Babe, Terror - Teghnojoyg - (Independent)



The Best Contemporary Classical Albums of 2023

2023 poderá ser considerado um ano marcante no ramo da dita música clássica —— e mais uma vez, refuto: em pleno século 21, o uso deste rótulo "clássico" não é apenas tão ultrapassado como também é um atestado do cinismo mercadológico com o qual se vende esse produto passadista, pedante e ainda vitoriano repleto de glamour excludente e repetitivas releituras do "mais do mesmo". Prefiro o rótulo "música erudita". E não é que defendo que se deva acabar com a prática das tantas releituras das peças de compositores históricos como, por exemplo, Bach, Mozart, Beethoven e Brahms —— esses compositores são pilares da música ocidental e a celebração da ARTE em torno deles deve, logicamente, continuar como insubstituível repertório de base! Mas o que nós ansiamos é que os compositores contemporâneos e as criações contemporâneas sejam pautados no hoje, na nossa contemporaneidade, e que possam ter mais espaços e serem mais valorizados: e que esses espaços sejam compartilhados por músicos e musicistas de todos os gêneros e raças: inclusive tendo mulheres e negros como prestigiados concertistas, compositores, regentes e diretores artísticos. E o mercado da música erudita neste ano de 2023 parece ter dado sinais —— mínimos, mas já animadores —— de que finalmente as gravadoras, os proprietários, os produtores, os mecenas e patrocinadores e outros agentes do topo da pirâmide estão dispostos a considerar, ainda que a contragosto, a necessidade de se ter abordagens e curadorias mais variadas, mais inclusivas e mais concernentes com o nosso tempo presente. Nos EUA, a estética e poética dominante ainda tem girado em torno do pós-minimalismo de tons neoclássicos, mas desde os anos 2000 há novos compositores —— da chamada "indie classical music" —— que começaram a dar vazão numa música erudita mais eclética, independente e amplamente inclusiva:  inclusiva não apenas em termos de gêneros humanos —— com muitos desses compositores sendo mulheres, negros e artistas com opções, orientações e estilos de vida distantes do pedante status quo que se aveluda no reino "clássico" ——, mas também com a inserção ampla de elementos da pop music, da eletrônica (dance, house, techno, IDM e etc), da world music, do jazz e do rock alternativo como ingredientes em suas peças: casos das obras do compositor russo-inglês Gabriel Prokofiev, do norte-americano William Britelle e da escocesa Anna Meredith. Esse "nicho" de compositores eruditos independentes pode ter começando com os compositores minimalistas que começaram a carreira de forma experimental com a filosofia do "faça você mesmo" DIY ("Do It Yourself") em lofts e palcos alternativos —— casos de Steve Reich, Philip Glass, Julius Eastman e etc ——, foi regado no final dos anos 80 com compositores empreendedores do pós-minimalismo da Downtown Scene tais como Julia Wolfe, David Lang e Michael Gordon —— que criararam a organização Bang On a Can e a gravadora Cantaloup Music —— e tornou-se crescente até nossos dias com esses jovens compositores que, nos anos 2000 e 2010, buscaram um novo público, começaram a se apresentar em novos palcos que incluíram até nightclubes de jazz e música eletrônica, estabeleceram novas conexões e fundaram suas próprias gravadoras, tais como a Nonclassical e a New Amsterdam Records. Mas, como citado, já há sinais de que as grandes gravadoras não querem ficar fadadas apenas no passadismo classicista dos teatros e das vitorianas salas de concertos e estão investindo, também, nesse nicho mais "indie" e inclusivo que hoje atrai um público mais jovem e engajado. 

JESSIE MONTGOMERY



Dois dos fatos mercadológicos que sinalizam que as grandes gravadoras estão a considerar a nova realidade são a atenção que seus selos e subsidiárias estão dando para esses compositores independentes e a recente rodada de indicações ao GRAMMY 2024, que já em novembro de 2023 listou os álbuns e candidatos às várias categorias de prêmios de música erudita com várias das indicações sendo justamente relacionadas a esses compositores, alguns deles mulheres e negros: a performance do violoncelista Seth Parker Woods em seu projeto Difficult Grace, lançado em álbum pela Cedille, foi indicada ao prêmio; o projeto Stillpoint (New Amsterdam Records) do pianista afro-americano Awadagin Pratt resultou na indicação da compositora afro-americana Jessie Montgomery, cotada para ganhar o prêmio na categoria de Melhor Composição Contemporânea por sua peça "Rounds"; a afamada e tradicional Deutsche Grammophon lançou o inclusivo projeto da Sphinx Virtuosi onde o mote é a valorização de obras de compositores negros e latino-americanos tais como Michael Abels, Valerie Coleman, Ricardo Herz, Jessie Montgomery e Carlos Simons; e a BIS Records lançou o requintado conjunto de peças sinfônicas da compositora norte americana Missy Mazzoli num bem produzido álbum que recebeu indicações em duas categorias: "Melhor Compêndio" e "Melhor Composição Contemporânea". Ademais, na Europa também tivemos sinais de que estamos vivendo tempos de animadoras fases criativas: o pianista e tecladista australiano, radicado na Inglaterra, Zubin Kanga continua a desenvolver sua concepção de teclas futurísticas; o compositor inglês Thomas Àdes lançou um majestoso álbum com a Filarmônica de Los Angeles e Gustavo Dudamel que registra seu poema sinfônico ambientado na Divina Comédia, de Dante Alighieri; a compositora finlandesa Lotta Wennäkoski lançou um grande álbum com algumas das suas últimas peças pela gravadora Ondine; e o compositor holandês Michel van der Aa lançou sua hiper criativa ópera Upload (2023), que aborda a temática o impacto na cibernética-futurista na vida humana. No Brasil, o grande destaque foi André Mehmari: o compositor, entre turnês e concertos, começou o ano estreando uma peça sua no Carnegie Hall, estreou sua ópera O Machete e terminou o ano lançando o álbum Dois Violões em Concerto, onde o Duo Siqueira Lima dá vida para a divertida peça Portais Brasileiros No.4 (para dois violões e pequena orquestra). Ademais, o ouvinte interessado em música erudita ficará muito satisfeito em ouvir os novos lançamentos do percussionista Andy Akiho e da baterista Kate Gentile, que foi comissionada pelo International Contemporary Ensemble na gravação da sua peça b i o m e i.i (Obliquity Records. ICE que agora é gerido pelo conceituado improvisador, trombonista de jazz e compositor erudito George Lewis, sendo essa mais uma prova de como os ensembles estão se variabilizando, deixando de lado aquela coisa de fechar-se apenas num círculo classicista restrito e limitado. Seguem abaixo os álbuns que acreditamos ser imperdíveis! Ouçam!


Andy Akiho & Omaha Symphony - Sculptures (Aki Rhythm)



Michel van der Aa - Upload (2023) ("digital opera",Disquiet/ Boosey & Hawkes)



Jörgen van Rijen & Alma String Quartet - Mirrored in Time (BIS)



Thomas Adès: 'Dante'- Dudamel & Los Angeles Philharmonic (Nonesuch)



Kate Gentile & International Contemporary Ensemble - b i o m e i.i (Obliquity Records)



André Mehmari & Radamés Gnatalli - Duo Siqueira Lima & Orquestra GRU Sinfônica - Dois Violões em Concerto (Tratore)



Anna Meredith & Ligeti Quartet - Nuc - String Quartets (Mercury KX)



William Britelle & Roomful of Teeth - Rough Magic (New Amsterdam)



Missy Mazzoli - Peter Herresthal/ Arctic Philharmonic & Tim Weiss/ Bergen Philharmonic & James Gaffigan - Dark with Excessive Bright (BIS)



Sphinx Virtuosi - Michael Abels, Valerie Coleman, Ricardo Herz, Jessie Montgomery, Carlos Simons - Songs for Our Times (Deutsche Grammophon)



Awadagin Pratt - Roomful of Teeth/ A Far Cry (Ensemble)/ Vários compositores - Stillpoint (New Amsterdam Records)



Seth Parker Woods - Difficult Grace (Cedille Records)



Kaija Saariaho - Helsinki Chamber Choir & Nils Schweckendiek - Choral Music -  Reconnaissance (BIS)



Zubin Kanga - Machine Dreams (Nonclassical)



Zubin Kanga - Cyborg Pianist - (NMC Records)



Lotta Wennäkoski: Sigla | Flounce | Sedecim - Sivan Magen & Finish Radio Symphony with Nicholas Collon (Ondine)






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